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É Desporto

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Magic vs. Bird. O início de um novo mundo em 1979

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A final entre Michigan State Spartans e Indiana State Sycamores foi um dos maiores pontos de viragem no desporto norte-americano. O jogo nem foi grande coisa mas o duelo entre Magic Johnson e Larry Bird gerou uma enorme expectativa e lançou as bases para a expansão do basquetebol universitário e para o renascimento da NBA. 

 

A ligação entre extremos opostos

 

Magic Johnson e Larry Bird não podiam ser mais diferentes. Um era afro-americano, tinha uma personalidade cativante e era extrovertido dentro e fora de campo. O outro, com aspeto de sueco, parecia adotar a filosofia alemã e dedicava-se ao trabalho, eliminando qualquer espaço para fugir ao que tinha delineado.

 

A uni-los havia apenas o enorme dom para jogar basquetebol. Quando se defrontaram na final da NCAA em 1979, as vidas dos dois já eram muito distintas. Larry Bird ainda não podia jogar na NBA mas já tinha sido escolhido no draft de 1978, na sexta posição, pelos Boston Celtics; Magic Johnson contagiava tudo e todos e estava a caminho de ser escolhido pelos LA Lakers na escolha inaugural do draft de 1979.

 

Os dois praticamente não se conheciam. Tinham estado juntos, por breve momentos, em 1978, quando uma equipa norte-americana composta por amadores defrontara um adversário da Rússia, mas nada mais do que isso. As personalidades eram tão distintas que não havia sequer justificação para serem hipócritas e esboçarem o início de uma amizade.

 

O público também não os conhecia… de os ver jogar, entenda-se. Estávamos na década de 70, a ESPN só ia ser lançada no final desse ano e as finais da NBA nem sequer andavam a ser transmitidas em direto na televisão. Mas as histórias corriam de boca a boca e rapidamente Magic e Bird atingiram o estatuto de mitos.

 

Quando o torneio final da NCAA começou, havia uma ideia na mente de todos: uma final entre os imbatíveis Sycamores de Bird e os fascinantes Spartans de Magic.

 

Muito mais do que um jogo

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A final foi a primeira oportunidade que milhões de norte-americanos tiveram para saber finalmente como eram os dois astros que prometiam revolucionar o mundo do basquetebol com um estilo de jogo que fazia do passe a oitava maravilha do mundo.

 

Durante toda a época, Magic e Bird fizeram uma marcação individual única. No dia a seguir aos jogos, consultavam os marcadores nos jornais para saber como tinha sido a atuação do rival. E assim foi, durante meses, até chegar a altura do tão ansiado duelo.

 

Magic Johnson estava eufórico com a possibilidade. Tanto que no treino antes da final teve a «oportunidade» de imitar Larry Bird. «Fiz tudo como ele faz, andava a passar para trás e para a frente, por todos os lados. Acham que ele também me imitou?», perguntou, bem-disposto.

 

«Não», respondeu um seco Larry Bird. O futuro jogador dos Celtics era assim mesmo, pragmático. A vida já lhe tinha pregado uma grande partida – o suicídio do pai – e o basquetebol não era para ser levado na brincadeira. «A final é mais importante para os meus colegas e para a universidade do que para mim. Ganhando ou perdendo, já tenho o meu dinheiro garantido», atirou, lembrando o contrato com os Celtics já assinado.

 

Bird mentia. A vitória importava. Por outro lado, sabia que, apesar de os Sycamores não terem perdido qualquer jogo até então, os Spartans tinham mais armas para chegar à vitória. A estratégia de Michigan State ia ser simples: tentar anular Bird, por si só já afetado pela fratura que carregava com ele no polegar esquerdo.

 

Quando o jogo começou, o país parou. Houve um aumento de 20% de telespectadores comparativamente com a final da época anterior. A estatística revelou que 35% dos televisores ligados àquela hora estavam sintonizados no jogo de Salt Lake City. E havia 400 jornalistas no local, o dobro do que era habitual.

