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É Desporto

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Guy Roux. O homem que teve tempo para tudo no Auxerre

Guy Roux é "o" símbolo do Auxerre

Era um jovem com vontade de jogar… e de treinar. A teimosia ajudou-o a convencer o presidente do Auxerre a oferecer-lhe o cargo de treinador quando tinha apenas 23 anos, em 1961. Até 2005 só três motivos o tiraram do banco: o serviço militar, a ideia de ser diretor-desportivo e uma operação ao coração. Clube tem 113 anos e é impossível dissociá-lo de Guy Roux.

 

O homem que soube dar um novo cunho ao significado de lealdade no futebol – ou simplesmente amor à camisola – nasceu a 18 de outubro de 1938. Não viveu o suficiente para ter uma noção exata do que significou a II Guerra Mundial, apesar de o seu pai ter sido detido num campo na Checoslováquia. Em plano contrário, não precisou de ter muito tempo para saber que o futebol era a sua paixão.

 

Guy Roux jogava… e treinava desde pequeno. E, na altura, a lealdade a um clube era algo que não lhe assistia. Até chegar ao comando técnico da equipa principal do Auxerre, em 1960, o francês fez de tudo para ter uma oportunidade. Foi treinador de jovens nas competições escolares e dividia as suas atenções desportivas entre a posição de médio na equipa principal do Appoigny e de avançado nos cadetes do Auxerre. Tinha 14 anos.

 

A estreia pela equipa principal do Auxerre chegou aos 16 anos, em 1954/1955, mas a falta de oportunidades fê-lo procurar de tudo para melhorar o seu rendimento. Foi assim que se «ofereceu» ao treinador do Crystal Palace e realizou um pequeno estádio em julho de 1960, por exemplo. Ao voltar, as portas do campeonato francês estavam fechadas.

 

Atrevimento no regresso ao Auxerre

Roux foi treinador-jogador até 1970

Mais tarde, as do Auxerre abriram-se inesperadamente quando estava na bancada a assistir a um particular entre a equipa francesa e os ingleses do Crewe Alexandra. Ao intervalo, o sistema sonoro do estádio pediu a comparência de alguém que soubesse falar inglês para servir de tradutor junto do balneário dos britânicos.

 

Dois jogadores estavam lesionados e era preciso recorrer a alguém que estivesse disponível para jogar a segunda parte. Guy Roux surgiu na linha da frente e, após o jogo, recebeu o convite do presidente do Auxerre para se juntar à equipa. Por esta altura, com 23 anos, Roux já tinha outra ideia em mente: ser treinador-jogador.

 

O presidente, Jean Garnault, mostrou-se renitente e preocupado com a falta de experiência de Roux e recusou o desafio. Mas, dias mais tarde, Guy Roux enviou-lhe uma carta de seis páginas com as ideias principais do seu projeto para o clube e mereceu a aposta. Foi assim que, em 1961, a aventura começou.

 

O quinto lugar na divisão de Honra de Bourgogne não mereceu subida de divisão e teve o condão de interromper a carreira de Roux. Estava na altura de prestar serviço militar, entre setembro de 1962 e dezembro de 1963. O clube lutou pela permanência e o cenário construiu-se para um regresso de Roux em 1964.

 

O crescimento do Auxerre foi progressivo e sem entrar em loucuras. Em 1970, a equipa garantiu finalmente a subida ao terceiro escalão conhecido por Divisão 3 e visto como campeonato amador. Foi nesta altura que, elevada a fasquia, Roux deixou finalmente de acumular as funções de jogador e de treinador, centrando-se apenas na segunda.

 

A sede de aprender movia Roux. Esteve nos Mundiais de 1970, 1974 e 1978, sempre com o objetivo de ver os treinos das principais seleções. Queria aprender o máximo possível para depois replicar os ensinamentos na sua equipa. Os resultados apareceram: em 1974 subiu ao segundo escalão apesar do quarto lugar, atrás de equipas secundárias de Lyon, Saint-Étienne e Marselha.

 

O alpinismo divisionário ficou completo em 1980 com a subida à elite do futebol francês. Por esta altura, já o Auxerre tinha começado a dar cartas na Taça de França, a competição que mais facilmente é associada ao clube e especificamente a Guy Roux. Em 1979, porém, as esperanças do clube morreram na final, perdendo com o Nantes após prolongamento (4-1).

 

Plantar sementes entre a elite

Djibril Cissé foi a última grande referência de Roux

O Auxerre não era visto – nem podia ser – como um dos grandes do campeonato francês. Mas, ano após ano, o clube mostrou ter qualidade para ombrear com os grandes clubes e mostrar-se capaz de, com as premissas corretas, chegar a excelentes resultados.

