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É Desporto

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16 de Abril, 2021

Mayweather Jr. vs. Pacquiao. O combate que chegou demasiado tarde

Rui Pedro Silva

Mayweather Jr. vs. Pacquiao

A espera tinha chegado ao fim. O combate que se chegou a pensar que não teria margem para acontecer disputou-se mesmo. Num canto do ringue, Floyd Mayweather Jr., o favorito, o campeão sem derrotas em 47 combates, o excêntrico que não olha à conta bancária quando lhe apetece gastar dinheiro; no outro canto, Manny Pacquiao, o filipino que não se esquece de onde vem e se preocupa mais com garantir que outras crianças não sejam obrigadas a passar o mesmo que ele teve de ultrapassar que com viver num mundo de gastos e luxo.

O frente-a-frente entre os dois melhores pugilistas da atualidade tinha sido prometido pela primeira vez em 2009 – com data marcada para 13 de março de 2010 –, mas era apenas o começo de uma longa maratona que para muitos críticos, visionários, teria uma meta demasiado tardia.

Entre março de 2010 e maio de 2015, Mayweather Jr. manteve-se imbatível, mas Pacquiao somou duas derrotas e chegou a considerar o abandono do boxe por falta de motivação e por, alegadamente, já não se sentir bem a magoar outras pessoas.

Na data agendada para o combate, um tinha 38 anos, o outro 36. Estavam na fase descendente da carreira e deixaram-se levar pela expectativa que nunca esmoreceu o suficiente para se desistir de ver o combate que toda a gente desejava. O problema é que havia sempre algo a encravar a engrenagem.

As críticas iam para os dois lados: Mayweather Jr. era considerado um homem calculista, que temia demasiado o efeito de uma derrota no seu legado, Pacquiao demasiado reticente em relação à logística do plano antidoping. E depois, claro, houve sempre o dinheiro e a distribuição de receitas pelo meio.

Em 2009, Mayweather Jr. e Pacquiao eram os dois pugilistas mais empolgantes da modalidade. O norte-americano tinha regressado de uma pausa sabática para derrotar Juan Manuel Márquez como se nunca tivesse parado, enquanto o filipino bateu Ricky Hatton e Miguel Cotto com uma absoluta sensação de superioridade. O boxe estava em queda e desesperava por um confronto entre os dois, mas foi preciso esperar cinco anos repletos de avanços, recuos e críticas nem sempre justificáveis.

A calma antes da tempestade

Os controlos antidoping foram a primeira grande barreira: Pacquiao estava disposto a análises à urina sempre que necessário mas temia as sanguíneas. Não com medo do resultado dos testes mas das consequências no seu desempenho: acredita que perde força depois de tirar sangue e recusava-se a qualquer tipo de controlo nas duas semanas imediatamente anteriores ao combate. E Mayweather Jr. ia aproveitando para ser igual a si mesmo: «Pacquiao é um estúpido amarelo», afirmou em setembro de 2010.

«Um jovem e anão estúpido. Quando o derrotar, vou fazer com que esse gay me faça rolos de sushi e que me cozinhe arroz. Vou cozinhá-lo com cães e gatos.» Os comentários despropositados não caíram bem e o pedido de desculpa surgiu no dia seguinte. «Sentiram que o meu comentário foi racista mas eu não tenho um único osso racista no corpo. Amo toda a gente, vocês sabem disso. Só estava a divertir-me, não queria que me levassem a sério.»

Não havia dúvidas: o combate entre os dois seria sempre o mais lucrativo da história do boxe. Fosse em 2010 fosse em 2015, em Las Vegas. Mas as negociações financeiras também tiveram vários entraves, com Pacquiao a exigir uma distribuição idêntica numa primeira fase que provocou a recusa de Mayweather Jr. «O que lhe disse é que faria mais dinheiro a combater contra mim do que tinha feito na carreira inteira.»

A contraproposta também não agradou, explicou o filipino: «Ofereceu-me 40 milhões de dólares pelo combate mas sem divisão de receita. Não me falou de pay-per-views. Eu disse-lhe que aceitaria uma distribuição de 55/45.»

Os anos passaram e o acordo não foi desbloqueado. Manny Pacquiao perdeu alguma influência negocial com as duas derrotas em 2012 frente a Timothy Bradley e Juan Manuel Márquez mas Mayweather Jr. continuou a ser visto como o vilão, como o pugilista que não queria arriscar uma derrota num combate que toda a gente continuava a desejar, apesar de tudo. E quando acusou Pacquiao de ser um oportunista à procura de dinheiro, a resposta deixou-o sem palavras. Disse Pacquiao: «Desafio-o a fazermos um combate em que a receita vá toda para a caridade. Se ele for um verdadeiro homem vai lutar contra mim. Vamos fazê-lo pelo amor que temos pelo boxe e pelos fãs. Não o temos de fazer pelo dinheiro. Vamos deixar os adeptos felizes.»

