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É Desporto

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Fiji. Quando um golpe de Estado não parece interferir

Fiji no Mundial-1987

Instabilidade política nas Ilhas Fiji tornou a preparação da seleção de râguebi para o Mundial inaugural em 1987 um pesadelo. Mesmo assim, apenas dez dias depois do primeiro golpe de Estado que o país viu naquele ano, os jogadores chegaram à Nova Zelândia e deram início a uma campanha brilhante que só terminou nos quartos-de-final.

A incerteza fijiana foi tão grande que a organização quis guardar um trunfo na manga. Caso a instabilidade política viesse a afetar a seleção, a Samoa Ocidental estava preparada para servir de alternativa e garantir a estreia na primeira edição da história.

Havia razão para temer. O tenente-coronel Sitiveni Ribuka, o terceiro na linha de comando da Força Aérea, fazia parte da minoria indígena e representava uma comunidade que tinha estado em constante tensão com outros grupos étnicos desde a independência do Reino Unido.

As Fiji tinham acabado de ter eleições mas Rabuka agiu e assumiu a autoria do golpe de Estado que depôs o primeiro-ministro Timoci Bavadra. A organização do torneio temeu que os jogadores não conseguissem sair do país e Nick Shehadie, líder do comité, entrou em contacto com a federação da Samoa Ocidental.

«Acabou por ser bom que não tenha sido preciso recorrer à alternativa, as Fiji tornaram-se uma das equipas mais populares do torneio», disse.

Seria difícil para uma seleção como as Ilhas Fiji, mesmo na máxima força, poder sequer sonhar em fazer a diferença numa prova em que havia Austrália, Nova Zelândia e as principais potências europeias (África do Sul ficou de fora por causa do apartheid). Mas, dentro das suas limitações, as Fiji seduziram os adeptos e começaram logo a vencer, apenas dez dias depois do golpe de Estado.

A 24 de maio, na Nova Zelândia, a equipa não teve dificuldade em derrotar a Argentina por 28-9. Depois deste resultado, o caminho para os quartos, num grupo que incluía os All Blacks, ficava dependente única e exclusivamente do jogo com a Itália. Por isso, numa estratégia pragmática, o selecionador decidiu poupar alguns dos seus jogadores contra a Nova Zelândia (13-74) para garantir uma equipa fresca no jogo crucial.

All Blacks derrotaram Fiji na fase de grupos

Quando a Argentina derrotou a Itália na segunda jornada, as contas ficaram mais complexas. As Fiji até podiam perder com a Itália, como veio a acontecer, que tudo dependeria dos critérios de desempate, sobretudo os ensaios. Aí, apesar da derrota com a equipa europeia (15-18), no terceiro jogo num espaço de sete dias, as Fiji seguiram em frente por culpa de seis ensaios. Itália e Argentina também terminaram com dois pontos mas fizeram apenas cinco e quatro ensaios, respetivamente.

Os objetivos mínimos estavam alcançados. E, se quisermos ir mais longe, os máximos (realistas) também. Nos quartos, as Fiji marcaram encontro com a França sabendo que só um grande milagre conseguiria fazer a equipa avançar rumo às meias-finais.

O estilo de jogo das Fiji convenceu adeptos – a grande maioria dos 17 mil que marcaram presença no Eder Park em Auckland torcia pelos insulares – mas não foi suficiente para derrubar os gauleses, que levaram a melhor por 31-16.

De regresso a casa, o cenário continuou problemático. Os jogadores das Fiji foram heróis durante algum tempo mas a situação estava longe de melhorar. Poucos meses depois, a 28 de setembro, houve segundo um golpe de Estado, que foi ainda mais longe do que o primeiro, depondo Isabel II como Rainha das Fiji e abrindo caminho para a proclamação da República a 7 de outubro. O líder do segundo golpe de Estado? Sim, só podia ser Sitiveni Rabuka novamente.