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É Desporto

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Ayumi Kaihori. A Grande Muralha do… Japão

Uma baliza demasiado pequena?

Não é uma guarda-redes famosa como Hope Solo nem conseguiu ser campeã do mundo sem sofrer qualquer golo durante a prova como Nadine Angerer, mas Ayumi Kaihori escreveu uma das histórias mais impressionantes em fases finais: no jogo decisivo com os Estados Unidos, defendeu dois penáltis no desempate, viu outro sair por cima, e ofereceu de bandeja o título ao Japão.

 

Decidir um Mundial nos penáltis é muito ingrato e o futebol, tanto o masculino como o feminino, têm uma história com muito mais pontos de encontro neste aspeto do que possa parecer. Em 1994, nos Estados Unidos, a Itália de Roberto Baggio perdeu desta forma contra o Brasil. Cinco anos depois, novamente nos Estados Unidos e no mesmo estádio (Rose Bowl), a seleção da casa de Mia Hamm, Brandi Chastain e companhia levou a melhor sobre a China.

 

Em 2006, na Alemanha, a Itália de Buffon, Cannavaro e Pirlo recuperou do trauma e levou a melhor sobre a França. Novamente cinco anos depois, também na Alemanha, os Estados Unidos voltaram aos penáltis numa fase final de futebol feminino. A história parecia jogar contra as norte-americanos: se a Itália tinha perdido a primeira e vencido a segunda, talvez os Estados Unidos estivessem destinados a saírem derrotados da segunda depois de ganhar a primeira.

 

As coincidências não comandam um jogo de futebol mas o certo é que foi precisamente isso que se começou a desenhar quando Shannon Box partiu para o primeiro remate da série: pouco colocado para a esquerda de Kaihori, que defendeu com a canela direita.

 

Depois de Aya Miyami marcar, sem dificuldade, foi a vez de Carli Lloyd – uma norte-americana ainda ignorante de que teria um lugar especial reservado na história das finais, mas apenas quatro anos depois. A atacante partiu para a bola com especial vontade mas o remate assemelhou-se mais a uma descolagem no Cabo Canaveral – saindo por cima da barra – do que um pontapé com intenções de golo.

 

Quando Yuki Nagasato falhou para o Japão, as jogadoras dos Estados Unidos voltaram a acreditar, mas este era o dia de Ayumi Kaihori. Tobin Heath até tinha entrado aos 114 minutos. Estava fresca e mentalizada para a possibilidade de ter de marcar uma grande penalidade. Escolheu o lado direito de Kaihori e… viu os tentáculos da japonesa pararem o remate, desta vez com as luvas.

 

Mizuho Sakaguchi fez o 2-0 para o Japão e Abby Wambach sabia que não podia mesmo falhar, caso contrário o título estava definitivamente entregue. Experiente, tomou pouco balanço e rematou de forma aparentemente indefensável, levantando o esférico com a precaução suficiente para garantir que não falhava a baliza mas com a segurança suficiente de que era alta demais para Kaihori lhe tocar.

 

O mal, de qualquer modo, estava feito. Saki Kumagai imitou a estratégia de Wambach e pôs um ponto final no Mundial. O Japão era campeão, de forma surpreendente, e Ayumi Kaihori tinha desempenhado o papel de protagonista principal.

 

De pouco interessava se o Japão tinha batido o recorde de golos sofridos de um campeão (seis) ou se tinha sido o único vencedor a perder um jogo na fase de grupos (Inglaterra, 0-2). Kaihori tinha sido batida apenas por uma vez no desempate por penáltis e as nipónicas tinham todos os motivos para festejar.

 

O momento de glória seria eterno e nem a vingança dos Estados Unidos quatro anos depois poderia apagar aquele momento. Carli Lloyd fez três golos a Ayumi Kaihori nos primeiros 16 minutos e Tobin Heath também marcou na goleada por 5-2, mas tanto a guarda-redes como o próprio Japão sentiam que uma final nunca apagaria a outra. Conquistar o campeonato é único – e as japonesas tinham feito história. Para elas e para a Ásia.

Homare Sawa. A ponta da espada japonesa

Homare Sawa

Foi a capitã, a melhor jogadora e a melhor marcadora no Mundial-2011 ganho pelo Japão. Tinha 33 anos, estava a participar na sua quinta fase final e nunca tinha conseguido melhor do que os quartos-de-final, mas assumiu um papel preponderante. No jogo do título, não foi chamada a marcar no desempate por penáltis com os EUA mas o jogo só chegou a essa fase depois de marcar a três minutos do final do prolongamento.

 

Nota: o parágrafo que se segue é uma citação direta de uma página na Wikipédia porque não haveria outra forma de termos conhecimento sobre um tema que está longe de figurar nas nossas preferências. Vamos a ele, então.

 

«A espada japonesa descreve um conjunto de armas brancas produzidas utilizando uma técnica japonesa especial. Existem vários tipos de espadas japonesas que diferem de tamanho, forma, modelo, aplicação e método de fabrico. Alguns tipos mais comummente conhecidos de espadas japonesas são o tachi, katana, wakizashi, tantō, ōdachi, nagamaki e a naginata. A mais famosa espada é a katana, que, como a similar arma tachi, consiste num único gume sendo geralmente uma espada longa, tradicionalmente empregue por samurais do século XV.»

 

Na Alemanha em 2011, a seleção japonesa foi uma katana. E Homare Sawa, figura presente em fases finais desde 1995 sem qualquer ausência, assumiu-se naturalmente como o seu gume. O estatuto que assumia naquela equipa orientada por Norio Sasaki é incontornável. Se o Mundial fosse uma festa, Sawa teria lançado os foguetes, feito a festa e apanhado as canas.

 

Homare Sawa foi capitã por mérito próprio. Foi a melhor jogadora da prova pela qualidade que demonstrou em campo. E foi a melhor marcadora porque, apesar de jogar no meio-campo, sempre demonstrou uma predisposição para fazer a diferença no ataque. Quando fez um hat-trick ao México na fase de grupos abriu caminho para chegar ao troféu individual, sobretudo na edição com menos golos da história e onde a futura melhor marcadora (ela própria) não fez mais do que cinco golos no torneio completo.

 

Na fase a eliminar, Sawa voltou a aparecer nos momentos decisivos. Na meia-final contra a Suécia, fez o 2-1 parcial num jogo que acabaria 3-1. No dia da final, Sawa estava empatada no número de golos com Marta (4) e tinha a adversária Abby Wambach com três. O principal objetivo nunca mudou: conquistar um campeonato do mundo inédito para as nipónicas.

 

O Japão viu o título fugir por mais do que uma vez. Durante o tempo regulamentar, só conseguiu o empate aos 81 minutos, por Aya Miyama. Depois, quando Wambach marcou no prolongamento aos 104 minutos, a margem de erro ruiu e o Japão passou a precisar de um ato de heroísmo que mantivesse as asiáticas em jogo.

 

Quando marcou aos 117 minutos, a três do final do encontro arbitrado por Bibiana Steinhaus (a alemã que agora é nomeada para jogos da Bundesliga), Sawa demonstrou que também podia ser uma… espada de dois gumes. Por um lado, isolou-se na lista de melhores marcadores; por outro, ditou a existência do desempate por grandes penalidades.

Mundial chegou nos penáltis

Aí, Sawa nem precisou de marcar. Depois de quatro penáltis para cada lado, o Japão fechou a contagem – muito graças às três defesas de Ayumi Kaihori – e tornou-se campeão mundial. A consagração de Sawa não foi mais do que um momento esperado, depois de tudo o que vinha fazendo pela seleção.

 

Internacional desde 1993, com apenas 15 anos, tornou-se uma presença assídua na equipa e nas fases finais. Apesar de ter competido em seis fases finais (despediu-se no Mundial-2015), Sawa só marcou em duas: três golos em 2003 e cinco em 2011, no ano que nunca esquecerá.

 

Hoje, com 40 anos, Sawa é uma referência que japoneses e japonesas nunca esquecerão. É a pensar nela que as crianças adormecem e sonham com uma carreira de futebolista. É o símbolo do título, é a garantia de que há espaço para toda a gente. Jogando quase sempre nos campeonatos nacionais, Sawa chegou a fazer parte do plantel das Atlanta Beat, ao lado de Sun Yen, a melhor chinesa da história.

 

Mas, ao contrário de Yen, que não foi além de uma final em 1999, Sawa deu mais passos rumo ao Olimpo… e não apenas pela medalha de prata em Londres-2012. A glória individual foi uma consequência natural em 2011, depois de tudo o que fez na fase final. O troféu de melhor jogadora do mundo, atribuído pela FIFA, foi uma distinção esperava. Sawa podia ser a ponta da espada mas não se limitava a isso. Era especial.

Marta (Vieira da Silva). A ministra do futebol brasileiro

Marta é um fenómeno do Brasil

É o mais próximo de Messi e Ronaldo que o futebol feminino teve. Entre 2004 e 2018, só por uma vez a brasileira não constou no pódio das melhoras jogadoras do ano para a FIFA. Vencedora em 2006, 2007, 2008, 2009, 2010 e 2018, a jogadora de Alagoas construiu uma reputação intocável no futebol mundial à conta do seu estilo técnico, capaz de maravilhas individuais a cada momento. Em 2011 atingiu o topo das goleadoras de fases finais.

 

Se o futebol feminino tivesse o impacto do futebol masculino em todo o mundo, é muito provável que nunca mais um turista brasileiro conseguisse sair do seu país sem que alguém no seu destino lhe dissesse: «Brasil? Ah, Marta!». Aquilo que os portugueses ouvem com Eusébio, Figo e Ronaldo, os argentinos com Maradona e Messi, os holandeses com Cruijff e Van Basten e… bom, já deu para perceber a ideia. Marta é sinónimo de futebol brasileiro feminino.

 

Nascida em 1986, cresceu numa fase em que o futebol feminino já começava a dar cartas. Os tempos em que o campeonato brasileiro não tinha apoios e a seleção se limitava a ser uma extensão do EC Radar faziam parte do passado.

 

Quando Marta chegou à seleção principal em 2002, com apenas 16 anos, já o Brasil tinha deixado de ser um saco de pancada habitual em fases finais. Lutar pelo título pode ter parecido sempre uma utopia, apesar do terceiro lugar em 1999, mas o estigma de uma seleção fraca foi derrubado definitivamente com a passagem do século XXI.

 

O Brasil precisou apenas de tempo para mostrar aos seus habitantes que o futebol feminino existia e que se estava a tornar um fenómeno. As crianças começaram a olhar para a modalidade com verdadeiros olhos de ver e foi uma questão de tempo até os resultados aparecerem. Marta foi o pináculo desse fenómeno.

Marta é a líder da seleção

Profissional aos 14 anos, pelo Vasco da Gama, a canhota jogava de forma a fazer lembrar os maiores de outros tempos, como Pelé ou Garrincha. Marta perdeu personalidade: deixou de poder ser Marta. Marta apenas. Tornou-se o «Pelé de saias», numa rotulagem tantas vezes explorada para aumentar o interesse do espectador casual.

 

Mas Marta era especial. Encantava sem precisar de rótulos. E, à imagem de outras lendas de um só nome, também respondia oficialmente por três. Se Eusébio era Ferreira da Silva e Pelé era [Edson] Arantes do Nascimento, Marta era Vieira da Silva.

 

Com ela, o Brasil subiu de produção nas grandes provas e em 2007 conseguiu uma presença histórica na final do Mundial. Marta, à semelhança de tantos heróis do futebol masculino, ficou associada a um penálti falhado – remate denunciado a permitir a defesa a Nadine Angerer – numa altura em que a Alemanha ia vencendo o Brasil por 1-0. Foi uma triste conclusão numa prova em que venceu os troféus de melhor jogadora e de melhor marcadora (sete golos).

 

O Brasil da era Marta nunca foi eliminado na fase de grupos de um Mundial. E nos Jogos Olímpicos conseguiu duas medalhas de prata consecutivas: em Atenas-2004 e Pequim-2008. O Brasil vivia o seu momento áureo e a maior responsável era Marta.

