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É Desporto

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Sevilha. Quem não mata, Messi

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O Sánchez Pizjuán foi um vulcão sempre a entrar em erupção até a equipa da casa chegar ao 2-0 e ameaçar a imbatibilidade do Barcelona no campeonato. Depois, entrou Messi. A tragédia temia-se sempre que tocava na bola e os corações de 37588 espetadores entravam em suspenso até a jogada ficar decidida. Em 60 segundos, tudo mudou e aquela noite que podia ter proporcionado uma goleada histórica não foi mais do que um empate a dois golos. Fechado por Messi, claro. 

 

Orgulho escondido na cidade

 

O nosso sentido de orientação, que julgamos ser bom, desaparece por completo quando a cidade de Sevilha entra em equação. Foi assim em 2010, quando vimos o Sp. Braga de Lima eliminar a equipa de Luís Fabiano e Kanouté, e voltou a ser assim em 2018. O Sánchez Pizjuán não se topa à distância como outros estádios, surpreendendo pela sua imponência. É grande, claro, mas está rebaixado e perfeitamente encaixado entre conjuntos de prédios e um centro comercial.

 

Ao contrário do Wanda Metropolitano, é um estádio amigável. Consegue-se deixar o carro e aproveitar as horas que faltam para o início do jogo para visitar a cidade que, em fim-de-semana de Páscoa, está repleta de gente e com procissões no meio da rua.

 

As imediações do estádio não dão margem para dúvidas. Vai haver jogo e não será um qualquer. A duas horas do arranque, já a porta que dá para o centro comercial está cheia, com adeptos à espera que cheguem as vedetas. Sente-se a expectativa no ar: afinal não é todos os dias que se recebe o Barcelona de Messi.

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Uma notícia de boca em boca

 

Os bilhetes mais baratos custavam 100 euros e foram comprados com duas semanas de antecedência, com o aviso de que só seriam enviados para o e-mail designado dois ou três dias antes da data do encontro.

 

Quando entramos no estádio, confirmam se aquela é a porta e pedem o documento de identificação para confirmar se somos mesmo a pessoa do nome do bilhete. É uma prática comum em finais europeias mas, sinceramente, foi a primeira vez que passámos por isto num jogo de nível nacional.

 

Depois de encontrarmos o lugar, esperamos. Nem toda a gente tem paciência para isso, mas a experiência de ver um estádio a vestir-se de gente progressivamente é única. Permite-nos estar mais atentos a pormenores e tomar o pulso ao ambiente desde o início. 

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Como o facto de os versos do refrão do hino centenário estarem espalhados pela cintura superior do estádio, não vá alguém precisar de auxiliares de memória. Como o pai que chega com duas crianças com menos de dez anos e se senta mesmo ao nosso lado. Ou, principalmente, como a notícia de que Messi não joga de início é espalhada a cada novo adepto que chega ao nosso setor.

 

Formalidades pré-jogo

 

As equipas são anunciadas durante um espetáculo de luzes que nos faz recuar ao tempo em que sabíamos que se os holofotes de um campo fossem abaixo, seriam precisos pelo menos 30 minutos até voltar a tentar ligar. Ali não. Depois de uma fase mais morna em que o onze do Barcelona é revelado, com vaias para Luis Suárez, muitos aplausos para Rakitic e um reconhecimento mais tímido para Iniesta, surge o momento alto.

 

Os holofotes parecem assinalar marcha de urgência. Um a um, os jogadores são anunciados e tão depressa se vê o relvado como está tudo escuro ou tudo a meia-luz. É neste processo impróprio para epiléticos que as equipas se aproximam do túnel e se ouvem os primeiros acordes do hino.

 

O momento arrepia. O refrão é cantado em pleno pulmões e o pai ao nosso lado parece especialmente orgulhoso por ter as duas crianças eufóricas e a cantar com ele. Percebe-se a paixão sevillista a passar de geração em geração, bem como o orgulho da tradição bem vivo, como se o próprio pai tivesse passado por esta cerimónia de iniciação há duas ou três décadas.

 

Rrrrrrrrrrrrrrola a bola 

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O ambiente do Sánchez Pizjuán está facilmente entre os melhores de Espanha. Quando o adversário é o Barcelona, é natural que surja um ou dois patamares mais elevado. Dentro de campo, os jogadores correspondem.

 

O Barcelona parece amorfo e o ataque da equipa de Montella vai fazendo das suas, pressionando a saída de bola dos catalães logo na linha da… pequena área. Há energia para dar e vender – por enquanto – mas a devoção também tem consequências negativas.

 

Num desses momentos, Rico tem uma saída precipitada e a bola fica à mercê, a meia altura, do pé esquerdo de Iniesta. Pode ter sido um momento simples, um que não apareceu nos resumos do encontro, mas teve um enorme significado. Ali, fora da área, pressionado para resolver rápido e aproveitar o erro do adversário, Iniesta foi humano.

 

Pareceu engasgar. A altura da bola dificultava. Estar à mercê do pé esquerdo também não era o cenário perfeito. E Iniesta, como qualquer humano, falhou. Por pouco, é verdade, mas falhou. Foi como um momento de aceitação de que não é extraterrestre, que é como todos nós. Ali, à frente dos nossos olhos, o brilhante jogador espanhol tinha sido humano. Esta aceitação da mortalidade de um génio pareceu ainda mais importante do que quando tem um pormenor de encantar.

