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É Desporto

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Kristine Lilly. Nunca ninguém fez tanta coisa em fases finais

Kristine Lilly

Quando os Estados Unidos derrotaram a Noruega, no jogo de atribuição do terceiro lugar em 2007, chegaram à marca de 30 jogos em fases finais. Kristine Lilly, capitã, substituída aos 89 minutos, fez também o seu 30.º encontro num Mundial. Durante 16 anos, Lilly foi sempre sinónimo de Estados Unidos.

 

Os números absolutos de Kristine Lilly são impressionantes. Foi campeã mundial em 1991 e em 1999, disputou cinco fases finais e recheou um currículo que intimida. Quando disse adeus à seleção, deixou fixados recordes que persistem até hoje.

 

Qual é a jogadora com mais jogos disputados em fases finais? Kristine Lilly, com 30. A jogadora de Nova Iorque, nascida a 22 de julho de 1971, não se limitou a estar em cinco fases finais consecutivas. Fazia parte de uma seleção que fez sempre o máximo de encontros possíveis (campeã em 1991 e 1999, e terceira classificada em 1995, 2003 e 2007).

 

O número é tão impressionante que hoje, em 2019, e depois de já ter havido mais duas fases finais, Kristine Lilly só é ultrapassada em jogos disputados pelos próprios Estados Unidos (43), Alemanha (39), Noruega (35) e Suécia (33).

Lilly (13) salta mais alto no penálti de Chastain em 1999

Qual é a jogadora com mais medalhas? Kristine Lilly, com cinco, entretanto igualada por outra norte-americana, Christie Rampone, que esteve em todas as fases finais entre 1999 e 2015.

 

Qual é a jogadora com mais minutos disputados? Kristine Lilly, com 2537. Tendo em conta que os Estados Unidos disputaram um total de 2670 minutos em fases finais entre 1991 e 2007, a experientíssima jogadora só esteve ausente em 133 minutos, menos de um jogo e meio.

 

Qual é a jogadora com mais jogos ganhos? Kristine Lilly, com 24. Aqui, a comparação «e se fosse um país?» ganha contornos ainda mais impressionantes. Tirando os Estados Unidos, obviamente, com 33 triunfos, apenas a Alemanha (26) tem mais partidas ganhas do que a jogadora norte-americana.

 

Internacional pela primeira vez em 1987, com 16 anos, Kristine Lilly, como os números provam, não precisou de muito para se tornar uma referência clara do futebol norte-americano. Capaz de jogar no meio-campo e no ataque, cresceu ao lado de Mia Hamm na equipa universitária de North Carolina (Tar Heels) e acabou a carreira internacional em 2010, com 39 anos, com números esmagadores: os 130 golos só são superados por Mia Hamm (158) e Abby Wambach (184); e as 354 internacionalizações deixam a concorrência a milhas de distância: Christie Rampone segue-se com 311. Nas assistências (106), ocupa o segundo posto, atrás de Mia Hamm (145). A estatística mais impressionante é outra: Kristine Lilly foi a jogador mais nova de sempre a marcar pelos Estados Unidos. E é a mais velha de sempre a marcar pelos Estados Unidos. 

 

Com três medalhas olímpicas (duas de ouro e uma de prata), o currículo de Lilly é verdadeiramente invejável. Chegou também a ser a mais velha marcadora numa fase final de um Mundial mas viu a sua marca ser superada por Formiga, autora de um golo à Coreia do Sul a 9 de junho de 2015 com 37 anos e 98 dias.

Wendi Henderson. Quem espera sempre alcança… novamente

Wendi Henderson defronta o Brasil no Mundial-2007

Estreou-se pela seleção da Nova Zelândia com 16 anos e fez parte da edição inaugural do Mundial da FIFA, em 1991, com 20 anos. O país falhou consecutivos apuramentos e só voltou em 2007, novamente com a goleadora nas eleitas. Nenhuma outra jogadora na história da competição teve de esperar tanto tempo entre participações.

 

Ninguém sabia o que esperar do Mundial-1991, organizado na China. A FIFA acreditava que havia potencial para crescer e aceitou correr o risco. Com apenas doze seleções, a Nova Zelândia superou a Austrália e surgiu como representante da Oceânia.

 

Num grupo com China, Noruega e Dinamarca, três seleções com uma aposta contínua no futebol feminino, não tiveram grandes chances. Três derrotas, onze golos sofridos e apenas um marcado, por Kim Nye, na goleada da despedida contra a China (1-4).

 

Entre as eleitas, porém, havia um destaque. Chamava-se Wendi Judith Henderson, jogava numa equipa chamada Miramar e tinha apenas vinte anos. Era a mais nova da seleção e foi aposta recorrente de Dave Boardman, atuando os 80 minutos dos três encontros (este foi o único Mundial disputado com duas partes de quarenta minutos).

 

Quando, 16 anos depois, a China voltou a organizar um Mundial, Wendi Henderson estava lá. A curiosidade de voltar a ser no país asiático foi apenas o mote: «Para ser honesta, sinto um pouco déjà-vu de uma forma engraçada. A forma como as coisas estão preparadas são iguais a 1991, deve ser apenas pela forma como os torneios da FIFA são organizados».

Wendi Henderson em baixo com o número 9 em 1991

Wendi Henderson não foi a única a repetir a presença em 2007 depois de lá estar em 1991. Mas a americana Kristine Lilly, por exemplo, também esteve em 1995, 1999 e 2003. E a brasileira Pretinha tinha estado em 1995 e 1999. E a norueguesa Bente Nordby, apesar de não ter sido utilizada em 1991, também tinha estado em todas as outras competições. Estar em 1991, atravessar um deserto de ausências e regressar 16 anos depois foi um exclusivo de Henderson e mantém-se um recorde até hoje.

 

Se Henderson era a jogadora mais nova em 1991, assumiu-se, sem grande surpresa, como a mais velha em 2007. «Temos uma equipa muito jovem, não há muita experiência, apesar de muitas jogadoras terem estado no Mundial sub-20 em 2006. Em 1991, muitas de nós tínhamos várias internacionalizações. Éramos mais altas e fortes mas tecnicamente não éramos tão boas como as jovens de hoje em dia», comentou durante a participação.

 

Os resultados voltaram a ser desanimadores. Num grupo com Brasil, China e Dinamarca, a Nova Zelândia somou três derrotas, sofreu nove golos e ficou em branco. Desta vez, porém, Wendi Henderson não jogou a totalidade dos minutos: foi sempre titular mas saiu ao intervalo do jogo com o Brasil (0-5), aos 64 minutos do encontro com a Dinamarca (0-2) e aos 62 na despedida com a China.

 

A idade não era, ainda assim, uma preocupação para Henderson. «Sinto-me com uns 23 anos, não me sinto velha. Sou talvez uma das mais imaturas na equipa e a primeira a rir-me quando é caso disso, por isso acho que a diferença geracional não é assim tão grande. E o corpo está a envelhecer bem. Os Jogos Olímpicos estão aí à espreita e nunca se sabe o que nos espera.»

 

No caso de Wendi Henderson, nada estava à espreita. A neo-zelandesa despediu-se da seleção em 2008 depois de 16 golos em 64 jogos, mas não chegou a ser eleita para disputar a edição dos Jogos Olímpicos na… China. Neste caso específico, houve duas sem três.

Argentina. A maldição das derrotas que ainda não foi quebrada

Argentina garantiu o apuramento para o Mundial-2019

Foi a pior equipa do Mundial-2003, com três derrotas, um golo marcado e 15 sofridos e repetiu a gracinha quatro anos depois, novamente com três derrotas, um golo marcado e 18 sofridos. Foram as únicas duas experiências das sul-americanas entre a elite, que detêm um recorde que não interessa a ninguém. Em 2019 vai ter uma nova oportunidade.

 

A edição da fase final dos Estados Unidos em 2003 marcou a primeira vez na história em que o Brasil surgiu com uma companhia da CONMEBOL. Apesar de a FIFA não ter alterado o número de participantes, a distribuição de vagas tinha sido modificada e as argentinas beneficiaram do facto de terem ficado no segundo lugar do torneio sul-americano.

 

A expectativa era grande mas o balanço final não deixa dúvida: «Mostraram falta de qualidade e experiência para progredir na prova e terminaram em quarto lugar no grupo». Orientadas por José Caros Borrelo, eram vistas como uma equipa lenta, fisicamente fraca e com poucas opções. Podiam ser boas tecnicamente e ter o sangue argentino na guelra mas isso não era, claramente, suficiente.

 

As possibilidades de recrutamento também não eram grandes e, das vinte jogadores convocadas, oito chegaram aos Estados Unidos sem clube. De resto, havia sete do Boca Juniors, duas do River Plate, uma do Gimnasia y Esgrima, uma do Banfield e uma do Independiente.

 

Num grupo com Japão, Canadá e Alemanha, os resultados não chegaram a estar sequer em dúvida. Na estreia, com as nipónicas, sofreram um golo logo aos 13 minutos e determinaram todo o azar que viriam a ter em fases finais. O resultado acabou com um inapelável 6-0 e Natalia Gatti foi expulsa aos 38 minutos. O mote estava dado para as derrotas por 3-0 com o Canadá e 6-1 com a Alemanha, num jogo que pelo menos é lembrado pelo primeiro golo da seleção na competição. A autora? Gaitán, Yanina Gaitán.

 

Quatro anos depois, mais do mesmo. A Argentina apresentava-se como uma seleção com mais experiência mas a média de idades (22 anos e um mês) era a mais baixa entre as 16 seleções. Desta vez, havia apenas uma jogadora sem clube e o Boca Juniors voltava a ser o clube mais representado (9), mas o grupo com Alemanha, Japão (outra vez) e Inglaterra trouxe novos amargos de boca.

Onze golos sofridos e nem um marcado para amostra

Vanina Correa, jogadora de uma equipa chamada Renato Cesarini, foi o expoente máximo da humilhação argentina. Foi a guarda-redes que começou a prova como titular e que sofreu os onze golos que a Alemanha marcou no 11-0 a 10 de setembro de 2007. É a maior diferença de golos de sempre num jogo de uma fase final.

 

As alterações para o segundo jogo, com o Japão, incluíram, entre outras, a mudança de guarda-redes. Romina Ferro não só fez melhor do que Vanina Correa como a Argentina chegou a saborear um ponto que seria tão importante. O tempo foi passando e só depois dos 90, no primeiro minuto dos descontos, é que as nipónicas desbloquearam o nulo, por culpa de um golo de Yuki Nagasato.

 

A melhor oportunidade da Argentina tinha sido perdida. No jogo seguinte, apesar de Ferro continuar na baliza, a resistência defensiva foi de manteiga. A Inglaterra foi mais forte e partiu para uma goleada confortável por 6-1. Curiosamente, até foi uma argentina a marcar o primeiro golo do jogo, aos nove minutos. Mas Eva González, a capitã da seleção, introduziu a bola na baliza errada. Mais tarde, na segunda parte, com 3-0 no marcador, a defesa do Boca Juniors redimiu-se e juntou-se a Gaitán na curta lista de marcadoras em fases finais.

 

Foi a última vez que a Argentina entrou em campo num Mundial. A CONMEBOL continuou a ter duas representantes, mas a fava tem estado a saltar de país em país. Em 2011, calhou à Colômbia. Num grupo com Suécia, EUA e Coreia do Norte, as colombianas somaram um ponto com as asiáticas (0-0) e sofreram duas derrotas dignas (0-1 vs. Suécia e 0-3 vs. EUA).

