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É Desporto

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Mariano Rivera. Da pesca da sardinha à unanimidade no basebol

Mariano Rivera

Babe Ruth, Willie Mays, Mickey Mantle, Lou Gehrig, Joe DiMaggio, Cy Young, Ted Williams, Jackie Robinson e tantos outros têm uma coisa em comum: são vistos como os melhores de sempre do basebol mas nenhum deles conseguiu ser eleito para o Hall of Fame por unanimidade.

 

O eterno reconhecimento chegou para todos eles mas conquistar o voto de todos os jornalistas reconhecidos pela associação foi sempre um objetivo utópico. Em 2016, Ken Griffey Jr. esteve muito perto de fazer história mas conseguiu «apenas» 99,32% dos votos. Por outras palavras, três dos 440 jornalistas que votaram não fizeram a cruzinha necessária no nome daquele que foi a primeira escolha do draft em 1987.

 

Esta semana, porém, tudo mudou. O feito que muitos achavam que nunca aconteceria – afinal, se Babe Ruth não foi unânime, ninguém deverá ser -, aconteceu. Mariano Rivera, o panamiano que foi vedeta dos New York Yankees no final do século XX e até 2013, era a figura de proa no lote de candidatos ao Hall of Fame e mereceu a confiança, à primeira oportunidade, de todos os 425 jornalistas que exerceram o seu direito de voto.

 

«Eu já me tinha dado por contente só por ter chegado à Major League Baseball e por ter jogado pelos New York Yankees, e vencer o máximo de campeonatos possíveis. Quando terminei a carreira, pensei se teria uma boa oportunidade de ser um hall of famer, mas isto ultrapassa a minha imaginação. Isto é o pináculo de qualquer jogador de basebol. Chegar lá já é uma honra, mas ser unânime é inacreditável», reagiu Rivera, poucos minutos depois de os resultados serem conhecidos.

 

Os números de Mariano Rivera não deram margem para dúvida: entre 1995 e 2013, foi cinco vezes campeão, venceu o título de MVP da final uma vez e disputou o jogo das estrelas em 13 ocasiões. Quando disse adeus, em 2013, saiu como recordista de saves (652), fazendo dele o melhor closer – e mais famoso – na história do basebol.

 

O medo cénico do senhor Sandman

Uma entrada em campo que afetava adversários

Jorge Valdano timbrou a expressão “medo cénico” durante a década de 80 para se referir ao medo irracional que os adversários tinham quando se deslocavam ao Santiago Bernabéu para defrontar o Real Madrid. Na década seguinte, em Nova Iorque, começou a existir o mesmo com Mariano Rivera.

 

«É o único no basebol que consegue mudar um jogo sentado no banco. Começa a afetar as equipas adversárias logo no quinto inning porque elas começam a pensar que ele está ali, que está quase a entrar. Nunca vi alguém afetar tanto um jogo desta forma como ele», comentou uma vez Alex Rodríguez, companheiro de Mariano Rivera nos Yankees entre 2004 e 2013.

 

Mariano Rivera era assim mesmo. Quando chegou à equipa principal dos Yankees em 1995, assumiu-se como lançador inicial, mas em 1997 já tinha feito a transição completa para closer – aquele que normalmente é escolhido para eliminar os três últimos adversários e garantir o triunfo. E, aí, mostrou ser melhor do que alguém alguma vez tinha sido.

 

Tudo à volta de Rivera era mítico e em 1999 ganhou um novo patamar, quando os responsáveis dos Yankees começaram a tocar «Enter Sandman» dos Metallica sempre que o jogador era chamado ao jogo. Sabem como Red Auerbach sacava do seu charuto assim que entendia que o jogo estava ganho para os Celtics? Emocionalmente, ouvir aquela música tinha o mesmo efeito. A entrada de Rivera era sinónimo de triunfo garantido.

 

Das origens humildes do Panamá à sorte no recrutamento

Família de Rivera esteve sempre ligada à pesca

A vida de Mariano Rivera demorou até ter o selo do basebol na carreira. De uma família muito humilde, a paixão pelo desporto era dividida entre duas modalidades: o basebol e o futebol. Mas não passava disso, uma paixão. Mariano tinha de ajudar a família e assim que teve tamanho suficiente começou a ajudar o pai na pesca da sardinha.

 

Um dia, o barco naufragou e, já depois de o seu tio ter morrido num acidente semelhante, Rivera decidiu que aquela vida não era para ele. Afinal, sempre desejara ser mecânico. Nas horas livres continuava a jogar futebol mas as sucessivas lesões nos tornozelos e joelhos forçaram-no a decidir-se pela outra paixão.

 

Mariano Rivera jogava como shortstop e entrou no universo de observações de um olheiro dos Yankees. Reprovou: dificilmente teria qualidade para chegar à elite. Mas, de repente, perante a lesão de um lançador, tudo mudou. O treinador pediu a Rivera para ocupar a posição vaga e o sucesso foi imediato. A notícia correu mundo e chegou à atenção dos Yankees, que voltaram a observar o jogador e chegaram a acordo para um contrato amador em 1990, com um prémio de assinatura de 2500 dólares.

 

A adaptação aos Estados Unidos foi difícil. Rivera não sabia falar inglês e nenhum dos seus colegas na equipa-satélite dos Yankees falava castelhano. A única solução para comunicar com alguém era falar com a família, mas esta era tão pobre que não tinha telefone, o que obrigava o jogador a enviar uma carta, sendo forçado a esperar vários dias até ter uma resposta.

 

O caminho até à equipa principal dos Yankees foi tortuoso. Na altura, era um lançador inicial com uma margem de evolução promissora mas com um rendimento sofrível. Quando sofreu uma lesão grave num ligamento, a equipa chegou a perder a esperança nele e deixou-o vulnerável a ser recrutado por outras equipas durante a expansão de 1992, que abriu caminho para a entrada dos Colorado Rockies e dos Florida Marlins. Ninguém apostou em Rivera.

 

Momentos maus tão famosos como os bons

Red Sox aproveitaram falha de Rivera

A aura de infalível de Mariano Rivera contribuiu para que os momentos maus se tornassem ainda mais mediáticos. Eram tão poucos que hoje ainda será possível contar apenas pelos dedos de uma mão aqueles que verdadeiramente importaram.

 

Estamos a falar de um jogador com uma estatística impensável: «Na história da humanidade, houve mais homens a andar na lua (12) do que a marcar um ponto a Mariano Rivera nos playoffs (11)», leu-se esta madrugada nas redes sociais um pouco por todo o lado.

 

O primeiro episódio relevante surgiu em 2001. No jogo sete da World Series, contra os Arizona Diamondbacks, Rivera entrou no nono inning com a equipa a ganhar e um erro num lançamento abriu caminho para a derrota. Poderia ser um momento definidor, mas o jogador sempre soube dar a volta para conseguir uma nova interpretação.

 

«Estou contente por termos perdido a World Series porque isso significa que ainda tenho um amigo.» A frase pode parecer estranha mas diz respeito à forma como afetou os planos de Enrique Wilson. Tivessem os Yankees vencido o troféu, o colega dominicano teria ficado mais uns dias em Nova Iorque para a celebração e só teria embarcado de volta para o seu país num voo da American Airlines que caiu e matou todas as 260 pessoas a bordo.

 

Mais tarde, em 2004, chegou a série mais famosa da história. Os Yankees estavam perto de «varrer» os Red Sox na final da Liga Americana, mas Mariano Rivera não conseguiu manter a vantagem e abriu caminho para a primeira reviravolta de 0-3 para 4-3 em jogos. Com uma série para esquecer, Rivera tornou-se uma figura estranhamente acarinhada pelos adeptos de Boston e no ano seguinte chegou a ser aplaudido de pé no Fenway Park. Afinal, as suas exibições, na maior parte das vezes infalíveis, tinham permitido à equipa dar um passo decisivo para quebrar um jejum de 86 anos sem campeonatos. Rivera entrou no jogo e agradeceu, sempre com bom humor.

 

Os erros, poucos, nunca conseguiram afetar a mente de Rivera. O jogador sabia que seria sempre mais importante começar a pensar no amanhã do que continuar preocupado com o ontem. Esta capacidade de regeneração fez com que fosse capaz de reagir aos momentos maus, fossem lesões ou jogos menos conseguidos, e construir um legado inatacável ao terminar a carreira.

 

Agora, seis anos depois e na primeira vez que surgiu como candidato ao Hall of Fame, os jornalistas confirmaram a ideia: Mariano Rivera é especial. Pode não vir a ser lembrado no mesmo lote que Babe Ruth, Willie Mays e outras estrelas imortais do basebol, mas será sempre o primeiro jogador a ser votado por unanimidade.

Stanley Ketchel. O irónico fim do Assassino do Michigan

Stanley Ketchel inconsciente no combate com Jack Johnson

Sugar Ray Robinson, Muhammad Ali, Mike Tyson e Evander Holyfield são nomes que nos habituámos a ler e reconhecer como grandes figuras do boxe. E um norte-americano de origem polaca chamado Stanley Ketchel? É natural que o nome diga pouco. Afinal de contas, morreu em 1910 e o melhor que conseguiu foi um título de pesos-médios num total de 64 combates e 51 vitórias (48 por KO).

 

O palmarés pode não ser o mais impressionante, mas é preciso ter em conta que o fez até aos 24 anos, altura em que foi assassinado. Mas já lá vamos, esta história é a de um assassino, o do Michigan, e não tanto a de um assassinato.

 

Nascido em 1886, em Grand Rapids, no Michigan, Ketchel começou a combater pouco depois dos 15 anos, quando saiu de casa. Apesar de considerado um “menino da mamã”, Stanley partiu à aventura até ao Montana. O dono do bar onde trabalhava organizava combates e, ao aperceber-se da paixão de Ketchel, incluiu-o no programa. Foi assim que em 1903 Stanley teve uma entrada triunfante nesse mundo. O adversário era Kid Tracy, mas não teve tempo para o conhecer. Ketchel entrou no ringue, deitou-o abaixo no primeiro round e alcançou a primeira de muitas vitórias.

 

O seu estilo era mesmo assim: repentino, agressivo e demolidor. Bert Randolph Sugar, historiador de boxe, define-o como «um animal no ringue». «Com os dentes cerrados e olhos raivosos, parte para o adversário e não descansa enquanto não dá cabo dele. É um daqueles lutadores do tempo dos Neandertais, que dão um golpe no adversário no ringue e já estão de volta ao balneário antes que ele caia. Tinha confiança na sua força», acrescenta.

 

Há ainda quem diga que Ketchel tinha um método muito peculiar: imaginava que a mãe tinha sido insultada pelo adversário. A mãe foi sempre uma das grandes paixões da sua vida e a razão das últimas palavras antes de morrer: «Sinto-me cansado. Levem-me para perto da minha mãe».

