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É Desporto

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Kisenosato Yutaka. Desistir para não passar mais vergonhas

O momento da despedida

Saber quando parar é uma das características mais elogiadas aos melhores praticantes de uma modalidade, seja ela qual for. O tema é motivo de debate contínuo e não faltam exemplos no desporto mundial. Há sempre alguém que continua mais tempo do que devia, acabando por sair pela porta pequena, transmitindo uma última imagem vulnerável, incapaz de estar ao nível do que foi em tempos.

 

Este é o maior medo de quem pratica um desporto de alta competição. «Mais vale sair um ano mais cedo do que um ano demasiado tarde», dizem, sabendo os efeitos que uma época a arrastarem-se terão na visão do seu legado. Por outro lado, é difícil combater a tentação de continuar aquilo que sempre fizeram, aquilo que os tornou grandes, aquilo que lhes deu relevância.

 

Para Kisenosato Yutaka, um lutador de sumo japonês que chegou a atingir o topo da carreira, esse momento chegou tarde. Aos 32 anos, depois de uma série de oito derrotas consecutivas e de três desaires seguidos num torneio de Tóquio (Ryogoku Kokugikan), Kisenosato percebeu a mensagem e decidiu agir.

 

«Vou retirar-me e começar a treinar jovens lutadores. Obrigado pelo apoio de todos enquanto estive no ativo. Embora seja lamentável que não tenha conseguido estar ao nível das expectativas de todos enquanto yokozuna, não me arrependo de um único momento da minha carreira», explicou.

 

As lesões não ajudaram Kisenosato. O objetivo sempre foi conseguir uma saída de cena limpa mas a vontade de retribuir o apoio dos fãs fez com que continuasse a competir sem possibilidades de sucesso: «Lamento muito que tenha sido desta forma».

 

Promoção destinada ao fracasso

Kisenosato Yutaka

O seu mentor, Tagonoura, ficou feliz pela promoção de Kisenosato a yokozuna (o título dado aos lutadores que atingem o grau mais elevado na modalidade) mas sempre soube que era algo destinado ao fracasso. «Conseguia perceber que estava em sofrimento», disse. Os números não mentem: a série de oito derrotas consecutivas, já sem contabilizar uma desistência em novembro, é o pior registo de um yokozuna desde 1949.

 

Em março de 2017, Kisenosato era um homem feliz. Tinha sido promovido a yokozuna: era a primeira promoção do género de um lutador nascido no Japão em 19 anos. O início até foi positivo, com a conquista do torneio seguinte, mas as lesões apareceram e não lhe voltaram a dar descanso.

 

Primeiro no joelho. Depois no tornozelo. Mas também no peito e no braço. Por muito que quisesse, não conseguia corresponder às suas próprias aspirações e aos desejos dos adeptos que o queriam ver ao mais alto nível.

 

Os maus resultados levaram a uma onda de desagrado pela própria federação – perder quatro combates consecutivos num mesmo torneio em novembro foi a gota de água -, que aumentou a pressão e colocou a hipótese de um fim de carreira forçado caso não melhorasse o seu desempenho no torneio de Tóquio.

 

A vergonha de continuar a perder, sem hipótese de recuperar, aliada à pressão da federação falou mais alto e o anúncio foi mesmo feito. Na despedida, os adeptos viram um lutar fragilizado mas capaz de lutar por uma vitória. «Foi impressionante a forma como se dedicou para ganhar uma última vez», disse Nishiiwa, um antigo lutador.

 

O adeus de Kisenosato faz com que o Japão volte a estar sem um yokozuna. Em lágrimas na conferência de imprensa, o atleta explicou que tinha encarado este torneio como um tudo-ou-nada. «Treinei para estar na melhor forma possível. Sabia que ia ser decisivo. Desde a lesão, senti confiança que estava a fazer o melhor que conseguia. Lutei com todas as minhas forças mas, pela primeira vez, senti que não conseguia continuar.»

 

O topo da hierarquia do sumo, com a categoria yokozuna, está agora limitada a dois lutadores, ambos da Mongólia: Kakuryu Rikisaburo, promovido em 2014, e Hakuho Sho, promovido em 2007. «É uma posição solitária», explicou Hakuho depois do anúncio de Kisenosato. «Fiquei sem palavras para expressar a minha apreciação pelo seu esforço.»