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É Desporto

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A cumplicidade criminosa de Matthias Müller e Peter Kotte

Gerd Weber foi o grande responsável pelo fim simultâneo de três carreiras

Stasi prendeu três jogadores do Dínamo Dresden no aeroporto a 24 de janeiro de 1981. Gerd Weber estava interessado em ir jogar para o Colónia da República Federal da Alemanha e planeava uma fuga em breve, mas o único crime de Matthias Müller e Peter Kotte, que ficaram com a carreira destruída, foi saber o que estava a acontecer e não reportar nada à polícia.

Gerd Weber, Matthias Müller e Peter Kotte eram três elementos fundamentais do Dínamo Dresden, que lutava para travar a hegemonia do Dínamo Berlim no futebol da República Democrática da Alemanha. Os três vão ficar para sempre ligados, desde logo porque a despedida da carreira ao mais alto nível aconteceu no mesmo dia: 29 de novembro de 1980.

Neste dia, no da 13.ª jornada da Oberliga, a última antes da pausa de inverno, o Dínamo Dresden venceu no terreno do BSG Stahl Riesa por 2-0. Peter Kotte marcou pelo terceiro jogo consecutivo e atingiu os sete golos em dez jogos. Gerd Weber (seis golos em oito jogos) e Matthias Müller (um em 10) também foram utilizados pelo técnico Gerhard Prautzsch.

Por esta altura, o plano de Gerd Weber já estava em andamento. Na segunda eliminatória da Taça UEFA, semanas antes, o futebolista tinha aproveitado a viagem a Enschede, na Holanda, para ter uma reunião com desertores da RDA que o queriam convencer a ir jogar para a Bundesliga, ao serviço do Colónia. A proposta de 200 mil marcos anuais era tentadora e estendia-se aos dois colegas de equipa.

Weber estava interessado. Era informador da Stasi desde 1975 e já tinha elaborado mais de 70 relatórios sobre colegas, mas estava farto dessa vida e ir para o Ocidente era a solução perfeita. Müller e Kotte, pelo contrário, não estavam interessados: ouviram a proposta e recusaram a oportunidade.

A Stasi não quis saber e naquele dia de janeiro, no aeroporto de Schönefeld, antes de a seleção nacional partir para uma digressão na América do Sul, deteve os três jogadores. As justificações de Müller e Kotte não serviram de nada: sabiam do que se estava a passar e falharam em comunicar as intenções de Weber.

As sanções foram diferentes. Weber foi condenado a 27 meses de prisão, expulso do partido e das forças policiais, perdeu todas as condecorações e privilégios, e foi banido do futebol. O atacante acabou por servir apenas nove meses, tendo depois cumprido mais um castigo de seis meses sem poder viajar dentro do Bloco Oriental.

O jogador nunca mais quis trabalhar com a Stasi, e nem mesmo as promessas de poder voltar a jogar futebol o seduziram. Oito anos depois, em vésperas da queda do Muro de Berlim, Weber aproveitou a abertura da fronteira entre a Hungria e a Áustria e cumpriu finalmente o seu desejo… demasiado tarde.

Voltar a jogar futebol não era necessariamente uma benesse, e Müller e Kotte aperceberam-se disso da pior maneira. Como eram apenas cúmplices, as detenções foram mais suaves – cinco dias. Foram, além disso, expulsos dos quadros da polícia e impedidos de voltar a jogar futebol ao mais alto nível, sendo forçados a alinhar nos escalões secundários. Voltaram ainda a ser elegíveis para seis meses de serviço militar e foram obrigados a fazer trabalho manual.

A dupla sempre acreditou que havia um pote de ouro à espera no final do arco-íris. Acharam que se acatassem as decisões e trabalhassem com afinco poderiam apelar ao espírito social comunista e voltar a jogar futebol de topo.

Por duas vezes, fizeram uma petição dirigida ao patrão da Stasi, Erich Mielke. Por duas vezes esta foi recusada. «A impossibilidade de jogar futebol de elite tem-me causado muitas horas dolorosas», lamentava Müller na primeira. Não serviu de nada.

A RDA tinha-os esquecido. Logo em 1981, deixaram de aparecer nas listas de melhores marcadores e as fotografias foram adulteradas para não exibir traidores. As perspetivas de vida para Müller não eram mais do que jogar como amador e estudar para ser professor na área do desporto. Só isso.

Oficialmente, a posição das autoridades sublinhava que a dupla tinha cometido uma «violação grave dos princípios do movimento desportivo socialista e das regras da vida social comunista». E nada mais voltou a ser o mesmo.