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É Desporto

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Ayumi Kaihori. A Grande Muralha do… Japão

Uma baliza demasiado pequena?

Não é uma guarda-redes famosa como Hope Solo nem conseguiu ser campeã do mundo sem sofrer qualquer golo durante a prova como Nadine Angerer, mas Ayumi Kaihori escreveu uma das histórias mais impressionantes em fases finais: no jogo decisivo com os Estados Unidos, defendeu dois penáltis no desempate, viu outro sair por cima, e ofereceu de bandeja o título ao Japão.

 

Decidir um Mundial nos penáltis é muito ingrato e o futebol, tanto o masculino como o feminino, têm uma história com muito mais pontos de encontro neste aspeto do que possa parecer. Em 1994, nos Estados Unidos, a Itália de Roberto Baggio perdeu desta forma contra o Brasil. Cinco anos depois, novamente nos Estados Unidos e no mesmo estádio (Rose Bowl), a seleção da casa de Mia Hamm, Brandi Chastain e companhia levou a melhor sobre a China.

 

Em 2006, na Alemanha, a Itália de Buffon, Cannavaro e Pirlo recuperou do trauma e levou a melhor sobre a França. Novamente cinco anos depois, também na Alemanha, os Estados Unidos voltaram aos penáltis numa fase final de futebol feminino. A história parecia jogar contra as norte-americanos: se a Itália tinha perdido a primeira e vencido a segunda, talvez os Estados Unidos estivessem destinados a saírem derrotados da segunda depois de ganhar a primeira.

 

As coincidências não comandam um jogo de futebol mas o certo é que foi precisamente isso que se começou a desenhar quando Shannon Box partiu para o primeiro remate da série: pouco colocado para a esquerda de Kaihori, que defendeu com a canela direita.

 

Depois de Aya Miyami marcar, sem dificuldade, foi a vez de Carli Lloyd – uma norte-americana ainda ignorante de que teria um lugar especial reservado na história das finais, mas apenas quatro anos depois. A atacante partiu para a bola com especial vontade mas o remate assemelhou-se mais a uma descolagem no Cabo Canaveral – saindo por cima da barra – do que um pontapé com intenções de golo.

 

Quando Yuki Nagasato falhou para o Japão, as jogadoras dos Estados Unidos voltaram a acreditar, mas este era o dia de Ayumi Kaihori. Tobin Heath até tinha entrado aos 114 minutos. Estava fresca e mentalizada para a possibilidade de ter de marcar uma grande penalidade. Escolheu o lado direito de Kaihori e… viu os tentáculos da japonesa pararem o remate, desta vez com as luvas.

 

Mizuho Sakaguchi fez o 2-0 para o Japão e Abby Wambach sabia que não podia mesmo falhar, caso contrário o título estava definitivamente entregue. Experiente, tomou pouco balanço e rematou de forma aparentemente indefensável, levantando o esférico com a precaução suficiente para garantir que não falhava a baliza mas com a segurança suficiente de que era alta demais para Kaihori lhe tocar.

 

O mal, de qualquer modo, estava feito. Saki Kumagai imitou a estratégia de Wambach e pôs um ponto final no Mundial. O Japão era campeão, de forma surpreendente, e Ayumi Kaihori tinha desempenhado o papel de protagonista principal.

 

De pouco interessava se o Japão tinha batido o recorde de golos sofridos de um campeão (seis) ou se tinha sido o único vencedor a perder um jogo na fase de grupos (Inglaterra, 0-2). Kaihori tinha sido batida apenas por uma vez no desempate por penáltis e as nipónicas tinham todos os motivos para festejar.

 

O momento de glória seria eterno e nem a vingança dos Estados Unidos quatro anos depois poderia apagar aquele momento. Carli Lloyd fez três golos a Ayumi Kaihori nos primeiros 16 minutos e Tobin Heath também marcou na goleada por 5-2, mas tanto a guarda-redes como o próprio Japão sentiam que uma final nunca apagaria a outra. Conquistar o campeonato é único – e as japonesas tinham feito história. Para elas e para a Ásia.