 

O mesmo não se pode dizer do Equador em 2015, que começou goleado pelos Camarões (0-6) e sofreu outra goleada histórica com a Suíça (1-10), num jogo em que Fabienne Humm marcou três golos num espaço de cinco minutos e nem assim teve o hat-trick mais impressionante da tarde. Esse pertenceu a Angie Ponce, autora de dois autogolos (24’ e 71’) e um remate com sucesso na baliza certa (64’). A terminar, perderam com o Japão (0-1), mas pelo menos desta vez o desfecho não foi tão trágico, uma vez que o golo decisivo foi marcado aos cinco minutos.

 

Este ano, em França, a CONMEBOL vai ter três seleções. O crónico Brasil, o estreante Chile (no grupo com EUA, Suécia e Tailândia) e… a regressada Argentina. Será desta? O objetivo de conseguir pelo menos um ponto será posto à prova num quadro com Inglaterra, Escócia e, mais uma vez, Japão.

Ruta Meilutyte. Quando os fenómenos se afogam na depressão

Ruta Meilutyte

Nadadora lituana foi campeã olímpica em Londres com apenas 15 anos e iniciou um ciclo de constante pressão para o qual não estava preparada. Sofreu uma depressão, perdeu a vontade de nadar e acabou suspensa por falhar o código de regras antidoping. Hoje anunciou o final da carreira.

 

O desporto de alta competição consegue ser macabro para os jovens fenómenos. Modalidades como a natação, a ginástica e a patinagem, em que os vencedores são normalmente muito novos, começam a moldar crianças desde uma fase prematura da infância e roubam-lhes a possibilidade de viver tudo o que têm direito.

 

Os sacrifícios são enormes mas os resultados começam a aparecer e, com eles, surgem também os monstros competitivos. Tudo é novo, tudo parece um paraíso, tudo é tal e qual o que se tinha sonhado. O problema é que raramente estão preparados para o fracasso ou, simplesmente, para o período pós-glória.

 

Em setembro de 2017, a patinadora russa Yulia Lipnitskaya anunciou o final da carreira. Tinha apenas 19 anos, fora campeã olímpica em 2014, e terminou a atividade na sequência de sucessivos tratamentos para a anorexia. «Será que tenho de ter 37 quilos para sempre só para deixar toda a gente feliz?», questionava-se.

 

O caso de Lipnitskaya está longe de ser único. Passemos do estado sólido da água para o estado líquido e vejamos os inúmeros exemplos na natação. Michael Phelps atravessou um período problemático entre feitos olímpicos mas conseguiu dar a volta por cima. Ruta Meilutyte não conseguiu. Pelo menos da forma que desejava.

 

A história de vida da nadadora lituana não é muito diferente da de tantos talentos na modalidade. Deu nas vistas muito nova e foi campeã olímpica em Londres-2012, com apenas 15 anos, nos 100 metros bruços.

Lituana conquistou título olímpico em 2012

Alcançar um feito tão importante tão nova foi, de certa maneira, o pior que lhe podia ter acontecido. Foi o dia em que deixou de ser uma promessa e passou a ser uma confirmação. Foi o dia em que deixou de assumir um compromisso pela busca de um triunfo e passou a ser uma nadadora certificada obrigada a defender a sua imagem. Podia estar no nono ano de escolaridade, podia ter uma vida igual à de milhões de adolescentes por todo o mundo, mas era campeã olímpica e ia começar a afogar-se na pressão.

 

O período de graça manteve-se nos dois anos seguintes, com títulos mundiais e europeus. Depois, finalmente, o castelo começou a ruir, como contou a 19 de abril de 2018, numa entrevista ao Globo Esporte. «Tenho uma depressão e luto todos os dias contra ela. É uma batalha. Com a ajuda da minha família e dos meus amigos, encontrei maneiras de lidar com ela e de me sentir melhor. Mas não estou livre e sinto que ainda tenho de trabalhar para a ultrapassar.»

 

A doença redefiniu as vontades e os objetivos de Ruta. Continuava a competir mas nada parecia o mesmo. Era como se vivesse uma experiência extracorpórea, longe de corresponder a todos os estímulos que se esperavam. Três dias depois, a 22 de abril, Ruta quebrou pela primeira vez o código de conduta antidoping, ao não estar presente na morada que tinha indicado para eventuais testes.

 

A segunda infração surgiu a 19 de agosto e terceira e última aconteceu a 28 de março deste ano. De acordo com o regulamento de antidoping, a existência de três ocorrências constitui uma violação grave e conduziu a uma suspensão de doze meses. Ruta Meilutyte não estaria obrigada a manter-se disponível para testes antidoping se tivesse assumido a intenção de não competir a curto prazo, desde que apresentasse um formulário devidamente preenchido. Não o fez.

 

A lituana estava a viver em piloto automático, não estava preocupada com alíneas de regulamentos que para ela, naquele momento, estavam longe de ser uma prioridade. «Às vezes, perguntava-me o que estava a fazer da minha vida», disse ao Globo Esporte. «Perdia a perceção das coisas, o que fazia com que descartasse o lado positivo da minha vida e me concentrasse apenas no negativo. E quando isso acontecia não queria treinar nem ver pessoas», continuou.

 

A confissão de Ruta Meilutyte diz respeito ao que aconteceu em 2016, em período pré-olímpico. «Eu não estava feliz comigo e ao mesmo tempo tinha de continuar a minha vida e conseguir bons resultados. Entrei em depressão profunda. Foi o ponto mais baixo que passei», admitiu.

Ruta Meilutyte

A lituana garante que foi importante falar da sua experiência. «Não é algo de que devamos ter medo. Muitos atletas têm receio de que pareça uma desculpa», disse.

 

Ruta nunca quis que fosse uma desculpa. E sempre assumiu os seus erros, garantindo total responsabilidade nas violações do código de conduta antidoping. Hoje, aos 22 anos, a pouco mais de um ano de nova edição dos Jogos Olímpicos, a vida de Ruta Meilutyte está diferente. E parece mais feliz.

 

«Estou pronta para começar um novo capítulo na minha vida. Quero agradecer a todos os que me apoiaram neste caminho», expressou em comunicado, acrescentando que está preparada para retomar os estudos e «viver as coisas simples, crescer», conhecer-se melhor e «conhecer melhor o mundo».

 

Depois de uma (curta) vida dedicada à natação, Ruta Meilutyte decidiu que estava na altura de ser uma pessoa. Sem pressão acumulada, sem obsessões, sem obrigação de defender a imagem que construíram de si. Recuperou a sensação de liberdade.

Mundial-2007. Mais do mesmo… em todos os sentidos

Alemanha foi bicampeã mundial em 2007

Foi organizado pela China, tal como em 1991, foi ganho pela Alemanha, tal como na edição anterior, e pela primeira (e única) vez na história não houve qualquer seleção a fazer a sua estreia. O número de espetadores total esteve muito perto de bater o recorde de 1999.

 

O Mundial-2007 foi a quinta edição da fase final de futebol feminino organizada pela FIFA. Foi também a quinta vez em que Portugal não participou. No grupo 2 da qualificação europeia, a seleção nacional somou oito derrotas em oito jogos e ficou no último lugar atrás de Suécia, Chéquia, Islândia e Bielorrússia. Marcou quatro golos e sofreu 31.

 

Portugal não participou porque não estava destinado… e continua a não estar. Mas naquele ano, porém, a fase final não foi para novos. Ao contrário de todas as edições até então, o China-2007 não teve qualquer estreante. Todas as 24 seleções em prova já tinham estado, pelo menos uma vez, nas semanas de todas as decisões. A maior parte, claro está, era presença assídua.

 

Os planos de ir jogar na China tinham saído gorados no Mundial-2003, quando um surto de pneumonia atípica obrigou a FIFA a encontrar uma solução a quatro meses do arranque da prova. Os EUA mostraram-se disponíveis para acolher o torneio e o país asiático foi premiado com a organização da fase final seguinte.

 

O sucesso foi praticamente uma constante mas os caprichos voltaram a prejudicar a China. Sem problemas de saúde, apareceram os problemas de meteorologia. A organização foi obrigada a reagendar alguns jogos em cima do joelho por culpa do tufão Wipha mas decidiu manter o encontro entre os Estados Unidos e a Nigéria em Xangai. O jogo foi disputado sob chuva torrencial e com condições pouco convidativas. A lotação oficial não deixa dúvidas: apenas 6100 pessoas nas bancadas.

Cerimónia de abertura

O número é ainda mais impressionante quando se percebe que o China-2007 esteve muito próximo de bater o recorde de assistência de 1999, com 1,190 milhões de espetadores totais e uma média de 37218 por jogo. Oito anos antes, os Estados Unidos tinham tido valores de 1,214 milhões e 37944. Para se perceber a importância daqueles 6100 espetadores, basta verificar que todos os outros 31 jogos da fase final tiveram pelo menos 27 mil pessoas nas bancadas.

 

Sepp Blatter ficou satisfeito. «Os fãs que migraram para os cinco estádios deste Mundial estiveram perto de bater o recorde de 1999 e ajudaram a tornar esta fase final num festival de futebol que cativou as pessoas de todo o mundo, graças a uma cobertura televisiva num total de 200 países», disse o então presidente da FIFA, elogiando também a ausência de expulsões e de testes de doping positivos.

 

Uma novidade em 2007 foi a compensação financeira para as equipas participantes, desde 200 mil dólares para as que eram eliminadas na fase de grupos até um atrativo milhão de dólares para a futura campeã. O relatório técnico da FIFA realça que «com esta introdução, haveria motivos para acreditar que as equipas iriam alterar o seu comportamento para jogar com mais segurança e correndo menos riscos, o que implicaria um decréscimo no número de golos marcados», mas sublinha que nada mudou. Foram marcados 111 golos, mais quatro do que em 2003.

 

Num campeonato marcado pelo crescente equilíbrio, fruto da contínua aposta de federações e confederações no futebol feminino, a FIFA expressou também a importância que a criação dos Mundiais de sub-17 e sub-20 podia ter no encorajamento ao investimento no futebol feminino também nos escalões de formação.

 

Por outro lado, as goleadas continuaram a aparecer, com destaque para o 11-0 da Alemanha à Argentina na fase de grupos. As sul-americanas estavam a caminho de um recorde negativo que ainda perdura – seis derrotas em seis jogos em fase finais -, enquanto as germânicas partiam para a revalidação do título, algo que nenhum país tinha conseguido até então.

 

Os destaques individuais passaram muito pelo futebol alemão. Birgit Prinz, autora de um hat-trick à Argentina, terminou a prova com cinco golos e superou Michelle Akers na lista de melhores marcadoras em fases finais (14 vs. 12). Em sentido contrário, a guarda-redes Nadine Angerer fez toda a prova sem sofrer qualquer golo, sendo obrigada até a defender um penálti de Marta na final.

Nia Künzer. O golo de ouro que decidiu o título

A festa do título

Saiu do banco para proteger o quarteto defensivo mas entrou na história do futebol mundial. Foi ela que, de cabeça, garantiu a vitória contra a Suécia em 2003, de cabeça, aos 98 minutos. Para a Alemanha, foi apenas mais um troféu conquistado com o golo de ouro.

