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É Desporto

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Lyon. O drama no primeiro passo da hegemonia

Lyon festejou título em casa

O início do século XXI no futebol gaulês ficou marcado por constantes afirmações de superioridade de uma equipa que teve de esperar até 2002 para conquistar o título pela primeira vez. O Lyon tomou-lhe o gosto e foi heptacampeão em 2008, mas o primeiro ninguém esquece. Até porque obrigou a uma vitória dramática em casa com o líder Lens na última jornada.

 

É difícil ter idade suficiente para recordar o futebol da primeira década do século XXI e ignorar a hegemonia que o Lyon construiu em França com o desenrolar das temporadas. O clube pode ter chegado a 2002 sem qualquer título nacional mas, presidido por Jean-Michel Aulas e alimentado por sucessivas gerações de enorme qualidade, viu a estabilidade dar frutos e tornou-se num rolo compressor que não dava hipótese dentro de portas e que era presença assídua na fase a eliminar da Liga dos Campeões.

 

O segundo lugar do Lyon em 1995, dez pontos atrás do Nantes, foi um sinal efémero de que a equipa queria mais. Mas ainda não estava em posição de o conseguir. Nas temporadas seguintes, começou por ser arrastado para a mediocridade da classificação mas registou melhorias constantes, terminando em 11.º, 8.º, 6.º, 3.º, 3.º e 2.º.

 

Foi assim que o Lyon, na melhor fase na história do campeonato, entrou na temporada 2001/02. Muito do mérito deve-se a Jacques Santini, diretor desportivo entre 1997 e 2000 e treinador nas duas épocas seguintes. O plantel prometia: havia Coupet na baliza, os brasileiros Edmilson, Juninho Pernambucano e Sonny Anderson, o camaronês Marc-Vivien Foé e jovens talentos como Luyindula e Govou.

 

A expectativa era grande – afinal o Lyon ganhara a Taça da Liga na temporada anterior – mas a derrota no jogo inaugural, em Lens, esfriou o entusiasmo. A perfeição durante o mês de agosto, com quatro vitórias em quatro jogos, recuperou o ímpeto do Lyon e atirou-o para os primeiros lugares da classificação.

 

A liderança, porém, pareceu estar sempre longe de alcançar. Apenas por uma vez, depois de golear o Rennes (4-0) em casa, na nona jornada, o clube chegou ao primeiro lugar. Foi sol de pouca dura: nos três jogos seguintes, somou dois empates e uma derrota e caiu para a quarta posição.

 

O campeonato era a maior prioridade naquela temporada. O clube caiu nos oitavos da Taça da Liga e nos 16 avos da Taça de França, e na Liga dos Campeões foi terceiro num grupo com Barcelona, Leverkusen e Fenerbahçe. Atirado para a Taça UEFA, superou o Club Brugge, mas foi eliminado pelo Slovan Liberec nos oitavos.

 

Com todos os olhos postos no campeonato, a equipa voltou a ganhar posições e atingiu o segundo lugar na jornada 14, a 17 de novembro de 2001. E foi aí que se manteve até maio de 2002, na perseguição direta ao Lens, líder há 28 jornadas. Os dois clubes vinham de dinâmicas distintas antes de se defrontaram no Stade Gerland a 4 de maio. Nos cinco jogos anteriores, o Lens somara apenas cinco pontos; o Lyon fizera dez.

 

O jogo do título… literalmente

Govou abriu caminho para a festa

As duas equipas estavam separadas por um ponto – Auxerre e PSG já estavam longe para disputar o título – e o Lyon estava obrigado a vencer em casa para ser campeão. A cidade vivia um ambiente fantástico e 42 mil espectadores fizeram questão de marcar presença no jogo decisivo. Nada podia faltar.

 

A fome de títulos do Lyon – presidente, treinador, jogadores e adeptos – deu em fartura. Govou abriu o marcador aos sete minutos e Violeau aumentou a vantagem aos 14. Tudo parecia perfeito, não fosse o facto de o polaco Jacek Bak reduzir para o Lens aos 27 minutos.

 

A história de Bak merece uma nota de rodapé – ou talvez mesmo mais do que isso – na narrativa do título. O defesa sabia que seria sempre campeão francês, acontecesse o que acontecesse naquele dia. Bak começara a temporada ao serviço do Lyon e até marcara um golo decisivo na terceira jornada, no 2-1 na Córsega contra o Bastia. Mas, com o passar das semanas, perdeu espaço no plantel e transferiu-se para o Lens no inverno. Agora, ali estava ele de novo, a marcar o seu segundo e último golo no campeonato.

 

O golo reabriu a decisão do título mas o início da segunda parte voltou a ser dominador por parte do Lyon. Aos sete minutos do segundo tempo, Pierre Laigle fez o 3-1 e acabou com o nervosismo dos adeptos. Era uma questão de tempo até o árbitro apitar para o final do encontro e precipitar os festejos ansiados.

 

O Lyon tomou-lhe o gosto e não voltou a precisar de esperar tanto para festejar. No ano seguinte, a vantagem foi de apenas um ponto mas o título foi alcançado na penúltima jornada. Depois, aí sim, deixou de haver concorrência à altura. As diferenças pontuais foram aumentando: primeiro para três, depois para oito, 15 e 17. No ano do heptcampeonato, o sétimo e último título francês do Lyon até ao momento, a diferença foi de quatro pontos.

 

Chegava assim ao fim o período de maior hegemonia na história do futebol francês. Uma era na qual brilharam, além de Juninho Pernambucano, Sonny Anderson e Govou, jogadores como Essien, Malouda, Élber, Abidal, Benzema, Wiltord, Fred ou o português Tiago. 

Phil Hill. Ser campeão porque o colega de equipa morreu

Phil Hill

Ferrari dominou temporada de 1961 e tinha dois pilotos na frente da classificação à entrada para o penúltimo Grande Prémio da temporada, em Monza. Alemão Wolfgang von Trips liderava com quatro pontos de vantagem sobre Phil Hill mas morreu após um despiste na segunda volta. Vitória de Hill garantiu os cinco pontos extra que lhe valeram o título. Foi um triunfo amargo.

 

Michael Schumacher foi o primeiro piloto alemão a sagrar-se campeão mundial de Fórmula 1… em 1994. Mas 33 anos antes, no Grande Prémio de Itália, em Monza, Wolfgang von Trips entrou na penúltima corrida da temporada na liderança da classificação e com um cenário muito otimista.

 

Os tempos eram diferentes. A vitória valia nove pontos e o segundo lugar seis, por exemplo. Havia sete provas durante a temporada e eram contabilizados apenas os cinco melhores resultados. Graças a este quadro competitivo, os quatro pontos que Von Trips tinha de vantagem sobre Phil Hill, seu colega de equipa na Ferrari, tinham um significado ainda mais especial.

 

O piloto germânico tinha tudo a seu favor, especialmente depois de conseguir o tempo mais rápido na qualificação. Se conseguisse transpor essa superioridade para o dia seguinte, a 10 de setembro de 1961, seria matematicamente campeão do mundo, graças a três triunfos e dois segundos lugares. Mesmo que falhasse os pontos – ou simplesmente não melhorasse o quarto lugar (que acabou por ser o quinto melhor resultado de Von Trips na temporada), persistia um ónus de elevada dificuldade para Hill.

 

O norte-americano estaria sempre obrigado a vencer uma das duas últimas corridas. Se fosse duas vezes segundo, terminaria com 33 pontos e o título ia para Von Trips, por ter vencido duas corridas, contra apenas uma de Hill.

 

Von Trips podia estar a poucas horas de ser campeão mas teve uma declaração surpreendentemente premonitória na véspera, em declarações ao jornalista Robert Daley, publicadas em livro. «Nunca se sabe quando se vai morrer, é uma das coisas deste negócio. Talvez aconteça amanhã.»

