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É Desporto

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Karoly Takacs. Aprender a disparar com a mão que restava

Especial Jogos Olímpicos (Londres-1948)

Karoly Takacs

A história do campeão dos 25 metros no tiro em Londres-1948 transpira resistência. O húngaro feriu-se com gravidade na mão direita em 1938, ainda antes da II Guerra Mundial, mas aprendeu rapidamente a disparar com a mão contrária e surgiu em Inglaterra preparado para ganhar, surpreendendo toda a gente.

Os acidentes acontecem mas há uns piores que outros. Para Karoly Takacs, a década de 30 pareceu toda um enorme acidente. A participação nos Jogos Olímpicos em Berlim-1936 foi barrada por desempenhar um cargo demasiado elevado no exército húngaro e, quando as regras mudaram e tudo parecia apontar para a sua participação em 1940, o conflito mundial trocou-lhe as voltas.

Esse não foi o único problema. Em 1938, durante uma sessão de treino no exército, sofreu um acidente com uma granada e feriu a mão direita, a sua mão dominante, com gravidade. A carreira como atirador ficou seriamente em risco mas Takacs resistiu. Afinal, continuava a haver uma mão esquerda perfeitamente funcional.

Durante meses, sem que ninguém soubesse, foi treinando a estabilidade do braço e a precisão dos disparos para aparecer numa prova como se estivesse preparado para aquilo a vida inteira. Naturalmente, ganhou.

As suas vitórias na Hungria não correram mundo e Takacs surgiu em Londres-1948 praticamente como um figurante. Ninguém pensava que ele pudesse participar depois do seu acidente e, se participasse, dificilmente conseguiria fazer a diferença.

«Estou aqui para aprender», terá dito ao seu rival argentino, o principal candidato à vitória. E, de facto, houve uma lição. Carlos Valiente terminou com 571 pontos e não conseguiu melhor do que a medalha de prata, já que ficou atrás dos 580 de Takacs. Quatro anos depois, em Helsínquia, o húngaro manteve o domínio e revalidou a medalha de ouro, novamente à frente do sul-americano, que desta vez, apesar de ficar a apenas dois pontos, foi atirado para fora do pódio (4.º lugar).

A perseverança de Karoly Takacs foi um exemplo olímpico para muitos. O húngaro ainda tentou fazer o tri em 1956, em Melbourne, mas não foi além da oitava posição. Seja como for, a história já estava escrita. Contra todos os obstáculos - logísticos, mundiais e funcionais -, Takacs não desistiu e saiu por cima. Continuar a tentar foi o tiro mais certeiro de todos.