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É Desporto

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RDA. A inevitável tragédia de deixar fugir a glória

Holanda foi uma laranja muito amarga em 1979

Sucesso nos Jogos Olímpicos nunca foi verdadeiramente replicado nas maiores provas de seleções. Presença no Mundial em 1974, na vizinha Alemanha, foi um oásis num deserto povoado por desilusões marcadas a ferro pelo «quase». Nenhuma foi mais dolorosa do que o fracasso no apuramento para o Euro-1980.

Os Jogos Olímpicos foram sempre a praia dos alemães de leste. Qualquer pessoa com uma amostra significativa de cultura desportiva conhecerá esta fama, mesmo que não vá ao ponto de saber que estes resultados também chegavam no futebol olímpico. Aí, entre 1964 e 1980, a RDA conquistou quatro medalhas: ouro em Montreal-1976, prata em Moscovo-1980 e bronze em Tóquio-1964 e Munique-1972.

Esta aparente sensação de hegemonia era radicalmente diferente quando o que estava em causa eram participações nas fases finais do Europeu ou do Mundial. Aí, à semelhança de tantos outros episódios ao nível de clubes, havia sempre algo a correr mal, mesmo quando parecia que o sucesso estava alcançado praticamente ao cortar a meta.

A presença da RDA no Mundial em 1974, organizado pela RFA, é uma das memórias mais fortes desta geopolítica desportiva. Sim, a RFA foi até ao fim e conquistou o título pela segunda vez, mas a RDA regressou a casa com o orgulho intacto ao ter conseguido vencer a sua maior rival durante um jogo da fase de grupos.

Este pode ter sido o jogo mais importante na história da seleção da Alemanha de Leste. Mas outros poderiam ter acontecido não fosse a inclinação mórbida para a desgraça. Os fracassos não tiveram todos o mesmo impacto.

Comecemos pelas qualificações para o Mundial. Em 1969, a RDA precisava de vencer em Nápoles na última jornada: perdeu 0-3. Em 1977 e em 1985, perdeu os apuramentos por um ponto. Em 1989, num jogo disputado seis dias depois da queda do Muro de Berlim, um empate chegaria na Áustria mas os jogadores estavam com a cabeça no futuro e sofreram nova derrota pesada (0-3).

Nas qualificações para o Europeu, talvez por culpa de um formato mais apertado, as desilusões em cima do «apito final» não foram tão frequentes. Mas a maior foi, sem dúvida, a que aconteceu na noite de 21 de novembro de 1979.

A RDA estava no grupo 4 com a Holanda, a Polónia, a Suíça e a Islândia. Nos primeiros sete jogos, somara cinco triunfos, um empate e uma derrota, e seguia com onze pontos. Naquela noite de novembro, em Leipzig, perante mais de 90 mil espetadores e com um árbitro português (António Garrido), a celebração estava à distância de uma vitória.

A Polónia liderava com 12 pontos mas já tinha feito os oito jogos, enquanto a Holanda, que havia derrotado os alemães de leste por 3-0 em Roterdão um ano antes, também tinha onze pontos. Feitas as contas: só a vitória interessava. E não era assim tão impossível.

O que se passou naqueles 90 minutos só não entra para a história do maior colapso futebolístico de uma equipa da RDA porque o Dínamo Dresden conseguiu fazer ainda pior na década de 80. Mas esteve lá perto.

Festa alemã não estava feita para durar

Tudo parecia correr bem à RDA. Quando Schnupasse marcou o primeiro golo aos 17 minutos, a multidão festejou de forma exuberante. Mais tarde, aos 33 minutos, António Garrido assinalou uma grande penalidade que Joachim Streich, máximo goleador na história da RDA (seleção e campeonato nacional), não desperdiçou.

António Garrido viu o 2-0 de perto

Ali, de repente, o horizonte era promissor e nada fazia antever que a Holanda ia conseguir a reviravolta. Quando Frans Thijssen reduziu perto do intervalo, os alemães de leste, habituados a ver a glória fugir por entre os dedos, começaram a fazer contas à vida. E, quando Kees Kist empatou no início do segundo tempo, aproveitando uma paragem cerebral de dois defesas que ficaram imóveis depois de um cruzamento, tornou-se impossível fugir ao destino.

Sim, a RDA continuava a precisar de apenas um golo para celebrar a qualificação mas os adeptos já tinham passado demasiadas vezes por aquele drama. Sabiam que, chegada a altura, no momento decisivo, não valia a pena sofrer: a equipa ia vacilar. E vacilou ainda mais, fruto do 3-2 do holandês René van de Kerkhof aos 70 minutos. A equipa já não tinha cabeça, jogava só com o coração e os erros iam aparecendo uns atrás dos outros.

Naquela noite fria de Leipzig, a segunda maior cidade da RDA, praticamente cem mil pessoas viram fugir a melhor oportunidade da sua história para marcar presença numa fase final de um Europeu. Nunca o cenário tinha parecido tão favorável. E nunca voltou a sê-lo depois disso.

Estavam a jogar em casa, a ganhar 2-0, perante mais de 90 mil espetadores e com apenas 50 minutos para jogar. E perderam. Era inevitável.

Dínamo Berlim. A construção de uma hegemonia forjada

Dínamo Berlim venceu todos os campeonatos da RDA entre 1979 e 1988

Foi campeão durante dez anos consecutivos, entre 1979 e 1988, mas nunca conseguiu conquistar verdadeira admiração na República Democrática da Alemanha. Visto como o clube do regime, somava decisões de arbitragem simpáticas a nível interno e desilusões desportivas nas competições internacionais. O fim da RDA foi também o seu.

