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É Desporto

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Van der Merwe. O ponto forte do elo mais fraco

Um ensaio por jogo... quatro derrotas

Canadá saiu do Mundial-2015 com quatro derrotas mas ponta conseguiu um ensaio em todos os jogos. Proeza é inédita desde que os grupos são compostos por cinco seleções.

O balanço de 2011 foi positivo. Num grupo que também tinha a Nova Zelândia e a França, o Canadá somou uma vitória (25-20, Tonga) e um empate (23-23, Japão). Quatro anos depois, as expetativas eram cautelosas e só o encontro com a Roménia abria hipóteses claras de triunfo. O 15-0 no início da segunda parte fez com que os canadianos acreditassem, mas os Carvalhos reagiram e deram a volta, impulsionados por um ensaio de Mihai Macovei aos 74’ e uma penalidade de Florin Vlaicu aos 78’.

O Canadá foi o elo mais fraco do grupo. Mas contou com um jogador que entrou para a história dos mundiais: Daniel Tailliferrer Hauman van der Merwe, também conhecido por D.T.W. Van der Merwe. O ponta esquerdo não conseguiu garantir nenhuma vitória, mas contribuiu com quatro ensaios: aos 68’ contra a Irlanda (7-50), aos 15’ contra a Itália (18-23), aos 31’ contra a França (18-41) e, finalmente, aos 33’ contra a Roménia (15-17).

Canadiano de origem sul-africana

Van der Merwe, nascido na África do Sul em 1986 e imigrante no Canadá desde os 17 anos, é o primeiro jogador a marcar pelo menos um ensaio em todos os jogos da fase de grupos desde que o formato atual tem cinco seleções (2003).

Se o interesse for aumentar o campo de análise, os casos continuam a ser raros. De 1987 a 1999 houve oito jogadores que conseguiram um ensaio nos três jogos da fase de grupos, mas só três mantiveram a tendência para o quarto jogo na prova, neste caso já a contar para os quartos-de-final.

E, aí, a companhia de Van der Merwe não podia ser mais elogiosa. Em 1999, o neozelandês Jonah Lomu rubricou o melhor Mundial da carreira e chegou à partida de atribuição do terceiro lugar com ensaios em todos os jogos: dois ao Tonga, um à Inglaterra, dois à Itália, um à Escócia e dois à França. Podia ter sido um campeonato perfeito a nível pessoal, não fosse ter ficado em branco na derradeira partida contra a África do Sul (18-22).

Jonah Lomu foi o segundo All Black a passar por esta experiência. Na edição inaugural, em 1987, o ponta Alan Whetton teve um desempenho muito semelhante, falhando apenas na final contra a França. A grande diferença é que nunca fez mais do que um por encontro e, no final, sempre pôde festejar o título mundial. O terceiro caso é do francês Jean-Baptiste Lafond. Em 1991 chegou aos quartos-de-final com cinco ensaios (Roménia-1, Fiji-3 e Canadá-1) e depois somou mais um na derrota contra a Inglaterra. Tal como Van der Merwe, não teve a oportunidade de disputar um quinto encontro para aumentar o registo.

Mamuka Gorgodze. O georgiano que seduziu o mundo com um sorriso

Mamuka Gorgodze

Joga na posição oito mas foi um verdadeiro pilar da Geórgia durante o Mundial-2015. Decisivo no triunfo surpreendente contra o Tonga, logo no segundo jogo da competição, ganhou uma fama internacional ao conquistar a distinção de melhor jogador em campo no duelo contra a Nova Zelândia, em Cardiff.

Havia quem lhe chamasse Gorgodzilla. Outros preferiam uma versão menos assustadora e optavam por Gulliver. O indesmentível é que Mamuka Gorgodze era um jogador de dimensões intimidantes: 196 centímetros e 118 quilos.

A Geórgia que apareceu a disputar o Mundial-2015 em Inglaterra (e Gales) era uma seleção discreta. Habituada a pulular nas divisões inferiores da Europa, tinha qualidade suficiente para aparições regulares em fases finais. Estreou-se em 2003 e perdeu os quatro jogos. Nas edições seguintes, em 2007 e 2011, somou um triunfo em cada mas nem por isso se percebia declaradamente a evolução.

Quando, em 2015, apareceu em força contra o Tonga – uma seleção vista como muito mais favorita ao triunfo -, os olhos do mundo do râguebi esbugalharam perante a surpresa. O triunfo (17-10) nunca esteve em causa e beneficiou do ensaio de Mamuka Gorgodze aos 27 minuto. O número oito da Geórgia ostentava a braçadeira de capitão, começou a mostrar que era um verdadeiro líder e recebeu pela primeira vez na prova a distinção de homem do jogo.

O peso de Gorgodze na estratégia da Geórgia era muito maior do que os 118 quilos do seu corpo. E isso foi facilmente verificável na segunda jornada, durante a derrota com a Argentina. Quando o capitão viu o cartão amarelo aos 45 minutos, os Lelos estavam na luta pelo resultado e perdiam apenas por 9-14. Dez minutos depois, quando regressou, a derrota era mais do que certa (9-35).

Gorgodze defrontou os All Blacks noutra posição

O verdadeiro momento de Gorgodze no Mundial foi, ainda assim, o que aconteceu a 2 de outubro de 2015, contra os All Blacks, em Cardiff. Uma vez mais, ninguém acharia que a Geórgia pudesse oferecer uma verdadeira réplica aos maiores favoritos, mas Gorgodze deu o que tinha e o que não tinha, inspirando uma nação inteira.

Não conseguiu qualquer ensaio. E a Geórgia nem sequer esteve perto de disputar o encontro (10-43), mas a determinação de Mamuka já o tinha catapultado para a fama. Apesar de ter jogado apenas 48 minutos, foi eleito o melhor jogador da partida e recebeu a notícia com a maior humildade e descontração possível quando as câmaras se fixaram na sua cara.

Mamuka Gorgodze foi avisado pelos colegas, olhou para o ecrã gigante, olhou para a câmara e, com um sorriso envergonhado reagiu como se não percebesse muito bem aquilo que se estava a passar, acabando com um encolher de ombros. «Eu?! A sério?! Bom, vocês é que sabem», teria sido a legenda perfeita para aquela imagem.

O público reagiu ao momento com uma enorme ovação. Ali, naquele momento, já ninguém duvidava da capacidade de Gorgodze para conquistar os corações dos amantes do desporto. Na despedida, cinco dias depois, o líder voltou a mostrar a sua importância em campo e conseguiu o ensaio que lançou a Geórgia para o triunfo sobre a Namíbia (17-16).

Os números finais de Gorgodze na competição (dois ensaios, 41 placagens, 65 metros de avanço com bola e um alinhamento roubado) não são suficientes para explicar o efeito que teve naquela competição. Mais do que um Gorgodzilla sem destruição, foi um Gulliver inspirador, capaz de seduzir o mundo inteiro com um sorriso.

O dia em que a audácia japonesa foi recompensada

Japão derrotou África do Sul (34-32)

Foi a maior surpresa do Mundial-2015 e marcou o arranque de uma prova sensacional. A África do Sul vacilou perante o Japão e acabou derrotada nos minutos finais pela estratégia ousada da seleção orientada por Eddie Jones. O desfecho não teve um resultado prático nos apurados para os quartos de final mas entrou para a lista dos jogos mais memoráveis em fases finais.

Brighton, 19 de setembro de 2015. A fase de grupos tinha começado na véspera mas não houve espaço para os favoritos se acomodarem. O dia arrancou com a vitória da Geórgia sobre o Tonga e a comunidade do râguebi estava preparada para promover este desfecho a grande surpresa do dia, mas o melhor estava guardado para mais tarde. A África do Sul entrou em prova como crónica candidata ao título mas não conseguiu descolar de um Japão metodicamente organizado pelo selecionador Eddie Jones e comandado dentro de campo pelo capitão Michael Leitch.

A estratégia japonesa pode ser descrita de forma muito redutora e humorística: se não os podes vencer, foge deles. A ideia era mesmo esta: se os Springboks tinham um pack mais forte e eram, na generalidade, implacáveis no confronto direto, a solução passaria por fazer a bola circular ao máximo, evitando as placagens e dinamitando a resistência adversária.

