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É Desporto

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Louletano-Olhanense. Um dérbi no Algarve

Louletano-Olhanense

Não é o dérbi mais famoso do Algarve mas não deixa de ser um jogo com uma história e uma tradição muito fortes. O Olhanense pode ter andado por voos mais altos no início da década, mas se recuarmos até à década de 90, quando eu próprio começava a dar os primeiros «toques na bola», as duas equipas eram presença assídua na Zona Sul da II Divisão B. Havia o Portimonense, também, e havia o Atlético, a equipa que me fazia estar com uma atenção redobrada aos resultados, mas Louletano e Olhanense sempre foram as duas equipas algarvias que mais chamaram a atenção.

 

Loulé e Olhão estão separadas por cerca de 20 quilómetros. O fulgor da rivalidade não é o mesmo de outros tempos, com jogos disputados verdadeiramente em casa e com o público a marcar presença em peso. Ontem, sinal dos tempos, o dérbi jogou-se no Estádio Algarve, uma construção que nos transporta para 2004 e para a memória, sem batota, dos três jogos recebidos durante o Europeu: Espanha-Rússia, Rússia-Grécia e Suécia-Holanda.

 

Quem nunca foi ao Estádio Algarve tem dificuldade em perceber por onde deve entrar. O sítio parece abandonado, com parques de estacionamento de perder de vista mas sem um carro no horizonte. Enganamo-nos, pois claro, e vamos dar a volta ao bilhar grande, numa manobra que tem pelo menos o condão de nos fazer contemplar o estádio de outra perspetiva.

 

Quando finalmente encontramos o caminho certo – não nos demorou assim tanto tempo – deparamo-nos com mais movimento, carros estacionados e pessoas a pé. Noutros tempos, talvez fosse difícil arranjar um lugar tão próximo, que nos desse o conforto necessário para regressar caso voltassem a embirrar com a máquina fotográfica, como fizeram em Vila Nova de Famalicão, mas no Campeonato de Portugal, num Louletano-Olhanense, não há problema.

Estádio Algarve

A entrada custa seis euros e a bilheteira fica praticamente em cima do bar que vai servir os adeptos durante o jogo. No metro seguinte, um responsável do Louletano rasga-nos os bilhetes para validar a entrada e avisa-nos que os adeptos do Olhanense são para a esquerda.

 

O corredor é o mesmo mas, ao fundo, já depois de um polícia, há folhas de papel com as instruções impressas que reforçam a ideia: adeptos do Olhanense para a esquerda, adeptos do L. D. C. (Louletano Desportos Clube) para a direita). Neste momento, achamos curiosa a instrução recebida. Especulamos a razão: como nunca nos tinha visto em cima, partiu do pressuposto (válido) que só podíamos ser adeptos do Olhanense.

 

É uma consequência natural deste futebol de proximidade, em que as personagens são as mesmas domingo após domingo e a capacidade de regeneração é, infelizmente, muito reduzida. Há espaço para dirigentes, os adeptos do costume, familiares dos jogadores e pouco mais. Toda aquela realidade, com instruções e papéis impressos, parece dizer-nos que o futebol português nos escalões secundários já nem sequer põe a hipótese de gerar um terceiro lote de interessados.

 

É como se não fosse sequer concebível que alguém pudesse querer ir ver um Louletano-Olhanense sem ser adepto de uma das duas equipas. E muito menos (acrescentamos nós) poderia haver alguém que saísse de Lisboa por volta das onze da manhã para chegar a horas de ver o jogo, regressando logo depois para ainda poder jantar em casa.

 

Foi um Louletano-Olhanense mas podia ter sido um outro jogo qualquer. O português perdeu o hábito de se interessar por futebol e está cada vez mais concentrado apenas no seu clube e no resto dos seus interesses.

 

Uma bancada cheia de “famosos”… e lugares vazios

Só a bancada poente abriu

Decidimos ir para o lado do Louletano. Não por termos qualquer preferência no jogo mas porque sentimos sempre a tendência de estar entre os adeptos da casa, compreendendo as tendências e, já agora, ficar num espaço da bancada mais central.

 

Num outro campo qualquer, mais adaptado ao Campeonato de Portugal, a lotação deste jogo seria interessante. Ali, tudo parece insignificante. Podiam estar dez mil pessoas naquela bancada que, por termos vista privilegiada apenas para as outras três, continuaria a parecer que estava às moscas.

 

Perde-se ambiente, perde-se emoção e perde-se envolvência. Os sons ecoam por entre as cadeiras vazias de tal forma que os batuques da claque do Olhanense parecem vir de cima de nós, quando na verdade estão ao fundo à esquerda. As conversas e gritos entre jogadores e treinadores são audíveis.