 

Mas Marta, lá está, era apenas Marta. Não no nome mas na qualidade. Se é certo que onze Martas não chegariam para o título – tal como onze Messis, acrescente-se – também é verdade que nunca beneficiou do mesmo apoio fundacional que outras grandes jogadoras tiveram em seleções mais tradicionais, como Alemanha e, sobretudo, Estados Unidos.

 

Tinha um limite e fez tudo o que podia dentro dessa fronteira. Não podendo fazer a diferença coletiva como desejaria, partiu, sem grande problema, para a história individual. Depois dos três golos no Mundial-2003 e dos sete no Mundial-2007, Marta marcou quatro em 2011 (dois à Noruega e dois aos Estados Unidos) e igualou Birgit Prinz como melhor marcadora na história da prova, apesar de precisar de apenas três fases finais para tal – a alemã precisou de quatro.

 

Hoje, oito anos depois, Marta já está isolada, graças ao golo marcado à Coreia do Sul em Montreal, no Mundial-2015. Com 15 golos em 17 jogos, Marta provou ser um fenómeno no futebol de seleções, superando os números de Birgit Prinz (14 e 24) e de Abby Wambach (14 em 25).

Bill Buckner. O homem que recusou ser destruído por um erro

O famoso erro

Foi perseguido por fãs irados dos Boston Red Sox depois de não conseguir agarrar uma bola num momento decisivo da World Series em 1986. Acabou dispensado pela equipa e precisou de décadas para reconquistar a verdadeira tranquilidade. Morreu agora, vítima de uma forma de demência.

 

Nova Iorque, 25 de outubro de 1986. Os Red Sox não eram campeões desde 1918 e o título parecia mais próximo do que nunca. A vitória no jogo 6 da World Series com os New York Mets estava a um out de distância e o balneário até já estava forrado a plástico para proteger a roupa do champanhe. O emblemático jornalista da NBC, Bob Costas, estava lá dentro, preparado para o direto, mas assim que Bob Stanley fez um wild pitch que permitiu o empate dos Mets, tanto ele como o seu câmara saíram a correr.

 

O 5-3 tinha-se transformado num 5-5. Mas o cenário de pesadelo estava longe de terminar. Pouco depois, numa bola batida para a zona da primeira base, Bill Buckner falhou a aproximação e deixou a bola rasar a luva e passar por entre as pernas. Os Mets aproveitaram para vencer o jogo 6 e abriram caminho para o título no jogo 7.

 

O erro de Bob Stanley caiu no esquecimento, o de Bill Buckner foi extrapolado. E o jogador nem devia ter estado em campo. Pedra fundamental dos Red Sox durante a época, continuou a jogar naquele inning porque o treinador queria garantir-lhe a oportunidade de festejar o tão ansiado título em campo. O tiro saiu pela culatra.

 

Bill Buckner não pareceu afetado e a primeira reação no balneário após o jogo seis até demonstrou algum desdém, num tom que não terá agradado a apaixonada falange de adeptos de Boston. «É um azar que tenha acontecido mas faz parte do basebol. Nunca joguei um jogo 7, assim sempre tenho uma oportunidade», disse.

 

Uma viagem pelo inferno

Bill Buckner tornou-se um homem isolado em Boston

A vida de Bill Buckner mudou para sempre. Associado ao erro que tinha impedido os Red Sox de festejar o primeiro título em quase sete décadas, tornou-se um alvo fácil para os adeptos. Viver em Boston transformou-se num pesadelo. Era insultado na rua, não podia sair com a família e até o filho, de apenas quatro anos, era abordado com comentários maliciosos na escola.

 

A meio da época seguinte, os Red Sox perceberam que a situação era insustentável e dispensaram-no. Depois de ter representado LA Dodgers e Chicago Cubs, antes de chegar a Boston, o jogador regressava agora à Califórnia para representar os Angels. Em final de carreira – tinha começado em 1969 -, Buckner até acabou por voltar a Boston para a última temporada, em 1990. Mas o cenário era ainda muito divisivo entre adeptos: uns tentavam garantir que se sentia bem, outros não estavam preparados para esquecer o que acontecera quatro anos antes.

 

A enorme hostilidade em Boston fez com que se tivesse exilado no outro canto do país, em Boise (Idaho), à procura de serenidade. Conseguiu construir uma vida tranquila com a mulher e os filhos, e deixou de sofrer com aquele instante de 1986. Mas, ano após ano, perante os fracassos constantes dos Red Sox, continuava a ser uma nota de rodapé.

 

Tudo mudou em 2004 quando os Red Sox foram finalmente campeões. Logo na altura, um grupo de adeptos mostrou uma tarja onde se lia «Nós perdoamos Bill Buckner». Mas ele não estava convencido, não estava preparado. Tanto assim foi que em 2006, por altura da celebração dos 20 anos da famosa equipa de 1986, Buckner recusou viajar até Boston.

 

«Façam-no saber que será sempre bem-vindo», disse o speaker enquanto anunciava Bill Buckner na lista de jogadores de 1986. O Fenway Park aplaudiu durante vários segundos enquanto a imagem do antigo jogador aparecia no ecrã gigante. E assim foi… até 2008.

 

Encontrar a paz interna… e com o mundo

Buckner de regresso ao Fenway Park

Semanas depois do segundo título num espaço de quatro anos, os Boston Red Sox convidaram Bill Buckner para fazer o lançamento inaugural no primeiro jogo da temporada. A primeira resposta foi negativa, tal como a da família.

 

«Não acho que merecessem», disse Judy, a mulher. «Mas quanto mais pensei nisso, mais me apeteceu fazê-lo», confessou Buckner em 2011. O ex-jogador deixou-se convencer e acabou ovacionado de pé durante largos minutos.

 

«Foi uma grande sensação e, ao mesmo tempo, um momento embaraçoso por ter tanta gente a olhar para mim. Mas foi muito bom, muito emocional. Levei o tempo necessário para olhar para toda a gente. Consegue-se ver quando estão a ser sinceras. E isso deixou-me em lágrimas, claro», admitiu.

 

Judy Buckner viu sinais naquele dia em Boston que não gostou. «Aborreceu-me ler tarjas que diziam que ele estava perdoado. A verdade é que não precisávamos de perdão, e não fomos para lá à procura disso. Nós é que precisávamos de perdoar… e acho que o fizemos.»

 

Bill confirma: «Precisava mesmo de perdoar. Não necessariamente os adeptos de Boston por si só mas a imprensa, por tudo aquilo que me fizeram, e à minha família, passar. Foi isso que fiz. Ultrapassei-o. E agora estou feliz por concentrar-me no positivo, nas coisas felizes».

 

Nos últimos anos, Bill Buckner foi mostrando sinais de falta de lucidez, perda de memória, e acabou diagnosticado com Demência de Corpos de Lewy. A 27 de maio de 2019, um comunicado revelou que Bill tinha morrido, aos 69 anos, rodeado pela sua família. «Lutou com coragem e abnegação, como foi a sua imagem de marca durante toda a vida.»

 

Será possível lembrar Bill Buckner sem referir o jogo seis de 1986? O próprio deu a resposta, ainda em 2011: «Já está tão inculcado na memória das pessoas que não há volta a dar, não vai acontecer. É como é. Com sorte, falarão de mim como Bill Buckner, o do erro da World Series de 1986, mas que era um jogador muito bom. Fiquemo-nos por aí».

Inglaterra. A única equipa a derrotar um futuro campeão

Inglaterra no Mundial-2007

Estados Unidos (duas vezes), Noruega e Alemanha (também duas vezes) conquistaram as cinco primeiras edições de Mundiais de futebol feminino sem sofrer uma única derrota. Foi preciso esperar até 2011, na Alemanha, para que uma equipa já vencida pudesse chegar à final e vencer o tão ansiado troféu. Aconteceu como Japão… e a culpada foi a Inglaterra.

 

A expressão «campeão sem derrotas» tem um significado muito mais forte do que merece na realidade. E isso acontece porque o nosso cérebro está formatado para pensar automaticamente num campeonato com 30 ou mais jornadas, onde os deslizes acontecem e uma derrota, apesar de tudo, não significa o fim da linha.

 

Quando chegamos a fases finais, a expressão perde significado. Desde logo porque ser campeão sem derrotas acaba por ser o mais natural. A partir da fase a eliminar, a derrota é, literalmente, uma obrigação de saída da competição. E, na fase de grupos, os maiores candidatos raramente tremem.

 

Em sete edições do Mundial de futebol feminino, contando já com 2015, houve apenas uma seleção a erguer o troféu depois de perder um jogo na fase de grupos: o Japão. E se decidirmos alargar o espetro ao futebol masculino, verificamos que desde 1930, em 21 edições, houve apenas quatro casos: a RFA perdeu com a Hungria em 1954 (3-8) e com a RDA em 1974 (0-1), a Argentina perdeu com a Itália em 1978 (0-1), e a Espanha perdeu com a Suíça em 2010 (0-1).

Gelson Fernandes bateu a Espanha em 2010

A Inglaterra é a culpada na sombra de este feito inédito no futebol feminino na edição ganha pelo Japão. As duas equipas defrontaram-se a 5 de julho, em Augsburgo, perante mais de vinte mil pessoas, na última jornada da fase de grupos. O Japão já estava apurado, com seis pontos, mas as inglesas podiam ser eliminadas através de uma improvável – mas possível – combinação de resultados.

 

Sem a pressão do apuramento, o selecionador japonês Norio Sasaki não rodou a equipa e entrou em campo exatamente com o mesmo onze que tinha goleado o México (4-0) quatro dias antes e derrotado a Nova Zelândia por 2-1 na estreia. Se houve pé fora do acelerador, não foi pela equipa que entrou em campo.

 

Na verdade, o jogo teria mais a decidir do que o apuramento. O grupo B do Mundial cruzava com o A, onde estava a anfitriã e bicampeã mundial em título Alemanha. O problema? Havia um França-Alemanha a ser disputado apenas depois do Inglaterra-Japão.

 

Mais do que escapar à Alemanha, as inglesas queriam mostrar o que valiam em campo e provaram-no com um triunfo por 2-0. Ellen White inaugurou o marcador aos 15 minutos e Rachel Yankey, entrada ao intervalo, fixou o resultado aos 66 minutos.

 

O triunfo da Inglaterra não foi um choque. Nem podia ser visto como tal. O historial do Japão na prova era pobre: tinha cinco participações mas só em 1995 passara da fase de grupos, perdendo logo no embate dos quartos-de-final. Agora, o simples apuramento já era visto como uma melhoria.

Japão festejou no fim

Quando, cerca de cinco horas mais tarde, a Alemanha derrotou a França por 4-2, o destino das quatro seleções ficou traçado. Contra todas as expectativas, o Japão derrotou a Alemanha após prolongamento (1-0, Maruyama) e protagonizou um choque inesperado. A Inglaterra esteve perto das meias-finais mas desperdiçou a vantagem de 1-0 aos 88 minutos e foi forçada a decidir a sorte nos penáltis.

 

Aí, a Inglaterra limitou-se a ser… Inglaterra. O início foi promissor: Abily falhou o primeiro penálti francês e as três primeiras inglesas não vacilaram. Mas, depois, com dois remates desperdiçados consecutivos e um resto de folha imaculada para as francesas, a história no Mundial-2011 ficou por ali.

 

Mais tarde, o Japão conquistou o título, batendo os Estados Unidos nos penáltis. A derrota com a Inglaterra na fase de grupos não foi mais do que uma nota de rodapé numa campanha memorável para um país inteiro.

Bobby Orr. O salto que entrou na história

O mítico salto de Bobby Orr

Disputava-se o prolongamento do jogo 4 da Stanley Cup de 1970. Os Boston Bruins estavam a jogar em casa e sabiam que uma nova vitória garantiria o título contra os St. Louis Blues. Bobby Orr foi o herói com uma finalização que terminou com um salto que entrou para a história e ficou imortalizado… em fotografias e numa estátua em Boston.

