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É Desporto

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China-1988. O embrião para o primeiro Mundial

Noruega venceu a final

O futebol era jogado cada vez mais em todos os cantos do mundo (vamos ignorar por agora a referência ao mundo plano ao invés de um redondo) e as mulheres estavam cansadas de ficar na sombra das grandes provas masculinas.

 

O preconceito tinha começado a ser derrubado, com o fim da proibição em Inglaterra (1971), o aparecimento de uma equipa feminina nos Estados Unidos (1985), e a criação de provas internacionais, como os Mundiais não-oficiais de 1970 e 1971 ou os Mundialitos, dera um sinal claro ao mundo do futebol que não era possível continuar a ignorar a componente feminina.

 

Com base neste pretexto, uma norueguesa, Ellen Wille, deu o mote na cimeira da FIFA em 1986. Mais do que fazer história por ser a primeira mulher a falar num evento destes, serviu também como um enorme acordar de consciências. «Subi ao palco e realcei que o futebol feminino nunca tinha sido mencionado em linha nenhuma dos documentos da FIFA. Também disse que estava mais do que na altura de as mulheres terem o seu próprio Mundial e a possibilidade de participar no torneio olímpico», disse.

 

A plateia, esmagadoramente masculina, ignorou-a. Mas João Havelange, o presidente, foi sensível ao tema e sentiu que estava na altura, por isso mandatou o seu secretário-geral, Sepp Blatter, para encontrar uma fórmula que corrigisse este abandono. «Quando Havelange me disse que o problema era meu, eu resolvi-o», recordou o suíço.

 

Encontro marcado para a China

 

Blatter teve dois anos para preparar o embrião que daria origem ao primeiro Mundial oficial. Na China, em 1988, entre 1 e 12 de junho, doze seleções lutaram pelo primeiro lugar: a UEFA surgiu em destaque, com Holanda, Noruega, Suécia e Checoslováquia, seguida da AFC, com China, Tailândia e Japão.

 

O objetivo era o de inclusão por isso todas as confederações foram chamadas para a prova: o Brasil da CONMEBOL, a Austrália da OFC, a Costa do Marfim da CAF e, por fim, o Canadá e os Estados Unidos da CONCACAF.

 

O público chinês correspondeu e logo no primeiro jogo deu o mote para as boas assistências, com uma lotação de 45 mil no primeiro jogo, entra a China e o Canadá. A tendência continuou durante todos os jogos da prova, até à final, ganha pela Noruega contra a vizinha Suécia, graças a um golo de Linda Medalen.

 

O sucesso da organização, a resposta do público e o interesse gerado pelas próprias seleções não deixaram margem para dúvida: logo nesse mês a FIFA validou a utilidade de uma prova e definiu que o primeiro Mundial feminino da história seria disputado na China, três anos depois. Era apenas o início de uma história de sucesso.

Mike Ryan. O primeiro treinador dos Estados Unidos

Mike Ryan

Era um irlandês que, à semelhança de tantos outros, cruzou o Atlânico à procura de uma vida melhor em Nova Iorque. Nascido em Dublin em 1935, chegou aos Estados Unidos com 23 anos e ainda foi a tempo de servir no exército norte-americano.

 

A experiência militar mudou-lhe a vida para sempre. Depois de um período na Alemanha, foi colocado em Washington (o estado) e de lá nunca mais saiu. Com os tempos de exército para trás, dedicou-se ao futebol e tornou-se um pioneiro da modalidade nos Estados Unidos.

 

Seattle era o epicentro do desporto. Ryan ajudou a formar um programa de sucesso nos Washington Huskies, que treinou durante uma década, e revolucionou a forma como as crianças, raparigas e rapazes, olhavam para o futebol.

 

Responsável por toda a estrutura de base, e pensando no futebol como um todo, com uma visão muito europeia e sem grande influência norte-americana, não precisou de muito tempo até apresentar resultados dignos de registo. Quando morreu, em 2012, o então presidente da federação americana de futebol, Sunil Gulati, recordou que Ryan «estava lá mesmo no início daquilo que se tornou o programa de maior sucesso de futebol feminino internacional, e o seu contributo nunca será esquecido».

 

Quando os Estados Unidos decidiram avançar com a criação de uma equipa de futebol feminino para participar no Mundialito de 1985 em Itália, Mike Ryan surgiu como o nome incontornável. Ninguém estava mais preparado do que ele para assumir aquela tarefa e ser, uma vez mais, pioneiro.

 

A base de recrutamento era quase toda de Washington e o técnico conhecia aquelas jogadoras melhor do que ninguém. Os resultados não foram os melhores – três derrotas e um empate – mas entraram para a história como o primeiro jogo (derrota 0-1 com a Itália) e os primeiros golos marcados: Michelle Akers e Emily Pickering no empate com a Dinamarca por 2-2.

 

O trabalho a fazer era muito e Michelle Akers recorda a viagem até Itália para o torneio: «Não parecíamos uma seleção. A única coisa que tínhamos era uns uniformes roxos e cor-de-lima. Ninguém estava em forma. Pareceu que íamos de férias para Itália. Éramos um bando de miúdas, não fazíamos ideia no que é que nos estávamos a meter».

 

No final do ano, com o trabalho feito, deu lugar a Anson Dorrance, mulher que viria a ser a selecionadora do primeiro título em 1991. «O que mais gostava nele foi como elevou a fasquia para o futebol sénior nos EUA. As equipas de elite que treinou em Seattle jogavam com um grande nível de sofisticação e as contribuições para o futebol norte-americano foram a pedra basilar para o sucesso internacional. Respeito-o como treinador e admito tudo o que fez pela evolução do jogo», recordou Dorrance.

 

Sem voltar a orientar uma equipa de relevo – despediu-se numa equipa feminina no ensino secundário -, Mike Ryan nunca perdeu o reconhecimento pelo notável trabalho feito.

 

«Dedicou a sua vida ao futebol e a trabalhar com jovens e tenho a certeza de que estava muito orgulhoso em vê-las tornarem-se em grandes pessoas e jogadoras, da mesma forma que estava orgulhoso em ver a equipa feminina crescer desde os primeiros passos até aos títulos olímpicos e mundiais», disse Gulati.

Billy McNeill. A incrível carreira do Leão de Lisboa

Estátua de Billy McNeill em Glasgow

Venceu 31 títulos entre jogador e treinador ao serviço do Celtic mas nenhum teve um gosto tão especial como a conquista da Taça dos Campeões Europeus, no Jamor, em 1967. Ao longo de 18 anos como futebolista passou por altos e baixos, sempre pelo clube de Glasgow, e despediu-se com um total de 822 jogos. Pormenor interessante? Nunca foi substituído.

 

Quando se fala em jogadores com amor à camisola, há nomes que surgem sempre na primeira linha. A história de Paolo Maldini com o Milan é quase sempre o maior destaque, mas nomes como Ryan Giggs e Francesco Totti não lhe ficam muito atrás. Hoje, com a morte de Bill McNeill, o mundo do desporto parou para apreciar mais um exemplo de dedicação extrema.

 

William, mais conhecido por Billy, chegou ao Celtic em 1957, com apenas 17 anos, e não precisou de muito tempo para se aperceber de que a glória nem sempre se encontrava ao virar da esquina. O clube católico estava a caminho de uma série de oito anos sem conquistar qualquer título e viviam-se momentos de celebração para clubes como Rangers, Hearts, Dundee, Aberdeen e Kilmarnock.

 

A seca do Celtic alastrou-se a todas as provas e quis o destino que Billy McNeill cumprisse os primeiros oito dos 18 anos que esteve ligado ao clube sem qualquer troféu. A tendência era desanimadora e ninguém conseguiu prever quão brilhante o futuro seria.

 

O golo que marcou uma nova era

McNeill saltou mais alto e marcou um golo emblemático

O primeiro sintoma de uma era épica chegou com a final da Taça da Escócia em 1965. Também aqui o jejum do Celtic era grande. O clube não vencia desde 1954 e já tinha perdido as finais de 1955, 1956, 1961 e 1963. A 24 de abril de 1965, no mês seguinte à estreia do lendário Jock Stein como treinador, McNeill saboreou pela primeira vez um triunfo. E de que maneira!

 

Curiosamente, McNeill chegou a estar em dúvida para a final no Hampden Park depois de ter sofrido uma lesão no gémeo durante o encontro anterior com o Partick Thistle. Mas, quatro dias antes do encontro, Stein decidiu inovar e anunciou o onze titular aos jornalistas. E McNeill constava da lista.

 

O jogo com o Dunfermline não se adivinhava fácil e a marcha do marcador comprova a ideia. Por duas vezes o adversário adiantou-se no encontro (Melrose 15’ e McLaughlin 43’), por duas vezes o Celtic conseguiu o empate (Auld 31’ e 52’). Foi preciso esperar pelo minuto 81 para a história começar a ser escrita. Com a assinatura de McNeill, claro está.

 

As ordens de equipa partiam do princípio que McNeill, como defesa, não ia à área contrária nos cantos, mas naquele instante Stein teve uma ideia luminosa e decidiu mudar. Resultado? Charlie Gallagher bateu o canto para a área e McNeill fechou o marcador de cabeça, garantindo o primeiro título na história do clube desde a Taça da Liga de 1957. Foi o primeiro golo do defesa na competição.

 

O cabeceamento de McNeill foi simbólico. De uma travessia no deserto, o Celtic prosseguiu para uma fase de grande bonança. Foi nove vezes campeão, em edições consecutivas, entre 1966 e 1974, venceu mais seis Taças da Escócia e seis Taças da Liga. O grande, e mais emblemático, momento aconteceu, ainda assim, logo em 1967, no Estádio do Jamor.

 

Leões de Lisboa imortalizados

McNeill num cenário muito conhecido em Portugal

Como em Glasgow dois anos antes, o Celtic até esteve a perder (Mazzola de penálti aos sete minutos), mas estava destinado a fazer história e tornar-se a primeira equipa escocesa – e britânica – a conquistar a Taça dos Campeões Europeus. Tommy Gemmell empatou aos 63’, Stevie Chalmers concretizou a reviravolta aos 84’ e o capitão Billy McNeill ficou imortalizado ao erguer o troféu em nome dos jogadores que passaram a ser conhecidos por Leões de Lisboa.

 

A cada ano que passava, tornava-se cada vez mais difícil dissociar o nome de Billy McNeill do Celtic. Quando decidiu terminar a carreira, em 1975, tinha já 35 anos e um total impressionante de 822 jogos pelo clube. A curiosidade extra mostra também que McNeill nunca foi substituído durante estes encontros, embora na altura a tradição das alterações estivesse apenas a dar os primeiros passos.

 

A ligação ao Celtic não se limitou às ações dentro de campo. A carreira de treinador de McNeill começou nos escalões de formação do clube e incluiu duas passagens pela equipa profissional, primeiro entre 1978 e 1983 e depois entre 1987 e 1991. Durante estas temporadas, acumulou mais quatro campeonatos, três Taças da Escócia e uma Taça da Liga.

