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É Desporto

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29 de Maio, 2020

Florence Griffith-Joyner. A mulher mais rápida do mundo

Rui Pedro Silva

Florence Griffith-Joyner

Não teve uma carreira muito longa, mas essa também não era uma característica das suas corridas: tão curtas quanto possível. Norte-americana foi a vedeta do atletismo feminino nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, conquistando o título nos 100 metros, nos 200 metros e na estafeta dos 4x100 metros. Com recordes pelo meio.

Os resultados da carreira de Flo-Jo, como ficou conhecida, não mostram grandes feitos antes de 1988. Foi medalha de prata nos 200 metros em Los Angeles-1984 e conquistou duas medalhas nos Mundiais de Roma, em 1987, mas nunca mostrou ter uma verdadeira continuidade de resultados que fizessem dela uma das figuras do atletismo.

O ano de 1988 foi radicalmente diferente. Durante as qualificações dos Estados Unidos para os Jogos Olímpicos, correu os 100 metros em 10,49 segundos e estabeleceu um recorde mundial que ainda hoje perdura. Depois, na Coreia do Sul, foi uma verdadeira estrela, dentro e fora de pista.

Florence Griffith-Joyner, cunhada da estrela Jackie Joyner-Kersee, foi uma das primeiras sementes das velocistas que hoje se destacam pelos cabelos pintados, unhas espampanantes e outros adereços impressionantes. A atleta natural de Los Angeles, que chegou a Seul com 28 anos, cuidava da sua imagem ao mais pequeno pormenor e acabou por beneficiar muito com isso, com contratos de publicidade potenciados pelos seus resultados em pista.

E que resultados foram esses? O domínio absoluto em três provas. Nos 100 metros estabeleceu um novo recorde olímpico com uma marca de 10,54 segundos e deixou a compatriota Evelyn Ashford e a alemã de leste Heike Drechsler a três décimas. Nos 200 metros, quatro dias depois, conseguiu um feito ainda mais impressionante: bateu o recorde do mundo de Marita Koch na meia-final com 21,56 segundos e superou a sua própria marca na final com 21,34 segundos.

A partir daquele momento, no final de setembro de 1988, passou a deter os recordes mundiais das duas provas mais curtas do atletismo. Hoje, mais de trinta anos depois e vinte anos após a sua morte, Griffith-Joyner mantém-se no pedestal da velocidade mundial e os registos parecem inalcançáveis.

O desempenho de Flo-Jo, porém, só terminou no primeiro dia de outubro, quando integrou as estafetas dos Estados Unidos nos 4x100… e nos 4x400 metros, contribuindo para mais uma medalha de ouro e uma de prata.

A velocista decidiu terminar a carreira ainda no rescaldo de Seul e as vozes de dúvida ganharam força: será que Florence Griffith-Joyner corria de forma legal? Numa era em que os adeptos estavam escaldados depois do que acontecera com Ben Johnson, a incerteza cresceu, mas todos os testes feitos mostraram sempre resultados negativos.

Mesmo depois da sua morte, em 1998, um exame post mortem não conseguiu encontrar qualquer sinal de uso continuado de doping, garantindo a intocabilidade da sua imagem como a mulher mais rápida do mundo.

28 de Maio, 2020

Greg Louganis. O melhor saltador da história

Rui Pedro Silva

Greg Louganis

Norte-americano ganhou uma medalha olímpica pela primeira vez nos Jogos de Montreal, em 1976, quando tinha apenas 16 anos. Mas foi 12 anos depois, na Coreia do Sul, que escreveu uma página única na história dos saltos para a piscina ao conseguir a dupla dobradinha (1984 e 1988) com títulos na prancha e na plataforma. Impacto de Louganis foi ainda maior depois do embate sofrido durante a qualificação. Mas a história de Seul só terminou muitos anos depois.

Tinha tudo para ser apenas mais um norte-americano desconhecido do grande público. Os pais eram muito pobres e foram obrigados a dá-lo para adoção pouco depois de nascer, a 29 de janeiro de 1960.

A espiral de acontecimentos infelizes estava apenas a começar. A passagem pela escola foi traumatizante, não só pela ascendência samoana (era vítima de discriminação), mas também por uma dislexia que o impedia de identificar símbolos.

Se as coisas eram más na escola, pioravam em casa das famílias de adoção. Em 1994, em livro, Louganis revelou pela primeira vez que foi violado e alvo de abusos domésticos. Menor de idade e sem liberdade, Louganis optou pelos refúgios fáceis: o álcool e as drogas. Porém, uma ida a uma piscina na Florida mudou a sua vida.

«Quando o vi na prancha, soube que era um talento excecional», revelou Ron O’Brien, que o levou para o Alabama. A partir do momento em que Greg Louganis encontrou um lugar a que finalmente pôde chamar «lar», sentiu-se preparado para partir à descoberta do mundo e do prestígio internacional.

A primeira paragem foi nos Jogos Olímpicos de 1976, em Montreal, quando venceu a medalha de prata na plataforma. Localmente, continuou a bater recordes e a ganhar campeonatos, mas o espírito olímpico foi travado devido ao boicote dos EUA aos Jogos de Moscovo, em 1980.

Louganis ainda tinha um longo capítulo a escrever no maior evento desportivo mundial. Quatro anos depois, em Los Angeles, conseguiu um duplo triunfo em prancha e plataforma. Para Seul, nos Jogos Olímpicos de 1988, estava guardado algo inédito: tornar-se o primeiro saltador a conseguir as duas vitórias em edições consecutivas.

Ainda assim, a principal recordação de 1988 foi outra. Durante a fase preliminar, Louganis falhou o salto, bateu com a nuca na prancha e deixou a piscina cheia de sangue. Apesar da contusão, 35 minutos depois Louganis apareceu de novo em prova e a caminho do título olímpico.

A imagem correu mundo mas a polémica só chegou em 1994, quando revelou ser homossexual e diagnosticado como portador do vírus da sida antes dos Jogos de Seul. Começou a ser acusado de ter posto em risco os outros nadadores que saltaram para a piscina ensanguentada e só a intervenção de um médico especialista acalmou a comunidade.

O estilo único de Greg Louganis, que fez com que os chineses o tivessem filmado como modelo para a formação de futuros campeões, continua a ser abordado em conferências por todo o mundo: «Limito-me a contar a minha história. Quero ser relembrado como um saltador magnífico, mas acima de tudo como uma pessoa que deixou uma marca».

27 de Maio, 2020

Ben Johnson. Um herói de asas queimadas

Rui Pedro Silva

Ben Johnson

Canadiano de origem jamaicana era o recordista mundial quando chegou aos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, e prometia fazer ainda melhor. Na final dos 100 metros, de facto, melhorou a marca que já lhe pertencia mas os momentos de glória estavam perto do fim. Três dias depois, foi revelado que estava dopado e nada voltou a ser o mesmo.

Carl Lewis podia ser o herói, por culpa dos quatro títulos alcançados em Los Angeles-1984, mas o mediatismo estava agora do lado de Ben Johnson. Desde que alcançara a medalha de bronze olímpica nos 100 metros, o canadiano brilhara em Mundiais e estabelecera um novo recorde da distância: 9,83 segundos em Roma-1987.

A suspeição existia – e Carl Lewis chegou a falar disso abertamente, ainda que sem mencionar nomes concretos –, mas Ben Johnson nunca se deixou afetar. Não queria que nada o pudesse afastar da medalha de ouro em Seul.

A entrada em ação foi tranquila: venceu a sua série das eliminatórias com um tempo de 10,37 segundos, foi um dos repescados nos quartos de final após fazer 10,11 e atingiu a final graças a um registo de 10,03 (o terceiro melhor de toda a competição até então).

Quando os finalistas entraram para a pista, os olhos estavam postos em Johnson e Lewis, campeão olímpico em título e único a baixar dos 10 segundos durante as eliminatórias. Pouco tempo depois, ninguém conseguiria ignorar a prestação do canadiano.