 

Maior tragédia na história da Fórmula 1

Von Trips teve morte imediata

Aconteceu mesmo. Von Trips largou mal para a corrida e terminou a primeira volta na sexta posição. Minutos depois, quando tentava recuperar, perdeu o controlo do Ferrari na aproximação a uma curva para a direita, embateu no carro de Jim Clark e saiu disparado para a esquerda, colhendo uma zona da bancada onde estavam centenas de espetadores.

 

«Tinha acabado de me ultrapassar e acho que nem sabia que eu estava ali. Pensou que tinha o carro mais rápido e que eu teria ficado inevitavelmente para trás», comentou Jim Clark no final da corrida. Por esta altura, já Von Trips tinha morrido, tal como onze adeptos que tiveram morte imediata. Nos dias seguintes, outros quatro não resistiram aos ferimentos e fecharam a estatística do acidente mais mortal na história da Fórmula 1. Foram 16 pessoas, incluindo um piloto, dos 6 aos 62 anos.

 

A hipótese de ser campeão postumamente, ainda antes de Jochen Rindt, durou pouco menos de duas horas. Phil Hill continuava sem saber exatamente o que tinha acontecido e partiu para um triunfo tranquilo, cruzando a meta com 31 segundos de vantagem sobre o Porsche de Dan Gurney.

 

A vitória permitiu-lhe conquistar cinco pontos líquidos na classificação – trocou um terceiro lugar pela vitória – e ultrapassar o colega de equipa por um ponto. Só aí lhe disseram que já era campeão do mundo, apesar de faltar o Grande Prémio dos Estados Unidos. O ponto de vantagem era mais do que suficiente porque o colega de equipa – e grande rival na temporada – estava morto.

 

«Queria ganhar, mas não com este preço», desabafou, dando início a uma fase decadente da sua carreira na Fórmula 1. A Ferrari decidiu não correr em Watkins Glen, retirando a Hill a possibilidade de festejar o título a correr em casa.

 

No seguinte, tudo tinha mudado. «Já não tenho o mesmo desejo de correr, de ganhar. Não tenho a mesma fome. Já não estou disposto a arriscar a morte», admitiu.

 

Em 1966, depois de temporadas muito intermitentes, a despedida da Fórmula 1 chegou finalmente para o norte-americano. Nunca mais voltou a ganhar uma prova. O último triunfo foi o dia em que se sagrou campeão mundial… à custa da vida de um amigo.

Guy Roux. O homem que teve tempo para tudo no Auxerre

Guy Roux é "o" símbolo do Auxerre

Era um jovem com vontade de jogar… e de treinar. A teimosia ajudou-o a convencer o presidente do Auxerre a oferecer-lhe o cargo de treinador quando tinha apenas 23 anos, em 1961. Até 2005 só três motivos o tiraram do banco: o serviço militar, a ideia de ser diretor-desportivo e uma operação ao coração. Clube tem 113 anos e é impossível dissociá-lo de Guy Roux.

 

O homem que soube dar um novo cunho ao significado de lealdade no futebol – ou simplesmente amor à camisola – nasceu a 18 de outubro de 1938. Não viveu o suficiente para ter uma noção exata do que significou a II Guerra Mundial, apesar de o seu pai ter sido detido num campo na Checoslováquia. Em plano contrário, não precisou de ter muito tempo para saber que o futebol era a sua paixão.

 

Guy Roux jogava… e treinava desde pequeno. E, na altura, a lealdade a um clube era algo que não lhe assistia. Até chegar ao comando técnico da equipa principal do Auxerre, em 1960, o francês fez de tudo para ter uma oportunidade. Foi treinador de jovens nas competições escolares e dividia as suas atenções desportivas entre a posição de médio na equipa principal do Appoigny e de avançado nos cadetes do Auxerre. Tinha 14 anos.

 

A estreia pela equipa principal do Auxerre chegou aos 16 anos, em 1954/1955, mas a falta de oportunidades fê-lo procurar de tudo para melhorar o seu rendimento. Foi assim que se «ofereceu» ao treinador do Crystal Palace e realizou um pequeno estádio em julho de 1960, por exemplo. Ao voltar, as portas do campeonato francês estavam fechadas.

 

Atrevimento no regresso ao Auxerre

Roux foi treinador-jogador até 1970

Mais tarde, as do Auxerre abriram-se inesperadamente quando estava na bancada a assistir a um particular entre a equipa francesa e os ingleses do Crewe Alexandra. Ao intervalo, o sistema sonoro do estádio pediu a comparência de alguém que soubesse falar inglês para servir de tradutor junto do balneário dos britânicos.

 

Dois jogadores estavam lesionados e era preciso recorrer a alguém que estivesse disponível para jogar a segunda parte. Guy Roux surgiu na linha da frente e, após o jogo, recebeu o convite do presidente do Auxerre para se juntar à equipa. Por esta altura, com 23 anos, Roux já tinha outra ideia em mente: ser treinador-jogador.

 

O presidente, Jean Garnault, mostrou-se renitente e preocupado com a falta de experiência de Roux e recusou o desafio. Mas, dias mais tarde, Guy Roux enviou-lhe uma carta de seis páginas com as ideias principais do seu projeto para o clube e mereceu a aposta. Foi assim que, em 1961, a aventura começou.

 

O quinto lugar na divisão de Honra de Bourgogne não mereceu subida de divisão e teve o condão de interromper a carreira de Roux. Estava na altura de prestar serviço militar, entre setembro de 1962 e dezembro de 1963. O clube lutou pela permanência e o cenário construiu-se para um regresso de Roux em 1964.

 

O crescimento do Auxerre foi progressivo e sem entrar em loucuras. Em 1970, a equipa garantiu finalmente a subida ao terceiro escalão conhecido por Divisão 3 e visto como campeonato amador. Foi nesta altura que, elevada a fasquia, Roux deixou finalmente de acumular as funções de jogador e de treinador, centrando-se apenas na segunda.

 

A sede de aprender movia Roux. Esteve nos Mundiais de 1970, 1974 e 1978, sempre com o objetivo de ver os treinos das principais seleções. Queria aprender o máximo possível para depois replicar os ensinamentos na sua equipa. Os resultados apareceram: em 1974 subiu ao segundo escalão apesar do quarto lugar, atrás de equipas secundárias de Lyon, Saint-Étienne e Marselha.

 

O alpinismo divisionário ficou completo em 1980 com a subida à elite do futebol francês. Por esta altura, já o Auxerre tinha começado a dar cartas na Taça de França, a competição que mais facilmente é associada ao clube e especificamente a Guy Roux. Em 1979, porém, as esperanças do clube morreram na final, perdendo com o Nantes após prolongamento (4-1).

 

Plantar sementes entre a elite

Djibril Cissé foi a última grande referência de Roux

O Auxerre não era visto – nem podia ser – como um dos grandes do campeonato francês. Mas, ano após ano, o clube mostrou ter qualidade para ombrear com os grandes clubes e mostrar-se capaz de, com as premissas corretas, chegar a excelentes resultados.

 

Os títulos demoraram a aparecer mas o primeiro grande momento surgiu logo em 1984, com o terceiro lugar, a cinco pontos de Bordéus e Monaco, e o consequente apuramento para a Taça UEFA. Quis o destino que o primeiro jogo europeu de Auxerre e Roux fosse em Alvalade, com o Sporting.

 

Os leões venceram 2-0, com golos de Manuel Fernandes e Jaime Pacheco, e pensaram que tinham uma boa vantagem para a segunda mão, mas o polaco Szarmach – um dos primeiros grandes reforços do Auxerre – bisou e forçou o prolongamento. Aí, Oceano e Litos marcaram e deram cabo do sonho gaulês.

 

Por esta altura, a academia de formação inaugurada em 1982 começava a dar os primeiros frutos. Seria dali que sairiam talentos como Cantona, Basile Boli e Raphaël Guerreiro (não, não é o português, nem sequer familiar).

