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É Desporto

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Croácia-1998. Uma geração à parte com Krpan em destaque

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Suker, Boban e Prosinecki já não são os cabeças-de-cartaz do melhor resultado da Croácia num Mundial mas continuarão a ser os heróis de uma geração que nasceu jugoslava, perdeu familiares e amigos durante a guerra e elevou ao expoente máximo o orgulho de um novo país. O «único verdadeiro herói» é, ainda assim, Petar Krpan, avançado que viria a jogar no Sporting e na União de Leiria.

 

Um terceiro lugar ofuscado

 

A Croácia de Zlatko Dalic tornou-se a 13.ª seleção na história do futebol a atingir uma final de um Mundial. À imagem da Holanda, Checoslováquia, Hungria e Suécia, não conseguiram vencer mas a campanha no Rússia-2018, muito alicerçada no talento e qualidade de Modric e Rakitic, tornou-se inevitavelmente a melhor campanha na história da Croácia.

 

A história é curta. O país é filho da Guerra dos Balcãs e só chegou a um Mundial pela primeira vez em 1998. Aí, mais do que o talento dentro de campo, havia toda uma identidade e orgulho em jogo. Davor Suker, Zvonimir Boban, Robert Prosinecki, Robert Jarni e Igor Stimac tinham sido campeões do mundo sub-20 pela Jugoslávia em 1987 mas agora jogavam com o orgulho redobrado.

 

E Suker, Prosinecki e Jarni até tinham integrado o plantel da Jugoslávia no Mundial de Itália. O goleador não foi utilizado mas o médio talentoso não só jogou como marcou aos Emirados Árabes Unidos na fase de grupos.

 

Oito anos depois, todos eram muito mais do que jogadores de futebol. Mantinham o talento e a qualidade dentro de campo mas eram também vítimas de um conflito que não olhou à inocência na altura de escolher alvos.

 

Irreverência controlável

 

A fama dos jogadores dos Balcãs precede-os. São apaixonados, muitas vezes irracionais, violentos. Têm o talento dos brasileiros e, ao mesmo tempo, o sangue na venta dos argentinos e a agressividade dos uruguaios. Mais do que a necessidade de haver um treinador capaz de incutir ordem em campo, é necessário haver alguém que imponha respeito e disciplina fora dele.

 

Em 1998, Miroslav Blazevic foi esse homem. Com uma lógica de consistência acima de tudo, a Croácia foi galgando oposição até atingir as meias-finais, depois de bater a Alemanha por 3-0. Em casa, os jogadores já eram heróis.

 

Franko Tudjman, o primeiro presidente da Croácia, fez questão de o salientar antes do jogo com a França. «Retirou-nos a pressão. Disse-nos que já éramos cavaleiros da Croácia», explicou Slaven Bilic, na altura ainda com cabelo.

 

Os croatas no Mundial foram muito mais do que figurantes da Guerra dos Balcãs. Petar Krpan, que viria a ser jogador do Sporting e da U. Leiria após o Mundial, combateu contra os sérvios numa altura em que tinha apenas 17 anos. Entre as vítimas, estavam dois amigos de Asanovic. E o irmão de Stimac também participou ativamente numa guerra que matou vinte mil croatas.

 

O futebol tornou-se a forma de afirmação do país. «Queríamos mostrar aos sérvios que o futebol ainda estava vivo, que nós ainda estávamos vivos», recordou Stimac, assumindo que a equipa é muito mais forte em campo por causa daquilo que teve de passar. «Não há nada capaz de nos meter medo durante um jogo», realçou.

 

Krpan é mesmo o «único verdadeiro herói»

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O futuro jogador do Sporting foi o número 2 da Croácia no Mundial-1998. O avançado do Osijek aparecia sempre bem-disposto, sorrindo para a câmara, fazendo o v de vitória com os dedos e quase sempre junto de Miroslav Blazevic.

 

Quando teve a possibilidade de entrar em campo, contra a Roménia nos oitavos-de-final, notabilizou-se por ter falhado o golo duas vezes na mesma jogada, num lance em que cada perna parecia pesar três toneladas.

 

Ainda assim, Boban não teve dúvidas quando feita a pergunta sobre quem seria o maior herói da geração de 1998. Na verdade, o único herói. «O único verdadeiro herói desta geração é o Petar Krpan. Enquanto nós estávamos em Milão, Madrid, Alemanha e França, ele era menor de idade e andava em Osijek de espingarda na mão.»

 

«Enquanto adolescente, estive a defender a cidade durante cerca de meio ano», disse Krpan numa entrevista. Ao contrário de outros jovens, que foram continuar os estudos para o estrangeiro, o avançado sentiu que não podia deixar Osijek.

 

Quando o comandante lhe disse que se ficasse teria de ir para a frente do combate, Krpan não se deixou intimidar, pegou numa espingarda e cumpriu o seu dever da mesma forma que todos os outros. «Sou um sobrevivente. Tive sorte. Escapei ileso ao meu estágio no campo de batalha, e independentemente do difícil que foi para a cidade e para todos nós, no final acaba por ser uma linda memória da minha vida».

 

A inclusão de Krpan na lista de convocados da Croácia mereceu críticas. Houve quem tivesse acusado o presidente do Osijek de ter pagado à federação pela convocatória, recuperando depois o dinheiro, com lucro, após a transferência para o Sporting. Krpan nega esta teoria: «Os que inventam essas histórias esquecem-se que tinha feito duas temporadas fenomenais no Osijek e que já tinha tido grandes propostas para ir para o estrangeiro mesmo antes do Mundial.»

 

Os sinais dados nos encontros de preparação, como as três assistências em 20 minutos contra a Austrália, ou as exibições na Taça UEFA contra o Anderlecht em agosto de 1998, chamaram a atenção do clube português. «Foi isso que fez a diferença. Um clube dessa grandeza não contrata jogadores só por terem olhos bonitos», disse.

 

Thuram como vilão

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Se a Croácia tivesse entrado num Stade Denis em Paris com medo, teria havido motivos válidos. O estádio estava com 76 mil adeptos – na sua esmagadora maioria franceses – e no relvado havia um tal de Zinedine Zidane, a caminho de se afirmar como uma lenda na história do futebol.

 

A lista de motivos podia continuar e talvez o nome de Lilian Thuram não aparecesse no top-10. O problema é que foi mesmo o improvável lateral a resolver o jogo. Primeiro, restabelecendo a igualdade no marcador no minuto seguinte ao golo de Suker. Depois, com o pé esquerdo, aumentando ainda mais a lei da improbabilidade, a bater Ladic para o 2-1.

 

A Croácia caiu de pé, tal como em 2018, e contra a França. Foi até este ano a melhor campanha dentro de campo de uma seleção croata e continuará a ser recordada com carinho na mente e na pele de todos os croatas.

 

É certo que deixou de ser o melhor resultado. Mas o significado de 1998 extrapola a importância desportiva. Como Stimac sublinhou, jogar era uma forma de mostrar que os croatas estavam vivos durante a guerra. Em 1998, já num período em que as feridas começavam a sarar, jogar e terminar no terceiro lugar foi um grito que o país deu ao mundo para demonstrar o seu talento e o orgulho croata.