 

É difícil chegar ao pavilhão dos Celtics e dos Bruins sem dar de caras com uma estátua de um jogador de hóquei no gelo que parece festejar enquanto mantém uma queda no ar para a frente. O momento memorável representa a figura que Bobby Orr fez a 10 de maio de 1970, depois de marcar o 4-3 que acabou com a temporada e garantiu o título dos Boston Bruins.

 

O hóquei no gelo é o parente pobre dos desportos profissionais nos Estados Unidos. As efemérides mais recordadas dizem maioritariamente respeito a modalidades como o basquetebol, o futebol americano e o basebol. Mas, de vez em quando, há espaço para momentos que fizeram a diferença. Aí, o golo de Bobby Orr – tanto pela importância como pelo efeito estético – merece um lugar de destaque.

 

Quando a Stanley Cup começou, o favoritismo parecia tender para o lado da equipa do Missouri. Estavam na sua terceira final consecutiva e, apesar de terem perdido as duas anteriores para os Montreal Canadiens sem qualquer triunfo, acreditavam que à terceira seria de vez. Do outro lado, os Boston Bruins estavam numa seca de títulos: não iam a uma final desde 1958 e o último campeonato tinha sido conquistado em 1941.

 

Naquela altura, Boston era uma cidade de basquetebol. Red Auerbach tinha construído uma hegemonia nos Celtics, e o basebol não resistia aos constantes fracassos dos Red Sox. O hóquei do gelo era, ainda assim, uma fortaleza de tradição. Afinal de contas, os Bruins fizeram parte do Original Six que marcou o arranque do campeonato na primeira metade do século.

 

Os primeiros três jogos inclinaram irremediavelmente a balança a favor de Boston. Depois de triunfos contundentes em St. Louis (6-1 e 6-2), os Bruins venceram por 4-1 e ficaram a apenas uma vitória do título. Determinados a evitar uma terceira derrota por 0-4 numa Stanley Cup, os Blues apareceram revigorados para o jogo seguinte e estiveram duas vezes em vantagem durante os três períodos regulamentares (2-1 e 3-2). Mas não conseguiram evitar o prolongamento.

Outro plano do mesmo momento

A tensão estava nos píncaros. No tempo extra não há margem para errar e o primeiro golo decide o encontro. Neste caso, se fosse dos Bruins, decidiria também a final. Apesar do nervosismo máximo, foram necessários apenas 40 segundos para encontrar um vencedor. Bobby Orr, com 22 anos feitos dois meses antes, recebeu o disco e marcou o golo decisivo, acabando a festejar em pleno voo depois de ter sido rasteirado por um adversário.

 

As objetivas dos fotógrafos presentes no pavilhão não pararam de disparar e ajudaram a construir um momento icónico dos Boston Bruins, da NHL e do desporto norte-americano. Nenhum deles contribuiu tanto como Ray Lussier, o fotógrafo ao nível do rinque que captou de forma perfeita o salto de Orr acompanhado pelas expressões vitoriosas de jogador e adeptos.

 

Em Boston desde 1966, Bobby Orr mostrou ter uma capacidade peculiar para aparecer em momentos decisivos. Dois anos depois, num novo título dos Bruins, voltou a ser ele a marcar o golo que desbloqueou o encontro decisivo da final com os New York Rangers.

 

Hoje, 49 anos depois do famoso golo, Bobby Orr é considerado o melhor jogador de sempre dos Boston Bruins e um dos melhores defesas na história do hóquei no gelo. Hoje, Bruins e Blues voltam a encontrar-se numa Stanley Cup. Orr já não joga mas continua a voar na memória de muitos.

Derby County. O sonho europeu morreu em Turim

McFarland e Altafini foram protagonistas na primeira mão

Foi o período de ouro da equipa do Derbyshire durante uma era em que Brian Clough se estava a afirmar como um dos melhores treinadores na história do futebol inglês. Depois de um inédito campeonato em Inglaterra, os rams atravessaram o Canal da Mancha e brilharam também na Europa. Estiveram a um passo da final da Taça dos Campeões Europeus mas caíram por causa do que aconteceu em Turim, frente aos «batoteiros sacanas» dos italianos.

 

O Derby County é um dos dois clubes em Inglaterra que têm claramente um a.C e um d.C. Não, não falamos de Cristo, mas sim de Brian Clough. O carismático treinador, com tanto de irascível como de competente, estará para sempre ligado, sobretudo, à forma brilhante como foi campeão inglês e bicampeão europeu no Nottingham Forest, mas foi no Derby County que começou a construir o seu estatuto.

 

O clube do Derbyshire não era mais do que uma nota de rodapé do futebol inglês quando Brian Clough chegou, acompanhado do seu eterno braço-direito (Peter Taylor), em 1967. O Derby County tinha disputado o escalão principal pela última vez em 1953 e as memórias dos tempos áureos eram cada vez mais distantes.

 

Com Clough, tudo isso mudou. Pedra sobre pedra, o clube foi cimentando uma imagem cada vez mais forte e garantiu o regresso à elite em 1969. Depois de dois anos a ganhar experiência na primeira divisão, o Derby County foi ainda mais além e sagrou-se campeão nacional, conquistando o primeiro título relevante do palmarés desde a FA Cup em 1946.

 

Num dos campeonatos mais renhidos na história do futebol europeu, o clube terminou as 42 jornadas com um ponto de vantagem sobre Leeds United, Liverpool e Manchester City, e assegurou uma inédita participação na Taça dos Campeões Europeus.

 

A Europa era uma experiência nova para Brian Clough. O quarto lugar alcançado em 1970 tinha garantido uma vaga na Taça das Cidades com Feira mas o clube fora banido pela UEFA devido a irregularidades financeiras. Agora, dois anos depois, o objetivo era claro: demonstrar que conseguiam ser tão dominadores e competitivos no Velho Continente como eram nas ilhas britânicas.

 

O Derby County venceu na estreia (2-0 ao Zeljeznicar) e irrompeu para uma campanha de sucesso, eliminando os jugoslavos de Sarajevo (4-1), Benfica (3-0) e Spartak Trnava (2-1) antes de apanhar a Juventus nas meias-finais da competição. A primeira mão ia ser disputada em Turim.

 

«A Juventus comprou o árbitro»

McGovern era uma das figuras do Derby County

Brian Clough nunca teve problemas em dizer o que achava. Era cru, sem contemplações e não hesitava no momento de criticar adversários, treinadores e árbitros. Na noite de 11 de abril de 1973, no dia e que a Juventus bateu o Derby County por 3-1 com a ajuda de um bis de Altafini, o técnico não calou a revolta.

 

Com o jogo ainda fresco na memória, Clough recusou falar com a imprensa italiana. «Não falo com batoteiros sacanas. Não vou falar com nenhum batoteiro sacana», insistiu, ainda incrédito com o que tinha acabado de presenciar.

 

A derrota era apenas um dos problemas daquela noite. Archie Gemmill e Roy McFarland, dois dos esteios da equipa do Derby County, tinham visto o amarelo das mãos de alemão Gerhard Schulenberg e estavam de fora da segunda mão. E quem tinha sido visto a visitar o árbitro alemão no balneário ao intervalo? O alemão Helmut Haller, suplente da Juventus.

 

A qualidade de um plantel com jogadores como Dino Zoff, Fabio Capello ou Roberto Bettega foi relegada para segundo plano. Brian Clough estava inconformado com o que tinha acabado de acontecer. Peter Taylor já tinha sido avisado por Gary Charles, antiga glória da Juventus, que Haller tinha ido visitar Schulenberg antes do jogo, mas depois viu-o com os próprios olhos ao intervalo. O adjunto pediu para ouvir a conversa, garantindo que percebia alemão mas, de acordo com o que escreveu num livro anos mais tarde, acabou por ser atingido nas costelas pelo futebolista e mantido longe por funcionários da Juventus.

 

O Derby County teve motivos de queixa? As reportagens da altura – as britânicas – revelam uma atitude permissiva do árbitro face às investidas italianas e uma aparente exigência disciplinar perante as respostas inglesas. Se a entrada de Gemill sobre Furino – uma retribuição – pode ser vista como um amarelo, o lance que valeu a suspensão a McFarland é visto como um choque casual de cabeças numa disputa de bola.

 

Brian Clough, esse, não teve dúvidas. «Não conseguia acreditar em algumas das coisas que os meus olhos estavam a ver em Turim», recordou mais tarde numa autobiografia. «Cheirava mal por todo o lado. Tinha ouvido lendas de suborno, corrupção, de árbitros amigos em Itália, chamem-lhe o que que quiserem, mas nunca tinha visto algo tão claro como naquele jogo. Fiquei fora de mim!», continuou.

 

«A Juventus comprou o árbitro, não tenho qualquer sombra de dúvida. Fui enganado. O Taylor quase foi preso e dois jogadores foram suspensos por praticamente nada. O que me surpreende mais é que a Juventus era uma equipa suficientemente boa. Tinham o melhor plantel mas talvez tivéssemos atingido a final europeia se o Gemmill e o McFarland tivessem jogado a segunda mão», afirmou.

 

Novas suspeições, agora com um árbitro português

Juventus acabou ilibada de todas as suspeitas

A eliminatória continuava em aberto, apesar de tudo. Em Inglaterra, o Derby County podia estar em desvantagem e sem dois dos seus melhores talentos, mas a Juventus sabia que não seria fácil. Desta feita, foi o próprio árbitro, o setubalense Francisco Marques Lobo, a revelar que tinha sido abordado pela Juventus.

 

O árbitro português garantiu ter recebido uma oferta de cinco mil dólares e um carro caso a Juventus ganhasse. A UEFA investigou a acusação e ilibou o clube italiano, garantindo que a proposta tinha sido feita por um mafioso húngaro a agir por contra própria.

 

As suspeições de Clough nunca se confirmaram oficialmente. E o jogo da segunda mão não foi além de um empate a zero golos, numa arbitragem considerada positiva e sem casos. O Derby County desperdiçou uma grande penalidade e até acabou reduzido a dez, depois de Roger Davies ter agredido um italiano à cabeçada. Clough reconheceu a justiça da decisão.

 

A Juventus seguiu para a final de Belgrado mas falhou o primeiro título da sua história, permitindo o terceiro triunfo consecutivo do Ajax, graças a um golo solitário de Johnny Rep. A vecchia signora só conseguiu ganhar finalmente em 1985. Por essa altura, já Clough tinha abandonado o Derby County e conquistado duas Taças dos Campeões Europeus com o Nottingham Forest (1979 e 1980), e com Gemmill no plantel no primeiro triunfo.

 

O Derby County nunca mais voltou a estar tão perto da glória europeia. A equipa foi campeã inglesa novamente em 1975, já sem Brian Clough, mas não foi além da segunda ronda da Taça dos Campeões Europeus em 1975/76. As últimas décadas têm sido marcadas pela irrelevância e na era da Premier League têm apenas sete presenças no escalão máximo.

Mundial-2011. Japão abre a porta para a Ásia

Mundial-2007

A China organizou as fases finais de 1991 e 2007. E participou na final em 1999, perdendo apenas nas grandes penalidades. Mas foi o Japão que fez história ao tornar-se a primeira seleção fora da Europa e América do Norte a  conquistar uma prova. De vulnerável equipa nos anos 90, passou por uma fase de crescimento no início do século XXI e coroou a evolução com a chave de ouro em 2011.

 

A Alemanha foi a organizadora da fase final – na primeira edição organizada pela Europa desde o Suécia-1995 – e tinha uma oportunidade de ouro para alcançar um inédito tricampeonato. A organização começou por pensar em alargar a prova para 24 seleções mas a ideia de manter as 16 foi para a frente, até porque não havia certezas de que o mundo teria equipas suficientes com qualidade.

 

Houve espaço para tudo. Brasil, Alemanha, Japão, Nigéria, Noruega, Suécia e Estados Unidos mantiveram a sua série de assiduidade intocável, apesar de as norte-americanas terem sido obrigadas a disputar um play-off com a Itália. Em sentido contrário, a China desperdiçou a oportunidade de ver o Japão celebrar o título, enquanto Colômbia e Guiné Equatorial conseguiram a estreia no torneio.