 

Ketchel só morreu em 1910, mas foi um ano antes que a vida começou a mudar, num combate contra o campeão de pesos-pesados Jack Johnson, o mesmo que levou John McCain a pedir a Barack Obama que lhe fosse perdoado um crime postumamente. O combate de exibição estava combinado e o objetivo era durar até ao fim, para criar mais lucro. Mas Ketchel fartou-se e deitou Johnson ao chão com um golpe inesperado. O adversário levantou-se e respondeu na mesma moeda: deixou Ketchel inconsciente e sem um dente.

 

Ketchel esteve vários meses sem combater e em setembro de 1910 aceitou o desafio do amigo Rollin Dickerson para trabalhar no seu rancho. Foi lá que conheceu Goldie Smith e Walter Smith, responsáveis pela sua morte. A primeira serviu-lhe o pequeno-almoço numa cadeira diferente da habitual para estar de costas para a porta onde o segundo entraria para o matar com um tiro de pistola que lhe perfurou um pulmão.

 

Porquê? Não gostou de ser repreendido por ter tratado mal um cavalo. Em tribunal, no entanto, Goldie Smith acusou Ketchel de a ter tentado violar, mas não evitou a condenação de ambos. Dickerson fez tudo para salvar a vida do amigo e fretou um comboio para o levar ao hospital de Springfield, mas não conseguiu evitar a sua morte durante o caminho.

O alvo nas costas de Marcelo Bielsa

Marcelo Bielsa

A legião de fãs de Marcelo Bielsa e da sua filosofia fazem dele um sucesso instantâneo por onde quer que passe. Até pode não apresentar resultados e sair poucos dias depois, mas o impacto que provoca a simples notícia de que está em negociações com um clube não deixa ninguém indiferente.

 

Quando no início do verão chegou a acordo com o Leeds United com o objetivo de devolver o clube à Premier League, as primeiras dúvidas não demoraram a aparecer. Será que seria capaz de impor o seu estilo num campeonato como o Championship? Será que os jogadores iam encaixar no seu estilo obsessivo? Como é que os adversários iriam reagir? E os adeptos?

 

Hoje, seis meses depois, o Leeds United lidera a tabela classificativa e é, sem grande surpresa, o maior favorito à subida de divisão. Mas a polémica que nasceu com a confissão de que o argentino tinha alguém a observar os treinos dos adversários – depois de um triunfo frente ao Derby County de Frank Lampard – pode ter tornado ainda mais difícil o objetivo.

 

Se o segredo é a alma do negócio, Bielsa decidiu varejar a colmeia sem medo das consequências. O pânico instalou-se, chegando mesmo a ser pensado que ia apresentar a demissão depois de ter marcado uma conferência de imprensa extraordinária, mas o que se seguiu foi a forma que Bielsa arranjou de ridicularizar os críticos e os adversários.

 

Ao dizer que pode não saber falar inglês mas consegue falar sobre as 23 equipas adversárias no Championship, o argentino está, também, a rejeitar um processo de aculturação que os britânicos gostam de sentir que existe ao receber estrangeiros.

 

Há muito que a xenofobia britânica no futebol teve de ser superada, sobretudo na Premier League, à conta de estrelas dentro das quatro linhas e líderes que fazem a diferença fora delas, como Guardiola, Mourinho, Wenger, Pochettino, Sarri e muitos outros ao longo dos anos.

 

Mas a resistência continua a existir. E é muito maior no Championship, onde o futebol ainda é maioritariamente britânico, do que na Premier League. Ao mostrar a sua faceta sabichona no Championship, Bielsa mandou um recado bastante claro à concorrência: a de que sabe tudo o que precisa, de que não há segredos que possam ser mantidos com ele no campeonato.

 

Este desafio ao estatuto dos ingleses pode trazer consequências devastadoras. Esta heresia, com contornos de desrespeito pelos colegas de trabalho, é apenas um traço da personalidade de Bielsa mas poderá tornar o alvo nas costas do argentino ainda maior.

 

Se há coisas que os britânicos sempre foram pródigos a fazer – seja no futebol, no desporto em geral ou na história da nação – foi a capacidade de se unirem contra ameaças exteriores.

 

Hoje, mais do que nunca, Bielsa tornou-se uma ameaça para os britânicos. Cada semana de sucesso do argentino será vista como um acentuar da incompetência de todos os outros. A forma como um homem chegou a Inglaterra, ignorou a língua, dominou um campeonato visto como difícil e partiu sem dificuldades.

 

Depois dos títulos de um espanhol no Newcastle (Rafa Benítez-2017) e de um português no Wolverhampton (Nuno Espírito Santo-2018), um eventual sucesso estrondoso de Bielsa poderá fazer recuar ainda mais as linhas da resistência local. Mas, ao contrário do argentino, os dois ibéricos nunca instigaram os ânimos. Bielsa fê-lo e sem pudor. Até maio valerá tudo.

Tirsense. São os adeptos que fazem um clube grande

Tirsense-Lousada levou milhares ao estádio

«Mas você vem de onde?», perguntou-me sem contemplações assim que ouviu o meu sotaque lisboeta a perguntar se havia algum bilhete disponível. Ainda não era meio-dia em Santo Tirso e já tínhamos chegado ao Estádio Abel Alves de Figueiredo. A porta do estádio estava aberta, decidimos arriscar e fomos direito ao lado de dentro da bilheteira, onde estavam dois homens e uma mulher.

 

Pensei que era a oportunidade perfeita e tentei a minha sorte. A pergunta provocou um festival de recordações no meu cérebro. Apeteceu-me responder que vinha do passado. De uma era em que o Tirsense se notabilizou por duplas, seja pelos futuros jogadores do Benfica (Paredão e Marcelo) ou pelas contratações mundialistas Daoudi (Marrocos) e Siasia (Nigéria). De uma era em que o Tirsense foi o adversário de um Robson em estreia pelo Sporting (0-0 sem fazer uma única substituição) ou em que derrotava o FC Porto com contundência (3-1). E em que Caetano era rei. Não disse, optei pela verdade. «Vim de Lisboa. Vim de propósito para o jogo», expliquei.

 

O Tirsense-Lousada pode ter sido um jogo da distrital do Porto mas começou a merecer atenção nacional no início da semana. A iniciativa era clara: trazer uma tarde de futebol à antiga ao Abel Alves de Figueiredo. Quiçá inspirados pelo exemplo do Estrela-Belenenses do início de janeiro, responsáveis do clube e o patrocinador Bazar Desportivo apostaram na emissão de cinco mil bilhetes duplos para distribuir gratuitamente entre os interessados.

 

O Lousada era o adversário perfeito. Era o rival direto na luta pelo segundo lugar e prometia trazer 500 adeptos para a festa. Sim, podia ser um jogo do campeonato distrital mas a pressão era de primeira liga. E, uma vez mais, demonstrou-se que um clube não se descreve pela divisão em que está mas sim pela dimensão que os adeptos lhe dão. De nada vale estar entre a elite se não se consegue gerar um burburinho destes quando é preciso um impulso extra. Longe da era dourada, o Tirsense fez a chamada e as pessoas apareceram, demonstrando que o futebol está vivo e recomenda-se em Santo Tirso.

 

Fila para entrar e uma torneira que nunca fechou

Abel Alves de Figueiredo fez lembrar outros tempos

A informação oficial dizia que as portas abriam uma hora antes. O pequeno atraso permitiu perceber que a tarde ia ser um sucesso. Um amontoado de pessoas começou a juntar-se e, assim que o portão de ferro abriu, não demorou muito até haver uma fila. Faltavam cerca de 45 minutos para o apito inicial e a fila não desapareceu.

 

Na entrada preferencial para a bancada principal, o fluxo de pessoas a entrar parecia o de uma torneira que não fechava. Vinham umas atrás das outras e, minuto após minuto, a bancada parecia cada vez mais cheia. Havia homens, mulheres, crianças e até carrinhos de bebés. As pessoas conheciam-se e cumprimentavam-se, recorrendo ao velho lugar-comum do tempo para dois dedos de conversa. «Está frio, não está?», perguntava um. «Não! Está um calor soviético», respondia outro.

 

O branco da bancada foi substituído pelo preto das roupas. «Há jogos da primeira liga que não metem tanta gente», observava um adepto enquanto admirava a tal torneira sem arranjo. Enquanto no relvado, a mascote – o Tirso – e as equipas cumpriam as suas tarefas pré-jogo, na bancada do lado dos balneários, a claque do Tirsense – Juve Negra – afinava cânticos e mostrava o lema: «Que a nossa paixão seja a vossa inspiração».

 

Num setor da bancada do peão, começaram a aparecer os primeiros adeptos do Lousada. Os dirigentes tinham avisado que a equipa não ia estar desapoiada e a promessa foi cumprida. «Somos Lousada», lia-se numa tarja afixada à frente das vozes mais pujantes e que tentavam, da melhor maneira possível, abafar a clara inferioridade numérica no Abel Alves de Figueiredo.

 

Rrrrrrrrrrrrrola a bola e a pureza do futebol

Tirsense-Lousada

O pontapé de saída matou qualquer tipo de nervosismo que pudesse existir. Quando duas forças se contrariam num relvado, não importa se os clubes se chamam FC Porto, Tirsense, Boavista ou Lousada. Há uma bola, onze jogadores de cada lado e milhares de adeptos à procura do golo que os faça explodir de alegria.

 

Há quem se concentre nos resultados dos jogos que vai ouvindo através do rádio e quem discuta apaixonadamente em que divisão está o Trofense. Dentro de campo, o sinal mais é do Tirsense mas as oportunidades desperdiçadas contribuem mais para unhas roídas, cigarros fumados e pontapés em degraus do que para gritos assoberbados e abraços entre amigos.

 

A exibição do árbitro também é criticada. Afinal, qual é o adepto que não acha que o homem do apito assinala sempre tudo para o mesmo lado que, por acaso, é sempre o outro? «Sabes qual é o problema? É o complexo-Lousada [contextualização dada por um leitor na caixa de comentários]», queixa-se um, depois de mais um lance em que o amarelo não sai do bolso do árbitro.

 

O Lousada também não está lá para o frete. Quer manter o segundo lugar e ameaça tanto quanto possível a baliza do Tirsense. O ruído das bancadas não o parece afetar mas as boas ocasiões escasseiam.

 

O intervalo surge como a oportunidade perfeita para apresentar os jogadores dos escalões de formação e também os do futsal. Uma a uma, as equipas são apresentadas, começando pelos petizes, e recebem os aplausos de uma bancada completamente cheia. Para aquelas crianças, estes 15 minutos têm tudo para ser o expoente de uma vida curta. Sim, há um escalão anunciado com a proeza de ter vencido todos os jogos, mas pisar o relvado dos seniores e ser aplaudido por tanta gente é o mais próximo que têm de ser como as estrelas que veem na televisão.