 

A década de 90 foi a melhor da história do clube. Atingiu as meias-finais da Taça UEFA em 1993 (caiu nos penáltis em casa contra o Dortmund de Ottmar Hitzfeld e Stéphane Chapuisat), depois de eliminar Lokomotiv Plovdiv, FC Copenhaga, Standard Liège e Ajax, e conquistou a Taça de França em 1994.

 

Dois anos depois, já com Laurent Blanc no plantel, conquistou a dobradinha. Foi o primeiro e único campeonato francês de uma equipa que só acordou para a elite nos anos 80. O feito garantiu a estreia inédita na Liga dos Campeões na temporada seguinte. Uma vez mais, o Dortmund serviu de carrasco, nos quartos-de-final, depois de os gauleses terem superado um grupo com Ajax, Grasshopper e Rangers.

 

Momento certo para parar?

Experiência no Lens foi um fracasso... curto

A aproximação do novo século fez com que Roux sentisse que era altura de promover novos ares no clube. Alegou cansaço, deixou o cargo de treinador em maio de 2000 e continuou como diretor desportivo… durante um ano. Perante a forte cobiça do Leverkusen, acabou a aceitar o convite do presidente do Auxerre para voltar ao comando da equipa.

 

O regresso foi atribulado e teve de ser substituído interinamente entre novembro de 2001 e janeiro de 2002 enquanto recuperava de uma operação ao coração. Quando voltou, havia uma nova geração de talentos a despontar, desde Djibril Cissé a Mèxes.

 

O terceiro lugar em 2002 garantiu novo apuramento para a Liga dos Campeões, que só chegou depois de uma pequena vingança contra clubes portugueses. O Boavista «fez» de Sporting e foi eliminado na terceira pré-eliminatória com um resultado agregado de 1-0. O único golo nos 180 minutos foi de Cissé.

 

A era de Roux estava a chegar ao fim mas guardou dois momentos especiais para o fim: as conquistas da Taça de França em 2003 e em 2005. A última delas foi vista como o motivo perfeito para anunciar o adeus. Afinal, tinha igualado André Cheuva (lendário treinador do Lille na década de 40) com quatro troféus.

 

«Durante os anos em que estive ao comando do Auxerre, conquistei quatro Taças de França. Agora, deixo o caminho aberto para as outras centenas de equipas», disse, bem-humorado.

 

O fim da carreira de Roux foi, uma vez mais, problemático. Dois anos depois, o Lens promoveu o regresso de Roux, contra as leis da liga, que impediam treinadores acima dos 65 anos. A vaga de fundo a favor do sexagenário, então com 68 anos, foi tão grande que até o presidente francês, Nicolas Sarkoxy, interveio.

 

Foi sol de pouca dura. A liga cedeu mas, depois de fazer 890 jogos pelo Auxerre no campeonato, não durou mais do que quatro em Lens. Queixou-se da falta de qualidade da equipa, da falta de adaptação aos seus métodos e de problemas de saúde. Meses mais tarde, quando a equipa desceu, disse ter apenas 4% da responsabilidade.

 

Hoje, a caminho dos 81 anos, Guy Roux é visto como um caso especial e difícil de imitar no futebol moderno. Entre 1961 e 2005, treinou um lote de jogadores com uma qualidade inegável que ajudaram a compor o seu onze de sonho: Joel Bats na baliza; Bacary Sagna, Laurent Blanc, Basile Boli e Taribo West na defesa; Sabri Lamouchi, Enzo Scifo e Corentin Martins no meio-campo; e Djibril Cissé, Andrzej Szarmach e Éric Cantona no ataque. Impressionante.

Rob Gronkowski. A despedida do bom malandro

Rob Gronkowski

Chegou à NFL em 2010 e rapidamente se tornou um dos melhores tight ends do campeonato. Constantemente fustigado por lesões e placagens agressivas, foi perdendo fulgor mas nunca deixou de ser um apoio fundamental para Tom Brady. Despediu-se aos 29 anos no rescaldo da terceira Super Bowl conquistada.

 

O anúncio de fim da carreira de Rob Gronkowski não pode ser visto como surpreendente. É certo que chegar já no final de março pode trazer uma pitada de inesperado mas há muito que se falava da possibilidade de o fim estar próximo. Em fevereiro, depois da Super Bowl de Atlanta entre os New England Patriots e os Los Angeles Rams, o jogador confirmou que o futuro permanecia uma incógnita, mas que teria uma decisão dentro de uma ou duas semanas.

 

A situação não era nova e repetia a tendência do ano passado, também depois da Super Bowl. As notícias de uma eventual troca com os Detroit Lions ainda em 2018 também podem ter influenciado em parte a decisão de um jogador que chegou aos 29 anos com três títulos e mais, muitas mais, lesões.

 

O anúncio tardou mas chegou mesmo, sete semanas depois do último título. «Tudo começou com 20 anos no draft da NFL, quando o meu sonho se concretizou, e agora estou aqui, quase a fazer 30, com uma decisão que sinto ser a maior da minha vida até ao momento. Hoje vou retirar-me do futebol americano», começou por escrever num longo post do Instagram.

 

Rob Gronkowski parte depois para agradecer a oportunidade a Robert Kraft – proprietário dos Patriots – e Bill Belichick – treinador da equipa – e garante que só teve boas experiências dentro e fora do campo durante os últimos nove anos.

O famoso spike de Gronkowski

Ao longo das nove épocas em que jogou nos New England Patriots, passou por tudo. Venceu três finais, sofreu lesões que o deixaram sucessivamente limitado – ou mesmo de fora – durante largos meses, e viu o seu parceiro de luxo, Aaron Hernández, suicidar-se na prisão enquanto estava a ser julgado por um duplo homicídio.

 

Fora de campo, Gronkowski era conhecido pela sua mentalidade… adolescente, sempre preparado para a farra e sem limites na altura de festejar. Por inúmeras vezes fez referências jocosas ao número 69 e chegou a admitir que gostaria de se retirar com 69 touchdowns na carreira.

 

Falhou. Os números finais mostram 79 touchdowns, 521 receções e 7861 jardas de receção. Foi cinco vezes escolhido para o Pro Bowl, quatro vezes para a equipa All-Pro e em 2014 conquistou o troféu de Comeback Player of The Year.

 

Depois de jogar na Universidade do Arizona, acabou escolhido pelos Patriots na segunda ronda (42.º). O sucesso foi praticamente imediato e é esclarecedor que em nove temporadas tenha ido com a equipa a cinco Super Bowls: três ganhas (vs. Seawhawks, Falcons e Rams) e duas perdidas (Giants e Eagles).

 

«A nossa equipa era praticamente imbatível quando estavas em campo», dise Tom Brady numa declaração de despedida. Robert Kraft escreveu num comunicado que durante todo este período nunca viu o jogador ter «um mau dia». «Evidenciava sempre uma exuberância jovem e era uma alegria quando se estava perto dele», continuou.

Gronkowski era imparável

Gronk, como passou a ser chamado, conquistou jogadores, treinadores e adeptos. A forma como festejava os seus touchdowns – atirando a bola violentamente ao chão, fazendo-a ressaltar largos metros -, como arrastava adversários que não o conseguiam parar atrás de si, ou como aparecia em momentos-chave quando a equipa mais precisava dele tornou-se uma imagem de marca e será recordada.

 

Bill Belichick pode ser um treinador sorumbático mas também não se coibiu no momento de elogiar o agora ex-jogador: «Vai deixar uma marca indelével na organização dos Patriots e no jogo enquanto um dos melhores e mais completos jogadores da sua posição».

 

O futuro dos New England Patriots será diferente sem Rob Gronkowski. A equipa perde a diversão, a tendência para os grandes momentos ofensivos e também uma excelente arma para bloquear adversários quando as opções de jogadas eram diferentes.

 

O futuro de Rob Gronkowski terá sempre a marca dos New England Patriots. Entrar no Hall of Fame será uma questão de tempo e poderá ser um dos poucos a conseguir fazê-lo à primeira depois de terminar a carreira antes de fazer 30 anos. Gronkowski era especial… e tem uma vida inteira pela frente.