 

Há quem veja o copo meio vazio e quem prefira pensar que está meio cheio. O otimismo opõe-se ao pessimismo em muitos setores da vida e o futebol não é exceção. Golo de ouro, por exemplo, foi uma forma simpática de centrar a atenção no vencedor e esquecer a expressão trágica para quem perde: morte súbita.

 

Perder por causa desta regra custa… muito. Estar num prolongamento de tudo ou nada é difícil e acabar com o objetivo a escapar por entre os dedos deixa marca. Portugal tem a sua parte de desilusões: perdeu a final do Europeu sub-21 em 1994 com a Itália e foi afastado na meia-final do Euro-2000 à conta de um penálti de Zidane depois da ilustre mão de Abel Xavier.

 

Outros países, porém, têm memórias muito mais felizes. Para eles, a morte súbita não existe. É verdadeiramente substituída pela glória da terminologia de «golo de ouro». Falamos, claro está, da Alemanha. Os germânicos não só são peritos em levar a melhor nos penáltis como têm um registo impressionante de golos de ouro em finais.

 

Quem não se lembra de Bierhoff em 1996? Jogava-se a final do Europeu em Wembley e a República Checa vencia por 1-0. O avançado cabeceador saiu do banco aos 69 minutos, forçou o prolongamento com um golo aos 73 minutos e garantiu o título ao minuto 95. Fácil, não? E simples, porque cinco anos depois, novamente numa final de um Europeu, a Alemanha, agora em versão feminina, repetiu a façanha.

 

Eram bicampeãs em título e estavam a jogar a final em casa (Ulm). O jogo manteve-se empatado até ao prolongamento, fase em que Claudia Müller, que tinha saído do banco aos 55 minutos, decidiu com um golo (de ouro, claro está), aos 98 minutos.

 

Quando Müller garantiu o título da Alemanha, Nia Künzer era…comentadora televisiva. Internacional desde os 17 anos (1997), tinha ficado de fora da competição devido às lesões. Mas, dois anos depois, fez mesmo parte das eleitas de Tina Theune e entrou para a história da Alemanha, garantindo o primeiro título mundial feminino da seleção.

 

Nia Künzer nunca foi talhada para resolver. Na final, a sua entrada com a Suécia aos 88 minutos pretendeu reforçar e ajudar o quarteto defensivo numa altura em que o desgaste acumulado começava a fazer a diferença. Mas, como Bierhoff e Müller antes dela, viria a ser fundamental.

 

A jogadora que nasceu no Botswana em 1980, quando os pais estavam numa missão de desenvolvimento, subiu à área para um livre lateral e Renate Lingor nem teve dúvidas sobre quem seria a referência para colocar a bola. Não, Nia Künzer não era extremamente alta (1,68 metros), mas o passado como atleta do salto em altura – que experimentou antes de se dedicar exclusivamente ao futebol – conferia-lhe um poder de impulsão especial.

O golo de Künzer

E assim foi. Aos 98 minutos, tal como dois anos antes, chegou o golo decisivo. Lingor bateu para a área, perto da zona de penálti, e Künzer cabeceou de forma acrobática e desconjuntada para bater a sueca Caroline Jönsson.

 

«No início fiquei confusa porque não sabia o que se estava a passar. Não entendia, até porque o meu cabeceamento nem tinha sido grande coisa. Mas dois ou três segundos depois, enquanto as minhas colegas me começavam a abraçar, percebi finalmente que éramos campeãs», afirmou Nia, reconhecendo que «quem joga futebol sonha com marcar o golo decisivo no Mundial.»

 

Anos mais tarde, em declarações à FIFA, o orgulho ainda não tinha desvanecido. «Foi um momento indescritível. Marcar para vencer um Mundial é sempre especial. Queria era vencer, mas o facto de ter sido eu e de ter sido um golo de ouro é uma loucura. Foi um momento fabuloso na minha vida e uma honra fantástica da qual estou extremamente orgulhosa», disse.

 

Promovida a heroína nacional, Nia Künzer não teve um grande resto de carreira. As lesões continuaram a persegui-la sem tréguas e o último jogo pela Alemanha chegou ainda em 2003. A 15 de novembro, disse adeus aos relvados numa goleada por 13-0 a… Portugal.

Setúbal. O Bonfim para acabar o campeonato

Bonfim é um estádio histórico em Portugal

«Quem o viu jogar não esquece, quem não viu não sabe o que perdeu!». A rotunda que dá para o Estádio do Bonfim não dá tréguas. A inscrição que acompanha a estátua de Jacinto João – o primeiro grande JJ do futebol português – apresenta desde logo o Vitória a quem vem de fora.

 

Eu não sei o que perdi. Por muito que se ouça falar de jogadores do passado, é diferente vivê-lo por dentro. Jacinto João foi uma bandeira do Vitória, uma referência máxima, um motivo de orgulho semanal que levava uma região de pescadores e operadores fabris a esquecerem a dureza do quotidiano e a partirem num sonho desenhado em quatro linhas.

 

Jacinto João foi especial. Mas eu nunca o vi. Cheguei tarde. Quando apanhei finalmente a carruagem do futebol português, o ídolo sadino era estrangeiro, vinha da Nigéria e respondia pelo nome de Yekini. Ainda hoje, 25 anos depois daquela brilhante temporada de 1993/94, que culminou com um desempenho brilhante no Mundial dos Estados Unidos, é difícil esconder a emoção ao recordar um jogador que nos seduzia só pela fonética do seu nome.

Uma bilheteira sem o fulgor de outros tempos

O «meu» Vitória não tem Jacinto João mas terá sempre Rashidi Yekini. Como tem a loja do clube, logo à entrada. É impossível não repararmos naquele sorriso tosco que o acompanhava depois de cada golo, a cada festejo partilhado com bancadas muito mais vestidas do que os últimos anos tiveram.

 

O futebol na altura era mais nu. E o Bonfim era um viveiro de jogos memoráveis. Do 5-2 ao Benfica que, confessou Toni, foi essencial para o título, do 2-3 com o Sporting e do magistral golo de Balakov ou do 3-3 com o FC Porto, num jogo em que os setubalenses conseguiram recuperar de um 0-3. Tudo na mesma temporada.

 

Uma oportunidade perfeita

O inevitável choco frito

Ir a Setúbal ver um jogo do Vitória era algo que estava nos planos há muito tempo. Mas só agora, em maio, na última jornada do campeonato, as circunstâncias o permitiram. Aproveitei as vantagens de uma ida e volta «gratuita» - à conta do passe de transportes públicos a 40 euros – e saí de Oeiras ainda de manhã.

 

O trajeto pode ser longo – durou um pouco mais de duas horas, depois de uma viagem de autocarro, uma de comboio, uma de metro e uma segunda de comboio -, mas um dia não são dias. A jornada estava planeada ao pormenor e nem a possibilidade de comer choco frito – o Papa desta Roma – foi descartada. O estádio fica bastante perto da estação e do Bonfim até à Avenida Luísa Todi é um pequeno pulo.

 

Quando a hora do jogo chegou, já tínhamos os bilhetes confortavelmente na mão (dez euros cada), tínhamos estado na loja do clube e almoçado com tempo. Só faltava mesmo o jogo… que seria especial.

 

A novidade tinha sido dada na véspera pelo treinador. Nuno Pinto, depois de recuperar de um linfoma, ia jogar os primeiros minutos. Ovacionado logo na altura em que as equipas foram anunciadas, o lateral esquerdo viria a protagonizar os dois momentos mais significativos do encontro.

 

Primeiro, ao ser substituído. Aplaudido de pé por todo o estádio, inclusive pelos cerca de 50 adeptos do Rio Ave que fizeram a viagem desde Vila do Conde, foi saudado por colegas de equipa, adversários e árbitro, numa demorada caminhada, e carregada de lágrimas, até à saída de campo.

 

 

Depois, ao minuto 21, o mesmo da sua camisola. A bola foi posta fora e durante cerca de um minuto o Bonfim voltou a levantar-se para aplaudir e homenagear a vida de uma pessoa. Ali, naquele momento, Nuno Pinto não foi um sadino. Não foi um jogador de futebol. Foi um homem que se viu perseguido por um drama e conseguiu dar a volta por cima.

 

O palco aos mais novos

Pai e filho do Vitória

O bilhete a dez euros garantiu um lugar no topo sul, num setor da bancada em que havia praticamente apenas adeptos do Rio Ave. Muitos homens, muitas mulheres e algumas crianças. Uma delas, um rapaz ainda não adolescente mas que parecia ter já superado vários rituais de iniciação ao futebol, marcava os ritmos ao tambor. Outros exibiam enormes bandeiras com o símbolo do Rio Ave ou com referência aos Ultras Verdes.

 

As experiências passadas também eram recordadas. «No ano passado apanhámos aqui um calor do caralho!», soltou uma mulher enquanto subia as escadas. De facto, apesar de ser maio, a tarde foi alternando algumas abertas de sol com uma brisa não necessariamente agradável.

Adeptos do Rio Ave vieram equipados a rigor

Apesar de em menor número, também havia adeptos do Vitória entre nós. Em destaque, o pai que se sentava com o filho algumas filas à nossa frente. Equipados a rigor, com um cachecol centenário, tinham posturas diferentes.

 

Ele, o pai, sempre de olhos no relvado, motivando o filho a olhar com mais atenção sempre que a bola se aproximava. O mais novo nem sempre correspondia. De tímidos cânticos por Vitória e pequenas mensagens de que «o Rio Ave vai para o lixo!», quando olhava para a claque do lado direito, passou mais tempo com os olhos no telemóvel do pai.

 

Talvez porque a construção do Bonfim não é a mais cativante, sobretudo quando não há gente suficiente para tornar o ambiente num topo imperdível. A distância para as quatro linhas é grande o suficiente para se perder a capacidade de se ficar submerso no ambiente do jogo.

 

Golos reservados para a segunda parte

Rio Ave fez a festa

O vento forte deu a primeira parte ao Vitória mas os momentos em torno de Nuno Pinto foram os únicos verdadeiramente memoráveis do primeiro tempo. No segundo, contudo, começaram a surgir os golos… e de forma supersónica.

 

Num ápice, Bruno Moreira marcou para o Rio Ave, Vasco Fernandes para o Vitória e o jogo ganhou interesse. Minuto após minuto, porém, o empate começou a desenhar-se na mente de cada adepto. O jogo já só servia para cumprir calendário, sobretudo depois de os sadinos terem assegurado a permanência em Chaves, na jornada anterior, e a pressão era escassa.

 

O facto de ser o último jogo da época, e de o encontro anterior do Vitória em casa, com o Boavista, ter sido, à falta de melhor palavra, atribulado, fez com que a polícia trouxesse reforços para garantir que nada de inesperado acontecia após o apito final. Brindados com assobios, o posicionamento dos polícias de intervenção foi o aperitivo para o Rio Ave matar o jogo nos descontos.

 

Já depois de surgir a placa com três minutos de compensação, Bruno Moreira bisou e, no último fôlego, Ahmed Said fechou a contagem. O Rio Ave ia voltar para Vila do Conde com três pontos e, apesar da derrota, o Vitória festejou mais uma permanência garantida depois de muito sofrimento.