Crianças desfilaram para a bancada

São estes os momentos que apaixonam os mais novos, que os fazem sonhar, que os fazem imaginar que um dia poderão ser como os seus heróis e marcar golos que façam explodir um estádio cheio. Hoje ainda não foi o dia, mas as sementes do sonho estão lá.

 

O penálti que lançou o caos no Abel Alves de Figueiredo

O penálti do Tirsense

A toada na segunda parte não teve grande mudança. Percebia-se que os jogadores do Tirsense queriam capitalizar o momento conseguido com um estádio a lembrar os velhos tempos e foram empurrando o Lousada para a sua baliza.

 

Havia cantos, livres, remates e boas ocasiões. Só não havia golos. Depois, já na reta final do encontro, há um penálti marcado a favor do Tirsense. A decisão gera a indignação entre os jogadores do Lousada e os adeptos não se deixam ficar. Visam o árbitro, primeiro, e o marcador do penálti, depois. Bobô, avançado brasileiro que atuou no Boavista, não cedeu à pressão, fez o golo que lançou a explosão de alegria na central e os desacatos no peão.

Não percebemos exatamente como e por que é que aconteceu. Ou melhor, é certo que houve o penálti e o golo – e provocações à mistura – mas num abrir e fechar de olhos o Tirsense-Lousada era também um jogo de Liga Portuguesa na confusão. Na bancada oposta, adeptos do Juve Negra começaram a correr para o setor dos adeptos do Lousada. Aqui, também alguns corriam na direção da grade que garantia a separação com os elementos da claque. A polícia demorou a chegar e, quando o fez, já a grade era pontapeada por uns e por outros, ao ritmo de insultos nada amigáveis… nem originais.

 

Do nosso lado, junto da outra grade que separava adeptos dos dois clubes, houve um outro foco de instabilidade. Mais calmo, é certo, mas que obrigou à intervenção de dois dirigentes, que apelaram à calma, e de um polícia, claramente sem paciência para ter de estar a aturar problemas destes. «Mas vocês vieram ver a bola ou mandar bocas uns aos outros?», gritou, enquanto forçava, sem grande sucesso, dois ou três adeptos do Tirsense a afastarem-se da grade. A insistência chegou com um ponto de exclamação: «Parece que estou a falar com crianças! Aqui só há homens, não há crianças!».

 

O pior tinha passado. A adrenalina tinha sido descarregada, a polícia tinha conseguido impor a ordem e, entretanto, o jogo recomeçara. A situação estava tão controlada que, uns minutos depois, o próprio polícia abriu o portão junto da grade para que um adepto do Tirsense pudesse ir à casa-de-banho no setor do Lousada. Afinal, tinha sido apenas uma má fase e toda a gente percebia que aquele não era o momento – nem o local – para arranjar confusão.

 

Perto do fim, a polícia quis garantir que mantinha tudo de acordo com o desejado – planeou o que cada elemento iria fazer assim que o árbitro acabasse com o jogo, com três agentes a garantir uma margem de segurança em relação à grade para permitir que os adeptos do Lousada saíssem com segurança -, mas não houve recaída.

 

O Tirsense venceu e os conflitos foram relegados para segundo plano. A festa estava feita e o domingo acabava de forma perfeita: um triunfo e um estádio a fazer lembrar os velhos tempos. Os números oficiais garantem que estiveram mais de 7300 pessoas mas a contabilidade – com bilhetes duplos sem controlo à entrada e com muita gente a entrar sozinha – seria sempre complicada.

 

Tenham sido 7300 ou não é indiferente. Estava muita gente e o Tirsense demonstrou que um clube grande só precisa de uma coisa: ter adeptos que o vejam como tal. Recordando o que Mourinho disse sobre Robson, uma pessoa só morre quando morre a última pessoa que o amou. Com tanta gente, o Tirsense prova que está vivo – e bem vivo – e que continuará assim por muito tempo, enquanto a paixão continuar a passar de geração em geração.

Famalicão-Farense. Um sábado de futebol de inverno

Famalicão e Farense não saíram do 0-0

Dizem que o futebol é um desporto de inverno. Uma modalidade em que a chuva é bem-vinda e os relvados lamacentos fazem parte do imaginário de qualquer adepto. De norte a sul do país, não há quem não tenha pelo menos uma memória de um jogo em que a chuva não deu tréguas, a relva não resistiu e os 22 jogadores em campo não foram mais do que heróis a lutar contra todas as adversidades possíveis.

 

Nos anos 90 era comum ver-se bancadas descobertas preenchidas por chapéus-de-chuva. Fazia parte. As famílias iam à bola mas tinham uma proteção. Também era comum ver-se o Famalicão na Liga Portuguesa, depois de a equipa ter subido em 1990 e se ter mantido até 1994, descendo com o Estoril e o Paços de Ferreira.

 

Agora, 25 anos depois, está a lutar pelo regresso com… o Estoril e o Paços de Ferreira. Onde antes havia estrangeiros míticos como Dane, Barnjak e Mihtarsky, Lula ou Tanta, agora há heróis do golo como Fabrício e Walterson e guarda-redes como Defendi. Onde antes havia espaços para chapéus-de-chuva, agora há «sacos de plástico humanos» à venda por cinco euros entre a bilheteira e a entrada no estádio.

 

Um Famalicão-Farense às onze da manhã de um sábado pode ser apetecível – afinal, levou-nos a fazer a viagem desde Lisboa na noite anterior – mas a chuva torrencial, incansável, é suficiente para afastar os mais fiéis. Nas redes sociais, de manhã bem cedo, o Famalicão incentivou os adeptos a irem ver o encontro mas as respostas não foram propriamente afirmativas.

 

«Vais ficar em casa?», perguntava a página oficial. «Se calhar vou ficar em casa, ‘tá chovendo», respondia um. Nós não respondemos mas não virámos a cara à luta. Depois de uma semana a recuperar de uma gripe – que na verdade ainda não está recuperada – já tínhamos feito a viagem até Vila Nova de Famalicão. Desistir agora não estava nos planos.

 

Depois das pizzas e dos pães com chouriço, chegaram as bebidas

 

As iniciativas do Famalicão nas últimas semanas foram virais. Primeiro a entrega de caixas de pizza no intervalo da deslocação a Coimbra, depois os pães com chouriço para os adeptos do Estoril. Desta vez, estávamos curiosos para saber se haveria surpresa, mas a única coisa que apanhámos foi a bebida. Água natural… servida durante todo o encontro.

Adeptos do Farense em Famalicão

A bancada Porminho, descoberta, aguentou os mais corajosos. Numa ponta, estavam os cerca de 20 adeptos do Farense que fizeram o caminho desde o sul para apoiar a equipa. «Somos nós, somos nós, o orgulho do Algarve somos nós!», gritavam, imparáveis, ignorando o facto de terem quase mais água na roupa do que nas suas famosas praias. Na outra ponta, os do Famalicão seguiam a mesma onda, quase literal.

Claque do Famalicão

Não havia estratégia infalível para nos protegermos da chuva. Houve quem tenha preferido ir para o topo da bancada, aproveitando a proteção dos cartazes publicitários, e quem tenha aceitado pagar os cinco euros dos tais «sacos de plástico humanos», impermeáveis que cobrem quase a totalidade do corpo. E ainda quem tenha ignorado o tempo, concentrando-se no jogo e adiando a preocupação da chuva para o final do encontro.

 

A chuva pode ser desagradável, pode afastar adeptos, tornar a experiência negativa e afetar o futebol das duas equipas, mas também traz algo de mágico a um jogo. Por um lado, parece transportar-nos até à nossa infância, onde brincar, correr e jogar futebol à chuva era a paixão proibida e constantemente reprimida pela família e educadores de infância. Por outro, é capaz de tornar o jogo mais puro. Quem está ali, está por gosto, por paixão. Ninguém vai ver um jogo destes por estar na moda ou simplesmente por não ter mais nada para fazer. Fá-lo por gostar de futebol, por gostar do seu clube. E não falta quem viva apaixonado pela sua equipa em Famalicão.

 

No meio do barulho da chuva, até a acústica do estádio parece melhor. Ouvem-se as pingas a cair nas bancadas ainda repletas dos papéis que ficaram do Famalicão-Estoril – com quase cinco mil pessoas – mas também as constantes indicações, gritos e exasperos de quem está em campo. Cada pancada na bola é um solo de orquestra com 22 intérpretes que representam forças contrárias.

 

A magia do futebol numérico

Foi impossível fugir à chuva

A massificação do futebol contribuiu para a extinção de um dos fenómenos mais brilhantes de viver durante um jogo. Chamemos-lhe «futebol numérico». É algo que ainda se vive constantemente nos escalões de formação e divisões secundárias mas que tende a desaparecer à medida que as equipas são mais famosas e os seus jogadores mais conhecidos.

 

Dito de forma mais simples de perceber, é a forma como os adeptos contrários tendem a dirigir-se aos jogadores apenas e só pelo número que têm na camisola. Ali, na bancada do peão, Jorge Ribeiro, Irobiso e Fabrício Isidoro não são mais do que o 16, o 9 e o 14.

 

Num espaço de cinco minutos, somos expostos ao futebol numérico em toda a sua magnitude. «Ó 14, vai para o ginásio! Olha-me para essas perninhas de alicate. Levanta-te, pá!», começam por gritar depois de uma falta. Pouco tempo depois, os alvos mudam. «Ó 16, meteste a bola no 9 mas ele é burro!», sugere outro, sem boas intenções.

 

Jorge Ribeiro, o jogador mais famoso do Farense, ficou com o brinde durante toda a segunda parte. Afinal, cada reposição lateral ou jogada mais perto da linha foi uma forma de aproximação aos adeptos. «O 16 parece uma velha de 60 anos a pegar na bola!», grita novamente o mesmo adepto, enquanto mais tarde, um outro lança uma sugestão de futuro: «Vai para a reforma, pá!».

 

Os insultos são outro fator integrante. Fazem parte. Não têm maldade, saem da boca como quem respira e por vezes até ganham pontos pela originalidade. Sim, há sempre espaço para os mais banais, em que as mães dos jogadores são visadas, mas num caso específico esse mesmo insulto é exponencial. Um dos jogadores não é filho de apenas uma, é filho de 30. Por outro lado, há quem prefira manter o tom cordial e se dirija ao árbitro com um respeito reverencial: «Senhor árbitro, como é?».

