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É Desporto

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08 de Abril, 2020

Edoardo Mangiarotti. Andar 24 anos a ganhar medalhas olímpicas

Especial Jogos Olímpicos (Roma-1960)

Rui Pedro Silva

Edoardo Mangiarotti

Esgrimista italiano pode nem sempre ser lembrado mas é um dos atletas mais impressionantes do mundo olímpico. Com treze medalhas conquistadas entre 1936 e 1960 – quatro delas individuais -, tornou-se um nome incontornável da modalidade e dos Jogos. A longevidade foi uma das suas imagens de marca.

Ainda não havia Michael Phelps. Nem Larisa Latynina. Nem Nikolai Andrianov. Quando Edoardo Mangiarotti se estreou nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, era apenas um adolescente de 17 anos com sonhos maiores do que a vida.

Nascido numa família de esgrimistas, tornou-se um produto de laboratório. O pai, Giuseppe, era uma lenda da modalidade, tinha sido campeão nacional 17 vezes, e fez questão de fabricar uma máquina, sem descurar qualquer pormenor. Numa era em que os canhotos por todo o mundo eram obrigados a ser destros, Edoardo foi forçado a manejar a espada com a mão esquerda, apenas pela vantagem teórica que ganharia durante um combate.

Quando começou a competir a nível sénior, Edoardo era já uma séria ameaça. Campeão júnior aos onze anos, estreou-se nos Jogos Olímpicos com 17, numa altura em que já tinha experiência em Mundiais… inacreditavelmente sem medalhas.

Os «Jogos de Hitler» marcaram o início de uma lenda: medalha de ouro na prova de espada por equipas e dado o pontapé de saída para uma carreira mítica. Se a Alemanha Nazi abriu caminho para o seu estatuto, também conseguiu quebrar a sua evolução olímpica.

Com a Europa a ser destruída um pouco por todo o lado, Edoardo Mangiarotti perdeu a oportunidade de participar nas edições que se disputariam em 1940 e 1944. Se o tivesse feito, o seu currículo seria ainda mais impressionante. Entre 1936 e 1948, quando o palco olímpico regressou em Londres, o italiano ganhou quatro medalhas em Mundiais: duas delas em Lisboa-1947, ambas de bronze.

Entre Paris-1937 e Filadélfia-1958, o palmarés de Mangiarotti em Mundiais cresceu de forma assustadora: 13 medalhas de ouro, oito de prata e cinco de bronze. Mas os olhos estavam postos nos Jogos Olímpicos.

Em Londres conquistou duas medalhas de prata e uma de bronze. Em Helsínquia, foi pela primeira e única vez campeão olímpico numa prova individual e ainda conquistou mais uma medalha de ouro e duas de prata. Em Melbourne somou dois títulos e uma medalha de bronze. Em Roma, finalmente, 24 anos depois da estreia olímpica, Mangiarotti apareceu determinado. Queria fazer história. E conseguiu-o.

Restava muito pouco do adolescente que vivia na sombra do pai. O currículo falava por ele mas continuava a haver objetivos por alcançar. A combater na sua Itália, o nome a abater era Paavo Nurmi, o finlandês do atletismo que era ainda o atleta olímpico com mais medalhas na história (12).

Edoardo tinha 11. Mas sabia que tinha capacidade para bater o recorde. E assim foi, graças à medalha de ouro na prova de espada por equipas e à de prata na competição de florete por equipas. Era a consagração que faltava ao homem que foi eleito, em 2003, o melhor esgrimista da história pelo Comité Olímpico Internacional.

A marca do italiano pode não ter durado muito tempo. Afinal de contas, Larisa Latynina já competia desde 1956 e viria a elevar o recorde até 18 na edição de 1964, em Tóquio. Mas durante quatro anos Edoardo esteve no topo do desporto olímpico.

E o pai Giuseppe, a viver os seus últimos anos de vida, pôde finalmente descansar. Pode nunca ter vencido uma medalha olímpica (competiu em 1908, sem sucesso), mas os seus filhos – e não apenas Edoardo – corresponderam aos seus ensinamentos.

