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É Desporto

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Chaves. Uma aventura entre Valentes Transmontanos

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Não há equipas na Liga Portuguesa em Portugal continental que estejam tão longe uma da outra como Chaves e Portimonense. A viagem, mesmo partindo de Lisboa, pode ser extenuante o suficiente, por isso fizemos batota e saímos três dias antes. Podíamos ter ficado a dormir na rua mas a simpatia transmontana ajudou-nos a encontrar soluções e a concretizar o desejo de estar presente neste «dérbi de extremos». 

 

E que tal se…?

 

Estar num Chaves-Portimonense é um sonho antigo. Há não muito tempo, ainda na II Liga, cheguei a iniciar alguns contactos para poder, enquanto jornalista, acompanhar a equipa do Portimonense na deslocação a Trás-os-Montes. Fazer a reportagem, contar a história de como uma equipa algarvia se faz à estrada na preparação mais cansativa da temporada.

 

Era um pesadelo logístico. Era preciso fazer Lisboa-Portimão, acompanhar a equipa na viagem Portimão-Chaves-Portimão e regressar a Lisboa. Eram necessárias autorizações complicadas, transportes, refeições e estadias que fazem aumentar o peso da fatura e que não são facilmente ultrapassáveis quando do meu lado estava um jornal em que as despesas estavam contadas ao cêntimo. Nunca aconteceu. Não estava destinado.

 

Agora, uns anos mais tarde, em pleno verão de 2018, o tempo de preparação foi nulo. Perceber que havia um Chaves-Portimonense na segunda jornada chegou apenas uns instantes antes de lançar o desafio de aproveitar o feriado e antecipar uns dias de férias para poder estar em Chaves a ver o dérbi de extremos.

 

Fazer uma viagem exclusivamente desportiva nem sempre é fácil por isso a solução pareceu perfeita. A primeira sugestão incluía uma espécie de road trip com ligação direta ao Minho (Braga e Guimarães) para depois seguir até Trás-os-Montes mas a solução definitiva pareceu ainda mais adequada ao objetivo: fazer a EN2 sem pressa a partir de quarta-feira, replicando praticamente dois terços da estrada nacional que liga o Algarve (Faro) a Chaves.

 

O verdadeiro plano tinha apenas uma condição fixa: ver o Chaves-Portimonense no sábado às 16h30. Mas ainda era terça-feira à noite e havia mais do que três dias inteiros para preencher. Chegámos a pensar em fazer Lisboa-Algarve para poder fazer toda a EN2 mas rapidamente percebemos que seria um desgaste desnecessário. Decidimos entrar na estrada pouco antes da barragem de Montargil e nos dias seguintes fomos alternando os mergulhos em praias fluviais com pequenas escapadelas culturais que retiravam cansaço ao peso da viagem.

 

Um obstáculo em Chaves

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A chegada a Chaves aconteceu na sexta-feira ao final da tarde. Há muito que sabíamos que dormir na terra flaviense seria complicado. Já na terça-feira, numa primeira pesquisa, tínhamos percebido que os hotéis estavam praticamente esgotados e as alternativas que ainda existiam eram caras para quem procurava um orçamento adequado. Sabíamos que haveria sempre opções que não se conseguiam procurar através do computador e fomos à confiança: na pior das hipóteses, voltávamos a fazer uns quilómetros para encontrar algo mais longe.

 

Quando a EN2 desaguou em Chaves, começámos a entrar em hotéis e pequenas residências que encontrávamos pelo caminho. Tudo esgotado. Ligávamos a outros que víamos: esgotado. Andávamos pela cidade de carro e fomos parar ao estádio do Chaves. A bilheteira e a loja estavam abertas e era a oportunidade perfeita para antecipar a compra das entradas e a aquisição de mais uma camisola - sempre com a inscrição «Valentes Transmontanos» na gola junto às costas, para a coleção.

 

Na loja, como quem não quer a coisa, lançámos o desafio. Explicámos a situação, de onde vínhamos e perguntámos se por acaso não tinham conhecimento de algum sítio bom para ficar, uma vez que tudo parecia estar esgotado. A Festa dos Povos – a acontecer precisamente naquele fim-de-semana e com a previsão de receber 80 mil pessoas – podia estar a prejudicar o nosso objetivo mas, num abrir e fechar de olhos, a simpática senhora deu-nos dois nomes. Foi tiro e queda: ligámos para a primeira sugestão e bingo! Ainda havia um quarto. Agradecemos. «Não se esqueçam de dizer que foram pelas amigas do Chaves, que eu sou vizinha e vou lá muitas vezes comer!», disse-nos.

 

Percebemos naquele momento que a internet pode facilitar muito e ajudar a evitar muita chatice mas por vezes, em situações de maior apuro, não há nada melhor do que contar com a ajuda real de um ser humano.

 

Dia de jogo

 

Acordar em Chaves no dia de jogo dava-nos o tempo necessário para dar uma volta pela cidade e conhecer melhor as imediações do estádio, aproveitando para estacionar facilmente e escapar à confusão.