Brasil-Austrália

Os resultados não surpreenderam: a Colômbia foi última classificada do seu grupo, apesar de somar um empate com a também vulnerável Coreia do Norte, enquanto a Guiné Equatorial ficou mesmo em branco, num grupo com Brasil, Austrália e Noruega. Bom, na verdade conseguiu festejar por duas vezes, durante a derrota com as socceroos (3-2).

 

O Japão conquistou o torneio e fez duplamente história. Além de se tornar a primeira seleção asiática a vencer a prova, foi também a primeira equipa a erguer o troféu depois de perder um jogo durante a prova. A culpada foi a Inglaterra, naturalmente ainda durante a fase de grupos. Quando os jogos foram a doer, não houve quem travasse as nipónicas: a bicampeã Alemanha foi eliminada no prolongamento dos quartos-de-final, a Suécia ficou pelo caminho na meia-final e no jogo mais ansiado, com os Estados Unidos, a emoção chegou para dar e vender.

 

Por duas vezes o Japão esteve a perder, por duas vezes conseguiu o empate, uma delas a três minutos do final do prolongamento. No desempate por grandes penalidades, Boxx, Lloyd e Heath falharam para as norte-americanas. Ou melhor, Ayumi Kaihori defendeu e ganhou o estatuto de lenda no futebol japonês.

 

Joseph Blatter garantiu que este foi o melhor Mundial de sempre, que «todos os indicadores apontam para isso». E que indicadores são esses? Um deles foi a média mais baixa de golos de sempre numa fase final (2,7).

 

Era um sinal de modernidade. O 11-0 da Alemanha à Argentina em 2007 era coisa do passado. A vitória do Japão sobre o México na fase de grupos (4-0) foi o resultado mais desnivelado e houve apenas um jogo com mais golos (5) do que o encontro da final. E mesmo esse, o já referido Austrália-Guiné Equatorial, teve um resultado equilibrado (3-2).

Suécia-EUA

O número de espetadores total voltou a baixar do milhão, com 845 711, sendo ainda assim muito melhor do que os pouco mais de 110 mil que a única prova na Europa tinha registado até então, em 1995.

 

Blatter destacou também a emoção vivida na final, com Homare Sawa, a mítica e experiente japonesa, a garantir um desfecho perfeito na sua quinta e última fase final: sagrou-se a melhor marcadora da prova (5) e recebeu o troféu de melhor jogadora.

 

«A conclusão é óbvia», escreveu Sepp Blatter. «O Mundial-2011 foi a melhor plataforma possível para mostrar ao mundo que as mulheres conseguem, de facto, jogar futebol de maneira técnica, física, rápida e cativante.»

 

O jogo da Alemanha com o Canadá, o primeiro da anfitriã em casa, registou a maior assistência da prova, com 73680 pessoas, e passou a ser o único encontro do top-8 das lotações na história das fases finais a não ter sido disputado na edição de 1999. A árbitra da final foi uma mulher que é hoje notícia por todo o mundo: a alemã Bibiana Steinhaus, que atualmente é nomeada para jogos da Bundesliga.

 

No que diz respeito aos golos, Marta marcou mais quatro e igualou Birgit Prinz na lista de melhores marcadores da história. Contudo, ao contrário da alemã, precisou de apenas três fases finais para lá chegar: três em 2003, sete em 2007 e quatro em 2011.

 

Sem surpresa, Portugal ficou de fora da competição. Na fase de qualificação, foi terceiro classificado num grupo com Itália (22 pontos), Finlândia, Eslovénia e Arménia. A seleção nacional terminou com um registo positivo de golos (17-10) muito por culpa das vitórias contra Eslovénia (4-0 e 1-0) e Arménia (7-0 e 3-0). Fora desses jogos, apenas dois golos marcados, dez sofridos e quatro derrotas.

Nadine Angerer. Ser campeã sem sofrer qualquer golo

Nadine Angerer

Entrou para a história ao ser a primeira – e até agora única - guarda-redes a ir da estreia na fase de grupos até ao apito final do jogo decisivo sem sofrer qualquer golo. A Alemanha conquistou o bicampeonato mundial e na baliza a heroína até um penálti de Marta defendeu.

 

Mary Harvey foi a primeira guarda-redes titular a conquistar um Mundial. Em 1991, pelos Estados Unidos, fez os 480 minutos dos seis jogos da campanha (edição tinha duas partes de 40 minutos) e sofreu um total de cinco golos.

 

Quatro anos mais tarde, o testemunho passou para a norueguesa Bente Nordby. Depois de uma fase de grupos imaculada, a futura campeã sofreu o primeiro – e único – golo na fase final aos 86 minutos do jogo dos quartos-de-final, com a Dinamarca. Feitas as contas, só foi batida uma vez em 540 minutos e levou a fasquia.

 

Briana Scurry, outra norte-americana, não conseguiu fazer melhor em 1999. Até porque os Estados Unidos têm sempre um estilo de futebol espetáculo, em que os golos são muito prováveis, ainda que com índices muito maiores no ataque do que na defesa. Neste caso, a guarda-redes esteve apenas 92 minutos até ser batida pela primeira vez, naturalmente ainda na fase de grupos. Até erguer o troféu na mítica final de Pasadena, sofreu ainda mais dois golos, da Alemanha nos quartos-de-final.

 

Em 2003, surgiu a primeira alemã da conversa. Ao contrário dos Estados Unidos, o estilo germânico não permite contemplações. Marcam-se golos ao mesmo ritmo que se anula toda e qualquer jogada que as rivais tentem fazer. Mas nem por isso a marca de Bente Nordby foi superada. Aliás, Silke Rottenberg foi batida logo aos quatro minutos da estreia, contra o Canadá. No balanço final, sofreu quatro golos em 548 minutos: 90 de cada um dos seis jogos mais oito do prolongamento no jogo decisivo até surgir o golo de ouro de Nia Künzer.

 

O futebol feminino foi evoluindo mas a procura pelo golo e a propensão para marcar tanto como sofrer estava viva. A média de golos aumentou de 2003 para 2007 mas uma mulher, Nadine Angerer, mostrou-se imune a todo este fenómeno.

Festejo do título em 2007

Receber o testemunho de Silke Rottenberg, guarda-redes titular nas fases finais de 1999 e 2003, não era simples, mas Angerer não era apenas mais uma pessoa para o cargo. Em 2003, com 24 anos, tinha visto do banco, sem qualquer oportunidade, o título inédito das alemãs. Quatro anos antes, o lugar tinha sido o mesmo: à sombra de Rottenberg.

 

Em 2007, finalmente titular, sabia que precisava de trazer algo mais para que fosse vista com outro brilho. Tudo começou com a Argentina na fase de grupos: goleada por 11-0 e uma exibição tranquila, tal o domínio esmagador. Depois veio a Inglaterra (0-0) e o Japão (2-0). Na fase a eliminar, Coreia do Norte (3-0) e Noruega (3-0) também ficaram em branco. Ali, já com 450 minutos jogados, Nadine Angerer mantinha-se com a baliza inviolável. O recorde estava mais perto do que nunca mas do outro lado havia o Brasil de Marta.

 

Nadine Angerer recorda que «foi um jogo muito emocionante». A Alemanha estava a vencer desde os 52 minutos, com um golo de Birgit Prinz, e depois Bresonik carregou uma adversária em falta. Penálti. Aos 64 minutos, Marta, vista como uma das melhores jogadoras do mundo, foi chamada a bater.

 

«O jogo estava num momento de viragem. Lembro-me de que os ânimos estavam ao rubro mas eu sentia-me muito calma. Como guarda-redes, tinha tudo a ganhar num penálti. Sabia que a pressão estava do lado da Marta», disse numa reportagem da FIFA.

Angerer defende penálti de Marta

O remate da brasileira foi denunciado e apenas ligeiramente para o lado direito de Angerer, que defendeu sem grande dificuldade. «Tinha os olhos todos em mim e tinha muito para dar à equipa. É um momento que vou recordar para sempre na minha vida», garantiu.

 

O ponto de viragem falado por Nadine Angerer não chegou a sê-lo. A Alemanha dilatou a vantagem aos 86 minutos, por Simone Laudehr, e chegou ao final da prova sem sofrer qualquer golo. Sem surpresa, Nadine Angerer foi eleita uma das melhores guarda-redes da prova ao lado de… Bente Norby. Essa mesma, a norueguesa de 1995, agora com 33 anos.

 

Ser campeã sem sofrer golos, depois de 540 minutos jogados, era inédito, mas Nadine Angerer foi ainda mais longe da edição seguinte. Em 2011, na prova disputada na Alemanha, somou mais 82 minutos ao registo, altura em que Christine Sinclair fez o golo do Canadá na derrota por 2-1.

 

Hoje, os 622 minutos sem sofrer golos continuam a ser recorde em fases finais do Mundial. Edições masculinas incluídas.

Kristine Lilly. Nunca ninguém fez tanta coisa em fases finais

Kristine Lilly

Quando os Estados Unidos derrotaram a Noruega, no jogo de atribuição do terceiro lugar em 2007, chegaram à marca de 30 jogos em fases finais. Kristine Lilly, capitã, substituída aos 89 minutos, fez também o seu 30.º encontro num Mundial. Durante 16 anos, Lilly foi sempre sinónimo de Estados Unidos.

 

Os números absolutos de Kristine Lilly são impressionantes. Foi campeã mundial em 1991 e em 1999, disputou cinco fases finais e recheou um currículo que intimida. Quando disse adeus à seleção, deixou fixados recordes que persistem até hoje.

 

Qual é a jogadora com mais jogos disputados em fases finais? Kristine Lilly, com 30. A jogadora de Nova Iorque, nascida a 22 de julho de 1971, não se limitou a estar em cinco fases finais consecutivas. Fazia parte de uma seleção que fez sempre o máximo de encontros possíveis (campeã em 1991 e 1999, e terceira classificada em 1995, 2003 e 2007).

 

O número é tão impressionante que hoje, em 2019, e depois de já ter havido mais duas fases finais, Kristine Lilly só é ultrapassada em jogos disputados pelos próprios Estados Unidos (43), Alemanha (39), Noruega (35) e Suécia (33).

Lilly (13) salta mais alto no penálti de Chastain em 1999

Qual é a jogadora com mais medalhas? Kristine Lilly, com cinco, entretanto igualada por outra norte-americana, Christie Rampone, que esteve em todas as fases finais entre 1999 e 2015.

 

Qual é a jogadora com mais minutos disputados? Kristine Lilly, com 2537. Tendo em conta que os Estados Unidos disputaram um total de 2670 minutos em fases finais entre 1991 e 2007, a experientíssima jogadora só esteve ausente em 133 minutos, menos de um jogo e meio.

 

Qual é a jogadora com mais jogos ganhos? Kristine Lilly, com 24. Aqui, a comparação «e se fosse um país?» ganha contornos ainda mais impressionantes. Tirando os Estados Unidos, obviamente, com 33 triunfos, apenas a Alemanha (26) tem mais partidas ganhas do que a jogadora norte-americana.

 

Internacional pela primeira vez em 1987, com 16 anos, Kristine Lilly, como os números provam, não precisou de muito para se tornar uma referência clara do futebol norte-americano. Capaz de jogar no meio-campo e no ataque, cresceu ao lado de Mia Hamm na equipa universitária de North Carolina (Tar Heels) e acabou a carreira internacional em 2010, com 39 anos, com números esmagadores: os 130 golos só são superados por Mia Hamm (158) e Abby Wambach (184); e as 354 internacionalizações deixam a concorrência a milhas de distância: Christie Rampone segue-se com 311. Nas assistências (106), ocupa o segundo posto, atrás de Mia Hamm (145). A estatística mais impressionante é outra: Kristine Lilly foi a jogador mais nova de sempre a marcar pelos Estados Unidos. E é a mais velha de sempre a marcar pelos Estados Unidos. 