Um dos poucos golpes do combate

«Soco mole em teimosia dura tanto bate até que fura.» Mayweather Jr. e Pacquiao estavam mais fracos em 2015 do que eram em 2010 mas a pressão para haver combate não diminuiu. E a 20 de fevereiro de 2015 deixou de haver dúvidas: havia acordo e o combate era oficial, com data marcada para 2 de maio no MGM Grand em Las Vegas. Os diferendos do passado tinham sido ultrapassados: Mayweather Jr. ficou com 60% das receitas e ambos aceitaram o modelo olímpico antidoping que foi posto em prática pela Agência Norte-Americana de Antidopagem (USADA).

Dessa forma, poderiam ser feitas análises de sangue e urina sem aviso, com os dois a estarem obrigados de informarem ao pormenor onde estavam a cada momento. Além disso, foram também testados imediatamente a seguir ao combate. Se alguns dos controlos fosse positivo, o infrator seria banido do boxe por um período de quatro anos.

O dinheiro começou a movimentar- se assim que o acordo foi oficializado. O pay-per-view nos Estados Unidos teve um valor mínimo de 79 euros e previa-se que gerasse pelo menos 266 milhões de euros (o valor não atingiu sequer os 160 milhões de euros) e a assistência de 16800 espectadores ao vivo gerou uma receita de quase 64 milhões de euros.

Só Manny Pacquiao terá contribuído com 3,5 milhões de euros para garantir um bilhete para cada um dos 900 elementos da sua comitiva. Do outro lado do mundo, nas Filipinas, a preocupação era outra. O responsável pela companhia elétrica apelou à população para desligar o máximo de aparelhos durante o combate para evitar quebras de energia.

«Esperámos tanto tempo por isto e agora que vai acontecer seria inaceitável se não tivéssemos a oportunidade de ver», afirmou. Se Mayweather Jr. queria dar entusiasmo ao «maior combate na história do boxe», Pacquiao trouxe as origens à conversa: «Costumava dormir nas ruas, faminto. Depois o Senhor pegou em mim e abençoou-me. Foi ele que me deu esta vida e quero partilhá-la com toda a gente. No final do combate, espero poder partilhar a minha fé com o Mayweather Jr. para que possamos inspirar mais gente. Espero que este combate sirva de inspiração para que pessoas de todos os cantos do mundo possam perceber que Deus pode transformar um nada em alguém.»

Quando a hora da verdade chegou, a inspiração foi muito escassa. O combate foi hiperdefensivo, Floyd Mayweather Jr. limitou-se a controlar os assaltos e beneficiou da postura inofensiva de Pacquiao que, uns dias mais tarde, apontou uma lesão no manguito para justificar o comportamento no ringue.

O público teve aquilo que esperava, um duelo entre Pacquiao e Mayweather Jr, mas a verdade é que foi impossível esconder a desilusão. A montanha pariu um rato. Foi um soco nas esperanças de milhões de adeptos espalhados por todo o mundo.

14 de Abril, 2021

Carolina Marín. Um basta à hegemonia asiática

Rui Pedro Silva

Carolina Marín

Se toda a gente gostasse do mesmo, o mundo seria monótono. Em Espanha, os Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992 ajudaram a catapultar um espírito de diversidade no desporto, mas o futebol continuou a ser a modalidade mais mediática.

Real Madrid e Barcelona dividem o domínio e dão pouca margem para surpresas. Quando chegam, os turistas vão em peregrinação ao Santiago Bernabéu ou ao Camp Nou ver de perto os palcos onde reinam Ronaldo e Messi. Mas o mundo não é todo igual, e o ministro do Desporto da Indonésia decidiu quebrar com o mais esperado e preferiu conhecer Carolina Marín a pisar o mesmo relvado por onde já passaram Ronaldo, Zidane, Figo e muitos outros.

Quem é Carolina Marín? É a espanhola que continua a furar as supremacias hegemónicas no badminton, uma modalidade em que os asiáticos dão cartas e permitem tão poucas surpresas nas finais como Real Madrid e Barcelona em Espanha. Em 25 edições, a China é rainha e senhora na prova feminina, com 15 títulos. Na segunda linha estão Indonésia e Dinamarca com dois, enquanto Índia, Japão e Tailândia têm um.

Pelo meio, há uma espanhola com três. Essa mesmo, Carolina Marín, a lenda do país ibérico, a versão feminina de Rafael Nadal. «Ele luta por todas as bolas, eu por todos os volantes. E até que estejamos mortos não damos um jogo por perdido», explicou Carolina depois de ter sido bicampeão mundial em 2015, justificando as comparações com o maiorquino.

Na final que lhe valeu o bicampeonato, essa tendência voltou a ser muito clara no triunfo sobre a indiana Sain Nehwal por 21-16 e 21-19. No segundo parcial foi obrigada a uma grande reviravolta, respondendo a uma desvantagem de 6-12 com sete pontos consecutivos.

Sozinha, criou uma nova ordem mundial. Se conseguir desviar um título das asiáticas já é muito meritório, fazê-lo duas vezes em anos consecutivos (2014 e 2015) e voltar a brilhar em 2018 garante uma entrada direta para a elite da modalidade.

Quando venceu o segundo título em 2015, igualou algo que apenas três chinesas tinham alcançado – o campeonato do mundo pela segunda vez (Li Linweng em 1983 e 1989, Han Aiping em 1985 e 1987 e Xie Xingfang em 2005 e 2006. Mas o título de 2018, alcançado contra a indiana PV Sindhu, elevou-a a um patamar inalcançável.