 

Tensão sobe de tom numa manhã sem tréguas

 

Famalicão e Farense não conseguiram sair do nulo. Em boa posição para subir, os famalicenses assumiram as despesas do jogo mas caíram na teia dos algarvios… ou escorregaram nas poças que o tempo lhes tinha reservado.

 

A relva tornou-se cada vez mais um adversário com o passar do tempo, a bola foi ficando cada vez mais pesada e os nervos à flor da pele fizeram o resto. Num lance, Jorge Ribeiro e Capela acabam expulsos com vermelho direto depois de o Famalicão não ter devolvido uma bola. A traição surpreendeu os algarvios e, muito a jeito para uma manhã como esta, o caldo ficou entornado.

 

O nervosismo alastrou-se às bancadas mas continuou a haver espaço para o humor. Num dos momentos em que a chuva torrencial mudou de intensidade, apenas para mostrar que tinha ainda mais para dar, ouviu-se um desabafo que soltou as gargalhadas dos restantes. «Epá, o tempo está a mudar. Está a ficar sol! Já sinto o calor e tudo…», diz um, provocando um suplício de outro: «Então, São Pedro?!».

 

O desabafo era legítimo. Já não era suficiente estar há 80 minutos debaixo de chuva constante, ainda era preciso aumentar a intensidade da coisa só para provar quem manda? Só nos restava adaptar. Afinal, éramos os mesmos que, ao intervalo, tínhamos provocado um êxodo em massa ao recolher para o túnel da bancada, onde um espaço inferior a 50 metros quadrados foi obrigado a ter capacidade para albergar a cerca de centena de gatos pingados que não viraram a cara à luta.

Bancada ofereceu proteção durante o jogo

A expressão no rosto de um segurança durante o jogo disse tudo. De costas para o jogo, encharcado até à alma, com os braços protegidos por baixo de uma espécie de bolsa à barriga, tinha um olhar completamente perdido no betão de um dos degraus da bancada. Absorto nos seus pensamentos, rendido à ingratidão de acordar cedo a um sábado para estar duas horas debaixo de chuva num jogo que não provocou problemas de maior.

 

Podia ser pior, podia ter ido à praça comprar peixe. Mas não: estava apenas num jogo, num sábado de futebol de inverno. Um daquelas à antiga. Só foi pena não haver golos.

Kisenosato Yutaka. Desistir para não passar mais vergonhas

O momento da despedida

Saber quando parar é uma das características mais elogiadas aos melhores praticantes de uma modalidade, seja ela qual for. O tema é motivo de debate contínuo e não faltam exemplos no desporto mundial. Há sempre alguém que continua mais tempo do que devia, acabando por sair pela porta pequena, transmitindo uma última imagem vulnerável, incapaz de estar ao nível do que foi em tempos.

 

Este é o maior medo de quem pratica um desporto de alta competição. «Mais vale sair um ano mais cedo do que um ano demasiado tarde», dizem, sabendo os efeitos que uma época a arrastarem-se terão na visão do seu legado. Por outro lado, é difícil combater a tentação de continuar aquilo que sempre fizeram, aquilo que os tornou grandes, aquilo que lhes deu relevância.

 

Para Kisenosato Yutaka, um lutador de sumo japonês que chegou a atingir o topo da carreira, esse momento chegou tarde. Aos 32 anos, depois de uma série de oito derrotas consecutivas e de três desaires seguidos num torneio de Tóquio (Ryogoku Kokugikan), Kisenosato percebeu a mensagem e decidiu agir.

 

«Vou retirar-me e começar a treinar jovens lutadores. Obrigado pelo apoio de todos enquanto estive no ativo. Embora seja lamentável que não tenha conseguido estar ao nível das expectativas de todos enquanto yokozuna, não me arrependo de um único momento da minha carreira», explicou.

 

As lesões não ajudaram Kisenosato. O objetivo sempre foi conseguir uma saída de cena limpa mas a vontade de retribuir o apoio dos fãs fez com que continuasse a competir sem possibilidades de sucesso: «Lamento muito que tenha sido desta forma».

 

Promoção destinada ao fracasso

Kisenosato Yutaka

O seu mentor, Tagonoura, ficou feliz pela promoção de Kisenosato a yokozuna (o título dado aos lutadores que atingem o grau mais elevado na modalidade) mas sempre soube que era algo destinado ao fracasso. «Conseguia perceber que estava em sofrimento», disse. Os números não mentem: a série de oito derrotas consecutivas, já sem contabilizar uma desistência em novembro, é o pior registo de um yokozuna desde 1949.

 

Em março de 2017, Kisenosato era um homem feliz. Tinha sido promovido a yokozuna: era a primeira promoção do género de um lutador nascido no Japão em 19 anos. O início até foi positivo, com a conquista do torneio seguinte, mas as lesões apareceram e não lhe voltaram a dar descanso.

 

Primeiro no joelho. Depois no tornozelo. Mas também no peito e no braço. Por muito que quisesse, não conseguia corresponder às suas próprias aspirações e aos desejos dos adeptos que o queriam ver ao mais alto nível.

 

Os maus resultados levaram a uma onda de desagrado pela própria federação – perder quatro combates consecutivos num mesmo torneio em novembro foi a gota de água -, que aumentou a pressão e colocou a hipótese de um fim de carreira forçado caso não melhorasse o seu desempenho no torneio de Tóquio.

 

A vergonha de continuar a perder, sem hipótese de recuperar, aliada à pressão da federação falou mais alto e o anúncio foi mesmo feito. Na despedida, os adeptos viram um lutar fragilizado mas capaz de lutar por uma vitória. «Foi impressionante a forma como se dedicou para ganhar uma última vez», disse Nishiiwa, um antigo lutador.

 

O adeus de Kisenosato faz com que o Japão volte a estar sem um yokozuna. Em lágrimas na conferência de imprensa, o atleta explicou que tinha encarado este torneio como um tudo-ou-nada. «Treinei para estar na melhor forma possível. Sabia que ia ser decisivo. Desde a lesão, senti confiança que estava a fazer o melhor que conseguia. Lutei com todas as minhas forças mas, pela primeira vez, senti que não conseguia continuar.»

 

O topo da hierarquia do sumo, com a categoria yokozuna, está agora limitada a dois lutadores, ambos da Mongólia: Kakuryu Rikisaburo, promovido em 2014, e Hakuho Sho, promovido em 2007. «É uma posição solitária», explicou Hakuho depois do anúncio de Kisenosato. «Fiquei sem palavras para expressar a minha apreciação pelo seu esforço.»

Martin O’Neill. O homem que desafiava Brian Clough

Martin O'Neill enquanto jogador

O novo treinador do Nottingham Forest conhece os cantos à casa. Enquanto jogador, fez parte da mítica equipa de Brian Clough que subiu de divisão em 1977, foi campeã inglesa em 1978 e garantiu o bicampeonato europeu em 1979 e 1980. Figura ímpar do clube, manteve sempre uma relação única com o emblemático treinador. «Desconfio sempre de pessoas que são mais inteligentes do que eu», dizia Clough.

 

De 1971 a 2019 passaram 48 anos. Há um mundo de diferença mas as duas datas têm algo em comum: marcam a entrada de Martin O’Neill no Nottingham Forest. Hoje, o irlandês não é mais um jovem de 19 anos com um horizonte de sonhos por alcançar e um cartão-de-visita que incluía um golo marcado ao Barcelona, pelos irlandeses do Distillery, na Taça das Taças. Hoje, O’Neill é um técnico conceituado, sobretudo por culpa dos anos que passou à frente do Celtic (2000-2005) que incluíram a presença numa final da Taça UEFA, perdida para o FC Porto em 2003.

 

O cenário no City Ground é muito diferente daquele que encontrou em 1971. Na altura, o clube estava no primeiro escalão e não conseguiu evitar a descida no final da temporada. Hoje, a equipa já está no segundo escalão e continua a perseguir o objetivo de voltar à elite do futebol inglês. O espanhol Aitor Karanka deixou a equipa no nono posto, com 39 pontos em 27 jogos, e a quatro pontos dos lugares do play-off.

 

A forma como o clube anunciou o novo treinador não deixa margem para dúvida: é um bom filho que está de regresso a casa: «Um dos originais e mais amados Miracle Men, Martin está finalmente a concretizar um sonho de vida ao treinar o seu querido Nottingham Forest. Com o seu compromisso ao clube, conhecimento do jogo e paixão para ter sucesso, O’Neill vai ter o objetivo de levar a equipa de regresso à elite e fazer com que o milagre aconteça novamente».

 

O Milagre com Clough

Brian Clough

Martin O’Neill esteve dez temporadas consecutivas no Nottingham Forest mas a primeira metade esteve longe de ser um milagre. Depois da despromoção na época de estreia, o clube não conseguiu reerguer-se imediatamente e teve campanhas vulgares no segundo escalão.

 

Depois, com a chegada de Brian Clough, em 1975, tudo mudou. O’Neill já era uma das figuras do plantel e o sucesso dentro de campo foi notícia um pouco por toda a Europa. Afinal, aquele progresso do Forest foi notável: subir de divisão em 1977, ser campeão inglês em 1978, vencer a Taça dos Campeões em 1979 e repetir a façanha em 1980. Ainda hoje, o feito é motivo de pergunta de trivial: qual é a única equipa que tem mais títulos de campeão europeu do que de campeão nacional? Isso mesmo, a resposta é Nottingham Forest.

 

O feito continua a ser especial na atualidade mas talvez não se consiga perceber a importância desta reconquista atualmente. Hoje, uma equipa consegue participar consecutivamente na Liga dos Campeões sem vencer o seu campeonato – veja-se o exemplo do Liverpool – mas na altura a única forma de garantir o visto no passaporte era vencendo a liga doméstica ou se entrasse na prova como campeão em título. Foi isso que o Nottingham Forest conseguiu, com distinção, e continua a ostentá-lo no seu currículo.

 

Brian Clough era um espetáculo à parte mas Martin O’Neill nunca se limitou a ser uma ovelha no rebanho. O médio norte-irlandês desafiava-o, exigia que desse o melhor de si e não se deixava intimidar pela hierarquia. Certo dia, num programa que contou com a presença dos dois, Clough confessou: «Desconfio sempre de pessoas que são mais inteligentes do que eu. Mas em breve vou puxar-te para o meu nível».

 

O passado de O’Neill ajudava a perceber que não era um jogador como os outros, ou pelo menos como a ideia que temos dos jogadores durante a década de 70. Quando saiu para Inglaterra, O’Neill não se limitou a deixar o Distillery, interrompeu também o curso de Direito. A paixão pelos estudos seguiu-o por onde andou e fez sempre questão de se manter a par com o mundo e com as novas tendências, dentro e fora do futebol.