 

De volta a casa, como sempre, as conversas de rua ainda giravam em torno do jogo, sobretudo os minutos finais. «Aquele [o guarda-redes Cristiano] em vez de defender por cima da barra, defendeu para a frente», desabafava um homem de idade avançada sobre o lance do 2-1. «Bastava atirar por cima da barra, mas nem isso fez!», continuou, enquanto o amigo respondia dizendo que nem sequer se tinha apercebido do 3-1.

 

Foi o último sinal que tivemos do Vitória-Rio Ave, numa tarde que ia ser dominada pelo Benfica-Santa Clara e FC Porto-Sporting. Ou assim pensei. Duas horas depois, a sair do comboio na estação de Oeiras, a poucos metros de mim, dou de frente com um rapaz com um casaco do Vitória. Será possível que tenha feito o mesmo caminho que nós? O futebol tem coisas destas.

April Heinrichs. Nem todos podem ser Beckenbauer

April Heinrichs como selecionadora

Venceu o Mundial-1991 como jogadora e tentou repetir o feito como treinadora em 2003. Entre a mulher e a história atravessou-se a Alemanha, país de Franz Beckenbauer, o primeiro a conseguir esse feito no futebol masculino (1974-1990).

 

Pelé é considerado por muitos o melhor jogador da história e venceu três títulos mundiais com o Brasil (1958, 1962 e 1970), mas nunca se aventurou como treinador: não era vida para ele. Maradona carregou a Argentina em 1986 e brilhou ao mais alto nível com um título que o povo não mais voltou a ver. O polémico jogador fez a transição para treinador mas parece destinado a orientar equipas que precisam de golpes de marketing. Numa das exceções, no Mundial-2010, orientou a Argentina e… falhou, acabando goleado pela Alemanha nos quartos de final (0-4).

 

A Alemanha tem destas coisas. É uma desmancha-prazeres. A expressão de Gary Lineker tinha uma razão de ser, claro está. Humilharam o Maradona selecionador, fizeram do Maracanazo uma brincadeira de crianças quando golearam o Brasil (7-1) em 2014, e… impediram que April Heinrichs pudesse ser como Beckenbauer.

 

É isso mesmo, os alemães também são invejosos. Franz Beckenbauer não é único mas foi o primeiro homem a ser campeão mundial enquanto jogador (RFA-1974) e selecionador (RFA-1990). Depois dele, já se lhe juntaram Mario Zagallo em 1994 e Didier Deschamps em 2018. No futebol feminino, April Heinrichs foi uma forte candidata mas viu o seu destino ser decidido pela… Alemanha.

 

A norte-americana não foi apenas uma forte candidata, foi também a primeira candidata na história. Mais do que isso, tornou-se a primeira ex-jogadora de um Mundial a chegar a uma fase final enquanto selecionadora. E fê-lo num espaço de quatro edições apenas.

 

Em 1991, na prova inaugural, April Heinrichs tinha «apenas» 27 anos mas já era a jogadora mais velha da seleção orientada por Anson Dorrance. Sem grande surpresa, foi ela a envergar a braçadeira de capitã numa equipa que tinha figuras como Michelle Akers (melhor marcadora da prova com dez golos), Mia Hamm (histórica futebolista) e Brandi Chastain (figura do Mundial ganho em 1999).

 

Heinrichs jogava pela equipa Fairfax Wildfire e também tinha a sua dose de atributos. Não só lhe calhou erguer o título mundial – o primeiro da história – como marcou quatro golos pelo caminho: dois ao Brasil na fase de grupos e dois à… Alemanha na meia-final.

 

Doze anos depois, numa fase final organizada pelos Estados Unidos, as alemãs vingaram-se. April Heinrichs tinha 39 anos e era a selecionadora da então campeã mundial desde 2000. Michelle Akers já não jogava mas tinha à sua disposição as antigas colegas Hamm e Chastain. E uma nova referência norte-americana: Abby Wambach, então com 23 anos.

 

O objetivo dos Estados Unidos era claro: revalidar o título conquistado em 1999, num período em que Heinrichs já era assistente na seleção. A jogar em casa, e apesar de não haver o mesmo mediatismo da edição anterior, os Estados Unidos fizeram o possível e chegaram sem dificuldade até à meia-final.

 

Aí, tal como em 1991, estava a Alemanha do outro lado. O sonho de vencer a fase final como jogadora e selecionadora morreu nesse dia, a 5 de outubro de 2003, em Portland. As europeias marcaram primeiro, por Garefrekes aos 15 minutos, e não permitiram qualquer resposta às adversárias.

 

Por mais que Heinrichs tentasse e os Estados Unidos pressionassem, não havia forma de chegar ao golo. O 3-0 final tornou-se um resultado ainda mais pesado, por culpa de dois golos nos descontos: Meinert aos 90’+1 e Prinz aos 90’+3.

 

O terceiro lugar final, fruto de uma vitória sobre o Canadá, foi uma fraca consolação. April Heinrichs foi muito contestada e nem o título olímpico em Atenas, no ano seguinte, permitiu que tivesse uma nova oportunidade em 2007, prova que viria a ser ganha pela… Alemanha.

 

Sim, April Heinrichs tentou mas nem todos podem ser como Beckenbauer. Muito menos quando é preciso passar por cima da Alemanha pelo caminho.

Charmaine Hooper. A jogadora mais amarelada em Mundiais

Charmaine Hooper

A sua missão pelo Canadá era marcar golos mas o balanço feito depois de jogar em três fases finais demonstra que viu mais vezes o cartão amarelo (cinco) do que festejou (quatro). Ser admoestada cinco vezes em três fases finais não é necessariamente mau mas a estatística demonstra que nenhuma outra jogadora conseguiu igual feito. Oficialmente, é a jogadora mais indisciplinada (no que a amarelos diz respeito) na história das fases finais.

 

Há um lugar-comum muito utilizado por treinadores que garante que as faltas existem para serem feitas. Ver um cartão amarelo durante um jogo pode ser consequência de muitas coisas e os técnicos adoram quando é provocado pela chamada «falta útil». Mas a miríade de razões é interminável: protestos, simulação, palavras ao árbitro, tirar a camisola durante um festejo, uma entrada mais dura ou simplesmente entrar no campo sem autorização do árbitro.

 

Ter muitos amarelos não é sinal claro de nada. João Vieira Pinto, por exemplo, via muitos amarelos por simulação, apesar de também gostar de molhar a sopa. Cléber, que passou por Belenenses e V. Guimarães entre 2000 e 2006, tem um registo impressionante: 90 amarelos e doze vermelhos em seis temporadas.

 

E o que dizer do Mundial de futebol feminino? Mia Hamm, a histórica norte-americana famosa pelos golos que marcava, foi a primeira jogadora a ver um amarelo em fases finais, aos 24 minutos da vitória sobre a Suécia (3-2) a 17 de novembro de 1991. Quatro dias depois, foi uma taiwanesa a entrar na história, Hui-fang Lin, ao receber o primeiro vermelho, logo aos seis minutos de um jogo em que Taiwan até acabaria por vencer a Nigéria (2-0).

 

Charmaine Hooper marcava golos como Mia Hamm (71 em 128 jogos pelo Canadá) e não era apenas uma ilustre desconhecida como Hui-fang Lin. Quando se estreou em fases finais, em 1995, já a canadiana brilhara na Europa, com uma passagem impressionante na Noruega e outra em Itália, na Lazio.

 

Internacional desde 1986, num jogo contra os Estados Unidos, Hooper chegou ao Suécia-1995 com 27 anos. Era uma das jogadoras mais experientes da equipa mas não conseguiu contribuir com golos. O Canadá até marcou cinco, mas nenhum foi de Hooper. Em sentido contrário, despediu-se com um amarelo na goleada sofrida com a Noruega (0-7).

 

Quatro anos depois, chegaram os golos e… continuaram os amarelos. Fez o 2-0 para os amarelos logo aos cinco minutos de prova, no empate com o Japão (1-1) e esperou pelo jogo da Noruega para marcar finalmente. O Canadá voltou a sofrer sete golos, tal como em 1995, mas desta vez Charmaine Hooper, a jogar com a camisola 10 em vez da 3, conseguiu um golo de honra para as canadianas. No jogo de despedida (derrota 1-4) com a Rússia, a jogadora voltou a marcar e não viu qualquer amarelo, equilibrando a contenda especial em dois amarelos e dois golos em fases finais.

 

O Mundial-2003 foi o da sua despedida. Com Even Pellerud como selecionador, o Canadá mostrou estar bastante melhor e saiu dos Estados Unidos com o quarto lugar. A abrir, em Columbus, Charmaine Hooper não marcou mas viu o cartão amarelo que protagonizou um momento histórico: penálti para a Alemanha para Bettina Wiegmann converter e tornar-se a primeira jogadora da história a marcar em quatro fases finais, no seu sétimo penálti marcado.

 

Quatro dias depois, Hooper vingou-se e marcou de penálti à Argentina (3-0) num jogo em que ficou com o registo disciplinar imaculado. Estava 3-3 nesta altura e assim continuou até ao final da fase de grupos. Faltava a fase a eliminar, naqueles que seriam os últimos jogos de Hooper em fases finais.

 

Nos oitavos com a China (2-0), Hooper fez algo que ainda não tinha feito: marcou, aos sete minutos, e viu um cartão amarelo, aos 76 minutos. Foi o seu último golo em fases finais mas ainda haveria mais uma admoestação a caminho.

 

No jogo de atribuição do terceiro lugar, contra as vizinhas dos Estados Unidos, a 11 de outubro, Charmaine Hooper viu o quinto cartão amarelo da sua carreira em fases finais e despediu-se como rainha dos cartões. Até hoje, nenhuma outra jogadora chegou a essa marca.

Bettina Wiegmann. A rainha das grandes penalidades

Wiegmann era a líder da Alemanha

Mundial-2003 fez com que a capitã da Alemanha entrasse para a história por vários motivos. Ergueu o inédito troféu da sua seleção mas antes já se tinha tornado a primeira jogadora da história a marcar em quatro fases finais. E a converter oito grandes penalidades com sucesso sem precisar de chegar aos desempates.

 

Os elogios a Bettina Wiegmann, camisola dez da Alemanha e capitã da seleção no Mundial-2003, são óbvios no relatório técnico da prova. «Possivelmente a melhor jogadora do mundo em termos de domínio de ritmo de jogo, fez uma enorme diferença. Apesar de ter a capacidade de baixar o ritmo, consegue igualmente dinamizar os ataques. O seu timing e escolhas são excelentes, e as suas decisões influenciam o ritmo do jogo a favor da sua equipa.»

 

Quando Bettina Wiegmann capitaneou a Alemanha rumo ao primeiro título mundial da sua história já tinha 31 anos e uma experiência assinalável em fases finais. Se o seu lugar nos livros estará para sempre garantido à conta desse momento especial, também a nível individual a alemã se distinguiu de todas as outras.

 

A jogadora de Euskirchen, uma cidade perto de Bona, estreou-se em fases finais em 1991, com apenas 19 anos, e desde logo se percebeu que era uma líder dentro e fora de campo. Doze anos depois, na temporada da sua despedida, os números falaram mais alto. E nem teria sido necessário ser campeã do mundo, apesar de essa ter sido a cereja no topo do bolo.

 

Sim, Wiegmann era perita em dinamizar os ataques da Alemanha – e assim chegou à final em 1995, a uma medalha de bronze olímpica em 2000 e ao título mundial de 2003. Mas o sangue que lhe corria nas veias era gelado. Como garante o relatório técnico, tomava sempre a opção certa, por isso não se estranhou que desde adolescente tivesse assumido a responsabilidade de marcar as grandes penalidades da Alemanha.