Partiu de forma supersónica e teve uns últimos 50 metros meteóricos. Fez a corrida perfeita, deixou a multidão em delírio e estabeleceu um novo recorde mundial: uns sensacionais 9,79 segundos, quatro centésimos abaixo da sua anterior marca.

Ben Johnson era um herói mas de… asas queimadas. O período de glória e reconhecimento mundial durou apenas três dias. Foi o tempo necessário para o Comité Olímpico Internacional receber os resultados do controlo antidoping que tinha sido feito. O canadiano tinha acusado positivo a um esteróide e ficou com a carreira destruída.

Os dias que se seguiram intensificaram a ideia de que o velocista era um herói com pés de barro, sobretudo depois de ter confessado que o doping começara em 1981. Perdeu a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos, permitindo a Carl Lewis revalidar o título, e viu também os seus resultados dos Mundiais do ano anterior (ar livre e pista coberta) serem anulados.

Os dois recordes mundiais foram apagados e Carl Lewis, sem saber, voltou a ser o detentor da melhor marca, graças ao tempo conseguido na final de Seul (9,92 segundos). Os 9,79 voltaram a parecer uma marca impossível de alcançar e só em junho de 1999, em Atenas, foram igualados, pelo norte-americano Maurice Greene.

Ben Johnson foi suspenso e só regressou à competição em 1991, a tempo de garantir a qualificação para os Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992. Aí, sem auxílios ilegais, foi uma sombra de si mesmo e falhou o apuramento para a final.

Hoje, mais de 30 anos depois da polémica, o recorde está nuns impressionantes 9,58 segundos e pertence ao incontornável Usain Bolt.

26 de Maio, 2020

Lawrence Lemieux. O velejador com a prioridade certa

Rui Pedro Silva

Lawrence Lemieux

Estava em posição de vencer uma regata mas não pensou duas vezes quando se deparou com uma situação de urgência em que dois velejadores estavam em apuros. Em vez de continuar numa busca incessante por um lugar cimeiro, abdicou da competição e fez os possíveis para garantir que Joseph Chan e Siew Shaw Her ficavam livre de perigo. Gesto valeu-lhe a medalha… Pierre de Coubertin.

A participação do canadiano Lawrence Lemieux na classe Finn nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, estava longe de ser brilhante. Com quatro regatas disputadas, num total de sete, ainda não tinha feito melhor do que a quinta posição e já tinha um 12.º, um 13.º e um 20.º. Estava longe dos principais favoritos mas, na quinta corrida, seguia numa excelente segunda posição. A luta pelo pódio já era impossível, mas era uma boa oportunidade para finalmente vencer uma regata.

O que se passou a seguir elevou Lemieux a uma categoria especial de atletas olímpicos. Ao mesmo tempo que se disputava esta regata da classe Finn também decorria uma da classe Star. Aí, a dupla de Singapura, composta por Joseph Chan e Siew Shaw Her deparou-se com muitas dificuldades provocadas pelo vento e viu a sua embarcação capotar.

Os dois velejadores precisavam de ajuda, estavam em perigo, e Lemieux, ali perto, nem hesitou. Abandonou o seu percurso e foi na direção dos dois atletas, recolhendo-os e aguardando pela chegada da embarcação médica. Quando finalmente regressou à regata, não foi além do 22.º posto.

O gesto valeu-lhe os elogios de todos e a organização acabou por decidir atribuir-lhe a segunda posição que ocupava aquando do acidente. Os pontos não fizeram diferença – não foi além do 11.º lugar final -, mas o desportivismo demonstrado foi suficiente para que o Comité Olímpico Internacional o galardoasse com a prestigiada medalha Pierre de Coubertin, com o então presidente Juan Antonio Samaranch a destacar o sacrifício e a coragem demonstradas.

25 de Maio, 2020

Christa Luding-Rothenburger. Uma medalhada moda inverno-verão

Rui Pedro Silva

Christa Luding-Rothenburger

O ano de 1988 foi inesquecível para a alemã Christa Luding-Rothenburger. Depois de já ter vencido uma medalha de ouro em Sarajevo-1984, nos Jogos Olímpicos de Inverno, chegou a Calgary-1988 e acumulou mais duas medalhas. E o que tem isto a ver com os Jogos Olímpicos de Verão? Pois, é que também ganhou uma prata em Seul.

Há quem ache o frio insuportável. Há quem prefira o aconchego dos cobertores e quem sofra com temperaturas muito quentes. As pessoas não são todas iguais e, talvez também por isso, não há uma grande tradição de atletas que conseguiram competir em Jogos Olímpicos de Verão e de Inverno.

O tonganês Pita Taufatofua foi a última grande novidade neste assunto, mas sem qualquer lugar de relevo na conquista dos pódios no Rio de Janeiro, em 2016, e em Pyeongchang, em 2018. Por outro lado, há Christa Luding-Rothenburger.

A alemã da República Democrática da Alemanha, nascida em Cottbus a 4 de dezembro de 1959, assinalou de forma indelével as últimas presenças do seu país em competições olímpicas. Não só participou nos Jogos de Inverno e Verão no mesmo ano – algo ao alcance de muito poucos -, como atingiu o pódio nos dois eventos. E aqui, não haja enganos, a lista tem apenas um nome. Ou três, vá: Christa. Luding. Rothenburger.

Christa era uma atleta de inverno. Era na patinagem de velocidade que se focava e os dois títulos olímpicos – um nos 500 metros em 1984 e outro nos 1000 metros em 1988 estão aí a comprová-lo. Mas, a partir de 1980, a conselho de um treinador, começou a dedicar-se ao ciclismo durante a pausa da competição.

No verão de 1988, já depois das duas medalhas em Calgary (ouro nos 1000 e prata nos 500 metros), representou a República Democrática da Alemanha no ciclismo de pista. Aí, na prova de sprint, fez história com a conquista de medalha de prata.

A era da RDA tinha terminado e a de Christa estava muito perto – despediu-se com uma medalha de bronze nos 500 metros de patinagem de velocidade em Albertville -, mas houve um feito que nunca mais será igualado. A partir de 1992, os Jogos das duas estações deixaram de coincidir no mesmo ano do calendário, deixando para sempre a alemã como única atleta a vencer medalhas nestas condições.

25 de Maio, 2020

Anthony Nesty. O surpreendente campeão do Suriname

Rui Pedro Silva

Anthony Nesty

Nasceu em Trindade e Tobago mas foi com as cores do Suriname que fez história ao tornar-se o primeiro homem negro a vencer uma prova de natação. Na final dos 100 metros mariposa dos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, contrariou de forma espetacular o favoritismo de Matt Biondi.

Falar de natação nos Jogos Olímpicos que a Coreia do Sul organizou é falar de Matt Biondi. O norte-americano, que já trazia um título de Los Angeles-1984, prometia mundos e fundos para igualar o recorde de sete medalhas de ouro de Mark Spitz. Quis o destino que o fracasso fosse confirmado logo na primeira final, nos 200 metros livres, quando não foi além da medalha de bronze.

Dois dias depois, novo fracasso. E este ainda mais surpreendente. Na final dos 100 metros mariposa, Biondi parecia lançado para o primeiro título olímpico em Seul e dobrou os 50 metros com uma vantagem significativa. Nas derradeiras braçadas parecia já ter a medalha ao pescoço mas calculou mal a distância para a parede e foi superado, por um único centésimo, por Anthony Nesty. Que era negro. E competia pelo Suriname. E tinha acabado de estabelecer um novo recorde olímpico.

Matt Biondi prosseguiu o seu percurso natural, conquistando cinco medalhas de ouro nas cinco provas restantes, e Anthony Nesty «desapareceu» do mapa, mas não sem antes fazer história. Afinal, tinha sido o primeiro nadador negro da história a conquistar uma medalha de ouro em Jogos Olímpicos.

