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É Desporto

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Ted Stepien. Quando a incompetência força uma nova regra

Ted Stepien

Foi dono dos Cleveland Cavaliers entre 1980 e 1983 e será para sempre associado a uma das equipas mais mal geridas na história do desporto profissional. A obsessão por ganhar – e fazê-lo rapidamente – fez com que oferecesse continuadamente escolhas do draft até hipotecar o futuro da equipa. A NBA interveio e criou uma regra para impedir a troca de escolhas de primeira ronda em anos consecutivos. Para Cleveland era demasiado tarde.

 

É difícil encontrar algo positivo durante a vigência de Ted Stepien ao comando dos Cleveland Cavaliers. Com passado de combatente na II Guerra Mundial, construiu fortuna e tornou-se proprietário principal da equipa a 12 de abril de 1980. Durante as três temporadas seguintes, conseguiu um cocktail explosivo de más decisões e declarações polémicas que afetaram para sempre a sua imagem.

 

Nenhuma equipa está imune a longos períodos negativos. Há quem o faça por estratégia – como os Philadelphia 76ers mais recentemente – e quem seja obrigado a isso, por mero azar ou incompetência. No caso de Ted Stepien e dos Cleveland Cavaliers no início da década de 80, o problema foi mesmo a total inépcia para o cargo.

 

Ted Stepien queria ganhar. E queria fazê-lo a todo o custo. Mas não percebia muito do assunto e as escolhas que fez para cargos com responsabilidade também não ajudaram. É certo que a equipa atravessava um momento muito negativo – era conhecida por Cleveland Cadavers – e os adeptos não compareciam no pavilhão, mas nada justificaria o carrossel de decisões negligentes que a direção tomou.

 

Incapaz de atribuir valor às escolhas na primeira ronda, foi usando opções futuras em trocas após trocas. Logo em 1980, a NBA percebeu o rumo que a gestão estava a seguir e decidiu revogar os direitos de trocas dos Cavaliers. Pouco tempo depois voltou atrás mas decidiu exercer o direito de aprovação de qualquer negócio feito pela equipa de Cleveland.

 

Correu mal. Muito mal. «Cometemos erros e assumo toda a responsabilidade», disse Stepien, numa altura em que as escolhas próprias da primeira ronda até 1986 já tinham mudado de mãos e o registo de vitórias era muito tímido (66 triunfos e 180 derrotas durante a sua era).

Proprietário não tinha visão de futuro

A estratégia de oferecer futuras escolhas de primeira ronda já vinha dos anos 70 mas com a nova gerência ganhou um tendência acrescida. Olhando para os drafts entre 1982 e 1986, percebe-se que Cleveland poderia ter tido a primeira escolha em 1982 (Lakers aproveitaram para recrutar James Worthy), a terceira em 1983, a quarta em 1984 (num draft com Hakeem Olajuwon, Michael Jordan, Charles Barkley e John Stockton), a oitava em 1985 (Dallas escolheu Detlef Schrempf) e a sétima em 1986.

 

A NBA, a imprensa e os adeptos não pouparam Ted Stepien. Despediu cinco treinadores em três temporadas, mostrou ter um raciocínio racista na formação de um plantel e na venda de bilhetes, despediu um dos funcionários mais acarinhados por adeptos (comentador de rádio) e ponderou a possibilidade de trocar o nome da equipa, mudá-la de cidade ou simplesmente dividir os jogos por várias cidades, como atualmente está a ser estudado pela equipa de basebol de Tampa Bay.

 

Em dezembro de 1982, uma peça do New York Times não poupava nas críticas. «Os Cavaliers mudaram de treinador seis vezes nos últimos três anos. Passaram de 37 vitórias há três anos para 28, para 15. Tornaram-se, talvez, o pior clube e a organização mais mal gerida do basquetebol profissional, e apenas porque parecem ter-se esforçado mesmo para bater no fundo.»

 

«Tenho sido muito criticado e, para ser sincero, magoa», lamentou Ted Stepien. «Não gosto de ouvir e ler coisas sobre mim que podem magoar a minha família. Ser dono de uma equipa de basquetebol não compensa se as minhas filhas forem gozadas na escola como têm sido», acrescentou.

 

Por isso, em 1983, decidiu pôr um ponto final na ligação aos Cavaliers e vendeu a equipa por 20 milhões de dólares, recuperando os prejuízos acumulados durante as três temporadas. Para garantir um recomeço digno aos novos proprietários, a liga decidiu atribuir escolhas bónus nas primeiras rondas dos draft entre 1983 e 1986 de forma a compensar as más decisões de Stepien.

 

Hoje, 36 anos depois, Cleveland ainda não esqueceu Stepien. E a regra mantém-se, para proteger equipas de gestões negligentes. Curiosamente, no draft desta madrugada, os Cavaliers voltaram a fazer história ao pagar uma verba recorde (cinco milhões de dólares) por uma escolha na primeira ronda (30.ª). Além disso, enviaram também quatro escolhas… da segunda ronda para os Detroit Pistons.