«Decerto que compreenderão que a capital do país precisa de uma equipa campeã.» A frase atribuída a Erich Mielke, líder da Stasi (a temível polícia de Estado da RDA), nunca foi confirmada mas ajuda a explicar muita coisa. Naquela noite de 2 de dezembro de 1978, o Dínamo Berlim tinha empatado em Dresden com o Dínamo local (1-1) num jogo recheado de polémica.

Os protestos subiram de tom, houve 35 detenções entre os adeptos e o autocarro da equipa da capital foi brindado com uma chuva de bolas de neve à saída do estádio. Foi também por esta altura que Mielke terá descido ao balneário do Dínamo Dresden – tricampeão em título – para justificar o que se estava a passar. E, mais importante do que isso, o que era inevitável.

O Dínamo Berlim continuava sem títulos mas estava numa caminhada triunfal rumo à conquista da Oberliga em 1978/1979. O golo sofrido em Dresden foi o primeiro em onze jornadas e até lá tinha dez vitórias consecutivas. Nada lhe poderia fazer frente nesta passada esmagadora rumo a uma hegemonia forjada.

A frase de Mielke foi premonitória. O Dínamo Berlim terminou o campeonato com 46 pontos (21 vitórias, quatro empates e uma derrota) e conquistou o primeiro de dez títulos consecutivos. A concorrência foi relegada para segundo plano. Época após época, só dava Dínamo. A profecia do líder da Stasi tinha sido cumprida mas continuava a faltar algo: a confirmação do poder na Europa do futebol.

Durante esta impressionante série, o clube só chegou aos quartos de final de competições europeias duas vezes, e somou fracassos. É certo que pode recordar derrotas perante futuros campeões, como Nottingham Forest, Aston Villa e Hamburgo, mas também caiu aos pés de Austria Viena (2), Banik Ostrava e Brondby.

No meio de tantas eliminações precoces, a maior humilhação foi mesmo em 1988/1989 contra o Werder Bremen. Na primeira mão, em casa, Berlim engalanou-se para a festa. A Stasi montou o habitual circuito de vigilância para garantir que nada falhava, até porque o presidente de Berlim Ocidental, Willy Brandt, ia estar no estádio.

O triunfo por 3-0 foi um verdadeiro tónico para a RDA. Mas, à semelhança de tantas outras vezes, a equipa desmoronou-se na segunda mão, acabando de rastos com cinco golos sem resposta. A discussão era antiga: sim, o Dínamo Berlim tinha capacidade para conquistar a Oberliga mesmo jogando apenas a 80% das suas forças, mas os 20% extra faziam muita diferença no estrangeiro.

Erick Mielke felicita jogares do Dínamo

Esta eterna dicotomia entre internacionalismo (mostrar com orgulho o talento da RDA) versus isolacionismo (esmagar a competitividade interna ao promover uma equipa da capital) foi motivo de muita discussão. Os adversários – clubes e adeptos – indignavam-se cada vez com mais determinação e a pressão tornou-se tão grande que a federação foi forçada a agir, chegando a afastar alguns árbitros.

Apesar de nunca terem sido descobertas provas de que a Stasi controlava o campeonato (e os árbitros), a verdade é que pairava uma ideia de necessidade de agradar. Ou seja, os árbitros não precisavam de ser pressionadas para ajudar, faziam-no quase que inconscientemente, talvez temendo represálias.

A sensação de hegemonia forjada trabalhou sempre contra o Dínamo Berlim. A equipa nunca foi verdadeiramente popular e as médias de espetadores ultrapassavam, por pouco, as 11 mil pessoas. Quando a RDA se aproximou do seu declínio, também o Dínamo foi ultrapassado pela concorrência.

Na última Oberliga, já depois de ter passado a ser conhecido por FC Berlim, numa tentativa de criar alguma distância com o passado, não foi além do 11.º lugar, que significava um recomeço no terceiro escalão da Alemanha unificada. Nessa temporada, a média de espetadores foi de 781. No primeiro jogo da temporada seguinte, apareceram apenas 76 pessoas.

Os últimos resquícios do Dínamo Berlim estavam sem brilho. Os dez títulos nunca foram verdadeiramente reconhecidos e a ausência de resultados europeus dignos de nota não ajudou. Para muitos, as maiores memórias são mesmo de um clube que se tornou um antro de adeptos hooligans que semeavam o pânico por onde passavam.

Hans-Jürgen Kreische. O herói que Dresden não conseguiu controlar

Hans-Jürgen Kreische

Um perfil realizado sobre a estrela do Dínamo Dresden durante a década de 70 poderia facilmente compará-lo a figuras do desporto como James Hunt ou George Best. O talento inesgotável de Kreische corria na família e foi suficiente para acumular golos e títulos na RDA, mas a sua vida mundana tornou-o demasiado problemático.

Hans-Jürgen nasceu a 19 de julho de 1947, três anos antes de o pai, Hans Kreische, ter feito parte de um dos primeiros momentos de tensão no futebol da República Democrática da Alemanha. Futebolista do Friedrichstadt de Dresden, Hans (pai) lutou até ao fim pelo título de 1950 com o Horch Zwickau. O segundo lugar foi um mal menor para o clube, que acabou dissolvido depois de inúmeros dos seus jogadores terem ido para clubes da República Federal da Alemanha.

Hans foi um deles mas não aguentou mais do que quatro anos. Com saudades de casa, decidiu regressar e devolveu o pequeno Hans-Jürgen à cidade que o tinha visto nascer e que acabaria por ver crescer enquanto um dos melhores jogadores da história da Oberliga.