Nascido em Trindade e Tobago, em 1967, mudou-se com a família para o Suriname quando tinha apenas sete meses. Nadar passou a ser parte da sua vida a partir de uma idade precoce – cinco anos – e nunca parou de evoluir. As presenças nas primeiras competições demonstraram que tinha um talento peculiar para um país como o Suriname e, depois da presença modesta nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984, foi convidado para ficar a estudar – e treinar – na Florida.

Durante os quatro anos seguintes, evoluiu e mostrou que podia competir entre a elite. Mesmo assim, poucos eram os que esperavam que fosse capaz de se intrometer na luta pela medalha de ouro, vindo de um país sem tradição, com uma comitiva de apenas oito atletas na Coreia do Sul e sem um único pódio para amostra nas competições anteriores.

O triunfo catapultou-o. Nesty era especialista na mariposa e tornou-se uma lenda dos 100 metros daquele estilo, vencendo todas as provas durante os três anos seguintes. Depois, em Barcelona-1992, voltou a surgir em bom nível, mas não foi além da medalha de bronze.

Para o Suriname, voltou a ser um momento histórico, ou não fossem estas as duas únicas medalhas da sua história – mesmo hoje, depois de tantos anos. Nesty foi elevado a herói nacional e toda a gente o conhecia, toda a gente queria falar com ele, estar com ele, dizer que o conhecia. Num país com pouca tradição desportiva, Nesty tornou-se, merecidamente, uma lenda.

22 de Maio, 2020

Carlos Lopes. Do atropelamento ao título olímpico

Rui Pedro Silva

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Tinha 37 anos mas foi a tempo de fazer história nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984. Estava confiante de que ia vencer a medalha de ouro – a primeira para Portugal – e nem o acidente que sofreu duas semanas antes, quando foi atropelado durante um treino na Segunda Circular, o afastou daquele momento histórico.

Carlos Lopes é um nome incontornável do desporto português. A 12 de agosto de 1984, entre a praia de Santa Monica e o Coliseu de Los Angeles, o veterano atleta (o mais velho entre os mais de 100 participantes na maratona) partiu para a corrida da sua vida.

Depois de mais 12 mil quilómetros de treino só naquele ano, Carlos Lopes tinha preparado tudo ao mais pequeno detalhe. Pesava 52 quilos, menos um do que o habitual, para garantir uma eficiência maior perante os mais de 30 graus e 70% de humidade, e tinha recusado ficar na Aldeia Olímpica.

Afinal, a maratona disputava-se no último dia dos Jogos Olímpicos e o atleta do Sporting não queria que nada se intrometesse entre ele e o título que tinha falhado oito anos antes, nos 10 000 metros dos Jogos Olímpicos de Montreal, onde tinha ficado atrás de Lasse Viren.

Quando saiu de Portugal, garantiu que ia para vencer. Mesmo que um susto o tenha quase afastado do evento. A duas semanas da maratona, durante um treino, foi atropelado em frente ao Estádio da Luz por um comandante da TAP, Lobato Faria, antigo candidato à presidência do Sporting. «Parei de respirar nesse dia. Dei duas ou três cambalhotas no ar, parti-lhe o vidro da frente e fiquei todo esfolado», contou numa entrevista. «Não tinha nada partido mas, por precaução, fui ao hospital ver se estava tudo bem. Só voltei a treinar três dias depois», acrescentou.

A partida para os Estados Unidos deu-se com muita expetativa e confiança. Portugal nunca tinha vencido uma medalha de ouro em Jogos Olímpicos e o atleta prometia um título. Com razão. No dia da final, cumprindo à risca a estratégia que tinha delineado, atacou aos 37 quilómetros e deixou toda a concorrência sem resposta.

Quando entrou no estádio já não tinha adversários à vista. «Ver aquela multidão a levantar-se é uma coisa única: 90 mil pessoas para ver a chegada da maratona, não há palavras para descrever. Achamo-nos muito pequeninos no meio daquilo tudo», admitiu.

O momento mais ansiado foi a subida ao pódio, com o hino português a tocar pela primeira vez neste palco. «Foi uma emoção muito grande, poder dar a conhecer ao mundo um hino tão bonito.»

Carlos Lopes reconheceu também que tinha uma motivação extra. «Estava farto de ficar em segundo na classificação de atletas numa revista de atletismo nos Estados Unidos», afirmou. Por isso, naquele ano, além da medalha de ouro nos Jogos Olímpicos em Los Angeles, também foi campeão mundial de corta-mato em… Nova Iorque.

21 de Maio, 2020

Carl Lewis. Na pegada de Jesse Owens

Rui Pedro Silva

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Norte-americano teve um verão de 1984 memorável. Começou por ser escolhido no draft da NBA pelos Chicago Bulls (manobra de marketing) e acabou a garantir um pleno de medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos que só tinha sido alcançado por Jesse Owens: 100 metros, 200 metros, 4x100 metros e salto em comprimento. Foi o início de uma carreira impressionante.

As comparações entre Jesse Owens e Carl Lewis existem e fazem sentido. São ambos norte-americanos e conseguiram vencer as mesmas quatro medalhas de ouro numa mesma edição de Jogos Olímpicos. Porém, o background dos dois é diferente. Se Jesse Owens cresceu com muitas dificuldades e fazia dos 100 metros a sua prova de eleição, Carl Lewis sempre foi muito mais um homem de saltos.

A paixão pelo salto em comprimento nasceu ainda em criança, por culpa do tempo que passava na caixa de areia a ver os pais treinar outros atletas. Dia após dia, o interesse aumentava, tal como a qualidade.

A velocidade surgiu por arrasto e, em vésperas dos Jogos Olímpicos de Moscovo, em 1980, nos quais os Estados Unidos acabariam por não participar, Lewis era já uma figura nacional no comprimento e na estafeta dos 4x100 metros.

Quatro anos depois, em Los Angeles, sentia-se que Carl Lewis poderia igualar a façanha de Jesse Owens. O cartão de vista, exibido nos Mundiais de Helsínquia do ano anterior, era promissor: medalha de ouro nos 100, 4x100 e comprimento. Como seria a competir em casa? E que possibilidade teria nos 200 metros?

A primeira medalha de ouro apareceu nos 100 metros. A 4 de agosto, o norte-americano foi o único finalista a baixar dos dez segundos (9,99) e venceu a prova, superando Sam Graddy (10,19) e Ben Johnson (10,22) no pódio.

Dois dias depois, foi a vez da final do salto em comprimento. A superioridade de Carl Lewis foi esmagadora: fez 8,54 metros no primeiro ensaio e, depois de um salto nulo na segunda tentativa, decidiu abdicar do resto do concurso, ganhando confortavelmente com 30 centímetros de vantagem sobre o australiano Gary Honey e o italiano Giovanni Evangelisti.

Por esta altura, Carl Lewis competira em quatro dias consecutivos. E aquele 6 de agosto foi rico em provas. Apesar de ter tentado apenas dois saltos no comprimento, também já tinha corrido as eliminatórias e os quartos-de-final dos 200 metros, garantindo a presença nas meias-finais, agendadas para 8 de agosto.

Carl Lewis evitou sempre o confronto direto com os seus compatriotas, os outros grandes favoritos ao triunfo. Depois de passear na meia-final, correu a final com o objetivo em disputa e… não vacilou. Pelo contrário: percorreu o duplo hectómetro com um tempo de 19,80 segundos e estabeleceu um novo recorde olímpico, batendo Kirk Baptiste e Thomas Jefferson por 16 e 46 centésimos, respetivamente.

Faltava o mais fácil: a estafeta dos 4x100 metros. Lewis ficou, naturalmente, para o último percurso e teve o prazer de cortar a meta com dois feitos especiais – bateu o recorde mundial da prova (37,83 segundos) e igualou o feito de Jesse Owens, o norte-americano mais famoso na história do atletismo olímpico.

Nas edições seguintes, Carl Lewis confirmou sempre que aquele tetra olímpico não tinha sido um acaso. Rei do salto em comprimento, revalidou o título em 1988, 1992 e 1996, entrando para uma elite especial de atletas que venceram a mesma prova em quatro edições consecutivas (juntando-se a Paul Elvstrom da vela e Al Oerter do lançamento do disco e, mais tarde, acompanhado por Michael Phelps na natação).

