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É Desporto

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Wyndham Halswelle. Conta como vitória se não houver adversários?

Especial Jogos Olímpicos (Londres-1908)

Wyndham Halswelle

A final dos 400 metros no atletismo nos Jogos Olímpicos de Londres em 1908 é, provavelmente, a mais controversa de sempre. Depois de uma decisão polémica da equipa de arbitragem, que favoreceu o atleta da casa, a organização decidiu marcar uma nova corrida. Os norte-americanos boicotaram a iniciativa e Wyndham Halswelle correu… contra ninguém.

A página dos Jogos Olímpicos recorda uma frase importante que constava no programa de prova em Londres-1908: «Qualquer atleta que, de forma consciente corra à frente ou obstrua outro atleta para impedir que este progrida, deve perder o direito de estar na competição e não deve receber qualquer classificação ou prémio ao qual de outra forma teria direito».

Este pormenor era importante porque as pistas, como as conhecemos hoje, ainda não existiam nas provas de atletismo. Quando a corrida em questão era os 400 metros, a probabilidade de acontecer algo problemático aumentava. E foi precisamente isso que aconteceu no dia da final, a 24 de julho.

A vitória foi para o norte-americano John Carpenter, seguido de Wyndham Halswelle. Sem grandes protestos de parte a parte, um dos árbitros, Roscoe Badger, decidiu entrar em cena e dizer que o terceiro classificado, o também norte-americano William Robbins, tinha obstruído o britânico durante uma tentativa de ultrapassagem.

O depoimento de Badger referia que Robbins estava na frente quando fez a manobra proibida, garantindo ainda que a dupla norte-americana tinha trabalhado em conjunto para impedir que Halswelle triunfasse e que, caso quisesse mesmo tentar a ultrapassagem, o tivesse de fazer a correr muito por fora e com um desgaste maior. Neste caso, o maior vilão foi mesmo o vencedor do evento.

A iniciativa do árbitro provocou a anulação dos resultados, a desqualificação de John Carpenter e o agendamento de nova final para o dia seguinte. A comitiva norte-americana protestou a decisão e, chegada a hora da corrida, não houve sinal nem de William Robbins nem do terceiro atleta dos Estados Unidos (John Taylor) que tinha participado na final.

Wyndham Halswelle não se sentiu incomodado com tal insólito e percorreu os 400 metros com um tempo redondo de 50 segundos (2,2 segundos mais lento do que John Carpenter na véspera). É, até hoje, a única vez em que uma final foi disputada por um único atleta e provocou a mudança de regras: a partir de 1912 passou a haver pistas para cada participante.

A vida do campeão olímpico não trouxe grande recompensa. A 31 de maio de 1915, enquanto tentava salvar um colega durante a Grande Guerra, o capitão Halswelle foi morto por um atirador furtivo em França. O incidente aconteceu pouco semanas após ter sido ferido pela primeira vez, recusando abandonar a batalha.

Henry Taylor. Da pobreza extrema aos três títulos olímpicos

Especial Jogos Olímpicos (Londres-1908)

Henry Taylor

Fazia da água o seu habitat natural e não desperdiçava uma única oportunidade para nadar, por mais imunda e pouco saudável que fosse a água. Quando teve a oportunidade de representar o seu país nos Jogos Olímpicos de Londres, o inglês fez história com três títulos. A marca demorou 100 anos a ser igualada.

Os pais morreram quando era muito jovem e teve de ser criado pelo irmão mais velho. Longe de uma vida abastada, encontrou na natureza os maiores prazeres da vida. Dizia quem o conheceu nesse período que não perdia uma oportunidade para se enfiar dentro de água e nadar. As piscinas eram um luxo ao qual só conseguia aceder nos dias de desconto, por isso conhecia na palma da mão todos os rios, canais e lagos. E nadava. Nadava sem parar.

Quando começou a crescer – não muito porque nunca foi além dos 165 centímetros -, as competições de natação tornaram-se uma atividade de eleição. Deu nas vistas, claro, e tornou-se um dos melhores nadadores do Reino Unido. Em 1906, nos Jogos Olímpicos Intercalares de Atenas, tinha 21 anos e demonstrou que podia ser uma ameaça séria em Roma-1908.

Os caprichos da natureza tiraram a organização dos Jogos a Roma. Os italianos ficaram mais preocupados com os investimentos necessários para recuperar após uma erupção no Vesúvio e desviaram a verba prevista. Foi assim que Londres entrou na corrida e garantiu a realização do evento.

Henry Taylor foi, naturalmente, um dos nomes mais acarinhados do público. E com razão para isso. A técnica do inglês era imparável e o domínio nas provas dos 400, 1500 e 4x200, sempre na variante de estilo livre, foi praticamente absoluto. Entre eliminatórias, meias-finais e final, só não chegou ao fim da distância em primeiro uma vez.

Aconteceu precisamente na prova do primeiro título, nos 400 metros. Na primeira meia-final do evento, Taylor foi superado em apenas quatro décimas pelo austríaco Otto Scheff. Mas quando verdadeiramente importava demonstrou que não havia sequer discussão: venceu a final e garantiu a medalha de ouro com mais de sete segundos de vantagem sobre Frank Beaurepaire e praticamente dez sobre Scheff.

A estafeta dos 4x200 metros ajudou a catapultar Taylor para a glória eterna. Quando saiu para a água, no último turno, estava em grande desvantagem para o húngaro Zoltan Halmay e para o norte-americano Leslie Rich. Mas, combinando a sua enorme capacidade com o desgaste dos adversários, garantiu a reviravolta e terminou com mais de três segundos de vantagem sobre a equipa húngara.

Para fechar com a chave de ouro, a prova dos 1500 metros foi um verdadeiro passeio. Depois de bater o recorde olímpico na eliminatória e na meia-final, Henry Taylor foi supersónico na final e estabeleceu um novo máximo mundial com 22 minutos, 48 segundos e quatro décimos. Para se ter uma noção do impacto desta marca, basta perceber que outro britânico, Paul Radmilovic, tinha estabelecido um novo recorde olímpico na primeira série das eliminatórias com dois segundos acima dos… 25 minutos.

Henry Taylor tornou-se o primeiro britânico da história a alcançar três títulos olímpicos e teve de esperar até 2008 para ser igualado, por Chris How (ciclismo de pista). O futuro adivinhava-se promissor mas a realidade foi um pouco diferente. Em Estocolmo-1912 não foi além de uma medalha de bronze na estafeta dos 4x200 metros livres e depois… houve a guerra. Taylor serviu… na marinha e viu os Jogos de 1916 serem cancelados. Findo o conflito, despediu-se da carreira olímpica em 1920, em Antuérpia, com nova medalha de bronze na estafeta dos 4x200 metros livres.

A vida não lhe sorriu depois disso e acabou por morrer com 65 anos, novamente numa situação de extrema pobreza. Henry Taylor sempre se deu bem na água mas nunca conseguiu nadar em dinheiro.

Reggie Walker. O primeiro africano a ser campeão olímpico

Especial Jogos Olímpicos (Londres-1908)

Reggie Walker correu de escuro

Mal conseguiu ter dinheiro para viajar da África do Sul até Londres mas, assim que chegou à pista, demonstrou que era um dos principais candidatos a vencer a prova dos 100 metros. Hoje, mais de 110 anos depois, continua a deter duas marcas históricas: uma, impossível de bater, a de ter sido o primeiro africano a conquistar um título olímpico; outra, a de ser o campeão mais jovem do hectómetro. Tinha 19 anos e 128 dias.