Escócia. O declínio de um dos pioneiros do futebol

O adeus ao futebol de elite em 1998

Defrontou a Inglaterra a 30 de novembro de 1872 naquele que foi o primeiro jogo entre seleções na história do futebol. Nunca conseguiu conquistar uma grande prova mas nos seus tempos áureos era uma presença assídua nas fases finais. A humilhação no Cazaquistão (3-0) na semana passada agravou a agonia que está a ser o século XXI.

 

Saint-Étienne, 23 de junho de 1998. Quando a Escócia entrou em campo para defrontar Marrocos na última jornada do grupo A do Mundial, o cenário parecia animador. A possibilidade de passar da fase inaugural pela primeira vez na história (depois de sete participações em Mundiais e duas em Europeus) era forte, apesar de estar no último lugar.

 

As contas eram simples. O Brasil tinha seis pontos, a Noruega dois e Marrocos e Escócia seguiam no fundo com um. Mas, havendo um Brasil-Noruega no outro jogo, podia pensar-se que os escoceses dependiam apenas de si. Depois de uma derrota com o Brasil (1-2) e do empate com a Noruega (1-1), a seleção de Craig Brown estava confiante.

 

O que se passou a seguir foi um pesadelo. Marrocos adiantou-se logo na primeira parte e seguiu para um triunfo esclarecedor por 3-0. Os africanos também não conseguiram festejar: o Brasil falhou na colaboração e, apesar de Bebeto ter feito o primeiro golo do encontro aos 78 minutos, os noruegueses conseguiram a reviravolta através de Flo (83’) e Rekdal (89’).

 

Não havia forma de prever mas aquele 3-0, quase tão humilhante como o do Cazaquistão, 21 anos depois, foi a despedida da Escócia dos grandes palcos. Desde então, nunca mais voltou a figurar entre os finalistas de uma grande prova e o cenário para o Euro-2020 também não é animador. O que se passou?

 

Envelhecimento sem renovação

Escócia foi o primeiro adversário de Ronaldo num Mundial

A geração dos anos 90 não foi a melhor na história do futebol escocês mas soube culminar com êxito um período áureo que se começou a escrever ainda na década de 70. Entre o Mundial-1974 e o Mundial-1998, só por uma vez os escoceses falharam uma fase final: em 1994. Por outro lado, só nesta década é que conseguiram chegar às rondas decisivas do Europeu: em 1992, ainda com oito equipas, e em 1996, já com 16.

 

O fracasso de 1998 foi estrondoso. Não apenas pelo significado que tem hoje, 21 anos depois, mas pelo que representou logo na altura. Estatisticamente, pode não ter sido a pior participação na história escocesa (em 1954 saiu após dois jogos com 0-8 em golos), mas não ficou muito longe disso, com apenas um único ponto conquistado, dois golos marcados e seis sofridos.

 

O onze apresentado por Craig Brown ajuda a explicar o que se passou no futebol escocês. Numa convocatória em que apenas seis jogadores tinham menos de 28 anos, a equipa que se despediu contra Marrocos tinha Jim Leighton (39) na baliza; Jackie McNamara (24), Tom Boyd (32), Colin Hendry (32), David Weir (28) e Christian Dailly (24) como defesas; Paul Lambert (28), Craig Burley (26) e John Collins (30) no meio-campo; e Kevin Gallacher (31) e Gordon Durie (32) no ataque.

 

As expectativas de renovação eram escassas. Algumas das pedras essenciais do grupo estavam em fase decadente e não apareciam novos talentos capazes de suprir as despedidas. Para o Euro-2000, ainda foram a tempo de procurar uma última oportunidade no play-off, mas caíram aos pés da Inglaterra.

 

De quem é a culpa?

Escócia foi humilhada no Cazaquistão

Como é que uma seleção que se habitou a fazer sempre parte das fases finais, mesmo que sem sucesso, deixou simplesmente de aparecer? É possível que depois de duas ou três gerações de talento, o futebol escocês tenha secado ao ponto de nem com o alargamento da fase final do Europeu, para 2016, tenha havido hipóteses?

 

A evolução no ranking da FIFA é um espelho do problema. Durante a década de 90, os escoceses estiveram sempre no top-40, chegando mesmo a terminar a temporada de 1999 com um brilhante 20.º lugar. A partir daí houve uma quebra profunda, com destaque para o 86.º posto com que terminaram o ano de 2004.

 

As piores classificações no ranking significam piores lotes nos sorteios de qualificação. Com melhores adversários, torna-se mais complicado ter um grupo promissor. É certo que a Escócia encetou uma recuperação brilhante depois de bater no fundo e chegou a ocupar o 13.º lugar em outubro de 2007, mas rapidamente voltou a estar fora do top-40.

 

A nível interno, o futebol escocês passou por uma mudança radical que cortou espaço às novas gerações de talento. A formação deixou de ser uma prioridade e o equilíbrio no campeonato desapareceu. Na década de 80, onde a esmagadora maioria dos jogadores presentes em 1998 foram formados, a liga teve quatro campeões diferentes: Aberdeen e Dundee United juntaram-se aos crónicos Celtic e Rangers.

 

Depois, David Murray tornou-se proprietário do Rangers em 1988 e tudo mudou. O investimento louco secou as equipas à volta e a porta dos jogadores estrangeiros abriu-se como nunca antes – aqui a mudança da lei na década de 90 também é responsável.

 

A falta de competitividade e a mudança de prioridades mataram a possibilidade de amadurecer os talentos que ainda se iam criando. Sem espaço nas melhores equipas e num campeonato com apenas dois pesos pesados, as possibilidades de amadurecimento natural desapareceram. A Premier League era uma opção mais difícil e queimava etapas. Durante anos, o campeonato escocês serviu de incubadora de talento… agora está limitado a um papel de satélite fraco.

 

A mudança na sociedade também é apontada como uma causa para este fenómeno. O governo nunca encarou o problema de frente e as mudanças na educação, com os professores a serem ilibados de responsabilidades extracurriculares, fez com que o desporto escolar – sobretudo o futebol – sofresse um enorme rombo.

 

Os clubes tinham agora um monopólio indesejado na formação de futebolistas, num período em que as prioridades – e oportunidades – mudavam radicalmente a cada temporada. Jogar futebol de forma organizada deixou de ser visto como algo natural, o número de participantes baixou e as consequências anunciaram-se à distância.

 

Hoje, a Escócia é o patinho-feio das ilhas britânicas. O tempo em que discutia com a Inglaterra a supremacia do futebol mundial é uma memória do passado que poucos têm. E as presenças nas fases finais servem agora, mais do que tudo, como uma humilhação. O Euro-2016 é a prova disso: contou com a Inglaterra, a Irlanda, a Irlanda do Norte e o País de Gales. A Escócia viu de fora, ultrapassada no seu papel e cada vez mais esquecida.

Hugo Koblet. O primeiro estrangeiro a vencer o Giro

Koblet tinha sempre um pente à mão

Apareceu em Itália sem avisar e não se importou com a grandeza de nomes como Fausto Coppi e Gino Bartali. O galã do ciclismo passou a fronteira da Suíça para deixar um país inteiro aos seus pés. Podia ter sido o início de uma brilhante carreira mas…

 

«Não estava à espera de ter de lidar com outro Fausto Coppi», desabafou Gino Bartali durante a 33.ª edição da Volta a Itália em bicicleta. Vencedor da prova em 1936, 1937 e 1946, o italiano de então 35 anos sentia que aquela seria a sua última oportunidade para vencer perante o seu público.

 

Em 1947 e 1949, Bartali fora segundo atrás de Coppi. Agora, em 1950, depois de o grande carrasco ter fraturado a pélvis durante a nona etapa, o objetivo parecia estar à mão de semear. O problema foi não contar com o aparecimento de Hugo Koblet, um suíço de 25 anos a participar na sua primeira grande competição por etapas.