 

Com três medalhas olímpicas (duas de ouro e uma de prata), o currículo de Lilly é verdadeiramente invejável. Chegou também a ser a mais velha marcadora numa fase final de um Mundial mas viu a sua marca ser superada por Formiga, autora de um golo à Coreia do Sul a 9 de junho de 2015 com 37 anos e 98 dias.

Wendi Henderson. Quem espera sempre alcança… novamente

Wendi Henderson defronta o Brasil no Mundial-2007

Estreou-se pela seleção da Nova Zelândia com 16 anos e fez parte da edição inaugural do Mundial da FIFA, em 1991, com 20 anos. O país falhou consecutivos apuramentos e só voltou em 2007, novamente com a goleadora nas eleitas. Nenhuma outra jogadora na história da competição teve de esperar tanto tempo entre participações.

 

Ninguém sabia o que esperar do Mundial-1991, organizado na China. A FIFA acreditava que havia potencial para crescer e aceitou correr o risco. Com apenas doze seleções, a Nova Zelândia superou a Austrália e surgiu como representante da Oceânia.

 

Num grupo com China, Noruega e Dinamarca, três seleções com uma aposta contínua no futebol feminino, não tiveram grandes chances. Três derrotas, onze golos sofridos e apenas um marcado, por Kim Nye, na goleada da despedida contra a China (1-4).

 

Entre as eleitas, porém, havia um destaque. Chamava-se Wendi Judith Henderson, jogava numa equipa chamada Miramar e tinha apenas vinte anos. Era a mais nova da seleção e foi aposta recorrente de Dave Boardman, atuando os 80 minutos dos três encontros (este foi o único Mundial disputado com duas partes de quarenta minutos).

 

Quando, 16 anos depois, a China voltou a organizar um Mundial, Wendi Henderson estava lá. A curiosidade de voltar a ser no país asiático foi apenas o mote: «Para ser honesta, sinto um pouco déjà-vu de uma forma engraçada. A forma como as coisas estão preparadas são iguais a 1991, deve ser apenas pela forma como os torneios da FIFA são organizados».

Wendi Henderson em baixo com o número 9 em 1991

Wendi Henderson não foi a única a repetir a presença em 2007 depois de lá estar em 1991. Mas a americana Kristine Lilly, por exemplo, também esteve em 1995, 1999 e 2003. E a brasileira Pretinha tinha estado em 1995 e 1999. E a norueguesa Bente Nordby, apesar de não ter sido utilizada em 1991, também tinha estado em todas as outras competições. Estar em 1991, atravessar um deserto de ausências e regressar 16 anos depois foi um exclusivo de Henderson e mantém-se um recorde até hoje.

 

Se Henderson era a jogadora mais nova em 1991, assumiu-se, sem grande surpresa, como a mais velha em 2007. «Temos uma equipa muito jovem, não há muita experiência, apesar de muitas jogadoras terem estado no Mundial sub-20 em 2006. Em 1991, muitas de nós tínhamos várias internacionalizações. Éramos mais altas e fortes mas tecnicamente não éramos tão boas como as jovens de hoje em dia», comentou durante a participação.

 

Os resultados voltaram a ser desanimadores. Num grupo com Brasil, China e Dinamarca, a Nova Zelândia somou três derrotas, sofreu nove golos e ficou em branco. Desta vez, porém, Wendi Henderson não jogou a totalidade dos minutos: foi sempre titular mas saiu ao intervalo do jogo com o Brasil (0-5), aos 64 minutos do encontro com a Dinamarca (0-2) e aos 62 na despedida com a China.

 

A idade não era, ainda assim, uma preocupação para Henderson. «Sinto-me com uns 23 anos, não me sinto velha. Sou talvez uma das mais imaturas na equipa e a primeira a rir-me quando é caso disso, por isso acho que a diferença geracional não é assim tão grande. E o corpo está a envelhecer bem. Os Jogos Olímpicos estão aí à espreita e nunca se sabe o que nos espera.»

 

No caso de Wendi Henderson, nada estava à espreita. A neo-zelandesa despediu-se da seleção em 2008 depois de 16 golos em 64 jogos, mas não chegou a ser eleita para disputar a edição dos Jogos Olímpicos na… China. Neste caso específico, houve duas sem três.

Argentina. A maldição das derrotas que ainda não foi quebrada

Argentina garantiu o apuramento para o Mundial-2019

Foi a pior equipa do Mundial-2003, com três derrotas, um golo marcado e 15 sofridos e repetiu a gracinha quatro anos depois, novamente com três derrotas, um golo marcado e 18 sofridos. Foram as únicas duas experiências das sul-americanas entre a elite, que detêm um recorde que não interessa a ninguém. Em 2019 vai ter uma nova oportunidade.

 

A edição da fase final dos Estados Unidos em 2003 marcou a primeira vez na história em que o Brasil surgiu com uma companhia da CONMEBOL. Apesar de a FIFA não ter alterado o número de participantes, a distribuição de vagas tinha sido modificada e as argentinas beneficiaram do facto de terem ficado no segundo lugar do torneio sul-americano.

 

A expectativa era grande mas o balanço final não deixa dúvida: «Mostraram falta de qualidade e experiência para progredir na prova e terminaram em quarto lugar no grupo». Orientadas por José Caros Borrelo, eram vistas como uma equipa lenta, fisicamente fraca e com poucas opções. Podiam ser boas tecnicamente e ter o sangue argentino na guelra mas isso não era, claramente, suficiente.

 

As possibilidades de recrutamento também não eram grandes e, das vinte jogadores convocadas, oito chegaram aos Estados Unidos sem clube. De resto, havia sete do Boca Juniors, duas do River Plate, uma do Gimnasia y Esgrima, uma do Banfield e uma do Independiente.

 

Num grupo com Japão, Canadá e Alemanha, os resultados não chegaram a estar sequer em dúvida. Na estreia, com as nipónicas, sofreram um golo logo aos 13 minutos e determinaram todo o azar que viriam a ter em fases finais. O resultado acabou com um inapelável 6-0 e Natalia Gatti foi expulsa aos 38 minutos. O mote estava dado para as derrotas por 3-0 com o Canadá e 6-1 com a Alemanha, num jogo que pelo menos é lembrado pelo primeiro golo da seleção na competição. A autora? Gaitán, Yanina Gaitán.

 

Quatro anos depois, mais do mesmo. A Argentina apresentava-se como uma seleção com mais experiência mas a média de idades (22 anos e um mês) era a mais baixa entre as 16 seleções. Desta vez, havia apenas uma jogadora sem clube e o Boca Juniors voltava a ser o clube mais representado (9), mas o grupo com Alemanha, Japão (outra vez) e Inglaterra trouxe novos amargos de boca.

Onze golos sofridos e nem um marcado para amostra

Vanina Correa, jogadora de uma equipa chamada Renato Cesarini, foi o expoente máximo da humilhação argentina. Foi a guarda-redes que começou a prova como titular e que sofreu os onze golos que a Alemanha marcou no 11-0 a 10 de setembro de 2007. É a maior diferença de golos de sempre num jogo de uma fase final.

 

As alterações para o segundo jogo, com o Japão, incluíram, entre outras, a mudança de guarda-redes. Romina Ferro não só fez melhor do que Vanina Correa como a Argentina chegou a saborear um ponto que seria tão importante. O tempo foi passando e só depois dos 90, no primeiro minuto dos descontos, é que as nipónicas desbloquearam o nulo, por culpa de um golo de Yuki Nagasato.

 

A melhor oportunidade da Argentina tinha sido perdida. No jogo seguinte, apesar de Ferro continuar na baliza, a resistência defensiva foi de manteiga. A Inglaterra foi mais forte e partiu para uma goleada confortável por 6-1. Curiosamente, até foi uma argentina a marcar o primeiro golo do jogo, aos nove minutos. Mas Eva González, a capitã da seleção, introduziu a bola na baliza errada. Mais tarde, na segunda parte, com 3-0 no marcador, a defesa do Boca Juniors redimiu-se e juntou-se a Gaitán na curta lista de marcadoras em fases finais.

 

Foi a última vez que a Argentina entrou em campo num Mundial. A CONMEBOL continuou a ter duas representantes, mas a fava tem estado a saltar de país em país. Em 2011, calhou à Colômbia. Num grupo com Suécia, EUA e Coreia do Norte, as colombianas somaram um ponto com as asiáticas (0-0) e sofreram duas derrotas dignas (0-1 vs. Suécia e 0-3 vs. EUA).

 

O mesmo não se pode dizer do Equador em 2015, que começou goleado pelos Camarões (0-6) e sofreu outra goleada histórica com a Suíça (1-10), num jogo em que Fabienne Humm marcou três golos num espaço de cinco minutos e nem assim teve o hat-trick mais impressionante da tarde. Esse pertenceu a Angie Ponce, autora de dois autogolos (24’ e 71’) e um remate com sucesso na baliza certa (64’). A terminar, perderam com o Japão (0-1), mas pelo menos desta vez o desfecho não foi tão trágico, uma vez que o golo decisivo foi marcado aos cinco minutos.

 

Este ano, em França, a CONMEBOL vai ter três seleções. O crónico Brasil, o estreante Chile (no grupo com EUA, Suécia e Tailândia) e… a regressada Argentina. Será desta? O objetivo de conseguir pelo menos um ponto será posto à prova num quadro com Inglaterra, Escócia e, mais uma vez, Japão.

Ruta Meilutyte. Quando os fenómenos se afogam na depressão

Ruta Meilutyte

Nadadora lituana foi campeã olímpica em Londres com apenas 15 anos e iniciou um ciclo de constante pressão para o qual não estava preparada. Sofreu uma depressão, perdeu a vontade de nadar e acabou suspensa por falhar o código de regras antidoping. Hoje anunciou o final da carreira.

 

O desporto de alta competição consegue ser macabro para os jovens fenómenos. Modalidades como a natação, a ginástica e a patinagem, em que os vencedores são normalmente muito novos, começam a moldar crianças desde uma fase prematura da infância e roubam-lhes a possibilidade de viver tudo o que têm direito.

 

Os sacrifícios são enormes mas os resultados começam a aparecer e, com eles, surgem também os monstros competitivos. Tudo é novo, tudo parece um paraíso, tudo é tal e qual o que se tinha sonhado. O problema é que raramente estão preparados para o fracasso ou, simplesmente, para o período pós-glória.

 

Em setembro de 2017, a patinadora russa Yulia Lipnitskaya anunciou o final da carreira. Tinha apenas 19 anos, fora campeã olímpica em 2014, e terminou a atividade na sequência de sucessivos tratamentos para a anorexia. «Será que tenho de ter 37 quilos para sempre só para deixar toda a gente feliz?», questionava-se.

 

O caso de Lipnitskaya está longe de ser único. Passemos do estado sólido da água para o estado líquido e vejamos os inúmeros exemplos na natação. Michael Phelps atravessou um período problemático entre feitos olímpicos mas conseguiu dar a volta por cima. Ruta Meilutyte não conseguiu. Pelo menos da forma que desejava.

 

A história de vida da nadadora lituana não é muito diferente da de tantos talentos na modalidade. Deu nas vistas muito nova e foi campeã olímpica em Londres-2012, com apenas 15 anos, nos 100 metros bruços.

Lituana conquistou título olímpico em 2012

Alcançar um feito tão importante tão nova foi, de certa maneira, o pior que lhe podia ter acontecido. Foi o dia em que deixou de ser uma promessa e passou a ser uma confirmação. Foi o dia em que deixou de assumir um compromisso pela busca de um triunfo e passou a ser uma nadadora certificada obrigada a defender a sua imagem. Podia estar no nono ano de escolaridade, podia ter uma vida igual à de milhões de adolescentes por todo o mundo, mas era campeã olímpica e ia começar a afogar-se na pressão.

 

O período de graça manteve-se nos dois anos seguintes, com títulos mundiais e europeus. Depois, finalmente, o castelo começou a ruir, como contou a 19 de abril de 2018, numa entrevista ao Globo Esporte. «Tenho uma depressão e luto todos os dias contra ela. É uma batalha. Com a ajuda da minha família e dos meus amigos, encontrei maneiras de lidar com ela e de me sentir melhor. Mas não estou livre e sinto que ainda tenho de trabalhar para a ultrapassar.»