Empregado bancário de profissão, Reggie Walker era o campeão sul-africano dos 100 metros. As pessoas olhavam para ele como um forte candidato a representar o país nos Jogos Olímpicos mas chegar a Londres era uma maratona muito maior do que a prova olímpica.

Sem dinheiro suficiente para fazer a viagem, tornou-se o beneficiário de várias campanhas de angariação de dinheiro e eventos de caridade. Todos queriam que Reggie Walker chegasse a Londres e aí pudesse demonstrar o que realmente valia.

O hectómetro era dominado pelos norte-americanos. Os Estados Unidos tinham conquistado o título olímpico na distância em 1896, 1900 e 1904 e voltavam a surgir como principais candidatos. Mas Walker foi o fator-surpresa que veio do hemisfério sul.

A capacidade de Reggie Walker começou a ser demonstrada logo nas eliminatórias, quando estabeleceu a segunda melhor marca entre os 17 participantes. Depois, na meia-final, roubou duas décimas ao seu tempo e igualou o recorde olímpico… que tinha sido estabelecido minutos antes por James Rector.

Os dois tornaram-se, sem grande surpresa, os principais nomes para a final. De um lado, a tradição norte-americana, do outro a excentricidade que vinha de África. O duelo foi memorável: Rector partiu melhor mas Walker reagiu e acabou por vencer, novamente com um tempo de 10,8 segundos e com três metros de vantagem sobre o rival.

Não foi preciso mais para que Reggie Walker se tornasse um dos favoritos da multidão, até pela relação muito próxima entre África do Sul e Grã-Bretanha. Levado em ombros pelo público, mal teve tempo para se aperceber que tinha feito história a dobrar: o primeiro africano a vencer uma medalha de ouro em Jogos Olímpicos e o mais novo de sempre a ganhar os 100 metros.

Forrest Smithson. A lenda do campeão… bíblico

Especial Jogos Olímpicos (Londres-1908)

Forrest Smithson

Norte-americano conquistou o título olímpico dos 110 metros barreiras em Londres-1908. A organização da prova esteve envolta em polémica, por estar marcada para um domingo, e há uma fotografia que tem ajudado a propagar um mito: Smithson foi ou não campeão a correr com uma Bíblia na mão?

A ligação entre o desporto e a religião tem existido desde os primórdios da era moderna dos Jogos Olímpicos. Logo na segunda edição, em Paris-1900, foi célebre o desentendimento entre Alvin Kraenzlein e Myer Preinstein, no qual o segundo esmurrou o primeiro após terem acordado que nenhum deles participaria na final do salto em comprimento… por ser disputada a um domingo.

Oito anos depois, em Londres, a marcação das finais do atletismo voltou a estar envolta em polémica. No dia 25 de julho, domingo, já depois de ter igualado o recorde olímpico na meia-final, Forrest Smithson teve uma prestação arrebatadora: conquistou a medalha de ouro com um tempo de 15 segundos redondos e retirou quatro décimas de segundo ao anterior recorde mundial.

A história não fica por aqui. Há quem diga que Smithson, um devoto cristão, participou na final contrariado e correu com um exemplar da Bílbia na mão esquerda. O facto é suficientemente curioso para ser destacado na imprensa da altura mas não há qualquer tipo de referência esclarecedora. Por outro lado, há uma fotografia publicada no relatório oficial, tirada alegadamente durante a corrida (não é a que ilustra este texto), em que a Bílbia surge na mão esquerda do antigo estudante de Teologia no Oregon.

Forrest Smithson era conhecido por isso. Gostava de correr com a Bíblia na mão para mostrar ao mundo como conseguia a força e a inspiração necessárias para triunfar. Porém, não há prova concreta sobre se a fotografia foi tirada efetivamente durante a corrida ou numa fase de aquecimento.

Talvez seja um mito olímpico. Talvez não. A história dos Jogos Olímpicos também é feita destes pormenores.

Dorando Pietri. O derrotado mais acarinhado da história

Especial Jogos Olímpicos (Londres-1908)

Dorando Pietri

Italiano liderava a maratona de Londres em 1908 até à entrada no estádio mas estava fora de si, perdeu os sentidos e colapsou no chão. Organizadores ajudaram-no a levantar-se e a cruzar a meta pelo próprio pé, mas protesto da comitiva dos Estados Unidos forçou a sua desqualificação. Falta de medalha não impediu que se tornasse um favorito… do público e da rainha.

Dorando Pietri era um dos principais favoritos à conquista da maratona de Londres e esteve muito perto de confirmar o que se pensava. Esteve praticamente sempre nos primeiros lugares da corrida e entrou no estádio isolado, com uma vantagem relevante sobre o norte-americano Johnny Hayes.

Mas ali, naquele momento, Dorando Pietri já não era ele mesmo. O desgaste acumulado dos mais de 40 quilómetros percorridos tinha-o obrigado a entrar numa dimensão transcendental, irracional, em que já não sabia quem era ou o que estava a fazer.

Se dúvidas existissem, o seu comportamento enquanto dava a volta à pista esclareceu qualquer insistência. Pietri começou por cair no chão. Depois de se levantar, voltou a correr, mas na direção errada. Finalmente, como num último sopro de energia, regressou ao meio do chão e por lá ficou, sem dar sinal de vida.

Os organizadores sentiram que tinham de intervir, não podiam deixar que um homem morresse estatelado na pista, com a rainha Alexandra de Inglaterra nas bancadas. Levaram-no em ombros, ainda sem recuperar os sentidos, mas, já mais perto da meta, Pietri voltou a si e acabou mesmo por terminar a prova… conscientemente.

O público britânico saudou-o com uma energia contagiante. Tinha assistido a todo aquele cenário com o coração nas mãos e gerara uma empatia automática com aquele ser humano em sofrimento. Menos preocupado com isso, Johnny Hayes cruzou a meta, sem qualquer tipo de dificuldade, cerca de meio minuto depois.

A comitiva dos Estados Unidos protestou. Pietri tinha recebido um auxílio proibido para terminar e, como tal, não restava outra alternativa à organização que não fosse a desqualificação do italiano. E foi mesmo isso que acabou por acontecer, despedaçando os corações da multidão e de todos aqueles que tinham tomado conhecimento do que se tinha passado.

Sem medalha, Pietri conseguiu ganhar. «Não tenho medalha, nem diploma, nem uma coroa de louro para lhe dar, senhor Pietri, mas, para que não leve só más recordações do nosso país, receba esta taça de ouro como prova da nossa admiração pelo seu comportamento», disse-lhe a rainha Alexandra.

Os ingleses quiseram contribuir também e, através do jornal Daily Mail e do famoso escritor Arthur Conan Doyle, «pai» de Sherlock Holmes, organizaram uma angariação de fundos em favor do pasteleiro italiano. Resultado: 300 libras e a capacidade para seguir a sua vida com outro fôlego… desde que não fosse obrigado a correr até ficar inconsciente.

Frederick Lorz. «Ganhar» a maratona à boleia de um carro

Especial Jogos Olímpicos (St. Louis-1904)

Fred Lorz

O norte-americano foi o primeiro atleta a cruzar a meta na maratona olímpica de 1904. Foi saudado como o grande campeão e chegou a receber algumas felicitações mas a verdade veio ao de cima pouco depois: Lorz tinha desistido por exaustão e acabara por percorrer grande parte do percurso à boleia no carro do seu treinador. Foi apenas mais um insólito na história da prova.

