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É Desporto

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Jacek Mencel. O primeiro futebolista estrangeiro na RDA

Jacek Mencel (à direita) também jogou no Hansa Rostock

Queda do Muro de Berlim acabou com as restrições na movimentação de jogadores mas fluxo de saída foi muito maior do que o de entrada. Se é certo que os maiores talentos da RDA estavam desejosos de cruzar a fronteira e jogar na Bundesliga, não se pode dizer que o futebol da Alemanha de Leste fosse um chamariz para estrangeiros. O polaco Jacek Mencel entrou na história… mas foi direto para a segunda divisão.

O futebol em 1990 era radicalmente diferente do que é hoje. A livre circulação de jogadores faz com que rara seja a equipa que não tenha pelo menos um estrangeiro e os adeptos já se habituaram a esta banalização. É normal que um futebolista procure outras paragens se isso significar mais dinheiro, melhores condições de vida ou simplesmente um campeonato mais competitivo.

Quando o Muro de Berlim caiu em 1989, o burburinho foi imediato. Os principais talentos da República Democrática da Alemanha soltaram as amarras e foram à procura das melhores oportunidades. Dínamo Dresden, Dínamo Berlim e muitas outras equipas viram os plantéis dizimados e sentiram grandes dificuldades em manter – ou simplesmente mitigar – a queda de qualidade. Recrutar no estrangeiro passou a ser uma possibilidade mas… quem é que estava interessado em ir jogar futebol para a RDA?

O pioneiro foi um avançado polaco chamado Jacek Mencel. Nascido em maio de 1966, jogava no Pogon Szczecin e foi parar a Berlim para representar o Union, equipa que atuava na segunda divisão da RDA. A 18 de março de 1990, menos de cinco meses depois da queda do muro, foi utilizado na deslocação ao terreno do Bergmann Borsig e fez história… a dobrar.

Mencel não só foi o primeiro futebolista estrangeiro a representar uma equipa da RDA como decidiu assinalar o momento com dois golos. Até ao final da época, marcou mais oito e demonstrou ser uma aposta justificável pelos dirigentes do Union Berlim, abrindo caminho a que outras equipas pudessem fazer o mesmo.

Foi precisamente isso que aconteceu na época seguinte, já na Oberliga. Na derradeira temporada do campeonato de elite da RDA, o guarda-redes húngaro Peter Disztl, com experiência internacional de alto nível, foi contratado pelo Rot-Weiss Erfurt e estreou-se na goleada (4-0) ao FC Berlim (antigo Dínamo), a 11 de agosto de 1990. Pouco mais de um mês depois foi a vez do norte-americano Paul Caligiuri ser utilizado no empate entre o futuro campeão Hansa Rostock e o HFC Chemie.

A tendência não teve tempo para ser consolidada. A reunificação das Alemanhas deu-se em outubro de 1990 e a temporada seguinte já ficou marcada por uma união das equipas numa única estrutura profissional. A Oberliga caiu no esquecimento e a Bundesliga tornou-se um viveiro de grandes talentos… nacionais e internacionais.

Andreas Thom. A histórica transferência entre Alemanhas

Andreas Thom com Thomas Doll no Dínamo Berlim

A queda do Muro de Berlim a 9 de novembro de 1989 abriu caminho para o desaparecimento da Oberliga e para um período louco de transferências dos jogadores da RDA. Andreas Thom, estrela do Dínamo Berlim e um dos maiores talentos da seleção, entrou para a história ao protagonizar a primeira transferência negociada com a RFA.

Não foi preciso esperar pela queda do muro para haver jogadores da Alemanha Oriental a cruzar a fronteira e a representar uma equipa da Alemanha Ocidental. Lutz Eigendorf, nos anos 70, e Frank Lippmann, na década seguinte, são dois exemplos de grandes talentos do futebol germânico que fugiram do seu país à procura de melhores oportunidades. Mas ambos tiveram de cumprir um período de suspensão da UEFA até poderem prosseguir a carreira futebolística.

Depois da noite histórica de novembro, tudo mudou. A fronteira tinha reaberto e deu início a uma verdadeira corrida ao talento que até então estava fechado a sete chaves. O treinador da RDA, Eduard Geyer, confessou logo a 15 de novembro, dia em que a seleção falhou o apuramento para o Mundial-1990, que os jogadores estavam com a cabeça noutro sítio e que passavam horas atrás de horas em telefonemas loucos à procura de um clube para jogar.

Era difícil fugir à tentação. Até então tinham sido guardados numa redoma, sem liberdade, exibidos como animais de zoo e com acesso escasso a bens. Do outro lado da fronteira estava um mundo de oportunidades: mais dinheiro, mais opções e, sobretudo, um campeonato mais competitivo.

As equipas da RDA não tiveram outra solução que não negociar os seus talentos com as equipas rivais e Andreas Thom entrou para a história ao protagonizar a primeira transferência negociada entre as duas Alemanhas. Saiu do Dínamo Berlim, assinou pelo Bayer Leverkusen a troco de 2,8 milhões de marcos e estreou-se de forma brilhante, dois meses depois, ao marcar no triunfo por 3-1 contra o Homburg.

Andreas Thom ao serviço do Leverkusen

A sagacidade negocial do diretor do clube de Leverkusen, Rainer Calmund, associada à falta de experiência dos dirigentes do Dínamo Berlim, levou a que o negócio se tornasse ruinoso para o lado oriental. O valor acordado não era mais do que um número de referência e terá havido uma negociação para que parte da verba fosse acomodada em géneros: 300 motos de origem japonesa.

Feitas as contas, no final não houve praticamente dinheiro a mudar de mãos, numa tendência de supremacia do Oeste sobre o Este que ajudou a agravar irremediavelmente as diferenças de qualidade no futebol.

A transferência de Thom foi apenas o mote. Até ao final da temporada, os melhores talentos de equipas como o Dínamo Berlim e Dínamo Dresden foram como lagostas no aquário à espera de serem selecionadas: Thomas Doll foi para o Hamburgo, Ulf Kirsten seguiu para o Leverkusen e Matthias Sammer assinou com o Estugarda.

O Dínamo Berlim não foi a única equipa a ser enganada pelas tendências da nova economia de mercado. O Dínamo Dresden seguiu as mesmas pisadas na transferência de Matthias Sammer: na negociação com o Estugarda fora incluído um autocarro novo para a equipa mas, como em tantos outros contratos pelo mundo fora, houve alguém incapaz de ler o que diziam as letras pequenas.

Três anos depois, o Estugarda exigiu o autocarro de volta porque, de acordo com o que estava negociado, era apenas um contrato de leasing. «Nenhum de nós tinha ouvido alguma vez falar em leasing», recordou um diretor da equipa de Dresden praticamente vinte anos depois.

O dia em que ninguém quis saber do Mundial-1990

Áustria venceu RDA sem dificuldade e apurou-se para o Mundial-1990

A República Democrática da Alemanha teve uma oportunidade de ouro para garantir a qualificação para uma grande prova por seleções pela segunda vez. As memórias do Mundial-1974 estavam cada vez mais distantes mas o Itália-1990 parecia perto: bastava vencer na última jornada, na Áustria, a 15 de novembro de 1989… seis dias depois da queda do muro.

O «quase» nunca teve um significado simpático para o futebol da República Democrática da Alemanha. Estar perto de alcançar algo significava apenas que a probabilidade de haver uma desilusão embaraçosa era maior do que se o objetivo fosse impossibilitado numa fase mais prematura.

No último trimestre de 1989, a seleção da RDA estava novamente numa situação de «quase». Neste caso, de quase apuramento para o Mundial-1990. O momento era importante – afinal, só tinha tido uma presença numa fase final, em 1974 – e a premissa nem era impossível: tinha de ir a Viena derrotar a Áustria na última jornada do grupo 3 da fase de qualificação europeia.

O sorteio foi favorável à seleção de Eduard Geyer. A União Soviética era o papão do grupo mas Áustria, Turquia e Islândia garantiam um otimismo moderado para que a geração de Matthias Sammer, Andreas Thom, Thomas Doll e Ulf Kirsten pudesse fazer história e terminar no segundo lugar que também dava apuramento direto.

A Islândia foi derrotada sem dificuldade nos dois jogos mas a Turquia surpreendeu e somou sempre triunfos contra a RDA. Ainda assim, a vitória sobre a União Soviética no penúltimo jogo – garantindo a reviravolta no último quarto de hora com golos de rajada de Thom (81’) e Sammer (83’) - deu um tónico importante aos germânicos.

Estava tudo em aberto para a última jornada, disputada a 15 de novembro. RDA, Turquia e Áustria estavam empatadas com sete pontos. Se havia um mata-mata em Viena, os turcos tinham a improvável tarefa de ir pontuar em Simferopol, em plena União Soviética.

De repente, tudo mudou. O Muro de Berlim caiu a 9 de novembro, seis dias antes do jogo na Áustria, e a cabeça dos jogadores foi invadida pela incerteza em relação ao futuro. «Estavam completamente distraídos», admitiu o selecionador. «Passavam a vida a fazer telefonemas e preocupados apenas em encontrar outros clubes para jogar.»

As muralhas da República Democrática da Alemanha tinham caído e o frenesim era justificável. Pela primeira vez em liberdade, os jogadores teriam carta branca para procurar oportunidades no bloco ocidental, mais bem pagos e com acesso a tudo o que precisavam.

Não foi de espantar então que, quando o polaco Piotr Werner apitou para o pontapé de saída, a exibição da RDA tenha sido apática e sem um pingo de competitividade. Toni Polster brilhou ao mais alto nível e terminou o jogo com um hat-trick: marcou aos 2’, de penálti aos 23’ e novamente aos 61’.

Este foi o último «quase» da RDA. Esteve perto mas, como habitual, surgiu alguma coisa a dificultar. Na derradeira campanha de apuramento completa que disputaram, os alemães de leste caíram… tal como tinha acontecido com o muro dias antes.

Hans Richter. O último internacional a fugir da RDA

Hans Richter ao centro

A República Democrática da Alemanha estava a dar as últimas e as estruturas do poder pareciam cada vez mais enfraquecidas. Para Hans Richter, futebolista do Karl Marx Stadt, isso era tudo o que precisava saber para arriscar atravessar a fronteira e deixar para trás o país onde tinha crescido como homem e jogador. Foi o último internacional pela seleção a fazê-lo: 40 dias depois, o Muro de Berlim caiu.

Domingo, 1 de outubro de 1989. Hans Richter não estava a ter uma época muito favorável ao serviço do Karl Marx Stadt, clube para o qual tinha regressado depois de uma aventura no Lokomotive Leipzig, que incluiu a presença na final da Taça das Taças de 1987. Naquela temporada, dois anos depois, tinha atuado em apenas quatro jogos na Oberliga, sempre como suplente utilizado.

Richter estava farto. Os 30 anos que figuravam no seu cartão de identificação não eram suficientes para acreditar que era incapaz de conseguir mais. Mas, mais do que o plano desportivo, era o estado da RDA que o atormentava.