Carolina Marín é a única mulher com três ou mais título mundiais de singulares na história do badminton e na vertente masculina apenas um atleta conseguiu fazer igual ou melhor: o lendário Lin Dan, que foi campeão em 2006, 2007, 2009, 2011 e 2013.

«Consigo porque penso que consigo» é o mote da lenda espanhola, que com 14 anos abandonou Huelva rumo a Madrid para abraçar definitivamente a modalidade e relegar a paixão pelo flamenco para segundo plano. A aposta foi ganha. Começou a dar nas vistas nos escalões jovens e em 2014, em Copenhaga, garantiu o primeiro título mundial para um país europeu desde que Camilla Martin, pela Dinamarca, havia vencido em 1999. Desde então, oito títulos consecutivos para a China e um para a Indonésia, em 2013, por intermédio de Ratchanok Intanon.

Carolina Marín também é a campeã olímpica em título e promete ser uma das maiores candidatas ao ouro em Tóquio, praticamente no centro da hegemonia da modalidade.

13 de Abril, 2021

Pawel Fajdek. O campeão que pagou o táxi com a medalha de ouro

Rui Pedro Silva

Fajdek com a medalha de ouro de 2015

«Não guardo medalhas de finalista e por isso atirei-a para a bancada. Embora a medalha seja para o derrotado, penso que é um bom presente para ele.»

José Mourinho não gosta de guardar recordações de jogos que perdeu, por isso não abre espaço para grandes dúvidas após receber as medalhas de vice-campeão. Na Supertaça inglesa de 2015, o Chelsea perdeu com o Arsenal e o treinador português voltou a treinar o lançamento da medalha para a bancada.

O ato ainda não é especialidade no atletismo, mas o lançamento do martelo (não a ferramenta em si) é. Nos Mundiais de Atletismo de Pequim-2015, não houve quem superasse Pawel Fajdek nesse campo. O polaco de 26 anos bateu toda a concorrência com um lançamento de 80,88 metros, mais 2,33 metros do que Dilshod Nazarov, premiado com a medalha de prata.

A superioridade clara fez com que Fajdek se sagrasse campeão mundial pela segunda vez consecutiva e deu origem a uma celebração regada com muito álcool. O pior veio depois, na viagem de táxi para o hotel. Pouco consciente das suas ações, decidiu pagar ao condutor com a medalha de ouro.

O arrependimento veio a seguir. Quando percebeu que estava sem a medalha, já mais sóbrio, contactou a polícia local, alegando que tinha perdido o pequeno troféu no táxi. A queixa foi a tempo de ser resolvida, embora o condutor tenha garantido que fora o próprio Fajdek a decidir pagar a bandeirada dessa forma.

Na altura, Pawel Fajdek era uma das maiores potências do lançamento do martelo. Acabara de vencer o segundo Mundial consecutivo, tinha sido medalha de prata nos Europeus em 2014 e ainda estava longe de atingir o estatuto-Mourinho, num período em que as medalhas já se tinham tornado descartáveis.

Hoje, seis anos depois, a medalha de Pequim talvez já não tenha a mesma importância. Fajdek continua a dominar a prova de dois em dois anos e foi novamente campeão em Londres-2017 e Doha-2019. Pelo meio também foi campeão europeu, pela primeira e única vez, em Amesterdão-2016.

A maior lacuna continua a ser o desempenho nos Jogos Olímpicos. Em Londres-2012 somou três tentativas nulas, enquanto no Rio de Janeiro-2016 proporcionou a maior surpresa e, ao mesmo tempo, a maior desilusão da sua carreira ao não conseguir fazer melhor do que 72 metros. Fajdek ficou mais de oito metros abaixo da marca registada um mês antes nos Europeus de Amesterdão e falhou a qualificação para a final.

Será que à terceira será de vez? Fajdek tem os olhos postos em Tóquio e os 31 anos e o adiamento de um ano no calendário olímpico podem não ser fatores suficientemente importantes para afastar o polaco do derradeiro objetivo. E desta vez, garantidamente, não sucumbirá à tentação de pagar o transporte com a medalha.

09 de Abril, 2021

Sang-Moon Bae. Uma carreira destruída pelo serviço militar

Rui Pedro Silva

Sang-moon Bae

Paulo Futre conseguiu escapar ao serviço militar em Portugal. Em maio de 1987, Pinto da Costa reuniu com o ministro da Defesa e garantiu um adiamento até setembro, para que o jogador pudesse disputar a final da Taça dos Campeões Europeus. Em agosto, já no Atlético Madrid, Futre teve de convencer Mário Soares.

O Presidente queria que Futre desse o exemplo a todos os portugueses, mas acabou por ceder ao criar o estatuto de atleta de alta competição. Sang-moon Bae não teve a mesma sorte na Coreia do Sul. Em 2015, o golfista que então tinha 29 anos era um dos quatro sul-coreanos com pelo menos um título em torneios do PGA Tour, mas nem isso lhe garantiu um regime especial.