O marcador esteve sempre equilibrado, mas com a África do Sul por cima. Já dentro dos últimos dois minutos, o árbitro francês Jérôme Garcès assinalou uma penalidade que daria a oportunidade ao Japão de garantir o empate e selar um resultado histórico. Ayumu Goromaru estava com o pé quente (convertera dois ensaios e marcara cinco penalidades) mas a equipa nipónica queria mais. Queria a vitória histórica.

A jogar com menos um, fruto do amarelo mostrado a Coenie Oosterhuizen, a África do Sul recuou para os seus 22 metros e tentou bloquear todos os caminhos que iam dar ao ensaio. Os Springboks resistiram, resistiram, resistiram e, com quatro minutos jogados depois dos 80, vacilaram, permitindo a Kame Esketh cruzar a linha de ensaio junto ao lado direito da defesa.

Ensaio fez a diferença aos 84 minutos

O resultado histórico estava garantido: 34-32 para o Japão. Até então, a equipa asiática tinha conseguido apenas uma vitória em fases finais mas, em vésperas de organizar um Mundial (2019), este era o tónico perfeito para assinalar uma nova era.

Eddie Jones foi visto como o maior responsável deste feito, sobretudo depois de ter aparecido convicto na conferência de imprensa de antevisão do jogo referindo que aquele poderia ser um dia para recordar no râguebi japonês.

A vitória histórica acabou por não ter uma consequência prática no Mundial-2015. À imagem da África do Sul e da Escócia, o Japão terminou o grupo B com três vitórias e uma derrota. Pontualmente, porém, a história foi radicalmente diferente graças aos pontos de bónus, uma vez que os Cherry Blossoms foram relegados para o terceiro lugar (12 pontos), atrás da Escócia (14) e África do Sul (16).

A metamorfose que recuperou o orgulho francês

Jogo com Tonga rebentou com a insatisfação

Derrota com Tonga foi vista como uma enorme humilhação e o ambiente entre equipa técnica e jogadores azedou. De repente, fez-se o clique, a tensão tornou-se secundária e a equipa começou a responder em campo. Derrota na final com a Nova Zelândia não foi suficiente para apagar a metamorfose que devolveu o brilho aos franceses em 2011.

«Nunca fui contra umas cervejas. É uma opção.» Foi desta forma que o selecionador Marc Lièvremont respondeu aos jornalistas sobre a possibilidade de ir beber com os jogadores para esclarecer as diferenças que se tinham vindo a agudizar no seio do grupo durante a fase de grupos do Mundial-2011, disputado na Nova Zelândia.

A França tinha acabado de ser humilhada ao perder com o Tonga (14-19 já depois de marcar um ensaio nos instantes finais) e seria apenas a segunda seleção na história das fases finais a atingir os quartos de final após sofrer duas derrotas durante a fase de grupos.

O ambiente era mau. Mas Lièvremont estava disposto a passar uma esponja sobre o assunto para garantir que o desempenho em campo não só não era afetado como melhorava na fase decisiva. «Há palavras que têm um significado muito forte: orgulho, solidariedade, sinceridade. Na próxima semana vou insistir nestes valores», garantiu o técnico.

As palavras de Lièvremont eram as de um selecionador encostado às cordas. A imprensa francesa estava sedenta de sangue e explorava como conseguia as quezílias que se iam acumulando no grupo. O despedimento parecia ser o cenário mais provável perante uma campanha negativa e a alternativa seria sempre fugir para a frente.

«Estamos vivos. Ainda fazemos parte desta aventura e quero lutar. E acredito que os meus jogadores também querem lutar. Confio neles, quero que lutem mais e que sejam mais eficazes. Quero que relaxem e que se concentrem no que importa… porque eu confio neles. Não temos escolha», continuou.

Marc Lièvremont foi um selecionador isolado

Lièvremont bebeu sozinho naquela noite. Mas, dia após dia, o cenário começou a mudar, muito por culpa da liderança do capitão Thierry Desautoir. De uma seleção em cacos, o grupo de jogadores que se apresentou contra a Inglaterra uma semana depois passou a uma coisa diferente. A vitória (19-12) confirmou essa sensação.

«Tivemos os mesmos jogadores em campo em relação ao jogo com o Tonga mas muitos deles apareceram com tomates», atirou Lièvremont. A contestação baixou de tom e, de repente, a França estava nas meias-finais da competição.

Num duelo europeu, Gales ficou pelo caminho (9-8) e os bleus marcaram um reencontro com os All Blacks. Na fase de grupos, a seleção da casa tinha vencido tranquilamente (37-17) mas agora o cenário era outro.

A França era uma equipa unida, acreditava no seu valor e surgiu desafiante. No momento do haka, os jogadores avançaram no relvado e ficaram cara a cara com os adversários. «A certa altura ficámos tão perto que havia quem os quisesse ir beijar. Disse-lhes para terem calma», admitiu Desautoir.

Franceses mantiveram a distância mas acabaram multados

«Foi uma ideia da equipa toda», assumiu Pascal Papé, acrescentando que o capitão não conseguiu evitar a iniciativa. «Queríamos mostrar-lhes que estávamos ali e que não seria um jogo fácil.»

E não foi. A Nova Zelândia esteve grande parte do encontro em vantagem mas o ambiente no estádio, com mais de 61 mil pessoas, parecia cada vez mais tenso, sobretudo depois de Desautoir ter conseguido o ensaio, já na segunda parte, que deixou o resultado em 8-7 para os All Blacks.

O marcador não sofreu mais alterações e a Nova Zelândia conseguiu mesmo reconquistar o título, 24 anos depois. Mas a metamorfose francesa ajudou a transformar uma seleção polémica numa equipa orgulhosa. E Desautoir foi recompensado por todo o esforço ao conquistar o troféu de jogador da final e, mais tarde, de jogador do ano.

O desfecho não foi suficiente para salvar Lièvremont. A verdade veio ao de cima e o descontentamento dos jogadores, insatisfeitos com as críticas de que foram alvo durante toda a competição, marcou o fim da ligação do técnico à Federação Francesa de Râguebi.

Jonny Wilkinson. O pé de ouro do desporto inglês

«Já foste!»

Inglaterra conquistou um título inédito no Mundial de Râguebi em 2003 depois de ter derrotado a Austrália no prolongamento. Os pontos decisivos vieram diretamente dos pés de Jonny Wilkinson que, depois de falhar três pontapés de ressalto durante o encontro, resolveu quando a sua equipa mais precisava.

As atenções do desporto inglês em 2003 eram praticamente dominadas por David Beckham. O médio era mais do que uma cara bonita que namorava com uma Spice Girl e o seu talento dentro de campo era inegável. O filme Bend it like Beckham tinha sido lançado no ano anterior e reforçava uma ideia que grassava por todo o mundo: ninguém conseguia fazer a bola curvar tão bem como o inglês.

E Beckham usava este recurso em tudo o que precisava: cruzamentos, cantos, livres diretos. Quando no verão de 2003 trocou o Manchester United para se juntar aos galácticos do Real Madrid, o patamar da fama elevou-se ainda mais. O futebolista parecia capaz de acertar numa pulga na marca de penálti a cinquenta metros da área. Fazia maravilhas. E ao mesmo tempo tinha momentos de desastre.

Istambul, 11 de outubro de 2003. A Inglaterra estava à porta do Euro-2004 mas não podia perder na Turquia, correndo o risco de falhar o apuramento no playoff. Com cinco golos na campanha, Beckham dividia o título de melhor marcador do grupo com Michael Owen e assumiu-se como o natural candidato a marcar um penálti.

Penálti muito semelhante ao que viria a falhar no Euro-2004

Ali, naquele momento, aos 37 minutos de jogo, os ingleses acharam que podiam começar a marcar viagem para Portugal. Mas o resultado foi desastroso. Parafraseando o direto do The Guardian, Beckham escorregou na relva e marcou um penálti à Stam, fazendo a bola subir quatro mil pés acima da barra. «De facto, acho que foi diretamente para o céu, ao estilo da NASA. Verdadeiramente o pior penálti de sempre», continuava a bem-disposta descrição.

A Inglaterra sobreviveu ao desastre, segurou o empate a zero e garantiu o apuramento para o Euro-2004, mas a fé nacional nos pés de Beckham sofreu um rude golpe.

Quis o destino que a Inglaterra iniciasse a sua campanha no Mundial de Râguebi no dia seguinte, praticamente no outro lado do planeta, em Perth. Sem a fama de Beckham, Jonny Wilkinson não se podia queixar muito. O médio de abertura inglês era uma das mais-valias do selecionador Clive Woodward e assumia um papel preponderante na altura de atirar aos postes.