Há quem considere que a maratona é a prova-rainha dos Jogos Olímpicos. Criada para agradar os gregos na edição inaugural em Atenas-1896, não precisou de tempo algum para se tornar também numa fonte inesgotável de histórias rocambolescas.

Na estreia, um grego chamado Spriridon Belokas percebeu que não tinha andamento para percorrer os mais de 42 quilómetros e fez uma boa parcela do percurso a bordo de uma carroça. Quando cruzou a meta, no terceiro lugar, pensou que a batota tinha surtido efeito mas as queixas dos adversários levaram à sua desqualificação.

Oito anos volvidos, em St. Louis, o progresso dos meios de transporte fez com que a carroça se transformasse num automóvel. Não foi preciso esperar pela meia-noite para acontecer o momento mágico, apenas pelo ponto de desistência de Frederick Lorz.

Há quem garanta – a começar pelo próprio – que tudo não passou de uma pequena piada. Depois de passar a marca dos 14 quilómetros, Lorz estava exausto e percebeu que não ia conseguir continuar a correr. Parou, deu sinal de desistência e aproveitou uma boleia do seu treinador durante mais de 17 quilómetros. Daí, a ideia seria andar até ao estádio.

Quando chegou ao estádio, o verdadeiro vencedor da competição – Thomas Hicks – ainda não tinha cruzado a meta. Por isso, cheio de bom humor (?), Lorz cruzou a meta como se estivesse a terminar a prova e foi saudado pelos presentes como o novo herdeiro de Spiridon Louis. Só mais tarde se percebeu que era, na verdade, uma versão moderna de outro Spiridon.

Lorz demorou a confessar o que tinha acontecido e começou por ver até onde é que conseguia levar aquela brincadeira. Chegou inclusivamente a ser fotografado ao lado da filha do então presidente dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt. Depois, quando começaram a surgir as primeiras acusações, confessou a graçola e desviou as atenções para o verdadeiro campeão.

Houve quem não tenha gostado da iniciativa, a começar pela federação de atletismo amador. Lorz começou por ser banido de toda a atividade mas, mais tarde, depois de se justificar uma vez mais em como tudo não tinha passado de uma brincadeira, foi readmitido.

Fred Lorz não entrou para a história dos campeões olímpicos – não passou de uma nota de rodapé -, mas não deixou de ser um nome importante na maratona do início do século XX. Em 1905, no ano seguinte, venceu a mítica maratona de Boston com um tempo de duas horas, 38 minutos e 25 segundos.

O tempo do vencedor na maratona olímpica de St. Louis foi muito mais lento: três horas, 28 minutos e 53 segundos. E a história da prova não se reduziu à brincadeira de Lorz. Num período em que a maratona era uma prova insuportável para muitos dos participantes, Hicks foi obrigado a recorrer sucessivamente a copos de brandy com estricnina. Quando cruzou a meta, mal tinha consciência do que tinha acontecido.

O cubano Andarín Carvajal por seu turno foi direto de Nova Orleães para St. Louis para correr a maratona e, quando chegou, estava há 40 horas sem comer. Durante o percurso não resistiu a roubar umas maçãs de um pomar e acabou com problemas intestinais… embaraçosos.

Foi uma prova em estado puro. Para amadores, tal como Pierre de Coubertin tinha vaticinado.

Ray Ewry. Da cadeira de rodas para a glória olímpica

Especial Jogos Olímpicos (St. Louis-1904)

Ray Ewry

Brilhou em Paris-1900 e em Londres-1908 mas foi a saltar em casa, em St. Louis-1904, que conseguiu a participação mais gloriosa da carreira olímpica: três dos oito títulos foram conquistados na edição dos Estados Unidos, a competir perante o seu público. Nas provas de saltos sem balanço, Ewry não teve oposição e fez esquecer o passado vivido numa cadeira de rodas com receios da família de se tornar paralítico.

Os Jogos Olímpicos são um autêntico viveiro. Dos melhores atletas do mundo, das mais impressionantes manifestações de desportivismo e também das narrativas mais tocantes e curiosas. É assim hoje em dia, com refugiados que fogem de países em ruínas, e já o era assim no início do século XX.

A história de Ray Ewry não é apenas a de um homem que venceu a medalha de ouro sempre que subiu ao pódio. Não é apenas a de um norte-americano com oito título olímpicos do currículo e com lugar reservado na história do desporto. É, talvez sobretudo, a história de uma criança que superou uma infância sombria, ultrapassou os receios de invalidez e saltou para uma vida gloriosa. Literalmente.

Nascido em 1873, no estado do Indiana, Ray foi diagnosticado com poliomielite em criança e viveu vários anos numa cadeira de rodas. A família julgou que podia vir a tornar-se paralítico mas a paixão pelo desporto, ganha através das inúmeras sessões de fisioterapia, revigorou-o e ajudou-o a transformá-lo num atleta de mão cheia.

Depois de uma passagem pelo futebol americano, apaixonou-se pelas provas de saltos. Mas não por uns saltos quaisquer: os que não permitiam balanço. Na estreia em Jogos Olímpicos, em Paris-1900, venceu o salto em comprimento, o triplo salto e o salto em altura. Quatro anos depois, o objetivo era defender a coroa com sucesso.

O salto em comprimento foi o primeiro desafio, a 29 de agosto. Com um salto de 3,47 metros, Ewry não teve dificuldade em estabelecer um novo recorde mundial – batendo o anterior por dois centímetros – e em deixar o segundo classificado a uns esmagadores vinte centímetros.

Dois dias depois foi a vez do salto em altura. Sem balanço – nunca é demais realçar isto -, Ewry conseguiu ultrapassar a fasquia colocada a 160 centímetros. Foi insuficiente para bater o recorde do mundo e olímpico de 165 fixado em Paris, mas chegou para ter uma vantagem de 16 centímetros sobre o segundo classificado.

Finalmente, a 3 de setembro, chegou a vez da prova do triplo salto. Com apenas quatro participantes, todos norte-americanos, Ewry atingiu a marca dos 10,54 metros (mais 38 centímetros do que o segundo classificado) e terminou com êxito a defesa dos três títulos olímpicos.

A carreira de Ewry só terminou quatro anos depois, em Londres. Aí não teve a mesma sorte e perdeu a oportunidade de conquistar a medalha de ouro no triplo salto sem balanço. A prova tinha sido descontinuada e obrigou a que o norte-americano conquistasse apenas mais duas medalhas.

O palmarés de oito medalhas de ouro – todas elas em provas individuais – constituiu um recorde durante mais de 100 anos: 100 anos e 23 dias para ser preciso. Foi em Pequim-2008 que Michael Phelps fez história e equilibrou a balança. Hoje, ainda assim, Ewry continua a ser o segundo atleta com mais ouros individuais na carreira olímpica.

E tudo começou numa cadeira de rodas. Não há impossíveis.

Archie Hahn. O Meteorito de Milwaukee

Especial Jogos Olímpicos (St. Louis-1904)

Archie Hahn

Era o homem mais rápido do mundo no início do século XX e fez questão de prová-lo nos Jogos Olímpicos de St. Louis em 1904. O atleta do Wisconsin chegou, viu e venceu, conquistando a medalha de ouro nas provas dos 60, 100 e 200 metros sem dar hipóteses à concorrência. De certa forma, foi o primeiro Usain Bolt da história.