 Ou melhor, começou por ser privilegiado, mas não chegou para sempre. Quando a isenção expirou no final de 2014, Sang-moon Bae entrou numa batalha judicial para garantir novo período e relembrou o tribunal distrital de Daegu de que tinha residência nos EUA e deveria ter direito a novo adiamento. A resposta não foi a esperada. Até porque o tribunal realçou que Bae passara cerca de 100 dias na Coreia do Sul em 2014 e estava a frequentar uma licenciatura.

Os homens entre 25 e 35 anos que ainda não tenham completado o serviço militar precisam de uma licença especial para continuar no estrangeiro, e o tribunal não lhe fez a vontade. «Depois da decisão, aprendi que, para mim, é maior a prioridade de cumprir o meu dever como coreano do que fazer o meu trabalho como golfista», comentou.

A partir daí, Bae entrou numa guerra contra o relógio, sabendo que a época de 2015 acabaria sempre da mesma forma: com um regresso contra a vontade. Numa temporada em que recebeu mais de dois milhões de dólares em prémios, o sul-coreano tinha pela frente um salário de 130 dólares por mês enquanto estivesse na tropa.

Com a inevitabilidade cada vez mais próxima, Sang-moon Bae admitiu que o assunto estava cada vez mais presente na sua cabeça. Tão presente que a última ronda da prova da FedEx Cup em setembro de 2015 foi fatal. À partida para o quarto dia, Bae estava igualado com Jason Day (11 pancadas abaixo do par). Depois, o australiano terminou com -19, enquanto Bae caiu para -9.

«É uma situação muito difícil. Estou a pensar nisso a toda a hora. Sou profissional e o que quero mesmo é jogar golfe. Mas isto é obrigatório na Coreia do Sul. É um bocado triste», lamentou. Se tivesse vencido a prova, Bae garantiria desde logo a presença na Presidents Cup, prova que se disputaria em casa, Seul, em outubro.

Sang-moon Bae acabou por conseguir o convite para uma das duas vagas restantes e o PGA Tour até criou uma isenção especial para permitir que, quando regressasse, dois anos depois, continuaria a ter os mesmos direitos de 2015. Mas, por essa altura, o medo já era outro. Bae esperava, e com razão, que continuasse a ter a mesma capacidade, os mesmos resultados, a mesma confiança.

Quando regressou, Bae tinha caído da posição 88 do ranking para a posição 1869. E esqueceu-se de como jogar golfe. «Não pude jogar enquanto prestava serviço porque era atirador. Tinha cinco ou seis dias de descanso por mês mas a Coreia do Sul é muito fria durante o inverno. Cinco dias não são suficientes para jogar e nesse período preferia estar com a minha família», disse.

«Esqueci-me de como se jogava golfe, não apenas de como se fazia o swing», lamentou. E nunca mais regressou a um major. Até 2015, tinha 12 presenças numa das quatro grandes provas da temporada, com o melhor resultado a ser um 33.º lugar no Masters em 2015.

O serviço militar, cumprido com compatriotas até dez anos mais novos, marcou o fim da sua carreira ao mais alto nível. Pode ter aprendido a atirar numa espingarda, e confessa que até o faz bem, mas nunca mais foi o mesmo com um taco.

08 de Abril, 2021

Ronda Rousey. O dia em que a invencibilidade chegou ao fim

Rui Pedro Silva

Holly Holm atinge Ronda Rousey

Toda a gente sabia como o combate ia ser mas quem devia ter evitado a derrota não foi capaz. Ronda Rousey perdeu. A norte-americana era até novembro de 2015 a mulher mais temível nos desportos de combate, mas o combate número 13 no UFC foi sinónimo de azar.

Em Melbourne, na Austrália, na primeira vez que lutou sem ser no continente americano, a campeã perdeu. O título de peso-galo estava em jogo e a compatriota Holly Holm, antiga campeã mundial de boxe, não desperdiçou a oportunidade.

O favoritismo estava do lado de Ronda Rousey. E provavelmente seria assim para sempre até surgir a primeira derrota. A superioridade era tão grande que o presidente da UFC, Dana White, falara mais de uma vez na possibilidade de organizar um combate contra homens. «Se derrubar a Cat Zingano como tem derrubado toda a gente, não sei o que fazer com ela [...] Vai ter de começar a lutar com homens», brincou.

Quem não brincava no octógono era Ronda: Zingano aguentou apenas 14 segundos a 28 de fevereiro de 2015 e a 1 de agosto foi a vez de a brasileira Bethe Correia cair, ao fim de 34 segundos. Ronda Rousey não se deixou levar pela possibilidade. «Não me parece que seja uma boa ideia ver um homem a bater numa mulher na televisão», afirmou ao The Daily Beast.

«Nunca me ouvirão dizer que perderia, mas a verdade é que podíamos ver uma rapariga a ser espancada por um tipo na televisão», lembrou, alertando para as questões que isso levantaria tendo em conta os episódios de violência doméstica nos EUA. «É divertido teorizar e falar sobre isso, mas é muito melhor na teoria do que na prática», defendeu.