O cartão de visita do segundo Kreische intimidava. Com uma técnica individual apuradíssima, era visto como um jogador impossível de desarmar. Velocíssimo, tinha um faro pelo golo muito apurado, apesar de jogar mais junto ao flanco. Em 1965, quando marcou o golo que ofereceu o título europeu de juniores à RDA (o primeiro grande troféu futebolístico do país), deixou de haver dúvidas sobre o impacto que teria.

O Dínamo Dresden tornou-se uma potência durante a década de 70 muito por culpa de Kreische. Durante esse período, venceu cinco campeonatos, duas Taças da RDA, quatro títulos de melhor marcador e um de melhor jogador da Oberliga. Pelo meio, venceu uma medalha de bronze nos Jogos Olímpicos em 1972 e participou no Mundial-1974.

Kreische acumulou troféus individuais e coletivos

Hans-Jürgen tinha tudo para ser um verdadeiro herói, uma lenda que servisse de bandeira aos ideais da RDA. Mas teve sempre muita dificuldade em vestir essa pele. O seu estilo de vida era considerado um problema no seio do clube e os dirigentes e treinadores faziam o possível para o tentar desviar dessa vida.

As autoridades fizeram o possível para que trabalhasse nas suas «lacunas atléticas e morais». Só em 1969, por exemplo, houve 19 reuniões individuais com o jogador para tentar forçar um comportamento aceitável. Um ano depois, o diagnóstico parecia assumir um tom derrotista: Kreische bebia demasiado, não levava os treinos a sério e acreditava ser muito melhor do que realmente era.

Walter Fritzsch, treinador do Dínamo Dresden entre 1969 e 1978, foi perdendo gradualmente a paciência para lidar com Kreische e decidiu precipitar o fim a meio da temporada 1977/1978. Com 30 anos, o futebolista fez o último jogo da sua carreira a 19 de outubro, na Taça dos Campeões Europeus contra o Liverpool, em Anfield (5-1).

Na altura, ninguém sabia que estava perto do fim. O desempenho no campeonato, com quatro golos em oito jogos, não parecia diferente do habitual, mas Fritzsch estava farto. E na segunda mão da eliminatória com o Liverpool, perante mais de 30 mil espetadores, o treinador seguiu em frente no seu plano derradeiro de humilhar o futebolista e forçar a sua despedida.

Hans-Jürgen Kreische não foi titular. E esteve vinte minutos a aquecer sem ser chamado para entrar. A eliminatória estava perdida e Fritzsch não quis perder a oportunidade. Desde essa noite até ao anúncio da despedida foi uma questão de tempo. Oficialmente, Kreische decidiu que já era velho, que estava na altura de dar oportunidade aos mais novos e que queria facilitar a transição no comando técnico para Gerhard Prautzsch. Oficiosamente, não demorou muito tempo até o próprio Kreische revelar que sentia ter pelo menos mais dois anos para dar ao futebol.

O adeus de Kreische ao futebol coincidiu com o fim da hegemonia do Dínamo Dresden, que só voltou a ser campeão em 1989.

Nachtweih. O fugitivo que teve sucesso no Ocidente

Nachtweih (de vermelho) em ação

Muitos tentaram, poucos conseguiram, e entre os que tiveram sucesso foram muito poucos aqueles que partiram para uma carreira positiva. A exportação indesejada de futebolistas da RDA foi uma tendência durante décadas, mas as tradicionais suspensões por uma temporada fizeram com que muitos jogadores perdessem o ritmo e não fossem capazes de se reencontrar. Norbert Nachtweih fugiu a esta tendência dramática e é visto como o caso de maior sucesso.

Não há uma razão única para caracterizar ou justificar as chamadas «fugas da República». Foi uma tendência transversal à sociedade da Alemanha Oriental e não escolhia idades, géneros ou profissões. Queriam ser livres, ter mais direitos, queriam reencontrar familiares que não viam há anos ou ter uma carreira mais promissora.

Os jogadores de futebol eram um caso peculiar. Por um lado, eram vistos como heróis e tinham benesses que não estavam ao alcance do comum alemão de leste; por outro representavam um risco muito maior à conta da quantidade de vezes que viajavam para o estrangeiro, sendo expostos a um mundo desconhecido e inevitavelmente mais atrativo.

Os cuidados da Stasi antes de cada viagem e a multiplicação de casos fizeram com que, a certa altura, na década de 80, os jogadores começassem a ser proibidos de ficar nos três primeiros andares dos hotéis no estrangeiro. A razão? Impedir qualquer tentação de haver um salto pela varanda rumo a outra liberdade.

Em novembro de 1976, na Turquia, muitas das condicionantes ainda não estavam em plena implementação. Lutz Eigendorf – o caso mais famoso de fuga, muito por culpa do seu trágico fim – ainda não tinha fugido e a seleção jovem não era propriamente um foco de maior atenção.

Entre a comitiva dos sub-21 da RDA estavam Norbert Nachtweih e Jürgen Pahl, os dois jogadores que fugiriam para o Ocidente. O primeiro representava o Chemie Halle e estava longe de ser uma das figuras proeminentes da Oberliga. Estreara-se em maio de 1975 e só agora começava verdadeiramente a despontar, com dois golos nos primeiros dez jogos da temporada 1976/1977.

Hoje, Nachtweih não é famoso como Eigendorf, Sparwasser e Lippmann – casos de fuga mais mediáticos no mundo do futebol – mas será sempre recordado como a exportação de maior sucesso da RDA. Mesmo contra vontade.

As razões da fuga da República foram expostas sem divagações. O jogador reconhecia a qualidade no desenvolvimento dos jovens talentos na RDA mas não concordava com o modelo: «Tudo tem de correr de acordo com o plano, o individualismo não conta para nada».

