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É Desporto

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Mundial-1991. A estreia de sucesso no futebol feminino

EUA conquistara o primeiro Mundial

A Noruega tinha dado o mote na cimeira da FIFA no México, em 1986. A primeira mulher a tomar a palavra num evento do género subiu ao palco e queixou-se da falta de atenção que o futebol feminino tinha no seio do organismo mundial. A reivindicação conquistou o presidente da FIFA, João Havelange, e as sementes estavam lançadas.

 

Cinco anos depois da cimeira, e três depois do embrião de teste, a China recebeu o primeiro Mundial oficial da história do futebol feminino. Com 12 seleções de todas as confederações do mundo (Portugal não participou na fase de qualificação), os Estados Unidos provaram que seis anos de futebol organizado eram mais do que suficientes para conquistar o globo e derrotaram a Noruega na final (1-0).

 

O evento foi marcado pelo sucesso. Cerca de 500 mil adeptos marcaram presença no total dos jogos e o encontro de abertura registou uma lotação de 60 mil pessoas, mais ainda do que a final (55 mil). Feito o balanço, João Havelange era um homem satisfeito. «As participantes neste Mundial demonstraram ser mais do que merecedoras de um evento desta dimensão. Como presidente da FIFA, foi um especial prazer para mim ver estas jovens jogadoras atuar com tanto estilo e elegância», escreveu no relatório técnico da prova.

 

Aqueles dias, entre 16 e 30 de novembro, foram suficientes para comprovar «a certeza de que o futebol feminino está verdadeiramente estabelecido a nível mundial», disse também.

 

Um futebol com margem de progressão

Qualidade das guarda-redes esteve em discussão

O primeiro Mundial provocou uma onda de entusiasmo e de incerteza. Se as seleções europeias estavam mais profissionalizadas, havia outras que chegaram à China sem saber sequer o que seria o futuro.

 

Os Estados Unidos conquistaram o título mas reconheciam que «a existência futura da equipa depende largamente da quantidade de apoio que consiga reunir», acrescentando que algumas jogadoras se iam retirar para privilegiar a carreira profissional (fora do futebol) ou simplesmente porque… tinham casamento marcado.

 

O Japão, outra potência atual, também sabia que tinha a modalidade muito atrasada. «O futebol está muito atrás de outras modalidades femininas. É de grande importância fazer com que a imprensa dê mais atenção a este desporto para que possa chegar ao público. Também será feita uma tentativa junto das escolas para exercer mais influência e atrair mais raparigas para o futebol», diziam.

 

Todo o Mundial foi um enorme tubo de ensaio para estabelecer um ponto de situação e saber onde melhorar. O relatório técnico refere, por exemplo, que as guarda-redes eram fracas e deviam ser uma das maiores apostas do futuro. Mencionava também a ironia de a Alemanha, que surgiu sem treinadora específica, ter uma das melhores guarda-redes da prova (Isbert).

 

Foram feitas análises aos sistemas táticos utilizados – sempre com líbero, ora com três ora com quatro defesas – e a ausência, natural, da aposta no fora-de-jogo. A marcação à zona foi uma dificuldade evidenciada e o espaço entre o meio-campo e a defesa era enorme. Os pontos fortes estavam, sem exceção, nos ataques das seleções.

 

Os Estados Unidos e a Noruega foram vistas como a nata da competição, claramente acima das outras, enquanto factos como os golos por jogo (3,81), o tempo útil em média (52 minutos em jogos com duas partes de 40) ou a ausência de reviravoltas (apenas a Noruega o conseguiu, contra a Suécia) também foram sublinhados.

 

Questões de fundo para o futuro

 

O ponto de interrogação para os anos seguintes era enorme. Não eram apenas os Estados Unidos e o Japão que sabiam que precisavam de um apoio claro para preservar e potenciar a modalidade. Noutros países não havia sequer apoio da federação, o que justificou os maus resultados de seleções como Brasil ou Nigéria.

 

No caso sul-americano, 16 das 18 jogadoras eram da mesma equipa (EC Radar), a única que já tinha sido campeã brasileira. Mais do que isso, tinham jogadores com histórico de outras modalidades: a guarda-redes tinha sido internacional de andebol, enquanto uma das melhores marcadoras tinha praticado futebol americano nos EUA entre 1988 e 1990.

 

E depois, claro, havia as questões de fundo. Duas partes de 40 minutos? As seleções mais fracas achavam bem, ajudava a diminuir as diferenças contra as melhores equipas e não exigia demasiado das jogadoras; as mais fortes eram a favor de encontros de 90 minutos, tal como já acontecia nos campeonatos nacionais.

 

A bola? O tamanho também era motivo de discussão. Os Estados Unidos deram o mote, com uma análise de que podia ser o mesmo que o do futebol masculino mas que talvez fosse melhor diminuir a pressão mínima exigida. «As capacidades de cabeceamento ainda não estão totalmente desenvolvidas e as jogadoras tendem a ter mais dores de cabeça», diziam.

Suécia-Alemanha

A Alemanha, por seu turno, e de uma forma que nos pode levar a estranhar, queixava-se da componente física do jogo, da evolução para a supremacia da força, lamentando que este caminho de progresso levaria apenas a copiar as piores características do futebol masculino.

 

«Isto não vai tornar o futebol feminino mais atrativo», diziam. Outra questão física mencionada, por várias seleções, foi o conselho para que as empresas de equipamentos garantissem a oferta de chuteiras com números mais pequenos.

 

Questões médicas… e gastronómicas

Lesões fizeram parte do Mundial

A preocupação com a saúde também foi uma constante durante o torneio. O médico Cestmir Napravnik vangloriou-se com a «conclusão evidente da observação médica de que as mulheres conseguem ir aos limites da sua capacidade e força física sem ficarem exaustas».

 

O quadro das lesões incluiu uma linha para «problemas ginecológicos», talvez por culpa de uma das comitivas ter integrado uma especialista em ginecologia, mas aparece em branco. «Ficámos positivamente surpreendidos ao ver que, apesar do esforço exigido pelo calendário, com seis jogos em duas semanas, não houve nenhum caso de dismenorreia [cólicas menstruais]», escreveu.

 

A culinária chinesa, servida três vezes ao dia, também não provocou nenhum problema específico, excetuando a crítica de falta de diversificação na oferta. Para fazer face a isso, a Itália foi prevenida e levou um cozinheiro na comitiva, com dose suficiente de pasta para as duas semanas.

 

Com coisas boas e outras nem tanto, a FIFA percebeu que o evento tinha sido sucesso. O futuro deu razão a Havelange. Estavam lançadas as bases para a solidificação do futebol feminino a nível mundial.