Edoardo Mangiarotti notabilizou-se com as 13 medalhas olímpicas, mas Dario também saboreou a glória, com três pódios. Só Mario, o mais novo dos três, ficou de fora desta contenda, ganhando ainda assim uma medalha de prata num Mundial.

07 de Abril, 2020

Lance Larson. Quando fazer o melhor tempo não foi suficiente

Especial Jogos Olímpicos (Roma-1960)

Rui Pedro Silva

Lance Larson

Decisão dos 100 metros livres nos Jogos Olímpicos de Roma foi uma das mais controversas na história e catapultou definitivamente a natação para o progresso técnico. Norte-americano Lance Larson terminou com o melhor tempo, com base nos cronómetros de três juízes, mas a burocracia atirou-o para a medalha de prata, oferecendo o título ao australiano John Devitt.

Lance Larson entrou na final dos 100 metros livres como o maior favorito à conquista do título. Depois dos 55,7 segundos da sétima série das eliminatórias e dos 55,5 segundos da meia-final, o norte-americano tinha os dois tempos mais rápidos entre os oito finalistas. Aliás, apenas John Devitt tinha conseguido baixar também do segundo 56, ao nadar a meia-final em 55,8.

Não havia dúvidas sobre quem seriam os dois candidatos ao título e o facto de nadarem lado a lado tornou a corrida mais frenética. O brasileiro Manuel dos Santos Filho, que acabaria por vencer a medalha de bronze, liderava aos 50 metros mas perdeu a vantagem na segunda metade da prova.

Aí, Larsson e Devitt foram até à última. Os tempos eram outros. Em cada pista, havia três árbitros com cronómetros para tentar chegar a um consenso no tempo de prova. Para Devitt, não houve dúvidas: os três registaram uma marca de 55,2 segundos, que equivalia a um novo recorde olímpico. Com Larson, porém, houve um pequeno desvio: um juiz encerrou a prova aos 55,0 enquanto os dois restantes mostraram 55,1 segundos.

Haver duas marcas idênticas seria suficiente para oficializar uma marca mas naquele dia, em Roma, os responsáveis decidiram aumentar a confusão. Não acreditando na marca dos cronómetros, decidiram recorrer aos juízes que também marcavam presença na piscina: 24 no total, 12 de cada lado.

A pergunta foi feita a três juízes: quem é que terminou em primeiro? Dois responderam Devitt, um Larson. Por outro lado, quando perguntado a outros três juízes quem ficou em segundo, as respostas foram exatamente as mesmas: dois disseram Devitt, um Larson.

O desempate foi feito pelo alemão Henry Runströmer, responsável máximo pela equipa de juízes. O natural seria aceitar os tempos registados mas Runströmer tinha outra ideia: os dois atletas iam ficar com um tempo de 55,2 segundos mas a medalha de ouro iria apenas para Devitt.

Os norte-americanos contestaram a decisão mas não tiveram sorte. Lance Larson ficou para sempre recordado como o homem que venceu a medalha de prata apesar de registar o melhor tempo e deu início à mudança tecnológica na natação. Oito anos depois, na Cidade do México, os juízes foram substituídos por sensores de toque, erradicando de vez o erro humano da equação.

Para Larson foi demasiado tarde, restando apenas a moderada recompensa de ter sido campeão olímpico na estafeta dos 4x100 metros. O currículo de John Devitt foi mais rico: terminou a carreira olímpica com quatro medalhas: duas de ouro, uma de prata e uma de bronze, divididas entre Melbourne-1956 e Roma-1960.

06 de Abril, 2020

Constantino II. A medalha de ouro para o neto de um pioneiro olímpico

Especial Jogos Olímpicos (Roma-1960)

Rui Pedro Silva

Constantino II da Grécia

Filho de Paulo da Grécia participou nos Jogos Olímpicos de Roma, em 1960, na vela. Tinha a irmã Sofia, rainha de Espanha até 2014, na equipa e conquistou a medalha de ouro, homenageando a memória do avô, Constantino I, que tinha desempenhado um papel fundamental na edição inaugural em 1896.

Foi o último rei da Grécia, num trono que ocupou entre 1964 e 1973. Antes, em 1960, quando tinha apenas vinte anos, fez parte da comitiva helénica que viajou até Roma para participar nos Jogos Olímpicos. A equipa tinha 48 atletas, distribuídos por oito modalidades, mas só conseguiu conquistar uma medalha: o ouro na vela, na classe Dragon.