Em Frankfurt, no Eintracht, Nachtweih encontrou um modelo que se ajustava melhor aos seus desejos e nem o ano de suspensão da FIFA impediu que se tornasse um jogador de grande qualidade. Em 1982, já depois de conquistar uma Taça UEFA e uma Taça da RFA, deu o salto para o Bayern Munique e teve sete anos ao mais alto nível.

Foi campeão da Bundesliga em quatro edições, conquistou mais duas Taças da RFA e só não venceu a Taça dos Campeões Europeus em 1987 porque encontrou o FC Porto de Futre, Madjer e Juary na final.

Quando o Muro de Berlim caiu em novembro de 1989, já Nachtweih vivia nova experiência no estrangeiro, ao serviço do Cannes, onde esteve durante duas temporadas e jogou ao lado de… Zinedine Zidane.

RDA vs. RFA. O duelo mundial que salvou o orgulho nacional

Duas Alemanhas no mesmo campo

Mundial-1974 marcou a primeira e única presença da República Democrática da Alemanha numa fase final de uma grande prova. Confronto com a RFA, anfitriã e futura campeã, foi o ponto mais alto e o golo marcado por Jürgen Sparwasser contribuiu para uma vitória histórica e com grande peso simbólico. Aquele 22 de junho de 1974 ficou recordado como «o dia em que até as mulheres ficaram fãs de futebol».

A atribuição da organização do Mundial-1974 à República Federal da Alemanha ajudou a aumentar o nível de ambição dos alemães de leste. A seleção ainda não tinha conseguido um único apuramento para uma grande prova mas o timing parecia perfeito. A geração de futebolistas era uma das melhores de sempre e, dois anos depois, a equipa conquistara a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Munique.

O sorteio da fase de qualificação abriu caminho para uma campanha praticamente irrepreensível. No grupo 4 com Roménia, Finlândia e Albânia, a equipa de Joachim Streich, Jürgen Sparwasser e Hans-Jürgen Kreische somou cinco vitórias e sofreu apenas uma derrota: na Roménia, por 1-0.

Com 18 golos marcados no apuramento – sete deles por Streich -, a RDA só não foi o ataque mais concretizador da fase de qualificação porque esta era também a geração da Laranja Mecânica que, no grupo 3 com Bélgica, Noruega e Islândia, terminou com 24 golos apontados. Cruijff também marcou sete.

O ano de 1974, considerado por muitos como um dos melhores na história futebolística da RDA, começou com o sorteio da fase final, a 5 de janeiro. O que muitos temiam acabou por acontecer: as duas Alemanhas ficaram no mesmo grupo. Quando o anúncio foi feito pelo então presidente da FIFA, Stanley Rous, o auditório entrou numa espiral de silêncio que, segundos depois, foi substituída por aplausos. O futuro era imprevisível e os rumores – rapidamente negados – de que a RDA poderia desistir da participação na fase final não demoraram muito a surgir.

Entre 5 de janeiro e 22 de junho, o dia da terceira e última jornada da fase de grupos, a República Democrática da Alemanha ganhou confiança. Nas competições europeias, o Magdeburgo foi a primeira equipa a chegar a uma final. E fê-lo com estilo, derrotando o AC Milan de Giovanni Trapattoni na final de Roterdão (2-0). Um dos jogadores que alinhou na Holanda a 8 de maio foi Jürgen Sparwasser. Um mês e meio depois, o avançado voltaria a ser fundamental.

Um peso que saiu dos ombros

O duelo das Alemanhas foi o último jogo do grupo 1. Por esta altura, já depois do empate entre Chile e Austrália, não havia batalha que restasse para o apuramento. RFA e RDA estavam ambas qualificadas e o desfecho do encontro de Hamburgo, com mais de 60 mil pessoas nas bancadas, serviria apenas para definir o primeiro classificado do grupo.

A definição de apuramento não esvaziou a pressão. Pelo contrário. Primeiro, porque só uma hora e meia antes do apito inicial é que se confirmou o apuramento duplo; segundo, porque mais do que um peso desportivo, este confronto era também uma verdadeira batalha diplomática, especialmente do lado oriental.

A auto-estima na RDA no estrangeiro, sobretudo quando posta à prova, era um desafio constante e as autoridades nem conseguiram dormir a pensar nos efeitos que uma eventual derrota poderia ter nos objetivos políticos. À semelhança dos Jogos Olímpicos, a validação política era alcançada especialmente através da afirmação desportiva.

O país parou para ver o jogo naquele que é recordado como «o dia em que até as mulheres ficaram fãs de futebol». Para uma jovem nação, derrotar a RFA por 1-0 – Jürgen Sparwasser marcou o único golo do encontro – foi uma memória coletiva que ninguém conseguiria apagar. Ainda hoje, quando a Alemanha já está unificada há 30 anos, ninguém se esquece do que estava a fazer e de como viu o encontro entre RDA e RFA.

Com o momento mais aterrorizador para trás das costas, o resto do Mundial foi um fracasso para uns e um enorme sucesso para outros. Se a RFA partiu triunfantemente até ao título mundial, a RDA não voltou a vencer um jogo, somando um empate (Argentina 1-1) e duas derrotas (Brasil 0-1 e Holanda 0-2) na segunda fase de grupos.

O desfecho final foi aceitável. A RDA terminou no sexto lugar oficial e voltou para casa com uma brilhante vitória para recordar. O orgulho permaneceu intacto, contra todos os medos.

Magdeburgo. A jóia da coroa da RDA

Jogadores festejaram Taça das Taças perante bancadas vazias

Não foi tantas vezes campeão como o Dínamo Berlim ou o Dínamo Dresden, e nem sequer era visto como a melhor equipa da República Democrática da Alemanha, mas em 1974 conseguiu um feito histórico: tornou-se o único clube da RDA a vencer uma final europeia. Havia apenas 288 alemães nas bancadas.