 

Apesar das passagens no Aberdeen (vice-campeão e antecessor de Alex Ferguson), Manchester City (vencedor do segundo escalão) e Aston Villa, a ligação ao Celtic nunca esmoreceu e foi, sem grande surpresa, nomeado embaixador do clube em 2009.

 

Hoje, apenas um dia antes de se cumprirem 54 anos do golo decisivo na final da Taça da Escócia, o Celtic anunciou a morte da lenda. «A família do Celtic chora a morte de Billy McNeill, o maior capitão do clube e um dos melhores homens que jogaram e treinaram no clube, que morreu com 79 anos», pode ler-se num tweet.

 

Os últimos anos da vida de McNeill foram muito difíceis. Em 2017, a família confirmou à comunicação social que o antigo jogador sofria de demência. Contou que a concentração estava a ser afetada e, com ela, também a capacidade de comunicação e de discurso tinham sido perturbados. 

Theresa Bennett. A rapariga que levou a FA para os tribunais

Theresa Bennett

Não era uma rapariga igual às outras. Ou melhor, era, simplesmente tinha um gosto diferente e não tinha vergonha nenhuma disso. Numa era em que o futebol feminino ainda era um tabu (1978), Theresa Bennett convenceu os responsáveis do Muskham United, da Newark Football League (nos arredores de Nottingham), que tinha mais do que qualidade para fazer parte da equipa de sub-12.

 

Theresa era uma rapariga a jogar entre rapazes. Tinha 12 anos e vivia livre de preconceitos. Os pais apoiavam a decisão, os treinadores reconheciam a qualidade e os colegas de equipa até agradeciam a mais-valia que era para a equipa. Mas a Federação Inglesa de Futebol (FA) não gostou da mistura e decidiu intervir.

 

Não era novidade em Inglaterra a federação sentir-se tão ameaçada pela “invasão” de mulheres que se via forçada a partir para decisões radicais. Aqui, tal como aconteceu com todo o futebol feminino em 1921, Theresa Bennett foi banida. Não havia espaço para uma rapariga numa equipa de rapazes.

 

A justificação era risível. «Basearam-se em crenças biológicas ultrapassadas de que as mulheres podem ter outras características mais desenvolvidas do que os homens, mas que não têm a força e a resistência necessária para correr, rematar, fazer tackles e afins», recordou Sue López, uma pioneira do futebol feminino em Inglaterra.

 

Os pais não aceitaram a justificação e levaram o caso para tribunal. Queixaram-se que Theresa não tinha tido acesso a igualdade de oportunidades e que jogar numa equipa masculina de sub-12 era a única opção, permitida e avaliada com sucesso por todos os responsáveis em primeira instância.

 

O juiz concordou depois de uma batalha intensa no tribunal. A Federação Inglesa de Futebol foi condenada a pagar 200 libras por ter privado Theresa de continuar a jogar e 50 libras por danos psicológicos. Para Theresa, era apenas o início do regresso à sua vida perfeita: «Se me deixarem, agora vou jogar pelos sub-14».

 

A Federação Inglesa de Futebol tinha outra ideia. «Esta é uma decisão histórica que vai ter repercussões consideráveis», afirmou o presidente, Harold Thompson, abrindo caminho para a hipótese de um recurso. «Não faço ideia se haverá uma enchente de raparigas a quererem jogar com rapazes, não sou vidente. Vamos ter de esperar para ver», acrescentou.

 

O recurso chegou e os tribunais reverteram a decisão. De nada valeu o argumento de que não havia diferenças físicas evidentes nesta fase da puberdade e o estudo de que neste escalão etário muitas raparigas são mais altas e fortes do que os rapazes. Tal como em 1921, a FA tinha vencido a batalha contra as mulheres.

 

Mas a guerra estava a começar a ser perdida. O impacto mediático do caso foi tão grande que a pressão para que a Federação Inglesa tomasse medidas tornou-se insuportável. Para ficar bem na fotografia, recomendou às escolas que começassem a abrir espaço para equipas femininas e não apenas para equipas masculinas. Era a decisão natural depois de a cobertura do caso ter provocado o interesse no futebol em centenas de raparigas.

 

Theresa Bennett foi apenas o ponto de partida. Não estava interessada na fama, apenas em jogar futebol. Era disso que gostava e que pensava a toda a hora. Adepta do Manchester United, apostou na Argentina para vencer o Mundial-1978. A razão sempre estivera do seu lado… em tudo.

O outro Mundial do México

Mundial teve seis seleções

Não foi a primeira edição mas foi a mais memorável. Nem foi sequer o primeiro grande torneio disputado no México. Mas aquele Mundial (não-oficial) de 1971 ajudou a perceber que havia uma gigantesca margem de evolução no que dizia respeito ao futebol feminino.

 

A ideia não tinha nada de invenção. A empresa Martini & Rosso era a grande dinamizadora e, depois da primeira edição disputada em Itália em 1970, decidiu fazer uma segunda edição no outro lado do Atlântico. Houve mais patrocinadores a bordo e juntos construíram os passos de um sucesso estrondoso.

 

A crítica não deixa dúvidas: o torneio teve um sucesso estrondoso porque foi vendido como uma prova de futebol. Sim, eram mulheres, mas isso não passava de um pormenor. O jogo era o mesmo, apesar de ser disputado em duas partes de 35 minutos.

 

As balizas podiam ter postes com partes a rosa e os elementos da comissão organizadora tinham uma indumentária no mesmo tom, mas tudo isso não passava de adereços de uma enorme produção de marketing para vender o essencial: os jogos de futebol.

 

O comité não se preocupou em saber se a prova ia ser um fracasso do ponto de vista financeiro ou comercial. Tinha seis seleções presentes - México, Argentina, Inglaterra, Dinamarca, França e Itália – e jogos para organizar. Tudo o resto seria acessório.

 

A Martini & Rossi não olhou a despesas. O sucesso do México-1970 tinha lançado a semente para o México-1971. O contexto era diferente por isso a marca decidiu pagar as viagens, o alojamento e os equipamentos de todas as seleções presentes. Com tanto esforço, não espanta que a própria prova também seja conhecida por Martini Rossi Cup.

 

Mexicanos responderam em peso

 

Se a final da prova em 1970 tinha sido um sucesso, com 40 mil pessoas em Turim a verem a Dinamarca bater a Itália por 2-0, o jogo inaugural em 1971 superou desde logo as expectativas.

 

No Estádio Azteca, a 15 de agosto, 80 mil adeptos viram o México derrotar a Argentina por 3-1. As inglesas, na sua maioria a viverem os primeiros anos da adolescência, ficaram assoberbadas com aquela realidade.

 

«Era um mundo diferente. Parecia que tinha sido transportada para Nárnia», recordou Chris Lockwood. «Não sabíamos o que esperar. Só tínhamos feito um pequeno torneio de qualificação na Sicília em campos sem bancadas, era a isso que estávamos habituadas. De repente, fomos empurradas para o meio daquela euforia», acrescentou.

 

A imprensa britânica abraçou a ideia e não perdeu tempo até começar a comparar Leah Caleb, uma jogadora de apenas 13 anos, a George Best. Se dentro de campo as jogadores conseguiam fazer as delícias dos espetadores, fora dele eram acolhidas como se de heroínas se tratassem. «Não trocaríamos aquela experiência por nada», assumiu Caleb. «Tivemos a oportunidade de jogar no mesmo relvado que Pelé e o público mexicano acolheu-nos verdadeiramente», continuou.

 

Um caso Saltillo premonitório?

Comitiva mexicana em 1971

México e Dinamarca protagonizaram o emparelhamento perfeito para a final. De um lado, o anfitrião, impulsionado pelos espetadores e garantia essencial do sucesso da prova. Do outro, a campeã em título a dar os primeiros passos para uma sensação de hegemonia dos países nórdicos.

 

Mas, em vésperas do jogo, a seleção mexicana decidiu fazer render a força que tinha e pressionou a federação para que pudesse receber uma compensação financeira: dois milhões de pesos. Apercebendo-se do sucesso que a prova estava a ter e cansadas de estarem a jogar sem qualquer prémio, as jogadoras usaram a sua carta.

 

O comité organizador envolveu-se no braço-de-ferro e não cedeu. Não haver uma final seria um rude golpe no torneio mas alternativas não faltavam: arranjar outra equipa de jogadoras mexicanas, fazer uma seleção do resto do mundo com jogadoras das outras seleções presentes, organizar um espetáculo diferente ou, simplesmente, devolver o dinheiro dos bilhetes.

 

Não foi preciso tomar medidas. A seleção do México apercebeu-se que tinha adquirido uma responsabilidade especial na promoção do futebol feminino durante a prova e recuou nas exigências: «O aplauso do público vale mais do que dois milhões de pesos».

 

A final, porém, foi um desastre, apesar dos 110 mil adeptos nas bancadas do Azteca. As jogadoras mexicanas entraram numa espiral de erros infantis e acabaram derrotadas por 3-0, com uma dinamarquesa de 15 anos, Susanne Augustesen, a brilhar com um hat-trick.

 

Augustesen acabou por ter uma carreira brilhante, sobretudo em Itália, com mais de 600 golos em jogos oficiais. Mas ali, no México, não passava de uma adolescente que tinha precisado da autorização dos pais para poder viajar com a seleção.

França-Holanda. O primeiro jogo internacional reconhecido

Seleção francesa a caminho do México

Não teve honras de capital, muito menos de cidade importante. Aliás, por pouco quase não era em França. Hazebrouck, a cidade que acolheu o França-Holanda a 17 de abril de 1971, está na ponta norte do país, praticamente em cima da fronteira com a Bélgica, e entrou para a história quase sem saber como.

 

Calhou ter sido escolhida para organizar aquele jogo, não havia nenhuma ocasião específica aparente. Sim, era um jogo de futebol feminino mas não tinha havido uma enorme preparação ou uma grande carga mediática. Nem sequer seria o primeiro jogo da seleção francesa. Porém, anos mais tarde, a FIFA começou a fazer um histórico de todos os encontros disputados no feminino e foi este que acabou por ser o primeiro a ser reconhecido pela própria Federação Francesa de Futebol.

 

De pouco valeu que a França já tivesse disputado vários jogos com a Holanda nos anos anteriores, um com a Inglaterra em 1969 e dois com a Itália, em 1969 e 1970. O que ficou para a história, oficialmente, é que o primeiro jogo na história, reconhecido, entre seleções femininas foi disputado na tal cidade francesa chamada Hazebrouck a 17 de abril de 1971.

 

Este caráter inédito ajuda a criar outros factos pioneiros: a primeira equipa francesa foi composta por Régine Pourveux, Marie-Bernadette Thomas, Nicole Mangas, Colette Guyard, Betty Goret, Marie-Christine Tschopp, Jocelyne Ratignier, Michèle Monier, Jocelyne Henry, Claudine Dié, Maryse Lesieur, Nadine Juillard, Marie-Claire Harant, Ghislaine Royer e Marie-Louise Butzig; o primeiro hat-trick foi marcado por Jocelyne Ratignier. E o último golo por Marie-Claire Harant.

 

Futebol em franca expansão

 

«Toda aquela fase foi um sonho tornado realidade. Foi um paraíso», garantiu Marie-Louise Butzig, recordando o feito em declarações à FIFA.