Não havia penteados mediáticos nem grandes tentativas de aplicar um efeito à bola. Mas Wilkinson era verdadeiramente importante. Na estreia, converteu cinco ensaios e marcou duas penalidades com êxito durante o triunfo sobre a Geórgia (84-6). E quando a fase de grupos terminou já tinha mais quatro conversões de ensaio, seis penalidades e três pontapés de ressalto.

A capacidade de contribuir de todas as formas e feitios prolongou-se na fase a eliminar, marcando 23 pontos no triunfo sobre Gales (28-17) e 24 pontos na vitória sobre a França (24-7). Progressivamente, Wilkinson tinha deixado de ser apenas uma das mais-valias; era já a ponta da lança inglesa rumo ao primeiro título da sua história.

 

O dia que tudo mudou

Festa inglesa na Austrália

Quando a final começou em Sydney, a 22 de novembro de 2003, já ninguém se lembrava de Beckham. O mago com os pés era o 10 da seleção de râguebi. Somava 98 pontos em cinco jogos e era o elemento mais temível para os australianos que, a jogar em casa, não queriam desperdiçar a oportunidade de conquistar o Mundial pela segunda vez.

O jogo foi emocionante. A Austrália abriu as hostilidades mas a Inglaterra foi para o intervalo a vencer 14-5, já com nove pontos de Wilkinson. Na segunda parte, porém, os australianos cavalgaram a recuperação em cima do apoio de mais de 80 mil pessoas e forçaram o prolongamento com 14-14 no marcador.

A final ia decidir-se nos pormenores e Wilkinson parecia estar a ceder, desperdiçando dois pontapés de ressalto durante o segundo tempo. Mas, com a pressão do jogo a aumentar para níveis estratosféricos, tudo mudou. Marcou uma penalidade aos 82 minutos e fez os ingleses sonhar, até Flatley imitar a façanha para os australianos aos 97 minutos, a três do final do prolongamento.

Era impossível haver mais tensão neste jogo. Com os segundos a esgotarem-se, a bola encontrou as mãos de Jonny Wilkinson e, no último minuto do encontro, deixou-a bater na relva, rematando-a depois na direção dos postes. Assim, mostrando que não tinha ficado afetado pelos falhanços anteriores, o médio de abertura decidiu a final e ofereceu o primeiro título de sempre à Inglaterra e a uma seleção europeia (ainda hoje é assim).

«É indescritível. Era algo que queríamos e para o qual trabalhámos tanto individual como coletivamente. O nosso trabalho começou há mais de cinco anos. Queríamos ganhar cada jogo que disputássemos. Metemos muita pressão no nosso objetivo e sabíamos que ia ser difícil. Foi um ano muito difícil mas merecemos», garantiu Wilkinson depois da final. A imortalidade estava garantida.

Roménia-Namíbia. A migalha que alimentou toda a Tasmânia

Roménia derrotou a Namíbia confortavelmente

Era o jogo menos esperado do Mundial da Austrália em 2003 mas a decisão de ser disputado na Tasmânia, a ilha do sudeste do país que nunca tinha organizado um jogo oficial de râguebi, abriu caminho para tornar o encontro uma festa. A população correspondeu em peso, a mayor… nem por isso.

Roménia e Namíbia não passavam de pesos plumas entre os grandes do râguebi internacional. Os resultados no grupo A ajudam a perceber isso: a Roménia perdeu 17-45 com a Irlanda, 8-90 com a Austrália e 3-50 com a Argentina, enquanto a Namíbia sofreu pesados desaires com a Argentina (14-67), a Irlanda (7-64) e Austrália (0-142!).

Quando as duas seleções se defrontaram a 30 de outubro, não haveria muito mais do que o orgulho em jogo. Uma delas poderia sair na mó de cima, agarrando-se à última memória de uma prova que teve pesadelo atrás de pesadelo.

Mas a organização arranjou uma forma de dar um brilho especial ao encontro, marcando-o para Launceston, na Tasmânia, a ilha do sudeste da Austrália que só estava habituada a ver jogos de Aussie Rules e que tinha num cortador de lenha o seu maior herói… desportivo.

O Roménia-Namíbia tornou-se um caso de orgulho territorial. O governo investiu dois milhões de dólares para construir uma cobertura para seis mil lugares, alargando a proteção da chuva e do sol a praticamente toda a lotação de 20 mil, e estabeleceu uma campanha para promover o interesse da população chamada «Odds and Evens».

O que era esta «Ímpares e Pares»? Uma forma de garantir que não havia uma única pessoa ou estabelecimento comercial que não se dedicasse ao jogo de forma apaixonada. A campanha pedia a que quem celebrasse o aniversário num dia ímpar torcesse pela Roménia. No caso das lojas, o que fazia a diferença era o número da rua. Desse por onde desse: ímpares eram romenos, pares eram namibianos.

A estratégia resultou em pleno e o estádio contou com 15457 espetadores. Não serviu para evitar a assistência mais baixa do Mundial da Austrália, mas não deixou de ser um valor muito acima do que o encontro teria numa outra cidade, sem esta preocupação tão cuidada de garantir que nada faltava.

O jogo – ganho confortavelmente pela Roménia (37-7) – não foi um motivo de interesse para toda a gente. Estranhamente, a própria mayor da Tasmânia, Janie Dickenson, decidiu não marcar presença no estádio, preferindo gozar umas férias com o namorado canadiano em Singapura. Questionada sobre as suas motivações à chegada ao país asiático, disse que contava ver o jogo em direto na televisão.

A partida entre Roménia e Namíbia foi duplamente histórica. Não apenas por ter sido o primeiro encontro disputado na Tasmânia mas também por garantir um momento memorável a Rudi Van Vuuren. Ao entrar na reta final do encontro, o jogador da Namíbia escreveu uma página no desporto ao tornar-se o primeiro homem a participar num Mundial de Râguebi e num Mundial de Críquete. Curiosidade: fê-lo no mesmo ano, separado por apenas sete meses.

 Ah, e também aí a Namíbia foi relegada para o último lugar do grupo sem qualquer triunfo. O disco pode ter virado mas a música foi a mesma. 

Stephen Larkham. A surpresa inesperada que ninguém previu

A bola já saiu dos pés de Larkham para o momento decisivo

Os pleonasmos são motivos de gozo diariamente. Quem nunca assistiu a um comentário jocoso depois de alguém ter o azar de dizer «subir para cima» ou «descer para baixo»? A verdade é que o recurso estilístico existe por algum motivo. No caso de Stephen Larkham, herói australiano na meia-final do Mundial-1999 contra a África do Sul, existe para reforçar… e insistir no nível de espanto que a decisão no prolongamento provocou.

Vamos por partes: Austrália e África do Sul disputavam em Twickenham uma vaga na final do Mundial de râguebi. Previa-se um encontro muito disputado, sem grande supremacia, e se a ronda anterior tinha demonstrado alguma coisa era que os Springboks eram perigosíssimos num jogo com estas características. No África do Sul-Inglaterra, a seleção do hemisfério sul tinha aplicado na perfeição uma estratégia para potenciar a capacidade de Jannie De Beer jogar com os pés. E foi assim que o médio de abertura marcou 34 dos 44 pontos da equipa: cinco pontapés de ressalto (recorde em fases finais), cinco penalidades e duas conversões de ensaio.

De Beer era, sem grande surpresa, uma figura a ter em conta durante aqueles 80 minutos. E não desiludiu. No final do tempo regulamentar o marcador mostrava um empate a 18 e De Beer tinha sido responsável por… todos os pontos da sua seleção (seis penalidades e um pontapé de ressalto). No prolongamento, a probabilidade de um lance assim resolver a eliminatória era ainda maior.

Stephen Larkham em ação

A chuva ajudou a aumentar a sensação de jogo mítico numa das maiores catedrais do râguebi. Os olhos estavam todos postos em De Beer, ou mesmo em Matthew Burke, o australiano responsável por converter ensaios e assumir a marcação das penalidades, mas o inesperado aconteceu mesmo. Não houve De Beer nem Burke mas sim Stephen Larkham.

O jogo já estava empatado a 21 pontos, depois de mais uma penalidade para cada equipa, e o relógio encaminhava o jogo para os 95 minutos quando Larkham decidiu testar o que ninguém tinha previsto: um pontapé de ressalto.