 

A doença redefiniu as vontades e os objetivos de Ruta. Continuava a competir mas nada parecia o mesmo. Era como se vivesse uma experiência extracorpórea, longe de corresponder a todos os estímulos que se esperavam. Três dias depois, a 22 de abril, Ruta quebrou pela primeira vez o código de conduta antidoping, ao não estar presente na morada que tinha indicado para eventuais testes.

 

A segunda infração surgiu a 19 de agosto e terceira e última aconteceu a 28 de março deste ano. De acordo com o regulamento de antidoping, a existência de três ocorrências constitui uma violação grave e conduziu a uma suspensão de doze meses. Ruta Meilutyte não estaria obrigada a manter-se disponível para testes antidoping se tivesse assumido a intenção de não competir a curto prazo, desde que apresentasse um formulário devidamente preenchido. Não o fez.

 

A lituana estava a viver em piloto automático, não estava preocupada com alíneas de regulamentos que para ela, naquele momento, estavam longe de ser uma prioridade. «Às vezes, perguntava-me o que estava a fazer da minha vida», disse ao Globo Esporte. «Perdia a perceção das coisas, o que fazia com que descartasse o lado positivo da minha vida e me concentrasse apenas no negativo. E quando isso acontecia não queria treinar nem ver pessoas», continuou.

 

A confissão de Ruta Meilutyte diz respeito ao que aconteceu em 2016, em período pré-olímpico. «Eu não estava feliz comigo e ao mesmo tempo tinha de continuar a minha vida e conseguir bons resultados. Entrei em depressão profunda. Foi o ponto mais baixo que passei», admitiu.

Ruta Meilutyte

A lituana garante que foi importante falar da sua experiência. «Não é algo de que devamos ter medo. Muitos atletas têm receio de que pareça uma desculpa», disse.

 

Ruta nunca quis que fosse uma desculpa. E sempre assumiu os seus erros, garantindo total responsabilidade nas violações do código de conduta antidoping. Hoje, aos 22 anos, a pouco mais de um ano de nova edição dos Jogos Olímpicos, a vida de Ruta Meilutyte está diferente. E parece mais feliz.

 

«Estou pronta para começar um novo capítulo na minha vida. Quero agradecer a todos os que me apoiaram neste caminho», expressou em comunicado, acrescentando que está preparada para retomar os estudos e «viver as coisas simples, crescer», conhecer-se melhor e «conhecer melhor o mundo».

 

Depois de uma (curta) vida dedicada à natação, Ruta Meilutyte decidiu que estava na altura de ser uma pessoa. Sem pressão acumulada, sem obsessões, sem obrigação de defender a imagem que construíram de si. Recuperou a sensação de liberdade.

Mundial-2007. Mais do mesmo… em todos os sentidos

Alemanha foi bicampeã mundial em 2007

Foi organizado pela China, tal como em 1991, foi ganho pela Alemanha, tal como na edição anterior, e pela primeira (e única) vez na história não houve qualquer seleção a fazer a sua estreia. O número de espetadores total esteve muito perto de bater o recorde de 1999.

 

O Mundial-2007 foi a quinta edição da fase final de futebol feminino organizada pela FIFA. Foi também a quinta vez em que Portugal não participou. No grupo 2 da qualificação europeia, a seleção nacional somou oito derrotas em oito jogos e ficou no último lugar atrás de Suécia, Chéquia, Islândia e Bielorrússia. Marcou quatro golos e sofreu 31.

 

Portugal não participou porque não estava destinado… e continua a não estar. Mas naquele ano, porém, a fase final não foi para novos. Ao contrário de todas as edições até então, o China-2007 não teve qualquer estreante. Todas as 24 seleções em prova já tinham estado, pelo menos uma vez, nas semanas de todas as decisões. A maior parte, claro está, era presença assídua.

 

Os planos de ir jogar na China tinham saído gorados no Mundial-2003, quando um surto de pneumonia atípica obrigou a FIFA a encontrar uma solução a quatro meses do arranque da prova. Os EUA mostraram-se disponíveis para acolher o torneio e o país asiático foi premiado com a organização da fase final seguinte.

 

O sucesso foi praticamente uma constante mas os caprichos voltaram a prejudicar a China. Sem problemas de saúde, apareceram os problemas de meteorologia. A organização foi obrigada a reagendar alguns jogos em cima do joelho por culpa do tufão Wipha mas decidiu manter o encontro entre os Estados Unidos e a Nigéria em Xangai. O jogo foi disputado sob chuva torrencial e com condições pouco convidativas. A lotação oficial não deixa dúvidas: apenas 6100 pessoas nas bancadas.

Cerimónia de abertura

O número é ainda mais impressionante quando se percebe que o China-2007 esteve muito próximo de bater o recorde de assistência de 1999, com 1,190 milhões de espetadores totais e uma média de 37218 por jogo. Oito anos antes, os Estados Unidos tinham tido valores de 1,214 milhões e 37944. Para se perceber a importância daqueles 6100 espetadores, basta verificar que todos os outros 31 jogos da fase final tiveram pelo menos 27 mil pessoas nas bancadas.

 

Sepp Blatter ficou satisfeito. «Os fãs que migraram para os cinco estádios deste Mundial estiveram perto de bater o recorde de 1999 e ajudaram a tornar esta fase final num festival de futebol que cativou as pessoas de todo o mundo, graças a uma cobertura televisiva num total de 200 países», disse o então presidente da FIFA, elogiando também a ausência de expulsões e de testes de doping positivos.

 

Uma novidade em 2007 foi a compensação financeira para as equipas participantes, desde 200 mil dólares para as que eram eliminadas na fase de grupos até um atrativo milhão de dólares para a futura campeã. O relatório técnico da FIFA realça que «com esta introdução, haveria motivos para acreditar que as equipas iriam alterar o seu comportamento para jogar com mais segurança e correndo menos riscos, o que implicaria um decréscimo no número de golos marcados», mas sublinha que nada mudou. Foram marcados 111 golos, mais quatro do que em 2003.

 

Num campeonato marcado pelo crescente equilíbrio, fruto da contínua aposta de federações e confederações no futebol feminino, a FIFA expressou também a importância que a criação dos Mundiais de sub-17 e sub-20 podia ter no encorajamento ao investimento no futebol feminino também nos escalões de formação.

 

Por outro lado, as goleadas continuaram a aparecer, com destaque para o 11-0 da Alemanha à Argentina na fase de grupos. As sul-americanas estavam a caminho de um recorde negativo que ainda perdura – seis derrotas em seis jogos em fase finais -, enquanto as germânicas partiam para a revalidação do título, algo que nenhum país tinha conseguido até então.

 

Os destaques individuais passaram muito pelo futebol alemão. Birgit Prinz, autora de um hat-trick à Argentina, terminou a prova com cinco golos e superou Michelle Akers na lista de melhores marcadoras em fases finais (14 vs. 12). Em sentido contrário, a guarda-redes Nadine Angerer fez toda a prova sem sofrer qualquer golo, sendo obrigada até a defender um penálti de Marta na final.

Nia Künzer. O golo de ouro que decidiu o título

A festa do título

Saiu do banco para proteger o quarteto defensivo mas entrou na história do futebol mundial. Foi ela que, de cabeça, garantiu a vitória contra a Suécia em 2003, de cabeça, aos 98 minutos. Para a Alemanha, foi apenas mais um troféu conquistado com o golo de ouro.

 

Há quem veja o copo meio vazio e quem prefira pensar que está meio cheio. O otimismo opõe-se ao pessimismo em muitos setores da vida e o futebol não é exceção. Golo de ouro, por exemplo, foi uma forma simpática de centrar a atenção no vencedor e esquecer a expressão trágica para quem perde: morte súbita.

 

Perder por causa desta regra custa… muito. Estar num prolongamento de tudo ou nada é difícil e acabar com o objetivo a escapar por entre os dedos deixa marca. Portugal tem a sua parte de desilusões: perdeu a final do Europeu sub-21 em 1994 com a Itália e foi afastado na meia-final do Euro-2000 à conta de um penálti de Zidane depois da ilustre mão de Abel Xavier.

 

Outros países, porém, têm memórias muito mais felizes. Para eles, a morte súbita não existe. É verdadeiramente substituída pela glória da terminologia de «golo de ouro». Falamos, claro está, da Alemanha. Os germânicos não só são peritos em levar a melhor nos penáltis como têm um registo impressionante de golos de ouro em finais.

 

Quem não se lembra de Bierhoff em 1996? Jogava-se a final do Europeu em Wembley e a República Checa vencia por 1-0. O avançado cabeceador saiu do banco aos 69 minutos, forçou o prolongamento com um golo aos 73 minutos e garantiu o título ao minuto 95. Fácil, não? E simples, porque cinco anos depois, novamente numa final de um Europeu, a Alemanha, agora em versão feminina, repetiu a façanha.

 

Eram bicampeãs em título e estavam a jogar a final em casa (Ulm). O jogo manteve-se empatado até ao prolongamento, fase em que Claudia Müller, que tinha saído do banco aos 55 minutos, decidiu com um golo (de ouro, claro está), aos 98 minutos.

 

Quando Müller garantiu o título da Alemanha, Nia Künzer era…comentadora televisiva. Internacional desde os 17 anos (1997), tinha ficado de fora da competição devido às lesões. Mas, dois anos depois, fez mesmo parte das eleitas de Tina Theune e entrou para a história da Alemanha, garantindo o primeiro título mundial feminino da seleção.

 

Nia Künzer nunca foi talhada para resolver. Na final, a sua entrada com a Suécia aos 88 minutos pretendeu reforçar e ajudar o quarteto defensivo numa altura em que o desgaste acumulado começava a fazer a diferença. Mas, como Bierhoff e Müller antes dela, viria a ser fundamental.

 

A jogadora que nasceu no Botswana em 1980, quando os pais estavam numa missão de desenvolvimento, subiu à área para um livre lateral e Renate Lingor nem teve dúvidas sobre quem seria a referência para colocar a bola. Não, Nia Künzer não era extremamente alta (1,68 metros), mas o passado como atleta do salto em altura – que experimentou antes de se dedicar exclusivamente ao futebol – conferia-lhe um poder de impulsão especial.

O golo de Künzer

E assim foi. Aos 98 minutos, tal como dois anos antes, chegou o golo decisivo. Lingor bateu para a área, perto da zona de penálti, e Künzer cabeceou de forma acrobática e desconjuntada para bater a sueca Caroline Jönsson.

 

«No início fiquei confusa porque não sabia o que se estava a passar. Não entendia, até porque o meu cabeceamento nem tinha sido grande coisa. Mas dois ou três segundos depois, enquanto as minhas colegas me começavam a abraçar, percebi finalmente que éramos campeãs», afirmou Nia, reconhecendo que «quem joga futebol sonha com marcar o golo decisivo no Mundial.»

 

Anos mais tarde, em declarações à FIFA, o orgulho ainda não tinha desvanecido. «Foi um momento indescritível. Marcar para vencer um Mundial é sempre especial. Queria era vencer, mas o facto de ter sido eu e de ter sido um golo de ouro é uma loucura. Foi um momento fabuloso na minha vida e uma honra fantástica da qual estou extremamente orgulhosa», disse.

 

Promovida a heroína nacional, Nia Künzer não teve um grande resto de carreira. As lesões continuaram a persegui-la sem tréguas e o último jogo pela Alemanha chegou ainda em 2003. A 15 de novembro, disse adeus aos relvados numa goleada por 13-0 a… Portugal.

Setúbal. O Bonfim para acabar o campeonato

Bonfim é um estádio histórico em Portugal

«Quem o viu jogar não esquece, quem não viu não sabe o que perdeu!». A rotunda que dá para o Estádio do Bonfim não dá tréguas. A inscrição que acompanha a estátua de Jacinto João – o primeiro grande JJ do futebol português – apresenta desde logo o Vitória a quem vem de fora.

