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É Desporto

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Mike Hawthorn. O campeão de F1 perseguido pelas tragédias

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Foi o primeiro britânico a ser campeão do mundo. Começou por ser um piloto irascível mas a sucessão de tragédias tornou-o mais calculista. Em 1958, depois de conquistar o título em Marrocos, superando Stirling Moss, decidiu acabar a carreira. Morreu três meses depois num acidente de viação. 

 

Receita para o sucesso

 

Mike Hawthorn nasceu a 10 de abril de 1929 e foi sendo construído para se tornar num apaixonado por automóveis. O pai adorava corridas de carros e em 1931 tomou a decisão que lhes iria alterar a vida para sempre, ao comprar uma oficina junto do circuito de Brooklands em Farnham, no Surrey.

 

Mesmo que quisesse, Mike não teria como escapar. Desde pequeno foi exposto ao mundo dos motores e a própria formação académica, que incluiu um estágio numa construtora de automóveis, foi pensada de forma a garantir que teria todas as condições necessárias para ser um bom piloto.

 

O pai alimentou sempre esta carreira com ofertas de carros e motos para que o filho pudesse ter cada vez mais experiência e destacar-se quando chegasse a altura. Foi o que aconteceu em 1952, quando se estreou na Fórmula 1 ao volante de um Cooper. O primeiro pódio chegou logo à segunda oportunidade, em Silverstone, e foi o suficiente para captar a atenção de Enzo Ferrari, que o contratou para a Ferrari.

 

A carreira de Hawthorn parecia ir de vento em popa mas estava apenas a aproximar-se da pior sucessão de tragédias possível. Sempre voraz, a imprensa britânica começou a vasculhar a sua vida e lançou a notícia de que Mike não tinha cumprido o serviço militar obrigatório.

 

E não cumpriu, mas apenas por ter uma grave doença renal que lhe garantiu a dispensa. O problema é que a verdade não podia ser conhecida, sob o risco de perder um lugar na Fórmula 1. Em 1954, o que havia de mau para acontecer, aconteceu: o pai morreu num acidente de viação e o piloto foi obrigado a retirar um rim.

 

A carreira na Ferrari, que tinha tido uma primeira temporada brilhante em 1953 – o britânico bateu Juan Manuel Fangio por centímetros no Grande Prémio de França, tornando-se na altura o mais jovem de sempre a ganhar uma corrida –, estava destinada a uma interrupção.

 

Mike tinha de voltar a Inglaterra. Com a morte do pai, era preciso que alguém assumisse o negócio da família. A solução, provisória, foi correr pela Vanwall no início de 1955, mas fez apenas duas provas, em Monte Carlo e na Bélgica, sem conseguir cruzar a linha de meta.  

 

Fantasma da morte sempre presente

 

Se a época na Fórmula 1 estava a ficar aquém das expectativas, a presença nas 24 Horas de Le Mans terminou com um triunfo pela Jaguar. Mas, ao contrário do que se poderia pensar, o triunfo não trouxe qualquer tipo de conforto a Mike Hawthorn.

 

Apesar de uma investigação o ter ilibado da responsabilidade, o britânico esteve diretamente ligado ao acidente que provocou cerca de 80 mortes (as fontes divergem no número exato) e mais de 90 feridos. 

Aos poucos, a alegria pela velocidade e pela vida de boémio estava a sofrer cada vez mais pelos momentos negros que tornavam Mike Hawthorn um piloto mais pragmático e resultadista na pista.

 

Depois de completar a época em 1955 pela Ferrari – três corridas -, Mike passou pela Maserati, BRM e Vanwall até voltar definitivamente à escuderia italiana em 1957. No primeiro ano garantiu dois pódios e em 1958 tudo pareceu correr de acordo com o planeado.

 

Mike Hawthorn estava feliz. O piloto famoso por correr de laço ao pescoço e por ser um grande mulherengo tinha encontrado no colega de equipa Peter Collins um amigo à sua imagem. Os dois eram inseparáveis e animavam qualquer sala em que estivessem juntos, mesmo que por vezes provocassem situações desconfortáveis aos restantes.

 

O agridoce ano de despedida

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Mas o ano voltou a ser negro em tragédias. Luigi Musso, o terceiro piloto da Ferrari, morreu no Grande Prémio da França, a única corrida ganha por Hawthorn. Apenas duas provas depois, no mítico circuito de Nurburgring, o choque foi ainda mais próximo, com a morte de Collins.

 

Para Hawthorn, a metamorfose estava completa. A paixão pela velocidade, a emoção dos triunfos e das grandes ultrapassagens tinha arrefecido. Ainda assim, terminou a temporada como campeão do mundo, graças ao segundo lugar no Grande Prémio de Marrocos, a última prova da época.

 

O duelo com Stirling Moss foi aceso e o vencedor acabaria por tornar-se o primeiro britânico a sagrar-se campeão mundial. Nas contas finais, apenas um ponto separou Moss de Hawthorn.

 

Com o objetivo cumprido, e para choque de muitos, Hawthorn anunciou o final da carreira. «É mais simpático perguntarem-te por que te estás a retirar do que por que é que não te retiras», brincou na altura.

 

Havia muitas razões. A morte de Collins terá contribuído certamente mas os problemas de saúde de Hawthorn estavam cada vez mais graves e a sensação que terá ficado na altura por quem o conhecia é que mesmo que quisesse não poderia continuar. Em confissão, chegou a dizer que sentia que estava a urinar gravilha sempre que ia à casa-de-banho.

 

Hawthorn tinha os dias contados. As previsões não lhe davam mais do que três anos de vida mas a morte foi muito mais prematura: apenas três meses depois do Grande Prémio de Marrocos. Numa autoestrada britânica, a mesma em que o pai tinha morrido, Hawthorn perdeu o controlo de um Jaguar e fechou o terrível ciclo de tragédias.

 

A sua vida foi de extremos e entrou para a história. Não apenas pelo drama e pelo horror mas também por ter sido o primeiro campeão mundial após a hegemonia de Fangio, vencedor entre 1954 e 1957.