 

Os números só não são claros a referir quantas foram as pessoas surpreendidas pela cor de Larry Bird, uma vez que florescia na altura a ideia de que a estrela dos Sycamores, com aquele estilo de jogo, só podia ser afro-americano.

 

Vitória indiscutível dos Spartans

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Assim que o jogo começou, percebeu-se que dificilmente Larry Bird e companhia poderiam ter uma palavra a dizer. Michigan State assumiu a liderança desde o início, impulsionado por Magic Johnson, e não deu espaço à estrela de Indiana, concentrando a estratégia defensiva na anulação de Bird.

 

O sentido foi único: 37-28 ao intervalo e 75-64 no final do encontro, resultando no primeiro título da história para os Spartans. Magic Johnson foi igual a si mesmo, com 24 pontos. Larry Bird registou 19 pontos e 13 ressaltos mas falhou 14 dos 21 lançamentos tentados.

 

Mais tarde, Larry Bird reconheceu que a derrota foi muito mais dura do que pode ter deixado transparecer. «A pior que alguma vez sofri. Foi e continua a ser duro. Não era suposto termos chegado tão longe e é uma desilusão quando se consegue mesmo chegar lá e não se ganha», contou.

 

«Queria ganhar aquele jogo, não por mim nem pela glória pessoal. Queria ganhá-lo por Indiana State, que nunca tinha tido uma oportunidade e provavelmente nunca mais vai voltar a ter. E pela cidade de Terre Haute, que sempre me tratou tão bem enquanto lá estive», acrescentou.

 

Com o passar dos anos, aquele duelo foi sendo cada vez mais enquadrado na história do desporto nos Estados Unidos. As palavras são do treinador dos Spartans, Jud Heathcote: «Toda a gente pergunta se entendíamos a importância daquele jogo na altura. É claro que não. Mas os anos passaram e apercebemo-nos de que tínhamos tido dois dos melhores jogadores da história a jogarem um contra o outro pela primeira vez».

 

Impacto contagiou a NBA

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A ida das duas estrelas para a NBA iluminou o caminho. A viver uma fase de decadência, povoada por polémicas e jogadores caídos em desgraça, a liga ressurgiu. De repente, tudo mudou, e da melhor maneira possível.

 

Uma estrela nos Boston Celtics, outra nos LA Lakers. As personalidades encaixaram que nem uma luva na história das equipas e nada mais voltou a ser o mesmo. Entre 1980 e 1989, todas as finais tiveram pelo menos um deles a discutir o título. Em três ocasiões, os dois disputaram a final (Magic venceu em 1985 e 1987, Bird em 1984).

 

Michael Jordan, Patrick Ewing e Hakeem Olajuwon podiam estar a caminho, mas o clique decisivo foi dado por aquela dupla. Com o passar dos anos até a animosidade entre os dois foi dando lugar ao respeito e à amizade.

 

Começou com um anúncio que ambos fizeram para a Converse e foi coroado de forma definitiva quando Magic Johnson anunciou ao mundo que tinha contraído HIV. Ali, naquele momento, Larry Bird tinha ficado sem terra por baixo dos pés.

 

«Foi provavelmente uma das piores coisas que já senti. Foi muito difícil. Jogámos um contra o outro durante muitos anos e, na altura, o HIV era uma sentença de morte. Mas, por algum motivo, quando o Magic me disse que ia ficar bem, acreditei nele», disse.

 

Tinha razão. Hoje, quase 40 anos depois, Magic Johnson e Larry Bird têm um lugar muito especial na história do basquetebol nos Estados Unidos. Individualmente, seriam sempre dos melhores jogadores de sempre, mas terem-se encontrado tão cedo na carreira e alimentado a rivalidade durante uma década faz com que sejam dissociáveis.

 

E tudo começou naquela noite de março de 1979.