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É Desporto

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Bobby Moore e o desaparecimento da pulseira de Bogotá

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Inglaterra estava a estagiar na Colômbia para preparar o Mundial do México em 1970 quando uma empregada de uma joalharia acusou a estrela britânica de roubar uma pulseira. Avançado chegou a estar em prisão domiciliária mas a falta de provas e os testemunhos voláteis permitiram a reintegração na seleção em vésperas da estreia com a Roménia. 

 

Pesadelo pré-Mundial

 

Bobby Moore é a imagem da Inglaterra como campeã mundial em 1966. Será também a imagem mais famosa dessa fase final. Sim, em Portugal podemos estar mais habituados às lágrimas de Eusébio, ao festejo de mão no ar com o braço bem esticado ou mesmo ao salto digno de um jogador de voleibol mas globalmente é a imagem de Bobby Moore que foi imortalizada.

 

A imagem do avançado inglês, ao colo dos seus colegas, e com o troféu Jules Rimet bem erguido durante as celebrações do inédito título inglês. Em 1970, esse momento podia ainda não estar completamente enraizado na memória ocular dos adeptos de futebol, mas Moore não deixava de ser um ícone do futebol inglês.

 

Quando, numa simples incursão à joalharia do hotel em que estava hospedado na Colômbia, durante uma digressão antes do Mundial do México, Moore foi acusado de roubar uma pulseira, a Inglaterra parou.

 

A história nunca foi muito bem contada. A Inglaterra estava na Colômbia para defrontar a seleção local a 20 de maio e, dois dias antes, Bobby Moore decidiu acompanhar Bobby Charlton porque este estava interessado em comprar um anel para a mulher.

 

«Vi um em exposição dentro da loja mas não tinha o preço, por isso decidimos entrar. A empregada disse-nos o preço, regateámos um pouco e cheguei à conclusão de que era demasiado caro para mim. Devemos ter estado cinco minutos na loja, no máximo», explicou Bobby Charlton.

 

A acusação imediata

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Assim que a dupla saiu do estabelecimento, a empregada da joalharia chamada Fuego Verde Clara Padilla, acusou-os de terem roubado a pulseira e ligou para a polícia. «Não me lembro de ter visto uma pulseira com diamantes e esmeraldas encrustados. Claramente, se a tivesse visto, isso teria captado a nossa atenção», recordou Charlton.

 

A dupla ficou estupefacta com a acusação inesperada. Ofereceram-se para ser revistados imediatamente, foram interrogados pelas autoridades e emitiram um comunicado oficial. A polícia chegou à conclusão que não tinha muito por onde avançar e o caso ficou em águas de bacalhau, aparentemente resolvido com a ilibação de Bobby Moore.

 

A Inglaterra de Alf Ramsey seguiu o plano de preparação. Derrotou a Colômbia por 4-0 e, quatro dias depois, foi ao Equador bater a seleção local no último teste antes da viagem para o México. Havia um problema: o regresso seria feito com escala em Bogotá e os responsáveis, apesar de alguma apreensão, decidiram manter o plano e… ficar novamente no mesmo hotel durante a escala de algumas horas.

 

Afinal havia outra… acusação

 

Bobby Moore foi detido na hora. Durante os dias em que tinha estado fora, uma nova testemunha surgiu, garantindo ter visto o futebolista a tirar a pulseira do estabelecimento. O escândalo soou e afetou os planos de Ramsey.

 

O Mundial estava à porta e, apesar de ser necessário manter a agenda, o caso de Moore prometia afetar a concentração. A Inglaterra manteve os planos e viajou para o México, enquanto o futebolista ficou detido na Colômbia, com a companhia de dois dirigentes da federação inglesa.

 

As autoridades colombianas acusaram formalmente Bobby Moore de furto. Os contactos diplomáticos, promovidos com grande mediatismo pelo primeiro-ministro britânico, Harold Wilson, garantiram um tratamento especial e, em vez de ficar detido num estabelecimento prisional, Bobby Moore foi enviado para uma casa que pertencia ao presidente da federação colombiana de futebol.

 

Aí, sempre acompanhado por polícias armados, estava autorizado a utilizar o espaço envolvente à habitação para se manter em forma enquanto esperava pela possibilidade de viajar para o México e jogar o encontro de estreia com a Roménia, marcado para 2 de junho. Estávamos a 25 de maio.

 

«Pensei que a integridade deste homem fosse suficiente para responder a qualquer questão sobre estas acusações. É demasiado ridículo ter de falar sobre isto», reagiu o selecionador Alf Ramsey.

 

Uma história colada com cuspo

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A acusação não se aguentou muito tempo. O juiz procurou corroborar todas as versões do acontecimento e Clara Padilla cometeu um erro crasso quando disse que tinha visto o futebolista colocar a pulseira no bolso esquerdo do casaco.

 

Havia um problema: o casaco de Bobby Moore não tinha bolso do lado esquerdo. Perante a pressão, a história de Padilla foi evidenciando cada vez mais lacunas e tornando-se mais confusa e a testemunha adicional também não conseguiu incutir mais confiança, sobretudo para esclarecer por que tinha esperado tantos dias até dizer o que tinha visto.

 

A 28 de maio de 1970, ao quarto dia detido, Bobby Moore foi libertado. «Estou feliz por se ter chegado à conclusão que as acusações não têm fundamento», disse na altura, antes de viajar para o México e chegar a tempo de capitanear a Inglaterra no jogo com a Roménia.

 

O caso chegou a ser reaberto mas as conclusões nunca mudaram. A polícia de Bogotá chegou ao entendimento que Moore tinha sido incriminado e que a testemunha adicional tinha sido paga para fazer a acusação. Em Inglaterra, por outro lado, a BBC escrevia que o plano seria chantagear Moore e garantir publicidade suficiente para a loja.