A Oberliga teve 12 campeões diferentes entre 1948 e 1991. O futebol na RDA foi sofrendo sucessivas revoluções e as hegemonias não conseguiam durar muito tempo, excepto quando consolidadas pelo apoio da Stasi. Foi assim que o Dínamo Berlim conquistou dez títulos de campeão… de forma consecutiva.

O Dínamo Dresden surge logo a seguir na lista, com oito títulos espalhados por várias décadas, enquanto o Vorwärts Berlim – equipa que nasceu com jogadores roubados ao BSG Chemie Leipzig – fecha o pódio com seis. Depois, com três campeonatos, surge um trio: Carl Zeiss Jena, Wismut Karl Marx Stadt e… Magdeburgo.

O Magdeburgo viveu uma época verdadeiramente gloriosa na primeira metade da década de 1970. Conquistou a Oberliga em 1972, 1974 e 1975 e, mais importante ainda, fez história na edição da Taça das Taças de 1974.

O progresso foi imparável: eliminou o NAC Breda na primeira ronda (2-0), o Banik Ostrava na segunda (3-2), o Beroe Stara Zagora nos quartos de final (3-1) e o Sporting nas meias-finais (3-2, numa eliminatória famosa por ter terminado poucas horas antes do 25 de Abril).

Em Roterdão, a 8 de maio de 1974, a geração de Sparwasser e companhia jogou perante 4641 espetadores. Do outro lado, estava o Milan de Gianni Rivera orientado por Giovanni Trapattoni. Era a primeira presença de uma equipa da RDA numa final e o país tinha razões para estar entusiasmado.

Então como se explica a assistência tão reduzida na Banheira de Roterdão? A liberdade de viajar era tão restrita que a comitiva afeta ao Magdeburgo era composta apenas por 288 pessoas, muitas delas com cargos políticos e longe de serem verdadeiramente adeptas do clube.

Aquela noite era a mais importante da história futebolística da República Democrática da Alemanha e não havia praticamente ninguém a ver a vitória por 2-0 (autogolo de Lanzi aos 42' e Seguin aos 74'). Mas o orgulho local – a média de idades era de 23 anos e a esmagadora maioria dos futebolistas tinham sido formados em equipas das localidades vizinhas – fez a diferença no regresso à RDA.

Dois dias depois, em Magdeburgo, milhares de pessoas receberam em euforia os heróis de Roterdão. A um mês do Mundial-1974, a RDA estava a viver, de longe, o seu melhor período futebolístico. Primeiro com a Taça das Taças, depois com o triunfo na fase final frente à RFA, com o golo a ser marcado por… Jürgen Sparwasser, jogador do Magdeburgo.

O sucesso do clube foi fugaz. O período dos títulos faz parte do passado, a era gloriosa apagou-se da mesma forma que se acendeu e nada mais voltou a ser o mesmo. O treinador herói, Heinz Krügel, à semelhança de tantos outros na história da RDA, era uma pessoa com pensamentos demasiado desafiadores para serem acolhidos pelas autoridades e, sem grande surpresa, acabou despedido em 1976 e banido pela federação por «não desenvolver suficientemente os atletas olímpicos no Magdeburgo». O sucesso do Magdeburgo desapareceu com ele.

Dínamo Dresden-Bayern. Todas as cautelas foram poucas

Eliminatória espetacular teve 13 golos

Eliminatórias europeias entre equipas das duas Alemanhas provocavam sempre uma enorme dor de cabeça logística… de um lado e do outro. Se na RDA o objetivo era garantir o máximo nível de espionagem e que tudo corria de acordo com o guião, na RFA a meta podia passar apenas por… escapar ao envenenamento.

O sorteio da segunda ronda da Taça dos Campeões Europeus de 1973/1974 provocou aquilo que muitos temiam há bastante tempo mas que não estavam ainda preparados para aceitar: mais tarde ou mais cedo, iria haver um jogo entre equipas da República Federal da Alemanha e da República Oriental da Alemanha.

Quando o Dínamo Dresden – acabado de eliminar a vice-campeã europeia Juventus – e o Bayern Munique ficaram emparelhados, os responsáveis dos dois lados do muro não perderam tempo até garantir que nada ia correr longe do esperado.

A gestão de expectativas foi fundamental. Para o Bayern Munique e os seus dirigentes, as preocupações eram sobretudo de teor de… sobrevivência, tentando garantir que não seriam alvo de estratagemas obscuros para que o adversário pudesse obter uma vantagem dentro de campo. Para o Dínamo Dresden, ou melhor, para a Stasi e para os altos dirigentes da RDA, havia uma componente muito mais política em jogo.

A primeira mão, disputada em Munique a 24 de outubro de 1973, foi o primeiro sinal da paranoia oriental. O processo de veto e verificação de alemães de leste interessados em ir ver o jogo foi tão grande que a maioria acabou em casa, dando lugar a elementos do aparelho do partido. Em campo, as diferenças de postura foram esbatidas.

Perante 50 mil pessoas, o Dínamo Dresden foi um osso duro de roer e foi para o intervalo a vencer por 3-2. Franz Roth e Gerd Müller concretizaram a reviravolta para 4-3 na segunda parte, mas o balanço final foi esmagador: a carga política era indesmentível, porém as duas equipas proporcionaram um jogo memorável com três reviravoltas na marcha do marcador. E mais: a eliminatória continuava perfeitamente em aberto para o jogo da segunda mão, agendado para 7 de novembro.