 

O futebol feminino estava a soltar-se das amarras do preconceito. Não muito tempo antes, a France Football tinha veiculado uma mensagem de que o futebol era um desporto exclusivamente de homens. «Todas as iniciativas organizadas para que haja futebol feminino estão destinadas ao fracasso», escrevia, mostrando uma clara ignorância do que seria o futuro.

 

Quando a França defrontou a Holanda naquele abril de 1971, já havia mais de duas mil atletas registadas na federação, num total superior a 750 mil praticantes. O número continuava a ser residual, é certo, mas estava em franca expansão e capaz de resistir às críticas conservadoras.

 

«Ouvíamos muitos comentários desagradáveis na altura. Onde trabalhava, diziam-me que devia estar a emparelhar meias em vez de ir jogar futebol», admitiu Butzig, referindo que depois, lentamente, as coisas começaram a melhorar: «Cheguei a ver um jogo feminino com 1100 pessoas na minha terra, quando os jogos dos homens nunca conseguiam passar dos 150».

 

Outra pioneira francesa, Ghislaine Royer-Souef, explicou ao organismo mundial que nem na própria família tinha descanso. «Comecei a ir com os meus irmãos quando eles iam jogar futebol mas eu não passava de apanha-bolas. Com o tempo, comecei a misturar-me. Não era fácil jogar sendo rapariga, tínhamos de ouvir muita coisa desagradável, mas isso só demonstrava a nossa inteligência, ao conseguir ignorar e continuar no nosso caminho. Estávamos a perseguir a nossa paixão, isso é que era importante», afirmou.

 

Jogo valeu apuramento para Mundial não-oficial

 

A vitória em Hazebrouck contra a Holanda, perante 1500 pessoas e numa tarde de intenso frio, foi mais do que apenas um jogo. E mais do que o primeiro encontro internacional reconhecido na história. Depois do triunfo, o selecionador Pierre Geoffroy revelou que o triunfo tinha garantido um lugar no Mundial não-oficial do México, que ia ser disputado uns meses depois.

 

«Ele não nos tinha dito nada antes do jogo», relembrou Colette Guyard. «O regresso a casa de autocarro foi eufórico, estávamos muito mais animadas. Celebrámos e bebemos, estávamos todas um pouco tocadas!».

 

Pierre Geoffroy foi mais do que o selecionador daquela equipa. Foi um verdadeiro impulsionador do futebol feminino em França e um pouco por toda a Europa. Jornalista, escrevia em publicações como a France Football, e não perdia uma oportunidade para promover a modalidade.

 

Era um visionário e desempenhou um papel fulcral no crescimento das próprias jogadoras dentro e fora de campo. Geoffroy era também o líder do Stade de Reims, equipa que mais alimentava a seleção, e garantia que os tempos livres eram momentos de evolução e crescimento.

 

A presença no México foi uma memória que as jogadoras nunca esquecerão. Menos de um ano depois de Pelé ter levantado a Taça Jules Rimet pela última vez, mulheres de todo o mundo juntaram-se numa competição que ia estar na base das futuras competições. A França terminou na terceira posição e chegou a jogar no Estádio Azteca perante 60 mil pessoas.

O regresso do futebol feminino a Inglaterra

Futebol feminino em Inglaterra em 1970

«Complaints having been made as to football being played by women, the Council feel impelled to express their strong opinion that the game of football is quite unsuitable for females and ought not to be encouraged.

 

Complaints have also been made as to the conditions under which some of these matches have been arranged and played, and the appropriation of receipts to other than charitable objects.

 

The Council are further of the opinion that an excessive proportion of the receipts are absorbed in expenses and an inadequate percentage devoted to charitable objects.

 

For these reasons the Council request clubs belonging to the association to refuse the use of their grounds for such matches.»

 

Um texto não são textos por isso desta vez optámos por deixar a versão original. Foi desta forma que, a 5 de dezembro de 1921, a Federação Inglesa de Futebol (FA) decidiu proibir o futebol feminino no país.

 

Os jogos de equipas como a Dick, Kerr estavam em claro ascendente, com milhares de adeptos nas bancadas, mas a decisão matou o crescimento do futebol feminino inglês. Algumas equipas resistiram e continuaram a jogar, especialmente em digressões, mas deixou de haver capacidade para criar uma verdadeira onda de interesse que permitisse continuar a apelar às crianças e garantisse a renovação das praticantes década após década.

 

Um pouco por todo o lado começaram a aparecer especialistas a validar a decisão. «O futebol é um desporto demasiado físico para a estrutura física de uma mulher», disse uma médica. Um tenista daquela época, Eustace Miles, foi mais longe e disse que «o pontapé é um movimento demasiado brusco para ser feito por uma mulher.   

 

Por muito que as equipas tenham querido resistir, a falta de oportunidades fez com que definhassem, uma após a outra. A mítica equipa de Dick, Kerr, entretanto renomeada Preston Ladies, não foi exceção e decidiu pôr um ponto final em 1965, quando não era mais do que um espelho do que fora outrora e sem capacidade para olhar para um futuro diferente.

 

Mundial foi um ponto de partida

Rainha Isabel II entregou o troféu a Bobby Moore

O título de Inglaterra em 1966, a jogar em Wembley, abriu portas para o futebol no Reino Unido que há muito estavam fechadas. A logística e as infraestruturas começaram a ser outras, havia mais interesse e possibilidade de encontrar campos alternativos aos dos membros da FA, e em 1969 foi criada a Federação de Futebol Feminino.

 

O novo organismo garantiu que acompanhava as tendências que se iam verificando um pouco por todo o mundo e, dois anos depois, a Federação Inglesa de Futebol percebeu que não fazia sentido continuar a prolongar o ridículo da decisão de 1921, especialmente depois de pressionada pela UEFA. Por isso, no ano do cinquentenário da medida, os responsáveis levantaram a suspensão e permitiram aos seus associados voltar a organizar jogos de mulheres.

 

O atraso foi fatal. De país na vanguarda do futebol feminino, a Inglaterra tornou-se num cavalo atrás do prejuízo. O sucesso que a equipa de Lily Parr e companhia alcançou após a Grande Guerra nunca foi replicado e as seleções não mais conseguiram voltar a ombrear contra as melhores equipas da Europa.

 

Hoje, praticamente 100 anos depois da proibição inicial, a Inglaterra continua a recuperar terreno. Há cerca de um ano chegou a ocupar o segundo lugar do ranking da FIFA e em 2015 conseguiu a melhor participação na fase final de um Mundial: terceiro lugar. Nos Europeus da era moderna, excluindo a edição inaugural de 1984, já foi a uma final (2009) e marcou presença em três meias-finais (1987, 1995 e 2017).

Quando as mulheres foram banidas do futebol em Inglaterra

Futebol feminino ganhava força por todo o país

O que começou por ser visto como engraçado e necessário para angariar dinheiro durante a Grande Guerra tornou-se rapidamente num fenómeno incontrolável sem precedentes. A equipa Dick, Kerr era a mais famosa de Inglaterra, chegando a atrair mais de 50 mil espetadores no Boxing Day de 1920, mas não passava da ponta do icebergue.

 

Por toda a Inglaterra, o futebol feminino ganhava forma, fãs e domínio próprio. Em 1921, a guerra já tinha acabado há três anos, as provas de futebol masculino estavam de regresso e a dinâmica imposta pelas mulheres era sentida mais como uma ameaça do que algo complementar.

 

A Federação Inglesa de Futebol (FA) sentiu o novo paradigma e, pressionada por vários quadrantes, precipitou-se numa decisão que arrasou o crescimento da modalidade nas ilhas britânicas. Com o fim da guerra, entenderam que já não havia motivo lógico para que mulheres continuassem a praticar um desporto que se via como masculino. Por isso, a 5 de dezembro, a direção decidiu banir qualquer prática de futebol feminino nos estádios.

 

A decisão era inexplicável e a tentativa de apresentar motivos caiu no ridículo. O futebol era visto como «assaz desadequado para mulheres» e era uma prática que não devia ser encorajada. Para validar o ponto de vista, a federação reuniu depoimentos de vários médicos que garantiam que a prática de futebol constituía um risco físico sério para as mulheres.

 

O cerne da questão era outro. Era o dinheiro. Afinal de contas, é sempre o dinheiro. No primeiro grande jogo de futebol feminino, no Natal de 1917, o objetivo foi angariar verbas para o apoio aos militares feridos em combate. E assim continuou a ser durante muito tempo. Com o passar dos anos, a guerra deixou de estar em causa mas o caráter de beneficência dos jogos de futebol feminino nunca se perdeu.

 

Futebol feminino era um desafio ao poder instalado

Dick, Kerr era a equipa mais mediática

Não nos podemos esquecer de que as equipas eram constituídas por trabalhadoras de fábricas. O espírito corporativista estava assente e, sem um destino claro para dar ao dinheiro, as equipas começaram a jogar para reunir fundos para apoiar grevistas, sobretudo mineiros. Este desafio ao poder instalado gerou controvérsia e foi um motivo forte para pressionar a Federação Inglesa a tomar uma decisão.

 

«Uma proporção excessiva das receitas de bilheteira está dominada por despesas e uma percentagem desadequada é dirigida para fins de caridade», disseram. O destino do dinheiro era uma dupla afronta: não só ajudava a combater o poder patronal como retirava receita à própria federação.

 

 A decisão foi automaticamente contestada pelas equipas prejudicadas mas não havia recurso possível. A Federação Inglesa foi acusada de estar «cem anos atrasada no tempo» e de estar a tomar uma decisão «puramente por preconceito sexista».

 

O futuro tinha acabado de ficar mais negro mas o impedimento não era total. O futebol feminino não era um crime, só não podia estar sob a alçada da Federação Inglesa nem utilizar os campos dos seus membros. Estas condições acabavam por ser um rude golpe a nível organizacional: havia pequenos campos onde podiam jogar, com fins recreativos, mas a possibilidade de reunir dezenas de milhares de espetadores ficava restrita às digressões.

 

Foi isso que aconteceu. As equipas mais famosas saíram da ilha e promoveram digressões na América e na Europa continental, provando o seu valor, mas percebendo que tinham os pés atados e não havia margem para evoluir a nível doméstico. O futebol feminino nacional tinha sido morto pouco tempo depois de nascer e seriam necessárias décadas para que pudesse reaparecer.

Um Goodison Park a abarrotar para ver um jogo feminino em 1920

Dick, Kerr em 1917

Esta é a história de uma equipa de mulheres que foi criada durante a guerra. A debandada dos homens para combater tinha criado um vazio na competição que foi ocupado por equipas femininas. A curiosidade para ver o mesmo desporto praticado por mulheres foi imediata mas foi a qualidade das suas intérpretes que fez a diferença para tornar os jogos tão populares.

 

Estão a pensar em basebol e nos Estados Unidos? Sim, o filme com Tom Hanks, Madonna e Tea Leoni, entre outros, é famoso mas esta história não é da II Guerra, é da Grande Guerra. E não envolve basebol, mas sim futebol. E, por último, foi em Inglaterra e não nos Estados Unidos.

