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É Desporto

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Theresa Bennett. A rapariga que levou a FA para os tribunais

Theresa Bennett

Não era uma rapariga igual às outras. Ou melhor, era, simplesmente tinha um gosto diferente e não tinha vergonha nenhuma disso. Numa era em que o futebol feminino ainda era um tabu (1978), Theresa Bennett convenceu os responsáveis do Muskham United, da Newark Football League (nos arredores de Nottingham), que tinha mais do que qualidade para fazer parte da equipa de sub-12.

 

Theresa era uma rapariga a jogar entre rapazes. Tinha 12 anos e vivia livre de preconceitos. Os pais apoiavam a decisão, os treinadores reconheciam a qualidade e os colegas de equipa até agradeciam a mais-valia que era para a equipa. Mas a Federação Inglesa de Futebol (FA) não gostou da mistura e decidiu intervir.

 

Não era novidade em Inglaterra a federação sentir-se tão ameaçada pela “invasão” de mulheres que se via forçada a partir para decisões radicais. Aqui, tal como aconteceu com todo o futebol feminino em 1921, Theresa Bennett foi banida. Não havia espaço para uma rapariga numa equipa de rapazes.

 

A justificação era risível. «Basearam-se em crenças biológicas ultrapassadas de que as mulheres podem ter outras características mais desenvolvidas do que os homens, mas que não têm a força e a resistência necessária para correr, rematar, fazer tackles e afins», recordou Sue López, uma pioneira do futebol feminino em Inglaterra.

 

Os pais não aceitaram a justificação e levaram o caso para tribunal. Queixaram-se que Theresa não tinha tido acesso a igualdade de oportunidades e que jogar numa equipa masculina de sub-12 era a única opção, permitida e avaliada com sucesso por todos os responsáveis em primeira instância.

 

O juiz concordou depois de uma batalha intensa no tribunal. A Federação Inglesa de Futebol foi condenada a pagar 200 libras por ter privado Theresa de continuar a jogar e 50 libras por danos psicológicos. Para Theresa, era apenas o início do regresso à sua vida perfeita: «Se me deixarem, agora vou jogar pelos sub-14».

 

A Federação Inglesa de Futebol tinha outra ideia. «Esta é uma decisão histórica que vai ter repercussões consideráveis», afirmou o presidente, Harold Thompson, abrindo caminho para a hipótese de um recurso. «Não faço ideia se haverá uma enchente de raparigas a quererem jogar com rapazes, não sou vidente. Vamos ter de esperar para ver», acrescentou.

 

O recurso chegou e os tribunais reverteram a decisão. De nada valeu o argumento de que não havia diferenças físicas evidentes nesta fase da puberdade e o estudo de que neste escalão etário muitas raparigas são mais altas e fortes do que os rapazes. Tal como em 1921, a FA tinha vencido a batalha contra as mulheres.

 

Mas a guerra estava a começar a ser perdida. O impacto mediático do caso foi tão grande que a pressão para que a Federação Inglesa tomasse medidas tornou-se insuportável. Para ficar bem na fotografia, recomendou às escolas que começassem a abrir espaço para equipas femininas e não apenas para equipas masculinas. Era a decisão natural depois de a cobertura do caso ter provocado o interesse no futebol em centenas de raparigas.

 

Theresa Bennett foi apenas o ponto de partida. Não estava interessada na fama, apenas em jogar futebol. Era disso que gostava e que pensava a toda a hora. Adepta do Manchester United, apostou na Argentina para vencer o Mundial-1978. A razão sempre estivera do seu lado… em tudo.