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É Desporto

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Quando a Inglaterra foi derrotada por um… De Beer

Ingleses nunca esquecerão o pé direito de De Beer

Talvez a África do Sul já tenha tido jogadores mais talentosos com os pés na sua história, tanto no râguebi como no futebol. Talvez. Mas nenhum outro conseguiu rubricar uma exibição tão esmagadora e crucial como Jannie De Beer em 1999, no jogo dos quartos-de-final do Mundial com a Inglaterra. Com duas conversões, cinco penalidades e cinco pontapés de ressalto (!), o médio de abertura marcou 34 pontos no triunfo (44-21).

Os ensaios são o pináculo do râguebi, o objetivo primordial. Durante 80 minutos, 15 elementos de cada lado entregam-se sem hesitações neste jogo em que todos os centímetros interessam. A meta quer-se cada vez mais perto e, quando surge o sucesso, as bancadas entram em erupção de jubilo.

Mas o râguebi é muito mais do que o ensaio. Por cada elemento que dá tudo para chegar à meta, há uma força oposta do outro lado. O jogo decide-se assim: uma batalha das vontades em que querer, por vezes, não é suficiente. E onde o ensaio pode ser complementado, ou mesmo substituído, pela arte do pontapé.

As contas não são novidades para ninguém: o ensaio vale cinco pontos mas chutar aos postes também traz benefícios. Dois pontos pela conversão do ensaio, três por uma penalidade com sucesso e outros três pelo pontapé de ressalto.

Sim, os ensaios podem ser o ponto alto do râguebi mas a história demonstra uma sucessão de casos em que foram os talentosos pontapeadores a decidir encontros dramáticos. Em 2003, o inglês Jonny Wilkinson tornou-se herói nacional ao garantir o título mundial com um pontapé de ressalto. Quatro anos antes, porém, a seleção da rosa caiu nos quartos-de-final após uma exibição absolutamente irrepreensível e sem precedentes do sul-africano Jannie De Beer. Isso mesmo: um homem com apelido de cerveja deixou os ingleses pelo caminho em Paris.

A fase de grupos já tinha demonstrado as capacidades do médio de abertura sul-africano. Os Springboks entraram na prova como campeões em título e passearam pela fase de grupos. Na estreia, no 46-29 com a Escócia, De Beer converteu cinco ensaios e marcou duas penalidades. Contra a Espanha, acumulou seis conversões de ensaios no 47-3. Finalmente, com o Uruguai (39-3), juntou quatro conversões a duas penalidades. Feitas as contas, entrou na fase a eliminar com 42 pontos.

De Beer marcou 34 pontos contra a Inglaterra

Dizem que os melhores jogadores aparecem nos momentos decisivos, que brilham ao mais alto nível quando a fasquia está elevada. Foi isso mesmo que De Beer fez a 24 de outubro no Stade de France. «Algumas das coisas que aconteceram aqui foram do domínio do sobrenatural. Deus deu-nos a vitória, estou feliz apenas por ter feito parte do seu plano», disse De Beer.

A exibição foi verdadeiramente… divinal. Mais do que as cinco penalidades ou as duas conversões de ensaio, De Beer, com 28 anos na altura e com pouco historial ao serviço da seleção, tornou-se o ponto fulcral da estratégia sul-africana. Os ataques dos Springboks eram pensados ao pormenor para garantir que o médio de abertura tinha espaço para executar pontapés de ressalto. E fê-lo uma, duas, três, quatro, cinco vezes, estabelecendo um novo recorde mundial.

«Às vezes as coisas acontecem de uma forma para a qual não conseguimos encontrar uma resposta. Sinto mesmo que Deus teve um papel nisto. Acredito do fundo do meu coração que este triunfo não foi apenas sobre mim enquanto jogador. Agradeço ao Senhor pelo talento que me deu e aos avançados pela forma como me deram a bola», continuou.

As justificações excessivamente religiosas abriram caminho para a imprensa britânica deixar De Beer ao nível de Maradona. Treze anos depois da Mão de Deus, surgiu o Pé de Deus, novamente para destruir as ambições britânicas numa fase final… nuns quartos-de-final.

De Beer manteve o pé quente no jogo das meias-finais, com a Austrália, e marcou todos os 21 pontos da derrota da África do Sul no prolongamento (21-27), graças a seis penalidades e um pontapé de ressalto. Nesse jogo, porém, o herói dos pontapés de ressalto foi outro: Stephen Larkham. O plano de Deus era outro, está visto.