 

O’Neill tornou-se um alvo fácil de Clough

Martin O'Neill

Brian Clough sabia o que tinha em mãos e não perdia uma oportunidade para relembrar O’Neill que numa equipa de futebol era ele quem mandava. O jornalista Daniel Taylor, autor de um livro sobre aquela era, recorda uma história de uma goleada ao Ipswich e garante que O’Neill nem sempre terá gostado da sua experiência no Nottingham Forest.

 

«Houve um episódio na Supertaça Inglesa em 1978, quando o Nottingham Forest estava a jogar com o Ipswich, num jogo que ganhou 5-0. O O’Neill marcou dois e estava desesperado por conseguir o hat-trick mas, assim que pôde, o Clough substituiu-o e pôs um central a jogar no seu lugar. Foi praticamente por desprezo apenas, porque eles não se davam nada bem», escreveu.

 

Se O’Neill se achava mais que os outros, Clough exigia ainda mais dele. Não lhe dava margem. Não estava para ver a sua autoridade desafiada e tinha a faca e o queijo na mão. Era ele quem tomava as decisões e garantia que os seus jogadores nunca se esquecessem dessa hierarquia. «O Martin tinha uma personalidade muito vincada e expressava a sua opinião, o Clough não gostava», contou Taylor.

 

Brian Clough martelou a personalidade de O’Neill até o tornar um reflexo do que era. Raramente tinha uma posição definida em campo e nada do que fizesse era encarado como bom o suficiente. O treinador tinha cumprido a sua promessa e a inteligência de O’Neill tinha deixado de importar: pela frente agora já só havia um jogador psicologicamente afetado pelos jogos mentais de que era constantemente alvo.

 

Nunca foi uma questão pessoal. Se O’Neill se sentia apto para desafiar o treinador, Clough tinha a obrigação de demonstrar, sobretudo perante o resto do plantel, que só podia haver uma voz dominante, que não autorizaria qualquer tipo de confronto à ideia instalada.

 

Hoje, tantos anos depois, O’Neill evoluiu para um treinador com vários toques de semelhança com Clough. Menos autoritário, talvez, mas com a mesma escola de espremer a capacidade de um jogador até à última gota pelo bem coletivo.

 

É isso que se espera dele no Nottingham Forest. É com isso que Tobias Figueiredo, Diogo Gonçalves, João Carvalho e Gil Dias podem contar. Repetir o milagre pode ser inalcançável, por muito que clube e adeptos o desejem, mas trazer um pedaço da glória da era de Clough já será um triunfo. Isso e garantir o regresso à Premier League, pela primeira vez desde 1998/99.

Adam Vinatieri. Falhar onde se tornou lenda

Adam Vinatieri fez história em 2002

Tem 46 anos e está na NFL desde 1996. É o kicker mais famosos na história da modalidade e tem um lugar reservado no Hall of Fame. O fim da carreira continua a ser uma incógnita mas no último fim-de-semana, na eliminação dos Indianapolis Colts contra os Kansas City Chiefs, Vinatieri foi uma sombra de si mesmo.

 

Não era um pontapé decisivo. O jogo estava prestes a ir para o intervalo e os Chiefs já venciam 24-7, naquela que acabaria por ser uma vitória por 31-13. Ainda assim, era um field goal fácil, a apenas 23 jardas dos postes. Sim, as condições meteorológicas não estavam fáceis – tinha nevado bastante durante o dia -, mas esse nunca foi um problema para o kicker. No momento-chave, partiu para a bola e… acertou em cheio no poste esquerdo, praticamente na zona onde havia uma placa de gelo, que se soltou com o impacto.

 

Foi estranho. Não parecia dele. Pela primeira vez em 22 tentativas, Vinatieri falhou um pontapé daquela distância (ou menor) nos playoffs. Se acrescentarmos os jogos da fase regular, tinha um registo imaculado em 97 oportunidades. Mais tarde, para piorar, também falhou o ponto extra depois de um touchdown de TY Hilton.

 

«Não consegui fazer a colocação perfeita do pé», comentou no final. «Num jogo destes, precisamos de todos os pontos possíveis e não há dúvida de que precisávamos daqueles. Não consegui corresponder ao que esperavam de mim», continuou.

 

Adam Vinatieri está há 23 temporadas na NFL, depois de ter jogado durante uns meses em Amesterdão, à procura de uma oportunidade na elite, e não sabe o que vai ser do futuro, especialmente agora que sente que desiludiu num momento importante. «Para ser honesto, ainda não tomei uma decisão. Se quiserem negociar comigo, vou querer ouvir, isso é certo», afirmou.

 

Presente relembrou o passado

Vinatieri foi infeliz contra os Chiefs

Nenhum kicker está imune a falhar field goals importantes mas nenhum outro tem uma carreira tão marcante em jogos decisivos como Vinatieri. O jogador de origem italiana está diretamente ligado ao início da hegemonia dos New England Patriots e ocupa um lugar tão especial na memória dos adeptos como Tom Brady ou Bill Belichick.

 

Adam Vinatieri pode ter jogado uma Super Bowl logo em 1996 com os Patriots, mas foi a 19 de janeiro de 2002 que subiu ao monte dos deuses na equipa. Em Nova Inglaterra, a equipa estava a perder 10-13 contra os Oakland Raiders num jogo marcado por um intenso nevão. Comparado com aquele sábado de 2002, o tempo do jogo Chiefs-Colts esta semana estava bom para ir para a praia. A visibilidade era escassa, a neve não dava descanso e o sonho de regressar a uma Super Bowl fugia por entre os olhos dos Patriots. Depois, a 27 segundos do fim, surgiu uma oportunidade de tentar um field goal, a 45 jardas, para forçar o prolongamento.

 

Sim, um field goal de 45 jardas não é necessariamente difícil. Em condições normais. Mas aquela noite era tudo menos normal. A neve era tanta que os jogadores precisaram de afastar largos centímetros de neve acumulada para arranjar um espaço para colocar a bola que iria ser pontapeada por Vinatieri. E depois havia o vento. E a pressão em cima dos ombros. Nada disso importou: o pontapé não passou a trave por muito mas foi válido e forçou o prolongamento. Não satisfeito, Vinatieri voltou a ser importante, decidindo o jogo com um field goal de… 23 jardas, exatamente a distância da qual falhou agora contra os Chiefs.

 

O estatuto de recurso infalível ou, pelo menos, decisivo continuou consigo nos tempos seguintes. Duas semanas depois, na última jogada do encontro, foi Vinatieri quem executou com êxito um field goal de 48 jardas na primeira Super Bowl ganha na história da equipa (20-17 vs. Rams).

 

Dois anos depois, a história repetiu-se. Apesar de ter tido um jogo menos feliz, Vinatieri redimiu-se no momento decisivo. A quatro segundos do fim do jogo, e com um empate a 29, o kicker voltou a mostrar-se fundamental e cumpriu com êxito o pontapé de 41 jardas. Pela primeira vez na história, um jogador tinha sido o autor da jogada decisiva em mais do que uma Super Bowl.

 

Hoje, Vinatieri falhou exatamente nas condições que o tinham catapultado para a glória. Pode ter sido um prenúncio. Um sinal de que está na hora, de que as 23 épocas ao mais alto nível, com quatro títulos na Super Bowl, fazem parte do passado e que os 46 anos já pesam.

 

Um sinal de que é humano. Todos são, mais tarde ou mais cedo.

Solskjaer. Um homem talhado para ser substituto

Ole Gunnar Solskjaer na sua nova pele

O cenário foi tão comum na história do clube que nem chegou a causar estranheza. A 19 de dezembro de 2018, poucos dias depois de o Manchester United ter sofrido a segunda derrota consecutiva numa série de cinco jogos com apenas um triunfo, os red devils anunciaram que Ole Gunnar Solskjaer ia ser o substituto de José Mourinho.

 

Menos de um mês depois, a equipa está de cara lavada, os jogadores parecem outros e os resultados acompanham: cinco triunfos consecutivos – a melhor série da época era de apenas três – e uma valiosa vitória no terreno do Tottenham (1-0) a relançar as hipóteses na disputa de um lugar na Liga dos Campeões.

 

O treinador norueguês está a limitar-se a fazer aquilo que mostrou saber fazer melhor enquanto jogador do clube, entre 1996 e 2007: ser um substituto de luxo. Sim, a forma como saiu do banco para resolver a final da Liga dos Campeões em Barcelona, nos descontos (2-1 vs. Manchester United em 1999) será sempre o pináculo de uma carreira com um denominador comum: sair do banco para fazer a diferença.

 

Os números não mentem. Ole Gunnar Solskjaer era um goleador nato, jogasse a partir do banco ou desde o início do jogo. Foi assim nos escalões de formação do Clausenhagen e, mais tarde, na temporada em que ajudou a equipa ser campeã do terceiro escalão, num total de 115 golos em 109 jogos; e foi assim no Molde, onde marcou 41 golos em 54 jogos e garantiu o visto de entrada na Premier League para representar o gigante Manchester United.

 

Em Old Trafford, com Alex Ferguson, não houve diferença e os 18 golos no campeonato na época de estreia provaram que a contratação tinha sido acertada. Até 2007, vários avançados foram saindo e chegando e o norueguês com cara de bebé manteve-se igual a si próprio: jogasse quanto tempo jogasse, a probabilidade de marcar um golo era elevada.

 

O balanço final é esclarecedor: Solskjaer despediu-se do Manchester United com 126 golos marcados: 29 deles foram como suplente. Feitas as contas, são 23% dos golos marcados ao serviço dos red devils.

 

Futebol foi uma paixão que não largou

Ole Gunnar Solskjaer

O fim da carreira enquanto futebolista, precipitado por lesões recorrentes, não impediu Solskjaer de continuar ligado à modalidade. Já tinha provado que não gostava de andar a ser projetado de um lado para o outro. Afinal, foi por essa mesma razão que, enquanto criança, decidiu desistir da luta greco-romana, a modalidade que o pai praticava.

 

Continuar no futebol – e no Manchester United – era algo que tinha em mente mesmo antes de terminar a carreira. Por isso, no último contrato assinado, em 2006, garantiu que haveria uma porta de entrada aberta para a possibilidade de ser treinador.

 

Se por um lado estava obrigado a certificar-se enquanto técnico, por outro tinha o diploma mais do que válido para assumir o cargo de treinador dos avançados do Manchester United na primeira temporada após pendurar as chuteiras. Daí para a equipa de reservas na época seguinte foi um pequeno passo. A carreira de treinador estava a ser consolidada, capítulo após capítulo, e Solskjaer sentia-se preparado para um desafio mais sério.

