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É Desporto

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April Heinrichs. Nem todos podem ser Beckenbauer

April Heinrichs como selecionadora

Venceu o Mundial-1991 como jogadora e tentou repetir o feito como treinadora em 2003. Entre a mulher e a história atravessou-se a Alemanha, país de Franz Beckenbauer, o primeiro a conseguir esse feito no futebol masculino (1974-1990).

 

Pelé é considerado por muitos o melhor jogador da história e venceu três títulos mundiais com o Brasil (1958, 1962 e 1970), mas nunca se aventurou como treinador: não era vida para ele. Maradona carregou a Argentina em 1986 e brilhou ao mais alto nível com um título que o povo não mais voltou a ver. O polémico jogador fez a transição para treinador mas parece destinado a orientar equipas que precisam de golpes de marketing. Numa das exceções, no Mundial-2010, orientou a Argentina e… falhou, acabando goleado pela Alemanha nos quartos de final (0-4).

 

A Alemanha tem destas coisas. É uma desmancha-prazeres. A expressão de Gary Lineker tinha uma razão de ser, claro está. Humilharam o Maradona selecionador, fizeram do Maracanazo uma brincadeira de crianças quando golearam o Brasil (7-1) em 2014, e… impediram que April Heinrichs pudesse ser como Beckenbauer.

 

É isso mesmo, os alemães também são invejosos. Franz Beckenbauer não é único mas foi o primeiro homem a ser campeão mundial enquanto jogador (RFA-1974) e selecionador (RFA-1990). Depois dele, já se lhe juntaram Mario Zagallo em 1994 e Didier Deschamps em 2018. No futebol feminino, April Heinrichs foi uma forte candidata mas viu o seu destino ser decidido pela… Alemanha.

 

A norte-americana não foi apenas uma forte candidata, foi também a primeira candidata na história. Mais do que isso, tornou-se a primeira ex-jogadora de um Mundial a chegar a uma fase final enquanto selecionadora. E fê-lo num espaço de quatro edições apenas.

 

Em 1991, na prova inaugural, April Heinrichs tinha «apenas» 27 anos mas já era a jogadora mais velha da seleção orientada por Anson Dorrance. Sem grande surpresa, foi ela a envergar a braçadeira de capitã numa equipa que tinha figuras como Michelle Akers (melhor marcadora da prova com dez golos), Mia Hamm (histórica futebolista) e Brandi Chastain (figura do Mundial ganho em 1999).

 

Heinrichs jogava pela equipa Fairfax Wildfire e também tinha a sua dose de atributos. Não só lhe calhou erguer o título mundial – o primeiro da história – como marcou quatro golos pelo caminho: dois ao Brasil na fase de grupos e dois à… Alemanha na meia-final.

 

Doze anos depois, numa fase final organizada pelos Estados Unidos, as alemãs vingaram-se. April Heinrichs tinha 39 anos e era a selecionadora da então campeã mundial desde 2000. Michelle Akers já não jogava mas tinha à sua disposição as antigas colegas Hamm e Chastain. E uma nova referência norte-americana: Abby Wambach, então com 23 anos.

 

O objetivo dos Estados Unidos era claro: revalidar o título conquistado em 1999, num período em que Heinrichs já era assistente na seleção. A jogar em casa, e apesar de não haver o mesmo mediatismo da edição anterior, os Estados Unidos fizeram o possível e chegaram sem dificuldade até à meia-final.

 

Aí, tal como em 1991, estava a Alemanha do outro lado. O sonho de vencer a fase final como jogadora e selecionadora morreu nesse dia, a 5 de outubro de 2003, em Portland. As europeias marcaram primeiro, por Garefrekes aos 15 minutos, e não permitiram qualquer resposta às adversárias.

 

Por mais que Heinrichs tentasse e os Estados Unidos pressionassem, não havia forma de chegar ao golo. O 3-0 final tornou-se um resultado ainda mais pesado, por culpa de dois golos nos descontos: Meinert aos 90’+1 e Prinz aos 90’+3.

 

O terceiro lugar final, fruto de uma vitória sobre o Canadá, foi uma fraca consolação. April Heinrichs foi muito contestada e nem o título olímpico em Atenas, no ano seguinte, permitiu que tivesse uma nova oportunidade em 2007, prova que viria a ser ganha pela… Alemanha.

 

Sim, April Heinrichs tentou mas nem todos podem ser como Beckenbauer. Muito menos quando é preciso passar por cima da Alemanha pelo caminho.