Archie Hahn tirou Direito na Universidade do Michigan mas não exerceu advocacia um único dia da sua vida. A paixão pela corrida era pura e consumia-lhe todo o seu tempo. Não se dava ao luxo de perder uma única décima de segundo a ler leis, a defender inocentes ou a acusar culpados. Queria correr. E queria fazê-lo da forma mais rápida possível.

Quando chegou aos Jogos Olímpicos de St. Louis em 1904, Hahn era uma potência do atletismo. Conhecido pelas suas largadas imparáveis – daí a alcunha de Meteorito de Milwaukee -, não teve muitas dificuldades para levar de vencida as três distâncias mais curtas do atletismo daquela edição. Mesmo quando foi forçado a sair uma jarda atrás da concorrência após cometer uma falsa partida nos 100 metros.

Archie Hahn foi o primeiro atleta da história a juntar o título olímpico dos 100 metros ao dos 200. E na prova que hoje já não tem expressão, nos 60 metros, também demonstrou que era especial: ganhou com duas décimas de segundo de vantagem sobre a concorrência e igualou o recorde olímpico de Alvin Kraenzlein.

Nos 100 metros, a tal prova em que foi obrigado a recuar uma jarda – a penalização padrão para as falsas partidas -, Hahn fez mais do mesmo, ganhando com duas décimas de vantagem e com um tempo total de 11 segundos redondos.

O norte-americano de 23 anos era o mais rápido e demonstrava-o com a mesma naturalidade, independentemente das distâncias. Porém, foi nos 200 metros que o conseguiu fazer de forma mais dominadora. Numa altura em que a distância era percorrida apenas em linha reta, Hahn segurou o terceiro e derradeiro título olímpico da sua carreira ao cumprir a distância com um tempo de 21,6 segundos, com três décimas de vantagem sobre o compatriota Nathaniel Cartmell.

O adeus aos Jogos Olímpicos marcou uma nova fase na sua carreira. A advocacia continuou a ser uma miragem: Hahn queria dedicar-se exclusivamente aos sprints e chegou a aceitar o desafio de uma corrida de circo contra um cavalo. Ganhou.

A competência e nível técnico de Archibald Hahn levaram-no a prosseguir o caminho de treinador, ajudando a moldar os sprinters do futuro. Para muitos, o norte-americano foi o primeiro verdadeiro teórico da arte de sprintar. O currículo fala por ele.

Frank Kugler. Ganhar medalhas em três modalidades

Especial Jogos Olímpicos (St. Louis-1904)

Halterofilismo em 1904

Nasceu na Alemanha como Carl Schuhmann mas fez história olímpica ao serviço dos Estados Unidos. Na terceira edição da era moderna, em St. Louis, tornou-se o primeiro, único e provavelmente último atleta a conquistar uma medalha em três modalidades diferentes: luta livre, halterofilismo e jogo da corda.

Carl Schuhmann foi uma das principais figuras da primeira edição dos Jogos Olímpicos da era moderna. Em 1896, em Atenas, ganhou quatro medalhas em duas modalidades (luta greco-romana e ginástica artística) mas mostrou que era capaz de muito mais e esteve perto de subir ao pódio no atletismo – quinto lugar no triplo salto – e no halterofilismo – quarto posto.

É preciso compreender que os tempos eram outros. Os profissionais não podiam participar e não havia um nível de participação muito grande. As comitivas do país anfitrião compareciam em peso e tornavam-se, com toda a naturalidade, a maior potência ao nível do número absoluto de medalhas conquistadas.

De certa forma, a capacidade de praticar mais do que um desporto – ainda que apenas consideravelmente – poderia ser mais do que suficiente para dar cartas em várias modalidades olímpicas. A evolução não tira mérito a Carl Schuhmann nem a Frank Kugler, apenas os torna mais especiais.

No caso da vedeta de 1904, o feito continua a ser inédito e dificilmente poderá vir a ser batido no futuro. Mesmo sem ter essa noção, estabeleceu um recorde com toda a naturalidade e tornou-se o medalhado olímpico mais eclético na história do desporto.

O único problema? Fazer lembrar a crítica que se faz a quem é polivalente: é aquele que faz muita coisa mas não é muito bom a fazer nada. Traduzido para a edição de 1904, Kugler pode ter conquistado medalhas em três modalidades diferentes mas não levou um único título olímpico para casa.

Na luta livre, disputou a medalha de ouro na final mas perdeu com o compatriota Bernhoff Hansen, enquanto no halterofilismo somou duas medalhas de bronze e no jogo da corda também não foi além do terceiro lugar na prova por equipas.

Podia ter sido melhor? Claro. Mas continua a ser histórico.

George Eyser. O tricampeão olímpico com perna de pau

Especial Jogos Olímpicos (St. Louis-1904)

George Eyser integrou equipa dos Estados Unidos

O desempenho nos Jogos Olímpicos de St. Louis em 1904 foi arrebatador. Conquistou três títulos, foi duas vezes segundo e uma vez terceiro em provas de ginástica e demonstrou que não há limites para o ser humano. O facto de ter uma perna de pau tornou-se uma nota de rodapé.

É preciso ter cara de pau para se achar que competir numa edição dos Jogos Olímpicos é uma tarefa simples. Pior ainda se o objetivo passar por ser uma das principais referências do evento. Para George Eyser, que chegou a St. Louis em 1904 com 34 anos, não havia impossíveis.

O palmarés de Eyser naquela que foi a terceira edição da era moderna é impressionante: foi campeão da prova de escalada de corda, no salto de cavalo e nas barras paralelas; terminou na segunda posição no cavalo com arções e no evento combinado; e, finalmente, foi terceiro classificado na barra fixa.

A combinação de medalhas – ninguém conquistou mais em 1904 – seria suficiente para catapultá-lo para a glória olímpica, mas houve vários fatores que não podem ser ignorados. Antes de mais, ganhou as seis medalhas no mesmo dia. Depois, competiu com uma prótese de madeira a substituir a perna esquerda, perdida anos antes ao ser atropelado por um comboio.

A história de Eyser começa na Alemanha a 31 de agosto de 1870 mas atravessou o Atlântico quando este ainda era adolescente. Nos arredores de St. Louis, entrou para um clube de ginástica e começou a dar nas vistas, e nem o acidente com o comboio o impediu de fazer dos Jogos Olímpicos «em casa» um objetivo fixo.

O feito de George Eysel foi histórico e continuou a sê-lo por mais de um centenário. Em 2008, em Pequim, os Jogos Olímpicos voltaram a ter uma atleta a competir com uma prótese no lugar da perna: a nadadora Natalie du Toit. Participando na prova de 10 quilómetros em águas abertas, a sul-africana não foi além do 16.º posto. Quatro anos depois chegou a vez do caso mais famoso: Oscar Pistorius. O também sul-africano competiu nos 400 metros e na estafeta dos 4x400 metros.

Alvin Kraenzlein. Um portento atlético com fair-play duvidoso

Especial Jogos Olímpicos (Paris-1900)

Alvin Kraenzlein foi o primeiro grande barreirista da história

Se Atenas-1896 teve o alemão Carl Schuhmann, Paris-1900 ficou com o norte-americano Alvin Kraenzlein. O atleta que também representava a Universidade da Pensilvânia foi para casa com quatro títulos olímpicos (60 metros, 110 metros barreiras, 200 metros barreiras e salto em comprimento) e com… um nariz esmurrado.