Dana White não tinha motivos para ficar preocupado. Afinal havia pelo menos uma mulher capaz de derrotar Ronda Rousey. A campeã foi a primeira a realçar que o combate contra Holly Holm não seria decidido tão rapidamente como os anteriores. E até levantou o véu sobre a estratégia da adversária, numa aparição no início de outubro no programa de Jimmy Fallon: «Vai tentar manter a distância, ficar longe de mim e frustrar-me até ao ponto em que eu cometa um erro para que possa tentar dar-me um pontapé na cabeça. Mas não vai acontecer, não vai ser como ela quer».

Mas foi. Foi precisamente como a adversária quis. Com menos de um minuto decorrido no segundo assalto, Holly Holm aumentou a pressão sobre Ronda Rousey e aproveitou uma fração de segundo decisiva para atingir a cabeça da rival com o pé esquerdo. Depois de sofrer vários golpes na cara através de fortes socos de Holm com a mão esquerda, Ronda ficou caída no chão, perante a surpresa de 56 214 pessoas que tinham pagado o bilhete para assistir ao duelo no Etihad Stadium, casa do Melbourne Victory.

Ronda Rousey não foi a única a antever como o combate se ia desenrolar. «Tenho de dizer que tudo o que treinámos aconteceu esta noite. Nunca tinha passado tanto tempo no ginásio antes de um combate na minha vida», revelou Holly Holm, lutadora de 34 anos com um registo de 10-0. Greg Jackson, um dos seus treinadores, corroborou a versão: «Foi praticamente tudo aquilo que achávamos que ia ser. Obviamente que [Ronda] é uma grande atleta e temos todo o respeito por ela, mas teve sucesso a fazer sempre a mesma coisa durante muito tempo. Nós soubemos aproveitar».

Rousey foi dominado por Holm

O segredo residiu na preparação. «Eu e os outros treinadores juntámo-nos e não nos rendemos à perspetiva que os adeptos têm, de que a Ronda é a melhor do mundo. Para nós era apenas um problema matemático. O nosso trabalho era perceber como podíamos ganhar, essa perspetiva é que era difícil.»

Para outro dos treinadores, Mike Winkeljohn, esta vitória foi apenas o começo: «As pessoas começaram a ver muito do que a Holly pode fazer. Sabíamos que íamos lutar com a Ronda Rousey um dia, por isso a Holly nunca quis mostrar todos os trunfos. Mesmo nesta vitória ainda não mostrou tudo o que é capaz de fazer».

Para ganhar em Melbourne foi suficiente. «Sabíamos o que a Holly ia fazer. Tínhamos de arranjar forma de dar a volta e manter a pressão. Falámos sobre isso mas a Holly fez um bom trabalho a mexer-se e manteve-se calma», afirmou o treinador de Ronda Rousey, Edmond Tarverdyan.

«A Ronda pediu-me desculpa e eu disse-lhe que ela ainda é a melhor, e que falaríamos melhor sobre os planos depois do descanso. Ela precisa de descansar, não é fácil lidar com tudo o que tem estado a acontecer. Precisa de tempo para descansar e depois disso vamos perceber o que é melhor para a sua carreira.»

Para o maior responsável da UFC, Dana White, a estratégia de Holly Holm também não trouxe surpresa. «Não havia dúvida de que iria ser precisamente desta maneira que a Holly ia combater, por isso a questão era saber se a Ronda ia tentar acompanhar a estratégia. Por isso estar aqui a questionar a estratégia é tão estúpido como pensar que esta combate não foi bom», acusou.

A vitória foi um desfecho natural para Holly mas demorou a provocar efeito. «Ainda estou a tentar assimilar tudo, isto é uma loucura. Senti tanto apoio ao chegar aqui, pensei ‘como é que posso não ganhar depois disto tudo?’» Do outro lado, a queda de Ronda Rousey foi estrondosa. A norte-americana que tinha demorado dois minutos e dez segundos a vencer os quatro combates anteriores saiu combalida e foi transportada para o hospital para tratar dos golpes que sofreu no rosto e como precaução após o knock-out da derrota.

Edmond Tarverdyan confidenciou que Ronda Rousey lhe tinha pedido desculpa pela derrota e Dana White acrescentou que a lutadora norte-americana estava «devastada mas bem fisicamente».

O que começou por ser «apenas» o fim da invencibilidade tornou-se também o fim da carreira. Ronda Rousey só voltou a combater uma vez, em dezembro de 2016, e perdeu aos 48 segundos do combate contra a brasileira Amanda Nunes.

A aura graciosa tinha desaparecido completamente. A despedida nunca foi confirmada por Ronda Rousey mas a improbabilidade de voltar ao octógono foi validada durante uma entrevista com Ellen DeGeneres. «Acho que voltar a combater é tão possível como voltar aos Jogos Olímpicos», brincou a antiga judoca, medalha de bronze em Pequim-2008.

A carreira de Holly Holm também não voltou a ser tão brilhante. A lutadora perdeu cinco dos sete combates seguintes, incluindo os três imediatamente posteriores, e tem atualmente um registo de 14 vitórias e cinco derrotas.

07 de Abril, 2021

Carl Jackson. O eterno caddie do Masters

Rui Pedro Silva

Carl Jackson

Carl Jackson era apenas mais um rapaz afro-americano à procura de uma forma de sobreviver num estado da Geórgia assumidamente racista, no final da década de 50. A mãe era criada e precisava de sustentar oito filhos.