 

Esta é a história de uma equipa chamada Dick, Kerr, batizada de acordo com a fábrica de produção de material ferroviária com sede em Preston. Com o escalar da guerra, as prioridades da empresa passaram a ser o fabrico de munições e, sem surpresa, a esmagadora maioria dos empregados eram mulheres.

 

A pressão para produzir tanto quanto possível tornava o trabalho mais stressante e a prática desportiva era incentivada nos intervalos. Foi assim que um dia, em 1917, a observar de uma janela, o administrador de escritório Alfred Frankland viu uma pequena partida e teve uma ideia: formar uma equipa feminina de futebol.

 

O objetivo era claro: angariar dinheiro para ajudar os militares feridos em combate. As competições de futebol masculino estavam suspensas desde o final da temporada 1914/15 e os ingleses ansiavam por ver qualquer coisa. Havia procura, havia oferta. O sucesso foi um desfecho natural.

 

O primeiro jogo, no Natal de 1917, opôs a equipa de Dick, Kerr (os apelidos dos dois fundadores da empresa) à da empresa Arundel Coulthard Foundru. A ideia não era nova: um ano antes, na Páscoa, tinha havido um jogo de homens com a mesma finalidade. Agora, a nova nuance captou ainda mais a atenção e ajudou a angariar mais de 600 libras para um hospital.

 

O sucesso contundente foi o rastilho perfeito para a explosão de uma equipa que era quase tão famosa como os Beatles vieram a ser. A organização de jogos tornou-se uma prioridade para Frankland, autopromovido a treinador e que exigia três coisas fulcrais: sentido de decoro, pontualidade e… chuteiras sempre limpas.

 

A tradição tem muita força

Dick, Kerr antes de mais um jogo

É curioso perceber que esta equipa feminina teve origem em Preston e jogava no terreno do Preston North End, primeiro campeão na história do futebol inglês (1889). O domínio nas ilhas britânicas era esmagador. A equipa vencia confortavelmente e ganhou um estatuto de sensação difícil de contrariar.

 

O interesse para a organização de jogos era crescente. A vontade de estar nas bancadas a ver crescia de semana para semana, perante as notícias da supremacia exercida e da capacidade de estas mulheres fazerem esquecer o futebol masculino.

 

O Reino Unido tornou-se demasiado pequeno. A Dick, Kerr não só recebeu equipas de França como atravessou o Canal da Mancha para uma digressão que incluiu jogos em Paris, Roubaix, Le Havre e Rouen.

 

Nomes como Alice Kell, a capitã, e Lily Parr, goleadora letal, começaram a ganhar um estatuto acima de todos os outros. A segunda, recrutada à equipa de St Helens Ladies, marcou 43 golos logo na primeira temporada (1919) e chegou ao final da carreira com mais de 900.

 

Um ano inesquecível

Lily Parr foi a maior estrela da equipa

O sucesso de Dick, Kerr não deixava margem para dúvida e 1920 foi a maior prova disso. Em maio, jogaram com uma equipa que representava França perante 25 mil pessoas. E venceram, claro.

 

Mas o momento mais especial estava guardado para o Boxing Day. Tradição é tradição e a quadra natalícia não podia deixar de ter um jogo da equipa mais famosa de Inglaterra. Por isso, em Liverpool, na terra dos Beatles, o grupo deu mais um salto para a imortalidade na partida com as St Helens Ladies.

 

O Goodison Park, estádio do Everton, encheu e 53 mil adeptos viram a goleada por 4-0, com três golos de Alice Kell na segunda parte. O interesse foi tão grande que os registos da época garantem que pelo menos dez mil pessoas foram obrigadas a voltar para trás por já não haver espaço nas bancadas.

 

A dimensão do futebol feminino tinha ganhado vida própria e nem o fim da guerra e o regresso das competições masculinas tinham retirado fulgor a este sucesso. Basta ver que a final da FA Cup desse ano, entre Aston Villa e Huddersfield, teve menos três mil espetadores e sem problemas de lotação.

 

O jogo entrou na história e durante décadas continuou a ser a partida de futebol feminino com mais espetadores. O mais importante continuava a ser a angariação de dinheiro e nessa tarde foram conseguidas mais de três mil libras. No total, até 1921, angariaram 70 mil libras, o equivalente a mais de três milhões atualmente.

 

A equipa via-se como «campeã do mundo», e com razão. Numa das digressões, aos Estados Unidos, até jogos contra equipas masculinas venceram. O sucesso incomodou e havia homens que não se conformavam perante a qualidade do plantel.

 

Por isso, um dia, Lily Parr, que marcou mais de 100 golos em 1921, aceitou marcar um penálti a um homem que estava convencido que ela não seria capaz de lhe fazer um golo. Resultado: não só marcou como, pelo caminho, partiu um braço ao desafiador.

 

O balanço final da equipa, que durou até à década de 60, é esclarecedor: 828 jogos, 758 vitórias, 46 empates e 24 derrotas.

O futebol feminino está em todo o lado

Futebol feminino tem cada vez mais impacto

Faltam 51 dias para o arranque do Mundial-2019, em França, e decidi fazer um especial que ajude a perceber a evolução do futebol feminino desde o início do século passado. Lancei-me nesta aventura em janeiro, pouco tempo depois de ouvir o episódio de podcast do Matraquilhos sobre o tema e nos dois meses seguintes percorri, dentro do tempo disponível, toda a informação que consegui.

 

Durante dezenas de horas, percebi que o futebol feminino está em todo o lado. Que, ao contrário do que se pode pensar, é um fenómeno que antecede, em largas décadas, o primeiro Mundial da FIFA, organizado em 1991, e que só não atingiu uma escala ainda maior muito mais cedo porque foi morto à nascença em Inglaterra, quando ameaçava incomodar a versão masculina do pós-guerra.

 

A pesquisa resultou em 50 histórias para todos os gostos – uma por dia até ao arranque da fase final. O grosso do trabalho reflete o que se passou nas edições desde 1991 mas decidi procurar mais um bocado pelas verdadeiras raízes. Do dia em que o Goodison Park se encheu para ver um jogo de futebol feminino na década de 20 à proibição da prática desportiva em Inglaterra, passando por batalhas legais, primeiros jogos internacionais e momentos que definiram a modalidade como é vista hoje.

 

De 1991 a 2015, entendi também como a compreensão do futebol feminino foi mudando. Recordei momentos históricos, descobri outros que me deixaram boquiabertos, de tão incríveis ou insólitos, e confirmei como, infelizmente, o futebol feminino foi demasiadas vezes usado como um veículo mediático, fosse quando a italiana Carolina Morace foi nomeada treinadora de uma equipa profissional ou quando Birgit Prinz esteve em negociações com uma equipa... italiana. Em qualquer um dos casos, o homem por trás da ideia era o mesmo. O tal que também contratou Nakata para o Perugia e despediu o sul-coreano que eliminou a Itália no Mundial-2002.

Birgit Prinz esteve em negociações com o Perugia

À medida que me deixava entranhar pelo futebol feminino, percebi ainda que ele sempre estivera na minha vida. Por muito que as memórias nunca tivessem estado reunidas no mesmo saco, o futebol praticado por raparigas e mulheres sempre me rodeou, da escola primária à vida adulta. Para cada um desses momentos, há também sempre um nome-chave.

 

A primeira foi a Diana, na escola primária. Durante quatro anos, só houve futebol numa aula de Educação Física uma única vez. Nós, rapazes, depois de tanta insistência, delirámos. Mas não ficámos satisfeitos por aí além quando a professora disse que a condição era toda a gente jogar, incluindo raparigas. Lembro-me do estado de desânimo tão bem como do resultado final: 2-2. O mais curioso: os dois golos da minha equipa foram marcados pela Diana.

 

Com o início do Ensino Básico chegou a Vânia. A Vânia era aquilo que muitos na altura chamavam Maria-Rapaz, como se não fosse permitido a uma rapariga gostar de futebol enquanto tal, uma rapariga que gosta de futebol. Na altura – e hoje ainda há sinais disso – achava-se que era apenas uma rapariga com gostos de rapazes. Pois, mas a Vânia não se importava com isso. Era da minha turma e jogava bem o suficiente para fazer parte da equipa. Jogava na frente do ataque.

 

O Ensino Secundário trouxe a Marta e, com ela, o primeiro verdadeiro contacto com raparigas que jogavam futebol (futsal, neste caso) federado. A escola tinha, pelo menos (agora que penso nisso), quatro raparigas com muita qualidade. Além da Marta, havia outra Marta (uma excelente guarda-redes), uma Teresa e uma Sara (possivelmente a melhor das quatro). Num dos três anos, decidimos juntar-nos e fazer uma equipa para o torneio da escola. Éramos apenas dois rapazes na equipa, para espanto de muita gente, mas não nos saímos mal. Por esta altura, em 2002, já o futebol feminino começava a ter cada vez mais influência.

 

No último ano do secundário fui para os juniores do 1.º Dezembro e o contacto com o futebol feminino tornou-se ainda mais intenso. Foi no período de maior hegemonia do clube de Sintra no campeonato nacional e, apesar de tudo, as nossas experiências nem foram as melhores. Afinal de contas, havia apenas um campo e os horários dos nossos treinos entravam em conflito muita vez. Eram os tempos das Carlas: a Couto no ataque e a Cristina na baliza.

 

A partir daí, há a Mariana. Jogou no 1.º Dezembro, é treinadora no Sporting e já serviu de intermediária em jogos organizados contra as equipas dela. O último foi em janeiro de 2018, curiosamente na última vez que joguei futebol.

Dérbi de Lisboa no Restelo foi um sucesso

Com ou sem Dianas, Vânias, Martas, Carlas ou Marianas, Portugal respeita muito mais o futebol feminino do que no passado. Chegámos lá mais tarde do que grande parte do resto do mundo mas é impossível ignorar o progresso. Equipas como Boavista, Trajouce e 1.º Dezembro, que dominaram no passado, foram obrigadas a lutar sempre contra o estigma e contra a falta de atenção mediática. Hoje, primeiro com Sporting e Sp. Braga e mais recentemente com o Benfica, o futebol feminino deixou de ser uma coisa de marias-rapazes, muitas vezes associadas a estereótipos e preconceitos, e é cada vez mais reconhecido e respeitado. Com todo o mérito.

 

O futebol feminino está em todo o lado – como sempre esteve, apesar de tudo – por mérito próprio. Terá sempre características diferentes do futebol masculino, mas o futebol do Barcelona e o do Boavista de Pacheco também serão sempre diferentes. É futebol. E, como poderão ler nas 50 histórias dos próximos 50 dias, é igualmente capaz de produzir histórias memoráveis. É desporto. E só isso interessa.

Ipswich Town. A queda no abismo… 62 anos depois

Ipswich selou despromoção a quatro jornadas do fim

Faltam quatro jornadas no Championship mas o destino está selado. A equipa que venceu uma Taça das Taças e chegou a ser campeã inglesa vai jogar no terceiro escalão pela primeira vez desde 1957. Como um mal nunca vem só, o grande rival Norwich está prestes a celebrar a subida à Premier League.

