Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

É Desporto

É Desporto

30 de Junho, 2020

Du Li. A redenção depois das lágrimas

Rui Pedro Silva

Du Li

China preparou os Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, com pompa e circunstância. Nada podia falhar e tudo foi planeado ao mais pequeno detalhe. Depois de uma cerimónia de abertura fantástica, Du Li era a maior candidata a conquistar o primeiro ouro. Mas os resultados fugiram ao que estava previsto.

A história da primeira medalha de ouro atribuída nos Jogos Olímpicos de Pequim é um resultado cósmico de inúmeras curiosidades que podem ser alvo de um qualquer concurso de trivia desportivo.

Há quem a veja como a final ganha por Katerina Emmons, uma atiradora da República Checa. No meio de centenas medalhas de ouro atribuídas nos Jogos Olímpicos, é sempre difícil manter a informação atualizada, mas a primeira de todas é uma notícia que tem sempre maior destaque.

E Katerina Emmons não era uma atleta qualquer. Tinha, quatro anos antes, conquistado uma medalha de bronze em Atenas, mas esse não fora o momento mais importante dessas semanas. A checa foi uma das atletas a conformar Matthew Emmons, um norte-americano que perdera uma medalha de ouro de forma impressionante ao fazer pontaria… ao alvo errado no último disparo.

Como já devem ter percebido por esta altura, não é por acaso que Matthew e Katerina têm o mesmo apelido. Os dois criaram uma empatia especial depois de se conhecerem em 2004 e casaram em 2007. Mas, ainda assim, não é sobre esta história com enredo de Hollywood que trata este texto.

Se Katerina Emmons foi a primeira grande vencedora da edição, houve uma grande derrotada que teve quase tanto ou mais protagonismo, sobretudo na China. Falamos de Du Li, uma atleta que já tinha uma medalha de ouro conquistada em Jogos Olímpicos.

A chinesa era vista como a grande favorita e a expectativa de ser uma atiradora da casa a vencer o primeiro título dos Jogos era enorme. Tal como a pressão sobre os ombros de Li. Depois de falhar o objetivo – e as medalhas (5.ª) -, Li não conseguiu aguentar mais e chorou compulsivamente perante público e jornalistas. Tinha falhado o seu maior objetivo.

Felizmente para ela, houve oportunidade para a redenção. Logo no dia seguinte, na prova de carabina de 50 metros, três posições, Du Li dominou e chegou ao tão ansiado título olímpico em casa.

Nada apagaria a mágoa sentida depois do primeiro fracasso, mas o título ajudou a atenuar o sofrimento e a regressar aos holofotes do seu próprio público. Foi a recuperação que precisava depois de uma desilusão tão grande.

29 de Junho, 2020

Ryoko Tamura. O último capítulo de uma história impressionante

Rui Pedro Silva

Ryoko Tamura

Judoca japonesa, considerada por muitos como a melhor de sempre, despediu-se dos tatamis olímpicos com a medalha de bronze na categoria de -48 quilos nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008. Para trás, ficou uma carreira combatida de forma brilhante.

Ryoko Tamura apresentou-se ao mundo com 16 anos, nos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992. Era uma fiel desconhecida, ninguém sabia muito bem o que esperar, mas foi galgando ronda atrás de ronda até terminar com a medalha de prata.

O cartão de visita foi aumentando a cada ano. Depois de ser campeã mundial da mesma categoria (-48 quilos) em Hamilton-1993 e Chiba-1995, chegou a Atlanta com o estatuto de crónica favorita à medalha de ouro.

O problema? Apareceu outra jovem desconhecida a fazer história: desta feita a norte-coreana Sun-hui Kye. Novamente remetida à medalha de prata, Tamura nunca desistiu e manteve-se fiel, de forma bastante invulgar até, à mesma categoria de peso durante toda a carreira.

Os preparativos para os Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000, trouxeram uma sensação de déjà vu, com os títulos mundiais em Paris-1997 e Birmingham-1999. Na Austrália, ostentando novamente o selo de favorita, Tamura venceu finalmente a medalha mais ansiada e conseguiu revalidá-la em Atenas-2004, já com 28 anos e depois de… acumular mais dois títulos mundiais.

Quis o destino que a carreira olímpica terminasse em Pequim, praticamente ali «ao lado de casa». Com mais um título mundial em 2007 (2005 foi o único ano desde 1993 em que não conseguiu ser campeã), Tamura era candidata às medalhas mas já não tinha a mesma aura de favoritismo de edições anteriores.

Ainda assim, o combate que a deixou fora da luta pela medalha de ouro foi controverso, depois de ter recebido uma penalização por falta de agressividade a escassos segundos do fim do duelo com Alina Dumitru. O bronze final, apesar de tudo, garantiu algo histórico: entre os Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, e os de Pequim, em 2008, Tamura terminou sempre no pódio da mesma categoria, com duas medalhas de ouro, duas de prata e uma de bronze.

Foram 16 anos sempre ao mais alto nível de uma atleta que se estreou em Jogos Olímpicos com… 16 anos. O fechar de um ciclo perfeito. Ou quase, vá. Quando terminou a carreira em 2010, os registos não permitiam qualquer engano: Ryoko Tamura perdeu apenas cinco combates na carreira.

26 de Junho, 2020

Matthew Emmons. Da sabotagem à medalha de ouro

Rui Pedro Silva

Matthew Emmons

Competiu com uma carabina emprestada depois de a sua ter sido adulterada no centro de treinos nos Estados Unidos uns meses antes. Nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, esteve perto de conseguir uma dobradinha inédita mas um último tiro completamente falhado impediu o objetivo. Ainda assim, há males que vêm por bem.

«Não sei quem foi mas gostava de saber. Gostava de lhe apertar a mão e agradecer.» A frase de Matthew Emmons parece irónica. O atirador norte-americana viu a vida andar para trás quando, em vésperas de Jogos Olímpicos, chegou ao centro de tiro nos Estados Unidos e percebeu que estava algo errado com a sua arma. Apesar de guardada a cadeado, tinha sido adulterada e não estava em condições.

A sabotagem fez com que começasse a treinar com a carabina de Amber Garland, que tinha conhecido na universidade e com a qual mantinha contacto por serem colegas de equipa. Matthew tinha 23 anos e um objetivo muito claro: brilhar nos Jogos Olímpicos de Atenas no verão.

A meta não era demasiado ambiciosa: afinal de contas, ninguém sabota armas de simples desconhecidos. Matthew Emmons era o campeão mundial da carabina a 50 metros, três posições, e gostava de conseguir duas medalhas de ouro na sua estreia olímpica.

A adaptação à nova arma foi perfeita, vencendo a medalha de ouro na competição de carabina a 50 metros, posição fixa, com pouco mais de um ponto de vantagem sobre o alemão Christian Lusch. Faltava apenas mostrar a razão para ser campeão do mundo na outra disciplina, agendada para dois dias mais tarde.

Emmons procurava tornar-se o primeiro atirador da história a acumular os títulos olímpicos nas duas especialidades. E tudo parecia perfeito, com tiros precisos e uma vantagem que crescia a cada passagem e mudança de posição. Faltava apenas um tiro para fechar com chave de… ouro. Mas aconteceu uma desgraça: Emmons atirou ao alvo errado, não fez qualquer ponto e caiu do primeiro para o oitavo lugar.