 

Os títulos demoraram a aparecer mas o primeiro grande momento surgiu logo em 1984, com o terceiro lugar, a cinco pontos de Bordéus e Monaco, e o consequente apuramento para a Taça UEFA. Quis o destino que o primeiro jogo europeu de Auxerre e Roux fosse em Alvalade, com o Sporting.

 

Os leões venceram 2-0, com golos de Manuel Fernandes e Jaime Pacheco, e pensaram que tinham uma boa vantagem para a segunda mão, mas o polaco Szarmach – um dos primeiros grandes reforços do Auxerre – bisou e forçou o prolongamento. Aí, Oceano e Litos marcaram e deram cabo do sonho gaulês.

 

Por esta altura, a academia de formação inaugurada em 1982 começava a dar os primeiros frutos. Seria dali que sairiam talentos como Cantona, Basile Boli e Raphaël Guerreiro (não, não é o português, nem sequer familiar).

 

A década de 90 foi a melhor da história do clube. Atingiu as meias-finais da Taça UEFA em 1993 (caiu nos penáltis em casa contra o Dortmund de Ottmar Hitzfeld e Stéphane Chapuisat), depois de eliminar Lokomotiv Plovdiv, FC Copenhaga, Standard Liège e Ajax, e conquistou a Taça de França em 1994.

 

Dois anos depois, já com Laurent Blanc no plantel, conquistou a dobradinha. Foi o primeiro e único campeonato francês de uma equipa que só acordou para a elite nos anos 80. O feito garantiu a estreia inédita na Liga dos Campeões na temporada seguinte. Uma vez mais, o Dortmund serviu de carrasco, nos quartos-de-final, depois de os gauleses terem superado um grupo com Ajax, Grasshopper e Rangers.

 

Momento certo para parar?

Experiência no Lens foi um fracasso... curto

A aproximação do novo século fez com que Roux sentisse que era altura de promover novos ares no clube. Alegou cansaço, deixou o cargo de treinador em maio de 2000 e continuou como diretor desportivo… durante um ano. Perante a forte cobiça do Leverkusen, acabou a aceitar o convite do presidente do Auxerre para voltar ao comando da equipa.

 

O regresso foi atribulado e teve de ser substituído interinamente entre novembro de 2001 e janeiro de 2002 enquanto recuperava de uma operação ao coração. Quando voltou, havia uma nova geração de talentos a despontar, desde Djibril Cissé a Mèxes.

 

O terceiro lugar em 2002 garantiu novo apuramento para a Liga dos Campeões, que só chegou depois de uma pequena vingança contra clubes portugueses. O Boavista «fez» de Sporting e foi eliminado na terceira pré-eliminatória com um resultado agregado de 1-0. O único golo nos 180 minutos foi de Cissé.

 

A era de Roux estava a chegar ao fim mas guardou dois momentos especiais para o fim: as conquistas da Taça de França em 2003 e em 2005. A última delas foi vista como o motivo perfeito para anunciar o adeus. Afinal, tinha igualado André Cheuva (lendário treinador do Lille na década de 40) com quatro troféus.

 

«Durante os anos em que estive ao comando do Auxerre, conquistei quatro Taças de França. Agora, deixo o caminho aberto para as outras centenas de equipas», disse, bem-humorado.

 

O fim da carreira de Roux foi, uma vez mais, problemático. Dois anos depois, o Lens promoveu o regresso de Roux, contra as leis da liga, que impediam treinadores acima dos 65 anos. A vaga de fundo a favor do sexagenário, então com 68 anos, foi tão grande que até o presidente francês, Nicolas Sarkoxy, interveio.

 

Foi sol de pouca dura. A liga cedeu mas, depois de fazer 890 jogos pelo Auxerre no campeonato, não durou mais do que quatro em Lens. Queixou-se da falta de qualidade da equipa, da falta de adaptação aos seus métodos e de problemas de saúde. Meses mais tarde, quando a equipa desceu, disse ter apenas 4% da responsabilidade.

 

Hoje, a caminho dos 81 anos, Guy Roux é visto como um caso especial e difícil de imitar no futebol moderno. Entre 1961 e 2005, treinou um lote de jogadores com uma qualidade inegável que ajudaram a compor o seu onze de sonho: Joel Bats na baliza; Bacary Sagna, Laurent Blanc, Basile Boli e Taribo West na defesa; Sabri Lamouchi, Enzo Scifo e Corentin Martins no meio-campo; e Djibril Cissé, Andrzej Szarmach e Éric Cantona no ataque. Impressionante.