A situação foi tudo menos óbvia. A Austrália tinha acabado de passar a linha do meio-campo mas Larkham decidiu arriscar com um pontapé a cerca de 45 metros dos postes. A trajetória foi irrepreensível. Tudo ali pareceu perfeito, não tivesse sido tentado por quem foi. De tão longe. Numa altura tão decisiva.

A contribuição de Larkham no Mundial até ao momento reduzira-se a um ensaio na fase de grupos. Talento para tentar pontapés de ressalto? Ninguém sabia. De facto, esta foi a primeira vez que o fez na carreira profissional – tinha 25 anos na altura. Pior ainda? Estava com uma hemorragia interna no joelho direito na sequência de uma lesão no ligamento medial.

Tim Horan, uma das estrelas dos Wallabies, recorda o momento na perfeição: «Estava no banco porque já tinha sido substituído. Quando vimos que ele ia rematar, achámos que ia devolver a posse de bola e achámos surpreendente. Mas a verdade é que ele tentou o pontapé de ressalto. Não parecia grande coisa mas cruzou os postes com uma margem confortável para mais uns cinco metros. Foi um pontapé espantoso».

A iniciativa naquele momento, naquela zona do terreno, foi uma surpresa. A bola cruzar os postes com tanta facilidade foi uma consequência inesperada. E ninguém, em tempo algum, poderia ter previsto que seria Larkham a fazê-lo até ao momento em que o fez. A estrela não abriu espaço para uma mistura explosiva de pleonasmos, foi apenas o resultado final de uma conjugação cósmica de improbabilidades.

Quando a Inglaterra foi derrotada por um… De Beer

Ingleses nunca esquecerão o pé direito de De Beer

Talvez a África do Sul já tenha tido jogadores mais talentosos com os pés na sua história, tanto no râguebi como no futebol. Talvez. Mas nenhum outro conseguiu rubricar uma exibição tão esmagadora e crucial como Jannie De Beer em 1999, no jogo dos quartos-de-final do Mundial com a Inglaterra. Com duas conversões, cinco penalidades e cinco pontapés de ressalto (!), o médio de abertura marcou 34 pontos no triunfo (44-21).

Os ensaios são o pináculo do râguebi, o objetivo primordial. Durante 80 minutos, 15 elementos de cada lado entregam-se sem hesitações neste jogo em que todos os centímetros interessam. A meta quer-se cada vez mais perto e, quando surge o sucesso, as bancadas entram em erupção de jubilo.

Mas o râguebi é muito mais do que o ensaio. Por cada elemento que dá tudo para chegar à meta, há uma força oposta do outro lado. O jogo decide-se assim: uma batalha das vontades em que querer, por vezes, não é suficiente. E onde o ensaio pode ser complementado, ou mesmo substituído, pela arte do pontapé.

As contas não são novidades para ninguém: o ensaio vale cinco pontos mas chutar aos postes também traz benefícios. Dois pontos pela conversão do ensaio, três por uma penalidade com sucesso e outros três pelo pontapé de ressalto.

Sim, os ensaios podem ser o ponto alto do râguebi mas a história demonstra uma sucessão de casos em que foram os talentosos pontapeadores a decidir encontros dramáticos. Em 2003, o inglês Jonny Wilkinson tornou-se herói nacional ao garantir o título mundial com um pontapé de ressalto. Quatro anos antes, porém, a seleção da rosa caiu nos quartos-de-final após uma exibição absolutamente irrepreensível e sem precedentes do sul-africano Jannie De Beer. Isso mesmo: um homem com apelido de cerveja deixou os ingleses pelo caminho em Paris.

A fase de grupos já tinha demonstrado as capacidades do médio de abertura sul-africano. Os Springboks entraram na prova como campeões em título e passearam pela fase de grupos. Na estreia, no 46-29 com a Escócia, De Beer converteu cinco ensaios e marcou duas penalidades. Contra a Espanha, acumulou seis conversões de ensaios no 47-3. Finalmente, com o Uruguai (39-3), juntou quatro conversões a duas penalidades. Feitas as contas, entrou na fase a eliminar com 42 pontos.

De Beer marcou 34 pontos contra a Inglaterra

Dizem que os melhores jogadores aparecem nos momentos decisivos, que brilham ao mais alto nível quando a fasquia está elevada. Foi isso mesmo que De Beer fez a 24 de outubro no Stade de France. «Algumas das coisas que aconteceram aqui foram do domínio do sobrenatural. Deus deu-nos a vitória, estou feliz apenas por ter feito parte do seu plano», disse De Beer.

A exibição foi verdadeiramente… divinal. Mais do que as cinco penalidades ou as duas conversões de ensaio, De Beer, com 28 anos na altura e com pouco historial ao serviço da seleção, tornou-se o ponto fulcral da estratégia sul-africana. Os ataques dos Springboks eram pensados ao pormenor para garantir que o médio de abertura tinha espaço para executar pontapés de ressalto. E fê-lo uma, duas, três, quatro, cinco vezes, estabelecendo um novo recorde mundial.

«Às vezes as coisas acontecem de uma forma para a qual não conseguimos encontrar uma resposta. Sinto mesmo que Deus teve um papel nisto. Acredito do fundo do meu coração que este triunfo não foi apenas sobre mim enquanto jogador. Agradeço ao Senhor pelo talento que me deu e aos avançados pela forma como me deram a bola», continuou.

As justificações excessivamente religiosas abriram caminho para a imprensa britânica deixar De Beer ao nível de Maradona. Treze anos depois da Mão de Deus, surgiu o Pé de Deus, novamente para destruir as ambições britânicas numa fase final… nuns quartos-de-final.

De Beer manteve o pé quente no jogo das meias-finais, com a Austrália, e marcou todos os 21 pontos da derrota da África do Sul no prolongamento (21-27), graças a seis penalidades e um pontapé de ressalto. Nesse jogo, porém, o herói dos pontapés de ressalto foi outro: Stephen Larkham. O plano de Deus era outro, está visto.

O envenenamento que prejudicou os All Blacks na África do Sul

All Blacks depois da final

A Nova Zelândia era a principal favorita à conquista do título em 1995 mas os sul-africanos estavam dispostos a tudo para ganhar uma vantagem na final. As bebidas dos jogadores no hotel foram manipuladas e 20 dos 26 elementos acabaram com uma intoxicação alimentar em vésperas da histórica final.

O conto de fadas da África do Sul estava à distância de 80 minutos. De seleção impedida de participar em fases finais, por causa do apartheid, os Springboks tiveram a oportunidade única de organizar o Mundial para mostrar ao mundo que eram um país diferente e, surpreendentemente, estavam na final contra os temíveis All Blacks.

A população sentia o entusiasmo e os neozelandeses passaram de heróis que surpreendiam com o seu jogo e com a jovem estrela Jonah Lomu a vilões que representava o último obstáculo sul-africano para a glória.

«Os adeptos estavam a dar tudo e tivemos de viver com isso. Mas mesmo quando estávamos no hotel a almoçar havia mulheres lindíssimas que vinham ter connosco para dizer que os Springboks nos iam matar», recorda Sean Fitzpatrick, capitão dos All Blacks.

Energia do haka não deu para tudo

Os jogadores eram assediados na rua e às portas do hotel, havia cartazes intimidatórios um pouco por todo o lado e a meio da semana da final, a comitiva sentiu que era altura de garantir um descanso. «Sentimos que precisávamos de uma pausa desta loucura, por isso decidimos vir para o hotel depois do treino e almoçar numa sala privada.»

A iniciativa teve mau resultado. Na manhã seguinte a maior parte da equipa estava a vomitar e com diarreia e, quando o dia do jogo chegou, ainda havia cinco jogadores a sofrer. Jeff Wilson, por exemplo, teve de ser substituído ao intervalo por não conseguir aguentar o sofrimento.

A estatística não deixou margem para dúvidas: 20 dos 26 jogadores sofreram com algo que ingeriram naquele dia. Apesar dos problemas, os All Blacks chegaram a acordo para não revelar o que se estava a passar. «Não queria que a África do Sul soubesse que estávamos limitados. Foi a pior coisa que fiz», lamenta Laurie Mains, o selecionador.

O médico Mike Bowen reconhece que nenhum dos jogadores estava a 100% mas não havia grande coisa que pudesse ser feita. Em campo, a Nova Zelândia aguentou enquanto pôde mas acabou por ser relegada ao papel secundário na derrota no prolongamento (12-15).