O desalento provocou uma onda de solidariedade no evento. Entre as pessoas que fizeram questão de o consolar estava uma atiradora checa, Katerna Kurkova. Os dois não se conheciam mas deram-se bem, começaram a falar cada vez mais e… casaram três anos depois.

Em Pequim, Matthew Emmons voltou a contar com um grande azar no currículo, ao perder novamente o título na carabina a 50 metros, três posições, no último tiro, disparando um projétil inadvertidamente e sem a pontaria feita. Desta feita caiu para o quarto lugar, contentando-se apenas com a prata que tinha vencido em posição fixa.

Em 2012, na terceira e derradeira oportunidade de ganhar uma prova nas três posições, e já depois de ter sido diagnosticado com um cancro na tiróide, não teve qualquer azar a intrometer-se pelo caminho mas também não conseguiu saborear o ouro. Ainda assim, depois dos incidentes de 2004 e de 2008 ficou mais do que satisfeito ao terminar com o terceiro lugar. Tinha-se fechado um ciclo.

O casal Emmons terminava a carreira com um currículo olímpico perfeitamente idêntico: uma medalha por cada posição do pódio.

25 de Junho, 2020

Chris Hoy. Bater um recorde olímpico todo esfolado

Rui Pedro Silva

Chris Hoy

Os Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, fizeram com que Chris Hoy já não seja simplesmente conhecido pelo seu nome. Nascido na Escócia e inspirado pelos grandes atletas que via na televisão, este Sir esteve perto de ficar de fora do contrarrelógio de um quilómetro no ciclismo de pista por causa de um acidente. Mas não ficou. E o resto é história.

Nasceu em Edimburgo, em 1976, e baseou todos os seus interesses, ao crescer, no que via na televisão. Apaixonou-se pelas bicicletas por causa do filme ET de Steven Spielberg e passou para o ciclismo de pista quando viu o escocês Eddie Alexander a competir nos Jogos da Commonwealth em 1986.

As sementes estavam lançadas. Tinha apenas dez anos mas estava a pedalar rumo à imortalidade. Ano após ano foi evoluindo, dedicando-se cada vez com mais afinco, e as maiores recompensas começaram a chegar com a viragem do século: depois de uma medalha de prata nos Mundiais em 1999, fez parte da equipa britânica que terminou em segundo nos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000.

Em Atenas, quatro anos depois, a fasquia estava muito mais elevada. Já somara títulos múltiplos e era um dos grandes candidatos ao triunfo na prova de contrarrelógio de um quilómetro. Tinha tudo para vencer menos… sorte. Em vésperas de competição, «despistou-se» ao volante de uma bicicleta e por pouco não foi atropelado por um autocarro.

No dia da prova, ainda visivelmente esfolado, seria o último ciclista a ir para a pista. Enquanto assistia, foi vendo o recorde cair uma, duas, três vezes. O objetivo podia parecer cada vez mais complicado, mas Hoy estava determinado a fazer história. E pedalou para isso desde a primeira volta, estabelecendo desde logo tempos mais rápidos do que os seus antecessores.

Com uma marca de um minuto e 0,711 segundos, Chris Hoy estabeleceu um novo recorde olímpico, deixou o pavilhão de pé e conquistou a primeira de seis medalhas de ouro olímpicas da sua carreira.

Tornou-se uma lenda do ciclismo de pista. Com sete medalhas em Jogos Olímpicos e 25 em Mundiais (11 delas de ouro), deixou de ser inspirado e passou a inspirador. Os seus feitos mereceram o reconhecimento da Rainha Isabel II de Inglaterra e em 2009, quando a sua carreira ainda estava longe de terminar, foi coroado cavaleiro e começou a responder pelo nome de Sir Chris Hoy.

24 de Junho, 2020

Valentina Vezzali. Um duelo de aldeia na final olímpica

Rui Pedro Silva

Valentina Vezzali

Final do florete individual feminino dos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, pôs frente a frente duas esgrimistas italianas, Valentina Vezzali e Giovanna Trillini. Mas as duas atletas não partilhavam apenas a mesma nacionalidade: partilhavam experiências, feitos históricos e, surpreendentemente, a mesma pequena terra na província de Ancona.

Giovanna Trillini nasceu a 17 de maio de 1970, em Jesi. Quatro anos depois, no Dia dos Namorados, a mãe de Valentina Vezzali deu à luz em… Jesi. Ainda ninguém sabia mas aquela pequena localidade, que hoje não tem mais de 40 mil habitantes, tinha acabado de reunir duas das esgrimistas mais brilhantes do país, o que, na nação que festejou os feitos de Edoardo Mangiarotti, não é apenas um pormenor.

Jesi habituou-se a celebrar os títulos de ambas. Mais velha, Trillini começou a dar nas vistas nos grandes palcos no Mundial de 1991, quando garantiu o título no florete. A benjamim da dupla, Valentina Vezzali, só se estreou dois anos depois e não foi além da sexta posição.

Mas em 2004, quando uma tinha 34 anos e a outra 30, o currículo de ambas era verdadeiramente impressionante. No maior palco, os Jogos Olímpicos, Trillini conquistara seis medalhas (quatro de ouro), enquanto Vezzali tinha quatro pódios (com três títulos, apenas um individual, incluídos).

Quando a prova de florete individual arrancou em Atenas, toda a Itália começou a desenhar uma final «de aldeia» entre as duas atletas. Passo a passo, foram afastando adversárias até chegar o duelo tão antecipado.

O equilíbrio fez daquele confronto um verdadeiro thriller. Na primeira série, Trillini vencia por 1-0 e, depois de duas, registava-se um empate a seis. Mais jovem e com mais sede de vitórias, Vezzali partiu para uma terceira série imparável, acabando por vencer 15-11.

Valentina Vezzali assumia-se cada vez mais como a maior mestre do florete. Quatro anos antes, sagrara-se campeã olímpica numa prova individual pela primeira vez ao derrotar a alemã Rita König. Agora revalidara o título contra a sua amiga de longa data e grande rival nacional.

Se para Trillini aquele foi o início do fim, despedindo-se da carreira olímpica em 2008 com mais uma medalha coletiva e um balanço de quatro ouros, uma prata e três bronzes, para Vezzali foi a confirmação de que era uma das melhores esgrimistas do século XXI.

O adeus olímpico deu-se em Londres-2012 com mais duas medalhas: ouro no florete por equipas e bronze no florete individual. O balanço final é esclarecedor: seis medalhas de ouro, uma de prata e duas de bronze. O mais impressionante é o facto de ter subido sempre ao pódio no florete individual durante as cinco participações olímpicas: prata em Atlanta-1996, ouro em Sydney-2000, Atenas-2004 e Pequim-2008, e bronze em Londres-2012.

E tudo isto com Jesi a festejar cada medalha, fosse de Vezzali ou de Trillini. Para uma pequena terra de menos de 40 mil pessoas, não está nada mau ter um total acumulado de dez títulos e 17 medalhas olímpicas. Talvez seja da água.

23 de Junho, 2020

Gal Fridman. Finalmente um motivo para Israel festejar

Rui Pedro Silva

Gal Fridman

Velejador tornou-se o primeiro – e único até ao momento – atleta de Israel a conquistar uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos. Foi em Atenas-2004, na classe Mistral, 32 anos depois de um dos momentos mais negros na história desportiva do país.