 

O Molde foi um regresso às origens cheio de sucesso. Depois de o alemão Uwe Rösler ter salvado a equipa de descer de divisão no final de 2010, Ole Gunnar Solskjaer pegou de estaca e garantiu o primeiro título nacional da história da equipa, logo no primeiro ano. Não satisfeito, repetiu a façanha em 2012 e tornou-se, ainda mais, uma figura emblemática do clube.

 

O técnico conquistou ainda uma Taça da Noruega (2013) e manteve-se no Molde até ao início de 2014, altura em que aceitou um novo desafio e assumiu o comando do Cardiff City. Mais uma vez, ia ser o substituto de alguém: Malky Mackay. O norueguês pode ter entrado com o pé direito, a ganhar ao Newcastle na Taça de Inglaterra, mas o balanço em Gales foi negativo: a equipa não evitou a descida de divisão e o arranque no Championship foi mau o suficiente para o técnico abandonar o clube.

 

O antigo clube norueguês voltou a entrar na moldura em outubro de 2015 e foi lá que o Manchester United o foi buscar agora, três anos depois, para ocupar o posto de treinador interino. Um substituto destinado a ser substituído.

 

O contrato com o Molde continua válido – o regresso está previsto para maio de 2019 – mas o sucesso como substituto em Old Trafford pode provocar uma mudança de planos, mesmo que Solskjaer não esteja destinado a continuar no Manchester United.

 

Para já, a história está feita. Pode ser apenas um treinador interino, pode estar a prazo, pode ser um substituto que, faça o que fizer, já sabe que não será titular no próximo desafio, mas foi o primeiro da história do Manchester United a vencer os seus primeiros seis jogos ao comando da equipa.

O fenómeno Fábio Cardoso merece reflexão

Fábio Cardoso

Alvalade, 3 de janeiro de 1999. Beto tem uma noite para esquecer e está diretamente ligado aos dois golos do Benfica. A doutrina diverge: há quem diga que foram dois autogolos, há quem diga que foi só um, e Cadete exige que um golo lhe seja creditado. Mas para a história será sempre recordado como o jogo dos dois autogolos.

 

Alvalade, 18 de março de 2000. O Sporting está obrigado a vencer o FC Porto para subir à liderança do campeonato, numa fase em que o fim do jejum nunca pareceu tão próximo. Já depois de André Cruz ter adiantado os leões, Secretário faz uma asneira de todo o tamanho e oferece a Acosta a oportunidade de fazer o 2-0. O argentino não desperdiça e os leões partem para o tão ansiado título.

 

Portimão, 2 de janeiro de 2019. Já depois de Ruben Dias ter feito o autogolo que deu a vantagem do Portimonense frente ao Benfica, Jardel tem a oportunidade de evitar o 2-0 com uma bola perdida junto à linha de golo. O brasileiro calcula mal o tempo de salto, executa ainda pior com a cabeça, e direciona a bola no sentido da baliza. As águias não conseguem reagir, perdem o segundo lugar e Rui Vitória sai do comando técnico no seguimento da derrota.

 

São três exemplos mas podiam ser mais. E envolvem um jogador do Sporting, um do FC Porto e um do Benfica. Foram os primeiros que me vieram à cabeça. Em todos eles, o profissionalismo não foi posto em causa. Beto continua a ser visto como um exemplo do Sporting, Secretário é uma figura do FC Porto – muito subvalorizada pela opinião geral devido à passagem pelo Real Madrid –, e Jardel é neste momento o jogador com mais anos consecutivos na equipa principal do Benfica.

 

Os três tiveram uma má noite. Afinal, ninguém está imune a isso e os erros acontecem. Há diferenças para o que aconteceu com Fábio Cardoso, confesso benfiquista e da formação do clube da Luz, no Santa Clara-Benfica? Sim, e a principal é muito simples, e pode até ser comparada com a ideia que temos dos tribunais. Se um pobre comete um crime, vai para a prisão. Se o crime é cometido por um rico, vai para casa com pena suspensa.

 

O erro de um jogador de um clube pequeno tem vindo a ganhar um peso incomportável nos últimos anos. A suspeição sobe de tom a cada jornada e tudo o que acontece só pode ser justificado por alguma premeditação, esquecendo até que, de acordo com a lógica, o jogador de um clube pequeno tende a ser pior do que um de um clube grande.

 

Ou o jogador está condicionado, ou há dinheiro por trás, ou há um apito ou um polvo a dominar o futebol. É importante destacar esta ideia: não, o futebol não é uma planície verdejante. Estamos fartos de saber, diretamente ou por vias avessas, que há, citando Queiroz, muita porcaria para limpar, mas isso não significa que o simples erro tenha deixado de acontecer.

 

Fábio Cardoso está longe de ser inocente

Santa Clara-Benfica

O central do Santa Clara não chegou ao intervalo. Escorregou no lance do primeiro golo e foi expulso por uma falta que não foi penálti por pouco. Em segundos, a opinião pública acusou e sentenciou o jogador: tinha feito tudo o que estava ao seu alcance para ajudar o Benfica.

 

Fábio Cardoso é vítima do contexto mas também é culpado pelas ações. Um profissional, como qualquer outra pessoa, tem todo o direito a ser apaixonado por um clube, a defendê-lo em privado e a não esquecer os anos que por lá passou. Mas ao admitir, como fez no passado, que estava aliviado por não defrontar o Benfica, porque seria o jogo mais difícil da sua vida, abriu uma caixa de Pandora impossível de fechar.

 

O central confessou que um jogo contra o Benfica o deixaria condicionado numa altura em que estava cedido e, como tal, a regra não permitia que fosse utilizado. O jogador utilizou essa oportunidade para reiterar a paixão pelo clube. O coração falou mais alto e aproveitou a ocasião para angariar algum mediatismo entre os adeptos.

 

Profissionalmente, cometeu um erro. Desconhecendo o futuro, abriu uma perigosa porta para qualquer situação no futuro em que voltasse a defrontar o Benfica. É natural que jogadores se sintam condicionados, de uma forma ou de outra, quando defrontam os seus clubes de infância/adolescência, tenham ou não lá jogado. Para uns, é uma motivação extra; para outros, é difícil, como o próprio Fábio Cardoso admitiu.

 

O problema, para ele, é que essa dificuldade confessa foi utilizada contra ele no momento dos erros. Ao admitir aquilo no passado, Fábio Cardoso estava a garantir que não poderia ter um jogo infeliz contra o Benfica no seu futuro sem escapar à suspeição de quem pouco faz para promover o nosso futebol. Se um erro de um jogador de uma equipa pequena já é exponenciado sem haver este contexto, neste caso tudo fica mais complicado.

 

Um erro que deve servir de exemplo

Fábio Cardoso

Fábio Cardoso cometeu um erro que deve ser apontado como exemplo daqui para a frente. Todos perceberam que o central não podia falhar porque seria sempre analisado com base no que tinha escrito no passado. O jogador precipitou-se, não se soube proteger devidamente e foi atacado.

 

O fenómeno deve ser analisado com cuidado e não se estende apenas a quem está dentro de campo a jogar. As afirmações públicas, numa era em que nada se perde na internet, são catalogadas e ajudam a rotular quem as afirma. Por muito que não influencie em nada, serão sempre vistas, a partir daí, como um handicap para tudo o que a pessoa faça ou diga.

 

E aqui entra a outra dimensão: a dos jornalistas. Sim, os jornalistas têm clubes. Sim, a maior parte deles são do Benfica, do Sporting e do FC Porto. Mas também os há – e conheço-os – do Belenenses, do Estoril e de várias outras equipas. E são-no verdadeiramente, não apenas para escapar por entre os intervalos da chuva.

 

Há uma escola que defende que os jornalistas deviam afirmar o seu clube sem problema. Que isso até seria uma vantagem. Que se são profissionais, não haveria problema, e que até ajudaria o leitor a compreender o contexto.

 

A doutrina diverge mas casos como o de Fábio Cardoso ajudam a perceber por que é tão importante este anonimato. Porque ninguém quer ter uma luz colorida a apontar para os seus textos. Porque ao longo de uma carreira há oportunidades para escrever textos mais agradáveis, e outros desagradáveis. Porque ninguém podia esperar que um portista escrevesse um texto meritório quando o clube estava na sua maior crise dos últimos anos. E o mesmo se aplica a Benfica e Sporting.

 

Quando comecei a trabalhar numa redação nacional, o Benfica estava numa fase negativa. Os blogues estavam na sua fase de grande crescimento e a ideia geral era comum entre os adeptos benfiquistas: todos os jornalistas eram do Sporting e do FC Porto. Ou, pelo menos, contra o Benfica. Juravam a pés juntos que a comunicação social em Portugal era uma conspiração de quem tinha encontrado uma forma de se vingar do clube com mais títulos em Portugal. Hoje, o cenário mudou, e o Benfica venceu mais títulos nos últimos anos, mas a ideia-base mantém-se a mesma: os jornalistas são todos do Benfica e ajudam a promover o nacional-benfiquismo contra os dois maiores rivais.

 

Se há jornalistas maus? Que não respeitam a classe e que ajudam a piorar o ambiente? Claro que sim. Mas isso não é razão para que todos comecem a ser vistos à luz de um clube, apenas porque quem lê não partilha da mesma visão.

 

Um jornalista, um político ou qualquer outro profissional que possa vir a ter uma posição que seja incompatível com este clubismo, deve ser capaz de se proteger de um fenómeno como o de Fábio Cardoso. Deve compreender como uma frase mal dita, ou simplesmente mal interpretada, pode dar azo a uma crise comunicacional.

 

Fábio Cardoso não é totalmente inocente deste fenómeno mas também não será claramente culpado como fazem parecer. Alguns jornalistas também não o são.

Lusitano vs. Juventude. Um dérbi a fazer lembrar… Belgrado

Lusitano vs. Juventude é um dérbi à antiga

O dérbi de Évora é muito mais do que um simples jogo. É habitual dizer este tipo de coisas sempre que há um dérbi ao barulho mas, neste caso, é impossível esquecer a história e a tradição das duas equipas. Não é apenas uma questão de estarmos a falar de duas equipas centenárias (quantos dérbis assim existem em Portugal?), uma delas com várias participações na primeira divisão, e que dividem uma capital de distrito.

 

O Lusitano-Juventude faz lembrar Belgrado. Não pela violência, e pelos perigos que podemos correr ao ir ver um jogo, mas pela proximidade dos dois estádios que chegam a gerar confusão entre os curiosos sem experiência. Quando estacionamos o carro, alguém solta um: «Mas esperam, aquele é o estádio do jogo?». Não, não é. Por mais curioso que seja, o parque de estacionamento tem vista privilegiada para o estádio do Juventude mas este jogo é em casa do Lusitano, que tem o estádio por trás dos prédios que estão à nossa frente.

