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É Desporto

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Teresa Rivero. A Dama de Ferro do Rayo Vallecano

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Em 1994 tornou-se a primeira mulher a assumir a presidência de um clube espanhol da primeira divisão. Nomeada pelo polémico marido, José María Ruiz-Mateos, não sabia nada de futebol mas acabou por estar ligada aos melhores momentos do clube. Abandonou definitivamente a presidência em 2011, já depois de ter feito da equipa feminina uma das melhores de Espanha.  

 

Presidente para combater a tristeza

 

«O meu marido queria vender o Rayo Vallecano porque não dava dinheiro mas viu-me triste e decidiu manter o clube.» Era 1994 e Teresa Rivero sabia muito pouco sobre futebol. José María Ruiz-Mateos era o proprietário da equipa desde 1991, numa manobra para tentar recuperar a imagem perdida nos anos 80, quando foi preso por fraude e evasão fiscal.

 

José María começou por assumir a presidência mas a 12 de janeiro de 1994 decidiu passar o testemunho à mulher, com quem tinha casado há 36 anos. O futebol não fazia parte do imaginário de Teresa Rivero. Nascida numa família onde o dinheiro nunca tinha sido um problema, tinha crescido com uma educação religiosa muito forte e onde o papel da mulher estava definido: a partir do casamento, tinha a responsabilidade de cuidar da casa, garantindo que nada faltava ao marido e aos filhos.

 

E foi fiel a este princípio que viveu durante praticamente duas décadas, período durante o qual teve 13 filhos. «Queria aprender a tocar guitarra e nunca consegui ter três aulas seguidas. Engravidava e, em menos de nada, a barriga já não me deixava chegar às cordas», contou numa entrevista em 2001. É exatamente isso que recorda, quando questionada sobre os partos de cada um dos filhos: «Lembro-me de mim… sempre gorda, entre 1958 e 1977».

 

Em 1994, os filhos já eram adultos. Havia menos responsabilidades em casa e mais espaço para se assumir como pioneira no futebol espanhol. Tornou-se a primeira mulher de sempre a assumir a presidência de um clube da primeira divisão.

 

O futebol parecia ser um cenário distante, para o qual não estava preparada nem mentalizada. «O pedido do meu marido para ocupar o seu lugar como presidente era impossível de recusar», contou, confessando que só tinha ido a um jogo de futebol na vida inteira. «Sei que foi em Múrcia mas nem me lembro de que equipas estavam a jogar.»

 

A adaptação não foi fácil e ganhou a fama de chegar sempre aos jogos com algum atraso. Era quase como uma estratégia para combater o sono. «No início era tão aborrecido que adormecia sempre que via um jogo. Agora é ao contrário. Sinto-me perdida em fins de semana sem jogos», explicou numa entrevista em 2001.

 

O clube iô-iô à procura de consolidação

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O início da presidência de Teresa Rivero foi delicado. Menos de um mês depois, o treinador Fernando Zambrano foi substituído por David Vidal, mas o sucessor não foi capaz de evitar a despromoção.

 

Nos anos que se seguiram, o clube subiu (1995), desceu (1997) e voltou a subir (1999), para finalmente se começar a consolidar. Teresa Rivero podia dizer que não perdia a fome quando a equipa não vencia, mas o trabalho que fez com o marido na recuperação do Rayo Vallecano foi essencial para ganhar sustentabilidade.

 

«Quando chegámos, o Rayo não gerava um único cêntimo de receita. Tivemos de gastar muito dinheiro porque o clube estava à beira da ruína», disse. Progressivamente, o mundo do futebol começou a acordar para a existência de uma mulher como presidente de um clube da primeira divisão.

 

O impacto também se fez sentir nas reuniões de clubes da liga. «Numa das primeiras vezes, houve um presidente que disse que a minha presença ia servir, no mínimo, para que a linguagem utilizada nas reuniões fosse mais apropriada», recordou.

 

O crescimento da equipa fez-se com a contratação de Juande Ramos. Recrutado em 1998, levou a equipa à primeira divisão e foi essencial para um período de lua-de-mel entre direção, equipa técnica, jogadores e adeptos. Por isso mesmo, a 30 de agosto de 1999, o estádio mudou oficialmente de nome para Teresa Rivero, com 74% dos sócios a votar favoravelmente à medida.

 

A inédita Europa à conta de uma equipa disciplinada

 

Juande Ramos assumiu-se como o líder que a equipa necessitava. Treinador entre julho de 1998 e junho de 2001, bateu um recorde durante a vigência da família Mateos-Rivero. Até aí, nenhum treinador tinha conseguido sequer iniciar duas épocas ao comando.

 

Esta tranquilidade fez com que Teresa Rivero se pudesse concentrar noutras áreas da presidência. E, ao contrário de outros, nunca ia ao balneário depois dos jogos, mesmo que a equipa perdesse: «Não me interessa. Prefiro que tomem um bom banho e que quando saiam dos balneários estejam limpinhos e asseados. E aí dou-lhes dois beijos».

