Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

É Desporto

É Desporto

O dia em que ninguém quis saber do Mundial-1990

Áustria venceu RDA sem dificuldade e apurou-se para o Mundial-1990

A República Democrática da Alemanha teve uma oportunidade de ouro para garantir a qualificação para uma grande prova por seleções pela segunda vez. As memórias do Mundial-1974 estavam cada vez mais distantes mas o Itália-1990 parecia perto: bastava vencer na última jornada, na Áustria, a 15 de novembro de 1989… seis dias depois da queda do muro.

O «quase» nunca teve um significado simpático para o futebol da República Democrática da Alemanha. Estar perto de alcançar algo significava apenas que a probabilidade de haver uma desilusão embaraçosa era maior do que se o objetivo fosse impossibilitado numa fase mais prematura.

No último trimestre de 1989, a seleção da RDA estava novamente numa situação de «quase». Neste caso, de quase apuramento para o Mundial-1990. O momento era importante – afinal, só tinha tido uma presença numa fase final, em 1974 – e a premissa nem era impossível: tinha de ir a Viena derrotar a Áustria na última jornada do grupo 3 da fase de qualificação europeia.

O sorteio foi favorável à seleção de Eduard Geyer. A União Soviética era o papão do grupo mas Áustria, Turquia e Islândia garantiam um otimismo moderado para que a geração de Matthias Sammer, Andreas Thom, Thomas Doll e Ulf Kirsten pudesse fazer história e terminar no segundo lugar que também dava apuramento direto.

A Islândia foi derrotada sem dificuldade nos dois jogos mas a Turquia surpreendeu e somou sempre triunfos contra a RDA. Ainda assim, a vitória sobre a União Soviética no penúltimo jogo – garantindo a reviravolta no último quarto de hora com golos de rajada de Thom (81’) e Sammer (83’) - deu um tónico importante aos germânicos.

Estava tudo em aberto para a última jornada, disputada a 15 de novembro. RDA, Turquia e Áustria estavam empatadas com sete pontos. Se havia um mata-mata em Viena, os turcos tinham a improvável tarefa de ir pontuar em Simferopol, em plena União Soviética.

De repente, tudo mudou. O Muro de Berlim caiu a 9 de novembro, seis dias antes do jogo na Áustria, e a cabeça dos jogadores foi invadida pela incerteza em relação ao futuro. «Estavam completamente distraídos», admitiu o selecionador. «Passavam a vida a fazer telefonemas e preocupados apenas em encontrar outros clubes para jogar.»

As muralhas da República Democrática da Alemanha tinham caído e o frenesim era justificável. Pela primeira vez em liberdade, os jogadores teriam carta branca para procurar oportunidades no bloco ocidental, mais bem pagos e com acesso a tudo o que precisavam.

Não foi de espantar então que, quando o polaco Piotr Werner apitou para o pontapé de saída, a exibição da RDA tenha sido apática e sem um pingo de competitividade. Toni Polster brilhou ao mais alto nível e terminou o jogo com um hat-trick: marcou aos 2’, de penálti aos 23’ e novamente aos 61’.

Este foi o último «quase» da RDA. Esteve perto mas, como habitual, surgiu alguma coisa a dificultar. Na derradeira campanha de apuramento completa que disputaram, os alemães de leste caíram… tal como tinha acontecido com o muro dias antes.