 

Eu não sei o que perdi. Por muito que se ouça falar de jogadores do passado, é diferente vivê-lo por dentro. Jacinto João foi uma bandeira do Vitória, uma referência máxima, um motivo de orgulho semanal que levava uma região de pescadores e operadores fabris a esquecerem a dureza do quotidiano e a partirem num sonho desenhado em quatro linhas.

 

Jacinto João foi especial. Mas eu nunca o vi. Cheguei tarde. Quando apanhei finalmente a carruagem do futebol português, o ídolo sadino era estrangeiro, vinha da Nigéria e respondia pelo nome de Yekini. Ainda hoje, 25 anos depois daquela brilhante temporada de 1993/94, que culminou com um desempenho brilhante no Mundial dos Estados Unidos, é difícil esconder a emoção ao recordar um jogador que nos seduzia só pela fonética do seu nome.

Uma bilheteira sem o fulgor de outros tempos

O «meu» Vitória não tem Jacinto João mas terá sempre Rashidi Yekini. Como tem a loja do clube, logo à entrada. É impossível não repararmos naquele sorriso tosco que o acompanhava depois de cada golo, a cada festejo partilhado com bancadas muito mais vestidas do que os últimos anos tiveram.

 

O futebol na altura era mais nu. E o Bonfim era um viveiro de jogos memoráveis. Do 5-2 ao Benfica que, confessou Toni, foi essencial para o título, do 2-3 com o Sporting e do magistral golo de Balakov ou do 3-3 com o FC Porto, num jogo em que os setubalenses conseguiram recuperar de um 0-3. Tudo na mesma temporada.

 

Uma oportunidade perfeita

O inevitável choco frito

Ir a Setúbal ver um jogo do Vitória era algo que estava nos planos há muito tempo. Mas só agora, em maio, na última jornada do campeonato, as circunstâncias o permitiram. Aproveitei as vantagens de uma ida e volta «gratuita» - à conta do passe de transportes públicos a 40 euros – e saí de Oeiras ainda de manhã.

 

O trajeto pode ser longo – durou um pouco mais de duas horas, depois de uma viagem de autocarro, uma de comboio, uma de metro e uma segunda de comboio -, mas um dia não são dias. A jornada estava planeada ao pormenor e nem a possibilidade de comer choco frito – o Papa desta Roma – foi descartada. O estádio fica bastante perto da estação e do Bonfim até à Avenida Luísa Todi é um pequeno pulo.

 

Quando a hora do jogo chegou, já tínhamos os bilhetes confortavelmente na mão (dez euros cada), tínhamos estado na loja do clube e almoçado com tempo. Só faltava mesmo o jogo… que seria especial.

 

A novidade tinha sido dada na véspera pelo treinador. Nuno Pinto, depois de recuperar de um linfoma, ia jogar os primeiros minutos. Ovacionado logo na altura em que as equipas foram anunciadas, o lateral esquerdo viria a protagonizar os dois momentos mais significativos do encontro.

 

Primeiro, ao ser substituído. Aplaudido de pé por todo o estádio, inclusive pelos cerca de 50 adeptos do Rio Ave que fizeram a viagem desde Vila do Conde, foi saudado por colegas de equipa, adversários e árbitro, numa demorada caminhada, e carregada de lágrimas, até à saída de campo.

 

 

Depois, ao minuto 21, o mesmo da sua camisola. A bola foi posta fora e durante cerca de um minuto o Bonfim voltou a levantar-se para aplaudir e homenagear a vida de uma pessoa. Ali, naquele momento, Nuno Pinto não foi um sadino. Não foi um jogador de futebol. Foi um homem que se viu perseguido por um drama e conseguiu dar a volta por cima.

 

O palco aos mais novos

Pai e filho do Vitória

O bilhete a dez euros garantiu um lugar no topo sul, num setor da bancada em que havia praticamente apenas adeptos do Rio Ave. Muitos homens, muitas mulheres e algumas crianças. Uma delas, um rapaz ainda não adolescente mas que parecia ter já superado vários rituais de iniciação ao futebol, marcava os ritmos ao tambor. Outros exibiam enormes bandeiras com o símbolo do Rio Ave ou com referência aos Ultras Verdes.

 

As experiências passadas também eram recordadas. «No ano passado apanhámos aqui um calor do caralho!», soltou uma mulher enquanto subia as escadas. De facto, apesar de ser maio, a tarde foi alternando algumas abertas de sol com uma brisa não necessariamente agradável.

Adeptos do Rio Ave vieram equipados a rigor

Apesar de em menor número, também havia adeptos do Vitória entre nós. Em destaque, o pai que se sentava com o filho algumas filas à nossa frente. Equipados a rigor, com um cachecol centenário, tinham posturas diferentes.

 

Ele, o pai, sempre de olhos no relvado, motivando o filho a olhar com mais atenção sempre que a bola se aproximava. O mais novo nem sempre correspondia. De tímidos cânticos por Vitória e pequenas mensagens de que «o Rio Ave vai para o lixo!», quando olhava para a claque do lado direito, passou mais tempo com os olhos no telemóvel do pai.

 

Talvez porque a construção do Bonfim não é a mais cativante, sobretudo quando não há gente suficiente para tornar o ambiente num topo imperdível. A distância para as quatro linhas é grande o suficiente para se perder a capacidade de se ficar submerso no ambiente do jogo.

 

Golos reservados para a segunda parte

Rio Ave fez a festa

O vento forte deu a primeira parte ao Vitória mas os momentos em torno de Nuno Pinto foram os únicos verdadeiramente memoráveis do primeiro tempo. No segundo, contudo, começaram a surgir os golos… e de forma supersónica.

 

Num ápice, Bruno Moreira marcou para o Rio Ave, Vasco Fernandes para o Vitória e o jogo ganhou interesse. Minuto após minuto, porém, o empate começou a desenhar-se na mente de cada adepto. O jogo já só servia para cumprir calendário, sobretudo depois de os sadinos terem assegurado a permanência em Chaves, na jornada anterior, e a pressão era escassa.

 

O facto de ser o último jogo da época, e de o encontro anterior do Vitória em casa, com o Boavista, ter sido, à falta de melhor palavra, atribulado, fez com que a polícia trouxesse reforços para garantir que nada de inesperado acontecia após o apito final. Brindados com assobios, o posicionamento dos polícias de intervenção foi o aperitivo para o Rio Ave matar o jogo nos descontos.

 

Já depois de surgir a placa com três minutos de compensação, Bruno Moreira bisou e, no último fôlego, Ahmed Said fechou a contagem. O Rio Ave ia voltar para Vila do Conde com três pontos e, apesar da derrota, o Vitória festejou mais uma permanência garantida depois de muito sofrimento.

 

De volta a casa, como sempre, as conversas de rua ainda giravam em torno do jogo, sobretudo os minutos finais. «Aquele [o guarda-redes Cristiano] em vez de defender por cima da barra, defendeu para a frente», desabafava um homem de idade avançada sobre o lance do 2-1. «Bastava atirar por cima da barra, mas nem isso fez!», continuou, enquanto o amigo respondia dizendo que nem sequer se tinha apercebido do 3-1.

 

Foi o último sinal que tivemos do Vitória-Rio Ave, numa tarde que ia ser dominada pelo Benfica-Santa Clara e FC Porto-Sporting. Ou assim pensei. Duas horas depois, a sair do comboio na estação de Oeiras, a poucos metros de mim, dou de frente com um rapaz com um casaco do Vitória. Será possível que tenha feito o mesmo caminho que nós? O futebol tem coisas destas.

April Heinrichs. Nem todos podem ser Beckenbauer

April Heinrichs como selecionadora

Venceu o Mundial-1991 como jogadora e tentou repetir o feito como treinadora em 2003. Entre a mulher e a história atravessou-se a Alemanha, país de Franz Beckenbauer, o primeiro a conseguir esse feito no futebol masculino (1974-1990).

 

Pelé é considerado por muitos o melhor jogador da história e venceu três títulos mundiais com o Brasil (1958, 1962 e 1970), mas nunca se aventurou como treinador: não era vida para ele. Maradona carregou a Argentina em 1986 e brilhou ao mais alto nível com um título que o povo não mais voltou a ver. O polémico jogador fez a transição para treinador mas parece destinado a orientar equipas que precisam de golpes de marketing. Numa das exceções, no Mundial-2010, orientou a Argentina e… falhou, acabando goleado pela Alemanha nos quartos de final (0-4).

 

A Alemanha tem destas coisas. É uma desmancha-prazeres. A expressão de Gary Lineker tinha uma razão de ser, claro está. Humilharam o Maradona selecionador, fizeram do Maracanazo uma brincadeira de crianças quando golearam o Brasil (7-1) em 2014, e… impediram que April Heinrichs pudesse ser como Beckenbauer.

 

É isso mesmo, os alemães também são invejosos. Franz Beckenbauer não é único mas foi o primeiro homem a ser campeão mundial enquanto jogador (RFA-1974) e selecionador (RFA-1990). Depois dele, já se lhe juntaram Mario Zagallo em 1994 e Didier Deschamps em 2018. No futebol feminino, April Heinrichs foi uma forte candidata mas viu o seu destino ser decidido pela… Alemanha.

 

A norte-americana não foi apenas uma forte candidata, foi também a primeira candidata na história. Mais do que isso, tornou-se a primeira ex-jogadora de um Mundial a chegar a uma fase final enquanto selecionadora. E fê-lo num espaço de quatro edições apenas.

 

Em 1991, na prova inaugural, April Heinrichs tinha «apenas» 27 anos mas já era a jogadora mais velha da seleção orientada por Anson Dorrance. Sem grande surpresa, foi ela a envergar a braçadeira de capitã numa equipa que tinha figuras como Michelle Akers (melhor marcadora da prova com dez golos), Mia Hamm (histórica futebolista) e Brandi Chastain (figura do Mundial ganho em 1999).

 

Heinrichs jogava pela equipa Fairfax Wildfire e também tinha a sua dose de atributos. Não só lhe calhou erguer o título mundial – o primeiro da história – como marcou quatro golos pelo caminho: dois ao Brasil na fase de grupos e dois à… Alemanha na meia-final.

 

Doze anos depois, numa fase final organizada pelos Estados Unidos, as alemãs vingaram-se. April Heinrichs tinha 39 anos e era a selecionadora da então campeã mundial desde 2000. Michelle Akers já não jogava mas tinha à sua disposição as antigas colegas Hamm e Chastain. E uma nova referência norte-americana: Abby Wambach, então com 23 anos.

 

O objetivo dos Estados Unidos era claro: revalidar o título conquistado em 1999, num período em que Heinrichs já era assistente na seleção. A jogar em casa, e apesar de não haver o mesmo mediatismo da edição anterior, os Estados Unidos fizeram o possível e chegaram sem dificuldade até à meia-final.

 

Aí, tal como em 1991, estava a Alemanha do outro lado. O sonho de vencer a fase final como jogadora e selecionadora morreu nesse dia, a 5 de outubro de 2003, em Portland. As europeias marcaram primeiro, por Garefrekes aos 15 minutos, e não permitiram qualquer resposta às adversárias.

 

Por mais que Heinrichs tentasse e os Estados Unidos pressionassem, não havia forma de chegar ao golo. O 3-0 final tornou-se um resultado ainda mais pesado, por culpa de dois golos nos descontos: Meinert aos 90’+1 e Prinz aos 90’+3.

 

O terceiro lugar final, fruto de uma vitória sobre o Canadá, foi uma fraca consolação. April Heinrichs foi muito contestada e nem o título olímpico em Atenas, no ano seguinte, permitiu que tivesse uma nova oportunidade em 2007, prova que viria a ser ganha pela… Alemanha.

 

Sim, April Heinrichs tentou mas nem todos podem ser como Beckenbauer. Muito menos quando é preciso passar por cima da Alemanha pelo caminho.

Charmaine Hooper. A jogadora mais amarelada em Mundiais

Charmaine Hooper

A sua missão pelo Canadá era marcar golos mas o balanço feito depois de jogar em três fases finais demonstra que viu mais vezes o cartão amarelo (cinco) do que festejou (quatro). Ser admoestada cinco vezes em três fases finais não é necessariamente mau mas a estatística demonstra que nenhuma outra jogadora conseguiu igual feito. Oficialmente, é a jogadora mais indisciplinada (no que a amarelos diz respeito) na história das fases finais.