Chegou aos Jogos Olímpicos de Paris com 23 anos e era considerado como um dos maiores talentos do atletismo. Nascido no Minnesota, passou os últimos anos do século XIX a somar títulos universitários numa rivalidade bastante acesa com Myer Prinstein. Porém, se o seu rival só conseguia fazer valer os seus atributos nas provas de saltos, Alvin dava cartas nas corridas, sobretudo com obstáculos.

Há quem lhe chame o pai da técnica moderna de superar barreiras, por culpa da forma como instituiu o gesto de atravessar o obstáculo com a perna esticada, ganhando tempo precioso rumo à meta.

A aventura triunfal na capital francesa foi tudo menos simples. A primeira vitória chegou nos 110 metros barreiras, superando a concorrência do compatriota John McLean por apenas uma décima de segundo. O tempo estabelecido (15,4 segundos) representou um novo recorde mundial.

Nos 60 metros, sem obstáculos, Kraenzlein voltou a deliciar a plateia e a estabelecer um tempo verdadeiramente impressionante: sete segundos redondos. Uma vez mais, recorde mundial. Na terceira e última corrida, os 200 metros barreiras, a supremacia foi mais evidente do que nunca, cumprindo a distância em 25,4 segundos, com mais de meio segundo de vantagem sobre Norman Pritchard, que corria com a bandeira da Índia.

O momento mais conturbado do seu tetra olímpico foi no salto em comprimento. O seu maior rival, Myer Prinstein, estava impedido de participar na final de domingo por motivos religiosos e, numa primeira instância, Alvin terá aceitado não entrar em ação nesse dia. Os tempos eram outros e os ensaios da qualificação iam ser contabilizados na classificação final.

Porém, quando chegou o dia decisivo, Alvin Kraenzlein roeu a corda e foi para a pista bater a marca que o adversário tinha feito na qualificação por apenas um centímetro. Os quatro títulos olímpicos eram seus… tal como era seu o destino do murro de um irado Myer Prinstein.

Os Jogos Olímpicos de Paris foram o último grande evento da carreira de Alvin Kraenzlein.

Um herói desconhecido no primeiro episódio de body shaming olímpico

Especial Jogos Olímpicos (Paris-1900)

O jovem desconhecido entre campeões

François Brandt e Roelof Klein chegaram à conclusão que o timoneiro Hermanus Brockmann era demasiado pesado e estava a impedir o objetivo de serem campeões olímpicos no remo. Por isso, no dia da final, descartaram o colega de equipa e foram recrutar uma criança nas margens do Sena. O jovem rapaz, de nome desconhecido, é o campeão olímpico mais novo da história.

Ouve-se muitas vezes que «isto só acontece mesmo em Portugal». Na maior parte das vezes é falso. Há quem diga o mesmo no Brasil, em Espanha, em Inglaterra… Por todo o mundo, há quem ache que o nível do ridículo nacionalista é superior ao dos vizinhos.

Por outro lado, há coisas que podemos dizer, com alguma propriedade, que só podiam mesmo ter acontecido nas edições inaugurais dos Jogos Olímpicos. Em Paris, em 1900, as provas de remo tiveram lugar no Sena e a competição era feroz.

Os holandeses do Minerva Amesterdam, François Brandt, Roelof Klein e Hermanus Brockmann, constituíam uma das sete equipas que sonhavam com o título na prova de duplas com timoneiro mas, apesar de terem alcançado uma vaga na final, tinham sido batidos por nove segundos. E teriam perdido quase meio minuto para o vencedor da outra meia-final.

O problema foi «facilmente» identificado: o timoneiro Hermanus Brockmann era demasiado pesado (60 quilos). Brandt e Klein perceberam que havia um elo mais fraco – que na verdade era demasiado forte – e foram encontrar uma solução nas margens do Sena.

A iniciativa dos holandeses não foi inédita. Houve mais equipas a procurarem exatamente o mesmo, mas foram eles que ficaram na história porque… ganharam. O pequeno rapaz de 33 quilos – pela fotografia estima-se que poderia ter entre sete e doze anos – acabou por ser instrumental no triunfo, uma vez que o Minerva Amsterdam cruzou a meta com apenas duas décimas de vantagem sobre uns adversários franceses.

O jovem francês nunca foi identificado, apesar de haver bibliografia duvidosa que garanta que o rapaz se chamava Marcel Depaille. Para a história, além do feito invulgar, ficou a fotografia tirada no meio de Brandt e Klein. Quanto a Brockmann, apesar de não ter disputado a corrida final, o desfecho foi positivo. O Comité Olímpico Internacional continua a reconhecê-lo como campeão.

Myer Prinstein. A potência dos saltos que deu nas vistas no… boxe

Especial Jogos Olímpicos (Paris-1900)

Myer Prinstein

Estava impedido pela sua universidade de competir ao domingo por motivos religiosos e pensou que tinha chegado a acordo com os principais adversários na véspera da final do salto em comprimento. Alvin Kraenzlein furou o combinado, roubou-lhe o título por um centímetro e acabou com um bónus: um murro no nariz.

Estudava Direito na Universidade de Syracuse, em Nova Iorque, e era uma das maiores potências do atletismo nos Estados Unidos. O salto em comprimento e o triplo salto eram as suas especialidades mas, como capitão da equipa universitária, também competia no salto com vara, salto em altura, e nos 60, 100 e 400 metros.

O desporto universitário nos Estados Unidos estava em franco desenvolvimento e as rivalidades surgiam de forma natural. Uma delas – talvez a mais famosa daquele período – opunha precisamente Myer Prinstein a Alvin Kraenzlein, da Universidade da Pensilvânia.

Quando os Jogos Olímpicos de Paris chegaram, os dois foram eleitos, sem grande surpresa, para representar os Estados Unidos. Não havia dúvidas de que os americanos eram os maiores candidatos a todos os títulos no atletismo, quatro anos depois de terem perdido apenas nos 800 metros, nos 1500 metros e na maratona.

Havia um problema, contudo, que não estavam à espera: uma final marcada para domingo. Myer Prinstein estava em Paris com o apoio da sua universidade, que proibia claramente que os seus atletas competissem nesse dia.

Os Jogos Olímpicos viviam um período com uma organização muito diferente. Os resultados da qualificação contavam para a final, portanto Kraenzlein decidiu solidarizar-se com o seu grande rival e acordou que não iria participar também.

De acordo com os resultados da qualificação, Prinstein seria campeão olímpico com 7,17 metros, seguido de Alvin Kraenzlein com 6,93 metros O terceiro lugar da qualificação, conseguido pelo francês Albert Delannoy, estava longe de constituir uma ameaça (6,75 metros).

O problema foi que Kraenzlein roeu a corda e participou no evento de domingo. Saltou seis vezes para tentar melhorar a marca de Prinstein e só o conseguiu por uma vez. Pela diferença de um único centímetro (7,18 metros), Kraenzlein tornou-se campeão olímpico e despertou a fúria adormecida do seu rival.

Quando descobriu o que tinha acontecido, Prinstein foi pedir explicações ao rival e não resistiu a desferir um soco no nariz de Kraenzlein, sendo depois impedido pelos restantes elementos da comitiva norte-americana de continuar a descarregar a sua fúria.