A República Democrática da Alemanha estava a abanar à mínima brisa e sentia-se no ar que nada era como antes. O número de oficiais e informadores da Stasi estava em queda acentuada e o controlo era muito menor do que no início da década, quando praticamente um terço dos futebolistas da primeira divisão agiam, de forma mais ou menos declarada, como colaboradores da polícia do Estado.

As fugas da República nem sequer eram verdadeiramente impedidas, uma vez que a fronteira com a Alemanha Ocidental com a Checoslováquia tinha sido reaberta. Foi precisamente aí que a 1 de outubro, exatamente 40 dias antes da queda do Muro de Berlim, Richter atravessou rumo a Frankfurt.

A fuga de Richter está na história. Não teve o mesmo mediatismo de outras, até porque já não era o mesmo jogador de outrora, mas será conhecida para sempre como o último futebolista internacional pela RDA a abandonar o seu país.

A reação das autoridades, noutros tempos determinada e vigorosa, não foi mais do que um confirmar de resignação perante as inevitabilidades. Pelo menos é esse o espírito que emana do memorando enviado a Egon Krenz, que na altura ainda não era presidente da RDA.

Os desportistas da República Democrática da Alemanha estavam cada vez mais decididos a procurar outras oportunidades e, no caso específico do futebol, oito dos 20 casos de fugas registadas aconteceram precisamente nos meses anteriores à queda do Muro. Se, noutras situações, a ausência de casos de sucesso de futebolistas no estrangeiro, à exceção de Nachtweih, tinha servido de fator de desencorajamento, agora não havia mesmo nada a fazer.

A única alternativa era assistir impávida e serenamente ao descalabro da República Democrática da Alemanha. O antigo patrão da Stasi, Erich Mielke, lamentou anos mais tarde esta postura curvada perante os acontecimentos: «Como é que conseguimos abrir mão da RDA de forma tão simples?».

Hans Richter não fazia parte desta luta. Viveu livremente, mas não conseguiu angariar qualquer tipo de protagonismo desportivo no outro lado da fronteira, não indo além do terceiro escalão. Como curiosidade fica o facto do último jogo nas competições europeias: um 1-0 contra o Boavista a 12 de setembro de 1989, naquela que foi a estreia internacional de… João Vieira Pinto.

Sparwasser. O herói que virou as costas à RDA

O golo que lhe mudou a vida

É o autor do golo mais famoso na história da República Democrática da Alemanha e teve um período de quatro anos na carreira verdadeiramente memorável. Seria o derradeiro herói do Estado, não tivesse decidido fugir em 1988 durante um torneio de veteranos.

Não é fácil encontrar uma carreira no futebol mundial com um período de quatro anos tão bom como aquele que Jürgen Sparwasser teve entre 1971 e 1975. Médio de posição, sempre demonstrou ser um avançado para o seu tempo. Ao serviço do Magdeburgo, clube ao serviço do qual se estreou em janeiro de 1966, passou por todas as experiências possíveis e imagináveis: desceu de divisão, voltou a subir, foi campeão nacional e conquistou um troféu europeu. Mas não é por nenhuma dessas coisas que é recordado.

Hamburgo, 22 de junho de 1974. As duas Alemanhas defrontam-se no Mundial de futebol e o mundo pára para ver o duelo. A ansiedade entre os alemães orientais é enorme e as autoridades temem um resultado que ponha em causa a estabilidade do regime. Não têm razões para isso: Jürgen Sparwasser marca o único golo do jogo e ganha automaticamente o estatuto de herói em casa.

«O golo de Sparwasser» continua a ser um dos momentos mais importantes na história do futebol mundial. Por mais anos que passem, será difícil que o futebolista nascido em Halberstadt em 1948 – na altura ocupado pela União Soviética – consiga soltar-se dessas amarras.

Razões não faltam. Jürgen Sparwasser está entre os melhores jogadores da Oberliga, campeonato no qual disputou 271 jogos e marcou um total de 111 golos. Sempre pelo Magdeburgo, clube que representou até uma lesão na anca ditar o fim da sua carreira em 1979, conquistou três campeonatos (1972, 1974 e 1975), quatro Taças da RDA (1969, 1973, 1978 e 1979) e uma final da Taça das Taças (1974).

Jürgen Sparwasser

O troféu europeu – o único de uma equipa da RDA – tem o nome de Sparwasser por todo o lado. Começou por marcar um golo nos oitavos de final ao Banik Ostrava, mas foi na meia-final que mostrou o seu caráter fulcral nos momentos decisivos. Em Alvalade, inaugurou o marcador aos 62 minutos de um jogo que terminaria empatado 1-1. Duas semanas depois, voltou a fazer o gosto ao pé (2-0 aos 70’), marcando o golo que efetivamente decidiria o jogo (2-1) e a eliminatória (3-2).

Os feitos de Sparwasser estenderam-se à seleção nacional, mas não apenas pelo tal golo à RFA marcado no Mundial. Dois anos antes, também na Alemanha Ocidental, contribuiu com cinco golos em sete jogos na caminhada até à medalha de bronze no torneio olímpico.

Sparwasser era assim mesmo: talentoso, com uma qualidade inegável e uma propensão para marcar golos decisivos. Não foi por acaso que se tornou um símbolo de «bom camarada» e de herói do futebol da RDA.

Os rumores de que a fama o teria feito enriquecer, com um prémio monetário, uma casa e um carro, eram infundados. À semelhança de tantos outros, Sparwasser vivia com limitações e aproveitou uma oportunidade para escapar quando pôde, em 1988, durante um torneio de veteranos na RFA, em Saarbrücken.

Visto pela última vez numa loja de conveniência, deixou apenas duas coisas para trás no quarto de hotel: um fato de treino do Magdeburgo e um bilhete escrito para os colegas de equipa: «É difícil… separar-me de vocês, mas não havia outra possibilidade».

O herói de Hamburgo – e de tantas outras cidades ao longo da carreira – sentiu-se forçado a virar as costas ao país que nunca o esqueceria. Foi apenas mais um sinal de que a RDA tinha os dias contados.

Lokomotive Leipzig. Cair aos pés de Van Basten

Onze do Lokomotive na final contra o Ajax

Foi o último grande resultado europeu de uma equipa da República Democrática da Alemanha. Em 1986/1987, na Taças das Taças, a equipa de Hans-Ulrich Thomale conseguiu atingir a final depois de um percurso dramático, mas caiu em Atenas frente ao Ajax de Johann Cruijff, com Marco Van Basten, Frank Rijkaard e um jovem de 18 anos chamado Dennis Bergkamp.

O Lokomotive Leipzig era uma das presenças alemãs de leste mais regulares nas competições europeias. Entre 1967 e 1989, o clube da segunda cidade mais importante da RDA participou em provas da UEFA em 15 temporadas diferentes, ficando apenas atrás do Carl Zeiss Jena (16) e do Dínamo Dresden (20).

O facto de o clube nunca ter sido campeão potenciou uma presença massiva na Taça UEFA, com destaque para um apuramento para as meias-finais (1974 vs. Tottenham), mas foi na Taça dos Vencedores das Taças que a equipa atingiu o ponto mais alto da sua história.

As campanhas nesta competição foram aumentando de sucesso edição após edição. Em 1976/1977 caiu logo na primeira ronda frente aos escoceses do Hearts. Um ano depois, foi eliminado pelo Betis na segunda ronda. Em 1981/1982, na terceira participação, subiu mais um patamar e só caiu aos pés do Barcelona, conseguindo uma histórica vitória em Camp Nou (2-1).

Porém, foi apenas em 1986/1987 que o Lokomotive Leipzig, então orientado por Hans-Ulrich Thomale, ganhou a verdadeira dimensão europeia que sempre desejara. O percurso para chegar à Taça das Taças foi diabólico. Na Taça da RDA na época anterior, teve duas eliminatórias consecutivas decididas nos pormenores: nos quartos de final bateu o Carl Zeiss Jena nos penáltis depois das duas mãos terem terminado empatadas a zero; e nas meias-finais só superou o Dínamo Berlim graças aos golos fora (perdeu 4-2 na capital, ganhou 3-1 em casa). Depois de tanta emoção, a final foi um verdadeiro passeio, graças a uma goleada (5-1) imposta ao Union Berlim, com direito a um hat-trick de Hans Richter.

Menzo foi uma barreira intransponível na baliza do Ajax

Quando a nova época começou, o Lokomotive Leipzig sentia-se preparado para manter a bitola elevada perante a concorrência europeia numa prova que ia ter nomes como Ajax, Roma, Benfica, Estugarda e Bordéus como principais destaques.

O Glentoran da Irlanda do Norte foi o primeiro adversário e não teve argumentos para os rapazes de Leipzig: 1-1 no Reino Unido, 2-0 na RDA, com Richter a marcar o golo que decidiu definitivamente a eliminatória em cima do minuto 90.

A segunda ronda, também conhecida por oitavos de final, já não teve Roma – eliminada pelo Saragoça – e viu o Lokomotive resolver a eliminatória com o Rapid Viena no prolongamento. Depois de dois empates a um golo, Leitzke foi o herói, ao resolver o assunto em casa aos 118 minutos. Benfica (vs. Bordéus) e Estugarda (vs. Torpedo Moscovo) ficaram pelo caminho nesta ronda.

A facilidade dos quartos de final (2-0 vs. Sion em casa e nulo na Suíça) contrastou com o cenário de loucos reservado para a meia-final. Enquanto do outro lado do quadro o Ajax eliminou o Saragoça sem dificuldades, Lokomotive Leipzig e Bordéus lutaram até à última gota de suor pela presença na final de Atenas.

A vitória em França na primeira mão (Bredow 64’) chegou para aumentar a confiança mas o Girondins não perdeu tempo a empatar a eliminatória em Leipzig, com um golo de Zlatko Vujovic aos três minutos.

Durante as duas horas seguintes, o jogo não teve mais golos e foi necessário encontrar o finalista no desempate por penáltis. Aí, as equipas foram teimosas. Lindner e Touré marcaram na primeira série, mas Liebers e Vercruysse desperdiçaram logo a seguir. Depois, nos oito penáltis seguintes não houve ninguém a falhar. Ironicamente, acabou por ser Zoran Vujovic, irmão de Zlatko, a desperdiçar o pontapé que abriria caminho para a festa alemã oriental.

A final de Atenas, marcada para 13 de maio, tinha o Lokomotive como outsider. O Ajax já não era o mesmo dos anos 70… e ainda não seria o da nova geração dos anos 90, mas era comandado por Johann Cruijff e tinha um punhado de jogadores de enorme qualidade.

John Bosman, melhor marcador da competição, com oito golos, nem sequer fez parte da ficha de jogo, mas o Ajax metia medo de qualquer forma. Com Frank Rijkaard na defesa, Rob Witschge no meio-campo e Marco Van Basten no ataque, seria difícil para os alemães contrariarem o favoritismo holandês.

Longe ainda de atingir a imortalidade – um ano antes do golo à União Soviética -, Marco Van Basten marcou de cabeça, aos 20 minutos, o golo que decidiu a final. Por muito que tentassem, os alemães de leste foram incapazes de impedir a derrota e ainda assistiram à entrada de um jovem de 18 anos e três dias chamado… Dennis Bergkamp.