 

A romaria para a bilheteira é uma experiência de conhecidos. Gente que se fala, que se conhece há dezenas de anos mas que neste momento está dividida por amores. De um lado, o azul do Juventude, do outro o verde do Lusitano. É nesta altura que percebemos que devíamos ter feito o trabalho de casa e compreendido melhor a identidade de cada um. Por mero acaso, saímos de casa com uma camisola verde berrante – à irlandesa e não à Lusitano – e somos chamados à responsabilidade assim que entramos em casa dos nossos anfitriões. «Não tinhas nada melhor para vestir hoje do que essa camisola?», perguntam-me, desconfiados.

O caso não é para menos. A nossa companhia do jogo faz parte da história do Juventude, que festejou o centenário em 2018. Uma hora antes do jogo, somos mergulhados na história do recrutamento de Mike Plowden para a equipa de basquetebol do clube. Ouvimos maravilhas da sua maneira de ser, como foi a negociação e como teve um impacto marcante na modalidade em toda a região. Mais tarde, a história é ainda maior, quando recebemos a companhia de um octogenário que jogou futebol no clube nas camadas jovens (década de 50) e nos seniores.

 

É com eles que seguimos até às bilheteiras e vamos ouvindo a troca de galhardetes. Por duas horas, as amizades vão ser relegadas para segundo plano. Não há nada a esconder: sabe-se perfeitamente quem é verde e quem é azul, do Juventude. Comprados os bilhetes, a cinco euros cada, e com o pontapé de saída a menos de dez minutos de distância, somos surpreendidos pelo aviso que se ouve pelo sistema de som. Não há árbitros, por isso apelou-se aos interessados em fazer parte da equipa de arbitragem para aparecerem junto aos balneários. Por momentos, passou-nos pela cabeça ter um motivo de reportagem ainda melhor (O dia em que arbitrámos um dérbi de Évora), mas preferimos jogar pelo seguro e manter as amizades.

Bilhetes custaram cinco euros

A regra não é inflexível mas percebemos que a maior parte dos adeptos do Lusitano estão na bancada poente e os do Juventude estão do nosso lado, no peão. Mesmo junto ao meio-campo, estão os Águias Azuis, a claque do Juventude que vem com um tambor, tochas e uma enorme bandeira. Não cantam muito, nem sequer utilizam o tambor para marcar o ritmo do jogo, mas seguem o jogo apaixonadamente. 

 

Um trio de arbitragem perdido

 

Ser árbitro não é fácil, pensem o que quiserem pensar. Os primeiros minutos do jogo demonstram que os três elementos estão perdido em campo, cada um à sua maneira. Não é uma crítica, é uma constatação que nos faz viajar no tempo até 1997, ano em que fizemos parte de uma equipa de arbitragem pela primeira vez. A situação não foi muito diferente: havia apenas um árbitro e eram precisos dois fiscais-de-linha. A opção recaiu, como recaía quase sempre nestes jogos dos escalões de formação, em jogadores suplentes.

 

Era um Tires-Belenenses e, durante os dois primeiros minutos de jogo, tive o olhar mais compenetrado que me era permitido no penúltimo defesa do meu lado. Se ele avançava, eu avançava. Se ele recuava, eu recuava. Podia estar a trinta metros, mas era a sua sombra perfeita. E assim continuei até perceber pelo canto do olho que a bola tinha saído pela linha lateral e eu não fazia ideia de quem tinha sido o último a tocar. Estava tão absorto na ideia do fora-de-jogo que me tinha esquecido completamente que o papel de um fiscal-de-linha (na altura ainda era o termo utilizado) não se limita a isso.

 

Vinte e dois anos depois, aquela equipa de arbitragem era muito mais velha do que um rapaz de 12 anos mas também passou pela sua quota de dificuldades. Na bancada, não havia grande margem de manobra. «Vai ser uma barraca, a arbitragem», vaticinava um adepto. Minutos depois, o primeiro momento de razão. O árbitro assistente improvisado do lado do peão assinala fora-de-jogo mas o árbitro nem sequer percebe que há uma bandeirola no ar e continua com o jogo. Impotente, o assistente desiste, dando azo às críticas dos adeptos visitantes. «Não baixes essa merda, pá!», disse um primeiro. Uns segundos depois, já a meio de outra jogada, era feita uma recomendação: «Tens de arranjar um telefone para falar com o árbitro!».

Árbitro assistente teve um domingo inesperado

O penálti que toda a gente viu mas ninguém marcou

 

As piores previsões sobre o que seria o jogo com uma equipa de arbitragem improvisada – por culpa de falta de pagamento, disseram nas bancadas – não se confirmaram. Os jogadores aceitaram o repto e não houve momentos mais tensos. Mesmo da bancada, pareceu haver a compreensão necessária.

 

Mas, a meio da primeira parte, veio o lance que toda a gente viu mas que não entrou na história do jogo. Um avançado do Lusitano foi carregado em falta dentro da área e ninguém – nem o árbitro nem o assistente – assinalou. Ali, onde estávamos, o lance não deixou dúvida. Entre adeptos do Juventude, houve um momento de silêncio. Um «será que isto não vai ser marcado?», seguido de um respirar de alívio. Curiosamente, os protestos não foram fortes.

 

O jogo prosseguiu e o Juventude chegou ao golo num lance de bola parada. Naquele livre direto, ainda longe, descaído para o lado esquerdo, parecemos estar a meio da repetição da câmara privilegiada. O enquadramento foi perfeito para ver o remate e perceber que a bola se encaminhava para o ângulo, indefensável, ainda antes de o guarda-redes decidir o que fazer. O golo espetacular provocou festejos intensos com a maioria da equipa a celebrar com os seus adeptos, já no meio-campo defensivo.

Jogadores do Lusitano repuseram a bola durante os festejos

Malandros, os jogadores do Lusitano repuseram a bola rapidamente, aproveitaram a passividade de um árbitro que não percebia bem o que estava a acontecer, e remataram para o fundo da baliza deserta. Seria esta a barraca de arbitragem que se previa no início? Não. Foi nesta altura que árbitro, jogadores e adeptos perceberam que havia um jogador do Juventude que se tinha mantido no meio-campo ofensivo, evitando qualquer tipo de surpresa.

 

O Juventude salvou-se e chegou ao intervalo a ganhar. «Não te esqueças que estamos a ser ajudados», dizia um idoso para um adepto dos seus 40 anos na bancada do peão. «Sim, mas independentemente disso, o Juventude está a jogar melhor», replicava o outro. E estava. O Lusitano podia ser o líder mas o sinal mais daquela primeira parte estava do lado do Juventude.

 

Mais do que um jogo, um evento social

Natureza cresce no meio das bancadas

O dérbi de Évora é mais do que um jogo. É uma oportunidade para famílias inteiras saírem de casa e encontrarem-se numa bancada, mesmo sem cadeiras, de futebol. Ou, por vezes, nem é preciso chegar à bancada. Num bloco de prédios paralelo ao campo, são muitas as varandas do último andar com adeptos, alguns com cachecóis apropriados, a verem o jogo. Dentro do recinto, são várias as crianças que, apesar de olharem para o jogo, se sentem mais seduzidas pelo intervalo, momento em que podem entrar lá para dentro e fazerem, elas próprias, o jogo das suas vidas.

 

Uma delas comete o erro de ter uma camisola... verde. Amigo de um dos pais, um homem aproxima-se da criança e começa a fingir que lhe está a tirar a peça de roupa. Que aquilo não é coisa que se apresente naquele lado da bancada. Atrás de nós, uma voz irrompe imediatamente num tom brincalhão. «Não há problema, é para poder sujar à vontade!», diz.

 

As conversas prolongam-se no tempo, sobretudo durante o intervalo. Não são apenas sobre o dérbi, são sobre tudo. São conversas de final de semana, são hábitos de domingo à tarde, de gente que vai ver a bola mas não resiste ao convívio, à alegria de partilhar com os outros o que lhes vai pela cabeça.

 

Depois, com o reentrar das equipas, volta o olhar compenetrado e o objetivo de garantir os três pontos. O Lusitano precisa do golo para não perder a liderança mas é o Juventude que está mais próximo, mais do que uma vez, de festejar.

 

Por esta altura, o ambiente sonoro do jogo também está diferente. Atrás da baliza do Juventude, estão agora várias crianças do Lusitano. Vestidas a rigor, com fatos-de-treino do clube, dão asas ao que vão vendo e ouvindo nos estádios para replicar cânticos de apoio. «Nós acreditamos em vocês», gritam, repetidamente, tentando guiar o Lusitano até ao golo do empate.

Um lugar privilegiado

São cada vez mais e era tanta a confiança que o golo apareceu mesmo, ainda a tempo de proporcionar uns últimos minutos de grande intensidade e incerteza do resultado. Na outra baliza, um homem faz «marcação em cima» à baliza, repetindo insultos de destino incerto. Muito possivelmente, alguém que se limita a descarregar a adrenalina acumulada durante a semana. Mais ao lado, junto à bandeirola de canto, uma outra criança desabafa com o avô, ao analisar o desempenho do guarda-redes do Lusitano. «Ó pá, ele está sempre a gritar!»

 

Um jogo é assim mesmo. Dependendo dos olhos, da idade, das cores que defendem e do sítio de onde estão a ver o futebol, as experiências são diferentes. Por vezes, a maior influência chega mesmo a ser a do estômago. «Está na hooooooooooooooora!», grita um adepto do Juventude, perante os risos e comentários de quem o rodeia. Divertido, olha em volta e fita quem o desafia: «O que foi? Tenho de ir lanchar!», continua, desarmando quem mantinha o ar sério.

 

O fim da romaria com as análises habituais

Sol foi um obstáculo durante 90 minutos

O apito final chegou mesmo. O Juventude não conseguiu vencer o rival fora de casa e o Lusitano foi alcançado na liderança por outras três equipas: Atlético Reguengos, Redondense e Monte Trigo. Os três árbitros improvisados respiraram de alívio – afinal de contas, podia ter sido muito pior – e os adeptos seguiram de volta a casa com os comentários comuns.

 

Ter visto a vitória fugir por entre os dedos foi motivo suficiente para haver críticas ao treinador. «Isto é uma vergonha! Os jogadores é que mandam no balneário. É o Nhuka e mais dois ou três. Jogos grandes não ganham nenhum!», queixa-se um, enquanto outro se mostra feliz por a equipa se ter deixado empatar, confessando que até estava a torcer por isso. Afinal, adeptos com motivações dúbias que se deixam levar por outros interesses existem em qualquer lado, seja entre a elite ou na distrital de Évora.

 

Nem todos são assim. O desperdício de oportunidades deixa a maior parte desiludida por ter havido uma oportunidade tão boa para garantir os três pontos e ficar mais perto dos primeiros. Mas, do lado do rival, há quem não deixe passar a situação em claro, perante os amigos de outras cores. «Então? Não me digas que achavas que vinhas ganhar aqui ao Lusitano?», brinca um.

