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É Desporto

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Manfred Rossner. O árbitro que serviu de bode expiatório

Manfred Rossner ao fundo

Exibição repleta de erros que favoreceram o Dínamo Berlim na final da Taça em 1985 levou a um castigo inédito por parte da federação. Pressão do público era cada vez maior e árbitro internacional foi utilizado como bandeira de propaganda. Na verdade, pouco mudou depois disso.

A hegemonia do Dínamo Berlim na República Democrática da Alemanha foi sempre contestada pelos dirigentes e adeptos dos clubes rivais. O regime queria ter um campeão na capital e o favorecimento do patrão da Stasi, Erich Mielke, ao clube era indesmentível. Quando o Dínamo começou a acumular títulos de campeão – dez consecutivos entre 1979 e 1988 -, as pessoas perderam a paciência.

A RDA fomentava o envio de cartas e petições sobre assuntos da sociedade. O futebol, naturalmente, estava entre o topo dos motivos de interesse dos comuns mortais e, a meio da década de 80, as polémicas com a arbitragem subiram de tom e levaram a que surgissem cada vez mais exigências para fazer face aos óbvios favorecimentos ao Dínamo Berlim.

A federação não teve outra solução a não ser agir. Sem agitar muito as águas, para não ferir suscetibilidades no aparelho do partido, não podia ignorar a vaga de fundo que estava a ser criada na sociedade. Por isso, decidiu elaborar um relatório sobre o desempenho dos árbitros.

Quando se disputou a final da Taça da RDA, em junho de 1985, já a ideia de que o Dínamo Berlim era beneficiado estava confirmada pela estatística. Talvez por isso, o árbitro da final, Manfred Rossner, tenha sido abordado por dois elementos diferentes da federação a alertar para a necessidade de não cometer erros a favor do campeão.

O jogo foi um desastre. O Dínamo Dresden venceu o rival de Berlim (3-2) mas a atuação de Rossner, e dos seus árbitros assistentes (Klaus Scheurell e Widuking Herrmann), gerou nova onda de indignação. No total, a federação e um dos principais jornais alemães receberam cerca de 700 cartas de protesto.

A pressão levou a que se realizasse uma reunião semanas depois para analisar, com recurso a vídeo, o desempenho da equipa de arbitragem. Os dados foram, uma vez mais, esmagadores: Rossner tinha errado 30% das decisões durante os 90 minutos da final e dos 17 erros cometidos, 14 tinham sido a favor do Dínamo Berlim. E mais: na categoria de «erros clamorosos», apenas um não beneficiara o clube da capital.

«Consigo tolerar uma arbitragem com erros, mas estes devem ser repartidos. Dificilmente um árbitro conseguiria errar mais sempre para o mesmo lado», queixava-se um adepto numa das cartas enviadas. A federação deu-lhe razão e decidiu agir: Rossner foi banido de toda a arbitragem internacional e dos jogos da Oberliga; Herrmann acabou a carreira e Scheurell foi obrigado a ficar de fora de jogos europeus para os quais já tinha sido nomeado. Mais tarde, porém, Scheurell acabou mesmo a fazer parte de um evento histórico, arbitrando o primeiro e único jogo internacional da seleção feminina.

Nunca houve qualquer prova de interesses alinhados. Durante todo o período de hegemonia do Dínamo Berlim, nunca foi revelado qualquer sinal de ligação entre árbitros e agentes da Stasi ou dirigentes do clube.

O que toda a gente acreditava que se passava era um conceito de «obediência silenciosa». Os árbitros sabiam que o Dínamo Berlim era o clube preferencial e, consciente ou inconscientemente, decidiam sempre a favor dos mesmos. Em 1985, isso mudou. O Dínamo Berlim continuou a ser campeão, mas o número de castigos a árbitros que erravam nestes jogos multiplicou-se, sempre com sanções pesadas que incluíam a suspensão por uma época. Manfred Rossner foi o primeiro.