O príncipe Constantino foi o porta-estandarte com autoridade. Afinal, era o filho do rei da Grécia, Paulo. A família real estava em peso na competição e a irmã de Constantino, Sofia, rainha de Espanha até 2014, também viajou como suplente da equipa de vela.

Nas águas italianas, a embarcação de Constantino, Odysseus Eskitzoglou e Georgios Zaimis ganhou apenas uma de sete regatas mas a sua regularidade foi essencial para terminar com uma vantagem muito favorável (6733 vs. 5715) pontos sobre os rivais argentinos.

Para Constantino, foi também uma forma de homenagear o avô, Constantino I. Em 1895, numa altura em que a organização dos Jogos de Atenas estava em risco, devido às reticências do governo helénico, foi ele quem assumiu a ambição de concretizar a ideia, satisfazendo o objetivo de Pierre de Coubertin e passando a desempenhar o cargo de presidente do comité organizador.

Se o avô não competiu – mas teve um papel fundamental na aceitação dos atletas, com destaque para a recusa de deixar Carlo Airoldi competir -, o neto elevou o nome da família e garantiu uma medalha de ouro para os gregos, naquele que foi o primeiro título olímpico desde Estocolmo em 1912.

A medalha de ouro em Roma foi um dos derradeiros atos de Constantino II na sombra do pai. Paulo estava doente e viria a morrer de um cancro, poucos anos depois. Os destinos do país eram cada vez mais decididos pelo filho mas o reinado só começou oficialmente em 1964. Constantino II foi assim o primeiro campeão olímpico que pode dizer, com propriedade, que foi rei de alguma coisa.

03 de Abril, 2020

Laszlo Papp. O tricampeão que saiu da bancada

Especial Jogos Olímpicos (Melbourne-1956)

Rui Pedro Silva

Laszlo Papp

Falta de comparência de um pugilista fê-lo saltar para a ribalta do boxe na Hungria. Ganhou automaticamente um lugar na seleção e confirmou todo o seu talento nos Jogos Olímpicos, ao conquistar a medalha de ouro em três edições consecutivas. Talento foi coroado em 1956, em Melbourne.

Papp nasceu na Hungria em 1926, no seio de uma família pobre. O futuro que se lhe adivinhava não era grande coisa e as marcas da II Guerra Mundial não ajudaram a limpar o horizonte. À imagem de muitos outros rapazes da altura, Laszlo sonhou em ser jogador de futebol mas a vida trocou-lhe as voltas e, enquanto trabalhava para a companhia de caminhos-de-ferro, começou a praticar boxe.

Vivia-se o ano do fim da guerra e Laszlo Papp não era mais do que um simples desconhecido. Já praticava boxe há algum tempo mas era um pugilista sem credenciais. Um dia, a convite do seu treinador, foi assistir a um combate de Gyula Bicsak, um bombeiro que conquistava a simpatia dos fãs, mas o adversário não apareceu.

Foi o momento que catapultou Papp para a glória. O treinador convenceu-o a ocupar o lugar vago e, logo no segundo assalto, derrotou Bicsak com um knockout e provocou a incredulidade entre as testemunhas.

O feito de Papp chamou a atenção do mundo do boxe. A entrada na seleção foi a consequência natural e, apenas quatro dias depois, venceu pela primeira vez um adversário estrangeiro: um austríaco. Em menos de uma semana, Papp tinha passado de desconhecido a ídolo nacional.

A estreia nos Jogos Olímpicos em 1948, em Londres, confirmou a capacidade de Papp para singrar entre os melhores atletas amadores do mundo. Venceu todos os assaltos de todos os combates e conquistou a sua primeira medalha de ouro. Quatro anos depois, em Helsínquia, repetiu a gracinha, agora numa categoria de peso mais baixa.

Este canhoto de Budapeste, com golpes potentes e com um jogo de mãos contagiante, não esperava para ganhar. Sabia, e dizia-o muitas vezes, que a melhor forma de garantir a vitória era através do knockout. «Um adversário no chão não ganha combates», repetia até à exaustão para justificar a ausência de receio de ser vítima de árbitros com julgamentos polémicos.