Quando se fala de Israel e Jogos Olímpicos, a primeira memória nunca é boa. Não é nos grandes feitos desportivos, nas emoções dramáticas na luta por uma medalha ou nos momentos arrepiantes de fair-play que pensamos. Por mais anos que passem, será difícil fugir à página negra de Munique, em 1972, quando um grupo terrorista fez refém e assassinou onze israelitas (seis treinadores e cinco atletas).

As participações israelitas já eram motivo de grandes preocupações de segurança na altura e a partir daí tornaram-se ainda mais urgentes. Israel fazia parte da festa do maior evento desportivo do mundo mas nunca conseguia celebrar. Pelo menos até aos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, quando a judoca Yael Arad venceu a primeira medalha na história do país: prata na categoria de -61 quilos.

Israel tomou-lhe o gosto e logo no dia seguinte foi a vez de Oren Smadja, também judoca, ganhar a medalha de bronze na categoria de -71 quilos. As medalhas começaram a aparecer aqui e ali, mas faltava o mais importante: ter um campeão olímpico e garantir que o hino tocava numa cerimónia.

O herói foi Gal Fridman, um velejador nascido em Karkur a 16 de setembro de 1975, três anos depois do Massacre de Munique. O atleta já tinha sido medalha de bronze em Atlanta, na classe Mistral, mas conseguiu fazer ainda melhor em 2004 e tornar-se uma figura imortal do desporto israelita.

Não só foi o primeiro – e único até ao momento – a vencer uma medalha de ouro, como é também o único a ter mais do que uma medalha. As campanhas de Israel continuam a ser modestas (apenas nove medalhas: três na vela, cinco no judo e uma na canoagem) mas ninguém esquece Gal Fridman.

22 de Junho, 2020

Vanderlei de Lima. Quando um padre confirmou o inevitável

Rui Pedro Silva

Vanderlei de Lima e o padre irlandês

Brasileiro fez grande parte da maratona dos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, isolado na frente. Quando começou a ceder, nos quilómetros finais, foi atacado por um padre irlandês que o atirou para a vedação. Vanderlei voltou à estrada, perdeu a medalha de ouro que se afigurava cada vez mais complicada, mas celebrou efusivamente o terceiro lugar do pódio.

A maratona nos Jogos Olímpicos de 2004 era uma das provas mais cobiçadas. Mais de 100 anos depois, a prova regressava ao estádio que coroara Spyridon Louis como o primeiro grande vencedor da competição na era moderna e a lista de candidatos era enorme.

Impulsionado pela motivação, o brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima, na altura com 35 anos e dois títulos continentais para amostra, decidiu isolar-se e partir em busca de história: tornar-se o primeiro corredor do Brasil a vencer a prova nos Jogos Olímpicos.

A vantagem sobre os adversários chegou a superar o minuto de diferença mas à passagem do quilómetro 35 as pernas já tremiam, a perseguição intensificava-se e as probabilidades de vitória eram cada vez mais diminutas. Ainda assim, ninguém esperou que as esperanças terminassem de forma tão abrupta, ao ser vítima de um ataque de um padre irlandês, Neil Horan, que, vestido de kilt e com uma bandeira, invadiu a estrada, correu na sua direção e o atirou para a vedação.

Com a ajuda do público, Vanderlei regressou à corrida, ainda na liderança mas por pouco tempo. Um par de quilómetros depois, foi ultrapassado pelo italiano Stefano Baldini – futuro campeão olímpico – e pelo norte-americano Meb Keflezighi.

O objetivo era claro: garantir a terceira posição, subir ao pódio e festejar a forma olímpica como tinha resistido a tudo – até ao inesperado – durante a prova. À entrada no histórico Panathinaiko, Vanderlei de Lima era um homem feliz, com um sorriso rasgado e correndo em pequenas curvas para assinalar os festejos.

Os milhares de espetadores, sabendo o que se tinha passado, ovacionaram-no como se de um vencedor se tratasse. E com razão. A medalha de bronze foi garantida com 15 segundos de vantagem sobre o britânico Jon Brown e, além do metal precioso, recebeu também a medalha Pierre de Coubertin, para premiar o seu desportivismo e a forma como reagiu ao ataque.

19 de Junho, 2020

Marion Jones. A glória antes da queda estrondosa

Rui Pedro Silva

Marion Jones

Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000, foram o pináculo da carreira de Marion Jones. Com três medalhas de ouro e duas de bronze, a norte-americana foi a principal figura do atletismo. Sete anos depois, após uma vida a defender-se das acusações, confessou finalmente o recurso ao doping. Ex-marido chegou mesmo a dizer que viu Jones injetar-se na Aldeia Olímpica.

Marion Jones era um pouco de tudo. Notabilizou-se pela rapidez a nível nacional logo aos 15 anos, sabia saltar como poucas e, reunindo estas duas características, também fez carreira como basquetebolista, como prova a chegada à WNBA já numa fase decadente da sua vida desportiva e com a glória olímpica ofuscada pelo consumo de doping.

Quando chegou aos Jogos Olímpicos na Austrália tinha 24 anos. Podia ter participado em Barcelona, mas abdicou. Quatro anos depois, em Atlanta, perdeu a vaga por causa de uma lesão. O azar – por vezes misterioso – bateu-lhe à porta mais do que uma vez e, também por isso, fez questão de fazer do evento de Sydney a sua afirmação definitiva.

Impulsionada pelos títulos mundiais nos 100 metros (Atenas-1997 e Sevilha-1999) e por uma medalha de bronze no salto em comprimento na Andaluzia, Marion Jones quis correr – e saltar – atrás da história na terra dos cangurus.

O objetivo era estrondoso: ganhar cinco títulos olímpicos no atletismo na mesma edição (100 metros, 200 metros, salto em comprimento e estafetas dos 4x100 e 4x400). Era uma fasquia muito ambiciosa mas Marion Jones acreditava no seu valor… e nos seus trunfos obscuros.

A estado-unidense não venceu as cinco provas mas regressou com cinco medalhas: ouro nos 100, 200 e 4x400 e bronze no comprimento e 4x100. O «fracasso» não a impediu de ser considerada a maior figura da competição e ser distinguida com o título de melhor atleta do ano para a Associated Press, Reuters, IAAF e federação norte-americana de atletismo.

Os Mundiais de Edmonton, no ano seguinte, confirmaram o estatuto de Marion Jones mas, por esta altura, já a sua imagem começava a perder luz. As investigações ao uso sistemático de doping por parte de atletas norte-americanos pareciam ir dar sempre a Marion Jones, de forma direta ou indireta. Os treinadores estavam implicados, o ex-marido estava implicado, um namorado também.

O aumento da suspeição foi gradual durante a década mas a glória olímpica só morreu em definitivo em 2007 quando, em lágrimas, Marion Jones anunciou ao mundo que era uma batoteira. Por esta altura, já o ex-marido, o lançador do peso CJ Hunter, tinha testemunhado em tribunal que vira a então mulher injetar-se na barriga na Aldeia Olímpica durante os Jogos de Sydney.

Marion Jones nunca acusou. Por vezes, teve sorte. Noutras, engenho. Há aquelas ainda em que beneficiou de estar mais avançada nas substâncias do que os próprios controlos. Mas, de uma forma ou de outra, foi sempre passando pelos intervalos da chuva. Quando a pressão foi impossível de continuar a controlar, Jones decidiu contar a verdade, abrindo caminho para a sua desqualificação de todas as provas de 2000 e de 2001.