Os feitos de Lewis incluíram também as medalhas de ouro nas provas de 100 metros em Seul (depois da desqualificação de Ben Johnson) e dos 4x100 em Barcelona – terminando com um total de nove títulos olímpicos. Na única vez que subiu ao pódio sem ser para receber a medalha de ouro, foi segundo classificado nos 200 metros em Seul.

20 de Maio, 2020

Gabriella Andersen-Schiess. O drama no final da maratona

Rui Pedro Silva

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Joan Benoit entrou para a história como a primeira mulher a vencer uma maratona olímpica e Rosa Mota garantiu uma medalha de bronze para Portugal mas, como em muitas coisas na vida, o maior destaque nem sempre vai para o campeão ou para o pódio. O final de prova da suíça Gabriella Andersen-Schiess tornou-se imediatamente um dos momentos mais memoráveis da história olímpica.

A integração das provas femininas de atletismo no calendário dos Jogos Olímpicos foi demorada e acompanhada de muitas reticências. Em 1928, por exemplo, havia apenas três provas em pista: 100 metros, estafeta dos 4x100 metros e 800 metros. A alemã Lina Radke foi a histórica vencedora da distância maior mas a forma como algumas das suas adversárias terminaram a prova levou a que o Comité Olímpico Internacional recuasse e retirasse a prova da competição nos anos seguintes.

Foi preciso esperar até 1960 para haver novo evento feminino dos 800 metros. Os mitos sobre a incapacidade feminina de correr distâncias maiores sem correr graves riscos começavam a ser derrubados mas, ainda assim, não se corria sequer um quilómetro seguido. A progressão foi lenta: os 1500 metros apareceram em 1972 e os 3000 (prova exclusivamente feminina) e a maratona em 1984.

Era um período diferente. Continuava a não haver 5000 e 10 000 metros (apareceram em 1996 e 1988, respetivamente), mas abria-se finalmente o caminho para que mulheres corressem finalmente mais de 40 quilómetros de forma continuada. A expetativa era muita e no dia da prova, a 5 de agosto de 1984, 50 atletas de 28 países disseram presente numa manhã de carlor intenso.

Há dados que entram na história: Ifeoma Mbanugo (Nigéria), Akemi Masuda (Japão), Jacqueline Gareau (Canadá), Julie Isphording (Estados Unidos), Anne Audain (Nova Zelândia) e Leda Díaz (Honduras) foram as únicas a desistir; a norte-americana Joan Benoit venceu a medalha de ouro, a norueguesa Grete Waitz a prata e a portuguesa Rosa Mota ficou com o bronze.

Joan Benoit conseguiu completar uma prova irrepreensível, atacando perto dos cinco quilómetros e fazendo toda a corrida sozinha, mas ainda assim não conseguiu ofuscar o feito da suíça Gabriella Andersen-Schiess, que terminou numa modesta 37.ª posição, a praticamente 24 minutos da campeã olímpica.

E o que aconteceu a Schiess? Foi vítima do calor, da exaustão, da traição dos próprios músculos. Já dentro do estádio, talvez depois de o cérebro perceber que o fim estava perto, perdeu o controlo do corpo e percorreu os metros que lhe faltavam de forma impressionante. Torta, com o corpo hirto e descontrolado, foi andando passo a passo, perante a ovação do público norte-americano, até colapsar no chão assim que cruzou a linha de meta.

Curiosamente, a suíça chegou imediatamente antes das outras duas portuguesas em prova: Rita Borralho e Conceição Ferreira.

Schiess estava num estado de desidratação extremo. Com apenas cinco estações de água durante os mais de 42 quilómetros, as oportunidades eram escassas e quem falhasse o reabastecimento corria riscos sérios. Foi o que se passou com Gabriella, que não se apercebeu da quinta e derradeira estação.

O corpo médico apercebeu-se da situação e tentou assistir a corredora antes de esta cruzar a meta, mas foi afastado com acenos espasmódicos de quem quer, a todo o custo, terminar a prova. Durante os últimos 400 metros, a suíça foi obrigada a parar, a garantir que não caía e a percorrer a derradeira etapa da sua prova durante mais de cinco minutos.

O momento em que cruzou a meta foi também o último esforço que conseguiu fazer. Segurada por três elementos do corpo médico, foi transportada para fora do estádio dentro do carro de assistência ao mesmo tempo que era literalmente regada por um barril de água.

19 de Maio, 2020

Ulrike Meyfarth. A idade não interessa mesmo para nada

Rui Pedro Silva

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Glória olímpica começou nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, quando se tornou a campeã mais nova de sempre do atletismo. Em Los Angeles-1984 voltou a ganhar a prova de salto em altura e garantiu também o título de mais velha campeã na disciplina, ainda que não tenha durado muito.

Falar de Ulrike Meyfarth é falar também de prematuridade. A atleta da República Federal da Alemanha saltou para a ribalta com apenas 15 anos, em 1971, e chegou aos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, com remotas hipóteses de conseguir lutar pelo pódio.

Mas, como é habitual, as grandes histórias também se escrevem a partir do inesperado. Com um máximo pessoal de 1,85 metros, Ulrike aproveitou o ímpeto do público para ir buscar motivação extra e manteve-se na luta pelo pódio até passar os 1,92 metros à primeira, numa altura em que já era campeã olímpica – a búlgara Yordanka Blagoeva e a austríaca Ilona Gusenbauer falharam os três saltos aos 1,90 metros.

Meyfarth tinha a vida desportiva pela frente mas estagnou. Quando competia, mostrava resultados pouco animadores, insuficientes para vencer medalhas – fosse em que prova fosse. Depois de falhar a final do salto em altura em Montreal-1976, nem sequer teve a oportunidade de competir em Moscovo-1980, devido ao boicote que muitos dos países ocidentais fizeram.

Quando regressou ao palco olímpico, em Los Angeles-1984, Ulrike Meyfarth já tinha 28 anos e parecia estar numa fase ascendente. Foi campeã europeia ao ar livre e em pista coberta em 1982 e assegurou a medalha de prata nos primeiros Mundiais da história, em Helsínquia-1983. Nos Estados Unidos, e sem as grandes rivais de leste, Meyfarth podia ambicionar algo mais.

A italiana Sara Simeoni era a maior rival na teoria e esse equilíbrio demonstrou-se na pista, com concursos perfeitamente iguais até ambas passarem a fasquia aos dois metros que, na altura, representou um novo recorde olímpico.

Numa luta a dois, já que a norte-americana Joni Huntley tinha ficado pelo caminho com três nulos nos dois metros, Ulrike Meyfarth voltou a saborear o céu ao superar os 2,02 metros na primeira tentativa, fixando o recorde olímpico. Simeoni fez três saltos nulos e abriu caminho para que a germânica fizesse história.

Aos 28 anos, Ulrike Meyfarth juntou o feito de mulher mais jovem de sempre a conquistar uma medalha de ouro numa prova de atletismo ao de mais velha a vencer o salto em altura. Durou apenas quatro anos, é certo, mas coroou com a chave de ouro (literalmente) o fim da sua carreira desportiva.

18 de Maio, 2020

Neroli Fairhall. A primeira paraplégica nos Jogos Olímpicos

Rui Pedro Silva

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Um acidente de mota aos 22 anos mudou radicalmente a vida da atleta da Nova Zelândia. Depois de se estrear em Jogos Paralímpicos em 1972, no atletismo, dedicou-se ao tiro com arco e, já como campeã dos Jogos da Commonwealth, fez história ao participar em Los Angeles-1984.

As melhores narrativas olímpicas são, quase sempre, histórias de superação. Gente que não desistiu, que encarou as adversidades e conseguiu sair por cima. O caso de Neroli Fairhall não é diferente. Atleta na Nova Zelândia, perdeu o controlo do corpo da cintura para baixo depois de um grave acidente de mota, em 1966.

