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É Desporto

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O dia em que Shumacher atropelou Battiston

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Sevilha, meia-final do Mundial-1982. França e Alemanha (RFA) estão empatadas a um golo no início da segunda parte e Platini mete uma bola nas costas da defesa germânica que isola Battiston. Podia ser apenas um lance igual aos outros mas o que aconteceu foi uma entrada imprudente de Schumacher que deixou o francês imóvel no relvado, com dentes pelo caminho e o corpo em mau estado. Os dias que se seguiram obrigaram à intervenção do chanceler alemão e do presidente francês e a uma tentativa teatralizada de fazer as pazes.

 

Uma questão de nome

 

Adelaide, 13 de novembro de 1994. Michael Schumacher é o líder do Mundial de Fórmula 1 com um ponto de vantagem sobre Damon Hill. Disputa-se a última corrida da temporada e o alemão, cínico como sempre, sabe que a melhor forma de garantir o título é fazer com que o adversário não cruze a linha de meta. Assim, na volta 35, o Benetton de Schumacher bate no Williams de Hill e os dois desistem.

 

A atitude, propositada ou não, de Schumacher não valeu castigo e garantiu o primeiro título da carreira ao alemão na F1. Foi uma ação que demonstrou o egoísmo de Michael, capaz de tudo – ou pelo menos de fazer os outros pensarem que ele é capaz de tudo – para alcançar um objetivo. A história demonstra que pode ser uma coisa de nome. Doze anos antes, em Sevilha, outro Schumacher, de primeiro nome Harald, também atropelou um adversário.

 

Falamos da meia-final do Mundial de Espanha. França e Alemanha (RFA) jogam em Sevilha o apuramento para a final onde a Itália (2-0 vs. Polónia) já está à espera. O jogo está empatado a um golo e disputam-se os primeiros minutos do segundo tempo. Patrick Battiston tinha acabado de entrar no conjunto gaulês e, de repente, tudo acontece.

 

Platini recebe a bola junto ao meio-campo e identifica imediatamente a desmarcação nas costas dos alemães de Battiston. O passe parece telecomandado mas a definição do suplente utilizado não é a melhor, especialmente quando tem um alemão a ir na sua direção a toda a velocidade.

 

O remate sai torto mas Schumacher acerta-lhe em cheio. O guarda-redes projeta-se no ar e rodopia ligeiramente o corpo antes de atingir Battiston, sobretudo com a força da anca junto à cara do adversário. Sem surpresa, o francês fica imóvel no chão.

 

Momentos de tensão

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«Pensei que estava morto. Não tinha pulso e estava muito pálido», confessou Platini. Battiston ficou inconsciente e provocou o pânico entre os jogadores franceses, incrédulos com o que tinha acabado de acontecer e com a decisão do árbitro holandês Charles Corver, que não fez mais do que assinalar… pontapé de baliza.

 

Schumacher permaneceu impávido. Foi buscar a bola, colocou-a na linha da pequena área e aguardou pela autorização do árbitro para retomar o encontro. Como se tivesse sido algo simples, sem gravidade, um momento igual aos outros. Não foi. O jogo esteve parado cerca de quatro minutos e Battiston tinha ficado sem dentes e tinha uma vértebra fraturada.

 

O jogador do Saint-Étienne teve de receber oxigénio e chegou a entrar em coma durante alguns momentos. Para a seleção francesa foi um duro golpe: Battiston foi obrigado a sair praticamente a seguir a ter entrado e Michel Hidalgo foi forçado a esgotar as substituições, numa altura em que havia apenas duas e num jogo que viria a ser decidido no prolongamento (4-3 para a RFA).

 

Ondas de choque

 

A atitude de Schumacher não passou em claro à imprensa francesa e a primeira reação foi ainda pior. Quando informado de que Battiston tinha ficado sem dentes, reagiu de forma seca: «Se foi isso até me ofereço para lhe pagar as coroas».

 

Os franceses ficaram furiosos e todos os alemães passaram a ser indesejados. Nos parques de campismo, por exemplo, veículos com matrícula alemã começaram a aparecer com pneus furados e janelas partidas. Por todo o lado, havia uma retórica de vingança perante a atitude de Schumacher.

 

A diplomacia teve de entrar em jogo e o chanceler alemão, Helmut Schmidt, e o presidente francês, François Mitterrand, decidiram divulgar um comunicado de imprensa conjunto, tentando apaziguar os ânimos. «Os nossos corações estão com os franceses, que mereciam tanto o apuramento como os alemães», disse Schmidt, numa carta aberta com um significado muito maior do que o simples futebol.

 

Um agressor pouco arrependido

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A relação entre Schumacher e Battiston tornou-se o centro das atenções e os esforços diplomáticos tentaram garantir que, por exemplo, uma falsa amizade entre os dois pudesse tornar tudo mais fácil.

 

Por isso, dias antes do casamento de Battiston, Schumacher viajou para Metz para pedir desculpa e oferecer um galhardete do Colónia. A teatralização correu mal. Schumacher não gostou de ver tantos jornalistas franceses e queixou-se de que se calhar também devia ter levado jornalistas alemães. Mais, disse que esta era uma questão que apenas interessava aos dois.

 

François Mitterrand reentrou em ação e tentou convencer o selecionador francês a falar com os jogadores para que estes tomassem uma posição pública de compreensão com Schumacher. Não pegou. «O quê, também quer que levem os alemães de férias?», disse.

 

A recompensa do pós-trauma

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Patrick Battiston chegou ao Mundial de Espanha com 25 anos e com um título de campeão francês pelo Saint-Étienne em 1981. O susto foi grande mas recuperou e construiu uma carreira repleta de sucessos, com destaque para o Europeu conquistado em casa, em 1984.

 

Por França, além do quarto lugar de 1982, somou ainda o terceiro lugar do Mundial-1986 e a nível de clubes acumulou mais quatro títulos de campeão nacional: pelo Bordéus em 1984, 1985 e 1987 (os últimos dois com Chalana) e pelo Monaco em 1988.

 

Harald Schumacher perdeu duas finais em Mundiais (1982 e 1986) e só foi campeão nacional mais duas vezes: em 1989 com o Fenerbahçe e em 1996 com o Dortmund, fazendo apenas um jogo e na sombra de Stefan Klos. Tinha 42 anos.