Envergonhada, embaraçada e humilhada em sede própria. A mentira tem perna curta, em contraste com as passadas brilhantes dos atletas mais rápidos do mundo. Marion Jones era-o de origem, mas estragou tudo.

18 de Junho, 2020

Cathy Freeman. No melhor exemplo caiu o ouro

Rui Pedro Silva

Cathy Freeman

Descendente de aborígenes, velocista australiana aceitou o peso da responsabilidade de mostrar ao mundo a sua história e a explosiva mistura de gerações durante a cerimónia de abertura. Dias depois, onde mais importava, fez questão de ganhar a corrida dos 400 metros e garantir que era mais que um exemplo.

Cathy Freeman representava a história da Austrália. Neta de uma aborígene que foi roubada à família para ser criada por brancos, era também descendente de chineses e sírios. Num único corpo, conhecido pelos feitos desportivos, o comité organizador encontrou a melhor forma de explicar ao mundo como o povo australiano era diversificado.

O convite para acender a pira olímpica surpreendeu a atleta. Medalha de prata dos 400 metros nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, e bicampeã do mundo da mesma distância (Atenas-1997 e Sevilha-1999), a australiana estava apenas preocupada em confirmar o favoritismo e vencer perante o seu público.

«Foi um momento surreal. Estava embrenhada no meu treino e a garantir que o meu corpo estava no ponto e o telefonema chegou sem aviso. Fiquei assoberbada pela hipótese», contou ao site dos Jogos Olímpicos.

O momento, de uma beleza incrível, marcou a vida de Cathy Freeman, dos australianos e de todos aqueles que a viram pela televisão. Não apenas pelo gesto em si mas pelo que simbolizava.

A prioridade era, ainda assim, vencer em pista. Era para isso que tinha trabalhado e não admitia outra possibilidade. Depois de passear durante as eliminatórias, Freeman correu a final num fato completo que se tornou um dos momentos mais memoráveis e, ao mesmo tempo, excêntricos da competição. Com o estádio a abarrotar com 112 mil pessoas e audiências televisivas na Austrália a bater todos os recordes, a australiana correu por tudo o que representava e atingiu a medalha de ouro, superando a jamaicana Lorraine Graham e a britânica Katharine Merry.

A ovação pareceu eterna. Cathy Freeman limitou-se a ficar sentada na pista, aliviada por tirar um peso dos ombros mas, ao mesmo tempo, aborrecida por ter feito um tempo demasiado lento (cerca de meio segundo) para o que era o seu recorde pessoal.

Hoje, tantos anos depois, o tempo é o menos importante. Não há australiano que tenha vivido aquele momento que não reconheça Cathy Freeman e faça questão de a interpelar para contar a sua história, de como foi importante e memorável aquela vitória. «Quando esses momentos acontecem, é quase ver um espetáculo de magia. Tenho tentado todos os dias, todos os anos, respeitar a forma como as pessoas se relacionam com aquela corrida. É muito intenso, muito honesto», explicou.

Cathy Freeman foi apresentada como um símbolo de unidade e não defraudou as expetativas. Naquela noite de setembro de 2000, e para sempre desde então, será uma memória partilhada por milhões, de todos os quadrantes e origens australianas.

17 de Junho, 2020

Steve Redgrave. O homem que esteve cinco edições a vencer

Rui Pedro Silva

Steve Redgrave

Remador britânico saboreou o ouro pela primeira vez em 1984 e tomou-lhe o gosto, repetindo a proeza em Seul, Barcelona e Atlanta. Na despedida da carreira, nos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000, tornou-se o quarto atleta a ser campeão em cinco edições consecutivas.

Steve Redgrave pôde participar nos Jogos da Austrália porque ninguém lhe fez a vontade expressa depois da medalha de ouro em Atlanta, quatro anos antes. «Quem quer que me veja perto de um barco tem a permissão para me matar», disse, já com 34 anos, e achando que estava mais do que na altura de terminar uma carreira brilhante.

O fim durou apenas quatro meses. Como em tantos outros momentos do desporto de elite mundial, o atleta não resistiu ao chamamento interior e deixou-se seduzir pela hipótese de fazer história novamente. A sua imagem já era intocável, somava condecorações e prémios, e ninguém na Grã-Bretanha punha em discussão o seu estatuto no olimpismo nacional. Mas Redgrave achava que conseguia fazer algo mais. E tinha razão.

Quando aterrou no país dos cangurus, Steve Redgrave tinha nove títulos mundiais e cinco medalhas olímpicas. Fora campeão num barco de quatro com timoneiro em Los Angeles-1984 e, entre Seul-1988 e Atlanta-1996, em barco de dois sem timoneiro. Pelo meio, na Coreia do Sul, também foi medalha de bronze em barco de dois com timoneiro.

Em Sydney decidiu voltar mais ou menos às origens. Regressou a um barco de quatro, mas desta vez sem timoneiro. A equipa era brilhante e vencera todas as provas em que tinha participado nos três anos anteriores, exceto uma, em vésperas de Jogos Olímpicos.

A dúvida nasceu no seio do remo mas a equipa com Steve Redgrave, Matthew Pinsent (seu colega nos títulos de 1996 e 1992), Tim Foster e James Cracknell fez questão de dissipar toda a incerteza a partir da primeira eliminatória, registando um tempo mais de três segundos mais rápido do que toda a concorrência.

O mote estava dado e ninguém os impediu. As equipas da Austrália e de Itália eram ameaças mas, no final, os britânicos cruzaram a linha de água que mais importava com 0,38 segundos de vantagem. Era o fim perfeito para a carreira de Steven Redgrave. Cinco títulos olímpicos em cinco edições consecutivas e, agora sim, o adeus definitivo.

16 de Junho, 2020

Rulon Gardner. O lutador que conseguiu o impossível

Rui Pedro Silva

Rulon Gardner

Lutador greco-romano dos Estados Unidos tinha 29 anos e uma experiência internacional quase nula mas subiu ao estrelato nos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000. Foi o único capaz de derrotar, na final, o russo Aleksandr Karelin, tricampeão olímpico em título, e com 13 anos de supremacia desportiva intocável.

Aleksandr Karelin era um «pequeno monstro» de 130 quilos quando venceu a medalha de ouro nessa categoria nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988. Tinha vinte anos, uma carreira imensa pela frente, e mostrou desde o primeiro momento que não tinha problemas em afastar adversário atrás de adversário sem permitir qualquer esperança.

O lutador nascido a 19 de setembro de 1967, em Novosibirsk, tornou-se uma figura incontornável da modalidade. Depois de subir ao lugar mais alto do pódio em 1988 com a bandeira da União Soviética, fez o mesmo, com a mesma facilidade, em Barcelona-1992 com a Equipa Unificada e em Atlanta-1996 com a Rússia.

Quando chegou a Sydney, em 2000, tinha acabado de fazer 33 anos mas prometia mais do mesmo - e conquistar uma quarta medalha de ouro consecutiva. Os combates em que participou até atingir a final indicavam isso mesmo: ultrapassou Sergei Mureiko, Mihaly Deak-Bardos, Georgiy Saldadze e Dmitry Debelka sem ceder um único ponto. Agora restava apenas um norte-americano semi-desconhecido.

Rulon Gardner, 29 anos, vinha de uma família com tradição de wrestling mas não tinha um cartão de visita muito rico, além do título mundial da categoria de 130 quilos em 2001, num evento em que Karelin não participou.