Em Melbourne, na Austrália, o ciclo olímpico de Papp chegou ao fim. Tinha 30 anos, continuava a ser um pugilista amador, e tornou-se o primeiro da história a ser campeão olímpico em três edições distintas – o feito foi igualado mais tarde pelos cubanos Teófilo Stevenson e Félix Savón.

A terceira medalha de ouro foi também a mais difícil. Começou, como sempre, com um knockout, mas no combate de atribuição do título, frente ao norte-americano e futuro campeão do mundo José Torres, permitiu pela primeira vez a vitória num assalto a um adversário. Mas, feitas as contas, no final, a medalha de ouro não lhe fugiu.

A carreira como profissional não lhe sorriu da mesma forma. Falhou o objetivo de ser campeão mundial e, quando estava mais perto de o conseguir, foi vítima do regime húngaro, que lhe negou a autorização para sair do país e combater no estrangeiro. Até então, havia um pacto que lhe permitia ser profissional desde que lutasse sempre fora da Hungria mas naquele dia, quando o título estava mais perto do que nunca, foi barrado.

Esta foi a única “derrota” na sua carreira como profissional. Quando disse adeus, despediu-se com 27 vitórias e dois empates em 29 duelos: quinze foram ganhos por knockout. Como sempre preferiu.

02 de Abril, 2020

Al Oerter. Ninguém lançava discos como ele

Especial Jogos Olímpicos (Melbourne-1956)

Rui Pedro Silva

Al Oerter

É um dos melhores atletas olímpicos da história e tornou-se o primeiro de uma elite muito exclusiva a conquistar a medalha de ouro na mesma prova em quatro edições diferentes. O início da lenda começou a escrever-se em Melbourne, em 1956. Tinha vinte anos.

A lenda garante que foi o lançamento do disco a descobrir Al Oerter, não o contrário. Certo dia, quando passeava num parque, foi surpreendido por um objeto estranho que lhe caiu aos pés. Alguns lançadores estavam a praticar e o disco ficou ali, à mão de semear. Depois de devolver, com tanta qualidade, o objeto, percebeu que poderia estar ali algo que gostasse.

Oerter tinha 15 anos e começou a praticar o lançamento do disco com frequência, registando resultados cada vez melhores. O desempenho valeu-lhe uma bolsa desportiva na Universidade do Kansas em 1954 e, quando se estreou nos Jogos Olímpicos em 1956, em Melbourne, ainda não tinha um único título nacional para amostra.

O favoritismo não era seu. Com 20 anos, Al Oerter tinha garantido a qualificação mas ninguém achava, verdadeiramente, que pudesse ser uma ameaça à medalha de ouro. O certo é que o que demonstrou dentro de pista provou precisamente o oposto. Com um resultado de 56,36 metros, Al Oerter deu o primeiro passo firme rumo à história olímpica.

Num pódio completamente norte-americano, Oerter conquistou a primeira de quatro medalhas de ouro com uma vantagem superior a um metro e meio: Fortune Gordien foi segundo classificado com 54,81.

O desporto era cada vez mais competitivo na segunda metade do século XX mas Al Oerter conseguiu manter-se sempre no topo. Um acidente de automóvel, que quase o matou em 1957, foi o principal obstáculo a manter a sua hegemonia durante toda a década de 60.

Em Roma-1960, venceu com 58,43 metros, estabelecendo um novo recorde olímpico e com quase três metros de vantagem sobre o húngaro Jozsef Szecsenyi, medalha de prata. Quatro anos depois, em Tóquio, voltou a aumentar a melhor marca olímpica com um registo de 60,54 metros. Finalmente, na Cidade do México, em 1968, conquistou o quarto título na mesma prova individual com um lançamento de 64,78 metros. Ou seja, uma vez mais, recorde olímpico e com o bónus de ter deixado o então recordista do mundo, o compatriota Jay Silvester, fora das medalhas.

O feito de Al Oerter foi único. Nunca ninguém tinha vencido a mesma prova individual em quatro edições dos Jogos Olímpicos. Mais tarde, este feito foi igualado por Carl Lewis (salto em comprimento entre 1984 e 1996) e Michael Phelps (200 metros estilos entre 2004 e 2016). Mas ninguém lhe tirará o facto de ser o primeiro. E tudo começou em Melbourne, com 20 anos, quando ninguém dava nada por ele.