A era da RDA e do Lokomotive Leipzig estava à beira do precipício, mas para aquela geração de holandeses era apenas o início. Juntos, iriam escrever uma parte importante da história durante os anos seguintes.

Dínamo Dresden. O maior meltdown na história da UEFA?

Jens Ramme sofreu seis golos na segunda parte

As equipas da República Democrática da Alemanha – e a própria seleção nacional – tinham a fama de deixar fugir vantagens nos momentos decisivos mas ninguém podia prever o desastre do Dínamo Dresden nos quartos de final da Taça das Taças em 1985/1986. Para piorar a situação, o adversário vinha da RFA (Bayer Uerdingen).

O Dínamo Dresden sempre foi uma das melhores equipas da RDA. Era tricampeão nacional nos anos 70 quando o Estado começou a «promover» o Dínamo Berlim e retomou o topo do futebol doméstico nos últimos anos antes da unificação. Na Europa, contudo, os resultados não apareceram.

Não conseguiu vencer um título como o Magdeburgo nem sequer atingir finais como o Carl Zeiss Jena e o FC Lokomotive Leipzig. Fez pior, muito pior: num ano em que prometia chegar longe, rubricou aquela que pode ser vista como a maior marcha-atrás na história de uma eliminatória europeia. Tinha o apuramento para as meias-finais da Taça das Taças em 1985/1986 nas mãos mas, num espaço de 30 minutos, tudo mudou e foi apanhado pelo vendaval ofensivo do Bayer Uerdingen, da rival RFA.

Vamos por partes. As duas primeiras eliminatórias mostraram um Dínamo Dresden capaz. Começou por eliminar o Cercle Brugge graças aos golos fora (3-2 na Bélgica e 2-1 em casa) e depois despachou o HJK Helsínquia sem dificuldade, goleando 7-2 em casa depois de perder pela margem mínima na Finlândia.

O sorteio ditou que o adversário dos quartos de final seria o Bayer Uerdingen. Na primeira mão, o triunfo por 2-0 aumentou a confiança da equipa de Dresden. O talento abundava: Matthias Sammer estava a dar os primeiros passos e era titular com apenas 18 anos e Ulf Kirsten era destaque no ataque aos 20 anos. Depois, na equipa orientada por Klaus Sammer, pai de Matthias, havia ainda o extremo goleador Frank Lippmann.

Frank Lippmann era a maior vedeta do Dínamo Dresden

Nos primeiros cinco jogos da campanha, Lippmann (24 anos) tinha marcado quatro golos. E, em Uerdingen, festejou mais uma vez, ainda na primeira parte. O Dínamo Dresden parecia imparável: foi para o intervalo a vencer por 3-1 e tinha um pé e meio nas meias-finais.

A lesão de Matthias Sammer (substituído aos 28 minutos) não chegava para assustar. Nem mesmo a substituição do guarda-redes Bernd Jakubowski, também lesionado, ao intervalo. A vantagem de 5-1 parecia demasiado grande; além do mais, a equipa já tinha marcado fora. Feitas as contas, o Bayer Uerdingen precisava de marcar cinco golos na segunda parte. Era uma tarefa hercúlea. Impossível de acontecer. Não estivesse do outro lado uma equipa da RDA.

A entrada de Jens Ramme para a baliza não justifica tudo. Num espaço de sete minutos, entre os 58 e os 65, o Bayer Uerdingen marcou três vezes e ficou em vantagem no marcador, por 4-3. Era insólito mas continuava a ser suficiente para o Dínamo seguir em frente.

À entrada para o último quarto de hora, a vantagem mantinha-se do lado da RDA, que até podia sofrer mais uma vez. E foi precisamente isso que aconteceu aos 78 minutos. Num abrir e fechar de olhos, a equipa da RFA voltou a marcar (81 minutos) e fechou a contagem aos 86. Feitas as contas, o Bayer Uerdingen venceu o jogo por 7-3 e a eliminatória por 7-5.

«Não há nada que possa desculpar este desfecho», disseram os dirigentes do clube. «Milagre do Estádio Grotenburg», exultou a imprensa da Alemanha federal.

Por mais estranho que possa parecer, o pior ainda não tinha acontecido. Na manhã seguinte, Frank Lippmann decidiu fugir e deixar para trás os seus colegas. A afronta à RDA, ainda a recuperar da humilhação da eliminatória, foi tão grande que as imagens dos festejos do seu golo foram cortadas do resumo televisivo no dia seguinte.

Lippmann tinha uma relação conturbada com a Stasi. No passado tinha recusado o papel de informador – algo que muitos dos seus colegas faziam sem grandes resultados concretos, como é exemplo Ulf Kirsten – e estava a ser investigado pelo acidente contra uma carrinha que transportava prisioneiros do Estado. Ali, depois da humilhação aos pés do Bayer Uerdingen, a oportunidade para escapar foi perfeita.

Quem ficou para trás pagou por isso. O seu colega de quarto, o experiente líbero Hans-Jürgen Dörner, perdeu a braçadeira de capitão e foi praticamente forçado a terminar a carreira dois meses depois. O treinador Klaus Sammer, mais um ávido crítico do estado das coisas na RDA, ficou com o futuro incerto e também saiu do clube, só voltando a treinar seis anos depois, precisamente no Dínamo Dresden.

À sua maneira, todos foram protagonistas de uma das histórias mais rocambolescas do futebol europeu. E uma das mais negras da República Democrática da Alemanha.

Manfred Rossner. O árbitro que serviu de bode expiatório

Manfred Rossner ao fundo

Exibição repleta de erros que favoreceram o Dínamo Berlim na final da Taça em 1985 levou a um castigo inédito por parte da federação. Pressão do público era cada vez maior e árbitro internacional foi utilizado como bandeira de propaganda. Na verdade, pouco mudou depois disso.

A hegemonia do Dínamo Berlim na República Democrática da Alemanha foi sempre contestada pelos dirigentes e adeptos dos clubes rivais. O regime queria ter um campeão na capital e o favorecimento do patrão da Stasi, Erich Mielke, ao clube era indesmentível. Quando o Dínamo começou a acumular títulos de campeão – dez consecutivos entre 1979 e 1988 -, as pessoas perderam a paciência.

A RDA fomentava o envio de cartas e petições sobre assuntos da sociedade. O futebol, naturalmente, estava entre o topo dos motivos de interesse dos comuns mortais e, a meio da década de 80, as polémicas com a arbitragem subiram de tom e levaram a que surgissem cada vez mais exigências para fazer face aos óbvios favorecimentos ao Dínamo Berlim.

A federação não teve outra solução a não ser agir. Sem agitar muito as águas, para não ferir suscetibilidades no aparelho do partido, não podia ignorar a vaga de fundo que estava a ser criada na sociedade. Por isso, decidiu elaborar um relatório sobre o desempenho dos árbitros.

Quando se disputou a final da Taça da RDA, em junho de 1985, já a ideia de que o Dínamo Berlim era beneficiado estava confirmada pela estatística. Talvez por isso, o árbitro da final, Manfred Rossner, tenha sido abordado por dois elementos diferentes da federação a alertar para a necessidade de não cometer erros a favor do campeão.

O jogo foi um desastre. O Dínamo Dresden venceu o rival de Berlim (3-2) mas a atuação de Rossner, e dos seus árbitros assistentes (Klaus Scheurell e Widuking Herrmann), gerou nova onda de indignação. No total, a federação e um dos principais jornais alemães receberam cerca de 700 cartas de protesto.

A pressão levou a que se realizasse uma reunião semanas depois para analisar, com recurso a vídeo, o desempenho da equipa de arbitragem. Os dados foram, uma vez mais, esmagadores: Rossner tinha errado 30% das decisões durante os 90 minutos da final e dos 17 erros cometidos, 14 tinham sido a favor do Dínamo Berlim. E mais: na categoria de «erros clamorosos», apenas um não beneficiara o clube da capital.

«Consigo tolerar uma arbitragem com erros, mas estes devem ser repartidos. Dificilmente um árbitro conseguiria errar mais sempre para o mesmo lado», queixava-se um adepto numa das cartas enviadas. A federação deu-lhe razão e decidiu agir: Rossner foi banido de toda a arbitragem internacional e dos jogos da Oberliga; Herrmann acabou a carreira e Scheurell foi obrigado a ficar de fora de jogos europeus para os quais já tinha sido nomeado. Mais tarde, porém, Scheurell acabou mesmo a fazer parte de um evento histórico, arbitrando o primeiro e único jogo internacional da seleção feminina.

Nunca houve qualquer prova de interesses alinhados. Durante todo o período de hegemonia do Dínamo Berlim, nunca foi revelado qualquer sinal de ligação entre árbitros e agentes da Stasi ou dirigentes do clube.

O que toda a gente acreditava que se passava era um conceito de «obediência silenciosa». Os árbitros sabiam que o Dínamo Berlim era o clube preferencial e, consciente ou inconscientemente, decidiam sempre a favor dos mesmos. Em 1985, isso mudou. O Dínamo Berlim continuou a ser campeão, mas o número de castigos a árbitros que erravam nestes jogos multiplicou-se, sempre com sanções pesadas que incluíam a suspensão por uma época. Manfred Rossner foi o primeiro.

Lutz Eigendorf. Uma morte acidental na sombra da Stasi

Lutz Eigendorf era um desequilibrador

Era um dos jogadores mais talentosos da RDA e alinhava pelo Dínamo Berlim, clube com o apoio da Stasi. Uma noite, depois de um particular na RFA com o Kaiserslautern, decidiu fugir e procurar asilo na Alemanha vizinha. É o caso mais famoso da fuga de um futebolista por ter acabado com uma estranha morte… quatro anos depois.

Lutz Eigendorf não foi um jogador qualquer. Já não o era mesmo antes de ter fugido para a RFA. Produto da formação das escolas de futebol de Berlim, não tardou até ser uma aposta frequente no Dínamo da cidade, equipa que viria a ser associada diretamente à Stasi, a polícia política da República Democrática da Alemanha.

A estreia oficial deu-se em 1974, antes do período áureo do clube, e o progresso foi vertiginoso. Tornou-se uma figura indissociável da equipa e em 1978 jogou pela primeira vez pela seleção, marcando dois golos no empate com a Bulgária (2-2).

Se quisesse, Eigendorf teria sido um jogador privilegiado. Tinha qualidade e estava ao serviço da «equipa do Estado», ainda que esta referência fosse apenas tácita e não declarada. Mas Eigendorf não estava disposto a abdicar dos seus direitos, da sua liberdade. Por isso, na noite de 20 de março de 1979, tudo mudou.

O Dínamo Berlim estava a regressar a casa depois de um encontro particular na RFA com o Kaiserlautern. Estas viagens eram sempre altamente controladas – muitos dos jogadores eram informadores da Stasi – e só viajavam os futebolistas que não constituíssem um risco de fuga acrescido.