O favoritismo estava todo do lado russo mas o norte-americano aguentou-se e capitalizou quando foi preciso. Depois de Karelin cometer um erro, que lhe valeu um ponto de penalidade, Gardner passou para uma estratégia defensiva, anulando qualquer investida do rival e esperando que o relógio chegasse ao zero.

Foi o choque da modalidade. Karelin não permitia um ponto há seis anos e ali, por culpa de um erro próprio, tinha perdido a medalha de ouro para um zé-ninguém americano em que ninguém apostava.

A vitória em Sydney catapultou Gardner para a fama – afinal, era o homem que tinha conseguido derrotar Karelin –, mas os anos que se seguiram não foram grande recompensa. Em 2002 viu-se envolvido em vários acidentes graves que provocaram a amputação de um dedo do pé. Com uma peça a menos, o atleta manteve-se na luta e garantiu o passaporte para Atenas, em 2004.

Não era o mesmo, claro está, mas foi suficiente para vencer a medalha de bronze naquela que foi a sua última competição na luta greco-romana.

15 de Junho, 2020

Eric Moussambani. Aprender a nadar para ir aos Jogos Olímpicos

Rui Pedro Silva

Eric Moussambani

Nadador da Guiné Equatorial foi uma das coqueluches dos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000. O atleta que tinha acabado de aprender a nadar venceu uma eliminatória dos 100 metros, numa corrida em que estava completamente sozinho depois de os dois adversários terem sido desqualificados por falsa partida. Prova foi lenta, muito lenta, e Moussambani não se agarrou à corda por pouco.

Ryan Lochte conquistou cinco medalhas de ouro nos Mundiais de natação em Xangai em 2011 e tornou-se uma figura incontornável. Na mesma edição, com sete medalhas (apenas quatro de ouro), Phelps igualou o recorde de pódios numa única edição de mundiais. A tendência parece ser clara: para entrar na história é preciso conseguir grandes resultados.

Mas, como em todas as tendências, há exceções. Em 2000, Eric Moussambani tornou-se o nadador mais lento – e ainda assim mais emblemático – da história dos 100 metros livres. O sonho de Pierre de Coubertin implicava a envolvência de vários povos e culturas reunidos em torno do desporto. Por isso, naquele ano, o Comité Olímpico decidiu levar a ambição mais além.

Dessa forma, foram dadas oportunidades a atletas de países em desenvolvimento e Eric Moussambani, da Guiné Equatorial, foi escolhido para competir numa das eliminatórias dos 100 metros livres. Na mesma prova, Moussambani teria a companhia de outros dois atletas na mesma situação: Karim Bare (Níger) e Farkhod Oripov (Tajiquistão). Se os fatos de poliuretano foram proibidos entretanto, em 2000 já Moussambani se contentava por utilizar apenas uma tanga azul.

Os milhares de adeptos das bancadas não sabiam o que estava prestes a acontecer, mas aquele jovem de 22 anos do Equador africano seria o vencedor da prova mais solitária e peculiar da história da natação. Bare e Oripov, quiçá nervosos com a estreia, cometeram uma falsa partida e foram desqualificados. Moussambani estava sozinho e tudo dependia dele.

O nervosismo era natural. Afinal de contas, tinha aprendido a nadar em janeiro desse ano e até chegar à Austrália nunca tinha visto uma piscina de 50 metros. Nem nadado 100 metros seguidos. A experiência de Eric limitava-se à piscina de 20 metros de um hotel em Malabo, a capital da Guiné Equatorial. O tiro de partida soou e Moussambani fez-se à água. O recorde mundial era do australiano Michael Klim, com 48,18 segundos, mas o objetivo era apenas completar a prova.

Cedo se percebeu porquê. As dificuldades técnicas eram óbvias, a cabeça estava sempre acima da linha de água e até ficar com o corpo numa posição horizontal parecia difícil para Moussambani. À passagem dos primeiros 50 metros, o tempo de 40,97 segundos não deixava grandes promessas para a segunda metade. O pesadelo do nadador africano estava a começar. A inexperiência fez daqueles segundos 50 metros um calvário e só os gritos do público o impediram de desmoralizar nos últimos metros quando as braçadas o pareciam afastar da meta, em vez de aproximar.

Na prova em direto, um comentador chegou mesmo a prever que Moussambani teria de se agarrar à corda. «Os últimos 15 metros foram difíceis», afirmou, para depois agradecer a um público que já estava completamente rendido a Eric, a Enguia, como ficou conhecido: «Quero mandar abraços e beijinhos ao público. Foram os aplausos que me fizeram conseguir». O resultado de 1:52.72 não desmotivou Moussambani.

Foi mais do que o dobro dos melhores do mundo, nem sequer daria para bater o recorde dos 200 metros e está ao nível dos nadadores mais rápidos no escalão entre os 100 e os 105 anos, mas para o africano valeu a pena. Saiu de Sydney com a promessa de voltar quatro anos depois e, apesar de em 2004 já conseguir completar a distância em menos de 57 segundos, não viajou para Atenas. Os problemas com o passaporte, sem fotografia, impediram-no de cumprir o segundo sonho olímpico.

A desilusão falou mais alto e, aos 26 anos, Moussambani optou por abandonar a carreira: «Gostaria de continuar a nadar mas não sei se vou conseguir. As pessoas queriam que eu voltasse. Queriam ver-me em Atenas. É terrível o que me fizeram. Deixa-me zangado porque estava a treinar para isso».

12 de Junho, 2020

Kerri Strug. A dolorosa aterragem em prol da equipa

Rui Pedro Silva

Kerri Strug

Ginasta norte-americana sofreu uma lesão grave durante a prova por equipas no salto de cavalo mas era vista como essencial para a conquista de um título inédito dos Estados Unidos. Incentivada pelo treinador, o histórico Bela Karolyi, mordeu a língua, foi à luta e desempenhou o seu papel.

Kerri Strug esteve para a equipa dos Estados Unidos nos Jogos Olímpicos de Atlanta em 1996 como Shun Fujimoto tinha estado para o Japão em Montreal-1976. Lesionada, incapaz de continuar, mas carregando a responsabilidade de um país inteiro para chegar a uma tão desejada medalha de ouro.

A ginástica artística feminina vinha a ser dominada pela União Soviética e Roménia de forma continuada, sobretudo nas provas coletivas, mas os Estados Unidos queriam intrometer-se na festa. A primeira página de história tinha-se escrito quando Mary Lou Retton vencera o ouro no concurso completo, em 1984, tornando-se a primeira ginasta dos Estados Unidos a consegui-lo. Mas, lá está, essa foi uma edição em que os países europeus de leste boicotaram a competição.

Em 1996, a tensão geopolítica era radicalmente diferente. A Roménia vivia uma era diferente, a União Soviética tinha sido desintegrada e… os Estados Unidos queriam fazer tudo para vencer em casa. Para o efeito, construíram um plantel de luxo que ficou para sempre conhecido como Magnificent Seven.

Kerri Strug era uma das sete. Tinha feito parte da equipa em 1992, conquistando apenas uma medalha, de bronze, na prova coletiva, e não era das mais promissoras. Mas, como demonstrou em 1996, às vezes há méritos intangíveis que só aparecem nos momentos decisivos.

Foi o que aconteceu a Strug. Com 18 anos, sentiu a esperança do país em cima dos ombros. As pernas não tremiam porque, na verdade, tinha acabado de sofrer uma lesão que, em situações normais, seria suficiente para acabar com a sua participação nos Jogos Olímpicos.

