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É Desporto

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River vs. Boca. Um superclássico para a história

Pontapé de saída

Não é por acaso que lhe chamam superclássico. River Plate e Boca Juniors formam uma das rivalidades mais intensas do futebol mundial e qualquer jogo entre as duas equipas, seja em Buenos Aires, em Madrid ou em Doha, tem uma importância especial que não conseguimos ignorar.

 

Quando a Conmebol tomou a singular decisão de trazer o jogo da segunda mão da final da Libertadores para Madrid, não foi preciso hesitar muito antes de sentir que nunca mais voltaria a haver uma oportunidade tão forte para ver um jogo destes. Recapitulemos: era uma final da Libertadores, a primeira mão tinha ficado empatada e por isso ninguém partia em vantagem, e jogava-se em Madrid… às portas de Lisboa (tendo em conta o contexto mundial). Era impossível não ir à procura do bilhete dourado que nos faria sentir no meio de uma fábrica de chocolate.

 

A capital espanhola estava a abarrotar. Logo na madrugada da véspera, ainda em Lisboa, o aeroporto tinha pelo menos duas dezenas de adeptos vestidos a rigor – mais do Boca do que do River – que seguiriam no mesmo voo. Ao chegar a Espanha, tornou-se ainda mais difícil ignorar que algo especial estava para acontecer.

 

Sim, era um dos últimos fins-de-semana antes do Natal, as maiores praças têm mercados específicos e há sempre muita gente na rua, mas era impossível olhar num raio de dez metros e não ver pelo menos uma pessoa de branco e vermelho e outra de azul e amarelo. Já de noite, ainda no sábado, no meio de ruas pedonais pejadas de gente, deixámo-nos levar pelos cânticos ao longe e fomos desaguar à Puerta del Sol.

Uma árvore do River

Era o epicentro da festa do River Plate. Tornou-se impossível andar um metro sem pisar ou ser pisado por alguém e uma das árvores de Natal iluminadas tinha cada vez mais tarjas de apoio ao clube. Depois, no meio, algumas dezenas de adeptos com guardas-chuva brancos e vermelhos abertos erguidos no ar iam fazendo a festa com cânticos à medida da ocasião.

 

A calma antes da tempestade

 

O dia do jogo transpareceu uma estranha calma. Sentia-se o pulsar calmo de uma cidade que se tinha engalanado – com muito receio à mistura – para receber, discutivelmente, o jogo com o ambiente mais louco da sua história.

 

A quatro horas do início do jogo, fomos finalmente para a zona do estádio. A sul, havia a fan zone do Boca Juniors, a norte era a do River. As infografias que foram sendo publicadas durante a semana, destacando o dispositivo de segurança, foram ligeiramente enganadoras. Não restem dúvidas: havia uma enorme presença policial, carros blindados, polícias a cavalo e muitos mais apetrechos, mas o suposto controlo de três passos antes de sequer nos aproximarmos do estádio nunca existiu.

 

O ambiente era, ainda assim, calmo. Muita gente na rua (fechada ao trânsito) e, no meio, até havia corajosos com as cores do Boca Juniors não muito longe da fan zone do River Plate. Verdade seja dita, o mundo caiu na tentação de colocar os adeptos argentinos todos no mesmo saco, quando a verdade está longe de ser essa.

 

Sim, são apaixonados. Sim, conseguem catalogar no rival todos os males no mundo, mas conseguem separar as águas de forma civilizada. Além do mais, e como já nos tínhamos apercebido ao vivo durante o Mundial de Basquetebol em Espanha, não há público para fazer a festa como o argentino.

 

As portas do estádio iam abrir três horas antes do apito inicial e os últimos preparativos dos mais apressados eram feitos no meio da estrada. Havia uma estação improvisada para as pinturas faciais (basicamente, uma almofada no chão onde os interessados se punham de joelhos para facilitar a coisa) e adeptos que iam exibindo tarjas de apelo à paz, realçando que independentemente do vencedor, era o desporto que interessava.

Estação de pinturas faciais

O lado da fan zone do Boca Juniors estava mais agitado. Quando um grupo de adeptos decidiu acender uma tocha, a polícia a cavalo interveio e preferiu prevenir antes que fosse obrigada a remediar. Naturalmente, os cânticos dos adeptos viraram antipoliciais durante alguns momentos, até que a situação acalmou novamente.

Um momento mais tenso

A hora chegou… mais ou menos

 

Faltavam trinta minutos para as 17h30 – a hora de abertura das portas – quando decidi mostrar o bilhete e passar o primeiro real posto de controlo. Num espaço de cinco metros, havia oportunidade para provar que estávamos de facto na posse de uma entrada válida e para sermos sujeitos a uma primeira revista.