Um ano mais tarde, Mains contratou um detetive privado para investigar o que se tinha passado naquela semana. O rasto foi dar a uma empregada, apelidada de «Susie», que foi trabalhar para o hotel dias antes da chegada dos All Blacks e que desapareceu sem deixar notícia no dia a seguir ao fenómeno. Os relatos garantem que terá sido ela a deitar uma erva especial «Indian Trick» no chá e no café dos jogadores naquela sala.

Chester Williams. O símbolo desportivo do fim do apartheid

Chester Williams em ação nos quartos de final

Foi o único negro convocado pela África do Sul para o Mundial-1995 e não precisou de muito para se tornar uma estrela. Acarinhado pela comunidade, teve dificuldades para se impor entre os Springboks mas o sucesso desportivo foi determinante: os quatro ensaios nos quartos de final dissiparam qualquer dúvida.

Basta ter visto o filme «Invictus» uma vez para ficar com uma memória auditiva gravada no cérebro: a forma como Morgan Freeman, no papel de Nelson Mandela, e as crianças negras dos subúrbios dizem o nome «Chester».

Chester Williams era uma verdadeira atração. Numa África do Sul a viver os primeiros anos pós-apartheid, e numa fase em que o país ainda estava muito dividido e desconfiado sobre a verdadeira capacidade de sucesso de Mandela, o jogador ajudou a promover a integração no râguebi.

Não era inédito haver jogadores negros nos Springboks mas os últimos anos do apartheid tinham acentuado ainda mais a segregação desportiva. O râguebi era ainda um bastião muito racista e a convocatória de Chester Williams tentou estabelecer a trajetória do futuro: provar que a integração existia também no desporto e captar o interesse de milhões de pessoas na modalidade.

Chester Williams

Recentemente, Chester Williams visitou Portugal e recordou, em entrevista ao Diário de Notícias, o que viveu durante aquele período: «A pressão esteve sempre mais em mim. Não interessa se foi antes do Mundial, durante ou depois. Houve sempre pressão porque eu era a única pessoa negra na equipa e o mundo tinha os olhos postos em mim».

O ala sabia que a sua qualidade era posta em causa, que não havia forma de garantir automaticamente aos olhos dos críticos se tinha sido convocado por mérito ou por golpe mediático. «Tive sempre de estar a dar provas. Mas não tanto pelos outros, mais por mim. Queria provar a mim próprio que era bom o suficiente. E creio que a minha história de sucesso se deve ao facto de eu ter provado a mim próprio que era bom antes de o provar aos outros.»

Foi precisamente isso que aconteceu em campo. Chester Williams não servia apenas para despertar as emoções nas bancadas, como provou no encontro dos quartos de final com a Samoa, ao marcar quatro ensaios na vitória esmagadora por 42-14.

Foram os únicos que conseguiu no torneio mas acabaram por ser mais do que suficientes para consolidar a sua importância na equipa e provar ao mundo e, sobretudo, ao país que o apartheid era mesmo coisa do passado. Os obstáculos iam cair um atrás do outro e Chester Williams desempenhou um papel desportivo fundamental.

[Chester Williams morreu a 6 de setembro, já depois de este texto ser escrito]

Jonah Lomu. A fuga para o estrelato em 1995

Lomu atropelou ingleses na meia-final

Há nomes que conseguem ser maiores do que a modalidade. Michael Jordan é mais do que basquetebol, Tiger Woods é maior que o golfe e Jonah Lomu mostrou desde muito cedo que tinha talento para quebrar as barreiras do râguebi rumo ao estrelato. O cartão de visita foi o Mundial-1995, na África do Sul, quando tinha apenas 20 anos.

Vamos à estatística? Jonah Lomu tinha apenas vinte anos mas foi o jogador mais importante dos All Blacks naquele torneio. O desempenho individual, apesar de não ter sido suficiente para evitar a derrota na final com a África do Sul, ajudou a estabelecer recordes que continuam sem ser batidos 24 anos depois.

Vamos a números? Lomu foi o segundo jogador a marcar sete ensaios na fase final de uma grande competição – superado pelo colega de equipa Marc Ellis, que beneficiou dos seis que fez no triunfo 145-17 contra o Japão. Quando elevou o seu próprio recorde em 1999, para oito, estabeleceu também um novo recorde, de 15 ensaios acumulados em fases finais. O All Black é também o mais jovem jogador de sempre a disputar uma final, com apenas 20 anos e 43 dias, e conseguiu a proeza de marcar quatro ensaios na meia-final contra a Inglaterra.

Quando embalava, era implacável. Semeava o pânico entre a oposição e conseguia, sozinho, dar cabo de toda uma linha defensiva rumo ao ensaio, quase que humilhando quem quer que se atrevesse a colocar-se à sua frente.

Jonah Lomu era imparável

Ninguém esperava que Lomu pudesse ter um papel tão relevante no seio dos All Blacks, sobretudo em 1995. À entrada para a fase final tinha apenas duas internacionalizações pela Nova Zelândia e era incerto se teria sequer uma oportunidade para jogar. Até porque tinha chegado ao estágio com excesso de peso e falava-se de poder ser recambiado para a seleção de sevens.

Depois, tudo mudou. Os colegas de equipa foram os primeiros a perceber o diamante que tinham na equipa. «Lembro-me do dia em que fez o primeiro teste pela Nova Zelândia em 1995. Disseram-me que ele era enorme e que conseguia correr os 100 metros muito rápido, mas achei que era apenas mais uma daquelas histórias que se contam», recorda Zinzan Brooke, outro neozelandês.

A qualidade de Jonah Lomu obrigou o selecionador Laurie Mains a alterar o seu plano de jogo: de um estilo mais pragmático e cínico para um expansivo, no qual o jovem podia ter espaço para desequilibrar com a sua passada demolidora. O objetivo era garantir que Lomu recebesse a bola com o maior espaço para correr disponível. Aí, se conseguisse embalar, não haveria antídoto capaz de o travar.

«Nunca tinha havido alguém como Lomu em 1995 e nunca haverá alguém como ele depois. Nenhum outro jogador conseguiu dominar defesas de forma tão esmagadora como ele», afirmou Bob Dwyer, antigo selecionador australiano.

Jonah Lomu tornou-se uma glória imortal. Figura famosa por todo o mundo, passou a beneficiar de contratos chorudos de publicidade e ganhou o carinho de todos os adeptos. Os problemas de saúde, que o obrigaram a fazer um transplante de fígado, precipitaram o declínio de uma carreira que tinha tudo para ser completamente inigualável. Mas quem o viu não esquece: foi o melhor de sempre.

Max Brito. A maior tragédia do Mundial de Râguebi

Max Brito com os pais

A Costa do Marfim tinha tudo para ser apenas uma nota de rodapé na fase final de 1995. Mas na terceira jornada, depois de duas derrotas pesadas, tudo mudou: Max Brito foi apanhado por baixo de um ruck e fraturou a quarta e a quinta vértebra, ficando paralisado do pescoço para baixo.

O Mundial-1995 foi há 24 anos. Hoje, toda a gente se lembra da magia sul-africana, inspirada por Nelson Mandela, e que terminou com um título muito simbólico que marcou a consolidação da nação arco-íris. E ninguém é capaz de se esquecer da forma como Jonah Lomu tomou os relvados sul-africanos de assalto, mostrando toda a sua qualidade e assumindo-se como o jogador mais temível daquele período.

Da Costa do Marfim e de Max Brito, porém, poucos se lembram. África teve duas seleções num mundial pela primeira vez: depois das campanhas modestas de Zimbabué em 1987 e 1991, 1995 tinha tudo para ser um ano de viragem, sobretudo porque os Springboks tinham deixado o apartheid para trás e tinham garantido a estreia em fases finais a jogar em casa. Mas houve também espaço para a Costa do Marfim, que se apurou depois de superar a concorrência de Namíbia e Zimbabué.

Num grupo com França, Escócia e Tonga, a participação da Costa do Marfim tinha os dias contados, literalmente. Ia perder a 26 de maio, a 29 de maio e a 3 de junho e regressaria a casa. Os resultados foram esmagadores: 0-89 com a Escócia, 18-54 com a França e 11-29 com Tonga.