O problema? Os Estados Unidos precisavam mesmo – ou pelo menos era essa a perceção – que Strug fizesse o segundo salto no cavalo para atenuar as dificuldades da compatriota Dominique Moceanu e manter a vantagem escassa sobre a Rússia.

Strug, incentivada por Bela Karolyi, que lhe garantiu que era mesmo determinante que voltasse a saltar, não virou a cara ao desafio. Sabia perfeitamente que não estava em condições mas desligou o interruptor da dor por alguns segundos. Apenas os necessários para conseguir sprintar na direção do trampolim, executar a manobra praticamente na perfeição e fazer uma aterragem sólida. Sorriu, acenou para os juízes e… o interruptor religou-se sem pedir licença.

A ginasta norte-americana não conseguia sequer manter-se em pé e sair do colchão sozinha, acabando por ser transportada ao colo pelo treinador. No final, o sacrifício foi recompensado com uma nota de 9,712 mas, na verdade, feitas as contas, os Estados Unidos não precisariam do seu contributo para garantir a medalha de ouro.

Com um estiramento de terceiro grau nos ligamentos do tornozelo e com o tendão danificado, Strug não conseguiu sequer ter autonomia para subir ao lugar mais alto do pódio com o resto da equipa. Mas não precisava disso para se sentir uma nova heroína dos norte-americanos.

O seu gesto foi visto como um ato de coragem e de sacrifício enorme e a fama foi instantânea. Apaixonados por boas narrativas, os norte-americanos ficaram rendidos a Strug e, durante as semanas seguintes, apareceu em tudo o que era programa televisivo, contando a sua história e recebendo aplausos por onde quer que passasse. Há momentos assim. Dolorosos mas banhados a ouro.

11 de Junho, 2020

Michael Johnson. A dobradinha histórica 200/400

Rui Pedro Silva

Michael Johnson

Norte-americano foi uma das figuras do atletismo na década de 90 e durante os Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, alcançou uma proeza inédita na história do desporto mundial: foi campeão nos 200 e 400 metros.

«Estou aqui para vencer e ser feliz.» A mensagem de Michael Johnson quando chegou a Atlanta para o regresso dos Jogos Olímpicos em 1996, apenas doze anos depois de Los Angeles, dizia tudo. Cada vez mais indiferente à azeda troca de palavras com Carl Lewis, o velocista de 28 anos só se preocupava em saborear finalmente o ouro numa prova individual.

O currículo de Michael Johnson dispensava apresentações. Fora campeão do mundo dos 200 metros pela primeira vez em 1991 e recuperara o título em 1995, em Gotemburgo. Quanto aos 400 metros, o domínio era inatacável: campeão mundial em 1993 e 1995, viria a sê-o novamente em 1997 e 1999.

A volta à pista era a maior especialidade de Michael Johnson. Conhecido como um dos melhores atletas da história a correr em curvas, e com um estilo de corrida inconfundível, o texano apresentou-se em Atlanta com 55 vitórias consecutivas na distância e um total de sete das dez melhores marcas na história da corrida.

A incógnita nos 200 metros era maior, mas Michael Johnson fez questão de mostrar ao mundo que, apesar da concorrência feroz de Frankie Fredericks e Ato Boldon, da Namíbia e de Trindade e Tobado, estava talhado para fazer história nos Jogos.

Michael Johnson queria desforrar-se de si mesmo. Quatro anos antes, em Barcelona, cometera um deslize em vésperas dos 400 metros, durante uma refeição em Salamanca, e fora arrasado por problemas intestinais, reduzindo a sua participação a um pouco saboroso triunfo na estafeta dos 4x400 metros.

Quando teve uma nova oportunidade, não vacilou. Dominou, como era esperado, as eliminatórias dos 400 metros e até correu a final com umas sapatilhas douradas, deixando logo perceber o que iria acontecer ao cruzar a meta. Com um tempo de 43.49 segundos, praticamente um segundo mais rápido do que o britânico Roger Black, Johnson bateu o recorde olímpico e alcançou finalmente uma medalha de ouro numa prova individual.

Poucos dias depois, apresentou-se nos 200 metros com um objetivo único: tornar-se o primeiro corredor da história a juntar o título olímpico no duplo hectómetro ao da volta à pista. E cumpriu… com distinção.

Imune ao desgaste da sucessão de eliminatórias, fechou a distância com um novo recorde do mundo, 19.32 segundos, que só viria a ser batido 12 anos e 19 dias mais tarde por um tal Usain Bolt, nos Jogos Olímpicos de Pequim.

Michael Johnson saiu de Atlanta com o ego no topo e com a reputação intacta. Até 2000, no ano em que revalidou o título olímpico dos 400 metros, coroando com chave de ouro uma década de total domínio, estabeleceu ainda um novo recorde mundial da volta à pista, fixado em 43.18 segundos.

Encarado como uma das marcas mais difíceis de bater, este recorde só foi superado na última edição dos Jogos Olímpicos, no Rio de Janeiro, quando um jovem sul-africano chamado Wayde Van Niekerk ficou pertíssimo de se tornar o primeiro atleta a baixar dos 43 segundos (43.03).

Michael Johnson pode ter perdido os recordes do mundo mas mantém a aura de atleta incrível. Pode ser fraca consolação mas continua a ser o único a juntar a medalha de ouro nos 200 e 400 na mesma edição de Jogos Olímpicos. Até quando?

10 de Junho, 2020

Aleksandr Popov. Ser o mais rápido do mundo… outra vez

Rui Pedro Silva

Aleksandr Popov

Nasceu na União Soviética, começou a brilhar ao serviço da Equipa Unificada e atingiu o apogeu da sua carreira já com as cores da Rússia. Numa elite exclusiva, com o pai do surf e o Tarzan, entrou na história da natação mundial nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996.

Há nomes inesquecíveis. Os feitos de Michael Phelps em Pequim-2008 e de Mark Spitz em Munique-1972 garantiram a imortalidade dos norte-americanos e elevaram a fasquia para dimensões que se consideravam inimagináveis até então.

A natação é uma modalidade dura. Não tem contacto físico mas exige uma entrega absoluta desde o primeiro momento, com muito treino, muito esforço mental e uma capacidade para encontrar, nos pequenos detalhes, frações de segundo decisivas.

Grande parte dos nadadores são-no desde muito jovens. Um dos campeões de 1896, Alfred Hajos, começou a nadar depois de o pai ter morrido afogado no Danúbio em Budapeste. Há todo o tipo de motivações e primeiros contactos com a água. No caso de Aleksandr Popov, tudo começou com medo.

O soviético, nascido na Rússia, não gostava de água, tinha medo dela, e não achou muita graça quando o pai o «atirou» para a natação com oito anos. Como em tantas outras coisas na vida, a paixão entranhou-se depois da estranheza. E Popov partiu para uma carreira inédita.

Não foi um nadador completo, como Spitz ou Phelps, mas era um especialista nato. Talvez mesmo o melhor sprinter da história. Tem esse rótulo e é merecido. Em 1992, já ao serviço da Equipa Unificada após o desmembramento da União Soviética, e numa altura que tinha abandonado o estilo de costas para se dedicar ao estilo livre, Popov brilhou em Barcelona com as medalhas de ouro nos 50 e nos 100 metros.

