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É Desporto

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Boavista. Da primeira peça do puzzle ao adeus de Manuel José

Boavisa já com Rui Bento num jogo no Restelo

*Este texto é a segunda de cinco partes do especial: «Boavista-2001. O making of de um título»

A chegada de Rui Bento ao Bessa no verão de 1992 tem uma importância simbólica duplicada. Não foi só o primeiro jogador campeão em 2001 a chegar ao clube, fazendo dez épocas ininterruptas no Porto, como representou na perfeição o processo de composição do plantel defendido pelo Boavista e que contribuiu ano após ano para o sucesso: a capacidade de formar para os grandes e, ao mesmo tempo, potenciar as sobras que chegavam de FC Porto, Benfica e Sporting.

O verão de 1992 foi agitado neste capítulo. Houve saídas menos relevantes, como as de Pudar, Hubart ou Jaime Cerqueira, mas outras que foram parar à Segunda Circular. João Pinto foi a principal baixa e seguiu caminho para a Luz juntamente com Fernando Mendes e Samuel, que regressavam ao Benfica depois de uma temporada no Bessa. Mas Pedro Barny também rumou a Lisboa e assinou pelo Sporting.

Dos clubes da capital chegaram, além de Rui Bento, o boliviano Sánchez (que tinha estado cedido pelas águias ao Estoril), Venâncio, Litos e Tozé. No entanto, para colmatar a maior baixa no ataque, os axadrezados foram ao Brasil, ao Remo, descobrir um jogador chamado Artur.

A fasquia estava elevada por causa de Manuel José e o Boavista não desiludiu. Não conseguiu repetir o terceiro lugar – foi quarto a seis pontos do Sporting – mas manteve a capacidade de se intrometer entre os grandes. Na Supertaça com o FC Porto, venceu nas Antas por 2-1 (Kostadinov; Marlon Brandão e Artur) e empatou no Bessa a dois golos (Tavares e Marlon Brandão; Kostadinov-2), erguendo mais um troféu nacional. Na Taça de Portugal regressou ao Jamor depois de eliminar o Sporting nas meias-finais, mas foi incapaz de bater o Benfica (2-5).

As competições europeias continuaram a ser, ainda assim, a espinha na garganta deste Boavista. Apesar da vitória sobre os islandeses do Valur, o Boavista voltou a cair numa segunda ronda, desta feita contra o Parma de Taffarel, Brolin e Asprilla.

O balanço da temporada foi, ainda assim, muito positivo: Ricky esteve longe dos 30 golos no campeonato da época anterior (14), mas Artur mostrou ser uma aposta em cheio, substituindo os oito golos de João Pinto por 13. O tridente Ricky-Artur-Marlon terminou o campeonato com 35 golos e assumiu-se como um dos mais espetaculares em Portugal.

Depois de duas épocas inteiras ao serviço do Boavista, a posição de Manuel José estava cada vez mais consolidada e o plantel ganhou raízes para 1993/94. Só houve saídas dignas de registo na baliza (Lemajic e Costinha foram ambos para o Sporting) e de Alvalade regressou Pedro Barny, que acabou por ser o segundo jogador mais utilizado no campeonato.

Com poucas mexidas, o Boavista entrou a abrir na temporada. O modelo estava identificado, os jogadores conheciam-se como ninguém e os resultados apareceram: chegaram à nona jornada no primeiro lugar – em igualdade pontual com o Benfica, fruto de sete vitórias, um empate e uma derrota -, e, finalmente, a fazer história nas competições europeias.

De regresso à Taça UEFA, os axadrezados superaram pela primeira vez duas eliminatórias consecutivas. E fizeram ainda mais do que isso, batendo Union Luxemburgo, Lazio e OFI Creta, antes de sucumbir aos pés do Karlsruhe de Kahn, Nowotny e Bilic, já em março, nos quartos-de-final. Os axadrezados voltaram a não conseguir intrometer-se entre os três grandes e na Taça de Portugal (caíram numa fase precoce, perdendo em Santo Tirso na quinta eliminatória), mas percebia-se que este Boavista estava cada vez mais sólido. O problema é que os bons resultados iam provocar um novo turbilhão no mercado de transferências.