No dia seguinte, porém, em prova, Prinstein fez questão de tomar para si o que achava que merecia: um título. Aconteceu na prova de triplo salto e estabeleceu um novo recorde olímpico, com uma marca de 14,47 metros que foi mais do que suficiente para bater James Connolly, o primeiro campeão dos Jogos Olímpicos da era moderna, por meio metro.

As tentativas de forçar uma desforra com Kraenzlein foram infrutíferas, uma vez que o seu rival decidiu terminar a carreira após Paris. Quatro anos depois, em St. Louis, deixou de haver impedimentos e garantiu a dobradinha no salto em comprimento e no triplo salto.

Hélène de Pourtalès. Quando uma família real fez história olímpica

Especial Jogos Olímpicos (Paris-1900)

Hélène de Pourtalès fez história na água

Nasceu nos Estados Unidos e tornou-se condessa na Suíça depois de casar com o conde Hermann Alexander de Pourtalès. Juntos, fizeram parte da tripulação que conquistou um título olímpico e um segundo lugar na vela em Paris-1900. Hélène entrou na história como a primeira mulher a ganhar uma medalha.

A primeira edição dos Jogos Olímpicos da era moderna esteve fechada a mulheres mas, quatro anos depois, em Paris, a situação mudou. Os caprichos da organização – num evento que funcionou como satélite da Exposição Universal de Paris e decorreu ao longo de mais de cinco meses – permitiram que a história fosse escrita… por uma família real.

Helen Barbey nasceu em Nova Iorque em 1868 mas os Estados Unidos transformaram-se rapidamente numa parte do seu passado. De uma família abastada, com inúmeras ligações reais, Helen casou-se com Hermann Alexander de Pourtalès em 1891, numa cerimónia que contou com a presença do presidente dos Estados Unidos da América, William Howard Taft.

A paixão de Hermann pelos desportos náuticos alastrou-se a toda a família e foi sem surpresa que os Pourtalès apareceram em peso nos Jogos Olímpicos de Paris. Ao comando de uma embarcação chamada Lérine, além de Hermann, estava também um sobrinho seu, Bernard.

Os três subiram duas vezes ao pódio – um primeiro e um segundo lugares – mas só Hélène de Pourtalès, já com o seu novo nome de casada, escreveu história. Apesar de ter sido numa competição coletiva, tornou-se a primeira mulher a conquistar um título olímpico.

Mais tarde, outra mulher fez história na competição mas como primeira vencedora individual. No ténis, a britânica Charlotte Cooper, venceu a prova feminina e a prova de pares mistos. Na altura, porém, foi visto como um feito secundário, uma vez que já tinha conquistado Wimbledon em três ocasiões (1895, 1896 e 1898). E viria a fazê-lo novamente em 1901 e em 1908.

Carlo Airoldi. Andar de Itália até à Grécia para ficar de fora da maratona

Especial Jogos Olímpicos (Atenas-1896)

Carlo Airoldi

Pode a melhor história dos Jogos Olímpicos de Atenas em 1896 ser a de um atleta que não chegou a participar? Esta é a vida de Carlo Airoldi, um italiano que foi a andar de Milão até Atenas, percorrendo uma média de 70 quilómetros durante 28 dias, só para ouvir os organizadores dizerem que não podia participar na maratona.

A história de Carlo Airoldi é a história de um homem que morreu, figurativamente, mas que podia muito bem ter sido literalmente, na praia. É a história de alguém que queria competir nos Jogos Olímpicos em Atenas mesmo sem ter dinheiro para isso. É a história de um atleta que deu tudo o que tinha – e muito do que não tinha – apenas para ouvir o presidente do Comité Olímpico, o príncipe Constantino, negar-lhe a participação.

Carlo Airoldi precisava de um incentivo para percorrer a distância entre Milão e Atenas a pé. Sabia que não tinha dinheiro para o transporte mas talvez pudesse arranjar um mecenas que o ajudasse a sobreviver durante os dias de uma viagem que prometia ser épica. Foi nesta perspetiva que entrou em contacto com o diretor da publicação «La Bicicletta».

A primeira reação foi de desdém. Sim, era apenas um homem que queria participar nos Jogos Olímpicos. Porém, a conversa mudou rapidamente quando Airoldi esclareceu que pretendia fazer o caminho até Atenas a pé, passando por Áustria, Hungria e Turquia (é preciso recordar que o mapa europeu em 1896 era radicalmente diferente).

Os dois chegaram a um acordo. Em troca de algum apoio logístico, Airoldi faria alguns artigos por correspondência para a revista. Parecia simples… mas não era. A empreitada do italiano exigia que percorresse uma média de 70 quilómetros por dia durante um mês. E ia apanhar todo o tipo de obstáculos: tempestades, chuva, criminosos…

Carlo Airoldi sobreviveu a tentativas de assalto e a todo o tipo de intempéries mas não resistiu aos gritos de cautela sobre a possibilidade de atravessar a Albânia. «É uma zona de bandidos», diziam-lhe, desde o consulado até ao pequeno camponês, acrescentando que nunca na vida arriscariam atravessar a fronteira.

O italiano cedeu e arranjou uma forma de fazer essa distância por barco, fugindo pela primeira e única vez ao repto de fazer todo o percurso a pé. Quando chegou a Atenas, a missão tinha sido cumprida. Estava feliz, aliviado, confiante. Mas o interrogatório feito pelo presidente do Comité Olímpico, com um tradutor italiano, rapidamente lhe tirou o sorriso dos lábios.

A fama de Airoldi precedia-o e todos queriam saber mais sobre a vez em que tinha vencido a mítica corrida entre Milão e Barcelona. Num duelo até à exaustão com o francês Louis Ortègue, o italiano viu o adversário sucumbir nos últimos metros. Parou, carregou-o nos braços e cruzou a meta, ressalvando que ele era o verdadeiro vencedor e que Ortègue seria o segundo classificado.

O triunfo valeu um prémio de duas mil pesetas, que dividiu com Ortègue, e aproveitou para regressar de comboio a casa. Toda a história seria um motivo de orgulho mas para o Comité Olímpico foi razão para… barrar a participação. O prémio monetário era sinal de que Airoldi seria considerado um atleta profissional e, como tal, inepto para participar nos Jogos Olímpicos, reservados a amadores.

O consulado italiano apressou-se a tentar desbloquear a situação mas a organização foi inflexível. Airoldi foi obrigado a ver Spiridon Louis conquistar a prova da maratona sem ter uma palavra a dizer. «Estou ansioso para sair da Grécia, tornou-se insuportável ver os sorrisos irónicos dos gregos. Depois de tudo, sinto-me apenas consolado por ter visto, a pé, a Áustria, a Hungria, a Croácia, a Herzegovina, a Dalmácia e a Grécia, a linda Grécia que deixa uma memória indelével em mim», escreveu para a revista.

Nos meses seguintes, Airoldi estabeleceu duas metas: desafiar Spiridon Louis para uma corrida e bater a marca estabelecida pelo grego de duas horas, 58 minutos e 50 segundos. Falhou em ambas. Carlo Airoldi não participou nos Jogos Olímpicos e terminou a carreira na pobreza, sem sinal de glória. Mas continua a ser uma das melhores histórias da primeira edição da era moderna.