 

Uma curiosidade? Foi preciso esperar até 26 de junho de 2015 (!) para a Alemanha se ver envolvida no primeiro desempate por grandes penalidades. Nos quartos de final contra a França, Behringer, Laudehr, Peter, Marozsan e Sasic não vacilaram e marcaram todas, garantindo o triunfo por 5-4.

Wiegmann com o número oito

O legado de Wiegmann (número 8 na imagem, durante o Mundial-1991) foi bem guardado. Com a alemã em campo, a seleção pode nunca ter precisada da frieza durante o desempate, mas o mesmo não se pode dizer durante os jogos. Os penáltis apareceram frequentemente durante as fases finais e Wiegmann nunca falhou. Foram dois em 1991, dois em 1995, dois em 1999 e dois em 2003. Assim mesmo, aos pares. E sempre com o mesmo resultado final: golo da Alemanha.

 

Não é de espantar, portanto, que a alemã seja ainda hoje a rainha dos penáltis em Mundiais – ninguém tem tantos marcados (e com sucesso) como ela. Nos três primeiros, Taiwan e Dinamarca-1991 e Suécia-1995, o penálti inaugurou o marcador. Outros houve em que a equipa estava a perder e foi preciso empatar. Desse por onde desse, fosse qual fosse a situação, Bettina Wiegmann não tremia e fazia exatamente aquilo que se esperava dela.

 

Por isso, a 20 de setembro de 2003, quando o Canadá estava a vencer 1-0 e houve um penálti para a Alemanha, todos se prepararam para ver a história habitual. Mas, desta vez, Wiegmann não só marcou como escreveu um novo capítulo: foi a primeira jogadora da história a festejar um golo em quatro fases finais diferentes. Sim, a chinesa Sun Yen imitou-a no dia seguinte e Mia Hamm cinco dias depois, mas a primeira é sempre especial. Hoje, a estatística demonstra que houve nove jogadoras que já o conseguiram fazer, mas Bettina Wiegmann foi a primeira da lista.

 

Quando a fase final de 2003 terminou, da melhor maneira, Wiegmann sabia que tinha alcançado tudo o que podia. Campeã do mundo e com um total de onze golos em fases finais (2003 foi a única em que não conseguiu marcar sem ser de penálti), só Michelle Akers tinha festejado mais vezes num Mundial.

 

Bettina Wiegmann era especial. E dos onze metros era infalível. Uma vez mais, a tecnologia alemã a destacar-se.

Israel Folau. Um cristão que acabou no inferno

Israel Folau

Estrela do râguebi australiano justificou mensagem divulgada nas redes sociais contra bêbedos, homossexuais, adúlteros, mentirosos, fornicadores, bandidos, ateus e idólatras como um dever de cristão. Federação não mostrou contemplações perante a quebra do código de conduta e rescindiu contrato avaliado em quatro milhões de dólares.

 

Israel Folau nasceu a 3 de abril de 1989 na Austrália. Filho de pais do Tonga, começou a mostrar talento para o râguebi desde tenra idade e chegou facilmente a uma posição de destaque entre os Wallabies. Até hoje, fez 62 jogos com um total de 32 ensaios e 160 pontos. A partir de hoje… não fará mais nada.

 

Em 2018 Folau assinou um contrato de quatro anos avaliado em quatro milhões de dólares com a Rugby Australia – que lhe permitia representar os Wallabies e os New South Wales Waratahs – mas tudo mudou depois de uma publicação no Instagram a 10 de abril de 2019.

 

Nela, partilhou uma imagem que dizia que o inferno estava à espera de um conjunto de pessoas: bêbedos, homossexuais, adúlteros, mentirosos, fornicadores, bandidos, ateus e idólatras. A mensagem desencadeou uma investigação e nesta sexta-feira, curiosamente no Dia Internacional de Luta contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia, o tribunal decidiu que o contrato entre o jogador e a Rugby Australia devia ser denunciado.

 

Israel Folau mantém a sua posição de inocente e recusou-se a apagar a publicação durante este processo. «Como australianos, nascemos com alguns direitos, incluindo o direito à liberdade de religião e o direito à liberdade de expressão. A fé cristã sempre fez parte da minha vida e acredito que espalhar a mensagem de Deus é um dever meu como cristão. Manter a minha crença religiosa não me deve impedir de trabalhar ou jogar pelo meu clube ou pelo meu país», reagiu.

Israel Folau não tem para onde se virar

Em comunicado, a Rugby Australia, através da CEO Raelene Castle, refere que «esta é uma decisão que vai mudar o panorama do desporto na Austrália e, possivelmente, em todo o mundo». «Queríamos garantir que demorávamos o tempo necessário para tomar a decisão certa», acrescentou.

 

O argumento de Folau é rebatido por Castle: «No râguebi não há espaço para alguém que põe as suas visões e posições à frente das dos outros. A nossa mensagem clara para todos os adeptos é a de que temos de defender os nossos valores e qualidades como inclusão, paixão, integridade, disciplina, respeito e trabalho de equipa».

 

Raelene Castle acrescentou que «as pessoas têm de se sentir seguras, independentemente do seu género, raça, passado, religão ou sexualidade» e relembrou que não foi a Rugby Australia que escolheu estar nesta posição. «Foi Israel, através das suas ações, que não deixou outro caminho a seguir que não este», continuou.

 

Israel Folau perdeu a possibilidade de continuar a jogar na Austrália – tanto na seleção como por clubes – mas mantém em aberto a opção de jogar no estrangeiro. Contudo, a posição pública indicia que Folau encara todo este processo como «uma interferência de Satã» e que o regresso ao râguebi na Austrália será alcançado através da «vontade de Deus».

 

Para já, o jogador diz-se «profundamente triste» com a decisão e garante estar a «considerar as opções». Além do desfecho com a Rugby Australia, Folau perdeu também o contrato como embaixador da Asics. A marca considerou a ligação com o jogador «insustentável».

Elena Danilova. A goleadora precoce em fases finais

Elena Danilova em 2005

Tinha 16 anos e 107 dias quando marcou à Alemanha, futura campeã mundial, a 2 de outubro de 2003, em Portland. O golo nos quartos-de-final serviu de pouco (as germânicas venciam 4-0 e estavam a caminho da maior goleada da prova – 7-1) mas permitiu à adolescente entrar na história: nunca alguém tão novo tinha marcado num Mundial de futebol feminino.

 

Quando Elena nasceu a 17 de junho de 1987, ainda havia União Soviética e a FIFA estava apenas a pensar em organuzar oficialmente um Mundial de futebol feminino. Os planos para a edição inaugural já estavam em andamento, com a preparação de um teste na China em 1988, mas João Havelange, Sepp Blatter e restantes estavam longe de imaginar o sucesso que a prova alcançaria.

 

Em 2003, disputava-se a quarta fase final da história e, pela segunda vez, a Rússia tinha garantido o apuramento. Com um sorteio amigável, terminou o grupo D na segunda posição, atrás da China mas naturalmente à frente do Gana e da Austrália, duas equipas historicamente mais vulneráveis.

 

Elena Danilova tinha sido convocada para a fase final mas assistiu aos três jogos (2-1 vs. Austrália, 3-0 vs. Gana e 0-1 vs. China) do banco de suplentes, sem nunca merecer a confiança do selecionador Yuri Bistritskiy.

 

Nos quartos-de-final, a adversária era a Alemanha. A equipa de Prinz e companhia era uma das maiores favoritas à conquista da prova e a Rússia não tinha argumentos. Apesar de ser um encontro da fase a eliminar, o 7-1 final foi uma das duas maiores goleadas da prova, a par com o Noruega-Coreia do Sul (também 7-1), na fase de grupos.

 

A experiência germânica assustava. Além de Birgit Prinz havia também, por exemplo, Bettina Wiegmann, a alemã que esteve na fase final de 1991, numa altura em que Elena tinha apenas quatro anos.

 

A diferença de valores era enorme mas ao intervalo a Alemanha ainda só vencia por 1-0, com um golo de Mueller aos 25 minutos. Bistritskiy não estava satisfeito e, depois de ter lançado Denchtchik no lugar de Svetlitskaya aos 34 minutos, optou por estrear Danilova ao intervalo, substituindo Letyushova.

 

Elena Danilova não fez história assim que entrou. Com 16 anos e 107 dias, não conseguiu ser a mais nova de sempre a jogar numa fase final: essa distinção pertencia à nigeriana Ifeanyi Chiejine (16 anos e 34 dias) desde um Nigéria-Coreia do Norte a 20 de junho de 1999. Mas a história estava à sua espera.

 

A Rússia não teria hipóteses: a Alemanha marcou novamente aos 57’, 60’ e 62’, acabando de vez com a incerteza no vencedor do encontro, mas Danilova coroou a sua estreia com um golo aos 70 minutos e tornou-se, numa marca que mantém até hoje, a jogadora mais jovem da história a marcar numa fase final de um Mundial de futebol feminino.

 

O 7-1 final não apagou o brilho do momento de Danilova. Sem grande tradição no futebol feminino, a Rússia não mais voltou a participar numa fase final, por isso aquele golo continua a ser até hoje o último da seleção numa fase final.

 

O talento precoce de Danilova foi confirmado nos anos seguintes. Em 2005, conduziu a Rússia ao título europeu de sub-19 numa prova em que juntou o troféu de melhor jogadora ao de melhor marcadora, com nove golos. Coletivamente, no entanto, o sucesso pela seleção acabou aí.

 

Com 12 golos em 34 jogos pela seleção principal, Danilova não conseguiu contribuir para que a Rússia voltasse a marcar presença numa fase final.

Mundial-2003. Uma fase final de improviso

EUA repetiram organização

Organização tinha sido atribuída à China mas uma epidemia de pneumonia atípica obrigou a uma rápida mudança de planos quatro meses antes do arranque da prova. Com a experiência e vastos recursos de 1999, os Estados Unidos acolheram a fase final pela segunda edição consecutiva. Foi uma versão alternativa – com menos pompa e em estádios mais pequenos – que acabou com o inédito título da Alemanha.

 

«Em 1999, a federação norte-americana de futebol e o comité organizador tiveram quatro anos para se prepararem para o evento. Desta vez, tiveram apenas quatro meses. Tendo isto em conta, podemos claramente classificar este Mundial como um enorme sucesso.» A frase é do presidente da FIFA, Sepp Blatter, e espelha as dificuldades sentidas por todos para organizar um torneio em cima do joelho.

 

Quando se comparam os números absolutos de 2003 com os de 1999 é difícil não sentir que foi um fracasso. Os estádios eram mais pequenos, o número de espetadores sofreu uma redução de 50% e a final teve menos de um terço das pessoas nas bancadas. Mas, de facto, as atenuantes têm de entrar na equação.

 

O Mundial em ponto pequeno e improvisado pelos Estados Unidos foi, na verdade, o segundo com maior assistência. Sim, os 679 mil espetadores estiveram longe dos 1,2 milhões de quatro anos antes, mas chegaram para superar os 510 mil da China em 1991 e os 112 mil da Suécia em 1995. Apesar de haver mais jogos em 2003 do que em 1991, a assistência média por jogo também foi superior: 21 mil contra 18 mil.