A motivação para o desporto não diminuiu e seis anos depois apareceu pela primeira vez nos Jogos Paralímpicos de 1972, em Heidelberg, curiosamente a competir no atletismo. Repetiu participações em 1980, 1988 e 2000, mas foi nos Jogos Olímpicos, em 1984, que fez verdadeiramente história.

A neozelandesa, nascida a 26 de agosto de 1944, percebeu que a sua condição não tinha de ser uma dificuldade em todas as modalidades olímpicas por isso decidiu apostar no tiro com arco. Durante anos, trabalhou intensamente para conseguir competir entre a elite e, depois de ganhar os Jogos da Commonwealth em 1982, abriu caminho para fazer história ao tornar-se a primeira atleta paraplégica a competir nos Jogos Olímpicos.

Não foi fácil. Fairhall já tinha demonstrado o seu talento, mas a concorrência, sobretudo asiática, era demasiado forte. Historicamente forte, aliás. Por isso, não foi de estranhar que tenha terminado na 35.ª posição.

Quando tinha sucesso, os jornalistas perguntavam-lhe, com alguma insistência, se o facto de competir em cadeira de rodas não poderia ser uma vantagem. A resposta era bem disposta: «Não sei, nunca experimentei atirar de pé».

15 de Maio, 2020

Ovett vs. Coe. A rivalidade que marcou Moscovo-1980

Rui Pedro Silva

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Corriam os dois pela mesma equipa, a Grã-Bretanha, mas a relação entre eles limitava-se ao essencial. A guerra de palavras e de ambições nos Jogos Olímpicos de Moscovo marcou a edição mas ninguém saiu da União Soviética com a sensação de missão cumprida. Ovett e Coe anularam-se mutuamente nas corridas dos 800 e 1500 metros, com cada um a vencer na especialidade do rival.

Os 800 metros eram de Sebastian Coe. Recordista mundial desde julho de 1979, o corredor britânico entrou em Moscovo com a ameaça de Ovett a pairar, mas com uma sensação natural de favoritismo para a prova das duas voltas à pista. Porém, aquele 26 de julho esteve longe de ser o que imaginava.

Depois de eliminatórias em que nunca estiveram frente a frente, o dia da final chegou com grande expectativa. Mas, como viria a dizer Coe, o grande favorito escolheu o pior dos dias para a pior corrida, estrategicamente falando, da sua vida.

A 300 metros do fim, Coe estava na cauda do pelotão e obrigado a fazer um enorme esforço para ultrapassar os outros concorrentes por fora. Lá na frente, o terceiro britânico, David Warren, partilhava a liderança com o soviético Nikolay Kirov mas viria a quebrar bastante e terminar na última posição.

Steve Ovett aproveitou da melhor maneira. Correndo com uma estratégia irrepreensível, saiu da confusão no momento perfeito para ultrapassar Kirov e fazer os últimos 100 metros com uma vantagem insuperável. Ao mesmo tempo, Coe minimizava estragos e, com grande desgaste, evitou uma desilusão ainda maior para terminar no segundo posto, a cinco décimas do novo campeão olímpico.

A rivalidade entre os dois, alimentada por uma imprensa britânica motivada pela antagonização das duas personalidades, aumentou. E Ovett, que tinha afirmado antes dos Jogos Olímpicos que tinha 90% de hipótese de vencer a corrida dos 1500 metros, decidiu aumentar a parada: a vitória seria insuficiente; não só iria vencer como bateria o recorde mundial por, pelo menos, quatro segundos.

Os 1500 metros estavam para Ovett como os 800 para Coe. Com 45 vitórias consecutivas na distância desde maio de 1977, o britânico tinha acabado de bater o recorde mundial, que pertencia a Coe, duas semanas antes da final dos Jogos Olímpicos.

Sebastian Coe batera o recorde do mundo em agosto de 1979 mas os 1500 metros estavam longe de ser a sua distância predileta. De facto, nos quatro anos anteriores, havia corrido a distâncias em apenas oito provas.

A 1 de agosto de 1980, apenas seis dias depois da surpresa dos 800 metros, Coe e Ovett voltaram a disputar uma medalha de ouro sem que se tenham encontrado durante as eliminatórias. A pressão estava toda do lado de Coe: «Os 1500 seriam sempre uma prova difícil, mas agora sinto que é a corrida mais importante da minha vida. Estou obrigado a ganhar».

Assim que foi dado o tiro de partida, percebeu-se que Coe não iria cometer os mesmos erros dos 800 metros. Não se deixou encurralar, não caiu em armadilhas desnecessárias e manteve-se sempre em boa posição. Seguiu na pegada do germânico Jurgen Straub e não teve qualquer dificuldade em manter – e até aumentar – o ritmo na liderança. Por seu turno, depois de tantas promessas, Ovett estava em quebra aparente e incapaz de responder, acabando por contentar-se com a medalha de bronze, depois de não ter feito mais do que correr lado a lado com o alemão de leste durante alguns metros na reta final.

Sebastian Coe era agora, acima de tudo, um homem aliviado. Tinha tirado a pressão de cima dos ombros e conquistado uma tão ansiada medalha de ouro. Durante os festejos fez também questão de mostrar o indicador esticado para a tribuna de imprensa, onde estavam grande parte dos jornalistas que lhe tinham feito a vida negra desde o fracasso dos 800 metros.

Quatro anos depois, Coe repetiu a façanha. Foi medalha de prata nos 800 metros, atrás do brasileiro Joaquim Cruz e com Steve Ovett a terminar na oitava e última posição, e tornou-se o primeiro atleta da história a vencer os 1500 metros em edições consecutivas. Na final, numa corrida que o grande rival não terminou, venceu com um tempo de 3:32.53, estabelecendo um novo recorde olímpico.

14 de Maio, 2020

Birgit Fischer. A semente de uma lenda olímpica

Rui Pedro Silva

Birgit Fischer

Quando participou pela primeira vez em Jogos Olímpicos, em Moscovo-1980, a alemã da RDA tinha apenas 18 anos e conquistou a medalha de ouro em K1 500 metros, na canoagem. A partir daí, seguiu para uma brilhante carreira olímpica, com títulos em 1988, 1992, 1996, 2000 e 2004, já com 42 anos. Só mesmo o boicote a Los Angeles-1984 a impediu de fazer ainda mais e melhor.

A aritmética dos resultados não deixa dúvidas: Birgit Fischer é a melhor atleta olímpica que a República Democrática da Alemanha deu ao mundo. Nascida em Brandenburg an der Havel, a mesma terra dos gémeos Landvoigt, figuras ímpares do remo, em 1962, também demonstrou uma capacidade ímpar para provas na água.

Quando se estreou, em 1980, tinha 18 anos, mas já começara a dar cartas na canoagem, com destaque para dois títulos mundiais em K4 500: um em Belgrado-1978 e outro em Duisburgo-1979.

Agora, em plena União Soviética, o legado olímpico começaria a ser escrito com a primeira de 12 medalhas olímpicas. Velocista de excelência, Fischer conquistou a medalha de ouro em K1 500, derrotando a búlgara Vanja Gesheva e a soviética Antonina Melnikova por mais de um segundo e meio.

A semente estava lançada e desde aí o domínio não parou de crescer. Depois de uma paragem forçada para os Jogos Olímpicos de 1984, provocada pelo boicote da RDA à edição de Los Angeles, Fischer não parou de subir ao pódio até 2004, quando já tinha 42 anos.

Em Seul-1988, somou duas medalhas de ouro e uma de prata, precisamente em K1 500. Depois, a partir de 1992, já a representar a Alemanha unificada, aumentou o portefólio com um ouro e uma prata em Barcelona, um ouro e uma prata em Atlanta, dois ouros em Sydney e, a terminar, um ouro e uma prata e Atenas.

As medalhas ganhas a partir de 1996 foram sempre conquistadas em provas coletivas, mas o feito não deixa de ser impressionante. Se o esgrimista Edoardo Mangiarotti venceu medalhas em seis edições consecutivas (de 1936 a 1960), Birgit Fischer conseguiu alcançar títulos olímpicos em seis edições… diferentes.