Uma renovação após a razia

Timofte marcou uma era no Bessa

O verão de 1994 para o Boavista não foi tão quente como o de 1993 para Benfica e Sporting mas marcou uma reconfiguração profunda do que tinham sido os axadrezados até então. Os encarnados então comandados por Artur Jorge foram pescar Nelo e Tavares, Casaca terminou a carreira, Marlon Brandão seguiu para Espanha (Valladolid), Ricky para o Brasil (Vitória), e a equipa ficou órfã de algumas das suas principais referências.

O ataque no mercado era essencial mas a aposta na formação começou a dar os primeiros verdadeiros frutos. Do FC Porto chegou Timofte, Fernando Mendes regressou de Lisboa e Abazaj e Simanic vieram com selo da Luz, embora sem qualidade comprovada. Por outro lado, e mesmo que não tenham tido grande sucesso logo em 1994/95, houve três jovens que se estrearam no plantel sénior e que viriam a marcar o futuro do clube: Nuno Gomes, Martelinho e Jorge Silva.

O plantel de 2000/01 começava a desenhar-se, embora de forma muito tímida. Rui Bento mantinha-se de pedra e cal, enquanto Sánchez, Martelinho e Jorge Silva acabariam por sair entretanto antes de regressar em definitivo rumo ao inédito título.

A temporada foi mais fraca do que as anteriores. Boa para um clube fora da cintura exterior dos grandes mas má para um Boavista que se queria assumir como algo mais. Artur assumiu a batuta de referência – marcou 15 golos no campeonato e começou a mostrar que mais tarde ou mais cedo ia ter de sair -, Timofte e Sánchez desenharam um meio-campo delicioso, mas os resultados alcançados não entusiasmaram, como se comprova por nova eliminação na quinta ronda da Taça de Portugal, o nono lugar no campeonato e – mais uma – derrota numa segunda ronda na UEFA (frente ao Nápoles). Eram as dores de crescimento naturais de um clube numa posição secundária na cadeia de alimentação do seu país.

Um novo fôlego no adeus de Manuel José

A temporada de 1995/96 arrancou com uma sensação estranha. O Boavistão de Manuel José, aquele clube português das camisolas esquisitas, estava fora das competições europeias depois de quatro participações consecutivas (recorde só igualado em 2003). Por outro lado, o plantel respirava outra confiança. Apesar das saídas de Fernando Mendes e Barny para o Belenenses, do experiente Nogueira para o V. Setúbal e das cedências por empréstimo de Jorge Silva e Martelinho, o Boavista soube reforçar-se a olhar para o futuro.

A nova fornada de jogadores da formação trouxe talentos como Mário Silva e Delfim, Nelo e Tavares regressaram de uma experiência fracassada no Benfica e nos escalões secundários tinham sido recrutados Litos (Rio Ave) e Ricardo (Montijo). Ou seja, tinham chegado mais dois futuros campeões.

A ausência dos compromissos europeus, a confirmação de Artur como um dos melhores jogadores do campeonato, a dinâmica crescente entre Timofte e Sánchez, os regressos de Nelo e Tavares, e a afirmação gradual de Nuno Gomes transformaram este Boavista numa nova ameaça. O quarto lugar no campeonato, a apenas dois pontos do Sporting, garantiu o regresso à UEFA e reassumiu os axadrezados como figura emergente a intrometer-se entre grandes.

Para Manuel José, o seu legado terminava aqui. Depois de cinco temporadas completas (máximo da carreira em Portugal), era a vez de o treinador dar o salto. À semelhança de João Pinto, Samuel, Fernando Mendes, Nelo e Tavares, também o algarvio foi parar à Luz, deixando o Boavista num momento delicado. A transição ia ser conturbada – até porque as saídas não se ficaram por aí – mas o modelo estava definido. E o futuro seria risonho.