Max Brito ainda com a bola no início da jogada

O jogo da despedida foi trágico. Não por ter carimbado definitivamente o adeus à prova mas porque Max Brito sofreu uma lesão gravíssima aos três minutos. Depois de ter tentado ganhar metros, caiu no relvado e acabou a ser apanhado por baixo de um ruck. Quando a formação espontânea colapsou, o corpo de Max Brito foi esmagado e resultou na fratura de duas vértebras.

Os minutos que se seguiram foram dramáticos. Perante a apreensão de jogadores, equipa técnica e adeptos, não foi preciso esperar muito para se perceber que a lesão era grave. Foi transportado de imediato para o hospital de Pretória, para garantir a estabilização da coluna, mas o mal estava feito.

Max Brito entrou de pé no Olympia Park de Rustenberg naquele 3 de junho de 1995 mas nunca mais voltaria a andar na vida. Eletricista de profissão, nascido na Costa do Marfim mas a viver em França, viu a sua vida dar uma volta de 180 graus.

A relação com a mulher deteriorou-se, divorciou-se, perdeu gradualmente o contacto com os filhos e acabou a viver novamente com os pais. Em 2007, doze anos depois do acidente, o progresso era mínimo: já conseguia mexer ligeiramente o tronco e um dos braços.

Quando Samoa entrou no mapa à custa de Gales

Samoanos chocaram Cardiff

A tradição de Gales aliada ao terceiro lugar no Mundial inaugural fazia dos europeus favoritos no jogo de estreia em 1991, mas uma entrada em falso abriu caminho para que Samoa, em estreia absoluta, vencesse a primeira jornada e não vacilasse rumo aos quartos-de-final. Foi a primeira grande surpresa em fases finais.

O grupo 3 do Mundial-1991 poderia ser considerado o grupo da morte se visto aos olhos de 2019. Austrália, Gales, Argentina e Samoa disputaram dois lugares de acesso aos quartos e a fava calhou aos europeus e americanos. Se os Pumas ainda não tinham o nome de peso que conquistaram durante o início do século XXI, a eliminação dos galeses foi uma grande surpresa, até porque estavam a jogar em casa.

A Austrália era vista como a maior favorita – ia mesmo ser campeã mundial semanas depois -, mas Gales sabia que tinha tudo para terminar o grupo na segunda posição. O caminho para o apuramento começaria a desenhar-se a 6 de outubro, em Cardiff, contra Samoa e, na altura, 45 mil pessoas assistiram incrédulas ao desaire (13-16).

A capacidade física dos samoanos deixou marca. Construídos de forma compacta e implacáveis nas placagens, fizeram-se sentir junto dos galeses e acumularam baixas nos adversários:  Tony Clement, Phil May e Richie Collins lesionaram-se e tiveram de abandonar o encontro.

A lógica diria que, ainda assim, Gales seria candidato ao triunfo. Jogava em casa – no Cardiff Arms Park – e ninguém conhecia verdadeiramente o poderio de Samoa. Mas, à medida que o jogo se foi desenrolando, o fantasma da surpresa materializou-se e percebeu-se que a seleção da Oceânia não ia virar a cara à luta.

Samoa bateu Gales por 16-13

O râguebi podia não ser espetacularmente criativo, nem à medida do modelo europeu mais pragmático, mas era eficaz. A entrega total ao jogo, lutando por cada centímetro, só foi manchada pela verdade desportiva. Contam as reportagens da altura que o ensaio da vitória samoana não foi, de facto, ensaio. A repetição televisiva confirma que a ação não devia ter sido validada mas em 1991 a batalha pela verdade desportiva e recurso às imagens não estava ainda no horizonte.

O triunfo de Samoa não foi apenas uma grande surpresa, mas também um enorme aviso à navegação. «Toda a gente percebeu a ameaça que Samoa era a partir daquele momento», recordou Michael Lynagh, uma das estrelas da Austrália. «Ainda bem que passámos a ter um termo de comparação», acrescentou, antecipando o encontro da segunda jornada em que os Wallabies acabariam por vencer 9-3, com Lynagh a marcar todos os pontos australianos.

Depois de derrotar a Argentina, Gales entrou para a última jornada a precisar de um milagre para seguir em frente – mesmo se conseguisse vencer a Austrália (acabou por perder 3-38) - mas Samoa tinha outra ideia. Os samoanos voltaram a brilhar ao mais alto nível e derrotaram os Pumas sem contemplações por 35-12, garantindo o passaporte para a fase seguinte.

Nos quartos-de-final, a surpresa já não existia. A sequência de jogos deixou uma fatura física que os samoanos não suportaram e não conseguiram chocar Edimburgo contra a Escócia da mesma forma que fizeram em Cardiff. A derrota por 6-28 foi pesada mas não suficiente para apagar o brilho de uma seleção com uma enorme margem de progresso no râguebi mundial.

Hoje, Samoa tem um cartão de visita muito mais respeitável apesar de contar com quatro eliminações consecutivas na fase de grupos. Como será no Japão?

Michael Jones. O homem que não jogava aos domingos

Michael Jones jogou sempre com o pai no coração

É considerado um dos melhores All Blacks do século XX e os colegas olhavam para ele como um dos jogadores mais completos do râguebi. Está na história da Nova Zelândia em Mundiais mas nem sempre conseguiu corresponder em campo: tudo porque se recusava a competir aos domingos.

Nasceu na Nova Zelândia mas começou por ser internacional pela Samoa, em 1986, num jogo contra Gales. Um ano depois, quando foi chamado para representar os All Blacks no Mundial-1987 não teve qualquer problema em mostrar por que viria a ser um dos jogadores mais importantes do râguebi mundial do século.

Há muitas formas de perceber que Michael Jones tem um lugar na história. Podíamos dizer que foi o autor do primeiro ensaio da Nova Zelândia em Mundiais, logo em 1987. Que, simultaneamente, esse foi também o primeiro ensaio em fases finais. Ou, curiosamente, que foi também dele o primeiro ensaio no Mundial-1991.

Mas não. Michael Jones será mais vezes recordado como o homem que não jogava aos domingos. Devoto cristão, prometeu ao pai no leito da morte que nunca jogaria aos domingos, por mais importante que o jogo pudesse ser.

A promessa foi cumprida e trouxe vários dissabores desportivos… pessoais e coletivos. Em 1991, Michael Jones falhou três jogos durante o torneio, inclusive o encontro da meia-final contra a Austrália, no qual os All Blacks acabaram derrotados pelos Wallabies por 16-6.

Em 1995, já com trinta anos, a Nova Zelândia foi obrigada a tomar uma decisão difícil e percebeu que não valeria a pena continuar a contar com o contributo de um jogador que poderia ficar de fora dos encontros decisivos – quartos-de-final e meia-final.

As limitações não o impediram, ainda assim, de ter uma carreira com muito para contar. Fez 55 jogos pela Nova Zelândia, foi campeão mundial e 1987, está historicamente ligado ao ensaio simbólico de 1987 e foi eleito como o terceiro melhor All Black do século XX, atrás de Colin Meads e Sean Fitzpatrick,

E conseguiu fazê-lo sempre sem pôr em causa a promessa que tinha feito ao pai ou a fé cristã. Sim, apesar de ser um jogador conhecido pelas suas implacáveis placagens dentro de campo, a violência nunca foi um problema para a sua espiritualidade. A resposta, citando uma passagem da Bíblia, não podia ser mais adequada ao seu papel dentro de campo: «É melhor dar do que receber».

E Jones sempre preferiu dar. Sem contemplações.

O dia em que acreditar foi uma enorme desilusão para a Irlanda

O ensaio decisivo de Lynagh

BBC escreveu no dia seguinte que «ninguém acreditava genuinamente que a Irlanda pudesse fazer frente à Austrália durante os 80 minutos». Mas pôde… e esteve perto, muito perto, de fazer cair a futura campeã mundial. No fim, o ensaio de Michael Lynagh foi um balde de água fria que Dublin não conseguiu superar.

Para que servem quatro minutos? No futebol, quatro minutos dão para muito pouco, embora grande parte dos momentos históricos que nos recordamos envolvam reviravoltas impressionantes – como a de Camp Nou em 1999 – que não precisaram de muito mais. Por outro lado, um vídeo de quatro minutos seria mais do que suficiente para mostrar as melhores corridas na carreira de Usain Bolt nos 100 metros.