 

Era o segredo mais mal escondido do Championship. Há muito que se percebera que o futuro do Ipswich Town era sombrio mas foi preciso esperar por este fim-de-semana para carimbar o que toda a gente já percebera: a descida de divisão. Com apenas 28 pontos em 42 jogos, a equipa não se conseguiu manter no segundo escalão inglês e vai dar mais um passo atrás na sua história.

 

A glória do clube que um dia viu Bobby Robson fazer a diferença no futebol europeu parece cada vez mais um momento de arquivo. Campeão do segundo escalão em 1992, o Ipswish estará para sempre na história como um dos clubes que participou na edição inaugural da Premier League (1992/1993).

 

O sucesso na era moderna nunca passou de um fogacho. No total, não conseguiu mais do que cinco participações na Premier League – as três primeiras e duas no início do novo século – e só por uma vez não andou com o credo na boca: quando terminou na quinta posição em 2001 e garantiu o apuramento para a Taça UEFA.

 

A temporada devia ter sido de festa: era a primeira participação nas competições europeias desde 1983. Mas o clube mergulhou na crise e, apesar de ter atingido a terceira ronda da Taça UEFA (eliminado pelo Inter Milan depois de ultrapassar Torpedo Moscovo e Helsingborg), desceu de divisão, entrando em insolvência.

 

O fair-play valeu, ainda assim, o regresso às competições europeias no ano seguinte. Apesar de jogar no segundo escalão inglês, o clube voltou a defender a sua honra no continente. Depois de eliminar, sem dificuldades, o Avenir Beggen do Luxemburgo na pré-eliminatória e o Sartid Smeredevo da Sérvia na primeira ronda, foi travado pelo Slovan Liberec nos penáltis.

 

A memória de um tempo brilhante

Roger Osborne marcou golo memorável em Wembley

Jogar no terceiro escalão é um passo que os adeptos preferiam evitar. Ninguém gosta de descer de divisão, ninguém gosta de ficar cada vez mais longe da elite, sobretudo quando a queda de estatuto é também uma perda de reputação, por muito que o clube tenha um passado com tempos brilhantes.

 

É preciso recuar até 1957 para encontrar a última vez que o Ipswich Town fez parte do terceiro escalão do futebol inglês. Mas aí, ao contrário de hoje, os sinais eram promissores. O clube venceu a sua divisão e deu o primeiro passo para uma história bonita. No início da década seguinte, chegou à elite, depois de ser campeão em 1961, e entrou de forma determinada no mais alto escalão, conquistando o seu primeiro e único título inglês.

 

É legítimo dizer que o Ipswich Town teve direito a uma grande fase por cada década da segunda metade do século XX. Se nos anos 60 foi campeão inglês e garantiu a estreia nas competições europeias (foi eliminado na primeira ronda da Taça dos Campeões pelo futuro campeão Milan), na década de 70 conseguiu também o primeiro e único título na Taça de Inglaterra.

 

Estávamos em 1977/1978 e Bobby Robson já era o treinador da equipa há praticamente dez anos. O clube tinha consolidado a sua presença no primeiro escalão – ininterrupta desde 1968 – e chegara pela primeira vez à final de Wembley. Do outro lado estava o Arsenal de Pat Jennings, David O’Leary, Liam Brady e Frank Stapleton. Com 100 mil nas bancadas, o Ipswich foi mais forte e venceu por 1-0, graças a um golo de Roger Osborne aos 77 minutos. O momento deixou uma marca tão forte no herói que obrigou à sua substituição no minuto seguinte, já depois de ter desmaiado.

 

Glória europeia pela mão de Robson

Plantel do Ipswich Town em 1980/1981

A estreia na Taça dos Campeões em 1962 não tinha sido auspiciosa, apesar da fatalidade de ter defrontado logo o futuro campeão. Mas a história europeia do Ipswich não estava destinada a eliminações precoces. Em 1974, já com Robson ao comando, o clube deu um primeiro sinal ao atingir os quartos da Taça UEFA (eliminado pelo Lokomotiv Leipzig), mas ninguém poderia acreditar no que se viria a passar em 1981.

 

É certo que o Ipswich não foi campeão inglês, como em 1962, mas é legítimo acreditar que 1980/1981 foi a melhor temporada na história do clube inglês, mesmo que a perda do título para o Aston Villa, equipa que fez menos 20 jogos durante toda a temporada, tenha deixado um sabor amargo. A nível doméstico, conseguiu o segundo lugar no campeonato, viu o grande rival Norwich descer de divisão e atingiu a meia-final da Taça de Inglaterra. Fora de portas, só parou depois de erguer a Taça UEFA.

 

O percurso foi dominador. A 17 de setembro de 1980, com o português António Garrido a arbitrar, a equipa goleou o Aris por 5-1 (John Wark fez um póquer) e abriu caminho para uma campanha sensacional. Depois do 6-4 no acumulado contra os gregos de Salónica, o Ipswich afastou o Bohemians de Praga onde jogava o famoso Panenka (3-2), o Widzew Lodz (5-1), o Saint-Étienne de Platini e Rep (7-2) e o Colónia (2-0) até chegar à final com os holandeses do AZ Alkmaar.

 

A competição disputava-se sempre as duas mãos e o Ipswich de Robson tinha vindo a demonstrar uma superioridade magnífica a jogar em casa, com cinco vitórias, 17 golos marcados e apenas dois sofridos. E John Wark era um autêntico sinónimo de golo, com 12 festejos até à final de maio.

 

As duas imagens de marca fizeram a diferença numa final que se decidiu praticamente nos pormenores (5-4 para os ingleses no acumulado). O Ipswich foi dominador em casa (3-0) e John Wark somou mais dois golos (um em Inglaterra, outro na Holanda) para a sua incrível contabilidade de 14 golos na competição.

 

Hoje, estes grandes momentos não são mais do que capítulos nas memórias gloriosas de um clube. A saída de Bobby Robson para a seleção inglesa, em 1982, depois de um novo segundo lugar no campeonato, ajudou a precipitar o fim de uma geração de ouro e o clube não mais voltou a ser o mesmo.

 

O dono, Marcus Evans, pediu desculpa aos adeptos pelos erros cometidos e prometeu que o futuro será brilhante: «Pode parecer estranho dizer isto mas não somos um clube em crise. Voltámos a desenvolver os nossos laços com a comunidade e estamos financeiramente estáveis». De que valerá na próxima época?

Tiger Woods. A redenção de um homem cheio de falhas

Tiger Woods

É o momento desportivo do fim-de-semana, do mês e, muito provavelmente, do ano. O regresso aos triunfos num major do homem que em tempos dominou o golfe mundial e que aprendeu a jogar muito antes de saber ler é uma história desportiva de sonho. E são as imperfeições do homem que tornam o enredo desportivo tão bom.


O significado do triunfo no Masters de Augusta, o quinto da sua carreira, ultrapassa qualquer imagem que tenha sido vista no domingo, enquanto o norte-americano seguia a toda a velocidade rumo ao título, num misto de qualidade e azar dos adversários. Mas há uma que ficou na retina. Quando, depois de fazer o putt que garantiu o triunfo no 18.º buraco, Tiger abraçou o filho Charlie, de dez anos, estava também a libertar-se do período mais negro da sua vida.


Há um Tiger Woods antes e um Tiger Woods depois de 2009. O golfista não vencia em Augusta desde 2005 e não conquistava um major desde 2008, mas só em 2009 é que se percebeu que o homem tinha uma capa de super-herói com mais buracos de que um campo de golfe.

 

Charlie nasceu em fevereiro e ainda nem percebia o mundo como ele era quando a imagem de Tiger Woods foi arrastada pela lama nos últimos meses do ano. Começou por uma primeira notícia de infidelidade e acabou com um estudo a garantir que a imagem do golfista tinha piorado tanto que as perdas estimadas em patrocinadores superavam os cinco mil milhões de dólares, e podiam atingir os 12 mil milhões.


De especialista nos greens, Tiger transformou-se em especialista na arte de pedir desculpa. Dia após dia, o número de mulheres a confessar que tinham tido um caso com o atleta aumentava de forma descontrolada. Tiger pediu desculpa à mulher, pediu desculpa aos amigos, pediu desculpa aos fãs. E explicou que, depois de ter sacrificado tanta coisa para chegar ao nível que chegou, julgava (erradamente) que tinha direito a cometer todos as indiscrições que conseguisse… como se fosse merecedor de capitalizar uma alma corrompida.


O corpo vacilou e cedeu meses depois da destruição da alma. Mais do que nunca, Tiger Woods era visto como um homem vulgar, igual aos outros golfistas, que procurava vencer um major sem conseguir demonstrar o fator-x que sempre o tinha acompanhado desde tenra idade.


As queixas físicas subiram de tom. Resistiu enquanto pôde mas os sintomas nas costas tornaram-se impossíveis de ignorar. Durante alguns anos continuou a jogar – e em 2013 até teve uma época bastante satisfatória – mas, quando falhou três cuts consecutivos em majors em 2015, sentiu-se que o fim estava ao virar da esquina.


O mundo deixou de acreditar em Tiger Woods… e com razão. O seu swing tinha ficado irreconhecível. As vantagens de outrora transformaram-se em fraquezas. As lesões assumiam uma predominância sobre o bem-estar de Tiger Woods tão grande que o próprio sentiu que o final da carreira podia ser inevitável.


Durante dois anos, o golfista nem sequer pisou um green de um major. E, de cada vez que jogava, especialistas de todo o mundo juntavam-se para analisar a linguagem corporal de Tiger Woods. Acabado, diziam uns. Nunca mais voltará a ser o mesmo, retorquiam outros. Mas, a pouco e pouco, já após a intervenção cirúrgica que fundiu duas vértebras, Tiger começou a mostrar sinais promissores. Não para exercer o domínio de antigamente, mas para conseguir lutar por um major e, quem sabe, voltar a vencer.

Tiger Woods com o filho Charlie

O segundo lugar no PGA Championship em 2018 serviu de aperitivo ao Masters de Augusta deste fim-de-semana. Aos 43 anos, com um filho de dez anos que não tinha estado por dentro de nenhum dos seus grandes momentos, Tiger viajou para a Geórgia e fez o que muitos chegaram a pensar impensável.


Tiger ganhou. E, com ele, ganhou o golfe. E o desporto. Tiger Woods é uma das histórias desportivas do ano, mesmo que ainda não tenhamos chegado ao fim de abril. E será, claramente, uma das histórias mais importantes do desporto. Não podemos falar de um homem merecedor que resistiu a todas as adversidades para regressar ao topo da montanha. Não, a história de Tiger não se resume a isso. A história de Tiger é sobretudo a história de um homem vulgar, de um homem de excessos elevado a herói, que traiu a mulher de todas as formas que conseguiu, aproveitando a sua posição de destaque (foi o próprio a assumi-lo na altura).

 

É a história de um homem que foi encontrado a dormir ao volante na berma de uma estrada depois de juntar álcool a medicamentos. É a história de um homem que esteve perdido… e soube reencontrar o seu caminho. O triunfo de Tiger Woods é uma vitória das segundas oportunidades. É uma redenção de um corpo que chegou a parecer irremediavelmente irrecuperável e de uma alma que se chegou a dar por vencida perante os caprichos e tentações do mundo exterior.