 

O calor fazia com que andar pelas ruas fosse mais difícil e depois do almoço decidimos encontrar um café onde nos pudéssemos refrescar e descansar algum tempo. A escolha não podia ter sido melhor. No «Ponto de Encontro», a cerca de 150 metros do estádio, havia espaço mais do que suficiente e uma enorme televisão ligada na Sport TV a transmitir os últimos minutos do Cardiff-Newcastle. Havia um espaço de uns 50 metros quadrados para fumadores (onde estava a televisão) e um contíguo, com uma parede de vidro, igualmente grande, onde podíamos estar sentados facilmente com os olhos no jogo.

 

No lado dos fumadores, há quatro homens divididos por três mesas. Na que está mesmo ao nosso lado, do outro lado do vidro, um parece um contabilista dos anos 80. Os papéis que tem na mão poderiam indiciar que estava na altura de entregar o IRS mas na verdade não eram mais do que tiras de uns 40 centímetros com apostas no Placard. Percebemos que há ali uma dinâmica.

 

De repente, penálti nos descontos. Há festejos nas mesas. Percebe-se que uma vitória do Newcastle vai dar dinheiro a muita gente. Ficamos nervosos por empatia e, quando Kenedy falha o penálti, antecipamos o pior. Curiosamente… não há grande reação. O jogo termina e o nosso contabilista continua a estudar probabilidades. Levanta-se, vai ao balcão e renova as apostas, agora com o Leicester-Wolverhampton em mente.

 

O passar dos minutos torna impossível esconder que o Chaves está prestes a jogar. Na estrada, os autocarros das duas equipas passam num intervalo de poucos minutos. O próprio café começa a dar jus ao nome e começa a servir cada vez mais como um ponto de encontro de adeptos antes do jogo. Sentimos que está na hora e seguimos para o estádio.

 

Uma festa poliglota

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O primeiro jogo de uma equipa em casa no campeonato é sempre um motivo de festa mas ali, naquele momento, havia ainda mais em jogo. Estamos em pleno agosto, numa região onde há muitos emigrantes. A proximidade com Espanha também ajuda a que uma pequena falange de adeptos fale castelhano. À nossa frente, pai e filho têm camisolas do Chaves personalizadas: o mais velho chama-se Jorge, o mais novo Lorenzo mas sentam-se de forma trocada, impedindo que pareça que temos um campeão de motociclismo ali tão perto.

 

Também se ouve muito francês, mesclado com português. O dia está convidativo, a bancada é coberta e as oportunidades para ver o Chaves ao vivo são raríssimas. Também por isso, vive-se um momento de festa, em família, com espaço para todos.

 

A contabilidade oficial anunciou mais de cinco mil espetadores. Ali, onde estávamos, eram poucas as cadeiras vazias. E, acreditem em nós, andámos à procura. Começámos por escolher uma fila atrás da claque, quando esta ainda não era mais do que três crianças junto de tambores, e percebemos rapidamente que ver o jogo poderia ser um desafio muito grande, por culpa das bandeiras. De cada vez que elas se erguiam, ainda antes do pontapé de saída, assistia-se a uma debandada geral. Nós, teimosos, resistimos. Eles hão-de se cansar. Mais tarde ou mais cedo, conseguiremos ver o relvado à vontade.

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Festa flaviense

 

O jogo foi favorável à equipa de Daniel Ramos. Logo na primeira parte, o árbitro assinalou grande penalidade e, pela primeira vez neste conjunto de experiência que têm sido feitas para o É Desporto, houve recurso ao vídeoárbitro. É interessante perceber a dinâmica da espera enquanto se está no estádio, assistir ao carrossel de emoções, os insultos que se geram ao temer que a decisão possa ser revertida. Ou mesmo a forma como se bateram palmas a compasso para a marcação da grande penalidade mesmo antes de perceber que o árbitro estava a comunicar para garantir a confirmação da decisão.

 

Não houve reversão. O Chaves adiantou-se e, não muito tempo depois, dobrou a vantagem. Era uma tarde de festa e não ia haver dissabores. Pela bancada, festejava-se, bebiam-se muitas águas e cervejas e comiam-se tremoços que enchiam copos de plástico. A claque aproveitava para testar novos cânticos, com destaque para um inspirado no agora popular tema Bella Ciao, e lançava-se em despiques com outras partes da bancada, sempre para levar o nome Chaves mais alto e mais longe.

 

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Num desses duelos, um adepto ofereceu uma enorme, desafinada, esganiçada e ao mesmo tempo rouca réplica aos elementos da claque, proporcionando boa disposição e muita gargalhada. Não havia mais por onde fugir. O Portimonense não ameaçou e o Chaves respondeu da melhor forma, em casa, à goleada sofrida no Dragão na primeira jornada. Nós tínhamos a aventura feita.

 

Foi estranho encaixar as memórias dos anos 90 naquele estádio, agora com uma nova e mais moderna bancada. Foi curioso lembrar os episódios de Pedro Santana Lopes e o relógio avariado do árbitro, a azia de Jorge Coroado, os grandes golos de José Carlos num jogo do FC Porto, o frango de Bastón, as tardes e noites em que N’Tsunda brilhou como expoente máximo de uma equipa alicerçada numa armada espanhola que teve em Toniño o seu mais carismático jogador.