Era o mais rápido, não havia dúvida disso. Tinha acabado de conquistar o topo do pódio nas duas distâncias mais curtas, no estilo mais rápido, do programa da natação. E estava apenas a começar.

Quatro anos depois, nos Jogos Olímpicos de Atlanta, começou por defender o título nos 100 metros. Se o fizesse, entraria para uma elite onde estavam apenas o pai do surf (Duke Kahanamoku, que venceu em 1912 e 1920) e o Tarzan mais famoso na história do cinema (Johnny Weissmuller, que ganhou em 1924 e 1928).

Aleksandr não desiludiu. Cumpriu a distância com 48.74 segundos, igualou o recorde nacional, e terminou com sete centésimos de vantagem sobre o norte-americano Gary Hall Jr. Ficavam a faltar apenas os 50 metros, com a prova marcada para três dias depois.

É a distância mais curta – nada-se apenas uma piscina olímpica – e não há espaço para respirar: tanto para quem nada como para quem assiste. O recorde olímpico na altura pertencia a Popov, estabelecido em Barcelona, e era de 21.91 segundos, um décimo mais lento do que o recorde mundial. Num evento destes, tudo podia acontecer… menos Popov ser derrotado.

Gary Hall Jr. foi novamente o grande adversário do russo – e nadavam em pistas coladas -, mas foi incapaz de evitar que Popov fizesse história, tornando-se o único nadador na história a defender com êxito o título olímpico nas duas distâncias.

Popov era especial e os Jogos de Atlanta demonstraram-no.

09 de Junho, 2020

Maria de Lurdes Mutola. A lenda do atletismo moçambicano

Rui Pedro Silva

Maria de Lurdes Mutola

Era uma das maiores figuras dos 800 metros no atletismo e fez história nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996. Pela primeira vez em cinco participações, a bandeira de Moçambique foi hasteada. Depois do terceiro lugar nos Estados Unidos, Mutola melhorou ainda mais e fez soar o hino em Sydney-2000.

O currículo de Maria de Lurdes Mutola, nascida em Lourenço Marques (atual Maputo) a 27 de outubro de 1972, é impressionante. Especialista dos 800 metros, tem três títulos mundiais ao ar livre e sete em pista coberta num total de 14 medalhas distribuídas pelos dois eventos.

Mas foi nos Jogos Olímpicos, em Atlanta, que Mutola se tornou verdadeiramente uma lenda do atletismo – e do desporto – moçambicano. Quando chegou à Geórgia, já era uma figura da distância. Vencera o título mundial em Estugarda-1993, ao ar livre, e em Toronto-1993 e Barcelona-1995, em pista coberta.

A viver nos Estados Unidos desde 1988, onde começou a treinar com cada vez mais afinco, aproveitou essa inspiração para brilhar nos Jogos Olímpicos de 1996. Para Mutola, era a terceira participação: em Seul-1988 não passara das eliminatórias, enquanto em Barcelona-1992 tinha sido quinta nos 800 metros e nona nos 1500.

Atlanta foi a edição da especialização. Concentrou-se nos 800 metros e conquistou a tão desejada medalha. Não conseguiu bater a campeã russa, Svetlana Masterkova, nem a cubana Ana Fidelia Quirot, mas terminou na terceira posição, com uma décima de vantagem sobre a britânica Kelly Holmes.

Ali, naquele momento, Moçambique entrou em festa. Era uma medalha ansiada há muito e Mutola tinha finalmente confirmado as expetativas. Quatro anos depois, a euforia foi ainda maior. Aos 27 anos, e numa das melhores fases da sua carreira, cruzou a meta na primeira posição, com um máximo de temporada, e com praticamente meio segundo de vantagem sobre Stephanie Graf da Áustria.

Maria de Lurdes Mutola teve uma despedida amarga em Atenas-2004. Numa temporada com algumas lesões, esteve perto de revalidar o título olímpico e liderou até à última reta, fase em que foi ultrapassada por três adversárias, terminando numa ingrata quarta posição, a oito centésimos do pódio e a 13 da medalha de ouro.

As medalhas da oitocentista continuam a ser as únicas na história olímpica de Moçambique.

08 de Junho, 2020

Sun-hui Kye. Quando a ignorância é uma virtude

Rui Pedro Silva

Sun-hui Kye

Judoca norte-coreana tinha 16 anos e saiu da sombra para surpreender o mundo a caminho da medalha de ouro na categoria dos -48 quilos. As adversárias não sabiam nada sobre ela e ela nunca tinha visto as principais candidatas. Foi um dos maiores choques da competição.

Se há momentos em que a ignorância pode ser uma virtude, a forma como Sun-hui Kye atingiu a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, é claramente uma delas. Numa categoria que tinha tudo para ser dominada pela japonesa Ryoko Tamura, a norte-coreana surpreendeu e tornou-se a judoca mais nova na história a vencer um título na modalidade.

Os tatamis de Atlanta estavam preparados para receber a prodígio japonesa. Quatro anos antes, em Barcelona, ela própria tinha surpreendido as adversárias com apenas 16 anos, terminando com a medalha de prata.

A apresentação ao mundo fora feita e até 1996 não perdeu um único duelo, assumindo-se claramente como superfavorita ao lugar mais alto do pódio. Só não contava, como ninguém podia contar, com o surgimento de alguém nos mesmos moldes.

Kye não se qualificou para os Jogos Olímpicos. Chegou a Atlanta graças a um wild-card e parecia não ser mais do que uma misteriosa norte-coreana no meio de todas as outras candidatas a destronar Tamura.

Foi mais, muito mais do que isso. Com um estilo corajoso, sem se importar com o prestígio ou palmarés das adversárias – afinal de contas, confessou que nunca tinha visto nenhuma delas a combater -, seguiu imparável até à final.

Para Tamura, foi a segunda desilusão da carreira olímpica. A primeira como crónica favorita. Sun-hui Kye partiu sem pudores para a final e, nos últimos 22 segundos do combate, pontuou por duas vezes e garantiu a surpresa, abrindo caminho para uma carreira plena em Jogos Olímpicos.

Quatro anos depois foi bronze em -52 quilos e em 2004 terminou com a medalha de prata na categoria de -57 quilos. Em Mundiais, porém, o seu domínio foi intocável: campeã dos -52 quilos em Munique-2001 e dos -57 quilos em Osaka-2003, Cairo-2005 e Rio de Janeiro-2007.

05 de Junho, 2020

Gail Devers. A mulher que ganhava sempre por uma unha… pintada

Rui Pedro Silva

Gail Devers

Velocista norte-americana enfrentou problemas de saúde graves e chegou a estar perto de terminar a carreira, mas regressou a tempo de uma dobradinha especial. Nos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, conquistou os 100 metros numa das finais mais equilibradas da história. Quatro anos depois, em Atlanta, mais do mesmo.

A carreira de Gail Devers não tinha conquistas significativas até chegar aos Jogos de Barcelona. Com dois títulos pan-americanos em 1987, em Indianápolis, nos 100 e nos 4x100 metros, Devers acumulou problemas de saúde que foram, durante demasiado tempo, mal diagnosticados.

Só em 1990, depois de a situação se agravar ainda mais, soube finalmente que sofria da Doença de Graves, uma doença autoimune que afeta a tiróide. Os tratamentos começaram imediatamente e, apesar de alguma melhoria dos sintomas, reagiu mal à radioterapia, perdeu a capacidade locomotora e os médicos chegaram a considerar a amputação dos pés.