 

Hoje, praticamente dez anos depois, do princípio do fim, Tiger Woods tem o mérito de ter conseguido construir um novo começo. Está a viver uma nova vida e, tal como na primeira, chegou ao topo da montanha e saboreou a glória. Tiger Woods tornou-se ainda mais especial. Não por ser um super-herói com um prazo de validade ilimitado mas por ser um homem vulgar… capaz de fazer coisas extraordinárias.

 

As hegemonias no desporto têm sempre os dias contados – e há quem não as suporte – mas são poucos os que conseguem resistir a este tipo de redenções. Uma espécie de regresso do rei que foi arrastado pela rua até merecer novamente o entusiasmo da plebe. O público pode nem sempre ter gostado do domínio que Tiger Woods exercia mas dificilmente resiste a um enredo que parece saído de um guião de Hollywood. Ver um homem destes voltar a ganhar um major onze anos depois, e dez anos depois de ter caído numa espiral negativa, é bom demais para conseguir tirar os olhos do ecrã.

F1 900. O nascimento da hegemonia da Mercedes

Uma imagem muitas vezes repetida em 2014

Foi preciso esperar até 2014 para a Mercedes ganhar o primeiro título mundial de uma construtora alemã na Fórmula 1. Equipa de Lewis Hamilton e Nico Rosberg explorou da melhor forma as mudanças radicais na competição, com a introdução de unidades híbridas, e conseguiu, no Bahrain, no 900.º Grande Prémio da história da prova, a segunda de onze dobradinhas durante a época.

 

A temporada de 2014 provocou uma mudança radical no equilíbrio de forças na Fórmula 1. A Red Bull e Sebastian Vettel entraram como tetracampeões mas ninguém duvidava de que o tabuleiro ia estar completamente aberto. Quando o Grande Prémio da Austrália chegou, em março, a incógnita era tão grande que muitos acreditavam que poderia haver um recorde de desistências.

 

No meio da incerteza, a Mercedes emergiu e partiu para o início de uma hegemonia que ainda resiste. A dupla composta por Lewis Hamilton e Nico Rosberg dominou a Fórmula 1 como quis e a escuderia alemã aproveitou para conquistar o primeiro título de Mundial de Construtores da sua história. Para trás, ficavam os domínios britânicos, italiano, francês e austríaco.

 

No Grande Prémio do Bahrain, disputado a 6 de abril, já não havia muitas dúvidas sobre a superioridade alemã. Rosberg tinha vencido na Austrália, Hamilton na Malásia e a não havia o menor indício de que a situação se iria inverter. Era certo que o britânico tinha desistido na prova inaugural, mas os problemas de fiabilidade não seriam mais do que um pequeno grão de areia na engrenagem germânica.

 

O panorama global é esmagador: a Mercedes conquistou 18 pole positions nas 19 corridas da temporada: só falhou na Áustria, para o brasileiro Felipe Massa da Williams. Rosberg e Hamilton dividiram ainda 16 vitórias e 12 voltas mais rápidas.

 

No Bahrain, a dupla conseguiu exercer mais uma prova desta superioridade. Nico Rosberg foi o mais rápido da qualificação – com mais de um segundo de vantagem sobre o piloto que saiu do terceiro lugar da grelha (Valtteri Bottas) – e fez a volta mais rápida do Grande Prémio. Mas a vitória sorriu a Lewis Hamilton, numa corrida muito disputada e com pouco mais de um segundo de vantagem sobre o colega de equipa.

 

A Ferrari estava a anos-luz do seu desempenho, tal como a Red Bull. Mesmo a Williams, que tinha começado bem a temporada, vacilou no Bahrain, e acabou por ser o Force India de Sergio Pérez a garantir o último lugar do pódio.

 

Estavam disputadas apenas três corridas mas os sinais estavam todos lá. Rosberg liderava com 61 pontos, seguido do futuro campeão Lewis Hamilton (50). O melhor não-Mercedes era Nico Hülkenberg, com 28 pontos. Na luta dos construtores, a diferença era ainda mais retumbante: Mercedes disparava com 111 pontos, «seguida» (entre aspas porque não passa de um eufemismo), da Force India, com 44.

 

As dúvidas sobre a futura hegemonia da Mercedes morreram na península arábica. Foi a 900.ª corrida na história do Mundial de Pilotos da Fórmula 1 e marcou, de forma perfeita, a toada para o centenário que termina esta semana na China. Como será a partir de agora: mais do mesmo ou poderá Leclerc dar um novo ânimo à Ferrari? As próximas 100 corridas têm a palavra.

F1 800. Uma corrida de estreias… e a manha da Renault

Fernando Alonso em Singapura

Aquele 28 de setembro de 2008 foi um dia especial. Foi a primeira vez que Singapura organizou um Grande Prémio de Fórmula 1, a primeira vez que a F1 se disputou à noite e a primeira vez na temporada que Fernando Alonso ganhou. No 800.º Grande Prémio da história do Mundial de Pilotos, a manha da Renault tornou-se o acontecimento mais memorável.

 

A temporada de 2008 estava a ser um terror para a Renault. Com 14 corridas disputadas, a dupla da escuderia francesa, composta por Fernando Alonso e Nelson Piquet Jr., tinha muito poucas coisas para olhar com um brilho nos olhos. O espanhol ainda não tinha passado da quarta posição, enquanto o brasileiro, apesar do segundo lugar na Alemanha, somava tantas desistências como corridas terminadas.

 

A luta pelo título de pilotos não passava pela marca francesa e, mesmo a nível de construtores, a Ferrari, a McLaren-Mercedes e a BMW Sauber estavam a anos-luz. Em Singapura, só mesmo algo fora do comum poderia ajudar a mudar o tabuleiro.

 

De facto, o Grande Prémio de Singapura teve pouco de habitual. Foi a primeira vez que o país asiático organizou uma corrida de Fórmula 1 e, pela primeira vez na história do Grande Circo, uma prova iria ser disputada à noite. Seria o suficiente para a tal reviravolta da Renault, Alonso e Piquet Jr.?

 

Os primeiros sinais não foram animadores. Fernando Alonso pode ter sido o piloto mais rápido da segunda sessão de treinos livres mas a qualificação trouxe a Renault de volta à banalidade: Nelson Piquet Jr. foi eliminado na primeira fase (16.º) e um problema de combustível fez com que o espanhol nem sequer conseguisse estabelecer um tempo na Q2 (15.º).

 

A corrida, porém, traria outro brilho às aspirações da Renault. Nelson Piquet Jr. deu um primeiro sinal de descontrolo no carro na volta de aquecimento e, quando se despistou na 14.ª volta, abriu caminho para a vitória de Fernando Alonso. O espanhol tinha sido dos primeiros pilotos a parar e aproveitou a entrada do safety car para ganhar posições. Se lhe juntarmos um lote surreal de problemas nas paragens dos adversários, percebe-se que o destino estava a empurrar o Renault para o melhor resultado da temporada.

O Renault destruído de Nelson Piquet Jr.

A confusão permitiu a Alonso subir para o quinto lugar, atrás de Rosberg, Trulli, Fisichella e Kubica. Mas estava apenas no início. O alemão e o polaco tiveram de cumprir uma penalização de dez segundos por terem reabastecido fora do período permitido e ajudaram Alonso a subir para a terceira posição.

 

Quando Fisichella e Trulli pararam, o caminho para o triunfo de Alonso estava a descoberto. «Estou extremamente feliz por ter conseguido o primeiro pódio e a primeira vitória da época. Vou precisar de alguns dias para cair em mim e perceber que ganhámos uma corrida esta temporada», contou, atribuindo o mérito à estratégia da Renault e a um pouco de sorte.

 

A estratégia da Renault – uma parte dela, pelo menos – foi descoberta praticamente um ano depois, quando Piquet Jr. admitiu que tinha recebido ordens de Flavio Briatore e Pat Symonds – diretor e engenheiro da Renault – para encenar um despiste que provocasse a entrada do safety car e beneficiasse Alonso.

 

A Renault admitiu – depois de uma primeira fase de contestação – o comportamento antidesportivo e escapou à expulsão da Fórmula 1 por um período de dois anos. Por outro lado, Briatore foi banido das competições da FIA e Symonds recebeu uma suspensão de cinco anos… até as penas terem sido suspensas por um tribunal.

 

Para a história ficou a vitória de Fernando Alonso, com pouco menos de três segundos de vantagem sobre Nico Rosberg e pouco menos de seis sobre Lewis Hamilton. Os dez pontos conquistados pelo espanhol permitiram à equipa subir ao quarto lugar do Mundial de Construtores, superando a Toyota (51 vs. 46) mas continuando muito longe da BMW Sauber (120).

 

O otimismo ganho em Singapura lançou Fernando Alonso para um excelente final de temporada. O espanhol voltou a ganhar na corrida seguinte, no Japão, e somou um quarto lugar (China) e um novo pódio (segundo no Brasil) nas duas corridas seguintes – as últimas da temporada.

 

O título foi ganho por Lewis Hamilton, com apenas um ponto de vantagem sobre Felipe Massa, culpa de uma ultrapassagem na parte final da última volta a Timo Glock, quando a Ferrari já festejava o título do brasileiro que corria em casa. Foi um dos finais de temporada mais emocionantes da história da Fórmula 1.

F1 700. Uma corrida ganha por Fisichella no «videoárbitro»

Giancarlo Fisichella no Grande Prémio do Brasil

A confusão marcou o Grande Prémio número 700 na história do Mundial de Pilotos na Fórmula 1. O circuito de Interlagos devia receber 71 voltas mas a corrida teve um fim precipitado. O pódio só teve dois pilotos porque Alonso – terceiro classificado - estava a receber assistência médica. E Räikkönen festejou o primeiro lugar na cerimónia apenas para depois ver o triunfo atribuído a Fisichella.

 

Há quem diga que não há nada suficientemente mau que não possa piorar. Pela mesma lógica de ideias, vamos substituir o adjetivo mau por confuso. E, nesta nova ordem de raciocínio, o Grande Prémio do Brasil, terceira corrida da temporada de 2003 da Fórmula 1, está num lugar de enorme destaque.

 

É difícil encontrar uma estrutura narrativa que consiga fazer jus ao caos que se abateu sobre o Autódromo José Carlos Pace, em São Paulo, a 6 de abril de 2003. Na véspera, os brasileiros tinham tido motivos para festejar, com o Ferrari de Rubens Barrichello a garantir a pole position, com apenas 11 milésimos de vantagem sobre o McLaren-Mercedes de David Coulthard.

 

O domingo seria um dia para confirmar a superioridade mas tudo foi diferente do esperado. A tempestade que se abateu sobre São Paulo tornou a pista muito mais difícil, praticamente sem aderência e, por razões de segurança, a partida foi feita com o safety car em ação, dez minutos depois da hora marcada.

 

A liderança de Rubens Barrichello tinha os minutos contados mas tudo foi imprevisível em pista. O primeiro lugar voltou a mudar de mãos para o brasileiro e enquanto uns carros começavam a aproveitar as partes secas, outros despistavam-se assim que apanhavam um setor mais molhado.

