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É Desporto

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Dínamo Dresden. O maior meltdown na história da UEFA?

Jens Ramme sofreu seis golos na segunda parte

As equipas da República Democrática da Alemanha – e a própria seleção nacional – tinham a fama de deixar fugir vantagens nos momentos decisivos mas ninguém podia prever o desastre do Dínamo Dresden nos quartos de final da Taça das Taças em 1985/1986. Para piorar a situação, o adversário vinha da RFA (Bayer Uerdingen).

O Dínamo Dresden sempre foi uma das melhores equipas da RDA. Era tricampeão nacional nos anos 70 quando o Estado começou a «promover» o Dínamo Berlim e retomou o topo do futebol doméstico nos últimos anos antes da unificação. Na Europa, contudo, os resultados não apareceram.

Não conseguiu vencer um título como o Magdeburgo nem sequer atingir finais como o Carl Zeiss Jena e o FC Lokomotive Leipzig. Fez pior, muito pior: num ano em que prometia chegar longe, rubricou aquela que pode ser vista como a maior marcha-atrás na história de uma eliminatória europeia. Tinha o apuramento para as meias-finais da Taça das Taças em 1985/1986 nas mãos mas, num espaço de 30 minutos, tudo mudou e foi apanhado pelo vendaval ofensivo do Bayer Uerdingen, da rival RFA.

Vamos por partes. As duas primeiras eliminatórias mostraram um Dínamo Dresden capaz. Começou por eliminar o Cercle Brugge graças aos golos fora (3-2 na Bélgica e 2-1 em casa) e depois despachou o HJK Helsínquia sem dificuldade, goleando 7-2 em casa depois de perder pela margem mínima na Finlândia.

O sorteio ditou que o adversário dos quartos de final seria o Bayer Uerdingen. Na primeira mão, o triunfo por 2-0 aumentou a confiança da equipa de Dresden. O talento abundava: Matthias Sammer estava a dar os primeiros passos e era titular com apenas 18 anos e Ulf Kirsten era destaque no ataque aos 20 anos. Depois, na equipa orientada por Klaus Sammer, pai de Matthias, havia ainda o extremo goleador Frank Lippmann.

Frank Lippmann era a maior vedeta do Dínamo Dresden

Nos primeiros cinco jogos da campanha, Lippmann (24 anos) tinha marcado quatro golos. E, em Uerdingen, festejou mais uma vez, ainda na primeira parte. O Dínamo Dresden parecia imparável: foi para o intervalo a vencer por 3-1 e tinha um pé e meio nas meias-finais.

A lesão de Matthias Sammer (substituído aos 28 minutos) não chegava para assustar. Nem mesmo a substituição do guarda-redes Bernd Jakubowski, também lesionado, ao intervalo. A vantagem de 5-1 parecia demasiado grande; além do mais, a equipa já tinha marcado fora. Feitas as contas, o Bayer Uerdingen precisava de marcar cinco golos na segunda parte. Era uma tarefa hercúlea. Impossível de acontecer. Não estivesse do outro lado uma equipa da RDA.

A entrada de Jens Ramme para a baliza não justifica tudo. Num espaço de sete minutos, entre os 58 e os 65, o Bayer Uerdingen marcou três vezes e ficou em vantagem no marcador, por 4-3. Era insólito mas continuava a ser suficiente para o Dínamo seguir em frente.

À entrada para o último quarto de hora, a vantagem mantinha-se do lado da RDA, que até podia sofrer mais uma vez. E foi precisamente isso que aconteceu aos 78 minutos. Num abrir e fechar de olhos, a equipa da RFA voltou a marcar (81 minutos) e fechou a contagem aos 86. Feitas as contas, o Bayer Uerdingen venceu o jogo por 7-3 e a eliminatória por 7-5.

«Não há nada que possa desculpar este desfecho», disseram os dirigentes do clube. «Milagre do Estádio Grotenburg», exultou a imprensa da Alemanha federal.

Por mais estranho que possa parecer, o pior ainda não tinha acontecido. Na manhã seguinte, Frank Lippmann decidiu fugir e deixar para trás os seus colegas. A afronta à RDA, ainda a recuperar da humilhação da eliminatória, foi tão grande que as imagens dos festejos do seu golo foram cortadas do resumo televisivo no dia seguinte.

Lippmann tinha uma relação conturbada com a Stasi. No passado tinha recusado o papel de informador – algo que muitos dos seus colegas faziam sem grandes resultados concretos, como é exemplo Ulf Kirsten – e estava a ser investigado pelo acidente contra uma carrinha que transportava prisioneiros do Estado. Ali, depois da humilhação aos pés do Bayer Uerdingen, a oportunidade para escapar foi perfeita.

Quem ficou para trás pagou por isso. O seu colega de quarto, o experiente líbero Hans-Jürgen Dörner, perdeu a braçadeira de capitão e foi praticamente forçado a terminar a carreira dois meses depois. O treinador Klaus Sammer, mais um ávido crítico do estado das coisas na RDA, ficou com o futuro incerto e também saiu do clube, só voltando a treinar seis anos depois, precisamente no Dínamo Dresden.

À sua maneira, todos foram protagonistas de uma das histórias mais rocambolescas do futebol europeu. E uma das mais negras da República Democrática da Alemanha.