O peso era grande e a proximidade com o campo de Augusta mudou a vida da família Jackson, especialmente a de Carl. Em 1958, com 11 anos, foi abordado na rua pelo responsável pelos caddies. «Perguntou-me se queria ir ganhar algum dinheiro naquele dia. E eu disse que sim.»

Os outros sete irmãos já o tinham feito todos pelo menos uma vez, mas nenhum lhe deu tanta continuidade como Carl. Começou por ser caddie de Jack Stephens, futuro diretor do campo, mas outro membro, o presidente dos Estados Unidos Dwight Eisenhower, quis mandá-lo embora para que pudesse voltar para a escola. «Achou que era demasiado novo para trabalhar lá, o que poderia causar problemas. Mas o senhor Stephens interveio e fê-lo ver que eu tinha uma boa educação», explicou à BBC Sport.

A estreia como caddie no Masters de Augusta aconteceu em 1961, dando corpo a uma filosofia apregoada por Clifford Roberts, um dos fundadores da competição: «Enquanto for vivo, todos os golfistas serão brancos, e os caddies pretos».

Para Jackson, esse era um assunto secundário, até porque essa distinção ajudava muito a comunidade afro-americana de Augusta, que juntava o dinheiro para fazer uma festa na noite de domingo, após a quarta e última ronda. E o próprio Carl esteve perto de fazer outra festa cedo na carreira. Se o primeiro golfista de Carl Jackson, Bill Burke (campeão do US Open em 1931), falhou o cut, três anos depois, o australiano Bruce Devlin foi quarto.

A questão racial esteve sempre presente na evolução enquanto caddie, mas não houve momento mais delicado do que quando fez de caddie de Gary Player, em 1970. O sul-africano – que, na altura, já vencera cinco dos nove majors da carreira – pronunciara-se a favor do apartheid e tornara a participação em Augusta mais controversa.

O primeiro caddie designado, Ernest Nipper, renunciou à prova após receber ameaças de morte e Jackson entrou em cena. «Sabia que ia correr um risco. Mas ele era um golfista de classe mundial que tinha uma oportunidade de vencer a prova e eu precisava mesmo daquele dinheiro. Por isso, disse que sim. Fiz de caddie o torneio inteiro com os serviços secretos perto de mim, às vezes até dentro dos limites do campo.»

A relação com Gary Player não chegou a ser problemática: «Disse-me no primeiro buraco do primeiro treino que só queria que eu mantivesse as bolas e os tacos limpos. Mas quando o torneio começou, já me andava a pedir conselhos».

Carl Jackson com Ben Crenshaw

A dupla terminou no terceiro lugar. O derradeiro passo na vida de caddie foi dado em 1976, quando Jack Stephens pensou que Carl Jackson faria uma excelente dupla com Ben Crenshaw, visto serem ambos sulistas e tímidos. Tinha razão. Na estreia terminaram em segundo e, mais tarde, venceram dois troféus, primeiro em 1984 e depois em 1995, numa edição que ficou resolvida com um putt de Crenshaw.

«É a minha melhor memória de Augusta, sem dúvida. E a fotografia do nosso abraço ainda tem um lugar muito especial em minha casa», contou. Os dois não se intimidam nos elogios. «Tudo o que alcancei no Masters devo-o ao Carl», diz um. «Devo a minha vida ao Ben. Se consegui dar algo de volta, fico feliz», responde o outro.

Carl Jackson despediu-se do Masters em 2015, uma vez mais ao lado de Ben Crenshaw. No total, desempenhou a função em 54 edições, 39 delas ao lado do eterno parceiro, falhando apenas em 2000, quando estava a recuperar de um cancro no cólon.

Ben e Carl deviam ter arrancado juntos para a última participação, mas o caddie não estava em condições devido à remissão de um cancro no pulmão. Curiosamente, foi substituído pelo irmão mais novo, Bud Jackson. Ainda assim, não deixou de estar pronto para dizer adeus no segundo dia da prova.

Ben Crenshaw falhou o cut e o adeus ficou dado. Tinha 63 anos. Carl Jackson era mais velho, com 68. As 32 pancadas acima do par depois de duas rondas foram um mero pormenor. Ao terminar o último buraco de sexta-feira, sentiram o momento, deram um longo abraço e não esconderam a emoção. Um dizia adeus como duas vezes campeão de uma das provas mais emblemáticas do golfe mundial; o outro despedia-se como recordista de edições como caddie.

06 de Abril, 2021

Andrzej Grubba. O homem que tirou Dwight Schrute da Pensilvânia

Rui Pedro Silva

Andrzej Grubba

«Todos os meus heróis são jogadores de ténis de mesa. Zoran Primorac, Jan-Ove Waldner, Wang Tao, Jörg Rosskopf, e claro, Ashraf Helmy. Tenho até um poster em tamanho real do Hugo Hoyama na parede. E a primeira vez que saí da Pensilvânia foi para ir à introdução ao Hall of Fame do Andrzej Grubba.»