Esse foi o toque de alerta: Devers recusou continuar o tratamento, melhorou gradualmente dos efeitos secundários, amenizou os sintomas iniciais e começou a olhar com a máxima determinação para os Jogos Olímpicos, naquela que seria a segunda participação.

Barreirista de excelência, foi nos 100 metros rasos que saltou para as bocas do mundo, ao vencer uma das finais mais emocionantes e equilibradas na história do atletismo feminino. A 1 de agosto, numa prova quase sempre liderada pela russa Irina Privalova, Devers fez uma prova de trás para a frente e venceu por uma unha negra. Ou melhor, talvez seja melhor dizer uma enorme unha pintada, já que foi essa a imagem de marca na carreira da norte-americana.

O quadro de resultados transmite na perfeição o equilíbrio da corrida: Devers ganhou com 10.82, seguida da jamaicana Juliet Cuthberg (10.83) e da russa Irina Privalova (10.84). O equilíbrio estendeu-se até à quinta classificada, uma vez que Gwen Torrence (10.86) e Merlene Ottey (10.88) lutaram por medalhas até à última passada.

Quatro anos depois, a correr em casa, em Atlanta, Devers voltou a mostrar que tinha um talento especial para ganhar por poucos centímetros. A jamaicana Merlene Ottey melhorou o quinto lugar de Barcelona e terminou com os mesmos 10.94 segundos de Gail Devers, forçando a um desempate no photo-finish. Aí, foi confirmada a vantagem de Devers, que assim se tornou a segunda atleta a revalidar um título olímpico na distância. Curiosamente, o terceiro lugar, com 10.96, foi para a quarta classificada de Barcelona, Gwen Torrence.

A campanha olímpica de Gail Devers incluiu ainda o título na estafeta dos 4x100 metros e participações modestas em 2000 e 2004.

04 de Junho, 2020

Derartu Tulu. A mulher que abriu caminho para a África Negra

Rui Pedro Silva

Derartu Tulu

A final dos 10 000 metros nos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, foi histórica por mais do que um motivo. Primeiro, porque garantiu o primeiro título olímpico a uma mulher africana negra – a etíope Derartu Tulu; depois, porque esta corrida também valeu o regresso às medalhas da África do Sul que, terminado o apartheid, estava no evento pela primeira vez em 32 anos.

Derartu Tulu era uma jovem de 20 anos quando aterrou em Barcelona para competir nos Jogos Olímpicos. Com uma carreira a dar os primeiros passos, tinha passado grande parte da adolescência com tarefas na criação de gado – a grande tradição da família – e não tinha um grande cartão de visita que pudesse apresentar ao mundo do atletismo.

Tudo mudou a 1 de agosto, no dia das eliminatórias. Quem não a conhecia, passou a conhecer, depois de ter registado o tempo mais rápido entre as 50 atletas: 31 minutos e 55 segundos. Na final, seis dias depois, era apontada, com propriedade, como uma das principais candidatas a vencer, sabendo que se o fizesse seria tão importante para o atletismo feminino africano como Abebe Bikila, o seu compatriota, o foi nos Jogos Olímpicos de Roma, em 1960, ao tornar-se o primeiro subsariano a vencer um título olímpico.

Tulu correu para a história, e sem abrandar. Depois de grande parte da prova ter sido marcada pelo ritmo da britânica Liz McColgan, foi a vez de a sul-africana Elana Meyer passar para a frente e levar consigo a etíope. Ali, em 1992, no rescaldo do fim do apartheid, a final olímpica dos 10 000 metros estava destinada a ser decidida entre uma africana branca e uma negra.

A etíope não desperdiçou a oportunidade de fazer história, aumentou o ritmo, deixou a adversária para trás e garantiu o tão desejado título olímpico que entrou nas páginas da cronologia do desporto como um ponto de viragem. Meyer chegou cerca de cinco segundos depois e assegurou a medalha de prata.

O melhor, porém, chegou depois do final de uma prova em que Albertina Dias foi 13.ª e Fernanda Marques e Conceição Ferreira desistiram. Durante os festejos, Tulu e Meyer deram as mãos e correram juntas durante a volta de consagração. Se dúvidas houvesse da possibilidade de reaproximação dos povos, estavam desfeitas. Tal como Nelson Mandela fez questão de vincar na África do Sul, Tulu e Meyer, de países diferentes mas do mesmo continente, provaram que no final não há diferenças.

O futuro foi diferente para as duas. Meyer era seis anos mais velha e não voltou a ter destaque olímpico, mas Derartu Tulu alcançou mais duas medalhas na mesma prova: o ouro em Sydney-2000 e o bronze em Atenas-2004. Pelo meio, em 1996, depois de uma fase em que sofreu várias lesões, não foi além da quarta posição, ficando de fora do pódio encabeçado pela portuguesa Fernanda Ribeiro.

03 de Junho, 2020

Estados Unidos. Nunca o termo Dream Team foi tão bem aplicado

Rui Pedro Silva

Dream Team dos EUA - 1992

Os Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, foram os primeiros da história que puderam contar com jogadores na NBA. Depois de vencerem apenas uma das três edições anteriores, os norte-americanos assinalaram o momento com mestria e apresentaram a melhor equipa que alguma vez já entrou num court de basquetebol.

Os Estados Unidos dominam o basquetebol olímpico. Foi assim na edição de estreia em 1936, em Berlim, e praticamente sempre de quatro em quatro anos. Até 1992, quando a seleção convocou finalmente jogadores da NBA, os norte-americanos só não tinham vencido três edições: 1972, depois de um final de jogo com a União Soviética que ainda hoje gera controvérsia, 1980, devido ao boicote aos Jogos de Moscovo, e 1988, quando terminaram na terceira posição.

Não poder contar com os melhores jogadores da liga não foi, portanto, um grande problema até 1992. E, verdade seja dita, alguns dos melhores de sempre puderam representar a seleção numa fase prematura da carreira, como Bill Russell e KC Jones em 1956, Oscar Robertson e Jerry West em 1960, Michael Jordan e Patrick Ewing em 1984 ou David Robinson em 1988.

Mas nunca, como em 1992, os Estados Unidos acumularam tantos e tão bons jogadores nas melhores fases das suas carreiras, depois de a federação internacional de basquetebol ter aberto essa porta.

Com Chuck Daly como treinador, a lista de 12 jogadores (numerados de 4 a 15) é de tirar o fôlego: Christian Laettner, David Robinson, Patrick Ewing, Larry Bird, Scottie Pippen, Michael Jordan, Clyde Drexler, Karl Malone, John Stockton, Chris Mullin, Charles Barkley e Magic Johnson.

O primeiro era o único sem experiência de NBA, mas tinha acabado de fazer o lançamento mais famoso na história do basquetebol universitário, num jogo entre Duke e Kentucky. De resto, eram estrelas atrás de estrelas, que não permitiam qualquer oportunidade à concorrência.

Os resultados estão aí a comprová-lo: 116-48 com Angola, 103-70 com a Croácia, 111-68 com a Alemanha, 127-83 com o Brasil, 122-81 com a Espanha, 115-77 com Porto Rico, 127-76 com a Lituânia e, na final, 117-85 com a Croácia.

Foi a melhor equipa que os Jogos Olímpicos já viram. E percebe-se porquê: era uma equipa de sonho transformada em realidade.

Pág. 1/2