 

É ali que percebemos que Iniesta faz tudo o que faz… sendo humano.

 

Um clube que não esquece os seus

 

O minuto 16 fez-nos recuar mais do que uma década. Assim que o relógio atingiu os 16:00 nos dois ecrãs gigantes, a imagem da ficha de jogo foi substituída pela lendária imagem de Antonio Puerta a festejar um golo.

 

O Sevilha não esquece – nem pode esquecer – o jogador que morreu em 2007 durante um jogo com o Getafe. Passe o que se passe em campo, a claque dá o mote e grita-se por Puerta, como se estivesse a chamar um familiar para se juntar ao espetáculo num Sevilha-Barcelona.

 

Durou apenas um minuto, e tudo pareceu voltar ao normal depois, mas durante aqueles 60 segundos foi impossível, uma vez mais, ignorar a mortalidade dos jogadores de futebol e recordar o drama de 2007, bem como a glória que ajudou a escrever na história do Sevilha, com a conquista da Taça UEFA em anos consecutivos.

 

Dentro de campo, o Sevilha pareceu cada vez mais dominador e começou a desperdiçar oportunidades atrás de oportunidades, deixando o estádio em desespero. Se nunca é bom falhar, tudo fica pior quando do outro lado está o Barcelona, uma equipa que nem precisa muito de Messi para ser fatal com metade de uma ocasião de golo.

 

O desespero desapareceu aos 36 minutos, quando Franco Vázquez bateu Ter Stegen. O vulcão entrou em erupção, os milhares de pessoas entraram em êxtase e ao nosso lado, uma das crianças, com os seus oito ou nove anos, olhou-nos nos olhos e nem precisou de pedir licença para nos dar a mão e ter uma ajuda que lhe permitisse subir para cima da cadeira e festejar à medida.

 

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Estas descargas de adrenalina despertam um sentimento diferente. Por mais estranha que a pessoa ao lado nos possa ser, sente-se a partilha de uma alegria comum e ali, naqueles segundos, nada mais parece importar. É também por isso que o nosso lugar parece ser perfeito. Não apenas pela história familiar que imaginamos mas também por estar no início de uma curva e termos toda a bancada central à mercê, onde as caras das pessoas são a única coisa que conseguimos ver. Ali, num efeito dominó que podia fazer parte de uma simulação de jogo para consola, a partilhar uma experiência de paixão por um clube que tantas alegrias tem dado nos últimos anos.

 

Da goleada ao empate

 

A entrega do Sevilha ao jogo foi entusiasmante. Quando Muriel anotou o 2-0 aos 50 minutos, já a equipa tinha desperdiçado oportunidades claras para aumentar o resultado. O Barcelona parecia perdido e a defesa estava, como se costuma dizer, às aranhas.

 

Mas os andaluzes foram incapazes de matar o jogo. Mesmo já com Messi em campo, desde os 58 minutos, o Sevilha foi somando ocasiões flagrantes, por vezes apenas com a oposição do guarda-redes, e falhou uma atrás de outra. Sim, estava 2-0 e havia cada vez manos tempo para jogar mas… havia Messi.

 

A experiência sonora da exibição de Messi valeu o bilhete. É estranho mas verdade… e impressionante. Messi mete medo. É um predador que deambula pelo relvado à espera de atacar a presa no momento certo e, quando o faz, não deixa nada por fazer.

 

Quando recebe a bola, o estádio salta um batimento cardíaco e fica em suspenso. Quando Messi, à sua imagem, sprinta com bola na direção da defesa, entra em taquicardia e não se ouve um som, como se mais de 30 mil pessoas sustivessem a respiração ao mesmo tempo, num misto de pacto e superstição. Até ao lance estar resolvido, ninguém se mexe.

 

Messi foi desarmado três ou quatro vezes nos primeiros dez minutos e em todas elas o estádio pareceu festejar um golo. Impressionante. Num jogo com um ritmo alucinante, com uma percentagem de tempo útil que nos pareceu muito acima do que estamos habituados, mesmo para um jogo que não do campeonato português, as intervenções de Messi brincaram com os corações de milhares de pessoas.

 

Acabaram despedaçados. Num espaço de 60 segundos, aos 88’ e aos 89’, o Barcelona marcou por duas vezes e salvou a imbatibilidade no campeonato. O empate chegou por Messi, claro, numa jogada em que o argentino fez uma diagonal ao nosso encontro, o que nos permitiu assimilar, naquilo que pareceu ser câmara lenta, todos os pormenores do lance.

 

O cruzamento rasteiro atrasado, os segundos que Messi levou a correr na direção da bola, o aviso do argentino ao colega da equipa, que também procurava a bola, para não se atravessar no seu caminho, como quem diz «deixa que eu resolvo»,… e o remate imparável para o fundo das redes.

 

Ali, o Sánchez Pizjuán mudou de frequência. O som que se ouviu, das centenas de adeptos do Barcelona – muitos deles no setor ao nosso lado – parecia vir do fundo do mar. Messi, como em tantas outras ocasiões na sua carreira, tinha afogado os sonhos dos adversários. E fizera-o da forma mais dramática possível.