 

Depois, já com o exterior do Santiago Bernabéu à vista, surgiram as primeiras verdadeiras filas. Porta a porta, havia pelo menos umas vinte pessoas que queriam ser as primeiras a entrar. Para a torre D, no entanto, a que dava acesso ao último anel, a fila tinha já centenas de pessoas que aguardavam pela hora certa para seguir em frente. Aí, o controlo era mais rígido. Havia muito mais polícia, acompanhada de cães prontos a intervir em caso de necessidade.

 

A abertura das portas metálicas provocou um exercício reflexo na mente de muitos adeptos. Houve aplausos e cânticos imediatos. Foi como se aquela campainha de Pavlov significasse que a verdadeira ementa do dia estava mesmo ali. A ficção tinha-se transformado em realidade e não haveria forma de escapar. A enorme euforia de entrar deu lugar… à espera.

 

Nunca é demais reforçar: faltavam mais de duas horas e meia para o jogo começar e as bancadas já estavam mais vestidas do que muitos jogos do campeonato português. Os primeiros despiques entre adeptos surgiram e, no meio de nós, cinco a dez adeptos do River Plate iam distribuindo balões brancos e vermelhos. «Tu, já tens um? Toma! Tira um! Distribui aí por essa zona. Há mais ali ao fundo! Já lá vou dar!»

Os balões cumpriram a sua missão

Não foram horas de espera, foram horas de trabalho. Nos ecrãs em cada topo, iam-se repetindo vídeos sobre a grandeza sul-americana. Em destaque, estava a ideia de que tinha sido a América do Sul a apresentar o “10” ao mundo. Entre os vários clips, havia um famoso túnel de Riquelme num jogo contra o River Plate. Não houve uma única vez em que o vídeo passasse que do outro lado, dos adeptos do Boca Juniors, não se tivesse ouvido um olé ruidoso.

 

Flash forward para o apito inicial

 

Não há muitas palavras que descrevam o que se sente quando as duas equipas entram em campo. É um momento ansiado desde que se compra o bilhete, que nos rouba minutos de sono a cada noite que passa, mas nada que possamos pensar nos prepara para aquele segundo em que, pela primeira vez, se vê as cores de River Plate e Boca Juniors no relvado.

 

É estranho. É a aceitação de que não estávamos preparados para aquilo, que era uma imagem que só conhecíamos pela televisão e que até há duas semanas nunca tínhamos pensado seriamente que um dia poderíamos estar num superclássico.

 

As camisolas teriam jogado sozinhas. O jogo poderia ter sido o pior possível (não foi, apesar de ter parecido em alguns momentos) mas não deixaria de ser “o” River-Boca. Na final da Libertadores. Em Madrid. É um jogo que estará sempre associado a vários asteriscos na história e nós, com muita sorte à mistura, estivemos lá.

 

O jogo, atrás da baliza, viu-se de pé. Não havia outra forma. Aliás, uma hora antes do apito inicial já era impossível estar sentado. Havia cada vez mais gente, cada vez mais momentos de cânticos, balões a voar pelo ar e troca de galhardetes com os adeptos do Boca Juniors. Mesmo atrás, seis filas acima mas já noutro setor, estava o tambor e os metais que traziam a componente auditiva a esta assombrosa experiência.

 

O cérebro fez tilt. Estamos habituados a ouvir aquele tipo de sons e ritmos, mas pela televisão… de madrugada, cheios de sono. Agora, ao final da tarde, com a frescura e a adrenalina no máximo, estavam ali, em cima de nós, a marcar o ritmo para todo e qualquer cântico da bancada.

O coração da claque

O jogo começou “coxo”. Havia muito nervosismo e faltava inspiração. Os criativos demoraram a impor-se e os momentos de tensão vinham da garra que impunham em campo. Os corações batiam a mil, as vozes enrouqueciam a cada minuto mas, a meio da primeira parte, tudo ficou em suspenso. Foi percetível que ali, naquele momento, num livre frontal para o Boca Juniors, milhares de corações saltaram um batimento até perceberem que a bola não tinha beijado a rede.

 

O carrossel de emoções não era adequado para crianças… nem para idosos. Nem para doentes cardíacos. E, ainda assim, ninguém faltou. Quando o River partia para contra-ataque com superioridade numérica, os corpos baixavam-se e alimentavam uma onda espontânea à espera de um golo que provocasse uma erupção de festejo. Nunca chegou. Pelo contrário, exatamente na resposta imediata a um desses lances, o desacerto defensivo do River abriu caminho para um contra-ataque mortífero que acabou com o golo de Benedetto.

