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É Desporto

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Chris Mazdzer. E do desespero saiu uma medalha inédita

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Norte-americano entrou na história ao conquistar a primeira medalha individual para os Estados Unidos no luge masculino. E fê-lo apenas um mês depois de ter tido um desabafo desesperado sobre a ausência de resultados. 

 

Contra a perda de tempo

 

Chris Mazdzer não gosta de perder tempo, ninguém gosta. Mas quando quem está em causa é um atleta que compete em modalidades que se decidem por centésimos de segundo, a obsessão pela cronomentalidade torna-se ainda maior.

 

No caso do norte-americano, a obsessão chegou ainda antes da própria modalidade. Do estado de Nova Iorque, Chris cresceu não muito longe do complexo olímpico de Lake Placid. Quando era mais novo, decidiu ir experimentar uma modalidade de inverno e estava indeciso entre o luge e o bobsleigh. O motivo da escolha foi o mais mundano possível: a fila para o primeiro era mais pequena e ia demorar menos tempo.

 

Muitos anos depois, em janeiro de 2018, já como atleta conceituado no luge, Chris Mazdzer deu uma nova dimensão ao seu desespero com o tempo. «Aquilo que me está a matar e a enlouquecer no último ano é que parece não importar nada do que eu faço. A minha capacidade para ser rápido e competir entre a elite mundial desapareceu… e não faço ideia porquê. Chego a um ponto em que a determinação e a crença começam a desaparecer», escreveu.

 

Mazdzer estava disposto a tudo e recebeu uma ajuda inesperada. Um atleta russo, cuja identidade continua sem ser revelada, decidiu oferecer-lhe o trenó. «Foi uma grande atitude. E não era um daqueles trenós que já tinham 15 ou 20 anos. Não, era um moderno, os que estão a usar agora e em perfeitas condições».

 

A oferta não deu resultado prático - o trenó não tinha sido desenhado para o corpo de Mazdzer -, mas talvez tenha ajudado a libertar a mente do norte-americano rumo aos Jogos Olímpicos de PyeongChang. Aí, contra todas as expetativas, foi mais rápido do que nunca e, num misto de sorte e talento, tornou-se o primeiro norte-americano a vencer uma medalha individual no luge masculino.

 

O domínio germânico

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O palmarés olímpico do luge não deixou sequer margem para duvidar: a Alemanha é a maior potência da modalidade. Basta perceber que até hoje houve apenas sete comités olímpicos nacionais a conquistar títulos e a Alemanha está em… quatro. Lidera com 15, tem a RDA com 13, a equipa unificada (competiu em 1956, 1960 e 1964) com dois e a RFA com um. De resto, apenas a Itália, a Áustria e a União Soviética conseguiram intrometer-se nesta guerra.

 

Os Estados Unidos estão longe. Se tinham cinco medalhas – quatro em pares e uma individual mas no quadro feminino -, o ponto de situação no quadro masculino era muito diferente. Até 2018, dos 33 atletas que tinham representado a seleção, ninguém tinha ficado acima do quarto lugar. E a classificação média era o 19.º lugar. O próprio Chris Mazdzer não foi além do 13.º posto em Vancouver-2010 e Sochi-2014.

 

O dia ia acabar por chegar. Durante as quatro mangas da prova, o norte-americano nunca ficou abaixo da quinta posição e quando terminou a sua prestação festejou de imediato: ainda faltava descer o alemão Felix Loch, bicampeão em título, mas a medalha já estava garantida, restando saber se seria de prata ou de bronze.

 

O que se seguiu foi um contraste de emoções. Enquanto Loch chorava o deslize numa das últimas curvas nos braços do pai, Mazdzer festejava exuberantemente uma medalha de prata que, como manda o lugar-comum, sabia a ouro.

 

«É um sonho com pelo menos 16 anos de treino. É algo que sonhas desde que és criança e vinte anos depois chegas finalmente ao pódio. Tudo o que sei é que tenho a minha família e amigos comigo a celebrar, o que vem validar tudo o que fiz. Todos os sacrifícios valeram a pena», admitiu.