Mangiarotti e Fischer têm algo em comum: o italiano foi prejudicado pela II Guerra Mundial, que anulou as edições de 1940 e 1944; a alemã foi afetada pelo boicote soviético. Caso contrário, poderiam ter alcançado ambos feitos considerados irrepetíveis.

13 de Maio, 2020

Nikolai Andrianov. A despedida olímpica perfeita

Rui Pedro Silva

Nikolai Andrianov

Quando se fala em antecessores de Michael Phelps, Mark Spitz é o primeiro nome que surge. O nadador norte-americano conquistou sete medalhas de ouro nos Jogos de Munique, em 1972, e o grande objetivo de Phelps sempre foi quebrar essa marca, o que acabou por fazer em Pequim, em 2008.

O número de Spitz, em 1972, impunha respeito, mas os jogos também ficaram marcados por outro momento: a estreia do ginasta russo Nikolai Andrianov. Aos 19 anos, a União Soviética apresentava um novo prodígio. A estreia foi modesta (ouro no solo, prata em equipas e bronze no cavalo), mas deixou a promessa. Quatro anos depois, em Montreal, ia arrasar. Nunca teve sete medalhas de ouro, como Spitz, nem oito, como Phelps, mas somou quatro de ouro (concurso completo, solo, argolas e cavalo), duas de prata (equipas e barra paralelas) e uma de bronze (cavalo com arções).

Com dez medalhas olímpicas, Andrianov tornou-se uma referência olímpica na União Soviética. Por isso, coube-lhe a honra de fazer o juramento olímpico em Moscovo, em 1980. Oito anos depois da estreia olímpica, era já uma figura incontornável no desporto mundial, longe daquilo que foi enquanto criança.

Natural de Vladimir, uma cidade a 200 quilómetros de Moscovo, Andrianov teve uma infância delicada. Abandonado pelo pai e vivendo no limiar da pobreza, ganhou uma vida assim que aceitou um convite de um amigo para ir ao ginásio. «Este desporto salvou-me a vida», confidenciou.

Moscovo foi, por isso mesmo, um lugar para agradecer e mostrar que era possível passar de um destino traçado pela pobreza a uma vida de feitos reconhecidos. Juntou mais cinco medalhas (duas de ouro, duas de prata e uma de bronze) e assumiu-se como o segundo atleta mais medalhado de sempre em Jogos Olímpicos.

Melhor que ele só a compatriota Larisa Latynina, também ginasta, que entre 1956 e 1964 ganhou 18 medalhas (nove de ouro, cinco de prata e quatro de bronze). Entre os atletas masculinos, o recorde de Andrianov manteve-se inquebrável até Phelps atingir a 16.ª medalha em Pequim, em 2008.

Nessa altura, com 55 anos, Andrianov tinha um passado a ajudar outros ginastas. Começou em Vladimir, em 1980, indo depois para o Japão. Lá, foi responsável pelo crescimento de Naoya Tsukahara, campeão olímpico em 2004 por equipas.

Habituado a saltar entre colchões, argolas, cavalos ou barras, Andrianov chegou ao fim da linha impossibilitado de fazer tudo o que mais gostava. A atrofia sistémica múltipla deixou-o sem falar e sem se mexer, acabando por morrer em 2011. Para trás ficaram as imagens de saltos e manobras que fizeram dele um campeão que venceu ainda 12 medalhas em Mundiais e 18 em Europeus.

12 de Maio, 2020

Landvoigt. Quando gémeos fizeram a dobradinha no remo

Especial Jogos Olímpicos (Moscovo-1980)

Rui Pedro Silva

Gémeos Landvoigt

Bernd e Jörg nasceram no mesmo dia, da mesma mãe e do mesmo pai, a 23 de março de 1951, na República Democrática da Alemanha. Gémeos, tornaram-se uma dupla inseparável no remo e chegaram aos Jogos Olímpicos de Moscovo, em 1980, como a melhor equipa daquela era. Confirmaram o favoritismo e revalidaram o título olímpico.

Há quem diga que as coisas boas chegam aos pares. Para os irmãos Landvoigt, é difícil refutar esta ideia. Gémeos, filhos de pai que trabalhava com barcos, desenvolveram uma paixão natural pelos desportos aquáticos e estrearam-se em Jogos Olímpicos em Munique-1972, numa variante com oito remadores.

A medalhe de bronze soube a pouco e, a partir daí, perceberam que o caminho passava por dependerem apenas um do outro. A partir de 1974, construíram um percurso hegemónico no qual perderam apenas uma das 180 corridas em que participaram. Completavam-se de forma perfeita. O equilíbrio em cima do barco era perfeito e a simbiose com que remavam, cada um do seu lado, elevava a subtileza dos movimentos ao Olimpo.

Quando chegaram a Moscovo, o historial falava por eles. Campeões olímpicos em 1976 e do mundo em 1974, 1975, 1978 e 1979, os Landvoigt eram candidatos crónicos ao lugar mais alto do pódio.

As três corridas em que participaram no Complexo Desportivo de Krylatskoye assemelharam-se a um qualquer passeio que se faça nos lagos de uma grande cidade. Na primeira série das eliminatórias, cumpriram a distância com quase 12 segundos de vantagem sobre uma dupla romena. Depois, na meia-final, deixaram dois britânicos a praticamente 11 segundos. Finalmente, na corrida pelo ouro, foram obrigados a dar tudo o que tinham para bater uma dupla por apenas dois segundos e meio.

E quem eram os principais adversários? Uns soviéticos chamados Yuriy Pimenov e Nikolay… Pimenov. Isso mesmo: partilhavam apelido, pais e… data de nascimento. Naquela tarde de 27 de julho, os gémeos da RDA bateram os gémeos da União Soviética.

O talento para o remo continuou na família Landvoigt e o filho de Jörg, Ike, chegou a ser campeão do mundo na prova de oito, na Finlândia em 1995. Mas, ao contrário do pai e do tio, nunca teve um irmão gémeo com quem pudesse fazer realmente a diferença. A tradição olímpica foi continuada, em Atlanta e Sydney, mas nunca conseguiu atingir a final.

11 de Maio, 2020

Wladyslaw Kozakiewicz. Um manguito para os soviéticos

Especial Jogos Olímpicos (Moscovo-1980)

Rui Pedro Silva

Wladyslaw Kozakiewicz

Público da União Soviética compareceu em peso para celebrar o triunfo de Konstantin Volkov na final do salto com vara mas saiu desiludido depois de uma prova a roçar a perfeição do atleta polaco. Farto de ser hostilizado pelos adeptos da casa, Kozakiewicz assinalou a vitória, com novo recorde mundial, com um gesto provocador para as bancadas.

«O público russo estava a assobiar todos os atletas que não eram da União Soviética. Assobiavam para nos distrair: 70 mil pessoas no estádio e apenas um sétimo delas deviam ser turistas. Passou-me pela cabeça que eu devia ser o único atleta na história do desporto a ser assobiado por ter batido um recorde do mundo», contou Kozakiewicz numa entrevista em 2018.

A história passou-se nos Jogos Olímpicos de Moscovo, em 1980. A edição foi estranha: muitos países do bloco ocidental, com destaque para os Estados Unidos, boicotaram o evento, abrindo caminho para um domínio esmagador das comitivas da União Soviética e da República Democrática da Alemanha.

A cada prova que passava, o público fazia questão de demonstrar o seu apoio pelos soviéticos. E o desdém por todos os outros. Os Jogos podiam ser um evento global, mas estavam a disputar-se no quintal comunista e o bom senso do desportivismo estava a ser arrasado.

Na final do salto com vara, a coqueluche dos adeptos era Konstantin Volkov. Mas a concorrência era de luxo: Kozakiewicz tinha batido o recorde mundial no início do ano, tal como os franceses Thierry Vigneron e Philippe Houvion, e Tadeusz Slusarski era o campeão olímpico em título.

