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É Desporto

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Geoffrey Boycott. O «herói» de Theresa May

Geoffrey Boycott a fazer o que sabia melhor

«Posso dizer-vos apenas que se devem lembrar algo de intervenções minhas anteriores sobre críquete, quando disse que um dos meus heróis sempre foi o Geoffrey Boycott? E o que é que vocês sabem sobre ele? Que fazia o que era necessário e conseguia os pontos necessários no final.»

 

Foi desta forma que Theresa May, primeira-ministra britânica, respondeu a uma pergunta sobre quantos membros do seu governo teriam de sair antes de se sentir forçada a abandonar o cargo. Houve, no entanto, um pormenor que não se pode ignorar: tanto a pergunta como a resposta obedeceram a uma metáfora de críquete.

 

Em vez de membros do gabinete, o jornalista utilizou wickets, termo que se usa para o conjunto de três “paus” e que é colocado junto ao batedor, que é eliminado sempre que permite que os wickets sejam derrubado pela bola.

 

Theresa May foi fiel à metáfora e recorreu a uma das figuras mais famosas do críquete britânico. Mas quem é ele afinal?

 

Geoffrey Boycott tem 78 anos (16 anos mais velho do que Theresa May) e jogou ao mais alto nível entre 1962 e 1986. Feitas as contas, começou a ser um destaque no Reino Unido quando May tinha apenas seis anos e fez carreira durante toda a adolescência da política, uma conhecida fã da modalidade.

 

O apelido de Geoffrey era quase uma premonição. O batedor do Yorkshire servia de autêntico boicote aos objetivos dos adversários, e defendia o wicket como ninguém, ao mesmo tempo que ia somando pontos: ao bater na bola e somando corridas entre as duas bases, enquanto os adversários não conseguiam derrubar o wicket, fosse no lançamento ou durante as corridas de Boycott.

 

A sua capacidade inata fez dele uma opção natural para ser sempre o primeiro batedor de cada equipa e os pontos foram-se acumulando naturalmente. Foi o primeiro inglês a ter uma média de 100 pontos por jogo durante uma temporada – e fê-lo duas vezes (1971 e 1979).

Geoffrey Boycott

Boycott não era, contudo, uma figura consensual, à imagem da sua fã Theresa. O ambiente com os colegas de equipa era conflituoso e a sua personalidade individualista vinha sempre à tona.

 

Esta propensão apareceu logo na adolescência, quando decidiu sair da escola aos 17 anos porque não queria estar dependente financeiramente – ou ser um fardo – dos pais. Além do mais, tinha um sonho que não queria deixar para trás: ser jogador profissional de críquete.

 

A qualidade fez a diferença desde cedo e começou a ser visto como um líder. Não pelo que inspirava nos outros mas sim pelo exemplo que dava enquanto jogador. A chegada a capitão (uma espécie de treinador-jogador no críquete) da equipa de Yorkshire County foi uma inevitabilidade, tal como a sua despromoção a simples jogador, anos mais tarde.

 

Boycott não era flor que se cheirasse e a decisão, em 1978, foi tratada com paninhos-quentes, apesar de ter calhado em cima da morte da mãe de Geoffrey. O timing, no entanto, não poderia ter sido pior. «São pessoas muito mesquinhas, gente que acha que está sempre certa. Isto estava tudo combinado. Sabiam o que iam fazer mas ao menos podiam ter adiado uns dias. Podiam ter permitido que pudesse enterrar a minha mãe em paz, mas tinham muita urgência», queixou-se.

 

Toda a carreira de Boycott seguiu esta tendência. Figura proeminente enquanto era absolutamente decisivo em campo, mas problemática, propensa a discussão e polémica quando os responsáveis entenderam que tinha chegado a um ponto sem retorno.

Geoffrey Boycott

Os números, contudo, entram para a história. Com uma série de recordes, Boycott será para sempre recordado como um dos melhores jogadores de Inglaterra. A personalidade? Essa foi sempre um problema mas nunca mudou, nem mesmo quando deu o salto para a televisão e começou a comentar jogos.

 

Mantendo a sua posição individualista – ignorando quaisquer etiquetas de convívio – sempre se apresentou com a formalidade necessária e com uma tendência memorável para frases que entraram no dicionário do desporto. Fora do críquete, a sua vida está marcada por dois grandes momentos: o cancro na garganta, que provocou uma paragem na carreira como comentador, e a acusação de agressão a uma antiga namorada.

 

Theresa May sempre gostou dele. Talvez por não ser uma figura unânime, com muitos defeitos, mas que conseguia render dentro de campo. A política quer emanar esta descrição e fazer o mesmo noutro campo. Aí será outra história.