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É Desporto

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Ipswich Town. A queda no abismo… 62 anos depois

Ipswich selou despromoção a quatro jornadas do fim

Faltam quatro jornadas no Championship mas o destino está selado. A equipa que venceu uma Taça das Taças e chegou a ser campeã inglesa vai jogar no terceiro escalão pela primeira vez desde 1957. Como um mal nunca vem só, o grande rival Norwich está prestes a celebrar a subida à Premier League.

 

Era o segredo mais mal escondido do Championship. Há muito que se percebera que o futuro do Ipswich Town era sombrio mas foi preciso esperar por este fim-de-semana para carimbar o que toda a gente já percebera: a descida de divisão. Com apenas 28 pontos em 42 jogos, a equipa não se conseguiu manter no segundo escalão inglês e vai dar mais um passo atrás na sua história.

 

A glória do clube que um dia viu Bobby Robson fazer a diferença no futebol europeu parece cada vez mais um momento de arquivo. Campeão do segundo escalão em 1992, o Ipswish estará para sempre na história como um dos clubes que participou na edição inaugural da Premier League (1992/1993).

 

O sucesso na era moderna nunca passou de um fogacho. No total, não conseguiu mais do que cinco participações na Premier League – as três primeiras e duas no início do novo século – e só por uma vez não andou com o credo na boca: quando terminou na quinta posição em 2001 e garantiu o apuramento para a Taça UEFA.

 

A temporada devia ter sido de festa: era a primeira participação nas competições europeias desde 1983. Mas o clube mergulhou na crise e, apesar de ter atingido a terceira ronda da Taça UEFA (eliminado pelo Inter Milan depois de ultrapassar Torpedo Moscovo e Helsingborg), desceu de divisão, entrando em insolvência.

 

O fair-play valeu, ainda assim, o regresso às competições europeias no ano seguinte. Apesar de jogar no segundo escalão inglês, o clube voltou a defender a sua honra no continente. Depois de eliminar, sem dificuldades, o Avenir Beggen do Luxemburgo na pré-eliminatória e o Sartid Smeredevo da Sérvia na primeira ronda, foi travado pelo Slovan Liberec nos penáltis.

 

A memória de um tempo brilhante

Roger Osborne marcou golo memorável em Wembley

Jogar no terceiro escalão é um passo que os adeptos preferiam evitar. Ninguém gosta de descer de divisão, ninguém gosta de ficar cada vez mais longe da elite, sobretudo quando a queda de estatuto é também uma perda de reputação, por muito que o clube tenha um passado com tempos brilhantes.

 

É preciso recuar até 1957 para encontrar a última vez que o Ipswich Town fez parte do terceiro escalão do futebol inglês. Mas aí, ao contrário de hoje, os sinais eram promissores. O clube venceu a sua divisão e deu o primeiro passo para uma história bonita. No início da década seguinte, chegou à elite, depois de ser campeão em 1961, e entrou de forma determinada no mais alto escalão, conquistando o seu primeiro e único título inglês.

 

É legítimo dizer que o Ipswich Town teve direito a uma grande fase por cada década da segunda metade do século XX. Se nos anos 60 foi campeão inglês e garantiu a estreia nas competições europeias (foi eliminado na primeira ronda da Taça dos Campeões pelo futuro campeão Milan), na década de 70 conseguiu também o primeiro e único título na Taça de Inglaterra.

 

Estávamos em 1977/1978 e Bobby Robson já era o treinador da equipa há praticamente dez anos. O clube tinha consolidado a sua presença no primeiro escalão – ininterrupta desde 1968 – e chegara pela primeira vez à final de Wembley. Do outro lado estava o Arsenal de Pat Jennings, David O’Leary, Liam Brady e Frank Stapleton. Com 100 mil nas bancadas, o Ipswich foi mais forte e venceu por 1-0, graças a um golo de Roger Osborne aos 77 minutos. O momento deixou uma marca tão forte no herói que obrigou à sua substituição no minuto seguinte, já depois de ter desmaiado.

 

Glória europeia pela mão de Robson

Plantel do Ipswich Town em 1980/1981

A estreia na Taça dos Campeões em 1962 não tinha sido auspiciosa, apesar da fatalidade de ter defrontado logo o futuro campeão. Mas a história europeia do Ipswich não estava destinada a eliminações precoces. Em 1974, já com Robson ao comando, o clube deu um primeiro sinal ao atingir os quartos da Taça UEFA (eliminado pelo Lokomotiv Leipzig), mas ninguém poderia acreditar no que se viria a passar em 1981.

 

É certo que o Ipswich não foi campeão inglês, como em 1962, mas é legítimo acreditar que 1980/1981 foi a melhor temporada na história do clube inglês, mesmo que a perda do título para o Aston Villa, equipa que fez menos 20 jogos durante toda a temporada, tenha deixado um sabor amargo. A nível doméstico, conseguiu o segundo lugar no campeonato, viu o grande rival Norwich descer de divisão e atingiu a meia-final da Taça de Inglaterra. Fora de portas, só parou depois de erguer a Taça UEFA.

 

O percurso foi dominador. A 17 de setembro de 1980, com o português António Garrido a arbitrar, a equipa goleou o Aris por 5-1 (John Wark fez um póquer) e abriu caminho para uma campanha sensacional. Depois do 6-4 no acumulado contra os gregos de Salónica, o Ipswich afastou o Bohemians de Praga onde jogava o famoso Panenka (3-2), o Widzew Lodz (5-1), o Saint-Étienne de Platini e Rep (7-2) e o Colónia (2-0) até chegar à final com os holandeses do AZ Alkmaar.

 

A competição disputava-se sempre as duas mãos e o Ipswich de Robson tinha vindo a demonstrar uma superioridade magnífica a jogar em casa, com cinco vitórias, 17 golos marcados e apenas dois sofridos. E John Wark era um autêntico sinónimo de golo, com 12 festejos até à final de maio.

 

As duas imagens de marca fizeram a diferença numa final que se decidiu praticamente nos pormenores (5-4 para os ingleses no acumulado). O Ipswich foi dominador em casa (3-0) e John Wark somou mais dois golos (um em Inglaterra, outro na Holanda) para a sua incrível contabilidade de 14 golos na competição.

 

Hoje, estes grandes momentos não são mais do que capítulos nas memórias gloriosas de um clube. A saída de Bobby Robson para a seleção inglesa, em 1982, depois de um novo segundo lugar no campeonato, ajudou a precipitar o fim de uma geração de ouro e o clube não mais voltou a ser o mesmo.

 

O dono, Marcus Evans, pediu desculpa aos adeptos pelos erros cometidos e prometeu que o futuro será brilhante: «Pode parecer estranho dizer isto mas não somos um clube em crise. Voltámos a desenvolver os nossos laços com a comunidade e estamos financeiramente estáveis». De que valerá na próxima época?