A disputa pelo primeiro lugar adivinhava-se tão acesa que o público decidiu incendiar os ânimos. No meio da competição, houve um homem que não se deixou levar pela pressão externa. E até a usou para aumentar a motivação.

Wladyslaw Kozakiewicz tinha um historial de fracassos nos momentos decisivos. Em Montreal-1976, uma lesão tinha-o impedido de lutar pelas medalhas durante a prova e, desde então, parecia haver sempre alguma coisa a travá-lo. Nascido na Lituânia, de uma família que sofreu na pele a ocupação soviética, havia muito orgulho em jogo. E o resultado foi fascinante.

O polaco passou todos os saltos que fez até aos 5,75 metros na primeira tentativa. Por esta altura, já era campeão olímpico e estava a apenas dois centímetros do recorde mundial. Volkov tinha vacilado a partir dos 5,65 metros, tal como Slusarki e Houvion. Mas Kozakiewicz, que já tinha começado a responder aos adeptos soviéticos com o famoso gesto do Zé Povinho, sentia que podia ir ainda mais longe.

Para bater novamente o recorde mundial em 1980, aos 5,78 metros, começou por derrubar a fasquia na primeira tentativa. Estava apenas a aquecer: no segundo salto, passou com mestria, bateu o recorde mundial e, por uma última vez, mostrou que valia mais do que os milhares de soviéticos que o assobiavam.

O gesto foi polémico. Os soviéticos não gostaram e o embaixador na Polónia exigiu que a medalha lhe fosse retirada, mas a resposta não se fez esperar: não tinha havido qualquer insulto, fora apenas um espasmo provocado pela exaustão.

08 de Maio, 2020

Nadia Comaneci. A perfeição da romena inesquecível

Especial Jogos Olímpicos (Montreal-1976)

Rui Pedro Silva

Nadia Comaneci

É difícil falar nas maiores figuras da história dos Jogos Olímpicos sem que a conversa passe, inevitavelmente, por Nadia Comaneci. Aos 14 anos, a romena foi uma das maiores figuras de Montreal-1976 e saiu do Canadá como uma heroína a nível global, com cinco medalhas e prestações inesquecíveis que lhe valeram o primeiro 10 na história da ginástica artística.

Nadia Comaneci é um nome que supera as fronteiras do desporto. Quem a viu em Montreal, com rosto de criança e uma graciosidade contagiante, não esquece, mas já passaram mais de 40 anos e a lenda continua a crescer.

Não é preciso ter visto. Não é preciso saber o que fez, o que alcançou, os recordes que bateu. Mas sabe-se que Nadia Comaneci é uma lenda da ginástica artística. Do desporto. Dos Jogos Olímpicos. E que o fez numa era em que o mundo parava para ver as melhores atletas.

O mundo ainda não se tinha recomposto da história de Olga Korbut, quatro anos antes em Munique, quando uma romena de 14 anos apareceu para pôr em causa tudo o que se conhecia até então. Sozinha, foi incapaz de garantir o ouro do seu país na prova por equipas – perdido para a União Soviética -, mas o conjunto das exibições de sonho estava apenas no começo.

Nadia Comaneci conseguiu o que nunca ninguém tinha conseguido: a perfeição. E fê-lo mais do que uma vez, como se fosse possível parar cada gesto, a cada momento, para aprimorar o movimento e garantir figuras irrepreensíveis a cada nova manobra.

A adolescente do Cáucaso tinha uma queda para a precocidade. Na primeira vez que participou num campeonato nacional, não passava de uma criança com oito anos. Ficou em 13.º e começou a apresentar o cartão de visita para o futuro. Estávamos em 1970, a década tinha acabado de mudar e a ginástica assumia-se, cada vez mais, como uma prova imperdível dentro dos Jogos Olímpicos.

Em Montreal, o público canadiano foi obrigado a esfregar os olhos e a limpar as lentes, se existissem, para garantir que o que estava a ver era real. Tinha percebido – era impossível não o fazer – que Comaneci era especial mas a nota nas paralelas assimétricas, ainda na prova por equipas, gerou um burburinho no pavilhão: 1.00. Não foi preciso esperar muito para que se percebesse o que tinha acabado de acontecer – o marcador não estava preparado para uma nota máxima. A primeira nota máxima da história.

A multidão ficou em êxtase. Ovacionou Comaneci. Obrigou-a a regressar ao centro das atenções por duas vezes diferentes para, com uma vénia, coroar aquele momento com a sua ingenuidade e agradecimento envergonhado. O mundo era dela. E estava cheio de testemunhas.

Nadia Comaneci não ficou por ali. Tinha mais a dar. Já sem outras romenas a atrapalhá-la, partiu para uma série de aparelhos que também entraram na história, somando a nota máxima em duas ocasiões: novamente nas paralelas assimétricas e na trave.

O público já nem conseguia acompanhar. Os juízes estavam rendidos. As rivais, exceptuando a soviética Nelli Kim, tinham capitulado. E a romena seguiu, triunfantemente, até à medalha de ouro no concurso completo, derrotando a grande rival por seis décimas e tornando-se a vencedora mais jovem na história dessa categoria.

A vida desportiva de Comaneci não se ficou por ali. Mesmo em Montreal conquistou mais duas medalhas de ouro e uma de bronze. Mas era aquele momento, no final do concurso completo, que a tinha catapultado para a glória imortal.

Hoje, Comaneci não é a atleta com cinco títulos olímpicos, três pratas e um bronze divididos entre Montreal e Moscovo. Hoje, Comaneci não é a ginasta mais jovem de sempre – e continuará a sê-lo – a ganhar o concurso completo. Hoje, Comaneci não é a figura de Montreal-1976. Hoje, Comaneci é símbolo de perfeição. É sinónimo de nota máxima. De um dos momentos mais perfeitos na história dos Jogos Olímpicos. É especial.

07 de Maio, 2020

David Wilkie. Furar a hegemonia esmagadora dos Estados Unidos

Especial Jogos Olímpicos (Montreal-1976)

Rui Pedro Silva

David Wilkie

Quadro de vitórias nas provas de natação dos Jogos Olímpicos de Montreal, em 1976, traça dois domínios esmagadores. Na vertente feminina, a República Democrática da Alemanha conquistou todas as medalhas de ouro menos duas. Na masculina, o domínio dos Estados Unidos foi ainda maior e só deixou escapar um título. O culpado foi o britânico David Wilkie.

Olhar para os resultados das provas masculinas de natação em 1976 é como estar num livro de Onde Está o Wally?, modo principiante. A competição tinha 13 corridas e os Estados Unidos subiram ao lugar mais alto do pódio em 12. A contratar com esta hegemonia impressionante, surge apenas o resultado dos 200 metros costas, prova em que os norte-americanos John Hencken e Rick Colella foram ao pódio mas acabaram obrigados a ouvir o «God Save the Queen».

O objetivo dos Estados Unidos era claro, não foi apenas uma coincidência. Dominavam a natação masculina e queriam fazer o pleno. E estiveram muito perto de o conseguir, não fosse o feito especial de David Wilkie que, ainda por cima, conseguiu ser o primeiro britânico a ganhar um ouro na natação desde 1908.

Nascido e crescido no Sri Lanka, mudou-se para a Escócia com onze anos e começou a dar as primeiras braçadas. Exatamente onze anos depois, em Montreal, Wilkie já tinha resultados para impressionar os americanos. Afinal de contas, sagrara-se campeão do mundo por três vezes: uma em Belgrado-1973 e duas em Cali-1975.

Os 200 metros costas eram a sua maior especialidade. E os norte-americanos conheciam-no bem. Era nos Estados Unidos, na Universidade de Miami, que Wilkie progredia semana após semana, depois do título de 1973 em que, com um recorde mundial, surpreendeu Hencken pela primeira vez.

A relação entre os dois era a de uma rivalidade palpitante. Os dois eram especialistas em costas e o primeiro duelo estava marcado para os 100 metros: Hencken registou uma nova melhor marca mundial e bateu Wilkie por 32 centésimos.