Spiridon Louis. O homem que salvou o orgulho grego

Especial Jogos Olímpicos (Atenas-1896)

Spiridon Louis

A participação helénica no atletismo nos Jogos Olímpicos de 1896 foi uma desilusão para os anfitriões e nada seria pior do que nova derrota na prova da maratona. Spiridon Louis, um aguadeiro de profissão, entrou em ação e deixou mais de 100 mil pessoas ao rubro ao cumprir a distância em menos de três horas.

A primeira edição dos Jogos Olímpicos da era moderna contou com 311 atletas de um total de 14 países. O evento estava apenas a arrancar e não surpreendeu ninguém que a Grécia dominasse a lista de presenças com um total de 230 homens (não havia mulheres).

A esmagadora maioria nas presenças deveria apontar para uma superioridade a nível de medalhas, mas a Grécia foi falhando onde mais se esperava dela. Os Estados Unidos demonstraram desde logo ser a principal potência olímpica, acabando com onze títulos num total de 20 medalhas. A Grécia conquistou 46 mas não foi além de dez títulos. Um deles, porém, foi o mais saboroso.

A participação da Grécia no atletismo foi uma autêntica desilusão. Os norte-americanos conquistaram nove das doze provas e o australiano Edwin Flack fez a dobradinha com triunfos nos 800 e 1500 metros. O segundo lugar no lançamento do disco – uma das provas com maior tradição helénica – foi um duro golpe e dirigiu todas as atenções para a inédita prova da maratona. As esperanças de um título apontavam todas para aí.

A prova tinha Grécia escrita por todo o lado. Idealizada pelo francês Michel Bréal, a competição foi idealizada para render homenagem à história do país, nomeadamente quando o soldado Fidípedes percorreu a distância entre Maratona e Atenas para informar os atenienses que a batalha contra os persas havia sido ganha.

O fim trágico – com a morte por exaustão – foi ignorada. Os atletas teriam uma preparação diferente e o objetivo era homenagear os esforços do passado… de 490 antes de Cristo. Houve 17 concorrentes à partida: 13 eram gregos. Entre os quatro estrangeiros havia os três primeiros classificados dos 1500 metros – com destaque para Edwin Flack e Albin Lermusiaux – e um húngaro chamado Gyula Kellner, que havia corrido a distância de 40 quilómetros numa prova no seu país.

No estádio, o rei Jorge e mais de 100 mil espetadores foram acompanhando o desenrolar dos acontecimentos com muita ansiedade e alguma desilusão. Afinal, as notícias que iam chegando – e que se espalhavam rapidamente – contavam que Flack e Lermusiaux estavam na frente.

Spiridon Louis, habituado a correr grandes distâncias, fez uma prova tranquila, de trás para a frente. Estava tão calmo que, conta a lenda, chegou inclusivamente a parar para receber metade de uma laranja e um copo de conhaque do sogro. Precisava de recarregar baterias e estava mais do que confiante de que iria terminar no primeiro lugar.

Tinha razão. Um a um, os estrangeiros da frente sucumbiram ao desgaste, rendidos ao facto de que correr 40 quilómetros não é o mesmo que ganhar uma prova de 1500 metros. Quando cruzou a meta, em duas horas, 58 minutos e 50 segundos, Spiridon Louis tornou-se imediatamente um herói nacional.

Podia pensar-se que o resto da sua vida seria vivida à sombra dos seus feitos, mas isso esteve longe de acontecer. Trinta anos depois, por exemplo, chegou mesmo a ser preso por falsificar documentos militares. Em 1936, quatro anos antes da sua morte, foi convidado por Adolf Hitler para marcar presença nos Jogos Olímpicos de Berlim. Louis foi o porta-estandarte da comitiva grega e ofereceu um ramo de oliveira ao ditador nazi.

Irmãos Paine. Quando ter pena abre caminho para a concorrência

Especial Jogos Olímpicos (Atenas-1896)

Sumner Paine

Filhos de um general da Guerra Civil Americana, chegaram a Atenas para conquistar tudo o que havia para ganhar. Foram desqualificados da primeira prova por utilizar armas com um calibre proibido, venceram – esmagadoramente – a segunda prova e fizeram um acordo para que só um participasse no terceiro e derradeiro evento. Razão? Não humilhar os anfitriões gregos.

John Paine tinha 25 anos quando cruzou o Atlântico desde Boston até chegar a Paris. Os Jogos Olímpicos iam ser organizados em Atenas mas o atirador tinha outro objetivo em mente: convencer o irmão mais velho a ir com ele para a Grécia. A história é contada no diário de Sumner Paine: «Lembro-me de chegar a casa no último dia de março e ter encontrado o meu irmão no escritório. Nem sequer sabia que ele estava deste lado do Atlântico».

A conversa foi curta. John queria saber quando partia o próximo comboio para Atenas e apressar o irmão Sumner – dois anos mais velho – a fazer as malas e seguir com ele. Quando chegaram à Grécia, na véspera das primeiras provas de tiro, a vitória era o único objetivo.

A estreia foi amarga. John e Sumner eram melhores mas utilizaram uma arma com o calibre errado, proibido para aquele evento. Depois, fizeram o ajuste necessário e conquistaram os dois primeiros lugares no evento de 25 metros, sem qualquer tipo de concorrência.

Os dois tinham feito um pacto: quem quer que vencesse essa prova não participaria no terceiro evento, o de 30 metros. Foi John, então já campeão olímpico, quem ficou de fora, por uma simples razão – não queria humilhar os anfitriões gregos.

Mesmo sem John, a família Paine não teve dificuldades em conquistar mais um título. Sumner venceu o evento com praticamente 160 pontos de vantagem sobre o segundo classificado (442 vs. 285), que foi um dinamarquês. Uma vez mais, os gregos não foram além da terceira posição. Curiosamente, os únicos dois eventos da modalidade em que os anfitriões não venceram foram precisamente aqueles em que os Paine foram campeões.

Com os Jogos Olímpicos para trás, os irmãos retomaram as suas vidas com… relativa normalidade. Em 1901, Sumner chegou a ser detido pela polícia. O campeão olímpico encontrou o professor de música da filha na cama com a mulher e decidiu disparar quatro tiros.

Sumner foi libertado depois de a polícia ter percebido quem era e de aceitar que os tiros tinham sido falhados de propósito.

Carl Schuhmann. O homem que era pau para toda a… modalidade

Especial Jogos Olímpicos (Atenas-1896)

Carl Schuhmann

Conquistou quatro títulos olímpicos num total de duas modalidades diferentes (ginástica e luta greco-romana) mas ainda participou no halterofilismo e no atletismo. O atleta alemão foi, com razão, uma das maiores sensações dos Jogos Olímpicos de Atenas em 1896.

Schumann, Robert. Nascido a 8 de junho de 1810, é ainda hoje reconhecido como um dos melhores compositores na história da música. Morreu em 1856, com apenas 46 anos, mas deixou para trás um conjunto de obras imortais que ajudam a transportar a Alemanha para a elite da composição musical.

Schuhmann, Carl. Nasceu a 12 de maio de 1869 e nunca foi de grandes melodias. Até podia apreciar a música do seu quasi-homónimo mas não há referências a essa ligação. Carl tinha um talento diferente. No início da nova era olímpica, o alemão de 26 anos deixou uma marca indelével na história da competição.