Eigendorf passou no teste. Tinha família em Brandemburgo e uma mulher e uma filha à espera em Berlim. E não havia nenhum contacto, familiar distante ou amigo, na Alemanha Federal. Normalmente, estas duas características eram suficientes para garantir a aprovação. Mas o futebolista trocou-lhes as voltas.

A fuga deu-se durante uma paragem numa estação de serviço junto à fronteira. Sem que ninguém desse por isso, Eigendorf apanhou um táxi, regressou a Kaiserslautern e pediu asilo com sucesso. Na RDA, esta aventura foi vista como um insulto e uma afronta pessoal a Erich Mielke, líder da Stasi.

Felicidade ausente e a morte trágica

O estado em que ficou o Alfa Romeo de Lutz

A vida na RFA não correu como esperava. A UEFA suspendeu-o por um ano por causa da fuga e não teve opção para gastar o tempo a não ser orientar uma equipa de formação do Kaiserslautern. A família tinha ficado para trás.

Para a Stasi, o mal estava feito mas havia formas de equilibrar o assunto. A mulher e a filha passaram a ser vigiadas de perto, bem como os pais. Desse por onde desse, a polícia do Estado ia impedir que Eigendorf pudesse voltar a ver a sua família.

Dentro de campo, quando voltou, o cenário não melhorou. A aventura no Kaiserslautern foi fugaz e acabou transferido para o Eintracht Braunschweig, em 1982, à procura de melhores oportunidades. Três anos depois da deserção, tudo estava diferente. A mulher, apaixonada por um agente da Stasi à paisana, tinha conseguido o divórcio. Nada voltaria a ser como antes.

Quis o destino que uma noite de março voltasse a ser importante na vida de Eigendorf. Na noite de 5 para 6 em 1983, o futebolista teve um acidente de viação grave ao volante do seu Alfa Romeo, saindo da estrada e acabando a embater numa árvore. Foi transportado para o hospital com lesões graves na cabeça e no peito e acabou por morrer dois dias depois.

O relatório da polícia garante que não houve outros veículos envolvidos, que o carro não apresentou problemas mecânicos e que Eigendorf viajava sem cinto de segurança e… com uma taxa de álcool no sangue muito acima do permitido por lei. E assim fechou a investigação.

Praticamente duas décadas depois, em 2000, o jornalista Heribert Schwan aventou a possibilidade de assassinato. De acordo com a sua teoria, o jogador teria sido raptado, forçado a beber álcool misturado com uma substância venenosa e perseguido na estrada a alta velocidade até ter o acidente.

O nível de álcool ajuda a sustentar esta hipótese: era equivalente a 4,3 litros de cerveja ou a dois litros de vinho. E logo ele, alguém que não tinha a fama de beber muito e que naquela noite, de acordo com algumas testemunhas, tinha bebido apenas uma ou duas cervejas.

O caso ficou sempre na mesma. Nunca nada foi encontrado que sustentasse a tese de assassinato, mas a desconfiança popular sempre existiu. A Stasi operava desta forma e era precisamente isto que se esperava de Mielke e da RDA. Até pode ter sido apenas um acaso infeliz, mas ninguém duvida que possa ter sido o oposto.

O desastre europeu da RDA em 1982

Dínamo Berlim foi eliminado pelo Hamburgo na Taça dos Campeões Europeus

Vitória do Magdeburgo na Taça das Taças em 1974 e derrota na final da mesma competição do Carl Zeiss Jena em 1981 tinham ajudado a pôr a RDA no mapa do futebol europeu, mas a temporada 1982/1983 teve um desfecho desastroso: cinco equipas participaram em competições da UEFA, nenhuma atingiu a segunda ronda.

Os tempos eram diferentes. É certo que havia duas Alemanhas em vez de uma mas a UEFA tinha apenas 33 federações. Havia União Soviética, Jugoslávia e Checoslováquia, três pesos pesados que tiveram dificuldades em manter as posições de poder a partir do momento da desintegração.

À entrada para a temporada 1982/1983, a RDA ocupava o sétimo lugar do ranking, com 29,450 pontos. A vizinha Alemanha dominava a Europa do futebol, com praticamente 52 pontos, enquanto Inglaterra, Holanda, Espanha, Bélgica e França ocupavam os postos intermédios. Portugal, com 21,750 pontos, estava num modesto 13.º lugar, imediatamente atrás de uma Itália que se mantinha à procura de uma nova vida, ainda em plena fase de rescaldo do escândalo dos jogos manipulados.

A verdade era esta: a RDA só tinha um troféu na sua história, num total de duas finais europeias, mas estava longe de ser uma federação fraca a nível de competições de clubes. Por isso, ninguém conseguiu prever o descalabro que a primeira ronda da temporada 1982/1983 iria ser.

O panorama nacional na RDA era dominado pelo Dínamo Berlim. A equipa que cresceu através de um apoio tácito da Stasi e do seu líder Erich Mielke estava em plena fase de hegemonia esmagadora – contra todas as críticas dos adversários às arbitragens e eventuais favorecimentos -, mas nunca conseguiu fazer a diferença contra adversários estrangeiros.

A história é intemporal. «Lá fora, com outros árbitros, fica mais difícil», acusavam os adversários. Aconteceu na RDA durante toda a década de 80 e em tantos outros países, inclusive Portugal, desde então. Na Taça dos Campeões Europeus, o Dínamo caiu aos pés do Hamburgo.

A equipa do norte da RFA era muito forte e o desfecho da eliminatória não constituiu necessariamente uma surpresa (até porque o Hamburgo viria a conquistar o título), mas nada era pior do que perder contra uma equipa de uma Alemanha que representava exatamente o contrário do que a RDA defendia.

Este não foi o único afastamento contra vizinhos na temporada. Na Taça UEFA, o Vorwärts Frankfurt ficou pelo caminho contra o Werder Bremen… no desempate. A equipa de Bremen venceu na RDA na primeira mão, por 3-1, e de nada valeu a resposta do Vorwärts na segunda ronda (triunfo por 2-0). No desempate, os golos marcados fora fizeram a diferença.

Se ser eliminado por adversários da RFA parecia ser a humilhação extrema, as três equipas restantes que representaram a RDA nas competições europeias nesta temporada não podem dizer que fizeram muito melhor.

Ainda na Taça UEFA, o Carl Zeiss Jena deixou fugir uma vantagem de 3-1 na primeira mão contra o Bordéus. Finalista da Taça das Taças dois anos antes, a equipa de Jena até podia ser vista como candidata a chegar longe, mas a hecatombe em França foi insuportável, com uma goleada por 5-0. Pior: Dieter Müller, da RFA, fez um hat-trick para compor a humilhação.

O FC Lokomotive Leipzig era claramente favorito contra o Viking. A Noruega ocupava o 25.º lugar do ranking e os desempenhos das suas equipas eram sempre escassos para fazer frente aos tubarões europeus. Ainda assim, conseguiram surpreender os alemães de leste na primeira ronda: 1-0 em casa. A segunda mão parecia adivinhar uma reviravolta que se começou a escrever na segunda parte. Liebers e Kühn desenharam o 2-0 com golos aos 56 e 61 minutos e os 13500 alemães nas bancadas pareceram respirar de alívio mas, à semelhança do que tinha acontecido em 1979 no RDA-Holanda, precisamente no mesmo estádio, a vantagem de 2-0 não foi suficiente.

O Viking chegou ao empate com golos aos 66 e 83 minutos e de nada valeu o 3-2 de penálti, marcado por Zötzsche, aos 86 minutos. Tal como o Vorwärts, a equipa caía no desempate por golos marcados fora de casa. E não seria a última.

O Dínamo Dresden foi a quinta equipa a entrar em ação, como representante da RDA na primeira mão da Taça das Taças. O B93, da Dinamarca (19.ª no ranking), parecia ser um adversário bastante acessível mas a vitória na primeira mão em casa (3-2) não deu grande conforto. Ainda por cima, uma vez mais, tinha havido uma vantagem promissora de 2-0 (Trautmann bisou com golos aos 8 e 15 minutos). Na segunda mão, o Dínamo pareceu ter a eliminatória na mão quando Pilz marcou aos dez minutos mas… a tradição negra da RDA tem muita força e o B93 concretizou a reviravolta na segunda parte (2-1).

Dez jogos depois, a RDA tinha ficado sem as suas cinco representantes nas competições europeias. No acumulado, tinham contribuído com apenas 1,8 pontos para o ranking e fizeram com que o país descesse para o 13.º lugar. O desastre é ainda mais percetível quando se percebe que apenas três outras federações ficaram de fora após a primeira ronda: Chipre, Luxemburgo e Malta.

A pressão interna tornou-se ensurdecedora: por todo o país chegavam petições a alertar os responsáveis para a forma como a preferência dada ao Dínamo Berlim estava a prejudicar o futebol nacional. Mas, neste caso, o Dínamo era só parte do problema.

Carl Zeiss Jena. O lado derrotado na festa do Bloco Oriental

Düsseldorf acolheu final entre soviéticos e alemães de leste

A final da Taça das Taças em 1981 foi histórica: pela segunda vez na história, uma competição europeia ia ser discutida entre duas equipas de leste. Se os soviéticos do Dínamo Kiev tinham levado a melhor sobre o Ferencvaros em 1975, em 1981 foi a vez de o Dínamo Tbilisi derrotar o Carl Zeiss Jena. Foi a segunda presença da RDA numa final europeia.

O Carl Zeiss Jena foi uma das melhores equipas da República Democrática da Alemanha. Mas, com três títulos nacionais para amostra (1963, 1968 e 1970), nunca conseguiu estar ao nível de potências como Dínamo Berlim, Dínamo Dresden e Magdeburgo. A década de 70, marcada pela estreia nas competições europeias, foi o melhor período do clube, mas só em 1981 é que conseguiu chegar a uma final, na Taça das Taças.

Para compreender o que se passou nessa temporada é preciso recuar até à época anterior. Mais do que nunca, o campeonato parecia ser de uma potência só. O Dínamo Berlim foi campeão pela segunda vez consecutiva na última jornada, ao derrotar o então líder Dínamo Dresden por 1-0, e o Carl Zeiss Jena não foi além do terceiro lugar, a onze pontos do primeiro lugar. A classificação seria suficiente para disputar a Taça UEFA mas a equipa garantiu outro passaporte graças ao desempenho na final da Taça da RDA.

À semelhança do que aconteceu na Oberliga, também a Taça doméstica foi decidida em cima da reta final. O Rot-Weiss Erfurt marcou primeiro (Romstedt 40’) e esteve a vencer até dez minutos do final. Aí, Jürgen Raab empatou (81’) e forçou o prolongamento. Motivados pela segunda oportunidade, os jogadores orientados por Hans Meyer não deram hipóteses no início do tempo extra e marcaram dois golos de rajada: Lothar Kurbjuweit aos 94 minutos e Dietmar Sengewald aos 97.

Quando a nova temporada começou, a campanha europeia tornou-se uma prioridade. A nível doméstico, a Stasi e a simpatia dos árbitros pareciam empurrar o campeonato sempre para os mesmos; a nível internacional, a sorte podia ser outra.