 

Giancarlo Fisichella, o futuro vencedor da corrida, arriscou e adotou uma estratégia de encher o depósito no início, poupando ao máximo durante as inúmeras entradas do safety car em ação. No fim, por razões inesperadas, a aposta deu frutos. «Estava no limite. Não teria chegado até ao fim [se houvesse 71 voltas]», confessou.

 

A corrida devia ter durado 71 voltas. Mas os sucessivos acidentes precipitaram a decisão de mostrar a bandeira vermelha depois de um incidente provocado por Fernando Alonso. O Renault do espanhol protagonizou um dos momentos mais «espetaculares» da tarde, ao não abrandar perante as bandeiras amarelas e a embater a toda a velocidade num pneu perdido no meio da pista do Jaguar-Cosworth de Mark Webber, que se tinha despistado instantes antes. O rescaldo do acidente deixou destroços por toda a pista, bloqueando qualquer passagem segura e tornando impossível que a corrida prosseguisse.

Destroços invadiram circuito de Interlagos

Por esta altura, já não havia nenhum Ferrari em pista – foi o primeiro abandono de Michael Schumacher em mais de um ano – e Giancarlo Fisichella estava no primeiro lugar, seguido de Kimi Räikkönen e... Fernando Alonso. Mas o regulamento da FIA dizia que, quando uma bandeira vermelha é mostrada, é contabilizada a classificação que se verificava duas voltas antes. O italiano ultrapassara o finlandês na volta 54 e os comissários entenderam que o líder ainda estava na volta 55. 

 

O fim do Grande Prémio implicaria, nesta lógica, Räikkönen no primeiro lugar, Fisichella no segundo e Alonso no terceiro. A cerimónia do pódio - muito confusa - teve apenas dois pilotos porque o espanhol estava a ser assistido na sequência do acidente mas o sabor do triunfo do finlandês durou apenas… cinco dias.

 

A FIA só tomou a decisão 11 de abril, depois de uma investigação ter chegado à conclusão que, no momento em que as bandeiras vermelhas foram mostradas, Fisichella já estava na 56.ª volta. Sendo assim, a classificação contabilizada passaria a ser a da 54.ª volta, legitimando o primeiro lugar do italiano.

 

Na corrida seguinte, em Imola, fez-se uma cerimónia improvisada para emendar toda a confusão do Brasil. Alonso estava finalmente no pódio e Räikkönen e Fisichella trocaram de posição. Foi a primeira de três vitórias oficiais do piloto italiano na Fórmula 1 e claramente a mais memorável.

 

Curiosamente, os dois pontos que Räikkönen «perdeu» com esta alteração foram precisamente a diferença para Michael Schumacher no final do Mundial de Pilotos. Poderia ter sido a diferença mais pequena a decidir um título: o campeonato continuaria a ser do alemão, por ter vencido seis provas contra apenas duas do finlandês.

F1 600. Vitória de Villeneuve e recorde para um Schumacher

Pódio no Grande Prémio da Argentina

A temporada de 1997 da Fórmula 1 ficou marcada pela luta pelo título sem tréguas entre o Williams de Jacques Villeneuve e o Ferrari de Michael Schumacher. As reviravoltas constantes marcaram a reta final da época com o campeonato a sorrir ao canadiano depois de uma manobra quase suicida do alemão no último Grande Prémio da temporada. Antes, na Argentina, naquela que foi a 600.ª corrida da história do Mundial de Pilotos, Villeneuve teve de dividir o estrelato com outro Schumacher: Ralf.

 

Há quem diga que a história se repete, que é cíclica e que a podemos prever ao perceber que determinados acontecimentos que levaram a outros no passado estão a começar a surgir novamente. A Fórmula 1 não escapa a esta tendência e a propensão para pilotos pressionados pela conquista do título recorrerem a qualquer meio para atingir o fim vai resistindo.

 

As disputas entre Ayrton Senna e Alain Prost em Suzuka entraram para o imaginário automobilístico. Em 1989, o francês encostou o brasileiro e garantiu o título mundial na penúltima prova. No ano seguinte, foi a vez de o sul-americano retribuir a gracinha, exatamente nas mesmas condições.

 

A relação amarga entre Senna e Prost, que nasceu enquanto eram colegas na McLaren, será sempre mais emblemática do que qualquer outra, mas a tendência para recorrer à mesma manobra para tentar garantir um título sobrevive e voltou a dar sinal de si em 1997, quando Michael Schumacher liderava com um ponto de vantagem sobre Jacques Villeneuve na última corrida do Mundial, no Grande Prémio da Europa, em Jerez de la Frontera, e tentou deixar o canadiano fora de pista quando este iniciou uma manobra de ultrapassagem por dentro.

 

Resultado? Schumacher foi para a gravilha e desistiu. Villeneuve resistiu na corrida, somou o terceiro lugar e garantiu os pontos necessários para festejar o quarto título da Williams na década, depois de Mansell em 1992, Prost em 1993 e Hill em 1996.

 

Michael Schumacher acabou por ser desqualificado mas, se a FIA não tivesse optado por tomar essa medida, a diferença entre os dois seria de apenas três pontos. Ou seja, cada uma das sete vitórias de Villeneuve no campeonato surgiriam como fundamentais para garantir o primeiro lugar (a vitória valia dez pontos, o segundo lugar seis).

 

Um dos triunfos foi precisamente no 600.º Grande Prémio da história do Mundial de Pilotos. Na terceira corrida da temporada, na Argentina, Jacques Villeneuve entrou no fim-de-semana já na liderança, partilhada com David Coulthard, ambos com dez pontos, e saiu de lá consagrado com o segundo triunfo da época.

Villeneuve no Grande Prémio da Argentina

Tudo pareceu correr bem à Williams no sábado. Villeneuve conquistou a pole position – a 100.ª na história da equipa britânica – e a primeira linha da grelha ficou completa com o seu colega de equipa, Heinz-Harald Frentzen. Depois, no dia seguinte, apesar do problema mecânico do alemão, que forçou o abandono logo na quinta volta, o canadiano não deu hipótese e pareceu ter a corrida sempre controlado, vencendo com pouco menos de um segundo de vantagem sobre Eddie Irvine.

 

Os dez pontos conquistados por Jacques Villeneuve foram um impulso perfeito para o desenrolar da temporada. Deixou de haver liderança partilhada – até porque David Coulthard desistiu logo na primeira volta. O grande futuro rival, Michael Schumacher, não fez melhor e abandonou pela mesma altura após embater no Stewart de Rubens Barrichello.

 

O último lugar do pódio foi para um Schumacher. Ralf, ao volante de um Jordan-Peugeot, ainda não tinha acabado um único Grande Prémio e estava a fazer a terceira corrida de Fórmula 1 na carreira. Aquele 13 de abril de 1997, contudo, foi triplamente especial: acabou a corrida, foi terceiro e tornou-se o piloto mais jovem de sempre a subir ao pódio, com 21 anos e 287 dias.

 

Um último dado curioso vai para o facto de outro dos desistentes desta corrida ter sido Jos Verstappen. O filho Max detém atualmente o recorde que Ralf Schumacher roubou na altura ao italiano Elio de Angelis. No Grande Prémio de Espanha, em 2016, o holandês venceu a corrida e estreou-se no pódio com apenas 18 anos e 228 dias. Recorde imbatível?

F1 500. Festa de Piquet com amuo de Prost

Nelson Piquet venceu a penúltima prova da sua carreira

Ayrton Senna já era campeão depois de uma vingança sobre Alain Prost no Grande Prémio do Japão. Duas semanas depois, na Austrália, o francês fez birra, o brasileiro desistiu durante a corrida e Nelson Piquet aproveitou para fechar a temporada de 1990 com dois triunfos consecutivos. Foi o 500.º Grande Prémio na história do Mundial de Pilotos e a Fórmula 1 fez questão de marcar o momento.

 

Para perceber o contexto do Grande Prémio da Austrália que encerrou a temporada de 1990 é preciso recuar até 1989, a Suzuka. No Japão, Alain Prost tinha a faca e o queijo na mão rumo à conquista do título mundial mas estava a ser perseguido há várias voltas pelo seu maior rival – e colega de equipa na McLaren – Ayrton Senna.

 

Se fosse ultrapassado e o deixasse vencer, Senna dependeria apenas de si na última prova do ano, na Austrália. Por outro lado, se ambos fossem forçados a desistir, o título ficaria decidido na hora. Assim, no momento em que Senna arriscou finalmente uma ultrapassagem, houve uma colisão (não apontamos responsabilidades, tirem as vossas próprias conclusões) e Prost pôde festejar o campeonato.

 

Um ano depois, as situações inverteram-se. Ayrton Senna manteve-se na McLaren mas Alain Prost foi para a Ferrari. Os dois estavam na luta pelo título e desta vez era o brasileiro a festejar o título mundial se nenhum dos carros terminasse.

 

O brasileiro e o francês saíram da primeira linha da grelha mas não passaram sequer da primeira curva. Prost foi mais rápido a largar mas houve nova colisão (uma vez mais, tirem as vossas conclusões) e as contas ficaram fechadas.

Ayrton Senna e Alain Prost em Suzuka (1990)

Duas semanas depois, na Austrália, Alain Prost era um homem amargo, aborrecido, sem vontade de cumprir ou fazer o que quer que fosse. Era suposto ser um fim-de-semana de festa, de Senna e da própria Fórmula 1 por ser o fim da temporada e a 500.ª corrida do Mundial de Pilotos, mas o francês não estava para aí virado.

 

Entre os momentos de maior tensão, contaram-se o abandono da reunião de pilotos a meio e a não comparecência à sessão de fotografias oficial com vários dos antigos campeões mundiais – Juan Manuel Fangio, Jack Brabham, Denny Hulme, Jackie Stewart, Nelson Piquet e… Ayrton Senna.

 

Na pista, a conversa foi outra. Havia pouco para decidir: Ayrton Senna já era campeão e Alain Prost o segundo classificado, e a McLaren-Honda tinha garantido um novo título no Mundial de Construtores. De qualquer forma, uma corrida de Fórmula 1 é sempre um evento especial e há sempre qualquer coisa em disputa.

 

A McLaren confirmou a superioridade da época ao conseguir a primeira linha da grelha – Senna seguido de Berger -, mas nenhum dos carros chegou sequer ao pódio: o brasileiro teve problemas mecânicos depois de 61 das 81 voltas e o austríaco ficou na quarta posição.

 

O triunfo foi para o brasileiro Nelson Piquet, que teve de sofrer e quase desistir depois de uma tentativa de ultrapassagem do Ferrari do britânico Nigel Mansell. Os dois carros resistiram, passaram a meta separados por pouco mais de três segundos, e foram seguidos pelo Ferrari de Alain Prost.

 

A vitória na Austrália garantiu também o terceiro lugar no Mundial a Nelson Piquet, com os mesmos pontos de Gerhard Berger (43), mas com a vantagem de ter vencido duas corridas: precisamente as duas últimas da temporada.