Operação Confiança

Equipa de Dresden em Munique

A organização da segunda mão foi uma verdadeira dor de cabeça. Para os alemães dos dois lados da fronteira e para a própria UEFA, que foi forçada a aceitar a justificação mais estapafúrdia do presidente do Bayern para contornar a regra de as equipas terem de passar a noite anterior na cidade onde o jogo vai ser disputado.

Na verdade, os bávaros queriam passar tão pouco tempo quanto possível na RDA, garantindo assim uma menor hipótese de contratempo, seja através de espionagem ou mesmo de envenenamento. Oficialmente, a justificação foi outra. «A diferença de altitude de Munique para Dresden poderá ser prejudicial para a nossa equipa», disse o presidente do Bayern, Wilhelm Neudecker.

O nível de detalhe da preparação da Stasi – oficialmente nomeada «Operação Confiança» - para o jogo da segunda mão atingiu níveis de uma campanha militar. Estava tudo pensado ao pormenor e nada podia faltar. O Bayern Munique acabou por levar a sua intenção adiante e só chegou a Dresden poucas horas antes do pontapé de saída. Não houve nenhum contratempo mas os relatórios garantem que o treinador do Dínamo, Walter Fritzsch, soube o onze do adversário antes do suposto.

Dentro de campo, os jogadores protagonizaram mais uma noite memorável. Uli Hoeness pareceu resolver a eliminatória para os alemães ocidentais com golos aos 10 e 12 minutos, mas o Dínamo Dresden e reagiu com golos aos 42, 52 e 56 minutos. Uma vez mais, as constantes reviravoltas faziam destes duelos um enorme espetáculo. Uma vez mais, porém, Gerd Müller marcou (58’) e estragou a eventual celebração na RDA.

O Bayern Munique seguiu em frente e só parou na conquista da primeira de três Taças dos Campeões Europeus consecutivas. Quis o destino que o Magdeburgo vencesse a Taça das Taças, proporcionando assim um duelo na Supertaça Europeia.

Estariam os responsáveis prontos para passar tudo pelo mesmo outra vez? Não, definitivamente. Na altura de combinar uma data para a realização da Supertaça, as reticências foram maiores do que as exclamações. Oficialmente, foi impossível encontrar uma data que agradasse às duas equipas. Oficiosamente, ninguém estava interessado em que a tensão política fosse posta à prova com um troféu decidido a duas mãos entre as duas Alemanhas.

O destino foi, ainda assim, mais forte, e as equipas defrontaram-se mesmo a duas mãos, mas na Taça dos Campeões Europeus. Aí sim, voltou tudo ao mesmo. Houve espaço para a «Operação Confiança II» e para, mais uma vez, os jogadores do Bayern se recusarem a comer no hotel. Os bávaros venceram a eliminatória por 5-3 e… Gerd Müller marcou quatro dos cinco golos. O «Bombardeiro» alemão virou carrasco na RDA.

Chemie Leipzig. Quando o orgulho vale uma Oberliga

Adeptos fizeram a festa em peso

O BSG Chemie Leipzig conquistou o campeonato nacional da RDA pela segunda vez em 1964. No último jogo da época, a equipa não quis deixar os créditos por mãos alheias e resolveu rapidamente o encontro na deslocação ao terreno do Turbine Erfurt. O título foi especial: a expressão é frequente mas este parece ter sido claramente contra tudo e contra todos.  

A estrutura do futebol da Alemanha de Leste foi um carrossel de alterações do início ao fim. As autoridades estatais demoraram a perceber a importância que a modalidade tinha – nunca o fizeram na plenitude, relegando-a sempre para segundo plano – e andaram durante décadas a brincar com reorganizações que ajudassem a promover um sentido lato de distribuição territorial e de qualidades.

Há uma forma fácil de perceber as tendências da política da RDA relativa ao futebol: clubes com SC no nome eram aprovados e financiados pelo Estado, e tenderam a ser favorecidos; enquanto equipas com BSG no nome, como o Chemie Leipzig, eram cooperativas de apoio popular e foram sendo ostracizados até atingirem a total insignificância.

O BSG Chemie Leipzig sofreu na pele mas nunca desistiu. Fundado em 1950, foi campeão da Oberliga em 1951, terceiro classificado em 1952 e começou a ser desmantelado pelas estratégicas políticas em 1953. O clube podia ser popular e atrair assistências a rondar os 40 mil espetadores, mas para quem mandava isso não passava de números de uma folha de cálculo num ainda inexistente Microsoft Excel.

O primeiro ataque ao clube surgiu durante a temporada 1952/1953, quando grande parte dos melhores jogadores foram recolocados numa nova equipa, ligada ao exército, chamada Vorwärts Leipzig.

O BSG Chemie conseguiu regenerar-se. Os jogadores que tinham saído foram substituídos por jovens e as assistências continuaram em números muito altos, ao contrário do recém-criado Vortwärts que, apesar da qualidade dos jogadores, foi sendo ignorado e acabou por ser deslocado para Berlim. Em 1954, porém, não houve nada a fazer quando a restruturação da Oberliga provocou novas mudanças profundas.

Os recursos da indústria química habitualmente direcionados para o BSG Chemie foram desviados para o novo SC Chemie Halle e a equipa perdeu o direito de disputar a Oberliga. Leipzig manteria duas equipas na primeira divisão mas, como não podia deixar de ser, seriam dois clubes acabados de fundar com o selo do Estado: SC Lokomotive, associado aos caminhos-de-ferro, e SC Rotation, associado à tipografia.

O BSG Chemie perdeu mais do que a vaga entre a elite, ficou mesmo sem todos os jogadores. Os seus talentos passaram a representar o SC Lokomotive e a equipa passou a jogar no quarto escalão, com assistências de cinco mil pessoas e sobrevivendo graças a pequenos patrocinadores e à carolice de muitos, que ajudavam a garantir equipamentos e chuteiras.