 

Koblet tinha provas dadas nas corridas de seis dias nos Estados Unidos e em eventos mais curtos na Suíça, mas esta seria uma experiência diferente para a qual ninguém poderia saber se estava preparado. Spoiler alert: estava mais do que preparado.

 

O suíço ameaçou o pódio com a vitória na sexta etapa e subiu à liderança pela primeira vez – nunca mais a largando – depois do triunfo na oitava tirada. Por esta altura, tinha 19 segundos de vantagem sobre Alfredo Martini (2.º), 3’58’’ sobre Fausto Coppi (4.º) e 6’12’’ sobre Gino Bartali (7.º).

 

Vitória estava destinada

Hugo Koblet durante o Giro em 1953

Por outras palavras, por muito que Bartali possa ter lamentado o aparecimento de um novo Coppi, a vantagem de Koblet já existia, e era significativa, quando Coppi caiu durante a nona etapa, curiosamente ganha por Bartali.

 

A superioridade de Koblet nunca foi posta em causa e, à chegada a Roma, a diferença foi de 5’12’’ segundos. A edição do Mundo Deportivo de 14 de junho escreveu que «Koblet demonstrou ser cada vez mais forte com o desenrolar das etapas, resistindo a todos os ataques e sem fraquejar em nenhuma das batalhas».

 

«Foi uma autêntica e grande revelação […]. Coppi ter-se retirado pode ter facilitado o caminho mas a balança de méritos do jovem corredor suíço assinala a extraordinária proeza de ter batalhado contra os restantes ciclistas italianos, catalogados como os mais fortes e combativos da Europa, e ter-lhes vencido em todos os terrenos», continuou.

 

O grande destaque era, ainda assim, a «transcendental efeméride» de ser o primeiro estrangeiro a vencer uma Volta a Itália nos 33 anos de história da prova.

 

Naquelas semanas, nada afetou o rendimento de Koblet. Na penúltima etapa, furou quatro vezes e conseguiu recuperar sempre a ligação com o grupo da frente. Por esta altura, já Bartali era um homem resignado e conformado em ser segundo uma vez mais.

 

Entrada no ciclismo «por obrigação»

 

Hugo nasceu em Zurique em 1925 no meio de uma família de padeiros. Não conseguiu fugir ao trabalho no negócio familiar e, como irmão mais novo, estava destinado aos trabalhos mais chatos, desde varrer o chão a levar as encomendas, de… bicicleta.

 

Foi assim que nasceu o amor pelo ciclismo. Quando fez 17 anos, deixou a padaria e foi trabalhar para uma oficina num velódromo local. Deu nas vistas numa corrida de dez quilómetros, em terreno montanhoso, e Leo Amberg, um antigo vencedor do Tour, convenceu-o a levar a modalidade mais a sério.

 

Venceu 70 corridas durante a carreira. O Giro-1950 foi o primeiro grande destaque mas também conquistou o Tour no ano seguinte. A partir daí, apesar do segundo lugar no Giro em 1953 e 1954, o futuro começou a fugir-lhe por entre os dedos.

 

Inexplicavelmente – fala-se de tudo desde doping a uma doença venérea – deixou de ter força nas etapas mais complicadas e ficou reduzido à insignificância. O galã do ciclismo, que fazia questão de se apresentar sempre impecavelmente, antes, durante e depois das corridas, até no casamento começou a perder. O divórcio foi uma inevitabilidade e em 1964 implorou à ex-mulher por uma segunda oportunidade, mas esta recusou.

 

Koblet tinha deixado o ciclismo há seis anos, tinha ouvido um não da mulher e estava atolado em dívidas. Mais perto do final do ano, a 6 de novembro de 1964, com apenas 39 anos, morreu num acidente de viação ao volante de um Alfa Romeo.

 

Testemunhas garantem que o suíço viajava a grande velocidade, superior a 100 quilómetros horários, e passou duas vezes pela árvore fatal momentos antes de colidir frontalmente com ela, como se estivesse a ganhar coragem para acabar com a vida. 

Dick Advocaat. A herança no Rangers foi pior que o legado

Dick Advocaat iniciou três épocas ao serviço do Rangers

Treinador holandês chegou à Escócia depois de o clube protestante ter falhado o décimo título consecutivo. O objetivo era a glória europeia e o dinheiro não parou de pingar durante três épocas. O endividamento foi uma das causas para o desaparecimento do clube em 2012.

 

A chegada de Dick Advocaat a Glasgow em 1998 começa a contar-se dez anos antes, quando David Murray comprou o clube por seis milhões de libras. A equipa tinha sido campeã apenas uma vez nessa década, em 1987, mas os sinais eram positivos. O Celtic estava numa situação financeira debilitada, os clubes fora da órbita de Glasgow caminhavam para a insignificância e o novo proprietário prometia investimento, muito investimento.

 

Primeiro com Graeme Souness, até 1991, e depois com Walter Smith, até 1998, o clube entrou num dos melhores períodos desportivos da sua história. Foi campeão na primeira temporada de Murray, em 1989, e construiu o maior período hegemónico dos protestantes na liga durante os nove campeonatos consecutivos conquistados entre 1989 e 1997.

 

A última temporada de Walter Smith foi um fiasco. David Murray e o Rangers tinham a obsessão de ganhar o decacampeonato, batendo o recorde estabelecido pelo maior rival entre 1966 e 1974. Mas, por esta altura, já o Celtic tinha recuperado o suficiente para evitar que história fosse feita: recuperou o título ao terminar o campeonato com dois pontos de vantagem sobre o Rangers.

 

A saída de Gascoigne, no último terço da época, para o Middlesbrough, por 3,45 milhões de libras, não explica tudo. Uma vez mais, a tendência tinha sido esmagadoramente maior no sentido de compras do que de vendas. Em Itália, Murray recrutou Lorenzo Amoruso à Fiorentina por cinco milhões, Sergio Porrini à Juventus por quatro, e Marco Negri ao Perugia por 3,7 (a custo zero, por exemplo, chegaram o ex-Benfica Jonas Thern e o também italiano Gennaro Gattuso). No total, foram gastos 14,5 milhões de libras e faturados menos de um terço em vendas. Os sintomas estavam todos lá.

 

Advocaat e a nova obsessão

Glória nacional não chegou à Europa

A impaciência de Murray subiu de tom após a perda do décimo título consecutivo. Aquela fora a sua primeira obsessão desde o momento em que assumiu o controlo do clube e agora, novamente na estaca zero, foi obrigado a encontrar uma nova forma para mostrar que o Rangers era superior ao Celtic… historicamente.

 

O Celtic tinha nove títulos consecutivos. O Rangers tinha nove títulos consecutivos. O Celtic tinha uma Taça dos Campeões Europeus conquistada (1967), o Rangers tinha… apenas uma Taça das Taças (1972).

 

A glória europeia tornou-se o novo objetivo do Rangers e Murray sabia que tinha de tomar passos concretos nesse sentido. Para começar, fez uma promessa arrojada: «Por cada cinco libras que o Celtic investir, o Rangers vai investir dez».

 

O holandês Dick Advocaat chegou do PSV e foi visto como o treinador que ia ajudar o clube a dar o passo seguinte nas competições europeias. Desde 1988 os resultados eram terríveis e só por uma vez foram vistos como satisfatórios. Em 1992/93, o Rangers ficou em segundo lugar no grupo A com oito pontos. O Marselha, com nove, seguiu para a final e derrotou o Milan. Este era o período em que as equipas disputavam duas rondas a eliminar antes de se dividirem em dois grupos de quatro para encontrar os finalistas.

 

Liberdade total nas contratações

 

A aposta em Dick Advocaat era muito simbólica. Em mais de 100 anos de história, o clube nunca tinha tido um técnico estrangeiro no seu comando e a expectativa era enorme.

 

O clube viu sair jogadores como Brian Laudrup, Gennato Gattuso e Joachim Björklund mas não fez mais do que 7,6 milhões de libras. Em sentido oposto, gastou praticamente 36 milhões de libras. Andrei Kanchelskis foi a contratação mais cara (5,5 milhões pelo jogador da Fiorentina), mas Van Bronckhorst, Arthur Numan, Gabriel Amato e Colin Hendry também representaram investimentos iguais ou superiores a quatro milhões.