A campanha do Carl Zeiss Jena foi verdadeiramente notável… e teve muito pouco de fácil. Na primeira ronda, uma derrota em Itália com a Roma por 3-0 (Ancelotti marcou um dos golos) transformou o apuramento em missão praticamente impossível mas, numa tendência pouco habitual para as equipas da RDA, os jogadores não vacilaram e protagonizaram uma noite inesquecível a 1 de outubro de 1980: o Carl Zeiss Jena seguiu em frente ao golear por 4-0 e o apuramento foi garantido com um golo de Andreas Bielau a três minutos do fim.

O Valencia foi o adversário que se seguiu e a eliminatória voltou a ser decidida nos detalhes. Depois de ganhar em casa por 3-1, o Carl Zeiss Jena viajou até Espanha sabendo que tudo poderia acontecer. Perdeu, é certo, mas apenas por 1-0 (Botubot aos 61 minutos), disputando os últimos minutos com o coração nas mãos.

Olhando para 1981 com os olhos de 2019, é impossível não achar que o duelo dos quartos de final com os galeses do Newport County era uma tarefa fácil. O que aconteceu em campo foi radicalmente diferente. Em Jena, a equipa britânica surpreendeu e arrancou um empate a dois golos em cima do minuto 90, garantindo que iria jogar a segunda mão em vantagem.

A equipa da RDA estava obrigada a vencer em Gales – ou pelo menos a marcar dois golos – e não desiludiu, graças a um golo solitário de Kurbjuweit aos 27 minutos. Nas meias-finais, uma equipa portuguesa surgiu no caminho pela terceira vez na história. Depois de eliminar o Sporting na Taça dos Campeões Europeus em 1970/1971 e de ser afastado pelo Benfica na segunda mão da Taça das Taças em 1974/1975, o Carl Zeiss Jena teve uma oportunidade de desforra contra os encarnados.

A equipa de Chalana, Humberto Coelho, Carlos Manuel e companhia não teve argumentos para os alemães de leste. A primeira mão, no Ernst Abbe Sportfield, foi decidida com dois golos madrugadores (Bielau 8’ e Raab 15’) e duas semanas depois, na Luz, um golo de Reinado foi insuficiente para impedir que o Carl Zeiss Jena atingisse a final.

A 13 de maio de 1981, em Düsseldorf, o Carl Zeiss Jena defrontou o Dínamo Tbilisi com o objetivo de se tornar a segunda equipa da RDA a vencer uma final europeia. Sete anos antes, em Roterdão, o Magdeburgo vencera o Milan e fizera história. Agora, havia esperança. E Hoppe, o autor do 1-0 para o Carl Zeiss Jena aos 63 minutos.

Perante uma assistência praticamente insignificante de 4750 pessoas – tal como em 1974, o sistema de autorizações de adeptos da RDA filtrara toda a gente a não ser diplomatas e pessoas que ocupavam cargos estatais -, o título pareceu estar ao alcance.

Desta vez, porém, a tragédia de deixar fugir as vitórias por entre os dedos chegou mesmo à equipa de Hans Meyer. Vladimir Gutsaev empatou para os georgianos aos 67 minutos e Vitaly Daraselia decidiu a final com um golo a quatro minutos do fim. O sonho do Carl Zeiss Jena morria ali, na praia, praticamente sem hipótese de resposta.

A cumplicidade criminosa de Matthias Müller e Peter Kotte

Gerd Weber foi o grande responsável pelo fim simultâneo de três carreiras

Stasi prendeu três jogadores do Dínamo Dresden no aeroporto a 24 de janeiro de 1981. Gerd Weber estava interessado em ir jogar para o Colónia da República Federal da Alemanha e planeava uma fuga em breve, mas o único crime de Matthias Müller e Peter Kotte, que ficaram com a carreira destruída, foi saber o que estava a acontecer e não reportar nada à polícia.

Gerd Weber, Matthias Müller e Peter Kotte eram três elementos fundamentais do Dínamo Dresden, que lutava para travar a hegemonia do Dínamo Berlim no futebol da República Democrática da Alemanha. Os três vão ficar para sempre ligados, desde logo porque a despedida da carreira ao mais alto nível aconteceu no mesmo dia: 29 de novembro de 1980.

Neste dia, no da 13.ª jornada da Oberliga, a última antes da pausa de inverno, o Dínamo Dresden venceu no terreno do BSG Stahl Riesa por 2-0. Peter Kotte marcou pelo terceiro jogo consecutivo e atingiu os sete golos em dez jogos. Gerd Weber (seis golos em oito jogos) e Matthias Müller (um em 10) também foram utilizados pelo técnico Gerhard Prautzsch.

Por esta altura, o plano de Gerd Weber já estava em andamento. Na segunda eliminatória da Taça UEFA, semanas antes, o futebolista tinha aproveitado a viagem a Enschede, na Holanda, para ter uma reunião com desertores da RDA que o queriam convencer a ir jogar para a Bundesliga, ao serviço do Colónia. A proposta de 200 mil marcos anuais era tentadora e estendia-se aos dois colegas de equipa.

Weber estava interessado. Era informador da Stasi desde 1975 e já tinha elaborado mais de 70 relatórios sobre colegas, mas estava farto dessa vida e ir para o Ocidente era a solução perfeita. Müller e Kotte, pelo contrário, não estavam interessados: ouviram a proposta e recusaram a oportunidade.

A Stasi não quis saber e naquele dia de janeiro, no aeroporto de Schönefeld, antes de a seleção nacional partir para uma digressão na América do Sul, deteve os três jogadores. As justificações de Müller e Kotte não serviram de nada: sabiam do que se estava a passar e falharam em comunicar as intenções de Weber.

As sanções foram diferentes. Weber foi condenado a 27 meses de prisão, expulso do partido e das forças policiais, perdeu todas as condecorações e privilégios, e foi banido do futebol. O atacante acabou por servir apenas nove meses, tendo depois cumprido mais um castigo de seis meses sem poder viajar dentro do Bloco Oriental.

O jogador nunca mais quis trabalhar com a Stasi, e nem mesmo as promessas de poder voltar a jogar futebol o seduziram. Oito anos depois, em vésperas da queda do Muro de Berlim, Weber aproveitou a abertura da fronteira entre a Hungria e a Áustria e cumpriu finalmente o seu desejo… demasiado tarde.

Voltar a jogar futebol não era necessariamente uma benesse, e Müller e Kotte aperceberam-se disso da pior maneira. Como eram apenas cúmplices, as detenções foram mais suaves – cinco dias. Foram, além disso, expulsos dos quadros da polícia e impedidos de voltar a jogar futebol ao mais alto nível, sendo forçados a alinhar nos escalões secundários. Voltaram ainda a ser elegíveis para seis meses de serviço militar e foram obrigados a fazer trabalho manual.

A dupla sempre acreditou que havia um pote de ouro à espera no final do arco-íris. Acharam que se acatassem as decisões e trabalhassem com afinco poderiam apelar ao espírito social comunista e voltar a jogar futebol de topo.

Por duas vezes, fizeram uma petição dirigida ao patrão da Stasi, Erich Mielke. Por duas vezes esta foi recusada. «A impossibilidade de jogar futebol de elite tem-me causado muitas horas dolorosas», lamentava Müller na primeira. Não serviu de nada.

A RDA tinha-os esquecido. Logo em 1981, deixaram de aparecer nas listas de melhores marcadores e as fotografias foram adulteradas para não exibir traidores. As perspetivas de vida para Müller não eram mais do que jogar como amador e estudar para ser professor na área do desporto. Só isso.

Oficialmente, a posição das autoridades sublinhava que a dupla tinha cometido uma «violação grave dos princípios do movimento desportivo socialista e das regras da vida social comunista». E nada mais voltou a ser o mesmo.

RDA. A inevitável tragédia de deixar fugir a glória

Holanda foi uma laranja muito amarga em 1979

Sucesso nos Jogos Olímpicos nunca foi verdadeiramente replicado nas maiores provas de seleções. Presença no Mundial em 1974, na vizinha Alemanha, foi um oásis num deserto povoado por desilusões marcadas a ferro pelo «quase». Nenhuma foi mais dolorosa do que o fracasso no apuramento para o Euro-1980.

Os Jogos Olímpicos foram sempre a praia dos alemães de leste. Qualquer pessoa com uma amostra significativa de cultura desportiva conhecerá esta fama, mesmo que não vá ao ponto de saber que estes resultados também chegavam no futebol olímpico. Aí, entre 1964 e 1980, a RDA conquistou quatro medalhas: ouro em Montreal-1976, prata em Moscovo-1980 e bronze em Tóquio-1964 e Munique-1972.

Esta aparente sensação de hegemonia era radicalmente diferente quando o que estava em causa eram participações nas fases finais do Europeu ou do Mundial. Aí, à semelhança de tantos outros episódios ao nível de clubes, havia sempre algo a correr mal, mesmo quando parecia que o sucesso estava alcançado praticamente ao cortar a meta.

A presença da RDA no Mundial em 1974, organizado pela RFA, é uma das memórias mais fortes desta geopolítica desportiva. Sim, a RFA foi até ao fim e conquistou o título pela segunda vez, mas a RDA regressou a casa com o orgulho intacto ao ter conseguido vencer a sua maior rival durante um jogo da fase de grupos.

Este pode ter sido o jogo mais importante na história da seleção da Alemanha de Leste. Mas outros poderiam ter acontecido não fosse a inclinação mórbida para a desgraça. Os fracassos não tiveram todos o mesmo impacto.

Comecemos pelas qualificações para o Mundial. Em 1969, a RDA precisava de vencer em Nápoles na última jornada: perdeu 0-3. Em 1977 e em 1985, perdeu os apuramentos por um ponto. Em 1989, num jogo disputado seis dias depois da queda do Muro de Berlim, um empate chegaria na Áustria mas os jogadores estavam com a cabeça no futuro e sofreram nova derrota pesada (0-3).

Nas qualificações para o Europeu, talvez por culpa de um formato mais apertado, as desilusões em cima do «apito final» não foram tão frequentes. Mas a maior foi, sem dúvida, a que aconteceu na noite de 21 de novembro de 1979.

A RDA estava no grupo 4 com a Holanda, a Polónia, a Suíça e a Islândia. Nos primeiros sete jogos, somara cinco triunfos, um empate e uma derrota, e seguia com onze pontos. Naquela noite de novembro, em Leipzig, perante mais de 90 mil espetadores e com um árbitro português (António Garrido), a celebração estava à distância de uma vitória.

A Polónia liderava com 12 pontos mas já tinha feito os oito jogos, enquanto a Holanda, que havia derrotado os alemães de leste por 3-0 em Roterdão um ano antes, também tinha onze pontos. Feitas as contas: só a vitória interessava. E não era assim tão impossível.

O que se passou naqueles 90 minutos só não entra para a história do maior colapso futebolístico de uma equipa da RDA porque o Dínamo Dresden conseguiu fazer ainda pior na década de 80. Mas esteve lá perto.