 

Há um lugar-comum muito utilizado por treinadores que garante que as faltas existem para serem feitas. Ver um cartão amarelo durante um jogo pode ser consequência de muitas coisas e os técnicos adoram quando é provocado pela chamada «falta útil». Mas a miríade de razões é interminável: protestos, simulação, palavras ao árbitro, tirar a camisola durante um festejo, uma entrada mais dura ou simplesmente entrar no campo sem autorização do árbitro.

 

Ter muitos amarelos não é sinal claro de nada. João Vieira Pinto, por exemplo, via muitos amarelos por simulação, apesar de também gostar de molhar a sopa. Cléber, que passou por Belenenses e V. Guimarães entre 2000 e 2006, tem um registo impressionante: 90 amarelos e doze vermelhos em seis temporadas.

 

E o que dizer do Mundial de futebol feminino? Mia Hamm, a histórica norte-americana famosa pelos golos que marcava, foi a primeira jogadora a ver um amarelo em fases finais, aos 24 minutos da vitória sobre a Suécia (3-2) a 17 de novembro de 1991. Quatro dias depois, foi uma taiwanesa a entrar na história, Hui-fang Lin, ao receber o primeiro vermelho, logo aos seis minutos de um jogo em que Taiwan até acabaria por vencer a Nigéria (2-0).

 

Charmaine Hooper marcava golos como Mia Hamm (71 em 128 jogos pelo Canadá) e não era apenas uma ilustre desconhecida como Hui-fang Lin. Quando se estreou em fases finais, em 1995, já a canadiana brilhara na Europa, com uma passagem impressionante na Noruega e outra em Itália, na Lazio.

 

Internacional desde 1986, num jogo contra os Estados Unidos, Hooper chegou ao Suécia-1995 com 27 anos. Era uma das jogadoras mais experientes da equipa mas não conseguiu contribuir com golos. O Canadá até marcou cinco, mas nenhum foi de Hooper. Em sentido contrário, despediu-se com um amarelo na goleada sofrida com a Noruega (0-7).

 

Quatro anos depois, chegaram os golos e… continuaram os amarelos. Fez o 2-0 para os amarelos logo aos cinco minutos de prova, no empate com o Japão (1-1) e esperou pelo jogo da Noruega para marcar finalmente. O Canadá voltou a sofrer sete golos, tal como em 1995, mas desta vez Charmaine Hooper, a jogar com a camisola 10 em vez da 3, conseguiu um golo de honra para as canadianas. No jogo de despedida (derrota 1-4) com a Rússia, a jogadora voltou a marcar e não viu qualquer amarelo, equilibrando a contenda especial em dois amarelos e dois golos em fases finais.

 

O Mundial-2003 foi o da sua despedida. Com Even Pellerud como selecionador, o Canadá mostrou estar bastante melhor e saiu dos Estados Unidos com o quarto lugar. A abrir, em Columbus, Charmaine Hooper não marcou mas viu o cartão amarelo que protagonizou um momento histórico: penálti para a Alemanha para Bettina Wiegmann converter e tornar-se a primeira jogadora da história a marcar em quatro fases finais, no seu sétimo penálti marcado.

 

Quatro dias depois, Hooper vingou-se e marcou de penálti à Argentina (3-0) num jogo em que ficou com o registo disciplinar imaculado. Estava 3-3 nesta altura e assim continuou até ao final da fase de grupos. Faltava a fase a eliminar, naqueles que seriam os últimos jogos de Hooper em fases finais.

 

Nos oitavos com a China (2-0), Hooper fez algo que ainda não tinha feito: marcou, aos sete minutos, e viu um cartão amarelo, aos 76 minutos. Foi o seu último golo em fases finais mas ainda haveria mais uma admoestação a caminho.

 

No jogo de atribuição do terceiro lugar, contra as vizinhas dos Estados Unidos, a 11 de outubro, Charmaine Hooper viu o quinto cartão amarelo da sua carreira em fases finais e despediu-se como rainha dos cartões. Até hoje, nenhuma outra jogadora chegou a essa marca.

Bettina Wiegmann. A rainha das grandes penalidades

Wiegmann era a líder da Alemanha

Mundial-2003 fez com que a capitã da Alemanha entrasse para a história por vários motivos. Ergueu o inédito troféu da sua seleção mas antes já se tinha tornado a primeira jogadora da história a marcar em quatro fases finais. E a converter oito grandes penalidades com sucesso sem precisar de chegar aos desempates.

 

Os elogios a Bettina Wiegmann, camisola dez da Alemanha e capitã da seleção no Mundial-2003, são óbvios no relatório técnico da prova. «Possivelmente a melhor jogadora do mundo em termos de domínio de ritmo de jogo, fez uma enorme diferença. Apesar de ter a capacidade de baixar o ritmo, consegue igualmente dinamizar os ataques. O seu timing e escolhas são excelentes, e as suas decisões influenciam o ritmo do jogo a favor da sua equipa.»

 

Quando Bettina Wiegmann capitaneou a Alemanha rumo ao primeiro título mundial da sua história já tinha 31 anos e uma experiência assinalável em fases finais. Se o seu lugar nos livros estará para sempre garantido à conta desse momento especial, também a nível individual a alemã se distinguiu de todas as outras.

 

A jogadora de Euskirchen, uma cidade perto de Bona, estreou-se em fases finais em 1991, com apenas 19 anos, e desde logo se percebeu que era uma líder dentro e fora de campo. Doze anos depois, na temporada da sua despedida, os números falaram mais alto. E nem teria sido necessário ser campeã do mundo, apesar de essa ter sido a cereja no topo do bolo.

 

Sim, Wiegmann era perita em dinamizar os ataques da Alemanha – e assim chegou à final em 1995, a uma medalha de bronze olímpica em 2000 e ao título mundial de 2003. Mas o sangue que lhe corria nas veias era gelado. Como garante o relatório técnico, tomava sempre a opção certa, por isso não se estranhou que desde adolescente tivesse assumido a responsabilidade de marcar as grandes penalidades da Alemanha.

 

Uma curiosidade? Foi preciso esperar até 26 de junho de 2015 (!) para a Alemanha se ver envolvida no primeiro desempate por grandes penalidades. Nos quartos de final contra a França, Behringer, Laudehr, Peter, Marozsan e Sasic não vacilaram e marcaram todas, garantindo o triunfo por 5-4.

Wiegmann com o número oito

O legado de Wiegmann (número 8 na imagem, durante o Mundial-1991) foi bem guardado. Com a alemã em campo, a seleção pode nunca ter precisada da frieza durante o desempate, mas o mesmo não se pode dizer durante os jogos. Os penáltis apareceram frequentemente durante as fases finais e Wiegmann nunca falhou. Foram dois em 1991, dois em 1995, dois em 1999 e dois em 2003. Assim mesmo, aos pares. E sempre com o mesmo resultado final: golo da Alemanha.

 

Não é de espantar, portanto, que a alemã seja ainda hoje a rainha dos penáltis em Mundiais – ninguém tem tantos marcados (e com sucesso) como ela. Nos três primeiros, Taiwan e Dinamarca-1991 e Suécia-1995, o penálti inaugurou o marcador. Outros houve em que a equipa estava a perder e foi preciso empatar. Desse por onde desse, fosse qual fosse a situação, Bettina Wiegmann não tremia e fazia exatamente aquilo que se esperava dela.

 

Por isso, a 20 de setembro de 2003, quando o Canadá estava a vencer 1-0 e houve um penálti para a Alemanha, todos se prepararam para ver a história habitual. Mas, desta vez, Wiegmann não só marcou como escreveu um novo capítulo: foi a primeira jogadora da história a festejar um golo em quatro fases finais diferentes. Sim, a chinesa Sun Yen imitou-a no dia seguinte e Mia Hamm cinco dias depois, mas a primeira é sempre especial. Hoje, a estatística demonstra que houve nove jogadoras que já o conseguiram fazer, mas Bettina Wiegmann foi a primeira da lista.

 

Quando a fase final de 2003 terminou, da melhor maneira, Wiegmann sabia que tinha alcançado tudo o que podia. Campeã do mundo e com um total de onze golos em fases finais (2003 foi a única em que não conseguiu marcar sem ser de penálti), só Michelle Akers tinha festejado mais vezes num Mundial.

 

Bettina Wiegmann era especial. E dos onze metros era infalível. Uma vez mais, a tecnologia alemã a destacar-se.

Israel Folau. Um cristão que acabou no inferno

Israel Folau

Estrela do râguebi australiano justificou mensagem divulgada nas redes sociais contra bêbedos, homossexuais, adúlteros, mentirosos, fornicadores, bandidos, ateus e idólatras como um dever de cristão. Federação não mostrou contemplações perante a quebra do código de conduta e rescindiu contrato avaliado em quatro milhões de dólares.

 

Israel Folau nasceu a 3 de abril de 1989 na Austrália. Filho de pais do Tonga, começou a mostrar talento para o râguebi desde tenra idade e chegou facilmente a uma posição de destaque entre os Wallabies. Até hoje, fez 62 jogos com um total de 32 ensaios e 160 pontos. A partir de hoje… não fará mais nada.

 

Em 2018 Folau assinou um contrato de quatro anos avaliado em quatro milhões de dólares com a Rugby Australia – que lhe permitia representar os Wallabies e os New South Wales Waratahs – mas tudo mudou depois de uma publicação no Instagram a 10 de abril de 2019.

 

Nela, partilhou uma imagem que dizia que o inferno estava à espera de um conjunto de pessoas: bêbedos, homossexuais, adúlteros, mentirosos, fornicadores, bandidos, ateus e idólatras. A mensagem desencadeou uma investigação e nesta sexta-feira, curiosamente no Dia Internacional de Luta contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia, o tribunal decidiu que o contrato entre o jogador e a Rugby Australia devia ser denunciado.

 

Israel Folau mantém a sua posição de inocente e recusou-se a apagar a publicação durante este processo. «Como australianos, nascemos com alguns direitos, incluindo o direito à liberdade de religião e o direito à liberdade de expressão. A fé cristã sempre fez parte da minha vida e acredito que espalhar a mensagem de Deus é um dever meu como cristão. Manter a minha crença religiosa não me deve impedir de trabalhar ou jogar pelo meu clube ou pelo meu país», reagiu.

Israel Folau não tem para onde se virar

Em comunicado, a Rugby Australia, através da CEO Raelene Castle, refere que «esta é uma decisão que vai mudar o panorama do desporto na Austrália e, possivelmente, em todo o mundo». «Queríamos garantir que demorávamos o tempo necessário para tomar a decisão certa», acrescentou.

 

O argumento de Folau é rebatido por Castle: «No râguebi não há espaço para alguém que põe as suas visões e posições à frente das dos outros. A nossa mensagem clara para todos os adeptos é a de que temos de defender os nossos valores e qualidades como inclusão, paixão, integridade, disciplina, respeito e trabalho de equipa».

 

Raelene Castle acrescentou que «as pessoas têm de se sentir seguras, independentemente do seu género, raça, passado, religão ou sexualidade» e relembrou que não foi a Rugby Australia que escolheu estar nesta posição. «Foi Israel, através das suas ações, que não deixou outro caminho a seguir que não este», continuou.

 

Israel Folau perdeu a possibilidade de continuar a jogar na Austrália – tanto na seleção como por clubes – mas mantém em aberto a opção de jogar no estrangeiro. Contudo, a posição pública indicia que Folau encara todo este processo como «uma interferência de Satã» e que o regresso ao râguebi na Austrália será alcançado através da «vontade de Deus».

 

Para já, o jogador diz-se «profundamente triste» com a decisão e garante estar a «considerar as opções». Além do desfecho com a Rugby Australia, Folau perdeu também o contrato como embaixador da Asics. A marca considerou a ligação com o jogador «insustentável».

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