 

Percebemos quase tudo, exceto o nome daquele ex-jogador que está uns lugares à nossa direita. Reparamos nele ainda antes do jogo começar e perdemos anos de vida durante a primeira parte a tentar lembrar-nos do seu nome. Aquela cara é inconfundível (e não, não era Veloso nem Paneira), o cabelo está praticamente igual. Aquela pessoa jogou no Farense quando começámos a ver futebol mas o nome insiste em não nos sair de debaixo da língua. Pesquisamos em sites com os plantéis, aproveitando os tempos mortos do jogo, até o nome nos vir à cabeça espontaneamente: é Hugo quem está ali, o médio que fez carreira pelo Algarve, sobretudo no Farense, por Leiria e por Aveiro (Beira-Mar).

 

O dérbi trouxe muitos. Ao lado dele há mais “famosos” que desistimos de tentar identificar. Se com Hugo já foi complicado, não teríamos nada a ganhar em manter aquele suplício. Também há outras lendas na bancada, como Djalmir, mítico avançado, já quarentão, que, na verdade, só vemos pela primeira vez no final do jogo.

 

Olhos no relvado e um brinde ao Louletano

Louletano marcou o 1-0 de penálti

«O Olhanense é melhor mas o Louletano bateu-se bem» é a descrição perfeita, que foi ouvida mais do que uma vez, deste dérbi que terminou empatado a dois. Percebeu-se que a equipa de Olhão tinha mais equipa, mas a de Loulé soube aproveitar os seus momentos para criar perigo e chegar aos golos.

 

A primeira parte teve apenas um, de penálti, que não pareceu deixar dúvidas. Convertido sem dificuldade, foi mais do que suficiente para o Louletano chegar ao intervalo em vantagem. Ao apito do árbitro, os corpos pareciam sincronizados: os dos jogadores foram para os balneários, os dos adeptos foram em direção ao bar.

 

A ausência de café desiludiu alguns, outros queriam ir apenas para um espaço onde o sol ainda batia e ajudava a camuflar o frio daquela bancada. E havia ainda aqueles que não desperdiçavam a cerveja enquanto faziam a análise parcial do encontro. «O Olhanense está a jogar bem», dizia um adepto da equipa da casa num grupo de seis, todos eles de cerveja na mão, momentos antes de fazerem um brinde «ao Louletano».

 

Se nas bancadas os adeptos estavam separados, aquele intervalo era um motivo de tréguas. Afinal, quem é que quer arranjar confusão quando o único objetivo é ir partilhar uma cerveja ou uns amendoins com os amigos? Havia dez minutos para confraternizar, depois era tempo de nova batalha.

 

Cambalhota no resultado e profecia cumprida

Fábio, o profeta

O Olhanense entrou na segunda parte convencido de que ia conseguir provar a sua superioridade mas a letargia não ajudou a criar oportunidades. Das bancadas, os estímulos continuavam. Do lado de Olhão, a claque com cheiro a primeira – e cânticos reciclados dos que se costumam ouvir nos principais jogos – não se calou durante um minuto. Do outro, só mesmo um homem que, de tempos a tempos, soltava um «Louletano» em plenos pulmões, sendo seguido depois por meia dúzia de mulheres ou crianças.

 

Mas havia mais gritos. O «Ivo», por exemplo, precisava de acordar, enquanto o «Zé» nunca passava a bola quando devia, provocando a frustração e a impaciência de quem seguia cada incidência no campo. Outros, possivelmente familiares de um jogador que entraram com convite, mantinham-se a jogar em todos os tabuleiros, agarrados aos telemóveis a mostrar fotografias de Instagram uns aos outros. Se é o que acontece no Staples Center, coração desportivo de Los Angeles, por que não poderá acontecer também em pleno Algarve?

 

Os golos só surgiram com a dança das substituições. Hassan, filho do eterno Nader, fez o primeiro e Fábio saiu do banco para marcar o segundo. «Eu falei, pô! Falei ou não falei? Não falei que ia entrar e marcar?», foi gritando, enquanto se aproximava do banco de suplentes da equipa, recolhendo os louros de uma profecia muitas vezes feita no futebol e nem sempre cumprida.

 

Parecendo melhor em campo e estando em vantagem, o jogo parecia definido. Mas, lá está, «o Louletano bateu-se bem» e dérbi é dérbi. Podia não estar a jogar na sua verdadeira casa, apesar de a maioria dos jogos ser feita ali, mas não ia querer desperdiçar a oportunidade de mostrar à claque do Olhanense que o cântico «O orgulho do Algarve somos nós» tem muito que se lhe diga. Afinal, na semana antes tínhamos ouvido exatamente o mesmo com os adeptos do Farense em Vila Nova de Famalicão.

 

Já perto do final do jogo o Louletano chegou ao empate e lançou um desentendimento na bancada, depois de Hayner – um dos melhores jogadores durante todo o encontro – ter rematado cruzado para o 2-2 final. Os festejos foram na direção da claque do Olhanense, que não gostou e retribuiu com «mimos». Foi um instante apenas. A polícia interveio, acalmou os ânimos e não houve nada para controlar assim que o jogo terminou.

 

Ao sair, na direção do bar, os comentários iam todos na mesma direção. «Vá, volta lá para a serra» foi a única provocação que ouvimos, mas não passou de um recado entre amigos, recebido com fair-play e um sorriso. Afinal, dérbi e dérbi, seja onde for.