Festa alemã não estava feita para durar

Tudo parecia correr bem à RDA. Quando Schnupasse marcou o primeiro golo aos 17 minutos, a multidão festejou de forma exuberante. Mais tarde, aos 33 minutos, António Garrido assinalou uma grande penalidade que Joachim Streich, máximo goleador na história da RDA (seleção e campeonato nacional), não desperdiçou.

António Garrido viu o 2-0 de perto

Ali, de repente, o horizonte era promissor e nada fazia antever que a Holanda ia conseguir a reviravolta. Quando Frans Thijssen reduziu perto do intervalo, os alemães de leste, habituados a ver a glória fugir por entre os dedos, começaram a fazer contas à vida. E, quando Kees Kist empatou no início do segundo tempo, aproveitando uma paragem cerebral de dois defesas que ficaram imóveis depois de um cruzamento, tornou-se impossível fugir ao destino.

Sim, a RDA continuava a precisar de apenas um golo para celebrar a qualificação mas os adeptos já tinham passado demasiadas vezes por aquele drama. Sabiam que, chegada a altura, no momento decisivo, não valia a pena sofrer: a equipa ia vacilar. E vacilou ainda mais, fruto do 3-2 do holandês René van de Kerkhof aos 70 minutos. A equipa já não tinha cabeça, jogava só com o coração e os erros iam aparecendo uns atrás dos outros.

Naquela noite fria de Leipzig, a segunda maior cidade da RDA, praticamente cem mil pessoas viram fugir a melhor oportunidade da sua história para marcar presença numa fase final de um Europeu. Nunca o cenário tinha parecido tão favorável. E nunca voltou a sê-lo depois disso.

Estavam a jogar em casa, a ganhar 2-0, perante mais de 90 mil espetadores e com apenas 50 minutos para jogar. E perderam. Era inevitável.

Dínamo Berlim. A construção de uma hegemonia forjada

Dínamo Berlim venceu todos os campeonatos da RDA entre 1979 e 1988

Foi campeão durante dez anos consecutivos, entre 1979 e 1988, mas nunca conseguiu conquistar verdadeira admiração na República Democrática da Alemanha. Visto como o clube do regime, somava decisões de arbitragem simpáticas a nível interno e desilusões desportivas nas competições internacionais. O fim da RDA foi também o seu.

«Decerto que compreenderão que a capital do país precisa de uma equipa campeã.» A frase atribuída a Erich Mielke, líder da Stasi (a temível polícia de Estado da RDA), nunca foi confirmada mas ajuda a explicar muita coisa. Naquela noite de 2 de dezembro de 1978, o Dínamo Berlim tinha empatado em Dresden com o Dínamo local (1-1) num jogo recheado de polémica.

Os protestos subiram de tom, houve 35 detenções entre os adeptos e o autocarro da equipa da capital foi brindado com uma chuva de bolas de neve à saída do estádio. Foi também por esta altura que Mielke terá descido ao balneário do Dínamo Dresden – tricampeão em título – para justificar o que se estava a passar. E, mais importante do que isso, o que era inevitável.

O Dínamo Berlim continuava sem títulos mas estava numa caminhada triunfal rumo à conquista da Oberliga em 1978/1979. O golo sofrido em Dresden foi o primeiro em onze jornadas e até lá tinha dez vitórias consecutivas. Nada lhe poderia fazer frente nesta passada esmagadora rumo a uma hegemonia forjada.

A frase de Mielke foi premonitória. O Dínamo Berlim terminou o campeonato com 46 pontos (21 vitórias, quatro empates e uma derrota) e conquistou o primeiro de dez títulos consecutivos. A concorrência foi relegada para segundo plano. Época após época, só dava Dínamo. A profecia do líder da Stasi tinha sido cumprida mas continuava a faltar algo: a confirmação do poder na Europa do futebol.

Durante esta impressionante série, o clube só chegou aos quartos de final de competições europeias duas vezes, e somou fracassos. É certo que pode recordar derrotas perante futuros campeões, como Nottingham Forest, Aston Villa e Hamburgo, mas também caiu aos pés de Austria Viena (2), Banik Ostrava e Brondby.

No meio de tantas eliminações precoces, a maior humilhação foi mesmo em 1988/1989 contra o Werder Bremen. Na primeira mão, em casa, Berlim engalanou-se para a festa. A Stasi montou o habitual circuito de vigilância para garantir que nada falhava, até porque o presidente de Berlim Ocidental, Willy Brandt, ia estar no estádio.

O triunfo por 3-0 foi um verdadeiro tónico para a RDA. Mas, à semelhança de tantas outras vezes, a equipa desmoronou-se na segunda mão, acabando de rastos com cinco golos sem resposta. A discussão era antiga: sim, o Dínamo Berlim tinha capacidade para conquistar a Oberliga mesmo jogando apenas a 80% das suas forças, mas os 20% extra faziam muita diferença no estrangeiro.

Erick Mielke felicita jogares do Dínamo

Esta eterna dicotomia entre internacionalismo (mostrar com orgulho o talento da RDA) versus isolacionismo (esmagar a competitividade interna ao promover uma equipa da capital) foi motivo de muita discussão. Os adversários – clubes e adeptos – indignavam-se cada vez com mais determinação e a pressão tornou-se tão grande que a federação foi forçada a agir, chegando a afastar alguns árbitros.

Apesar de nunca terem sido descobertas provas de que a Stasi controlava o campeonato (e os árbitros), a verdade é que pairava uma ideia de necessidade de agradar. Ou seja, os árbitros não precisavam de ser pressionadas para ajudar, faziam-no quase que inconscientemente, talvez temendo represálias.

A sensação de hegemonia forjada trabalhou sempre contra o Dínamo Berlim. A equipa nunca foi verdadeiramente popular e as médias de espetadores ultrapassavam, por pouco, as 11 mil pessoas. Quando a RDA se aproximou do seu declínio, também o Dínamo foi ultrapassado pela concorrência.

Na última Oberliga, já depois de ter passado a ser conhecido por FC Berlim, numa tentativa de criar alguma distância com o passado, não foi além do 11.º lugar, que significava um recomeço no terceiro escalão da Alemanha unificada. Nessa temporada, a média de espetadores foi de 781. No primeiro jogo da temporada seguinte, apareceram apenas 76 pessoas.

Os últimos resquícios do Dínamo Berlim estavam sem brilho. Os dez títulos nunca foram verdadeiramente reconhecidos e a ausência de resultados europeus dignos de nota não ajudou. Para muitos, as maiores memórias são mesmo de um clube que se tornou um antro de adeptos hooligans que semeavam o pânico por onde passavam.

Hans-Jürgen Kreische. O herói que Dresden não conseguiu controlar

Hans-Jürgen Kreische

Um perfil realizado sobre a estrela do Dínamo Dresden durante a década de 70 poderia facilmente compará-lo a figuras do desporto como James Hunt ou George Best. O talento inesgotável de Kreische corria na família e foi suficiente para acumular golos e títulos na RDA, mas a sua vida mundana tornou-o demasiado problemático.

Hans-Jürgen nasceu a 19 de julho de 1947, três anos antes de o pai, Hans Kreische, ter feito parte de um dos primeiros momentos de tensão no futebol da República Democrática da Alemanha. Futebolista do Friedrichstadt de Dresden, Hans (pai) lutou até ao fim pelo título de 1950 com o Horch Zwickau. O segundo lugar foi um mal menor para o clube, que acabou dissolvido depois de inúmeros dos seus jogadores terem ido para clubes da República Federal da Alemanha.

Hans foi um deles mas não aguentou mais do que quatro anos. Com saudades de casa, decidiu regressar e devolveu o pequeno Hans-Jürgen à cidade que o tinha visto nascer e que acabaria por ver crescer enquanto um dos melhores jogadores da história da Oberliga.

O cartão de visita do segundo Kreische intimidava. Com uma técnica individual apuradíssima, era visto como um jogador impossível de desarmar. Velocíssimo, tinha um faro pelo golo muito apurado, apesar de jogar mais junto ao flanco. Em 1965, quando marcou o golo que ofereceu o título europeu de juniores à RDA (o primeiro grande troféu futebolístico do país), deixou de haver dúvidas sobre o impacto que teria.

O Dínamo Dresden tornou-se uma potência durante a década de 70 muito por culpa de Kreische. Durante esse período, venceu cinco campeonatos, duas Taças da RDA, quatro títulos de melhor marcador e um de melhor jogador da Oberliga. Pelo meio, venceu uma medalha de bronze nos Jogos Olímpicos em 1972 e participou no Mundial-1974.

Kreische acumulou troféus individuais e coletivos

Hans-Jürgen tinha tudo para ser um verdadeiro herói, uma lenda que servisse de bandeira aos ideais da RDA. Mas teve sempre muita dificuldade em vestir essa pele. O seu estilo de vida era considerado um problema no seio do clube e os dirigentes e treinadores faziam o possível para o tentar desviar dessa vida.

As autoridades fizeram o possível para que trabalhasse nas suas «lacunas atléticas e morais». Só em 1969, por exemplo, houve 19 reuniões individuais com o jogador para tentar forçar um comportamento aceitável. Um ano depois, o diagnóstico parecia assumir um tom derrotista: Kreische bebia demasiado, não levava os treinos a sério e acreditava ser muito melhor do que realmente era.

Walter Fritzsch, treinador do Dínamo Dresden entre 1969 e 1978, foi perdendo gradualmente a paciência para lidar com Kreische e decidiu precipitar o fim a meio da temporada 1977/1978. Com 30 anos, o futebolista fez o último jogo da sua carreira a 19 de outubro, na Taça dos Campeões Europeus contra o Liverpool, em Anfield (5-1).

Na altura, ninguém sabia que estava perto do fim. O desempenho no campeonato, com quatro golos em oito jogos, não parecia diferente do habitual, mas Fritzsch estava farto. E na segunda mão da eliminatória com o Liverpool, perante mais de 30 mil espetadores, o treinador seguiu em frente no seu plano derradeiro de humilhar o futebolista e forçar a sua despedida.

Hans-Jürgen Kreische não foi titular. E esteve vinte minutos a aquecer sem ser chamado para entrar. A eliminatória estava perdida e Fritzsch não quis perder a oportunidade. Desde essa noite até ao anúncio da despedida foi uma questão de tempo. Oficialmente, Kreische decidiu que já era velho, que estava na altura de dar oportunidade aos mais novos e que queria facilitar a transição no comando técnico para Gerhard Prautzsch. Oficiosamente, não demorou muito tempo até o próprio Kreische revelar que sentia ter pelo menos mais dois anos para dar ao futebol.

O adeus de Kreische ao futebol coincidiu com o fim da hegemonia do Dínamo Dresden, que só voltou a ser campeão em 1989.

Nachtweih. O fugitivo que teve sucesso no Ocidente

Nachtweih (de vermelho) em ação

Muitos tentaram, poucos conseguiram, e entre os que tiveram sucesso foram muito poucos aqueles que partiram para uma carreira positiva. A exportação indesejada de futebolistas da RDA foi uma tendência durante décadas, mas as tradicionais suspensões por uma temporada fizeram com que muitos jogadores perdessem o ritmo e não fossem capazes de se reencontrar. Norbert Nachtweih fugiu a esta tendência dramática e é visto como o caso de maior sucesso.