 

A fase final em 2003 só foi um sucesso devido à dimensão dos Estados Unidos. Organizar um calendário com sentido foi a maior dificuldade, sobretudo porque a maior parte dos estádios utilizados em 1999 estavam sobrecarregados pela MLS, NFL e por jogos de futebol americano universitário. Além do mais, os responsáveis também temiam que a repetição de um evento, tão pouco tempo depois, pudesse não conseguir o mesmo nível de excitação entre os norte-americanos.

 

As dificuldades burocráticas não se ficaram por aí. Em relação a 1999, os Estados Unidos estavam muito mais fechados ao mundo, consequência do 11 de Setembro, e duas árbitras assistentes nigerianos viram o seu pedido de visto ser negado. Apesar de tudo, o presidente do Comité de Futebol Feminino da FIFA, Worawi Makudi, afirmou que «a qualidade do futebol praticado, sobretudo nas memoráveis meias-finais e final, atingiu níveis nunca antes vistos no futebol feminino».

Alemanha conquistou primeiro Mundial

O título sorriu à Alemanha, que se tornou a primeira nação a juntar o título feminino ao masculino, e foi alcançado de forma histórica: Nia Künzer saiu do banco em cima dos 90 minutos e resolveu no prolongamento, com recurso ao golo de ouro, na final contra a Suécia (2-1).

 

Birgit Prinz, que tinha disputado a final de 1995 com 17 anos, foi a grande figura da prova e brilhou com sete golos e cinco assistências. Outra alemã, Bettina Wiegmann também fez história, juntamente com Sun Yen e Mia Hamm, ao marcar em todas as quatro edições do Mundial.

 

«Ainda temos muito para fazer, mas este Mundial prova uma vez mais, e definitivamente, que o futebol feminino está no caminho certo», garantiu Sepp Blatter.

 

Portugal falhou a qualificação para a fase final depois de ter ficado no último lugar do grupo 4 da UEFA, atrás de Alemanha, Inglaterra e Holanda. A seleção nacional somou quatro pontos, fruto de um empate com a Inglaterra e de uma vitória com a Holanda (2-1), sempre em casa.

Brandi Chastain. O soutien desportivo mais famoso da história

O festejo emblemático de Brandi Chastain

Foi internacional pelos Estados Unidos de 1988 a 2004. Marcou 30 golos e fez 192 jogos pela seleção. Ganhou dois títulos mundiais e dois olímpicos. E é a autora do momento mais memorável na história das fases finais, quando tirou a camisola após marcar o penálti decisivo que decidiu o desempate na final de 1999 com a China.

 

Hollywood estava a menos de uma hora de viagem mas dificilmente aquele Estados Unidos-China conseguiria vencer o Oscar para Melhor Argumento. O caso mudaria de figura se se juntasse a palavra “Adaptado” à frase.

 

Era julho de 1999 na Califórnia. O Rose Bowl tinha 90 mil pessoas na bancada – nem o presidente Bill Clinton faltou – e Estados Unidos e China estavam a disputar a final do Mundial de futebol feminino. Cinco anos antes, no mesmo mês, no mesmo estádio, com lotação esgotada, Brasil e Itália tinham passado pela mesma experiência.

 

No total, 240 minutos de uma nulidade absoluta. Jogos com poucas oportunidades e zero golos, tanto no tempo regulamentar como no prolongamento. Se Roberto Baggio entrou para a história em 1994, com o famoso pontapé para as nuvens, a estrela de 1999 foi da equipa vencedora: Brandi Chastain.

 

A jogadora tinha 30 anos e estava longe de ser uma das principais estrelas da seleção. Se os Estados Unidos fossem um cruzeiro, Michelle Akers era o teatro e Mia Hamm era a brilhante vista panorâmica. Brandi Chastain seria… a casa das máquinas. Não era pomposa nem se destacava pela espetacularidade, mas garantia que o futebol norte-americano não sentia problemas.

 

No meio-campo, controlava e orientava as tarefas para que nada faltasse a ninguém. E quando cometia um erro, dava a vida para garantir que este não tinha uma consequência negativa. Foi o que aconteceu no jogo dos quartos-de-final com a Alemanha no qual, depois de fazer um autogolo aos cinco minutos da primeira parte, compensou com um golo aos quatro minutos da segunda parte.

 

Na final contra a China, calhou-lhe o remate final no desempate por penáltis. Nove jogadoras antecederam-lhe e oito marcaram: só Liu Ying vacilou no momento da verdade. Era a vez de Brandi Chastain e a esperança de um país inteiro, com milhões a ver pela televisão, recaía sobre o pé esquerdo da jogadora que tinha nascido e crescido na Califórnia.

 

Mais do que nunca, Chastain estava a jogar em casa. Imune à pressão, partiu para a bola, marcou o penálti decisivo e deixou que a loucura tomasse conta do seu corpo. Numa das imagens mais emblemáticas do desporto feminino do século XX, Chastain tirou a camisola e fletiu os músculos, restando-lhe apenas um soutien desportivo preto.

 

O festejo, tantas vezes visto no futebol masculino, surpreendeu naquele cenário. Mas não houve escândalo, nem podia haver. Nada ficou à mostra, tirando o enorme orgulho de ter acabado de oferecer o título mundial aos Estados Unidos.

 

«Foi um instante de loucura, nada mais do que isso. Não estava a pensar em mais nada. Limitei-me a pensar que aquele era o melhor momento da minha vida num relvado», contou. E tinha razão: podia não ser o primeiro título dos Estados Unidos – esse chegou em 1991 – mas foi o primeiro conquistado em casa, num evento que levou mais de um milhão de espetadores às bancadas dos estádios espalhados pelo país.

 

A pressão era sentida por todos. Brandi Chastain tinha tudo para fazer história mas um pontapé mal calculado poderia mergulhar a decisão numa incerteza difícil de digerir. «O estádio estava incrivelmente sossegado. É incrível como mais de 90 mil pessoas conseguiram estar tão caladas: se quisesse, teria conseguido sentir a minha pulsação cardíaca», disse Brandi, anos mais tarde.

 

Meu rico pé esquerdo

Colegas eufóricas com o título

Quem conhecia bem Brandi Chastain, achou aquele momento estranho. Não o festejo em si mas a forma como partiu para a bola e bateu o penálti. «Nunca tinha batido uma grande penalidade com o pé esquerdo num jogo competitivo, muito menos num Mundial», recorda, lembrando a ordem que recebeu do selecionador, Tony DiCicco, para trocar as voltas à guarda-redes chinesa.

 

A paranóia tinha chegado a todos. O selecionador estava preocupado com a quantidade de detalhes que as adversárias sabiam sobre as norte-americanas e decidiu fazer o possível para confundir Gao Hong.

 

E ali estava Brandi Chastain, habituada a rematar com o pé direito, com o penálti decisivo de um Mundial de futebol, a jogar em casa, com 90 mil espetadores nas bancadas, a inverter tudo o que o instinto lhe dizia para rematar com o pé contrário.

 

Aquela não fora a primeira vez que Chastain e Hong estiveram frente a frente. Em 1999, uns meses antes, a jogadora tinha falhado uma grande penalidade. «Ela entrou na minha cabeça e antes de rematar estava mais a pensar no que ela ia fazer do que em mim», contou. Os Estados Unidos perderam.

 

Desta vez, o pé esquerdo fez a diferença e o título foi conquistado. «Agitei aquela camisola no ar uma e outra vez, e deixei-me cair de joelhos festejando o que tínhamos acabado de conquistar. Não fazia ideia qual seria a minha reação: foi um momento verdadeiramente genuíno, uma loucura. Senti um grande alívio e uma grande alegria», disse.

 

A revolta dos conservadores

 

O festejo de Chastain não agradou a gregos e troianos. Nem mesmo a todos os norte-americanos. Como seria de esperar, num país como os Estados Unidos, a celebração foi escrutinada ao pormenor e as críticas surgiram.

 

Chastain não quis saber. «Há sempre alguém que pergunta por que foi assim e diz que foi uma falta de respeito», afirmou, garantindo que até foi bom que tivessem surgido: «Deram-me uma nova plataforma para contar ao mundo aquilo que o futebol me tinha dado».

 

As declarações que faz à BBC durante esta entrevista em 2014 não deixam dúvidas: «Há algo de primário no desporto que não ocorre em mais lado nenhum. Quando se tem um momento destes, em que se decide um Mundial, tens o direito de libertar o sentimento e a emoção que não existem noutros cenários».

 

O festejo de Chastain – e todo o burburinho que provocou – acabou por servir como a cereja no topo do bolo mediático que a fase final dos Estados Unidos foi. Concretizando as profecias de Sepp Blatter e de muitos membros da FIFA, o futebol feminino estava vivo e conquistava gente a cada dia que passava.

Quando o Coventry apanhou o metro para fugir ao trânsito e ganhou um jogo

Adebola foi o herói dentro de campo

Londres, 25 de novembro de 2006. O Queens Park Rangers recebe o Coventry City num jogo a contar para o Championship mas o trânsito londrino ameaça transformar a viagem até ao Loftus Road Stadium um pesadelo.


Com o relógio a avançar sem contemplações e a hora do jogo cada vez mais próxima, a equipa decide adotar uma solução invulgar. «Comprámos 23 bilhetes de ida na estação de metro de Hanger Lane. Fomos um pouco gozados por adeptos do West Ham e do Fulham, mas o nosso invulgar herói foi o Jay Tabb. Ele sabia que tínhamos de mudar em Hammersmith para depois acabar em Shepherd’s Bush», disse o treinador Mickey Adams.


A solução foi melhor do que continuar no autocarro mas ainda assim os jogadores só conseguiram chegar ao estádio 40 minutos antes do apito inicial. Sem tempo para a habitual preleção e com um aquecimento literalmente a correr, os jogadores do Coventry aproveitaram esta iniciativa excêntrica para surpreender o QPR e vencer por 1-0, graças a um golo de Dele Adebola.


«Os adeptos que viajaram connosco nem conseguiam acreditar. Isto prova que toda aquela conversa antes do jogo é uma treta», acrescentou Adams. O herói Jay Tabb, por outro lado, contribuiu com o que tinha a contribuir através do conhecimento do metro de Londres, uma vez que ficou de fora do jogo.


«Fiquei com um bocado com pena dele. Ajudou-nos e depois nem sequer o pus a jogar», afirmou Mickey Adams no final de um encontro com 12840 espetadores que, na sua esmagadora maioria, chegaram a horas.

Sun Yen. A sensação chinesa que seduziu o resto do mundo

Sun Yen em baixo à esquerda

Foi o símbolo da China no Mundial-1999. Ajudou a equipa a atingir a final e despediu-se com sete golos (o máximo na prova) e com o título de melhor jogadora. Foi insuficiente para garantir o título contra os Estados Unidos, mas os norte-americanos não se esqueceram dela: no ano seguinte, foi a primeira escolha do draft do novo campeonato.

 

«O melhor momento da minha carreira foi a final do Mundial-1999. O Rose Bowl estava cheio de gente [90 mil pessoas]», disse Sun Yen, anos mais tarde. Para a chinesa de 162 centímetros, outrora desmotivada por um treinador que lhe disse que nunca conseguiria ser jogadora, quando ainda era adolescente, a fase final daquela prova nos Estados Unidos foi a consagração do maior talento que a China já viu no futebol.