 

Uma cambalhota de euforia

 

O golo foi o momento mais frio numa noite de Madrid que prometia ser gelada. Se o fundo sul estava mais quente do que nunca, o norte tinha sentido a brisa gelada de quem via a glória escapar por entre os dedos.

 

A segunda parte, porém, teve uma história radicalmente diferente. O River Plate foi mais determinado, fez acreditar os adeptos, e aproveitou a postura mais pragmática do Boca Juniors. A entrada de Quintero veio trazer mais criatividade e desequilíbrios e quando Pratto marcou, a bancada veio abaixo… quase literalmente.

 

Foi uma onda com duas rebentações. Primeiro, os gritos e saltos com o golo. Depois, quando parecia que o pior já tinha passado e que nos tínhamos equilibrado sem cair, há uma segunda zona de impacto e é herói aquele que se consegue manter em pé. Somos agarrados e agarramos, somos empurrados e empurramos, somos puxados e puxamos, no meio de uma euforia digna de quem sente que voltou a agarrar a vida. E está novamente a acreditar.

 

Já ninguém se sentava há muito – talvez apenas por uns minutos no intervalo – e agora era mesmo impossível. As cadeiras estavam encharcadas com refrigerantes e cervejas que tinham voado durante os festejos.

Os espetaculares aquecedores

O jogo estava cada vez mais com a marca do River mas o Boca resistiu e forçou o prolongamento, trazendo um novo ingrediente especial a um jogo já por tudo histórico. Reduzido a dez logo no arranque, o Boca pareceu alimentar a estratégia de forçar os penáltis mas o River teve outra ideia. Nos primeiros 15 minutos, já com os aquecedores na cobertura do estádio ligados (a melhor invenção que já vimos num estádio de futebol), não fez a diferença, mas a segunda tinha novas explosões de euforia guardadas.

 

Ao minuto Eder, Quintero ganhou espaço à entrada da área e fuzilou Andrada, dando o mote para os minutos mais sul-americanos a que alguma vez pudemos assistir. De dez, o Boca passou a jogar com nove, perante a lesão de Gago. A seis minutos dos 120 (!), o guarda-redes Andrada começou a sair nos lances de bola parada e a tentar fazer a diferença.

 

Não havia critério, havia amor. Não havia cérebro, havia garra. Era a montra sul-americana no seu esplendor, o estereótipo a apresentar-se em Madrid, seduzindo milhares. Era uma tarefa ingrata, mas o Boca não virou a cara à luta. E, já em cima dos 120 minutos, quase gelou a bancada do River quando fez a bola beijar o poste. Foi o segundo batimento cardíaco que milhares de adeptos nunca mais vão recuperar.

 

Depois, no último suspiro do Boca Juniors, veio o selo final. Sem ninguém na baliza, Quintero lançou Pity Martínez que correu mais de metade do campo até chegar à bola e garantir o 3-1. Na bancada, já ninguém duvidava que ia ser golo. No relvado, jogadores do River começaram a ir festejar com o banco mesmo antes de a bola entrar na grande área.

 

 

Foi a cereja no topo do bolo. A final estava feita. A festa era diferente da do golo. Era uma festa de missão cumprida. Era uma festa de lágrimas nos olhos, de partilha de alegria com os familiares através de videochamada para a Argentina. Era uma festa única. Era uma festa de “valeu a pena”.

 

Tudo o que se seguiu não passou de uma experiência de recuperação de forças e descarga de adrenalina. A entrega dos prémios, os assobios aos jogadores do Boca que abandonaram o relvado antes de o troféu ser entregue, as vénias aos jogadores que se aproximaram daquele topo.

Festa no final do jogo

Fora do estádio, tudo estava calmo ainda. Havia gente a caminho do metro, mas o epicentro das celebrações ainda estava no Bernabéu. Nas carruagens, eram os adeptos do Boca Juniors que dominavam. Tinham expressões carregadíssimas. Havia lágrimas no canto do olho mas contrastavam radicalmente com as que tínhamos acabado de ver apenas uns minutos antes.

 

Não havia palavras. Havia olhos perdidos no horizonte, cérebros que repassavam o filme do jogo, o momento de glória, a oportunidade perdida. A tragédia de perder a final mais histórica da Libertadores. Aquela bancada que foi sendo insultada durante mais de três horas, era, afinal de contas, uma bancada de gente. De pessoas reais. Que queriam o mesmo mas que não o tiveram.

 

Era a terceira lei de Newton aplicada ao futebol. «A toda a ação corresponde uma reação de igual intensidade, mas que atua no sentido oposto». Desta vez a força do River Plate foi mais forte.