O tempo é relativo. Até no desporto. Quando a Irlanda passou para a frente do marcador nos quartos-de-final do Mundial-1991, contra a Austrália, em Dublin, o cenário da maior vitória de sempre da seleção começou a pairar no ar. E não podia acontecer em melhor palco: estavam a jogar em casa, perante o seu público, num Mundial e contra uma das principais favoritas ao título.

Para a Irlanda, quatro minutos eram uma eternidade. Para a Austrália, parecia pouco. Muito pouco. Lansdowne Road ficou ao rubro aos 76 minutos do encontro quando Gordon Hamilton correu 40 metros praticamente sozinho para pôr a Irlanda em vantagem. Ralph Keyes converteu o ensaio e garantiu uma vantagem de três pontos: 18-15.

A corrida épica de Gordon Hamilton

Com o triunfo na ponta dos dedos, a ponta da língua quase não teve tempo para saborear aquele momento. A dois minutos do final, a Irlanda fez uma falta que daria a oportunidade de empate à Austrália. Mas Michael Lynagh foi ambicioso: os Wallabies estavam a vinte metros da linha de ensaio e decidiram partir em busca do triunfo.

As bancadas passaram da euforia à incredulidade em segundos. David Campese partiu determinado para o seu terceiro ensaio mas foi placado perto da linha de fundo e abriu caminho para uma nova fase, concluída com êxito por Lynagh. Assim, em tão poucos segundos, a Irlanda tinha deixado fugir a glória por entre os dedos.

Ensaio de Hamilton tornou-se nota de rodapé

«A equipa estava muito concentrada naquilo que tinha de fazer. Quando há situações de pressão, pensar na tarefa que se tem em mãos ajuda a pôr a importância do momento de lado. Cada pessoa na equipa pensou apenas no que tinha de fazer para executar o plano», contou Lynagh anos mais tarde.

E depois, o silêncio sepulcral. «Parecia fúnebre. Pensamos que há alguma coisa de errado mas depois percebemos que a multidão ficou em silêncio. Foi um grande alívio para nós», continuou o herói australiano.

Para Gordon Hamilton, que esteve muito perto de ser a estrela irlandesa, o desfecho foi devastador e alastrou-se ao balneário. «Foi mais um jogo que poderíamos ter ganhado e acabámos por perder», lamentou.

O triunfo serviu de catalisador para o título australiano. A forma como os jogadores reagiram à desvantagem e executaram o tal plano de que falava Lynagh tornou-se o mote para as fases seguintes. A Austrália bateu a Nova Zelândia na meia-final (16-6) e conquistou o primeiro título mundial da sua história ao derrotar a Inglaterra por 12-6. Para os irlandeses, 28 anos depois, continua a ser apenas mais um capítulo «do que poderia ter sido».

O memorável empate entre França e Escócia

França-Escócia na Nova Zelândia

O râguebi não é uma modalidade tão alérgica a empates como outras mas a estatística demonstra que é muito invulgar que um encontro de um Mundial termine com duas seleções mutuamente anuladas, sobretudo na fase de grupos. Houve apenas três: Japão e Canadá foram velhos conhecidos em 2007 e 2011 mas em 1987, na edição inaugural, França e Escócia ofereceram 84 minutos épicos.

Quando foi conhecido o sorteio da fase de grupos do primeiro Mundial de râguebi da história, não houve dúvidas: o França-Escócia que abria o grupo D a 23 de maio de 1987 seria um dos jogos mais interessantes da primeira fase. As duas equipas tinham tradição e aspirações a chegar longe e não se podiam dar ao luxo de cair para o segundo lugar, que tinha um mais que provável encontro com a Nova Zelândia no horizonte nos quartos-de-final.

Franceses e escoceses fizeram pela vida no Lancaster Park, em Christchurch. Na véspera, no jogo de abertura da competição, os All Blacks tinham dizimado a Itália por 70-6. Mas ali, um dia depois, não se esperava um novo resultado desnivelado. Os britânicos começaram melhor, conseguiram um ensaio por Derek White, e Gavin Hastings foi fundamental, com quatro penalidades, para que a Escócia chegasse a ter uma vantagem de 16-6.

Mas nem tudo lhes corria bem. Nem tudo iria correr bem dali para a frente. O médio de abertura John Rutherford tinha saído lesionado – seria o seu último jogo pela seleção – e, aos 79 minutos, com uma curta vantagem de dois pontos (16-14), Serge Blanco conseguiu surpreender tudo e todos e deixar os gauleses em vantagem.

Conta a lenda que o ensaio de Blanco nunca devia ter acontecido. Havia dois jogadores no chão e os escoceses acreditavam piamente que o árbitro inglês Fred Howard não iria permitir que o jogo se retomasse quando apitou uma penalidade favorável à equipa francesa. Mas Blanco optou pelo fator-surpresa, saiu rápido a jogar, sozinho, e conseguiu o ensaio.

«Foi estranha a forma como este ensaio apareceu», explicou Philippe Sella no final. «[Blanco] teve sorte em correr aquela distância sozinho sem ninguém o parar, ninguém estava à espera.»

A vencer 20-16 (os ensaios valiam apenas quatro pontos), a França tinha o jogo na mão mas a Escócia ainda tinha um trunfo no bolso. O jogo prolongou-se por mais quatro minuto depois dos 80 e quis o destino que fosse Matt Duncan – o escocês que estava no chão quando Blanco surpreendeu – a fazer o ensaio que empatou o marcador.

O pontapé «decisivo» de Hastings

Com o encontro no último suspiro e empatado a 20, Gavin Hastings voltou a ser chamado à ação. Estava com 50% de eficácia (quatro em oito pontapés) e desta vez surgia a pressão adicional de ser quase literalmente um pontapé para a vitória. Falhou, por pouco, mas falhou, fazendo a bola passar a poucos centímetros do poste esquerdo.

O encontro terminou pouco depois com o facto histórico de ter sido o primeiro empate numa fase final de um Mundial. O caminho para o primeiro lugar do grupo estava aberto para as duas seleções mas os All Blacks acabaram por marcar a despedida de ambas.

A Escócia perdeu logo nos quartos-de-final (acabou por ser relegada nos critérios de desempate) por 3-20. A França atingiu a final mas saiu derrotada por 9-29.

Como o apartheid ajudou os All Blacks a vencer em 1987

David Kirk recusou integrar Cavaliers e foi figura de proa no Mundial

A África do Sul só participou num Mundial pela primeira vez em 1995 mas teve uma importância fundamental no título da Nova Zelândia na edição inaugural. Destino de uma equipa não autorizada dos All Blacks, provocou uma onda de acontecimentos que vieram a ser decisivos no desfecho em 1987.

Chamavam-se New Zealand Cavaliers mas eram, na verdade, um conjunto de All Blacks a desafiar as regras da federação nacional. Quando se começou a falar de uma digressão à África do Sul, em 1985, a polémica não se fez esperar. A atitude era vista como uma ação conivente com o regime instalado no país africano e a viagem acabou por ser impedida por um tribunal. No ano seguinte, porém, os Cavaliers seguiram mesmo viagem e mostraram ser a primeira peça de um dominó que terminou com o título mundial em 1987.

A história é complexa mas simples de explicar. A digressão ao país do apartheid constituía uma excelente oportunidade financeira para os jogadores. Numa era em que a modalidade era amadora – e qualquer ideia de profissionalismo era placada à nascença – os Cavaliers viram naqueles quatro jogos uma ocasião para ganhar algum desafogo financeiro.

Os jogadores dos All Blacks, mesmo sem esta chancela oficial, corresponderam praticamente em peso apesar da contestação nacional em todos os quadrantes, e apenas dois dos internacionais habituais recusaram a oportunidade: John Kirwan jogava em Itália, tinha o pai doente e não quis viajar; David Kirk recusou por questões morais.

Os primeiros confrontos surgiram ainda antes da viagem para a África do Sul. Os adeptos não queriam que se pactuasse com o regime do apartheid e fizeram questão de o fazer sentir. No regresso, depois de uma vitória em quatro jogos, as consequências estavam apenas no início: alguns jogadores que eram funcionários públicos acabaram despedidos e todos os elementos foram suspensos por dois jogos.

David Kirk tornou-se o novo líder da equipa – sucedendo a Andy Dalton neste período – e viu entrar uma nova geração de jogadores que ficou conhecida por «Baby Blacks». O egoísmo dos mais experientes foi, assim, uma oportunidade para os mais novos poderem mostrar o que valiam e justificar a entrada em ação de novas soluções para os All Blacks.