 

Filha de um jogador e acérrimo fã de futebol, começou a ver jogos desde pequena e não perdeu tempo para começar a jogar. Mas, um dia, em Xangai, um treinador foi cruel e disse-lhe que não tinha futuro. «Vi aquilo como uma motivação. Procurei outra equipa e o novo treinador disse-me que se treinasse muito, poderia tornar-me uma boa jogadora.»

 

Sun Yen tinha 17 anos e estávamos em 1990. Um ano depois, fazia parte da seleção chinesa no primeiro Mundial da FIFA. O fenómeno estava apenas a começar. Yen fez um golo no Mundial-1991, dois no Mundial-1995 e foi medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996.

 

Mas nenhum outro momento foi tão importante e marcante como a participação no Mundial-1999. Não só a China atingiu a final, perdida no desempate nas grandes penalidades para os Estados Unidos, como Sun Yen brilhou com sete golos e o título de melhor jogadora.

 

Nessa altura, apenas Michelle Akers tinha mais golos do que ela em fases finais da prova. Nessa altura, todos os norte-americanos sabiam quem era e invejavam-lhe os atributos. Não foi por acaso, portanto, que no final de 2000 a chinesa tenha sido a primeira escolha do draft da nova liga profissional norte-americana. Curiosamente, foi escolhida pelas Atlanta Beat, equipa da cidade que a tinha visto vencer a medalha de prata quatro anos antes.

 

Os problemas físicos impediram-na de dar um contributo sério, ao seu nível. «Infelizmente só vimos fogachos da sua qualidade porque foi obrigada a lidar com dores no joelho durante este tempo. Com a Sun Wen era mágico, simplesmente mágico. Nunca esquecerei algumas das coisas que fez, e quantas vezes nos deixou a todos no treino a pensar que nunca tínhamos visto algo assim», disse o treinador Tom Stone.

 

Nas palavras da selecionadora Ma Liangxing, Sun Yen era especial. Quão especial? «Era como Maradona, não só marcava como criava oportunidades. E tinha o remate e o passe longo do Figo e a visão de jogo de Zidane», afirmou, sem contemplações.

Sun Yen no Mundial-1999

O adeus aos grandes palcos deu-se no Mundial-2003, novamente nos Estados Unidos. Marcou o último golo da sua carreira em fases finais e a China não foi além dos quartos-de-final. Por esta altura, já tinha sido considerada a melhor jogadora do século pelo voto popular organizado pela FIFA, tal e qual como Maradona. O seu Pelé foi Michelle Akers, a norte-americana que reuniu as preferências dos votos dos especialistas.

 

Com 106 golos em 152 jogos pela China, Sun Yen deixou saudades. «O futebol é apenas um jogo e a vida deve continuar», afirmou, reconhecendo que foi difícil ser jogadora de futebol profissional na China, porque havia tempo para mais nada.

 

A nova vida – que incluiu uma breve reaparição – seria sempre complicada: «Vou sentir-me triste porque é algo que faço há 18 anos. Casei-me com o futebol e vou precisar de algum tempo para me habituar a uma vida diferente».

 

Sun Yen continua a ser um símbolo do futebol chinês e referência máxima da competição de 1999. «Houve alguém que me perguntou se seria capaz de encontrar uma nova Sun Wen. Disse que era impossível. Não se pode ensinar alguém a ser um talento. É preciso que apareça», afirmou Ma Liangxing.

 

Yen era especial. Foi a única chinesa a disputar os primeiros quatro Mundiais e provou a importância de treinar e acreditar no talento próprio, mesmo quando todos à volta parecem desconfiar dele.

Mia Hamm. Um nome incontornável dos Estados Unidos

Mia Hamm era a goleadora de serviço

É impossível falar do Mundial de 1999 organizado pelos Estados Unidos sem referir o nome de Mia Hamm. Na altura com 27 anos, a jogadora que nasceu em Selma, no Alabama, sete anos depois da famosa marcha pelos direitos civis, era o corpo e a alma da seleção.

 

Campeã mundial em 1991 com 19 anos, na altura a jogar numa zona mais intermediária do terreno, Mia tinha acordado para o futebol ainda antes dos dois anos de vida. Obrigada a percorrer o mundo inteiro por causa da família, vivia a saltar entre bases aéreas dos Estados Unidos. Ainda antes de cumprir o segundo aniversário, em Florença, viu um pai e um filho a correr atrás de uma bola e fez o mesmo.

 

Mia encontrou o seu destino. Tinha o pé chato e usava uma bota ortopédica mas nada a iria impedir de fazer do futebol a sua vida. Com benefícios para todos, diga-se. Com cinco anos, no Texas, entrou pela primeira vez para uma equipa de futebol e a carreira universitária, ao serviço das North Carolina Tar Heels, foi tão impactante que perdeu apenas um dos 95 jogos que fez em cinco anos. Sem surpresa, foi quatro vezes campeã universitária e acabou nomeada a melhor atleta feminina que a divisão já tinha visto. O melhor atleta masculino? Michael Jordan.

 

A estreia pelos Estados Unidos teve tanto de importante como de trágico. Tinha 15 anos, estávamos em 1987, e ia assumir-se como a mais jovem de sempre a representar o seu país. Mas, no mesmo fim-de-semana, o avô e o tio morreram num acidente de aviação.

 

O simbolismo do evento não a afetou. Em 1991, na preparação para o primeiro Mundial feminino organizado pela FIFA, decidiu não jogar pelas Tar Heels de forma a garantir que nada falhava na preparação. Por essa altura, e depois de precisar de 17 jogos pelos Estados Unidos para marcar pela primeira vez, já começava a exibir a sua veia goleadora.

 

De avançada a… guarda-redes

Mia Hamm durante os festejos

Mia Hamm estreou-se em fases finais do Mundial a jogar no meio-campo mas não foi preciso esperar muitos anos até se assumir como avançada. E uma das melhores de sempre. Contudo, teve ocasiões para experimentar de tudo.

 

No Mundial da Suécia, em 1995, foi a solução encontrada para jogar como guarda-redes depois da expulsão de Briana Scurry. Os Estados Unidos venciam a Dinamarca por 2-0 e o relógio marcava 88 minutos. O risco não era grande mas Hamm correspondeu e garantiu a vantagem até ao apito final.

 

Quatro anos depois, chegou finalmente a temporada que iria eternizar Mia Hamm como uma das melhores de sempre. Logo em janeiro, num encontro particular contra… Portugal, a jogadora marcou e tornou-se a norte-americana mais goleadora da história, superando Michelle Akers. Em maio, já em vésperas da fase final, fez ainda melhor e tornou-se a jogadora com mais golos por uma seleção em todo o mundo: o golo ao Brasil, em Orlando, foi o seu 108.º, deixando a italiana Elisabetta Vignotto para trás.

 

O momento mais glorioso foi, ainda assim, no Mundial que os Estados Unidos organizaram. O segundo título mundial da sua carreira chegou apenas no desempate por grandes penalidades, depois de um 0-0 com a China. Mia Hamm, que marcou dois golos durante a prova, não vacilou no seu pontapé dos onze metros e contribuiu para a vitória final.

 

Os 120 minutos de futebol a meio da tarde na Califórnia passaram, contudo, uma fatura pesada. Mia ficou num estado grave de desidratação e desmaiou no balneário, forçando a equipa médica a abrir um acesso intravenoso para lhe dar três litros de fluido. A recuperação foi progressiva. Nas primeiras horas, Hamm não conseguia comer, beber nem falar e só começou a melhorar depois de dormir 12 horas consecutivas.

 

A recompensa foi grande. Internacional até 2004, despediu-se com dois títulos olímpicos e dois títulos mundiais. Esteve em quatro fases finais e, juntando Mundial a Jogos Olímpicos, registou 14 golos em 42 jogos. Até 2013 manteve-se como a recordista de golos pela seleção (158 em 276 jogos) e a nível pessoal conquistou duas vezes o título de melhor jogadora do mundo para a FIFA (2001 e 2002).

 

O currículo é riquíssimo e o seu caráter pioneiro também foi destacado: foi a primeira mulher a entrar para o World Football Hall of Fame.

Ifeanyi Chiejine. A mais nova de sempre num Mundial

Ifeanyi Chiejine é a primeira em baixo do lado direito

O futebol feminino, na sua essência, sempre foi propenso a utilizar jogadoras muito novas. Desde as equipas das fábricas durante a Grande Guerra até às primeiras décadas da disseminação do futebol por toda a Europa, a partir dos anos 70, não é raro encontrar jogadoras com 14 anos acabados de fazer a dar os primeiros passos e a assumirem-se como futuras referências.

 

Em 1999, por outro lado, o futebol feminino era cada vez mais uma realidade. Havia cada vez mais jogadoras profissionais, os modelos de competição eram cada vez mais sérios e o desporto deixou de ser visto como algo que as adolescentes podiam fazer até encontrar a sua razão de viver, como casar e ter filhos.

 

Quando os Estados Unidos organizaram o Mundial em 1999, as médias de idades eram cada vez mais… adultas. Mas havia seleções aqui e ali que iam escapando à tendência e apresentavam jogadoras muito novas. Longe dos 13 e 14 anos das suas antepassadas mas, ainda assim, com idade para jogar nos escalões jovens.

 

Como acontece no futebol masculino, também no futebol feminino as equipas africanas surgiam em lugar destaque na apresentação de jogadoras mais jovens do que o habitual. Aqui, contudo, não era uma questão de suspeição. Para todos os efeitos, a competição era de futebol sénior e interessava pouco confirmar a cédula de nascimento.

 

A Nigéria surgiu com Ifeanyi Chiejine (em baixo à direita na imagem no topo) no plantel e ajudou a fazer história nas fases finais, com um recorde que se mantém até hoje. Quando a seleção africana começou os trabalhos de preparação para o Mundial, Ifeanyi ainda nem sequer 16 anos tinha, mas a estreia na competição, contra a Coreia do Norte, a 20 de junho, aconteceu aos 16 anos e 34 dias.

 

A jogadora, atacante, foi titular e jogou os primeiros 70 minutos, num momento em que a Nigéria vencia por 1-0 – no final ficou 2-1. A estreia não podia ter sido mais simbólica: foi no Rose Bowl, em Pasadena (arredores de Los Angeles), e com mais de 17 mil pessoas nas bancadas.

 

Chiejine manteve-se no onze para a goleada sofrida diante dos Estados Unidos (1-7), sendo substituída logo aos 43 minutos, e para a vitória épica diante da Dinamarca (2-0), jogando 81 minutos. O triunfo sobre a rival europeia garantiu o apuramento inédito para a fase a eliminar, continuando a ser até hoje a única vez em que a Nigéria superou a fase de grupos.

 

Na despedida da seleção, nos quartos-de-final, num jogo emocionante que só foi decidido com um golo de ouro (4-3 para o Brasil), a história foi semelhante. Chiejine foi titular mas na altura das substituições foi logo escolhida para sair, jogando apenas 26 minutos, período durante o qual o Brasil marcou dois golos.

 

Nascida a 17 de maio de 1983, atualmente com 35 anos, Chiejine manteve-se entre as eleitas da Nigéria e jogou também as fases finais de 2003 e 2007, além dos Jogos Olímpicos de Sydney-2000 e Pequim-2008.