 

Do inferno à segunda oportunidade

Guarda-redes Dieter Sommer festeja título no balneário

O clube perdeu tudo menos a sua identidade. A aposta na formação, que tantos frutos dera no passado, tornou-se essencial no novo paradigma e contribuiu de forma decisiva para que a equipa pudesse ser reconsiderada quando, nove anos depois, a Oberliga voltou a operar uma revolução na secretaria.

Leipzig ia continuar a contar com dois clubes mas o fracasso do SC Lokomotive e do SC Rotation – com assistências baixas e apenas uma Taça conquistada – precipitou uma fusão entre as duas representantes. A vaga aberta ficou para o BSG Chemie.

A nova concentração de recursos não quis enganar ninguém e as prioridades continuavam bastante claras: o novo SC Leipzig era a equipa que simbolizava a cidade, para onde deviam ir os melhores jogadores; o BSG Chemie servia de figurante, para apaziguar o povo e ficar com as sobras.

Quando a temporada 1963/1964 começou, as opiniões dos especialistas eram arrasadoras: o BSG Chemie tinha a descida à porta e o facto de o treinador ser Alfred Kunze, um homem com visões desafiadoras perante o poder instalado, não ajudava.

O que se passou surpreendeu tudo e todos. Na penúltima jornada, depois de um triunfo sobre o «velho conhecido» Vorwärts Berlin, o BSG Chemie ficou a apenas um ponto de conquistar a Oberliga pela segunda vez na sua história. O desfecho seria um embaraço para as autoridades locais, que tudo fizeram para que a cidade se inclinasse para o outro lado.

A história fez-se a 10 de maio de 1964. Garantem as reportagens da altura que a estrada entre Jena e Erfurt, num total de 150 quilómetros, parecia um enorme cordão construído pela caravana de adeptos vestidos de verde e branco. O BSG Chemie recuperou toda a massa adepta que, ansiosa pela possibilidade do título, marcou presença em peso em Erfurt no jogo contra o Turbine local.

Se uns lutavam pelo título, os outros não queriam descer de divisão. Com 30 mil adeptos na bancada, o BSG Chemie resolveu a situação no primeiro quarto de hora, com golos de Wolfgang Behla aos 12’ e de Manfred Walter aos 13’, de penálti.

A história não podia ter sido mais curiosa. O BSG Chemie não se limitou a estragar as previsões em Leipzig. Fê-lo numa temporada em que ficou com o título praticamente no bolso depois de derrotar o Vorwärts Berlin e num ano em que o SC Chemie Halle desceu de divisão. Ali, condensado, o clube popular vingou-se de tudo o que tinha sofrido nos onze anos anteriores e festejou o título de campeão mais saboroso da Oberliga.

«Não sei se houve algum desfecho de temporada mais sensacional e inesperado na Europa no último século. Se houve, quero saber qual», escreveu Ulrich Hesse-Lichtenberger.

Penhorar o relógio para jogar contra o Ajax

Ajax venceu 3-1 na RDA na primeira mão

Falta de organização, coordenação e… dinheiro fez com que o treinador do Wismut Karl Marx Stadt abdicasse do seu relógio para garantir que a equipa conseguia chegar a Amesterdão para defrontar o Ajax. Eliminatória teve pouca emoção mas os holandeses fizeram questão de recompensar o técnico Fritz Gödicke pela sua dedicação.

A Alemanha de Leste teve um representante pela primeira vez na Taça dos Campeões Europeus em 1957/1958. Num país em que os duelos com o bloco capitalista eram evitados sempre que possível – sobretudo a nível de seleções -, a competição rainha de clubes na Europa protagonizava um tira-teimas obrigatório.

A esfera política queria evitar humilhações e nem sequer apostava muito no futebol – contrariamente ao que acontecia nas principais modalidades olímpicas – mas, ano após ano, a RDA começou a aparecer entre a elite. A estreia foi, na análise mais simpática possível, rocambolesca.

Na fase preliminar, o Wismut Karl Marx Stadt foi sorteado com o Gwardia de Varsóvia. Depois da derrota na Polónia por 3-1, a equipa de Fritz Gödicke reagiu na segunda mão e forçou um jogo de desempate, marcado para duas semanas depois em Berlim. Aí, depois de ter sofrido um golo logo no terceiro minuto, forçou o empate ao cair do pano (90’) e garantiu o apuramento na moeda ao ar, já depois de o encontro ter sido interrompido aos 100 minutos por culpa de uma falha de energia.

Com ou sem esta sorte caprichosa, a equipa alemã seguiu em frente e marcou encontro com o Ajax. A equipa holandesa era claramente favorita – apesar de ainda não ser o peso pesado que viria a ser anos mais tarde – e demonstrou-o logo na primeira mão, ao vencer 3-1 em Karl Marx Stadt perante 30 mil espetadores.

O momento mais atribulado da participação do Wismut foi, ainda assim, a aventura que precedeu o encontro da segunda ronda, marcado para 27 de novembro. O campeão em título da RDA devia chegar à cidade holandesa depois de apanhar um autocarro e um comboio, mas falhou a ligação na RFA e ficou abandonado à sua sorte, perto da fronteira.

Fritz Gödicke entrou em cena e foi obrigado, uma vez mais, a liderar aquele grupo de jogadores. O treinador decidiu pôr o seu relógio numa loja de penhores para garantir que a comitiva tinha um sítio para dormir e dinheiro suficiente para viajar no dia do jogo.