O currículo fala por ele: foi campeão olímpico por equipas nas barras paralelas e na barra fixa e, individualmente, no salto de cavalo. Mas isto foi só na ginástica artística. Na luta greco-romana juntou mais uma medalha de prata (ainda não havia ouro a ser atribuído nesta altura).

O simples facto de ganhar quatro medalhas já seria suficiente para fazer dele um nome incontornável na primeira edição da era moderna. Mas Schuhmann, como já se viu, foi mais longe e fê-lo num conjunto de duas modalidades. E só não foi ainda mais além porque… não conseguiu. Mas bem tentou.

Abrindo caminho para um feito que só foi repetido mais duas vezes na história dos Jogos Olímpicos, Schuhmann participou num total de quatro modalidades olímpicas. No halterofilismo esteve muito próximo de conquistar uma medalha mas não foi além do quarto lugar. Finalmente, no atletismo, participou no lançamento do peso, no salto em comprimento e no triplo salto. O melhor que conseguiu foi um quinto lugar na última especialidade.

O rei da Grécia, Jorge I, disse-lhe, com propriedade, que Carl era então «o homem mais popular do país», apesar de essa distinção ter de ser obrigatoriamente partilhada com Spiridon Louis, o herói local que conquistou a maratona, a prova mais simbólica e desejada pela multidão.

Alfred Hajos. O campeão de natação que viu o pai morrer afogado

Especial Jogos Olímpicos (Atenas-1896)

Alfred Hajos

A história do primeiro campeão da natação é muito mais do que isso. O húngaro, que também jogou pela seleção de futebol, tornou-se a segunda figura da história a acumular uma medalha olímpica desportiva com uma medalha olímpica… artística.

Nasceu Arnold Guttmann e ficou preso a uma maldição: tinha apenas 13 anos quando o pai morreu afogado no Danúbio. Foi nesse momento que decidiu dar uma volta à sua vida, aprender a nadar, e passar a ser conhecido por Alfred Hajos.

Quando os Jogos Olímpicos de Atenas tiveram lugar, Hajos era um estudante de arquitetura com apenas 18 anos. Tinha aprendido a nadar há apenas cinco anos mas sentia-se pronto para competir com os melhores nadadores do mundo, e lutar por títulos olímpicos.

A natação em 1896 não tem comparação possível com a que conhecemos hoje. Hoje há piscinas construídas ao pormenor, com a temperatura da água controlada e inúmeras preocupações com a diminuição do atrito, que vão do próprio fato utilizado à ausência de pelos. Na altura, a natação era, à falta de melhor palavra, arcaica. As provas disputaram-se em mar aberto e pequenas embarcações serviram de blocos de partida aos atletas.

A temperatura – do ar e da água – não ajudou e as ondas tornaram as provas ainda mais complicadas, mas Alfred Hajos fez história. Não só foi o primeiro campeão da modalidade, como conseguiu juntar o título dos 1200 metros livres ao dos 100 metros livres.

O bicampeão não voltou a fazer história no desporto olímpico. Depois de voltar à Hungria teve de se concentrar nos estudos – que tinha deixado a meio – mas não evitou uma nova experiência atlética, jogando futebol no início do novo século, e assumindo o comando técnico da seleção em 1906. Pelo meio, teve também uma curta carreira como árbitro.

Os caminhos de Hajos voltaram a cruzar-se com o olimpismo em Paris, em 1924. Aos 46 anos, estava demasiado velho para fazer a diferença na natação mas fez dupla com outro antigo atleta olímpico – Dezso Lauber – nas competições de arte. Na componente de arquitetura, Hajos e Lauber desenharam um estádio e conquistaram a medalha de prata. O talento arquitetónico de Hajos pode ser comprovado ainda hoje em dia. Um dos seus edifícios foi anfitrião dos Campeonatos Europeus de Natação em 2010.

Hajos tornou-se a segunda figura da história a acumular uma medalha desportiva com uma medalha artística em Jogos Olímpicos. O primeiro tinha sido Walter W. Winans. O feito do norte-americano ganha ainda mais protagonismo por ter conseguido acumular distinções olímpicas desportivas e artísticas na mesma edição – Estocolmo-1912. Foi segundo classificado no tiro e campeão olímpico numa prova de escultura. Antes, em Londres-1908, já tinha conquistado um título no tiro.

A maior diferença de Hajos para Winans? A natação é vista como uma modalidade olímpica premium, ao contrário do tiro.

James Connolly. O primeiro campeão olímpico da era moderna

Especial Jogos Olímpicos (Atenas-1896)

James Connolly

Estudava em Harvard mas deixou o ano a meio para cumprir o sonho de participar na primeira edição dos Jogos Olímpicos da era moderna. Passou mais de duas semanas dentro de um barco e esteve quase a ficar em terra. Na Grécia, fez história ao vencer a prova de triplo salto.

O primeiro campeão olímpico da era moderna veio de… Boston. De origem irlandesa, como o próprio nome indica, cresceu no seio de uma família pobre e habituou-se a passar os dias na rua a brincar com os amigos. Nascido em 1868, quando Pierre de Coubertin tinha apenas cinco anos, a forma como passou o início da vida acabou por ser fundamental para escrever uma página inesquecível em Atenas.

Sempre muito ligado ao desporto, Connolly não quis desperdiçar a oportunidade de marcar presença na Grécia. Na altura era estudante de Harvard e pediu uma pausa sabática à instituição para poder viajar até à Europa. A petição foi prontamente recusada. O norte-americano não estava disposto a ficar pelo caminho e seguiu pela alternativa, solicitando uma dispensa com honra da universidade. O pedido foi aprovado a 19 de março de 1896.

A viagem até à Europa demorou 16 dias. Instalado num navio alemão, desembarcou em Nápoles, cidade italiana de onde partiria rumo a Atenas. O sonho de participar nos Jogos Olímpicos quase foi destruído por um assalto no porto italiano, mas Connolly evidenciou uma vez mais a sua capacidade atlética para garantir que não ficava sem bilhete.

Finalmente, a 6 de abril de 1896, no dia de abertura dos Jogos Olímpicos, James Connolly provou que havia uma razão para estar tão determinado em competir em Atenas. Na primeira final da jornada, no triplo salto, o atleta saltou 13,71 metros e conquistou o título e… medalha de prata (o ouro só seria instituído mais tarde).

O domínio de Connolly foi indiscutível. O segundo classificado, o francês Alexandre Tuffère, ficou a mais de um metro (12,70). A veia desportiva do primeiro campeão de sempre continuou a demonstrar-se nos dias seguintes, abrindo espaço para o segundo lugar no salto em altura e para a terceira posição no salto em comprimento.

James Connolly tornou-se rapidamente uma das figuras de Atenas-1896 e prolongou o seu sucesso para as duas edições seguintes: em Paris-1900 voltou a ganhar uma medalha no triplo salto (segundo classificado); em St. Louis-1904 esteve presente como… jornalista.

Foi a escrever que o atleta viveu o resto da sua vida, ora como jornalista, ora como correspondente de guerra, ora como escritor de pequenos contos. Connolly não voltou a estudar em Harvard e em 1949 chegou mesmo a recusar um doutoramento honoris causa.

Depois de morrer em 1957, teve uma última ligação à história dos Jogos Olímpicos em 1972. Foi numa rua batizada em sua homenagem que a comitiva israelita foi levada como refém no evento que ficou conhecido como o Massacre de Munique.