 

Em 1999/2000, o Rayo Vallecano terminou na nona posição e assegurou uma inédita qualificação – até hoje continua a ser a única vez – para as competições europeias. Porquê? Por ter vencido o sorteio de uma vaga em que entravam as equipas mais disciplinadas de cada campeonato.

 

Tudo parecia correr bem e a presidente estava cada vez mais apaixonada pelo futebol, distante do período em que teve de perguntar para que lado o Rayo Vallecano estava a atacar de forma a saber que golos deveria festejar.

 

A campanha europeia foi histórica, dentro dos parâmetros expectáveis. Logo na ronda de qualificação, o Rayo somou duas goleadas frente aos andorrenhos do Constelació Esportiva (10-0 e 6-0). Depois, caíram aos seus pés o Molde, o Viborg, o Lokomotiv Moscovo e o Bordéus. Até chegar o Alavés nos quartos de final. Aí, não houve nada a fazer, com a derrota por três golos na primeira mão a revelar-se impossível de recuperar em casa (2-1).

 

O regresso da instabilidade

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O período áureo tinha chegado ao fim e a descida de divisão voltou a aparecer no horizonte do Rayo Vallecano em 2002/03. Os adeptos tinham ficado mal habituados e, agora que sabiam o bom que podia ser – clube chegou a liderar o campeonato espanhol com Juande Ramos –, estavam revoltados com o mau que era.

 

Por isso, a 23 de outubro de 2003, Teresa Rivero decidiu abandonar o cargo. «Vai deixar a presidência. É uma decisão irrevogável. Esta gente não valoriza o que fez pelo Rayo Vallecano», anunciou o filho Álvaro Ruiz-Mateos em conferência de imprensa.

 

A irrevogabilidade durou 57 dias. Mais a frio, Teresa Rivero entendeu que não se podia deixar levar pelos insultos de «uma parte muito pequena dos adeptos». «Foi muito doloroso o que aconteceu naquela dia. Foi muito mau para mim passar por aquilo com os meus netos ao lado, a ouvir tantos insultos. Continuo a pensar que não os mereço», afirmou.

 

Com o futebol masculino a recuperar o estatuto de iô-iô do futebol profissional, Teresa Rivero encontrou outra forma de se assumir como pioneira e investiu forte numa equipa de futebol feminino. Em poucos anos, os resultados apareceram: depois do vice-campeonato em 2008, época em que venceram a Taça da Rainha, o clube foi tricampeão nacional.

 

Em 2010/11, a caminhada europeia voltou a surpreender e chegou aos… quartos de final da Liga dos Campeões feminina, acabando eliminado pelo Arsenal no prolongamento, após uma vitória por 2-0 em casa.

 

O sucesso mereceu uma homenagem da Comunidade de Madrid. «Hoje há mais de 2000 atletas federadas e mais 11600 alunas a disputar os campeonatos escolares. Isto é muito graças a vocês», disse a presidente Esperanza Aguirre.

 

O início do fim

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O sucesso do futebol feminino foi incapaz de ajudar a controlar as receitas do clube e a manter os adeptos satisfeitos. Até porque a equipa masculina continuava a desiludir. A beijoqueira presidente tinha deixado de fora o lado maternalista e assumido uma postura mais agressiva, acusando os jogadores de não quererem subir de divisão após mais uma derrota pesada.

 

Mas havia razões mais fortes. A crise financeira do grupo Ruiz-Mateos alargou-se ao Rayo Vallecano e o futuro parecia cada vez mais hipotecado. Os adeptos apagaram o nome Teresa Rivero da bancada e o marido decidiu vender finalmente as ações que detinha, no primeiro semestre de 2011.

 

«Dei o coração ao Rayo Vallecano e parte da minha vida. Estive sempre com uma ambição enorme a viajar com a equipa. Durante este tempo só falhei dez jogos», destacou uma magoada Teresa Rivero, garantindo que iria sentir sempre um enorme carinho pelo clube porque «18 anos não se esquecem facilmente».

 

A família Ruiz-Mateos caminhou para uma espiral negativa, com novas acusações de fraude fiscal, penas de prisão e penhora de bens, e Teresa Rivero é hoje uma viúva com poucas posses e em conflito aberto com alguns dos 13 filhos.

 

Independentemente disso, será sempre uma pioneira: a primeira mulher a assumir a presidência de um clube da primeira divisão. Depois dela, surgiram também Ana Urkijo (Athletic Bilbao-2006), Maria de la Peña (Real Sociedad-2007) e Lay Hoon (Valencia-2014). Atualmente, há dois clubes presididos por mulheres: Leganés com Victoria Pavón e Eibar com Amaia Gorostiza.