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É Desporto

É Desporto

Uma final é sempre mais do que noventa minutos

Gonçalo Guedes marcou o único golo

Final. Que está no fim, que está na última parte. Que põe termo. Relativo ao fim. Que indica a finalidade. Última parte. Desfecho. Última e decisiva competição de um campeonato ou concurso.

 

A final da Liga das Nações, entre Portugal e Holanda, foi muito mais do que um jogo disputado durante noventa minutos. Acabasse como acabasse, seria sempre um conjunto de memórias que se consolidariam com uma imagem inesquecível, fosse o golo de Gonçalo Guedes, o levantar do troféu por Ronaldo ou outro qualquer evento que não aconteceu mas poderia ter acontecido.

 

Mas a final foi mais do que isso. Talvez pela ausência da carga dramática habitual das competições com maior tradição, portugueses, holandeses (e até ingleses) fizeram daquele domingo de junho um dia de festa. Com nervosismo quanto baste e uma dimensão de descontração que invadiu o Porto e deixou indícios de festa um pouco por todo o lado.

 

Ao contrário de quinta-feira, o tempo ajudou. E os holandeses, vestidos a rigor, invadiram um parque no Bonfim e fizeram a festa. Faltavam mais de cinco horas para o apito inicial mas havia laranja um pouco por todo o lado. À medida que nos aproximámos, começámos a ouvir a música e percebemos que o quartel-general era ali.

Holandeses estiveram horas a beber e dançar

Havia muita cerveja com saída e uma barraquinha de cachorros-quentes americanos às moscas. E, claro, um DJ que ia selecionando a música com o rigor de um centauro: passava de algo semelhante a trance psicadélico para aquilo que parecia ser uma mistura de Toy com Tony Carreira. Em holandês, claro está.

 

A Avenida dos Aliados, não muito longe dali, era outro epicentro do adepto. Com uma segurança relativamente apertada – atenta aos metais, tampas de garrafas e conteúdos de malas -, permitia, com dois ecrãs gigantes, assistir ao Inglaterra-Suíça. A ideia original passava pela separação de adeptos mas as jogadas de perigo e sobretudo os penáltis ajudaram a perceber que estava tudo muito dividido. O burburinho aumentou quando Pickford encarnou Ricardo e não parou de crescer até ao jogo de Portugal.

 

Por esta altura, porém, já a migração para o Dragão tinha começado. As portas abriram três horas antes mas só a partir das 18h00 começou a haver mais movimento, sobretudo porque foi também depois dessa hora que chegou o autocarro da seleção. Já dentro do estádio, um grupo de adeptos assistiu de punho em riste, com o telemóvel na mão, mas, apesar de haver duas ou três centenas de pessoas à espera, acabou por ser um desfecho um bocado morno, sobretudo para quem ainda recorda o que se passou em 2004.

Ambiente no Dragão duas horas antes

A expetativa era, ainda assim, grande. Um rapaz sem idade para se lembrar sequer do Euro-2012 estava impaciente e perguntou ao pai quando é que o jogo começava. «Ainda falta. O autocarro acabou de chegar, ainda têm de se equipar, aquecer e só depois é que vai ser», disse-lhe, num tom condescendente sem ponta de malícia.

 

Com o encher das bancadas, perceberam-se várias tendências. Havia mais portugueses do que holandeses, naturalmente, mas as manifestações de patriotismo não se ficavam por aí. Nós, por exemplo, estávamos ao lado de alemães. Também havia húngaros, brasileiros, asiáticos e, um pouco por todo o lado, ingleses.

 

Este fator extra no estádio fez a festa como ninguém. Por estarem longe, e não serem assim tantos, os holandeses ouviam-se pouco. Os portugueses, à boa maneira lusitana, tinham tendências de cometa. Mas os ingleses, fiéis ao seu espírito natural, não perdiam uma oportunidade. Cantaram o hino. Recorreram ao seu repertório de cânticos e encheram o estádio de bandeiras inglesas.

Cerimónia de abertura

No relvado, depois de uma cerimónia de abertura simples e curta – semelhante à das meias-finais mas com o bónus de haver todas as bandeiras dos países da UEFA – a final «começou». No topo norte, a «claque oficial» portuguesa dava o mote, com cânticos que incluíam uma homenagem a Ronaldo, mas só se alargava realmente ao estádio inteiro quando apareciam espontaneamente as três sílabas mais recorrentes neste tipo de jogos: Por-tu-gal! E assim, repetidamente, durante alguns segundos, o ambiente tornava-se verdadeiramente intimidante.

 

Se entre nós havia uma portuguesa a torcer pela Holanda – culpa da geração de Davids -, imediatamente atrás de nós surgiu um holandês com uma camisola de Portugal que parecia estar determinado em reequilibrar as contas. Só não manteve esse equilíbrio quando, num gesto tosco, deixou fugir uma cerveja e regou o alemão e a «portuguesa laranja» da fila da frente.

 

O golo de Gonçalo Guedes demorou a surgir. Portugal esteve sempre melhor, potenciando um clima de confiança nas bancadas que não tinha existido nem na Luz-2004 nem em Paris-2016, e confirmou essa superioridade. Quando o fez, o karma também apareceu. Enquanto o jogo caminhava para o fim, os ingleses, incapazes de esquecer o que tinham sofrido dos holandeses três dias antes, retribuíram a célebre música dos Monty Python: «Always look on the Bright side of life!». Ali, naquele momento, era a vingança possível, servida fria, de quem tinha perdido uma vez mais a oportunidade de conquistar um troféu sénior de seleções.

Hino português foi um dos momentos altos da tarde/noite

O título sorriu a Portugal. A festa foi contida – na relva e nas bancadas – e deu para pouco mais do que algumas fotografias, gritos de celebração e regresso à vida mundana. Não desvalorizando a importância da Liga das Nações, é natural que não tenha sido vivida da mesma forma que o Euro-2016. Por outro lado, a União Soviética em 1960 e o Uruguai em 1930 também não devem ter sentido o mesmo que se sente hoje em dia.

 

Sim, podemos achar que a Liga das Nações não tem grande impacto atualmente. Mas não podemos desconsiderar a probabilidade de no futuro este título ser contabilizado com rigor e com o mérito devidos. Mesmo sem ter sido verdadeiramente memorável, a primeira ninguém esquece. E essa foi de Portugal.