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É Desporto

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O alvo nas costas de Marcelo Bielsa

Marcelo Bielsa

A legião de fãs de Marcelo Bielsa e da sua filosofia fazem dele um sucesso instantâneo por onde quer que passe. Até pode não apresentar resultados e sair poucos dias depois, mas o impacto que provoca a simples notícia de que está em negociações com um clube não deixa ninguém indiferente.

 

Quando no início do verão chegou a acordo com o Leeds United com o objetivo de devolver o clube à Premier League, as primeiras dúvidas não demoraram a aparecer. Será que seria capaz de impor o seu estilo num campeonato como o Championship? Será que os jogadores iam encaixar no seu estilo obsessivo? Como é que os adversários iriam reagir? E os adeptos?

 

Hoje, seis meses depois, o Leeds United lidera a tabela classificativa e é, sem grande surpresa, o maior favorito à subida de divisão. Mas a polémica que nasceu com a confissão de que o argentino tinha alguém a observar os treinos dos adversários – depois de um triunfo frente ao Derby County de Frank Lampard – pode ter tornado ainda mais difícil o objetivo.

 

Se o segredo é a alma do negócio, Bielsa decidiu varejar a colmeia sem medo das consequências. O pânico instalou-se, chegando mesmo a ser pensado que ia apresentar a demissão depois de ter marcado uma conferência de imprensa extraordinária, mas o que se seguiu foi a forma que Bielsa arranjou de ridicularizar os críticos e os adversários.

 

Ao dizer que pode não saber falar inglês mas consegue falar sobre as 23 equipas adversárias no Championship, o argentino está, também, a rejeitar um processo de aculturação que os britânicos gostam de sentir que existe ao receber estrangeiros.

 

Há muito que a xenofobia britânica no futebol teve de ser superada, sobretudo na Premier League, à conta de estrelas dentro das quatro linhas e líderes que fazem a diferença fora delas, como Guardiola, Mourinho, Wenger, Pochettino, Sarri e muitos outros ao longo dos anos.

 

Mas a resistência continua a existir. E é muito maior no Championship, onde o futebol ainda é maioritariamente britânico, do que na Premier League. Ao mostrar a sua faceta sabichona no Championship, Bielsa mandou um recado bastante claro à concorrência: a de que sabe tudo o que precisa, de que não há segredos que possam ser mantidos com ele no campeonato.

 

Este desafio ao estatuto dos ingleses pode trazer consequências devastadoras. Esta heresia, com contornos de desrespeito pelos colegas de trabalho, é apenas um traço da personalidade de Bielsa mas poderá tornar o alvo nas costas do argentino ainda maior.

 

Se há coisas que os britânicos sempre foram pródigos a fazer – seja no futebol, no desporto em geral ou na história da nação – foi a capacidade de se unirem contra ameaças exteriores.

 

Hoje, mais do que nunca, Bielsa tornou-se uma ameaça para os britânicos. Cada semana de sucesso do argentino será vista como um acentuar da incompetência de todos os outros. A forma como um homem chegou a Inglaterra, ignorou a língua, dominou um campeonato visto como difícil e partiu sem dificuldades.

 

Depois dos títulos de um espanhol no Newcastle (Rafa Benítez-2017) e de um português no Wolverhampton (Nuno Espírito Santo-2018), um eventual sucesso estrondoso de Bielsa poderá fazer recuar ainda mais as linhas da resistência local. Mas, ao contrário do argentino, os dois ibéricos nunca instigaram os ânimos. Bielsa fê-lo e sem pudor. Até maio valerá tudo.