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É Desporto

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Gordon Hayward. Nem todos os filmes têm finais felizes

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A campanha de Butler foi a história que encantou os Estados Unidos em 2010. Uma equipa sem tradição e sem qualquer favoritismo que foi ultrapassando obstáculos até chegar à final. A perfeição esteve ao alcance no último segundo mas o lançamento do meio-campo de Gordon Hayward não fez mais do que beijar o aro depois de bater na tabela. 

 

Perder por 7,6 centímetros

 

«Aí está Gordon Hayward com o ressalto… tenta o lançamento… ooooooooh! Quase que entrou! E Duke é o rei da dança!» Foi assim que o narrador da final de 2010 entre os Duke Blue Devils e os Butler Bulldogs comentou os últimos 3,6 segundos do encontro.

 

Butler perdeu. Gordon Hayward não conseguiu imitar o que já tinha feito na final estadual do Indiana ao nível do ensino secundário e falhou por pouco. Por muito pouco. O agora jogador dos Boston Celtics garante que a sensação ao ver a bola sair dos dedos foi boa e muita gente pensou que o triplo ia entrar, mas não estava destinado. A bola bateu na tabela, beijou o aro e ressaltou para o lado de fora. De acordo com os estudos da ESPN, foi por 7,6 centímetros. Ou, se preferirem, por menos de um grau na trajetória de lançamento.

 

A história da Cinderela, como os norte-americanos tanto gostam de chamar aos casos de equipas que chegam longe de forma inesperada, caiu na final. De forma dramática. Quando todo o país torcia por Butler. Ou contra Duke.

 

«Se tivesse entrado, seria recordado como o melhor lançamento de sempre», disse Mike Krzyzewski, treinador de Duke, num pequeno documentário do Bleacher Report em 2016. Lá, logo na altura, também foi muito elogioso à campanha do adversário, um pouco como já tinha feito em 1992, depois de ter vencido a Kentucky com um lançamento em cima do final do jogo.

 

«Antes de mais, foi um grande jogo de basquetebol. Quero congratular a fantástica equipa de Butler e os seus adeptos. Foi um ano fabuloso. Jogaram um encontro muito duro. É difícil para mim pensar que somos nós os campeões», disse.

 

Brad Stevens sempre se sentiu conformado: «O nosso melhor jogador tinha a bola. Acho que toda a gente pode viver com isso». Por outro lado, garantiu que não lhe cabe dizer em que lugar ficaria Butler num ranking de underdogs. «Os outros é que têm de decidir. No nosso entender, tínhamos de ganhar aquele jogo.»

 

A ESPN escreveu que este encontro «ficou a um cruel lançamento de ser um final de Hollywood». Na véspera, o New York Times tinha apelidado o jogo como «a final mais ansiada da última década». O resultado foi baixo, 61-59, mas as audiências confirmaram a expectativa.

 

Uma campanha surpreendente

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Butler é uma universidade sem tradição. No Indiana, habituou-se a viver na sombra dos pesos pesados como Indiana, Indiana State ou Purdue. O estado é visto como a capital do basquetebol mas os Bulldogs nunca tiveram grandes resultados. Até 2009/2010.

 

Brad Stevens tinha 33 anos e estava a cumprir a sua terceira temporada com a equipa de uma universidade privada com apenas 4200 estudantes. A filosofia de privilegiar o coletivo, conseguindo retirar de cada jogador o melhor que tem para dar à equipa, fez muita diferença e as perspetivas no início do ano eram animadoras.

 

«Temos uma equipa muito boa, mas não sei até onde conseguiremos chegar. Sei que no ano seguinte, aí sim, vamos ter condições para ir muito longe», confessara o treinador em conversa com o pai.

 

Butler era a equipa de Gordon Hayward e Shelvin Mack. Nesse Verão, os dois tinham integrado a seleção de sub-19 dos Estados Unidos que conquistara o título mundial. Seriam eles também a liderar os Bulldogs rumo a uma campanha histórica.

