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É Desporto

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F1 700. Uma corrida ganha por Fisichella no «videoárbitro»

Giancarlo Fisichella no Grande Prémio do Brasil

A confusão marcou o Grande Prémio número 700 na história do Mundial de Pilotos na Fórmula 1. O circuito de Interlagos devia receber 71 voltas mas a corrida teve um fim precipitado. O pódio só teve dois pilotos porque Alonso – terceiro classificado - estava a receber assistência médica. E Räikkönen festejou o primeiro lugar na cerimónia apenas para depois ver o triunfo atribuído a Fisichella.

 

Há quem diga que não há nada suficientemente mau que não possa piorar. Pela mesma lógica de ideias, vamos substituir o adjetivo mau por confuso. E, nesta nova ordem de raciocínio, o Grande Prémio do Brasil, terceira corrida da temporada de 2003 da Fórmula 1, está num lugar de enorme destaque.

 

É difícil encontrar uma estrutura narrativa que consiga fazer jus ao caos que se abateu sobre o Autódromo José Carlos Pace, em São Paulo, a 6 de abril de 2003. Na véspera, os brasileiros tinham tido motivos para festejar, com o Ferrari de Rubens Barrichello a garantir a pole position, com apenas 11 milésimos de vantagem sobre o McLaren-Mercedes de David Coulthard.

 

O domingo seria um dia para confirmar a superioridade mas tudo foi diferente do esperado. A tempestade que se abateu sobre São Paulo tornou a pista muito mais difícil, praticamente sem aderência e, por razões de segurança, a partida foi feita com o safety car em ação, dez minutos depois da hora marcada.

 

A liderança de Rubens Barrichello tinha os minutos contados mas tudo foi imprevisível em pista. O primeiro lugar voltou a mudar de mãos para o brasileiro e enquanto uns carros começavam a aproveitar as partes secas, outros despistavam-se assim que apanhavam um setor mais molhado.

 

Giancarlo Fisichella, o futuro vencedor da corrida, arriscou e adotou uma estratégia de encher o depósito no início, poupando ao máximo durante as inúmeras entradas do safety car em ação. No fim, por razões inesperadas, a aposta deu frutos. «Estava no limite. Não teria chegado até ao fim [se houvesse 71 voltas]», confessou.

 

A corrida devia ter durado 71 voltas. Mas os sucessivos acidentes precipitaram a decisão de mostrar a bandeira vermelha depois de um incidente provocado por Fernando Alonso. O Renault do espanhol protagonizou um dos momentos mais «espetaculares» da tarde, ao não abrandar perante as bandeiras amarelas e a embater a toda a velocidade num pneu perdido no meio da pista do Jaguar-Cosworth de Mark Webber, que se tinha despistado instantes antes. O rescaldo do acidente deixou destroços por toda a pista, bloqueando qualquer passagem segura e tornando impossível que a corrida prosseguisse.

Destroços invadiram circuito de Interlagos

Por esta altura, já não havia nenhum Ferrari em pista – foi o primeiro abandono de Michael Schumacher em mais de um ano – e Giancarlo Fisichella estava no primeiro lugar, seguido de Kimi Räikkönen e... Fernando Alonso. Mas o regulamento da FIA dizia que, quando uma bandeira vermelha é mostrada, é contabilizada a classificação que se verificava duas voltas antes. O italiano ultrapassara o finlandês na volta 54 e os comissários entenderam que o líder ainda estava na volta 55. 

 

O fim do Grande Prémio implicaria, nesta lógica, Räikkönen no primeiro lugar, Fisichella no segundo e Alonso no terceiro. A cerimónia do pódio - muito confusa - teve apenas dois pilotos porque o espanhol estava a ser assistido na sequência do acidente mas o sabor do triunfo do finlandês durou apenas… cinco dias.

 

A FIA só tomou a decisão 11 de abril, depois de uma investigação ter chegado à conclusão que, no momento em que as bandeiras vermelhas foram mostradas, Fisichella já estava na 56.ª volta. Sendo assim, a classificação contabilizada passaria a ser a da 54.ª volta, legitimando o primeiro lugar do italiano.

 

Na corrida seguinte, em Imola, fez-se uma cerimónia improvisada para emendar toda a confusão do Brasil. Alonso estava finalmente no pódio e Räikkönen e Fisichella trocaram de posição. Foi a primeira de três vitórias oficiais do piloto italiano na Fórmula 1 e claramente a mais memorável.

 

Curiosamente, os dois pontos que Räikkönen «perdeu» com esta alteração foram precisamente a diferença para Michael Schumacher no final do Mundial de Pilotos. Poderia ter sido a diferença mais pequena a decidir um título: o campeonato continuaria a ser do alemão, por ter vencido seis provas contra apenas duas do finlandês.