Não há uma razão única para caracterizar ou justificar as chamadas «fugas da República». Foi uma tendência transversal à sociedade da Alemanha Oriental e não escolhia idades, géneros ou profissões. Queriam ser livres, ter mais direitos, queriam reencontrar familiares que não viam há anos ou ter uma carreira mais promissora.

Os jogadores de futebol eram um caso peculiar. Por um lado, eram vistos como heróis e tinham benesses que não estavam ao alcance do comum alemão de leste; por outro representavam um risco muito maior à conta da quantidade de vezes que viajavam para o estrangeiro, sendo expostos a um mundo desconhecido e inevitavelmente mais atrativo.

Os cuidados da Stasi antes de cada viagem e a multiplicação de casos fizeram com que, a certa altura, na década de 80, os jogadores começassem a ser proibidos de ficar nos três primeiros andares dos hotéis no estrangeiro. A razão? Impedir qualquer tentação de haver um salto pela varanda rumo a outra liberdade.

Em novembro de 1976, na Turquia, muitas das condicionantes ainda não estavam em plena implementação. Lutz Eigendorf – o caso mais famoso de fuga, muito por culpa do seu trágico fim – ainda não tinha fugido e a seleção jovem não era propriamente um foco de maior atenção.

Entre a comitiva dos sub-21 da RDA estavam Norbert Nachtweih e Jürgen Pahl, os dois jogadores que fugiriam para o Ocidente. O primeiro representava o Chemie Halle e estava longe de ser uma das figuras proeminentes da Oberliga. Estreara-se em maio de 1975 e só agora começava verdadeiramente a despontar, com dois golos nos primeiros dez jogos da temporada 1976/1977.

Hoje, Nachtweih não é famoso como Eigendorf, Sparwasser e Lippmann – casos de fuga mais mediáticos no mundo do futebol – mas será sempre recordado como a exportação de maior sucesso da RDA. Mesmo contra vontade.

As razões da fuga da República foram expostas sem divagações. O jogador reconhecia a qualidade no desenvolvimento dos jovens talentos na RDA mas não concordava com o modelo: «Tudo tem de correr de acordo com o plano, o individualismo não conta para nada».

Em Frankfurt, no Eintracht, Nachtweih encontrou um modelo que se ajustava melhor aos seus desejos e nem o ano de suspensão da FIFA impediu que se tornasse um jogador de grande qualidade. Em 1982, já depois de conquistar uma Taça UEFA e uma Taça da RFA, deu o salto para o Bayern Munique e teve sete anos ao mais alto nível.

Foi campeão da Bundesliga em quatro edições, conquistou mais duas Taças da RFA e só não venceu a Taça dos Campeões Europeus em 1987 porque encontrou o FC Porto de Futre, Madjer e Juary na final.

Quando o Muro de Berlim caiu em novembro de 1989, já Nachtweih vivia nova experiência no estrangeiro, ao serviço do Cannes, onde esteve durante duas temporadas e jogou ao lado de… Zinedine Zidane.

RDA vs. RFA. O duelo mundial que salvou o orgulho nacional

Duas Alemanhas no mesmo campo

Mundial-1974 marcou a primeira e única presença da República Democrática da Alemanha numa fase final de uma grande prova. Confronto com a RFA, anfitriã e futura campeã, foi o ponto mais alto e o golo marcado por Jürgen Sparwasser contribuiu para uma vitória histórica e com grande peso simbólico. Aquele 22 de junho de 1974 ficou recordado como «o dia em que até as mulheres ficaram fãs de futebol».

A atribuição da organização do Mundial-1974 à República Federal da Alemanha ajudou a aumentar o nível de ambição dos alemães de leste. A seleção ainda não tinha conseguido um único apuramento para uma grande prova mas o timing parecia perfeito. A geração de futebolistas era uma das melhores de sempre e, dois anos depois, a equipa conquistara a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Munique.

O sorteio da fase de qualificação abriu caminho para uma campanha praticamente irrepreensível. No grupo 4 com Roménia, Finlândia e Albânia, a equipa de Joachim Streich, Jürgen Sparwasser e Hans-Jürgen Kreische somou cinco vitórias e sofreu apenas uma derrota: na Roménia, por 1-0.

Com 18 golos marcados no apuramento – sete deles por Streich -, a RDA só não foi o ataque mais concretizador da fase de qualificação porque esta era também a geração da Laranja Mecânica que, no grupo 3 com Bélgica, Noruega e Islândia, terminou com 24 golos apontados. Cruijff também marcou sete.

O ano de 1974, considerado por muitos como um dos melhores na história futebolística da RDA, começou com o sorteio da fase final, a 5 de janeiro. O que muitos temiam acabou por acontecer: as duas Alemanhas ficaram no mesmo grupo. Quando o anúncio foi feito pelo então presidente da FIFA, Stanley Rous, o auditório entrou numa espiral de silêncio que, segundos depois, foi substituída por aplausos. O futuro era imprevisível e os rumores – rapidamente negados – de que a RDA poderia desistir da participação na fase final não demoraram muito a surgir.

Entre 5 de janeiro e 22 de junho, o dia da terceira e última jornada da fase de grupos, a República Democrática da Alemanha ganhou confiança. Nas competições europeias, o Magdeburgo foi a primeira equipa a chegar a uma final. E fê-lo com estilo, derrotando o AC Milan de Giovanni Trapattoni na final de Roterdão (2-0). Um dos jogadores que alinhou na Holanda a 8 de maio foi Jürgen Sparwasser. Um mês e meio depois, o avançado voltaria a ser fundamental.

Um peso que saiu dos ombros

O duelo das Alemanhas foi o último jogo do grupo 1. Por esta altura, já depois do empate entre Chile e Austrália, não havia batalha que restasse para o apuramento. RFA e RDA estavam ambas qualificadas e o desfecho do encontro de Hamburgo, com mais de 60 mil pessoas nas bancadas, serviria apenas para definir o primeiro classificado do grupo.

A definição de apuramento não esvaziou a pressão. Pelo contrário. Primeiro, porque só uma hora e meia antes do apito inicial é que se confirmou o apuramento duplo; segundo, porque mais do que um peso desportivo, este confronto era também uma verdadeira batalha diplomática, especialmente do lado oriental.

A auto-estima na RDA no estrangeiro, sobretudo quando posta à prova, era um desafio constante e as autoridades nem conseguiram dormir a pensar nos efeitos que uma eventual derrota poderia ter nos objetivos políticos. À semelhança dos Jogos Olímpicos, a validação política era alcançada especialmente através da afirmação desportiva.

O país parou para ver o jogo naquele que é recordado como «o dia em que até as mulheres ficaram fãs de futebol». Para uma jovem nação, derrotar a RFA por 1-0 – Jürgen Sparwasser marcou o único golo do encontro – foi uma memória coletiva que ninguém conseguiria apagar. Ainda hoje, quando a Alemanha já está unificada há 30 anos, ninguém se esquece do que estava a fazer e de como viu o encontro entre RDA e RFA.

Com o momento mais aterrorizador para trás das costas, o resto do Mundial foi um fracasso para uns e um enorme sucesso para outros. Se a RFA partiu triunfantemente até ao título mundial, a RDA não voltou a vencer um jogo, somando um empate (Argentina 1-1) e duas derrotas (Brasil 0-1 e Holanda 0-2) na segunda fase de grupos.

O desfecho final foi aceitável. A RDA terminou no sexto lugar oficial e voltou para casa com uma brilhante vitória para recordar. O orgulho permaneceu intacto, contra todos os medos.

Magdeburgo. A jóia da coroa da RDA

Jogadores festejaram Taça das Taças perante bancadas vazias

Não foi tantas vezes campeão como o Dínamo Berlim ou o Dínamo Dresden, e nem sequer era visto como a melhor equipa da República Democrática da Alemanha, mas em 1974 conseguiu um feito histórico: tornou-se o único clube da RDA a vencer uma final europeia. Havia apenas 288 alemães nas bancadas.

A Oberliga teve 12 campeões diferentes entre 1948 e 1991. O futebol na RDA foi sofrendo sucessivas revoluções e as hegemonias não conseguiam durar muito tempo, excepto quando consolidadas pelo apoio da Stasi. Foi assim que o Dínamo Berlim conquistou dez títulos de campeão… de forma consecutiva.

O Dínamo Dresden surge logo a seguir na lista, com oito títulos espalhados por várias décadas, enquanto o Vorwärts Berlim – equipa que nasceu com jogadores roubados ao BSG Chemie Leipzig – fecha o pódio com seis. Depois, com três campeonatos, surge um trio: Carl Zeiss Jena, Wismut Karl Marx Stadt e… Magdeburgo.

O Magdeburgo viveu uma época verdadeiramente gloriosa na primeira metade da década de 1970. Conquistou a Oberliga em 1972, 1974 e 1975 e, mais importante ainda, fez história na edição da Taça das Taças de 1974.

O progresso foi imparável: eliminou o NAC Breda na primeira ronda (2-0), o Banik Ostrava na segunda (3-2), o Beroe Stara Zagora nos quartos de final (3-1) e o Sporting nas meias-finais (3-2, numa eliminatória famosa por ter terminado poucas horas antes do 25 de Abril).

Em Roterdão, a 8 de maio de 1974, a geração de Sparwasser e companhia jogou perante 4641 espetadores. Do outro lado, estava o Milan de Gianni Rivera orientado por Giovanni Trapattoni. Era a primeira presença de uma equipa da RDA numa final e o país tinha razões para estar entusiasmado.

Então como se explica a assistência tão reduzida na Banheira de Roterdão? A liberdade de viajar era tão restrita que a comitiva afeta ao Magdeburgo era composta apenas por 288 pessoas, muitas delas com cargos políticos e longe de serem verdadeiramente adeptas do clube.

Aquela noite era a mais importante da história futebolística da República Democrática da Alemanha e não havia praticamente ninguém a ver a vitória por 2-0 (autogolo de Lanzi aos 42' e Seguin aos 74'). Mas o orgulho local – a média de idades era de 23 anos e a esmagadora maioria dos futebolistas tinham sido formados em equipas das localidades vizinhas – fez a diferença no regresso à RDA.

Dois dias depois, em Magdeburgo, milhares de pessoas receberam em euforia os heróis de Roterdão. A um mês do Mundial-1974, a RDA estava a viver, de longe, o seu melhor período futebolístico. Primeiro com a Taça das Taças, depois com o triunfo na fase final frente à RFA, com o golo a ser marcado por… Jürgen Sparwasser, jogador do Magdeburgo.

O sucesso do clube foi fugaz. O período dos títulos faz parte do passado, a era gloriosa apagou-se da mesma forma que se acendeu e nada mais voltou a ser o mesmo. O treinador herói, Heinz Krügel, à semelhança de tantos outros na história da RDA, era uma pessoa com pensamentos demasiado desafiadores para serem acolhidos pelas autoridades e, sem grande surpresa, acabou despedido em 1976 e banido pela federação por «não desenvolver suficientemente os atletas olímpicos no Magdeburgo». O sucesso do Magdeburgo desapareceu com ele.