01 de Abril, 2020

Hungria-União Soviética. O duelo sangrento dentro de água

Especial Jogos Olímpicos (Melbourne-1956)

Rui Pedro Silva

Marcas sangrentas do duelo olímpico

Ocupação soviética em vésperas dos Jogos Olímpicos ajudou a alimentar a tensão entre as duas comitivas. Húngaros eram favoritos no polo aquático e comprovaram-no dentro de água (4-0), rumo a mais um título olímpico, mas para a história ficaram as sucessivas trocas de palavras, agressões e… sangue derramado.

O polo aquático é um bastião húngaro. São a maior potência e viveram um dos seus melhores períodos na década de 50, em vésperas da participação nos Jogos Olímpicos de Melbourne, em 1956. Mas a história política do bloco oriental fez com que o torneio se tornasse uma importante arma de arremesso nesta batalha ideológica.

A revolução húngara em 1956 tinha aberto caminho para que os soviéticos respondessem com uma ocupação forçada em novembro, apenas um mês antes dos Jogos Olímpicos. A seleção de polo aquático foi transportada para a Checoslováquia, para ficar longe dos problemas, e só quando chegou à Austrália soube claramente de tudo o que se estava a passar.

A tensão era máxima. Se fora de campo os soviéticos conseguiam impor-se à força – e até ganhar alguma vantagem desportiva ao espiar os métodos de trabalho húngaros -, dentro de água a história era outra. Ninguém era capaz de derrotar a Hungria. E toda a gente sabia disso.

O favoritismo húngaro antes do penúltimo jogo do grupo que decidia o campeão olímpico, marcado para 6 de dezembro, não era contestado mas toda a gente sabia que aquilo era mais do que um encontro. Havia um clima tenso, com provocações de ambos os lados, e temia-se que o jogo fosse mais do que apenas um duelo.

Os húngaros estavam preparados para provocar os adversários sempre que possível e, do outro lado, os soviéticos não tinham nada a perder, recorrendo livremente à violência para travar os rivais. Os golos da Hungria – quatro – decidiram rapidamente o encontro mas a pancadaria prolongou-se praticamente até ao final.

«Ouvi um apito, olhei para o árbitro e questionei-me qual seria a razão. Ali, naquele momento, soube que tinha cometido um erro horrível. Virei-me para trás e levei um murro na cara. Tentou continuar a esmurrar-me. Devo ter visto umas 4000 estrelas. Enquanto levei as mãos à cara e senti o sangue quente a sair-me do corpo, pensei imediatamente que não poderia disputar o último jogo.»

O testemunho é de Ervin Zádor, a cara mais famosa deste duelo sangrento. Foi ele que «apresentou» a violência deste encontro ao mundo depois de ter sido vítima da fúria do soviético Valentin Prokopov. Os dois estavam pegados há muito e aquele momento foi apenas o desfecho inevitável, que levou os árbitros a dar a partida por encerrada ainda antes do fim do tempo regulamentar.

Não havia condições. Nas bancadas, expatriados húngaros, americanos e australianos torciam abertamente pela Hungria e pediam explicações. Alguns ameaçaram os soviéticos, outros cuspiram-lhes em cima. Não queriam deixar passar em claro aquela agressão. Não por ter sido a primeira mas por se ter tornado a mais óbvia de todas.

Ao contrário do que se passava na Europa, em Melbourne a força bruta da União Soviética não servia de nada. A Hungria chegou ao final da sua participação olímpica só com vitórias e garantiu mais um título; a União Soviética não foi além do terceiro lugar e de uma má imagem mostrada ao mundo.

«Sentimos que estávamos a jogar não apenas por nós mas pelo nosso país inteiro», garantiu Zador, ainda com as marcas do sangue no rosto.

A tensão prolongou-se pós-jogo. Os húngaros temiam o que podiam encontrar no regresso a casa e mais de metade da comitiva que comparecera em Melbourne decidiu desertar. A componente política voltava a aparecer claramente nuns Jogos Olímpicos.

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