A vingança serviu-se nos 200. Hencken até estava na liderança na metade da prova mas não teve qualquer argumento para impedir que Wilkie fizesse história, com novo recorde mundial, um que duraria oito anos (algo raro nesta época), e mais de dois segundos de vantagem.

Wilkie foi mesmo a espinha na guelra dos norte-americanos. Excluindo as provas de estafetas, nas quais os Estados Unidos só podiam ocupar um lugar no pódio, a comitiva garantiu 25 das 33 medalhas possíveis. E se Wilkie foi o único não-americano a ganhar uma prova, também foi o único a garantir uma medalha de prata. As sete medalhas restantes foram todas de bronze e acabaram distribuídas entre alemães (dos dois lados do muro), soviéticos e australianos.

Perante este exercício de supremacia autoritária, o feito da República Democrática da Alemanha parece tímido. As nadadoras do lado oriental só não ganharam os… 200 metros costas (Marina Koshevaya da União Soviética) e a estafeta dos 4x100 metros livres (Estados Unidos). Feitas as contas, a comitiva feminina garantiu onze medalhas de ouro, seis de prata e uma de bronze.

No conjunto das provas de natação, foram atribuídas 78 medalhas e EUA (34) e RDA (19) açambarcaram 67,9% dos metais preciosos. Já não se fazem domínios assim.

06 de Maio, 2020

Lasse Viren. O finlandês voador que inspirou Mo Farah

Especial Jogos Olímpicos (Montreal-1976)

Rui Pedro Silva

Lasse Viren

A história não é magra no que diz respeito a atletas que conseguiram a dobradinha nos 5000 e 10000 metros, mas apenas dois podem exibir com orgulho a façanha de o fazer em edições consecutivas. Nos Jogos Olímpicos de Montreal, em 1976, e também à custa de Carlos Lopes, Lasse Viren conseguiu a dupla dobradinha. Exatamente 40 anos depois, o seu feito foi igualado pelo britânico Mo Farah.

As primeiras décadas do século XX ficaram marcadas pela imponência dos finlandeses nas provas de meio-fundo e fundo do atletismo. Hannes Kolehmainen foi o primeiro a abrir caminho e inspirou outros nomes sonantes como Paavo Nurmi e Ville Ritola. Depois, até chegar Lasse Viren, foi preciso esperar várias décadas.

O atleta que foi estrela nos anos 70 nasceu a 22 de julho de 1949. Ainda não era nascido para ver as grandes lendas finlandesas do passado e era demasiado pequeno para ter qualquer memória do que Emil Zatopek fizera nos Jogos Olímpicos de Helsínquia, em 1952.

Aliás, apesar de ter a Finlândia no sangue, foi nos Estados Unidos que descobriu a paixão pela corrida e desenvolveu o seu talento. Depois, já de regresso ao país-natal, o polícia de profissão evoluiu cada vez mais até chegar a Munique-1972… a correr por fora, sem grandes expectativas.

O que se sucedeu foi o início da história: fez a dobradinha dos 5000 e 10000 metros e entrou para uma lista exclusiva que contava apenas com Hannes Kolehmainen (1912), Emik Zatopek (1952) e Vladimir Kuts (1956). Depois, em 1976, no Canadá, procurou repetir a gracinha e entrar para uma elite exclusiva… de uma pessoa só.

O primeiro desafio chegou nos 10 000 metros. O seu grande rival, Brendan Foster, não conseguiu acompanhar o ritmo imposto por Carlos Lopes e ficou para trás a dois mil metros do fim. Depois, Lasse Viren atacou a pouco mais de uma volta para o final e empurrou o português para a medalha de prata.

A dupla dobradinha chegou a estar em risco, devido a uma novela provocada pela forma como mostrou os ténis para o público (estratégia de marketing ou provocada pelas bolhas nos pés?), mas viu a presença garantida a um par de horas do início. Depois, foi só fazer o mais fácil, batendo Dick Quaz da Nova Zelândia e Klaus-Peter Hildenbrand da República Federal da Alemanha.

Lasse Viren já estava na história – isolado – mas ainda tentou igualar um recorde que Emil Zatopek tinha estabelecido em Helsínquia. Menos de um dia depois da final dos 5000 metros – na qual Aniceto Simões foi oitavo a cinco segundos de Viren -, o finlandês correu a maratona. Aí, o desgaste falou mais alto e o atleta não foi além da quinta posição, com duas horas, 13 minutos e 10 segundos. O título foi para o alemão de leste, Waldemar Cierpinski, com 2:09:55.

O nome de Lasse Viren continua a ser incontornável na história do atletismo mas deixou de estar sozinho depois de Mo Farah ter conseguido a dupla dobradinha em Londres-2012 e Rio de Janeiro-2016.

05 de Maio, 2020

Bruce Jenner. O recorde do mundo antes de ser Caitlyn

Especial Jogos Olímpicos (Montreal-1976)

Rui Pedro Silva

Bruce Jenner

Resultado modesto no decatlo em Munique-1972 fez com que Bruce Jenner atacasse os quatro anos seguintes com uma perspetiva diferente. Em Montreal, no Canadá, as mudanças na metodologia de treino surtiram efeito, garantiram a medalha de ouro e abriram espaço para o recorde mundial na prova.

Como tantos outros decatlonistas, Bruce Jenner mostrou ser alguém com uma propensão especial para várias modalidades, desde o atletismo ao esqui aquático, passando pelo futebol americano e pelo basquetebol. Mas, depois de se especializar no decatlo, foi um instante até atingir os Jogos Olímpicos em 1972, na República Federal da Alemanha, quando tinha 22 anos.

O resultado deixou-o insatisfeito. Terminou na décima posição, longe do campeão olímpico, e cedo percebeu que tinha de atacar esta especialidade de outra forma. A partir daí, em vez de treinar em grupo com os melhores decatlonistas do país, decidiu encontrar parceiros especialistas em cada uma das modalidades.

Os resultados foram imediatos. Ao treinar sempre com atletas que lhe eram superiores, individualmente, em cada uma das provas, conseguiu melhorias evidentes em vez de se manter estagnado com atletas que, sendo decatlonistas, não têm a mesma capacidade em cada uma das especialidades.

Foi com esta mentalidade que Jenner chegou a 1976, no Canadá. «Em 1972, decidiu que ia dedicar-me a isto durante quatro anos e que depois prosseguiria com a minha vida. Entrei na competição sabendo que seria a minha última prova. O sacrifício é enorme sempre que treinamos. E, quando este decatlo terminar, terei a minha vida toda para recuperar.»

Foi com esta mentalidade de tudo ou nada que Bruce Jenner entrou em competição no primeiro dia. O grande favorito, o soviético Mykola Ailov, que tinha sido campeão em 1972 com mais 700 pontos do que o norte-americano, voltou a mostrar-se muito forte e terminou a primeira sessão na frente, mas Jenner estava confiante: «Todas as minhas provas preferenciais estão no segundo dia».

E, de facto, o que se passou no segundo dia validou tudo o que Bruce Jenner tinha feito e pensado durante os quatro anos anteriores. Mais do que isso, entrou para o evento final, os sempre extenuantes 1500 metros, com o recorde do mundo no horizonte. Apesar de terminar a corrida na segunda posição, conseguiu somar 714 pontos que eram mais do que suficientes para estabelecer um novo máximo mundial (8618 pontos).

No momento dos festejos, inaugurando uma tradição banal hoje em dia, recebeu uma bandeira dos Estados Unidos das bancadas, e percorreu a pista exibindo-a orgulhosamente. Depois, fiel à sua promessa, seguiu em direção ao pôr-do-sol sem nunca mais olhar para o desporto.

Hoje, Bruce Jenner já não existe. Figura mediática há mais de uma década, por participar no reality show da família Kardashian, Bruce anunciou-se em 2015 como mulher, começando a responder pelo nome Caitlyn e dando início ao processo de transformação.

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