 

Piquet estava na fase decadente da carreira e acabaria por deixar a Fórmula 1 no ano seguinte, em 1991. A vitória na Austrália foi a penúltima de uma carreira que contou com 23 triunfos.

F1 400. A única vez em que Lauda ganhou em casa

McLaren de Niki Lauda

Niki Lauda não é apenas o melhor piloto austríaco na história da Fórmula 1, é também um dos melhores de sempre. O Grande Prémio do seu país teve sempre um significado muito especial – foi lá que se estreou em 1971 – mas só em 1984 é que conseguiu vencer ali, pela primeira e única vez. Foi a 400.ª corrida na história do Mundial de Pilotos.

 

Ninguém esquece a estreia na Fórmula 1 mas Niki Lauda, ao volante de um March-Ford, não teve grandes razões para sorrir a 15 de agosto de 1971. Depois de fazer o penúltimo tempo da qualificação, a mais de seis segundos da pole position de Jo Siffert e a mais de dois segundos do antepenúltimo classificado, a espiral de problemas sucedeu-se e foi obrigado a desistir depois de cumprir 20 das 54 voltas ao circuito de Spielberg.

 

O talento de acabaria por falar mais alto com o passar dos anos – a passagem para carros mais fiáveis e competitivos também ajudou -, mas o Grande Prémio da Áustria manteve-se como uma pedra no sapato do piloto. Em 1972 foi décimo e no ano seguinte nem sequer chegou a participar. Com a passagem para a Ferrari, em 1974, a ambição tinha outros argumentos e a obsessão só aumentou: na estreia desistiu, em 1975 foi sexto e pontuou pela primeira vez e no ano seguinte nem sequer foi para a pista, depois de ter escapado à morte no Grande Prémio da Alemanha, duas semanas antes.

 

O segundo lugar na época de despedida da Ferrari, em 1977, depois de ter saído da pole position, foi só mais um capítulo no desespero do próprio e dos adeptos austríacos. Por esta altura, Niki Lauda caminhava para o bicampeonato mundial mas ainda não conseguira triunfar dentro de portas.

 

Foi preciso esperar até 1984, o ano do terceiro e último título mundial da carreira, para assistir à tão ansiada vitória. E fê-lo com pompa e circunstância, na 400.ª corrida na história do Mundial de Pilotos da Fórmula 1.

 

Ao contrário de 1977, Lauda não foi o melhor da qualificação. Não foi além do quarto tempo, atrás de Nelson Piquet, Alain Prost e Elio de Angelis, e durante a corrida teve de esperar 40 voltas para saltar finalmente para o primeiro lugar.

 

Numa corrida em que três pilotos que hoje são campeões mundiais desistiram (Prost, Senna e Rosberg), Niki Lauda cruzou a meta na primeira posição para gáudio dos milhares de austríacos nas bancadas. Nelson Piquet, Michele Alboreto e Teo Fabi foram os únicos a terminar na mesma volta do vencedor.

 

O Grande Prémio ficou marcado pela confusão na partida, com as luzes a fazerem uma combinação de discoteca que confundiu os pilotos e obrigou a uma segunda largada, e pela estreia de um novo piloto austríaco: Gerhard Berger. Ao contrário de Lauda, nunca chegou a ser campeão mas terminou a carreira com dez triunfos.

 

O hiato do Grande Prémio da Áustria no final da década de 80 e mais de metade da de 90 impediu-o de ter uma verdadeira oportunidade de se tornar o segundo piloto austríaco a vencer em casa. Em cinco participações, nunca conseguiu pontuar e não foi além de um sétimo lugar (1986).

 

O triunfo na Áustria aumentou a vantagem de Niki Lauda no campeonato, numa época em que a diferença final para Alain Prost foi apenas de meio ponto. Para a classificação contavam apenas os 11 melhores resultados das 16 corridas, mas o austríaco desistiu em seis delas. Logo, os nove pontos alcançados a correr em casa foram absolutamente essenciais para escrever o último grande capítulo de memórias enquanto piloto. Por outro lado, a despedida da Fórmula 1 só chegou na época seguinte, em 1985, e, tal como em 1971, não chegou ao fim. Foi o fechar de um ciclo inglório.

F1 300. O drama de Peterson na estreia de Rosberg

Lotus de Ronnie Peterson

Lotus dominou a temporada de 1978 e viu Mario Andretti tornar-se o último norte-americano a ser campeão de Fórmula 1. Na terceira corrida do ano - e 300.ª na história do Mundial de Pilotos -, na África do Sul, o triunfo foi para o outro piloto da escuderia: Ronnie Peterson. O sueco lutou pelo título mas morreu na parte final da temporada e não foi além do vice-campeonato.

 

A tradição da Suécia na Fórmula 1 não é muito forte e, na sua maior parte, é composta por pilotos-cometa, que desaparecem com a mesma rapidez que apareceram. Mas há uma grande exceção: Ronnie Peterson. O melhor piloto do país escandinavo que alguma vez passou pela Fórmula 1 disputou mais de 100 corridas, venceu dez provas e terminou o Mundial na segunda posição em 1971 e 1978.

 

À imagem de tantos outros, teve um fim trágico. No antepenúltimo Grande Prémio de 1978, em Itália (Monza), Peterson teve um acidente na primeira volta e morreu no dia seguinte no hospital, vítima de um embolismo provocado pelos ferimentos.

 

O fim foi trágico mas o início do ano foi promissor. A Lotus era mais forte e venceu na estreia, com o triunfo de Andretti na Argentina, mas a Ferrari respondeu no Brasil com o primeiro lugar de Carlos Reutemann. Ainda no hemisfério sul, mas no outro lado do Atlântico, o Grande Circo virou agulhas para a África do Sul.

 

Aí, na corrida 300 da era do Mundial de Pilotos, Ronnie Peterson mostrou o que valia pela primeira vez. Com muito drama – e sorte – à mistura. Depois de ter feito apenas o 12.º tempo mais rápido da qualificação, beneficiou de um conjunto de azares que se contagiaram entre a concorrência.

 

Niki Lauda conseguiu a pole mas teve um problema de motor. Mario Andretti saiu do segundo lugar da grelha e ficou fora dos pontos, no sétimo posto. Outras figuras como James Hunt, Patrick Tambay, Jody Scheckter, Riccardo Patrese, Gilles Villeneuve e Carlos Reutemann também não conseguiram cruzar a linha de meta, depois de terem estado no top-10.

 

Andretti, Scheckter e Patrese lideraram durante 63 das 77 voltas ao circuito mas a disputa pelo triunfo seria feita entre o francês Patrick Depailler e o sueco Ronnie Peterson, que tinham saído da sexta linha da grelha. Fiel à famosa declaração de Fernando Alonso, que confessou que, a liderar um Grande Prémio, que seja na última volta, Peterson só ultrapassou o rival nos instantes finais e cruzou a meta com menos de meio segundo de vantagem sobre Depailler.

 

Os nove pontos do triunfo fizeram com que trepasse na classificação geral até ao segundo lugar, com 11 pontos. Premonitoriamente, à frente dele só havia Mario Andretti (12). Outro destaque do Grande Prémio da África do Sul foi a estreia de um finlandês chamado Keke Rosberg, ao volante de um Theodore-Ford. Tímido na qualificação (24.º tempo em 26 pilotos que saíram para a corrida), teve um problema mecânico e desistiu após 15 voltas.

F1 200. Jackie Stewart dominou no Mónaco do princípio ao fim

Jackie Stewart rumo ao triunfo no Mónaco

Depois de Silverstone (1) e Nurburgring (100), a corrida 200 na história da Fórmula 1 voltou a ser disputada num palco mítico. Nas ruas de Monte Carlo, o britânico Jackie Stewart somou a segunda vitória, e o terceiro pódio, em três corridas da temporada de 1971 e estabeleceu a fasquia para uma época em que seria novamente campeão.

 

Vencer o Grande Prémio do Mónaco é uma experiência que não está ao alcance de qualquer um. Lewis Hamilton já foi cinco vezes campeão mundial mas só conseguiu atingir o lugar mais alto do pódio ali duas vezes. É uma pista muito especial, onde todos querem ganhar, e onde a pressão tende a afastar historicamente os mais arrojados dos cautelosos.

 

Por cada Ayrton Senna com seis vitórias, há um Nigel Mansell que não conseguiu vencer. Graham Hill e Michael Schumacher (5) também surgem bem representados e até há espaço para enormes surpresas, como quando Olivier Panis venceu em 1996, ao volante de um Ligier, numa corrida em que apenas três carros chegaram ao fim.

 

Em 1971, o circuito do Mónaco já encantava o mundo automobilístico e tinha em Graham Hill a sua maior figura. Ninguém como ele tinha uma apetência tão grande para fazer daquela corrida citadina o seu império. Na era da Fórmula 1, só Stirling Moss se juntava a ele com múltiplos triunfos. Só que enquanto o piloto mais velho vencera três (1956, 1960 e 1961), Hill chegou a 1971 já com cinco vitórias (1963, 1964, 1965, 1968 e 1969).

 

A 23 de maio de 1971, Hill esteve longe de conseguir aumentar o currículo. Após ter feito o nono tempo da qualificação, sofreu um acidente depois de cumprir a primeira volta e foi obrigado a abandonar. Em sentido contrário, Jackie Stewart, com o número 11 no seu Tyrrell-Ford, voava para uma corrida perfeita, numa época sensacional.

 

Jackie Stewart chegou ao Mónaco com uma vitória e um segundo lugar nas duas primeiras corridas da temporada. O ímpeto continuou com a pole position – a segunda da época – e não houve maneira de o travar durante a prova.

 

Campeão mundial em 1969, o piloto escocês queria reconquistar o título, perdido para o campeão póstumo Jochen Rindt em 1970, e mostrou ao que vinha desde o início. Depois de 80 voltas ao principado, o Tyrrell-Ford cruzou a meta com 25,6 segundos de vantagem sobre o sueco Ronnie Peterson e 53,3 segundos sobre Jacky Ickx. Dos 18 carros que partiram para a corrida, dez cruzaram a meta e apenas três conseguiram fazê-lo sem serem dobrados por Stewart.

 

Com três corridas disputadas, a vantagem de Stewart crescia cada vez mais. Com 24 pontos, tinha já 14 de vantagem sobre Ickx e 15 sobre o norte-americano Mario Andretti. O primeiro terço da temporada ainda não tinha sido dobrado mas a pontuação já seria suficiente para terminar o Mundial no terceiro lugar.

 

Jackie Stewart, naturalmente, não quis saber disso. Nas oito corridas até ao final da época, venceu metade e chegou ao fim com 62 pontos e o título no bolso. Ronnie Peterson, tal como no Mónaco, foi segundo classificado, com 33 pontos.

 

A vantagem de 29 pontos sobre o segundo classificado no final foi um novo recorde que só voltou a ser batido em 1992, quando Nigel Mansell terminou com 62 pontos de vantagem sobre Riccardo Patrese (108 contra 56). As diferenças? Havia mais cinco corridas e a vitória já valia dez pontos. De resto, o Williams do britânico que nunca conseguiu vencer em Monte Carlo era esmagadoramente superior à concorrência.

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