O Mundial-1987 estava cada vez mais próximo – e seria organizado a meias entre a Nova Zelândia e a Austrália – e a instabilidade no seio dos All Blacks era uma preocupação. Quando as suspensões terminaram, nasceu um conflito na equipa. Os Cavaliers de regresso queriam recuperar o comando da seleção e encetaram uma estratégia para forçar o abandono de Kirwan e Kirk.

As tentativas saíram sempre goradas. A opinião pública estava contra os Cavaliers e os protestos continuavam, inclusive com cercos ao hotel onde estavam hospedados os All Blacks. «Dividiu o país. Dava para sentir que algo estava mal. Os mais velhos voltaram, não perdoavam a ausência de Kirwan e Kirk na digressão à África do Sul e quiseram expulsá-los da equipa», disse Sean Fitzpatrick, na altura um jogador com pouca influência nos All Blacks.

A chegada ao Mundial continuou a ser uma grande incógnita mas a persistência valeu a pena. David Kirk não só continuou na equipa como foi mesmo o capitão no evento após a lesão de Andy Dalton; os Cavaliers recuperaram a estabilidade e fizeram a diferença como veteranos de créditos firmados; e os Baby Blacks aumentaram o leque de opções, conquistando uma experiência que nunca poderia sido adquirida se os Cavaliers não tivessem sido suspensos.

Foi assim, do caos, que os All Blacks entraram na história como os primeiros campeões do mundo.

Fiji. Quando um golpe de Estado não parece interferir

Fiji no Mundial-1987

Instabilidade política nas Ilhas Fiji tornou a preparação da seleção de râguebi para o Mundial inaugural em 1987 um pesadelo. Mesmo assim, apenas dez dias depois do primeiro golpe de Estado que o país viu naquele ano, os jogadores chegaram à Nova Zelândia e deram início a uma campanha brilhante que só terminou nos quartos-de-final.

A incerteza fijiana foi tão grande que a organização quis guardar um trunfo na manga. Caso a instabilidade política viesse a afetar a seleção, a Samoa Ocidental estava preparada para servir de alternativa e garantir a estreia na primeira edição da história.

Havia razão para temer. O tenente-coronel Sitiveni Ribuka, o terceiro na linha de comando da Força Aérea, fazia parte da minoria indígena e representava uma comunidade que tinha estado em constante tensão com outros grupos étnicos desde a independência do Reino Unido.

As Fiji tinham acabado de ter eleições mas Rabuka agiu e assumiu a autoria do golpe de Estado que depôs o primeiro-ministro Timoci Bavadra. A organização do torneio temeu que os jogadores não conseguissem sair do país e Nick Shehadie, líder do comité, entrou em contacto com a federação da Samoa Ocidental.

«Acabou por ser bom que não tenha sido preciso recorrer à alternativa, as Fiji tornaram-se uma das equipas mais populares do torneio», disse.

Seria difícil para uma seleção como as Ilhas Fiji, mesmo na máxima força, poder sequer sonhar em fazer a diferença numa prova em que havia Austrália, Nova Zelândia e as principais potências europeias (África do Sul ficou de fora por causa do apartheid). Mas, dentro das suas limitações, as Fiji seduziram os adeptos e começaram logo a vencer, apenas dez dias depois do golpe de Estado.

A 24 de maio, na Nova Zelândia, a equipa não teve dificuldade em derrotar a Argentina por 28-9. Depois deste resultado, o caminho para os quartos, num grupo que incluía os All Blacks, ficava dependente única e exclusivamente do jogo com a Itália. Por isso, numa estratégia pragmática, o selecionador decidiu poupar alguns dos seus jogadores contra a Nova Zelândia (13-74) para garantir uma equipa fresca no jogo crucial.

All Blacks derrotaram Fiji na fase de grupos

Quando a Argentina derrotou a Itália na segunda jornada, as contas ficaram mais complexas. As Fiji até podiam perder com a Itália, como veio a acontecer, que tudo dependeria dos critérios de desempate, sobretudo os ensaios. Aí, apesar da derrota com a equipa europeia (15-18), no terceiro jogo num espaço de sete dias, as Fiji seguiram em frente por culpa de seis ensaios. Itália e Argentina também terminaram com dois pontos mas fizeram apenas cinco e quatro ensaios, respetivamente.

Os objetivos mínimos estavam alcançados. E, se quisermos ir mais longe, os máximos (realistas) também. Nos quartos, as Fiji marcaram encontro com a França sabendo que só um grande milagre conseguiria fazer a equipa avançar rumo às meias-finais.

O estilo de jogo das Fiji convenceu adeptos – a grande maioria dos 17 mil que marcaram presença no Eder Park em Auckland torcia pelos insulares – mas não foi suficiente para derrubar os gauleses, que levaram a melhor por 31-16.

De regresso a casa, o cenário continuou problemático. Os jogadores das Fiji foram heróis durante algum tempo mas a situação estava longe de melhorar. Poucos meses depois, a 28 de setembro, houve segundo um golpe de Estado, que foi ainda mais longe do que o primeiro, depondo Isabel II como Rainha das Fiji e abrindo caminho para a proclamação da República a 7 de outubro. O líder do segundo golpe de Estado? Sim, só podia ser Sitiveni Rabuka novamente.

Webb Ellis. O mito que dá nome à taça

Webb Ellis Cup

Origem da história é contestada mas a lenda é grande o suficiente para batizar o troféu do Mundial de Râguebi. Esta é a história – impossível de comprovar – sobre o homem que decidiu contornar as regras e dar início a uma modalidade cada vez mais global.

Nasceu há praticamente 213 anos mas vai estar muito presente no Mundial do Japão, que tem início marcado para 20 de setembro. William Webb Ellis esteve sempre longe de imaginar a globalização de um desporto como o râguebi mas foi ele que, em 1823, decidiu fugir à regra – quase literalmente - e deu os primeiros passos – agora sim, duplamente literal – do râguebi como o entendemos hoje.

Como em qualquer outra grande história que marca a origem de uma modalidade, é muito difícil separar o mito do facto, a lenda da realidade. Aconteceu em 1823, durante um encontro entre as escolas de Town House e Bigside. O objetivo seria jogar uma variante de futebol em que era possível agarrar a bola com as mãos mas fora da lei correr com ela.

Mas Webb Ellis tinha outra ideia naquele dia, contornou as regras e decidiu começar a correr. O movimento – tendo existido – não provocou qualquer impacto imediato na história do desporto. De facto, só na reta final do século XIX é que a história começou a ver a luz do dia. Por esta altura, era já impossível garantir se a versão contada (que foi sofrendo várias alterações) por Matthew Bloxam era real ou não.

Estátua imortaliza a história de Webb Ellis

Webb Ellis morreu em 1872 e nem sequer teve a oportunidade de dar o seu testemunho. Mas houve quem tenha garantido que o antigo jogador tinha fama de não ligar às regras desde que essas infrações lhe dessem uma vantagem desportiva.

As investigações lançadas para aferir da realidade do mito nunca deram em nada. A incógnita resistiu mas, perante a necessidade de definir um momento na história em que os primeiros sinais do râguebi – como hoje o conhecemos – surgiram, os responsáveis acharam por bem recuar até 1823 e imortalizar a história de Webb Ellis. Só décadas depois é que correr com a bola passou a ser aceitável e, apesar de ser improvável verificar a influência da ação de Webb Ellis, não é totalmente impossível que o adolescente irascível tenha largado as sementes da ideia.

A história de Webb Ellis cruzou-se com o râguebi depois de o pai ter morrido ao combater nas invasões napoleónicas na Península Ibérica. James, pai de William, chegou a estar destacado em Portugal, até morrer na Batalha de Albuera em 1812, quando o filho tinha apenas seis anos.

Com o dinheiro que a coroa britânica ofereceu à família como pensão, a mãe decidiu pagar a educação de William numa escola em Rugby, no Warwickshire, abrindo caminho para o início do mito. Depois, William seguiu para Oxford e jogou críquete em 1827, não demonstrando qualquer apetência para a criação de uma nova revolução desportiva.

William Webb Ellis tornou-se um homem devoto à religião e dedicou o resto da sua vida à igreja anglicana, até morrer em 1872 em França. O seu túmulo, na zona da Côte D’Azur, é atualmente conservado pela própria Federação Francesa de Râguebi.