 

Michael Owen como referência

Ifeanyi Chiejine contra a Coreia do Norte... em 2003

 

Chiejine estreou-se numa fase final um ano depois de Michael Owen ter conquistado o mundo com a sua velocidade no França-1998. Para a nigeriana, o avançado do Liverpool era a grande referência. Com cinco irmãs e três irmãos, Chiejine encontrou no futebol o seu passatempo preferido e começou a jogar com dez anos, conquistando quem quer que a visse em ação.

 

As suas características impressionavam. Rápida, ágil, com técnica suficiente e capacidade para desequilibrar na finalização. Famosa no futebol nigeriano, foi sem surpresa que chegou à seleção, mesmo numa idade tão jovem.

 

«Ela tem velocidade, consegue driblar e é muito tenaz com a bola. Não é algo que se possa dar como garantido», disse o selecionador Sam Okpodu antes da fase final de 2003. Por esta altura, o futebol já não era a sua única preocupação, uma vez que tinha acabado de se formar em Ciência Computorizada e Tecnologia.

 

Mas, claro, o espaço reservado no seu coração ao desporto era garantido, até porque a Nigéria estava na vanguarda do continente: «O futebol feminino veio para ficar. Temos sorte comparadas com outros países africanos. Acredito que temos um nível de jogadoras e treinadores mais alto, um campeonato melhor e uma crença real de que o futuro do futebol é feminino».

Alicia Ferguson. O vermelho mais rápido de sempre

Reação após a expulsão

Tinha 17 anos quando viajou da Austrália até aos Estados Unidos para representar a seleção no Mundial-1999. No jogo de estreia, contra o Gana, não saiu do banco de suplentes. A seguir, contra a Suécia, voltou a não ser opção para o selecionador Greg Brown. Finalmente, contra a China, a avançada mereceu a confiança e foi titular. Jogou 95 segundos.

 

Estávamos a 26 de junho de 1999, no terceiro e último jogo da fase de grupos. A Austrália ainda não estava eliminada mas, jogando com a China e tendo a Suécia um jogo fácil frente ao Gana, era como se estivesse. Greg Brown sabia disso e aproveitou para promover a estreia de algumas jogadoras.

 

Alicia Ferguson era uma delas. Ali, em East Rutherford, em Nova Jérsia, as bancadas tinham quase 30 mil pessoas, praticamente o dobro dos jogos anteriores. A jogadora de 17 anos praticamente não teve tempo para tocar na bola quando, numa jogada inofensiva da China, decidiu fazer um carrinho violento, atingindo a adversária Bai Jie.

 

A árbitra norte-americana Sandra Hunt não teve dúvidas: vermelho direto. É capaz de ter sido a decisão mais fácil da sua carreira, de tão despropositada e óbvia que a entrada foi. Alicia Ferguson perdeu o controlo e despediu-se do seu primeiro Mundial com apenas 95 segundos jogados.

 

Até sair das quatro linhas, demorou mais de um minuto. A caminhada foi lenta, como se estivesse em transe, como se o seu cérebro ainda não tivesse conseguido processar o que tinha acabado de acontecer. Quando cruzou a linha lateral, já se viam as primeiras lágrimas, mas só depois de ter começado a ser reconfortada pelas colegas e pelos membros da equipa técnica é que se desmanchou num pranto, percebendo que tinha dado cabo da sua estreia numa fase final.

 

Alicia Ferguson anos mais tarde

Hoje, vinte anos depois, Alicia Ferguson está na história: é dela o vermelho mais rápido num Mundial de futebol feminino. Hoje, sabe que pecou por se ter deixado afetar pela situação. «É algo que se aprende com a experiência, não nos deixarmos afetar pela situação. No final, é apenas mais um jogo de futebol. Aprendi isto da pior maneira em 1999, quando me deixei afetar pela situação e fui expulsa logo no início.»

 

A carreira de Alicia Ferguson podia ter ficado manchada mas conseguiu recuperar. Afinal, era vista como uma das mais talentosas do país e tinha sido a mais nova a receber uma bolsa da federação australiana para preparar a presença na fase final.

 

No título continental de 1998, apesar dos 16 anos, tinha contribuído com quatro golos: dois no 21-0 à Samoa Americana e outros dois no 17-0 às Fiji. Na decisiva final, contra a Nova Zelândia, não foi utilizada.

 

Alicia Ferguson aprendeu com os erros e, como veio a dizer anos mais tarde, nada melhor do que a experiência para saber lidar com a situação. Em 2000, ainda adolescente, fez parte da comitiva olímpica e em 2007, já depois de as lesões lhe terem dado cabo de uma fase importante da carreira, voltou a uma fase final de um Mundial.

 

No apuramento, na Taça Asiática, tinha capitaneado a Austrália na campanha que só foi travada nos penáltis da final contra a China – Ferguson não tremeu e marcou o seu. Depois, em 2007, não foi imprescindível mas atuou nos três encontros da fase de grupos: uma vez titular, duas vezes suplente utilizada e… zero cartões vermelhos. Nos quartos-de-final ficou de fora contra o Brasil e viu a Austrália ser eliminada sem nada poder fazer.

Mundial-1999. A explosão mediática do futebol feminino

EUA-1999 foi um palco de festa

A experiência que os Estados Unidos angariaram com a organização do Mundial-1994 (futebol masculino) foi decisiva para que a fase final de 1999 se assumisse como um sucesso estrondoso. Em nenhum outro país o futebol feminino roubava a atenção dada aos homens e o sucesso alcançado pela seleção foi o mote imediato para que os estádios se enchessem de curiosos.

 

Sim, podia não ser futebol americano. Sim, podia não ser basebol, basquetebol ou hóquei no gelo. Mas o «soccer» estava na moda e ter uma seleção forte, capaz de conquistar o título, era razão mais do que suficiente para que os enormes estádios norte-americanos registassem lotações esgotadas.

 

Se dúvidas existissem, as cerca de 79 mil pessoas que presenciaram o jogo de abertura (Estados Unidos-Dinamarca, 3-0) dissiparam qualquer incerteza. Os números do Mundial-1999 seriam esmagadores. Quatro anos antes, a Suécia havia registado uma lotação total a rondar os 112 mil espetadores e excedera as expectativas dos organizadores. Agora, nem mesmo o meio milhão de espectadores do China-1991 servia como meta. Ia ser uma fase final em grande… com tudo a que tinham direito.

 

Este foi o primeiro Mundial feminino organizado durante a presidência de Sepp Blatter. Uma década antes, tinha sido o suíço a aceitar o mandato de João Havelange para tratar de incluir uma prova feminino no calendário da FIFA. Mais de dez anos depois, o futebol feminino estava em franca expansão e o balanço era positivo.

 

Blatter reconhecia não só o sucesso deste projeto mas também o papel que os Estados Unidos tinham desempenhado no crescimento da modalidade. «O futebol feminino tinha uma grande dívida para com os Estados Unidos, mesmo antes da organização deste Mundial, tendo em conta o trabalho pioneiro no futebol feminino, reconhecendo o seu potencial como força social e o seu valor para a prática de uma atividade saudável para um enorme setor da comunidade.»

 

O novo presidente também não perdia tempo em puxar o mérito da FIFA, que viu no futebol feminino a área de maior crescimento do novo século. «Para o conseguir, é emular o exemplo americano em países de todos os continentes», escreveu no relatório técnico da competição.

Espetáculo chegou às balizas

Os elogios aos Estados Unidos eram transversais. Mais do que uma competição, a fase final foi também um exemplo de sucesso mediático, seja a nível de publicidade ou de transmissão televisiva. Até Portugal parou com as transmissões frequentes de jogos do Mundial.

 

O presidente do Comité de Futebol Feminino da FIFA, Ravn Omdal, salientou também a forma como a competição se tornou mais equilibrada. A ideia pode ter sido pura mas os números não confirmam necessariamente a ideia de que «os resultados de cada jogo estiveram sempre em dúvida sem uma diferença embaraçosa de qualidade entre as equipas mais fortes e as mais fracas».

 

O que dizem os números? Quatro anos antes, na Suécia, tinham-se registado quatro jogos com diferença igual ou superior a cinco golos: Dinamarca-Austrália (5-0), Alemanha-Brasil (6-1), Noruega-Canadá (7-0) e Noruega-Nigéria (8-0). Em 1999 houve sete: China-Noruega (5-0 numa meia-final), Rússia-Japão (5-0), Alemanha-México (6-0), Noruega-Canadá (7-1), Brasil-México (7-1), EUA-Nigéria (7-1) e China-Gana (7-0). Por outro lado, este fenómeno foi acompanhado pelo aumento do número de equipas: de 12 para 16 seleções.

 

Analisando as estatísticas, é possível defender que o equilíbrio aumentou, sobretudo ao perceber que seleções outrora sem hipóteses, como Brasil e Nigéria, superaram a fase de grupos pela primeira vez.

 

Omdal focou-se ainda mais nas características positivas de evolução nas fases finais: «Quando comparamos o Mundial de 1999 com o de 1991, o desenvolvimento provavelmente mais gratificante é o aumento da profundidade, tanto a nível individual numa equipa, bem como a nível de seleções, com o fortalecimento de algumas que noutras edições serviriam como carne para canhão».

 

«O futuro do futebol é feminino. E o futuro é promissor», garantia.

 

Sucesso estrondoso em todas as análises

Estados Unidos somaram segundo título mundial

As estatísticas do Mundial-1999 confirmaram as expectativas. A média de espectadores por jogo subiu de 4316 para 37944 e a final, entre Estados Unidos e China, registou 90 mil pessoas na bancada. Nem o presidente norte-americano, Bill Clinton, quis faltar.

 

Não foi apenas um espetáculo, no verdadeiro sentido da palavra, bem promovido. O futebol era de grande qualidade e as pessoas gostavam do que viam. A média de golos por jogo subiu de 3,81 para 3,84, com os números absolutos a aumentarem de 99 para 123 golos.

 

E podia ter sido ainda melhor. Até aos dois últimos jogos da competição, não tinha havido um único nulo, nem uma vitória por apenas 1-0. Os jogos tinham sempre golos, alterações de tendência e emoções vibrantes. Mas depois, na fase mais decisiva da prova, chegou a seca. Tanto o jogo de atribuição do terceiro lugar (Brasil-Noruega) como o da final (EUA-China) foram decididos no desempate por grandes penalidades após um 0-0. Estes foram também os primeiros nulos na história das fases finais de Mundiais femininos.

 

A ausência de golos pode ter sido um problema na altura mas hoje, olhando para trás, a final de 1999 protagonizou um dos momentos mais memoráveis do Mundial, quando Brandi Chastain despiu a camisola e festejou o título ao marcar a grande penalidade decisiva para os Estados Unidos.

 

As norte-americanos celebraram o seu segundo título e as contas finais confirmaram que a assistência total superou o milhão de espectadores, mais do que o dobro do que havia sido registado na China, oito anos antes.

 

Portugal, uma vez mais, ficou de fora desta festa, ao terminar o grupo de qualificação no terceiro lugar, atrás da Dinamarca (a grande desilusão na fase final) e da Rússia. Somou apenas dois triunfos, ambos contra a Bélgica.

 

O Brasil foi a surpresa mais agradável da prova – não só garantiu o terceiro lugar como apresentou Sissi ao mundo (segunda melhor jogadora e vencedora do troféu de melhor marcadora, apesar de ter marcado tantos golos como a chinesa Sun Yen, que foi considerada a melhor jogadora da prova).

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