 

Começaram com um passo em falso, perdendo na capital com o Hearts, mas partiram para uma temporada arrasadora dentro de portas: campeões com seis pontos de vantagem sobre o Celtic, vencedores da Taça da Escócia (1-0 vs. Celtic) e da Taça da Liga (2-1 vs. St. Johnstone) E na Europa? O clube foi eliminado na terceira ronda da Taça UEFA, pela Parma, após eliminar Shelbourne e PAOK (pré-eliminatórias), Beitar e Leverkusen.

 

Na época seguinte, e pela primeira vez desde 1992, o Rangers teve uma balança comercial positiva no mercado de transferências. Michael Mols (quatro milhões) foi a única contratação significativa e, em sentido contrário, saíram Amato (3,75) e Guivarc’h (3,4). O lucro total entre entradas e saídas não atingiu os dois milhões e meio. Havia a confiança de que a equipa tinha uma base sólida. Afinal, vencera todas as competições internas e na UEFA só fora eliminado pelo futuro campeão.

 

Mais do mesmo e impaciência crescente

David Murray com Dick Advocaat

O campeonato em 1999/2000 foi um passeio para o Rangers, que venceu o título com 21 pontos de vantagem sobre o Celtic. O Aberdeen foi a figura nas outras duas competições: o Rangers venceu-lhe a final da Taça da Escócia mas foi eliminado nos quartos da Taça da Liga.

 

E na Europa, o mais importante? Dick Advocaat vingou-se do Parma na terceira pré-eliminatória e conseguiu o apuramento para a fase de grupos. Contra Bayern Munique, Valencia e PSV, terminou na terceira posição e saiu para a Taça UEFA. Aí, caiu logo em dezembro na terceira ronda, no desempate por penáltis com o Dortmund.

 

David Murray ficou impaciente e decidiu dar uma última ajuda a Advocaat. O saldo das contratações e vendas na época seguinte voltou a ser arrasador no prejuízo: praticamente 31 milhões gastos e apenas 4,2 milhões faturados. Mais do que isso, o clube fez história ao pagar doze milhões de libras ao Chelsea pelo norueguês Tore André Flo.

 

Um trio de holandeses, composto por Ronald de Boer, Bert Konterman e Fernando Ricksen, significou também um investimento de 12,4 milhões. Era o tudo ou nada para a equipa. Não havia mais margem para errar.

 

Não estava destinado. A participação europeia foi idêntica: apuramento para a fase de grupos, terceiro lugar na Liga dos Campeões e eliminação à primeira na Taça UEFA contra alemães (Kaiserslautern desta vez). Mas o pior veio a nível doméstico: além de perder contra o Dundee United nos quartos da Taça da Escócia e para o Celtic nas meias da Taça da Liga, o Rangers não conseguiu somar o tricampeonato e ficou a 15 pontos do rival de Glasgow.

 

Verdade seja dita, Dick Advocaat já não era o treinador desde dezembro. Assim que a equipa caiu na Europa, disse adeus à ilha e voltou para a Holanda. As eliminações nas taças domésticas já foram com o sucessor Alex McLeish.

 

Herança pior do que o legado

Tore Andre Flo foi a contratação mais cara na história

David Advocaat falhou e contribuiu para o fim do Rangers. Venceu dois campeonatos e três taças mas falhou sempre, de forma idêntica aos seus antecessores, na UEFA. E teve milhões para gastar como nenhum outro antes dele e nenhum outro depois dele.

 

A janela de oportunidade de David Murray foi-se fechando mas, para muitos, este período de loucura durante os anos 90 foi a principal razão da destruição do Rangers e desaparecimento em 2012. Gozando de boa reputação entre os bancos, somou dezenas de milhões de empréstimos que nunca poderia ter forma de pagar.

 

O endividamento foi apenas uma das razões. Durante o período louco, o Rangers usou e abusou de um esquema de fuga ao fisco, pagando aos jogadores através de um fundo que pertencia a David Murray. Quando o clube foi acusado pelo fisco, caiu numa espiral negativa que acabaria com a insolvência.

 

Dick Advocaat sempre recordou o seu período com normalidade. Achava que tinha liberdade para gastar e realçou que os jogadores contratados tinham qualidade e podiam ser vendidos por igual ou superior valor. Sendo verdade, a realidade acabou por ser muito diferente, uma vez que a corda foi esticada até ao limite.

 

O holandês só participou em dois anos e meio dos mais de vinte da gestão de David Murray, mas será sempre recordado como o expoente máximo do período louco que destruiu um clube à conta de uma obsessão de ser melhor do que o rival. O complexo do proprietário saiu caro e hoje, 21 anos depois da chegada de Advocaat, o Celtic segue com sete títulos consecutivos. Até onde vai chegar?

Heike Drechsler. Saltar para a glória… entre duas Alemanhas

Heike Drechsler nos Jogos Olímpicos de Barcelona

Foi um produto da RDA e chegou a ser eleita como deputada, mas a maior glória só chegou após a queda do Muro de Berlim. Especialista nas provas de velocidade e no comprimento, fez história nos Jogos Olímpicos de Sydney… com 35 anos.

 

É difícil para alguém, qualquer pessoa, que tenha desenvolvido consciência durante a década de 90 ignorar o nome de Heike Drechsler. A maior figura do atletismo alemão dominava por onde quer que passasse e tinha uma afirmação fonética no apelido – independentemente da forma como se quisesse pronunciar – que intimidava.

 

O batismo de fogo de Drechsler surgiu em 1983, no Mundial de Helsínquia, quando era conhecida por Heike Daute. Tinha apenas 18 anos e sentia-se nervosa por ter conseguido entrar para uma seleção historicamente forte. Apesar de especialista no comprimento, estava ainda mais intimidada pela romena Anisoara Cusmir, dois anos mais velha, e maior favorita na competição.

 

«Eu era muito tímida e havia uma grande adversária da Roménia. A marca dela era muito melhor do que a minha, fiquei estupefacta. Tivemos uma bonita luta na competição e eu ganhei», recordou anos mais tarde, numa entrevista à IAAF.

 

Ganhar o Mundial em Helsínquia, com 18 anos, foi o momento mais importante da sua carreira. «Foi importante, aprendi a não ter medo de grandes nomes ou de grandes resultados», disse. A partir daí, nada mais seria o mesmo.

 

A aposta da RDA no atletismo – e em todas as edições de Jogos Olímpicos – fazia de Heike Drechsler uma das suas maiores esperanças. A confiança era de tal forma forte que em 1984 foi eleita para a Volkskammer, o parlamento da RDA. Esse foi também o ano em que foi obrigada a deixar de lado a estreia nos Jogos Olímpicos, devido ao boicote do bloco de leste a Los Angeles-1984. A romena Anisoara Cusmir conquistou o ouro.

 

Transição para as provas de velocidade

Sydney-2000 tornou Drechsler única

A temporada de 1986 incluía os Europeus de Estugarda e Heike Drechsler decidiu que estava na hora de ir mais longe. Juntou os 100 e os 200 metros ao seu cartão de visita e os resultados foram imediatos, sobretudo na distância maior.

 

A competir na Alemanha rival, não só foi campeã europeia no salto em comprimento, com 18 centímetros de vantagem sobre a soviética Galina Chistyakova, como venceu a prova dos 200 metros, pulverizando toda a concorrência e igualando o recorde mundial de Marita Koch (21,71 segundos). A RDA também venceu os 100 metros, por Marlies Göhr, mas Drechsler não conseguiu fazer parte do grupo de três atletas que representaram a seleção.

 

A evolução de Heike Drechsler nas provas de velocidade durante o primeiro ano foi sensacional: passou dos 11,75 para os 10,91 segundos nos 100 metros e dos 23,19 para o recorde mundial de 21,71 nos 200 metros. E, claro, no comprimento continuava a ser a rainha.