 

A fase regular terminou com um registo de 26 vitórias e quatro derrotas e abriu caminho para o título da Horizon League Tournament, que valeu o acesso direto ao torneio final. Aí, os Bulldogs apareceram como quintos cabeças-de-série da sua região (existem quatro de 16). Derrotaram UTEP e Murray State na primeira semana e começaram a desenhar a verdadeira surpresa na segunda semana, com um 63-59 frente a Syracuse, a equipa mais cotada.

 

O filme podia estar apenas a começar mas o feito já era histórico: nunca Butler tinha chegado às últimas oito equipas do torneio final da NCAA. Dias depois, foi a vez de Kansas State cair aos pés de Hayward, Mack e companhia.

 

Brad Stevens tornou-se o treinador mais jovem a levar uma equipa à final four desde Bob Knight com Indiana em 1973, na altura com 32 anos. Butler era também a universidade com menos estudantes a alguma vez ter chegado a uma final four. Melhor? Os jogos decisivos iam ser jogados em Indianápolis, a menos de dez quilómetros da universidade. Não podia ser mais apropriado.

 

Acordar o país para a façanha

 

Butler não era mais uma história de rodapé. Era a manchete. Por todo o país, conhecia-se cada vez melhor o que os Bulldogs estavam a fazer e torcia-se para que pudessem chegar até ao fim. Em Indianápolis, o primeiro obstáculo foram os Michigan State Spartans de Draymond Green.

 

Resultado: 52-50 e 25.ª vitória consecutiva na temporada. Tom Izzo, o treinador da equipa adversária, não se coibiu de elogiar Butler: «Gosto da forma como jogam. Gosto da história deles».

 

Toda a gente gostava. E passou a gostar ainda mais quando se soube que o adversário da final seria Duke. Algures durante a década de 90, Duke começou a ser o vilão nos Estados Unidos. Ou se torce por eles ou contra eles, é uma equipa que não deixa ninguém indiferente. E quando, a juntar a esse pormenor, há do outro lado uma equipa a surpreender e a conquistar o coração de todos, a história torna-se ainda mais intensa.

 

O jogo foi isso mesmo, intenso. A maior vantagem foi de seis pontos e Butler nunca permitiu que Duke sentisse que tinha o jogo na mão. Com razão para isso. O primeiro grande susto surgiu nos últimos 13 segundos, quando Butler tinha a posse de bola e perdia apenas por um. 

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Como sempre, a jogada foi desenhada para Gordon Hayward. A estrela da equipa podia ser a estrela da final. Fez uma jogada que estava habituado a fazer mas falhou. E permitiu o ressalto de Zoubek. O poste de Duke foi para a linha de lance livre com pouco mais de três segundos para o fim e, depois de converter o primeiro, falhou o segundo propositadamente, seguindo a indicação do treinador.

 

«Foi uma decisão de risco», disse Krzyzewski. «Sabia que se corresse mal, me iam matar, mas queria tirar a hipótese a Butler de poderem pensar melhor uma jogada.» O resto é história: Hayward tentou, ficou muito perto, mas o capricho desviou a bola do cesto.

 

Brad Stevens estava de consciência tranquila: «Quando se é treinador destes jogadores, podemos estar sossegados com o que vamos alcançar. Ganhando ou perdendo, sabemos que vão dar, e deram, tudo o que têm. Não há nada para nos deixar a pensar. Disse-lhes lá dentro que o que fizeram, o que alcançaram juntos, vai durar mais do que uma noite, independentemente do resultado».

 

A dedicação de Butler conquistou o coração dos norte-americanos e Barack Obama não foi exceção. O presidente ligou à equipa no dia seguinte, exatamente para dar uma palavra de conforto. «Acho que diz muito sobre as pessoas que desfrutaram desta campanha connosco», explicou Gordon Hayward. «Receber um telefonema dele foi muito bom para nós», acrescentou.

 

A partir daí, nada mais foi o mesmo. Hayward seguiu para a NBA e foi a nona escolha no draft (Utah Jazz) e Brad Stevens regressou para cumprir a profecia que tinha dito ao pai e chegar realmente longe. Embora, mais uma vez, não tenha ido além de nova derrota na final, agora com os Connecticut Huskies (41-53).

 

«As pessoas disseram que éramos uma história da Cinderela mas nós nunca nos vimos assim», comentou Hayward. Butler foi a melhor história que nunca chegou a acontecer.