A citação é ficcional e pertence a Dwight Schrute, personagem da série norte-americana The Office, durante o oitavo episódio da quarta temporada. Uma das figuras mais castiças da série é conhecido pelas suas excentricidades e se a paixão pelo ténis de mesa pode ser surpreendente, inclusive a forma como domina Jim Halpert na sala de reuniões, o mesmo não se pode dizer de todas as escolhas feitas.

Vamos por partes?

Zoran Primorac é croata, foi medalha de prata em duplas nos Jogos Olímpicos de Seul (1988), tem um total de 14 medalhas em Europeus, seis em Mundiais e outras seis em Taça do Mundo.

Jan-Ove Waldner é sueco, foi campeão olímpico em Barcelona-1992, tem seis títulos mundiais num total de 16 pódios, 11 títulos europeus em 21 pódios e foi introduzido no Hall of Fame da federação internacional de ténis de mesa em 2003. O chinês Wang Tao também mereceu essa honra no mesmo ano depois de três medalhas olímpicas (um ouro em pares em Barcelona-1992), e de sete ouros, uma prata e um bronze em Mundiais.

O alemão Jörg Rosskopf tem duas medalhas olímpicas, quatro mundiais e três em Taças do Mundo, enquanto o egípcio Ashraf Helmy esteve presente em três Jogos Olímpicos (1988, 1992 e 2000) sem vencer uma única medalha. Por último, Hugo Hoyama detém o recorde de brasileiro de mais medalhas de ouro em Jogos Pan-Americanos (dez) mas nunca chegou ao pódio olímpico, entre Barcelona-1992 e Londres-2012.

Andrzej Grubba

Chegamos, finalmente, a Andrzej Grubba. O polaco, nascido a 14 de maio de 1958, foi uma potência do ténis de mesa nacional, mas talvez não mereça o rótulo de maior destaque que lhe é dado por Dwight Schrute, ao ponto de sair pela primeira vez da Pensilvânia para ir à cerimónia de introdução no Hall of Fame. Até porque… Grubba não está na Hall of Fame da federação internacional de ténis de mesa.

A federação tem regras claras e um atleta só pode ser elegível quando tiver conquistado um total acumulado de cinco medalhas de ouro nos Mundiais, Jogos Olímpicos e Jogos Paralímpicos. E Andrzej Grubba tem… um total de zero medalhas olímpicas e três medalhas em Mundiais: bronze por equipas em Gotemburgo-1985, bronze em pares em Nova Deli-1987 e bronze em singulares em Dortmund-1989.

Com uma medalha de ouro, duas de prata e duas de bronze na Taça do Mundo, Grubba foi sempre uma maior potência em Europeus, com uma medalha de ouro (pares mistos em Budapeste-1982 com a holandesa Bettina Vresekoop), quatro de prata e seis de bronze. Este currículo valeu-lhe uma menção diferente, com menor impacto, para a Hall of Fame da federação europeia de ténis de mesa. Seria essa a referência de Dwight Schrute?

A ausência de títulos de maior renome no panorama mundial não retira impacto à importância que Grubba desempenhou no desporto polaco. Considerado como o melhor atleta da modalidade na história do país, serviu também como um importante impulso para a prática do ténis de mesa a partir da década de 80.

Como tantos outros jovens na altura, Andrzej cresceu durante a década de 60 a sonhar com estádios de futebol. A carreira de futebolista nunca chegou e, apesar de ter tentado a sorte no andebol e no atletismo, foi no ténis de mesa que se notabilizou verdadeiramente.

Aproveitando a rivalidade saudável com o amigo Leszek Kucharski, foi evoluindo através dos vários patamares do desporto polaco e não demorou muito até ser visto como um ídolo. O jogador canhoto, que jogava com a mão direita mas que se destacava por alternar durante as jogadas, saltou fronteiras e chegou a representar o Zugbrucke Grenzau da República Federal da Alemanha.

À sua medida, Andrzej Grubba foi um pioneiro. Não só no desporto polaco mas também nos duelos contra os chineses, considerados naturalmente como os mais sobredotados na modalidade. O seu mediatismo fez com que o público se apaixonasse por ele e lotasse pavilhões sempre que jogava. Podia não ter a sala de medalhas repleta como outros mesatenistas, mas numa década em que Lato e Boniek eram heróis, Grubba conseguiu ser protagonista e uma inspiração para polacos.

Andrzej Grubba morreu a 21 de julho de 2005, vítima de um cancro de pulmão, com 47 anos. O episódio de The Office estreou mais de dois anos depois, em novembro de 2007.

04 de Abril, 2021

Jim Brown. Um sinónimo dos Cleveland Browns

Rui Pedro Silva

Jim Brown

Decidir quem é o melhor de sempre, no que quer que seja, costuma ser o mote para longas tertúlias em que existem duas ou mais fações e onde, no final de contas, raras são as vezes em que as opiniões são alteradas.

Quem é Maradona não se torna Pelé. Quem diz cão, não termina a noite a miar. Quem circula sempre pela via central, não vai fazer o pisca por mais que seja avisado por quem o ultrapasse. Estão a perceber o esquema? Às vezes nem é preciso ter uma opinião fundamentada sobre algo: basta tê-la e defendê-la de forma apaixonada e convicta. E assim se passam horas, dias, semanas e anos.