 

Quando conseguiu finalmente a estreia em Jogos Olímpicos, em Seul-1988, o currículo da alemã já impunha um largo respeito, com mais duas medalhas no Mundial de Roma, disputado no ano anterior.

 

A Coreia do Sul seria, ainda assim, um ano especial. Não só pela estreia, mas por ter conseguido uma medalha em cada uma das três provas. Falhou o título, é verdade, mas saiu do continente asiático com a prata no comprimento, batida por Jackie Joyner-Kersee por 18 centímetros, e o bronze nos 100 metros e nos 200 metros.

 

A rivalidade com Jackie Joyner-Kersee foi mesmo um dos temas daquele período. «Era sempre uma grande batalha. Era uma grande lutadora e precisava dela para fazer grandes resultados. Com ela, havia sempre uma grande tensão no ar», explicou.

 

O fim do muro e a união das Alemanhas

Comprimento era a grande especialidade

O currículo de Heike Drechsler como atleta da República Democrática da Alemanha saldou-se com três medalhas olímpicas, três mundiais e quatro europeias. Quando o muro caiu e as duas seleções se juntaram, a espinha dorsal veio do oriente.

 

Ao contrário do futebol, onde nomes como Matthias Sämmer, Ulf Kirsten, Andreas Thom e Thomas Doll eram exceções, no atletismo a tradição estava do lado de leste. E, apesar de estar a defender um novo nome, Drechsler não deixou de ser uma figura forte… cada vez mais.

 

Obrigada a debater-se com acusações de doping e de fazer parte do leque de informadores da Stasi (nos anos 80, pelo menos um terço dos jogadores de uma equipa de futebol era, de alguma forma, informador da polícia de estado), Drechsler levou a sua superioridade para a pista.

 

As medalhas acumularam-se mas nenhuma foi tão importante como o ouro olímpico. Primeiro em Barcelona, batendo, entre outras, a rival Joyner-Kersee, e depois, oito anos mais tarde, em Sydney.

 

Quando chegou à Austrália, Heike Drechsler tinha 35 anos e todos pensavam que estava no ocaso da carreira. Tinham razão, claro, mas o ocaso continuou a ser suficiente para se tornar a primeira atleta da história a acumular mais do que uma medalha de ouro olímpica na prova de comprimento feminino.

 

Não chegou aos sete metros (venceu com 6,99) mas isso era o menos importante. «Foi uma loucura. Tinha 35 anos e foi um ano muito difícil. Estive lesionada, o treino não correu bem, foi preciso dar alguns passos atrás na preparação. E depois, na competição, tudo resultou, e de repente era campeã olímpica novamente. Foi mesmo uma loucura.»

 

Os 7,48 metros registados por Heike Drechsler por duas vezes (Neubrandenburg-1988 e Lausanne-1992) continuam a ser a terceira melhor marca na história do salto em comprimento. Apenas a soviética Galina Chistyakova e a norte-americana Jackie Joyner-Kersee fizeram melhor.

Kurt Landauer. O homem que não deixou os jogadores do Bayern passar fome

Kurt Landauer foi três vezes presidente do Bayern

Jogou no Bayern e foi presidente do clube em três ocasiões diferentes, entre 1913 e 1951. Judeu, viu o seu futuro no clube afetado pelos nazis e no período pós-guerra pôs em prática uma ideia para que os jogadores não passassem fome: os «Kalorienspiele». Por outras palavras, a equipa andava de terra em terra a jogar futebol em troca de comida.

 

A Alemanha no pós-guerra não tinha para onde se virar. Em cada cidade, esquina e ruela, o rasto de destruição do período nazi e bombardeamento das forças aliadas estava presente. Com os acessos limitados pela guerra, a alimentação tornou-se uma das maiores preocupações de todos.

 

Quando Kurt Landauer assumiu a presidência do Bayern pela terceira vez, em 1947, soube que esta tinha de ser uma das maiores prioridades. O país estava a passar fome e, mesmo quando comia, era quase sempre uma alimentação deficiente. Magros e malnutridos, os alemães precisavam de uma solução. Os jogadores do clube de Munique não eram uma exceção.

 

Landauer jogou com o que tinha: a fama. Hoje as maiores figuras do plantel ganham dezenas de milhões de euros por ano, mas na altura estavam preocupados apenas em comer. Sem comida, eram incapazes de desempenhar o seu papel no campo. A República Federal da Alemanha estava a dar os primeiros passos – muito mais rápidos do que na vizinha Democrática – para um novo futebol e o presidente do Bayern decidiu inovar, criando os Kalorienspiele.

 

A tradução literal é suficientemente esclarecedora: Jogos de Calorias. O princípio era simples: os jogadores faziam uma digressão pela região da Baviera para defrontar equipas locais, formadas por simples habitantes que faziam fila para terem a oportunidade de defrontar alguns dos melhores jogadores do país, parte da equipa campeão da Alemanha em 1932. Quem é que não quereria? Em troca, tinham apenas de apresentar cabazes de comida que fossem suficientes para o plantel se alimentar.

 

O pagamento em géneros alimentares foi uma ideia simples mas que fez a diferença na qualidade de vida dos jogadores. As vilas e aldeias por onde passavam contribuíam para a iniciativa com muito gosto e o sacrifício era mais do que recompensado pela oportunidade de dizer que, um dia, jogaram cara a cara com os jogadores do Bayern Munique.

 

Quem era Kurt Landauer?

Bayern não esquece mítico presidente

Visionário, Landauer foi fundamental na afirmação do Bayern Munique enquanto potência do futebol germânico. Judeu, nascido em 1884, chegou a atuar pelos escalões de formação da equipa, mas abandonou a Alemanha uma primeira vez, em 1901, para ir estudar para a Suíça, em Lausanne.

 

Quando voltou, quatro anos depois, jogar futebol já não estava nos seus planos. Mas a sua formação académica, como banqueiro, abriu caminho para assumir a presidência do Bayern, em 1913.

 

O período era delicado e a Grande Guerra obrigou-o a deixar o cargo e a ir para a frente de combate, defender a Alemanha. Mais tarde, com o fim do conflito, voltou ao lugar que todos julgavam ser seu por direito próprio. Foi reeleito em 1919 e, tirando uma curta paragem em 1922, manteve a posição até 1933.

 

O Bayern cresceu com ele. Foi campeão pela primeira vez em 1932 e beneficiou largamente da visão de Landauer para o futuro. Ignorando a pressão de outros membros, que queriam a construção de um novo estádio, o presidente investiu na equipa, sobretudo na formação.

 

Mais uma vez, o seu futuro foi afetado pela instabilidade política. Os nazis fizeram do Bayern um alvo fácil, e não apenas por ter um presidente judeu. A profissionalização do clube caminhava no sentido contrário da filosofia nazi, que pretendia a consolidação do estatuto amador. Para o regime de Hitler, o futebol profissional não era mais do que uma «conspiração dos judeus».

 

Kurt Landauer não teve outra solução que não demitir-se do cargo. Dentro e fora do desporto, a vida estava difícil para si e também acabou desempregado. Detido pelos nazis, foi enviado para o campo de concentração de Dachau, onde se manteve apenas 33 dias por ter combatido durante a Grande Guerra.

 

Os nazis permitiram que saísse do país em 1939, novamente em direção à Suíça, mas a família ficou toda para trás. Desta feita, o regresso só aconteceu oito anos depois, onde não perdeu tempo a reassumir a presidência pela terceira e última vez. Os Kalorienspiele foram apenas o primeiro passo do reerguer de um clube que hoje é historicamente o melhor do futebol alemão. Landauer deixou o cargo, definitivamente, em 1951, mas o seu legado mantém-se preservado até hoje.