Dínamo Dresden-Bayern. Todas as cautelas foram poucas

Eliminatória espetacular teve 13 golos

Eliminatórias europeias entre equipas das duas Alemanhas provocavam sempre uma enorme dor de cabeça logística… de um lado e do outro. Se na RDA o objetivo era garantir o máximo nível de espionagem e que tudo corria de acordo com o guião, na RFA a meta podia passar apenas por… escapar ao envenenamento.

O sorteio da segunda ronda da Taça dos Campeões Europeus de 1973/1974 provocou aquilo que muitos temiam há bastante tempo mas que não estavam ainda preparados para aceitar: mais tarde ou mais cedo, iria haver um jogo entre equipas da República Federal da Alemanha e da República Oriental da Alemanha.

Quando o Dínamo Dresden – acabado de eliminar a vice-campeã europeia Juventus – e o Bayern Munique ficaram emparelhados, os responsáveis dos dois lados do muro não perderam tempo até garantir que nada ia correr longe do esperado.

A gestão de expectativas foi fundamental. Para o Bayern Munique e os seus dirigentes, as preocupações eram sobretudo de teor de… sobrevivência, tentando garantir que não seriam alvo de estratagemas obscuros para que o adversário pudesse obter uma vantagem dentro de campo. Para o Dínamo Dresden, ou melhor, para a Stasi e para os altos dirigentes da RDA, havia uma componente muito mais política em jogo.

A primeira mão, disputada em Munique a 24 de outubro de 1973, foi o primeiro sinal da paranoia oriental. O processo de veto e verificação de alemães de leste interessados em ir ver o jogo foi tão grande que a maioria acabou em casa, dando lugar a elementos do aparelho do partido. Em campo, as diferenças de postura foram esbatidas.

Perante 50 mil pessoas, o Dínamo Dresden foi um osso duro de roer e foi para o intervalo a vencer por 3-2. Franz Roth e Gerd Müller concretizaram a reviravolta para 4-3 na segunda parte, mas o balanço final foi esmagador: a carga política era indesmentível, porém as duas equipas proporcionaram um jogo memorável com três reviravoltas na marcha do marcador. E mais: a eliminatória continuava perfeitamente em aberto para o jogo da segunda mão, agendado para 7 de novembro.

Operação Confiança

Equipa de Dresden em Munique

A organização da segunda mão foi uma verdadeira dor de cabeça. Para os alemães dos dois lados da fronteira e para a própria UEFA, que foi forçada a aceitar a justificação mais estapafúrdia do presidente do Bayern para contornar a regra de as equipas terem de passar a noite anterior na cidade onde o jogo vai ser disputado.

Na verdade, os bávaros queriam passar tão pouco tempo quanto possível na RDA, garantindo assim uma menor hipótese de contratempo, seja através de espionagem ou mesmo de envenenamento. Oficialmente, a justificação foi outra. «A diferença de altitude de Munique para Dresden poderá ser prejudicial para a nossa equipa», disse o presidente do Bayern, Wilhelm Neudecker.

O nível de detalhe da preparação da Stasi – oficialmente nomeada «Operação Confiança» - para o jogo da segunda mão atingiu níveis de uma campanha militar. Estava tudo pensado ao pormenor e nada podia faltar. O Bayern Munique acabou por levar a sua intenção adiante e só chegou a Dresden poucas horas antes do pontapé de saída. Não houve nenhum contratempo mas os relatórios garantem que o treinador do Dínamo, Walter Fritzsch, soube o onze do adversário antes do suposto.

Dentro de campo, os jogadores protagonizaram mais uma noite memorável. Uli Hoeness pareceu resolver a eliminatória para os alemães ocidentais com golos aos 10 e 12 minutos, mas o Dínamo Dresden e reagiu com golos aos 42, 52 e 56 minutos. Uma vez mais, as constantes reviravoltas faziam destes duelos um enorme espetáculo. Uma vez mais, porém, Gerd Müller marcou (58’) e estragou a eventual celebração na RDA.

O Bayern Munique seguiu em frente e só parou na conquista da primeira de três Taças dos Campeões Europeus consecutivas. Quis o destino que o Magdeburgo vencesse a Taça das Taças, proporcionando assim um duelo na Supertaça Europeia.

Estariam os responsáveis prontos para passar tudo pelo mesmo outra vez? Não, definitivamente. Na altura de combinar uma data para a realização da Supertaça, as reticências foram maiores do que as exclamações. Oficialmente, foi impossível encontrar uma data que agradasse às duas equipas. Oficiosamente, ninguém estava interessado em que a tensão política fosse posta à prova com um troféu decidido a duas mãos entre as duas Alemanhas.

O destino foi, ainda assim, mais forte, e as equipas defrontaram-se mesmo a duas mãos, mas na Taça dos Campeões Europeus. Aí sim, voltou tudo ao mesmo. Houve espaço para a «Operação Confiança II» e para, mais uma vez, os jogadores do Bayern se recusarem a comer no hotel. Os bávaros venceram a eliminatória por 5-3 e… Gerd Müller marcou quatro dos cinco golos. O «Bombardeiro» alemão virou carrasco na RDA.

Chemie Leipzig. Quando o orgulho vale uma Oberliga

Adeptos fizeram a festa em peso

O BSG Chemie Leipzig conquistou o campeonato nacional da RDA pela segunda vez em 1964. No último jogo da época, a equipa não quis deixar os créditos por mãos alheias e resolveu rapidamente o encontro na deslocação ao terreno do Turbine Erfurt. O título foi especial: a expressão é frequente mas este parece ter sido claramente contra tudo e contra todos.  

A estrutura do futebol da Alemanha de Leste foi um carrossel de alterações do início ao fim. As autoridades estatais demoraram a perceber a importância que a modalidade tinha – nunca o fizeram na plenitude, relegando-a sempre para segundo plano – e andaram durante décadas a brincar com reorganizações que ajudassem a promover um sentido lato de distribuição territorial e de qualidades.

Há uma forma fácil de perceber as tendências da política da RDA relativa ao futebol: clubes com SC no nome eram aprovados e financiados pelo Estado, e tenderam a ser favorecidos; enquanto equipas com BSG no nome, como o Chemie Leipzig, eram cooperativas de apoio popular e foram sendo ostracizados até atingirem a total insignificância.

O BSG Chemie Leipzig sofreu na pele mas nunca desistiu. Fundado em 1950, foi campeão da Oberliga em 1951, terceiro classificado em 1952 e começou a ser desmantelado pelas estratégicas políticas em 1953. O clube podia ser popular e atrair assistências a rondar os 40 mil espetadores, mas para quem mandava isso não passava de números de uma folha de cálculo num ainda inexistente Microsoft Excel.

O primeiro ataque ao clube surgiu durante a temporada 1952/1953, quando grande parte dos melhores jogadores foram recolocados numa nova equipa, ligada ao exército, chamada Vorwärts Leipzig.

O BSG Chemie conseguiu regenerar-se. Os jogadores que tinham saído foram substituídos por jovens e as assistências continuaram em números muito altos, ao contrário do recém-criado Vortwärts que, apesar da qualidade dos jogadores, foi sendo ignorado e acabou por ser deslocado para Berlim. Em 1954, porém, não houve nada a fazer quando a restruturação da Oberliga provocou novas mudanças profundas.

Os recursos da indústria química habitualmente direcionados para o BSG Chemie foram desviados para o novo SC Chemie Halle e a equipa perdeu o direito de disputar a Oberliga. Leipzig manteria duas equipas na primeira divisão mas, como não podia deixar de ser, seriam dois clubes acabados de fundar com o selo do Estado: SC Lokomotive, associado aos caminhos-de-ferro, e SC Rotation, associado à tipografia.

O BSG Chemie perdeu mais do que a vaga entre a elite, ficou mesmo sem todos os jogadores. Os seus talentos passaram a representar o SC Lokomotive e a equipa passou a jogar no quarto escalão, com assistências de cinco mil pessoas e sobrevivendo graças a pequenos patrocinadores e à carolice de muitos, que ajudavam a garantir equipamentos e chuteiras.

 

Do inferno à segunda oportunidade

Guarda-redes Dieter Sommer festeja título no balneário

O clube perdeu tudo menos a sua identidade. A aposta na formação, que tantos frutos dera no passado, tornou-se essencial no novo paradigma e contribuiu de forma decisiva para que a equipa pudesse ser reconsiderada quando, nove anos depois, a Oberliga voltou a operar uma revolução na secretaria.

Leipzig ia continuar a contar com dois clubes mas o fracasso do SC Lokomotive e do SC Rotation – com assistências baixas e apenas uma Taça conquistada – precipitou uma fusão entre as duas representantes. A vaga aberta ficou para o BSG Chemie.

A nova concentração de recursos não quis enganar ninguém e as prioridades continuavam bastante claras: o novo SC Leipzig era a equipa que simbolizava a cidade, para onde deviam ir os melhores jogadores; o BSG Chemie servia de figurante, para apaziguar o povo e ficar com as sobras.

Quando a temporada 1963/1964 começou, as opiniões dos especialistas eram arrasadoras: o BSG Chemie tinha a descida à porta e o facto de o treinador ser Alfred Kunze, um homem com visões desafiadoras perante o poder instalado, não ajudava.

O que se passou surpreendeu tudo e todos. Na penúltima jornada, depois de um triunfo sobre o «velho conhecido» Vorwärts Berlin, o BSG Chemie ficou a apenas um ponto de conquistar a Oberliga pela segunda vez na sua história. O desfecho seria um embaraço para as autoridades locais, que tudo fizeram para que a cidade se inclinasse para o outro lado.

A história fez-se a 10 de maio de 1964. Garantem as reportagens da altura que a estrada entre Jena e Erfurt, num total de 150 quilómetros, parecia um enorme cordão construído pela caravana de adeptos vestidos de verde e branco. O BSG Chemie recuperou toda a massa adepta que, ansiosa pela possibilidade do título, marcou presença em peso em Erfurt no jogo contra o Turbine local.

Se uns lutavam pelo título, os outros não queriam descer de divisão. Com 30 mil adeptos na bancada, o BSG Chemie resolveu a situação no primeiro quarto de hora, com golos de Wolfgang Behla aos 12’ e de Manfred Walter aos 13’, de penálti.

A história não podia ter sido mais curiosa. O BSG Chemie não se limitou a estragar as previsões em Leipzig. Fê-lo numa temporada em que ficou com o título praticamente no bolso depois de derrotar o Vorwärts Berlin e num ano em que o SC Chemie Halle desceu de divisão. Ali, condensado, o clube popular vingou-se de tudo o que tinha sofrido nos onze anos anteriores e festejou o título de campeão mais saboroso da Oberliga.

«Não sei se houve algum desfecho de temporada mais sensacional e inesperado na Europa no último século. Se houve, quero saber qual», escreveu Ulrich Hesse-Lichtenberger.

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