Quando o tema de conversa é o melhor running back da história, as opiniões também divergem. Há clubismos, memórias nostálgicas ou opiniões enviesadas pelo curto prazo, mas há um nome que figura sempre no topo da montanha. Sim, jogadores com Walter Payton e Emmitt Smith merecem ser discutidos, quer seja por recordes ou por associações a equipas míticas, mas talvez nenhum outro tenha tanta relevância como Jim Brown.

O jogador que defendeu os Cleveland Browns entre 1957 e 1965 tem um rol de argumentos difíceis de combater. Um enorme contra, pelo menos tendo em conta o que fez dentro de campo, é o azar de ter surgido numa era pré-Super Bowl. De resto os números são assustadores.

Conquistou um título da NFL, em 1964, quando os Cleveland Browns derrotaram os Baltimore Colts (27-0), e nunca foi suficientemente tímido para ficar longe de grandes exibições individuais que resultaram, inevitavelmente, em montanhas estatísticas capazes de envergonhar qualquer outro.

Jim Brown disputou um total de 118 jogos como profissional. Durante este período, somou médias de 104,3 jardas de corrida por jogo e 5,2 jardas por corrida. Nenhum outro jogador na história da NFL conseguiu atingir os três dígitos.

Se a NFL é um jogo de «inches», como Al Pacino fez questão de imortalizar (no filme Any Given Sunday, que conta com a participação de Jim Brown a fazer um papel de coordenador defensivo), a estrela dos Cleveland Browns nunca deu nenhum por perdido.

Cena de Any Given Sunday

Entre 1957 e 1965, Jim Brown fez 2359 corridas com a bola, somou 12312 jardas e 106 touchdowns. E, às vezes, até conseguia ser uma ameaça no jogo de passe, com um total de 262 receções e 2499 jardas durante a carreira.

Jim Brown tornou-se um mito praticamente desde o momento em que chegou à NFL com 21 anos. Com o número 32 nas costas, mostrou que os Browns tinham feito uma boa aposta ao escolher o jogador que tinha brilhado em Syracuse, no estado de Nova Iorque.

Original da Geórgia, filho de um pugilista, Jim Brown esteve longe de sofrer os mesmos abusos raciais que outros afro-americanos do sul dos Estados Unidos. Nascido em 1936, mudou-se para Nova Iorque com oito anos e mostrou desde o início ser uma estrela em potência em várias modalidades.

Jim Brown poderia ter escolhido o que quisesse, basebol, basquetebol, atletismo ou lacrosse, mas foi fiel à paixão pelo futebol americano. E não se pode dizer que tenha sido uma decisão errada. É certo que foi eleito para o Hall of Fame do lacrosse e que a modalidade até foi obrigada a mudar uma regra por causa dele, como a NCAA viria a fazer por culpa de Kareem Abdul-Jabbar, mas o futebol americano era verdadeiramente a sua praia.

Jim Brown tornou-se um modelo a imitar, sobretudo para as gerações que se seguiram em Syracuse. John Mackey recordou, umas décadas depois, um dos conselhos que Jim lhe deu: «Garante que quem te plaque não esqueça nunca quanto dói fazê-lo». Mas foi outro jogador universitário que saiu praticamente do mesmo molde de Jim Brown: Ernie Davis.

O Expresso de Elmira, como era conhecido, podia ter sido um segundo Jim Brown – os números apontavam para isso – e teria feito uma dupla letal em Cleveland, mas um problema de saúde evitou que os dois tivessem conseguido partilhar o campo a partir de 1962.

O título para os Browns chegou mesmo, dois anos depois, numa altura em que Jim Brown já estava a explorar uma nova carreira, no mundo do cinema. E foi durante as gravações do terceiro de 51 papéis que desempenhou que as aventuras com bola terminaram.

Jim Brown

Os Cleveland Browns não estavam satisfeitos com a ausência durante a pré-época e multaram Jim Brown sem contemplações. O jogador, a cumprir o último ano de contrato, naquela que tinha sido já anunciada como a derradeira época da sua carreira, esticou a corda e decidiu dizer adeus logo naquele momento.

Tinha 30 anos e deixava para trás algo em que era ainda uma figura temível. Os Browns seguiram em frente e, à sua medida, também foram andando de filme em filme, sempre entre comédias e tragédias e… nenhum título.

Jim Brown tornou-se sinónimo de Cleveland Browns e a fase negativa na história da equipa ajudou a imortalizar ainda mais o período do jogador no Ohio. Em contraponto, os Cleveland Browns também se tornaram o momento mais marcante na vida de Jim Brown. A carreira no cinema foi ofuscada pelo que tinha feito enquanto jogador e limitou-se quase sempre a papéis de pouco fulgor e com direito a participações como convidado em séries como O Justiceiro/A Super Máquina [Knight Rider] ou Soldados da Fortuna/Esquadrão Classe-A [The A-Team].

Os filmes mais polémicos de Jim Brown acabaram por ocorrer nos tribunais, com constantes acusações de agressão, violação e desobediência, que chegaram mesmo a ditar tempo passado na prisão.

O homem chegou a estar limitado ao seu próprio cubículo mas a lenda não tem fronteiras.