Bill Russell. O dia em que falhou um jogo por causa do… Lamborghini

Bill Russell e Red Auerbach são sinónimos de glória nos Celtics

Celtics jogavam em casa com os Warriors num dia marcado por uma tempestade de neve arrasadora. A maior parte dos jogadores foi obrigada a deixar os carros para trás e seguir a pé para o pavilhão mas Bill Russell, treinador/jogador, não quis deixar o seu Lamborghini abandonado numa ponte.

 

Quarta-feira, 15 de novembro de 1967. Os Celtics começaram a temporada com onze vitórias nos primeiros 13 encontros e Bill Russell está determinado em reconquistar o título para a equipa de Boston. Em 1966, Red Auerbach decidiu substituir o cargo de treinador pelo de diretor-geral e convidou Bill Russell, o principal pilar da equipa, para desempenhar a função de jogador/treinador.

 

Não foi a primeira escolha. Antes de Russell, houve três negas: Frank Ramsey, Bob Cousy e Tommy Heinshohn. Bill Russell aceitou e fez história, tornando-se o primeiro treinador negro a assumir uma equipa na NBA. «Se o Red me convidou, é porque acha que sou capaz de orientar a equipa com sucesso.»

 

A primeira época foi um fracasso. Pela primeira vez em nove anos, os Celtics não conseguiram ser campeões. Mas, para 1967/1968, a fasquia voltava a estar elevada e o arranque de época provava que Bill Russell queria ter sucesso nas novas funções.

 

Naquela quarta-feira de novembro de 1967, Russell não apareceu para o jogo com os San Francisco Warriors. «Na minha primeira temporada em Boston, houve uma enorme tempestade que deixou a cidade atolada em neve», contou Bailey Howell.

 

«O John Havlicek ficou preso na ponte Mystic River, deixou a mulher com o carro e correu o resto do caminho. Eu também tive de andar uma milha. O Russell ficou preso na mesma ponte, mas não estava para abandonar o seu Lamborghini.»

 

A história é corroborada por Rick Weitzman. «Estava no meu carro, a pensar no valor da minha multa por chegar atrasado quando vi o Havlicek passar a correr ao meu lado. Perguntei-lhe o que estava a fazer. Ele disse-me para deixar o carro na via de emergência e ir com ele. Estávamos a duas milhas do pavilhão.»

 

Weitzman garante que só conseguiram chegar a horas porque o jogo foi adiado alguns minutos por causa do tempo. «O único que não chegou ao jogo, que acabámos por ganhar, foi o treinador, Bill Russell. O Red Auerbach foi obrigado a treinar a equipa. O Russell só chegou dez minutos depois do final do jogo. “Espero que o treinador Russell multe o seu melhor jogador por faltar ao jogo. E espero que seja um grande valor” foi o que o Red lhe disse.»

 

O jogo também ficou na memória de John Havlicek, um dos jogadores mais importantes na história dos Boston Celtics. «Nunca esquecerei esse dia, em que o Russell era treinador/jogador e falhou um jogo por causa de uma tempestade de neve. O Red teve de sair da bancada para fazer de treinador, e o Wayne Embry foi titular no jogo com os San Francisco Warriors, que tinham o Nate Thurmond», contou.

 

Os Celtics venceram o jogo por 113-110 (Nate Thurmond fez 20 pontos e 23 ressaltos, enquanto Wayne Embry registou 16 pontos e 12 ressaltos), mas Red Auerbach «não foi nada simpático com o Russell».

 

«Como é que podes ser o treinador e não aparecer para um jogo por causa de uma tempestade de neve, enquanto todos os outros conseguiram chegar?», perguntou-lhe. Bill Russell reagiu com alguma vergonha: «Bom, é que o meu Lamborghini…». «O teu Lamborghini?! Esquece esse Lamborghini e arranja um jipe», respondeu-lhe Red Auerbach, secamente.

 

O episódio não passou de uma curiosa nota de rodapé na temporada. Bill Russell não voltou a falhar a jogos, pelo menos por este motivo, e partiu para o seu primeiro título como treinador, derrotando os LA Lakers na final por 4-2. Na época seguinte, alcançou o 11.º título da carreira (nove como jogador apenas e dois como jogador/treinador), com novo triunfo sobre os Lakers, agora por 4-3.

Se não gostam, o que é que lá vão fazer?

Agressão durante o dérbi de Birmingham

Chamemos-lhe idiotas. Talvez grunhos. Podem ser apenas pessoas desesperadas por uma vida que não lhes sorri e que descarregam na experiência de ver um jogo todas as suas emoções negativas. Mas talvez sejam só engraçadinhos, sentindo-se legitimados pelo discurso de ódio, raiva e pretensa rivalidade que prolifera pela internet.

 

É injusto dizer que este é um fenómeno atual. Monica Seles foi esfaqueada durante um jogo de ténis em 1993. E em 2008, depois de um árbitro assistente não ter assinalado posição irregular ao portista ex-benfiquista Cristián Rodríguez, o apelidado Diabo de Gaia decidiu ser videoárbitro por conta própria e invadiu o relvado da Luz para «fazer justiça». As aspas são minhas.

 

Estes dois exemplos são de memória mas certamente que haverá mais, recentes ou antigos. O certo é que esta semana fomos invadidos por dois momentos que têm tanto de escandalosos como de manifestadores de uma terrível sensação de que poderemos estar a caminhar para um universo em que as pessoas, contaminadas por discursos, deixam de ser capazes de se comportar.

 

Houve o episódio durante o dérbi de Birmingham. Inglaterra gosta de apregoar o fair-play mas a história demonstra que casos de violência não são isolados. A diferença é que costumam ser nas ruas francesas durante um Mundial, em finais europeias ou em qualquer outra situação. Desta vez, Paul Mitchell sentiu que podia fazer ainda pior, entrou no relvado e agrediu um jogador do Aston Villa. Resultado? Banido de estádios por dez anos e preso durante 14 semanas, um pouco mais de três meses.

 

O que nos vale é que do outro lado do oceano, nos Estados Unidos, os norte-americanos sabem como viver o desporto, Sobretudo na NBA, onde o respeito pelas vedetas da liga é máximo e tudo corre às mil maravilhas. Pois, era bom que assim fosse, mas na verdade deixou de haver bastiões de moralidade.

 

Esta semana não houve agressões – é preciso ter muita coragem e não é qualquer um que se vira a um gigante dos cestos – mas um adepto dos Utah Jazz decidiu fazer de Russell Westbrook a sua vítima. O adepto teve os seus momentos de glória, com constantes insultos, mas a fama que lhe está associada agora é tudo menos positiva

 

Os Utah Jazz não gostaram da situação e decidiram banir definitivamente o agressor. «Os Utah Jaz não vão tolerar fãs que atuam de forma inapropriada. Não há espaço no nosso desporto para ataques pessoais ou desrespeitos.»

 

A nota divulgada pela equipa vai um pouco mais longe: «Toda a gente merece a oportunidade de ver e disputar um jogo num ambiente seguro, positivo e inclusivo». É assim que devia ser sempre. É assim que muitas vezes não é.

 

Há gente que faz dos eventos desportivos o seu culto de ódio. E assim é há décadas. Sejam os atos de hooliganismo que proliferaram na era de Honecker na RDA ou os sucessivos cânticos xenófobos dos adeptos dos Rangers contra irlandeses e católicos, os exemplos são mais do que muitos. Escondida por baixo de um manto de rivalidade, continua a haver gente que odeia o desporto e que faz destes eventos um festival de impropérios e insultos ao outro lado.

 

Por cá, continuamos a ter ironias com mortes de antigos jogadores e adeptos, provocações insultuosas e um ambiente que não faz muito mais do que refletir o ambiente podre que se vive entre aqueles que deviam dar o exemplo.

 

Em Inglaterra e na NBA, não houve contemplações. Se há gente que demonstra que não tem capacidade para estar num evento desportivo, é castigada e não volta a pôr lá os pés. Não é muito difícil de perceber o recado: se não gostam, se não fazem por aproveitar (o que deve ser aproveitado), o que é que vão lá fazer? Pudesse ser assim em todo o lado.