O conforto na RDA não abundava mas, naquela noite, na vizinha RFA, a experiência dos jogadores não foi melhor: praticamente não conseguiram comer nada de substancial e foram obrigados a dormir três em cada cama.

No dia seguinte, já em Amesterdão, o jogo era praticamente o que menos interessava, mas a equipa jogou pelo orgulho e perdeu pela margem mínima (Ouderland marcou o único golo do encontro aos 79 minutos).

A epopeia foi notícia no bloco ocidental e os dirigentes do Ajax decidiram recompensar a iniciativa corajosa do treinador e dos seus pupilos, pagando o dinheiro da estadia e recuperando o relógio penhorado.

Empor Lauter. Quando um clube sai da cidade durante a madrugada

Equipa do Empor Lauter

Era a equipa da cidade mais pequena da Oberliga e acabou como vítima natural das tendências obsessivas de reequilibrar o mapa do futebol na RDA. Clube até tinha começado bem a época mas viu a esmagadora maioria dos seus futebolistas partir durante a madrugada com destino a Rostock.

Foram os Baltimore Colts antes mesmo de haver Baltimore Colts. Quem conhece a história da NFL sabe do caso da equipa que foi mudada para Indianápolis durante a madrugada sem prestar esclarecimentos ou justificações aos milhares de adeptos.

Nos Estados Unidos passou-se em 1984. Na República Democrática da Alemanha aconteceu em 1954. Com o Empor Lauter, o clube de uma cidade com apenas oito mil pessoas e que tinha celebrado a subida ao escalão de elite poucos meses antes.

O futebol na Alemanha Oriental demorou a arrancar e, quando o fez, a organização foi alvo de sucessivas reestruturações com o objetivo de tornar o mapa do país mais homogéneo em termos representativos. No momento de tomar decisões, Lauter tornou-se uma vítima inevitável.

Era uma cidade demasiado pequena – a mais pequena da Oberliga – e não podia competir com a importância demográfica e económica de cidades do norte como Rostock. Quando o Empor Lauter venceu o Rotation Babelsberg por 1-0 a 24 de outubro de 1954, poucos desconfiavam o que se iria passar nos dias seguintes.

Apesar de recém-promovido, o clube estava a dar cartas na Oberliga e seguia na segunda posição com cinco vitórias e três derrotas em oito jornadas. Estava a ser a sensação da época futebolística. Mas os interesses do regime não se coadunavam com episódios românticos como este.

Quando o jogo seguinte, com o Motor Zwickau, foi cancelado, a 26 de outubro, cresceu a ideia de que algo estava para acontecer. Os adeptos desconfiaram e começaram a fazer rondas junto à estação ferroviária para garantir que não havia nenhuma fuga. Foram impotentes.

Dois dias depois, às três da madrugada, onze dos 15 jogadores do plantel seguiram rumo a Rostock de comboio. Para eles, jogar em Lauter não era um chamariz assim tão grande e viajaram seduzidos perante as promessas de melhores condições de vida, melhores casas, mais dinheiro e oportunidades de emprego mais diversificadas.

O capitão Walter Espig foi um dos quatro que ficou para trás. Sem equipa, mas com o orgulho intacto e a eterna admiração de uma população incapaz de esquecer os nomes dos traidores. Tanto foi assim que os familiares dos futebolistas que seguiram para Rostock começaram a ser mal tratados em Lauter. Eram ignorados na rua e não tinham qualquer hipótese de ser atendidos nos estabelecimentos comerciais.

Sem clube, Walter Espig acabou por, depois de uma longa batalha com os responsáveis do então Empor Rostock (hoje conhecido por Hansa Rostock), conseguir uma autorização para representar o clube vizinho do Motor Zwickau.

No mesmo período, o BSG Wismut Aue esteve perto de passar pelo mesmo, mas neste caso um grupo de mineiros entrou em ação e ameaçou uma greve indeterminada se ficassem sem equipa pela qual torcer. A união fez a força.

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Futebol dividiu Alemanhas de forma acentuada

Sou de uma geração que nasceu nas entrelinhas: sou velho o suficiente para ainda me lembrar vagamente de competições com a União Soviética, a Jugoslávia, a Checoslováquia e a República Democrática da Alemanha, mas demasiado novo para ter vivido verdadeiramente nesse período.

Tudo não passa de um conjunto de memórias longínquas que depois foram alimentadas progressivamente por histórias, aumentando o mito. A primeira final europeia que me lembro, ainda com seis anos, é precisamente aquela que o Estrela Vermelha venceu. Sei que é difícil explicar a razão deste fascínio com o desporto numa era em que as cortinas geográficas davam outra magia aos jogos, mas acredito que qualquer pessoa da mesma geração entende na perfeição.

Na esfera futebolística, a República Democrática da Alemanha sempre foi o parente pobre da Europa Oriental. O governo nunca viu nesta modalidade a sua grande prioridade – o atletismo e os Jogos Olímpicos encaixavam melhor na afirmação de uma identidade – e a evolução durante os cerca de 40 anos da RDA foi sempre muito pobre. E ao mesmo tempo rica, na quantidade e qualidade de histórias.

Não foi apenas a presença no Mundial-1974 ou a Taça das Taças ganha pelo Magdeburgo no mesmo ano. O futebol da RDA teve momentos insólitos, fugas, pioneiros, espionagem, reviravoltas dramáticas e muito, muito mais.

Hoje, a um mês de se assinalarem os 30 anos da queda do Muro de Berlim, damos oficialmente o pontapé de saída para um novo especial do É Desporto. Nos próximos 30 dias, daremos destaque a 30 histórias diferentes sobre o futebol da RDA. Algumas são conhecidas, outras mais discretas, mas todas ajudam a perceber o ambiente que se viveu durante este período.