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É Desporto

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Jaqueline Mourão. A brasileira que é pau para toda a obra

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O passaporte da atleta de 42 anos soma selos olímpicos: Atenas-2004, Turim-2006, Pequim-2008, Vancouver-2010, Sochi-2014 e PyeongChang-2018. Nunca esteve perto de ganhar uma medalha mas são poucos os que podem dizer que têm experiência em três modalidades olímpicas: mountain bike, cross country (esqui) e biatlo. 

 

A «melhor sul-americana em prova»

 

A prova feminina dos dez quilómetros de cross country nos Jogos Olímpicos de PyeongChang teve 90 participantes. O lote de crónicas candidatas pertence sempre à mesma elite e dificilmente alguém de fora consegue intrometer-se no domínio escandinavo.

 

O tempo da medalha de ouro rondou os 25 minutos e as nacionalidades seguiram-se. Houve Noruega, Suécia, Finlândia, EUA, Suíça, Rússia e Áustria. Seguiu-se Eslovénia, França, Japão, Alemanha, Polónia, Rep. Checa, Itália, Canadá, Austrália e China. Houve ainda Bielorrússia, Letónia, Ucrânia, Cazaquistão, Estónia, Coreia do Sul, Roménia, Eslováquia, Bósnia e Herzegovina, Bulgária, Croácia, Arménia e Lituânia.

 

De uma forma ou de outra, são países ou com tradição na modalidade ou com capacidade de apostar forte na evolução do desporto no seu país e investir a sério, dotando os seus atletas das condições necessárias. Depois, no 74.º lugar, surgiu o Brasil, com Jaqueline Mourão, uma histórica atleta de 42 anos.

 

«Sou de longe a melhor sul-americana nesta prova, bati um monte de países», afirmou no final, bem-disposta, fazendo referência à forma como registou um tempo mais rápido do que as rivais da Argentina (87.ª) e do Chile (90.ª). Para trás, ficaram também atletas da Tailândia, Hong Kong, Coreia do Norte, Montenegro, Turquia, Macedónia, Mongólia, Togo, Islândia, Hungria, Grécia e Grã-Bretanha.

 

«Nos Jogos Olímpicos estão apenas as melhores do mundo e foi uma prova muito dura. Dei o máximo que pude, mesmo depois do susto da véspera», continuou a brasileira, fazendo referência aos problemas de estômago que a obrigaram a ser vista por uma médica.

 

O resultado final foi secundário. «Nunca imaginei que chegaria tão longe. Estou muito feliz por estar aqui e por poder representar o meu país uma vez mais e conseguir a sexta participação olímpica», disse.

 

Uma atleta salta-pocinhas

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Jaqueline Mourão cresceu em Belo Horizonte (Minas Gerais) e demonstrou desde a adolescência uma grande apetência para praticar várias modalidades. Fez natação e ginástica mas foi ao ciclismo que se dedicou mais a sério, sobretudo nas variantes radicais como cross-country e downhill.

 

Quando se estreou em Jogos Olímpicos, em Atenas-2004, já tinha 29 anos. Ninguém pensou que pudesse ser possível mas estava a caminho da história, com seis participações olímpicas. Mas já lá vamos.

 

Um grande culpado de Jaqueline Mourão ser quem é é o marido Guido Visser, que representou o Canadá no cross-country nos Jogos Olímpicos de Nagano, em 1998. Era com ele que vivia no Canadá em 2005 quando, depois de um nevão que forçou o cancelamento de um treino, sentiu a tentação de começar a fazer cross-country na neve.

 

No início, foi quase como piada mas um ano depois estava a competir em Turim, nos Jogos Olímpicos de Inverno. O 67.º lugar foi modesto mas entrou na história: tornou-se a primeira brasileira da história a juntar uma participação no Inverno a uma de Verão.

 

Jaqueline estava apenas no começo. Em Pequim-2008 foi 19.ª classificada na prova de mountain bike, uma posição abaixo da de quatro anos antes, e decidiu concentrar-se a tempo inteiro nos desportos de inverno. Sim, plural.

 

O biatlo como fascínio inesperado

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Se em Vancouver-2010 voltou a disputar a prova de cross-country, não demorou muito até decidir experimentar o biatlo, uma vez mais por culpa de um canadiano: Jean Paquet, um atleta olímpico da modalidade.

 

À primeira vista, achou que não iria gostar. Sendo brasileira, vive com pavor de armas desde que foi assaltada quando era adolescente mas a surpresa foi positiva. «Adorei a sensação de disparar. É divertido, porque sou brasileira e tenho muito medo de armas. Sempre tive medo de violência porque temos muito disso aqui no Brasil, mas quando disparo, e acerto no alvo, adoro».

 

A paixão juntou-se à sede olímpica e em Sochi-2014 participou nas duas modalidades: biatlo e cross country. Mais uma vez, não conseguiu sequer ficar no top-60 mas voltou a entrar na história, entrando para uma pequena elite de quatro atletas com experiência em três modalidades olímpicas entre desportos de Verão e de Inverno.

 

Agora, na Coreia do Sul, chegou à sexta participação olímpica e escreveu novo capítulo brilhante, igualando os recordistas brasileiros Rodrigo Pessoa (equestre), Hugo Hoyama (ténis de mesa), Formiga (futebol feminino) e Torben Grael e Robert Schmidt (vela).

 

Com 42 anos, talvez fosse altura para pendurar os esquis mas Jaqueline Mourão não põe de parte a participação numa sétima edição. «Se o Brasil estiver comigo para me dar força para treinar, vou para mais uma. A idade é um tabu. Depois de passar por isto uma vez, começas a perceber que não é um problema. O mais importante é evoluir na parte técnica e continuar a melhorar, apesar da idade».