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É Desporto

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Klinsmann-Sheringham. A dupla que encantou White Hart Lane

Klinsmann e Sheringham festejaram 52 golos juntos

O Tottenham em 1994/95 tinha tudo para ser uma desilusão para os adeptos. A penalização de 12 pontos e a ausência forçada da Taça de Inglaterra assombraram a pré-época mas não foram suficientes para evitar a contratação de Jürgen Klinsmann. Custou apenas dois milhões de libras e tornou-se um herói instantâneo no clube... com um braço-direito de luxo.

 

Imagine-se um adepto do Tottenham no verão de 1994. Sheringham tinha sofrido uma lesão grave na segunda metade da temporada e, dentro de campo, o 15.º lugar tinha sido a pior classificação desde o final da década de 70. O Mundial dos Estados Unidos podia servir como distração mas os ingleses tinham falhado o apuramento para a fase final.

 

Restava acreditar que a época seguinte servisse de catapulta para recuperar a relevância doméstica. Mas mesmo isso era difícil. O clube tinha sido punido por irregularidades financeiras cometidas durante a década de 80 e fora multado em mais de 600 mil libras, além de uma penalização de 12 pontos no campeonato e a suspensão numa edição da Taça de Inglaterra.

 

O presidente do Tottenham, Alan Sugar, não se conformou com a visão pessimista do futuro e garantiu um horizonte mais limpo. Na guerra da secretaria, não descansou enquanto não eliminou a penalização pontual e a suspensão da FA Cup, mesmo que a multa pecuniária tivesse subido para o milhão e meio de libras. Depois, para garantir que nada faltava ao treinador Osvaldo Ardiles, uma lenda-viva dos Spurs, contratou três futebolistas internacionais que tinham estado no Mundial: os romenos Gheorghe Popescu e Ilie Dumitrescu chegaram do PSV e do Steaua Bucareste e, mais importante, o alemão Jürgen Klinsmann foi contratado ao Monaco.

 

Com a terceira contratação, a troco de dois milhões de libras, Sugar garantiu um estado de euforia total entre adeptos. Osvaldo Ardiles tinha o caminho livre para criar uma equipa de estilo declaradamente ofensivo, com Nick Barmby, Darren Anderson e Ilie Dumitrescu no apoio a Klinsmann e Teddy Sheringham, e a expectativa era tão grande que houve uma afluência desmedida aos jogos da pré-temporada.

 

Dupla goleadora irrepetível

Imagem de marca na época do Tottenham

Os pergaminhos de uma dupla atacante composta por Klinsmann e Sheringham dispensavam apresentações. Se um fora campeão mundial em 1990 e brilhara em todos os clubes que o haviam contratado (Estugarda, Inter e Monaco), o outro sucedera com êxito a Gary Lineker e marcara 43 golos em duas temporadas em White Hart Lane.

 

Poderia ter havido suspeição sobre uma eventual compatibilidade entre ambos mas os primeiros jogos oficiais da temporada demonstraram que o Tottenham tinha, de facto, uma dupla de sonho. Na estreia, em Sheffield com o Wednesday, cada um deles marcou um golo no triunfo por 4-3. Depois, num White Hart Lane a sofrer obras de remodelação e expansão – o que só tornava mais difícil e raro cada bilhete comprado – o germânico bisou no triunfo sobre o Everton por 2-1.

 

Sheringham pode ter demorado a marcar golos de forma regular mas Klinsmann encontrou nos relvados ingleses um habitat perfeito. Criticado por ser simulador, fez do mergulho o seu festejo de eleição. E, verdade seja dita, não parou de festejar nos primeiros meses. Até ao final de setembro, o avançado alemão tinha três golos num jogo da Taça da Liga inglesa e sete em golos em sete jornadas da Premier League. O Tottenham até podia estar numa série negra, fruto de três derrotas consecutivas para o campeonato, mas Klinsmann não perdera o faro de golo.

 

Osvaldo Ardiles perdeu definitivamente o controlo da situação em outubro. A sua visão demasiado ofensiva estava a ser destruída pelos adversários e os maus resultados aumentavam a pressão. Aguentou-se, enquanto pôde, devido ao seu estatuto no clube, mas abandonou o cargo no final do mês, após uma vitória sobre o West Ham (3-1) na 12.ª jornada. O clube tinha acabado de ser humilhado na Taça da Liga (3-0 no terreno do Notts County) e na Premier League estava na segunda metade da tabela (11.º). O seu sucessor, Gerry Francis, não teria uma tarefa fácil.

 

Novembro não trouxe uma única vitória ao Tottenham. Com dois empates e duas derrotas, a dupla atacante fez apenas dois golos e a equipa desceu ao 14.º lugar. Por esta altura, com 19 pontos em 16 jornadas, pensava-se cada vez mais em como a equipa estaria com o futuro na elite em risco se Sugar não tivesse conseguido evitar os 12 pontos de penalização.

 

Recuperação consolidada

Klinsmann foi eleito o jogador do ano

O Tottenham chegou a dezembro com 19 golos marcados pela dupla Klinsmann (13)-Sheringham (6), mas com uma visão de futuro pouco confiante. No entanto, de repente, os pontos começaram a chegar cada vez com maior regularidade.

 

O modelo ofensivo de Ardiles era coisa do passado mas o Tottenham venceu seis dos oito jogos seguintes para a Premier League e iniciou um percurso na Taça de Inglaterra que só viria a ser parado na meia-final com o Everton.

 

Jürgen Klinsmann nunca perdeu a sua identidade goleadora e não teve problemas em manter Sheringham com o seu apoio-satélite: decisivo na manobra da seguinte, mas secundário no momento de marcar golos. Apesar de somar apenas três pontos nas últimas cinco jornadas, o Tottenham terminou a época no sétimo lugar – a melhor classificação da década -, a dez pontos do Newcastle e a onze do Leeds.

 

Teddy Sheringham, pela primeira e única vez durante a primeira passagem pelo Tottenhem (cinco anos), não foi o melhor marcador da equipa. Com 23 golos na temporada, o avançado britânico foi superado por Klinsmann, autor de 29.

 

Os 52 golos marcados pela dupla foram uma marca inesquecível entre adeptos e ainda hoje são recordados como um dos melhores momentos do clube durante a década de 90. A ausência de títulos, porém, e a não qualificação para as competições europeias fizeram com que a dupla se desintegrasse na época seguinte.

 

Jürgen Klinsmann seguiu para o Bayern Munique e foi substituído por Chris Armstrong, que chegou do Crystal Palace e correspondeu na perfeição com 22 golos (Sheringham fez 24). A equipa terminou no oitavo lugar, com os mesmos pontos do sétimo e do sexto, mas não beneficiou da mesma aura que existia com a referência alemã no ataque.

 

Aquela dupla foi especial. E ainda hoje é recordada como uma das melhores da Premier League. Pode nem ter sido a mais concretizadora naquela temporada (os 39 golos só no campeonato ficaram aquém dos 49 marcados por Alan Shearer e Chris Sutton pelo Blackburn Rovers), mas a reputação dos dois jogadores ajudou a construir um estatuto intocável.