 

Achava que ia ganhar, sim. Porque isso também faz parte de ser adepto. E no final da época, na última jornada, o tabuleiro vai inverter-se. O parque de estacionamento até poderá ser o mesmo, mas o jogo será no Juventude. É uma pena não poder ser já para a semana.

Andy Murray. O estatuto de lenda ninguém lhe tira

Andy Murray em lágrimas durante a conferência

Era para ser uma conferência de imprensa igual a tantas outras. Mas não foi preciso esperar muito até se perceber que algo não estava bem. Andy Murray, de voz embargada, confessou que as dores levaram a melhor e que a reabilitação após uma operação à anca não correu como se esperava. Incapaz de ver um futuro positivo, o britânico admitiu, entre lágrimas e longas pausas para se recompor, que o Open da Austrália pode ser o seu último torneio. 

 

Profissional desde 2005, Andy Murray conhece os cantos à casa e há muito que se habituou ao ritual de entrar na sala, sentar-se na mesa com o microfone, encarar os jornalistas de frente e responder a perguntas que, muitas vezes, são tão pouco originais que só é preciso recorrer a meia dúzia de frases batidas.

 

O que os jornalistas não sabiam era que esta conferência ia ser muito diferente de todas as outras. Com uma simples pergunta de «como é que se sente?», tão habitual para abrir o diálogo com alguém que tem um histórico recente de problemas físicos, o castelo de cartas desmoronou-se.

 

Andy Murray abriu a alma e só o tom de voz seria suficiente para perceber um ser humano de rastos perante a impotência de voltar a ser o que era: «Não me estou a sentir bem, obviamente. Tenho estado com problemas há muito tempo, com muitas dores… há provavelmente vinte meses já. Fiz tudo o que podia para me sentir melhor mas não tem ajudado muito. Estou melhor do que estava há seis meses mas ainda sinto muitas dores. Tem sido duro».

 

Era um homem de rosto abatido, voz trémula e nariz fungoso, retendo as lágrimas nos olhos pelo maior tempo possível. «Ainda consigo jogar mas não ao nível que me deixaria feliz. Não é apenas isso. A dor é… demasiado grande. Não é algo que queira continuar, não quero continuar a jogar assim. Acho que tentei tudo o que podia para ultrapassar isto, mas não resultou».

 

Por esta altura, numa sala com um silêncio ensurdecedor, excluindo a frágil voz de Murray, o discurso foi exatamente para onde se começava a antever. «Falei com a minha equipa e disse-lhes que não conseguia continuar assim. Precisávamos de definir um fim, porque estar a jogar sem ideias de quando é que a dor ia parar… [pausa] disse-lhes que talvez aguentasse até Wimbledon. Era onde… era onde gostava de parar de jogar. Mas não estou certo que o conseguirei fazer».

 

As notícias não eram novidade para Andy Murray. A decisão estava tomada e tinha tido tempo para dormir sobre o assunto. Mas estar ali, enquanto tenista, a dar uma conferência de imprensa e a verbalizar o que lhe ia na mente e o que ia ser o futuro para o mundo, deixou-o incapaz. Baixou a cabeça, com o chapéu a tapar-lhe a cara e cedeu finalmente às lágrimas. Ouvir da própria voz que provavelmente não teria uma última oportunidade em Wimbledon, a prova-rainha para um britânico, o torneio que lhe garantiu o estatuto de lenda (não apenas por lá ter sido campeão olímpico em 2012 e, no ano seguinte, ter recuperado finalmente o grand slam para um tenista da casa) foi uma tarefa insuportável.

Andy Murray

Foi um teste que não podia ultrapassar sem chorar. Num mundo em que tenistas como Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic tendem a transparecer a ideia de que estamos perante super-heróis inquebráveis, Murray apareceu a mostrar que ninguém está imune. E, mais do que isso, que têm sentimentos. Abandonar a maior paixão da vida, aquela que lhe deu tantas alegrias e que o tornou o que é hoje, obrigado pelas dores é uma crueldade para a qual não estava verdadeiramente preparado. Porque nunca ninguém pode estar.

 

A conferência de imprensa continuou. Murray manteve a cabeça baixa, limpou as lágrimas dos olhos com a mão direita e, mesmo sem ter dado sinal de que estava preparado, um jornalista quebrou o silêncio com a pergunta necessária mas improferível: «Isso quer dizer que este pode ser o seu último torneio?».

 

Fez-se novamente um silêncio sepulcral. Murray não respondeu logo, nem conseguia se quisesse. Ouvir aquela pergunta arrastou-o novamente para o fundo do poço. Respirou fundo e chorou novamente. Já não eram apenas lágrimas, era um todo corporal, trémulo, incapaz de manter a respiração tranquila.

 

Percebia-se que o cérebro de Murray estava a mil. Dezenas de combinações de palavras passavam-lhe pela mente naquele momento. Estava à procura da frase certa, sempre com a cabeça baixa. Percebeu-se que tinha aberto a boca para iniciar uma frase mas arrependeu-se. Perdeu coragem. E novamente o mesmo processo. Ganhou calma, recompôs-se, levantou a cabeça e, enquanto limpava novamente as lágrimas dos olhos, respondeu: «Sim, acho que essa é uma hipótese».

 

Não havia mais nada que pudesse fazer. Tudo o que tinha para dizer estava dito. As dores são insuportáveis e não sabe se conseguirá aguentar a jogar por mais quatro ou cinco meses. Mas não são apenas mais quatro ou cinco meses. São esses em cima de todos aqueles que já aguentou, sacrificando-se, com uma esperança, agora morta, de que havia um futuro diferente a aguardar.

 

Em janeiro do ano passado, o escocês foi submetido a uma cirurgia à anca que o afastou até junho. Foi uma época ainda mais curta do que o esperado porque fez apenas 14 jogos, provocando nova interrupção em setembro. O objetivo seria conseguir a melhor reabilitação possível com um especialista, mas não houve antídoto para as dores. Não havia nenhuma varinha mágica que o pudesse transformar novamente no homem que tem dois títulos olímpicos, três grand slams (dois deles em Wimbledon) e que foi número um mundial numa era particularmente difícil.

 

O corpo de Murray poderá nunca mais recuperar deste problema – uma segunda operação é uma hipótese mas as hipóteses de reabilitação total são escassas – e a mente do tenista terá uma grande ferida que só o tempo será capaz de sarar. Mas Andy Murray, enquanto figura ímpar do ténis, nunca será esquecido. Os problemas físicos podem ter-lhe tirado a carreira e a alegria nos courts mas o estatuto de lenda será sempre intocável.

A pior viagem da minha vida

Atlético Madrid-Málaga

Vou confessar-vos uma coisa. Sei que os azares existem mas ainda não houve uma viagem que tenha feito que me faça sentir que não voltasse a fazer. Nunca tive voos perdidos, nunca tive acidentes, nunca foi roubado e, apesar de já ter sido obrigado a ficar de fora de um voo de regresso, a compensação financeira… fez jus ao nome e ajudou a abrir espaço para outras viagens.

(Publicado originalmente em atlas de bolso)

 

Por tudo isto, não tenho sequer dúvida no momento de assinalar qual foi a pior viagem da minha vida. Foi em maio de 2014, em Madrid, para ir ver um jogo de futebol: o Atlético Madrid-Málaga. A equipa estava à beira de ser campeã e, como bom sócio (na altura ainda o era), decidi comprar dois bilhetes assim que venceram em Valência, duas semanas antes.

 

Se o Atlético cumprisse a sua parte, vencendo os próximos dois jogos – em Getafe e em casa com o Málaga -, seria campeão. Por isso, aquele jogo de 12 de maio era uma oportunidade única. Até porque qualquer outro desfecho atrasaria a decisão para a última jornada… no Camp Nou contra o Barcelona. Era pegar ou largar, parecia.

Vestidos a rigor

A estratégia estava delineada. Íamos de carro no sábado à hora de almoço, passávamos a noite num hotel – no dia em que a célebre Conchita Wurst venceu o Festival da Canção -, víamos o jogo e voltávamos à noite, pela madrugada dentro.

 

A viagem começou a correr mal antes mesmo de nos fazermos à estrada. O Atlético perdeu em Getafe e o plano tornou-se muito menos infalível. Real Madrid e Barcelona teriam uma palavra a dizer e as contas estavam muito mais complicadas. Ainda assim, naquele dia, tudo podia acontecer: “bastava” que o Atlético vencesse o Málaga e o Barcelona não ganhasse. Ou, num cenário ainda mais surreal, que o Atlético empatasse desde que Barcelona e Real Madrid perdessem.

 

A história parecia jogar contra o Atlético. Não era uma questão de karma, muito menos uma tendência para tudo correr mal quando parece estar ao alcance de um pequeno esforço. É acima de tudo uma grande ironia perceber onde está construído o Vicente Calderón.

 

A nascente, o Paseo de los Melancólicos, paredes-meias com as portas do estádio, batizado pelos moradores por ser um local triste e desolador, capaz de incitar à depressão – isto ainda antes de haver futebol. A poente, o cemitério de San Isidro, que apesar de estar do outro lado do rio é facilmente identificável das bancadas do estádio do Atlético Madrid.

 

O contexto aponta para tristeza e mortes, mas domingo era um dia que se queria de festejos. O Atlético estava a um pequeno passo de um título nacional que escapava desde 1996. O apito inicial estava marcado para as sete da tarde, mas às duas já ninguém conseguia escapar ao ambiente do jogo. O trânsito adensava-se e os lugares de estacionamento eram um bem precioso, o que nos obrigava a procurar a outra margem do rio. Não havia euforia. Não parecia um jogo do título. O estádio ia estar cheio e via-se muita gente com as camisolas do clube – muitas de Simeone e da época em que conquistaram o último título – mas não havia festejos.

Banda que animou as imediações do estádio

Afinal de contas estávamos na tal estrada da melancolia, sentados na sombra da bancada. A contagem decrescente era teimosa, mas uma banda improvisada ajudou a passar o tempo. Os acordes remetiam para alguns dos cânticos mais entoados pelos adeptos e estes respondiam à altura. Quando surgiu o hino, mesmo que com umas notas ao lado, não houve quem ficasse calado. O ritmo puxa por todos e a preparação para o refrão, em crescendo e a puxar por tons heróicos, é a apresentação perfeita para se soltar um “Atleti! Atleti! Atlético de Madrid” mesmo ali a poucos metros de nós e com um eco que aumentava a cada nova voz que se juntava.

 

Parecia capaz de acordar mortos e satisfazer melancólicos. Não havia euforia. Mas havia confiança, havia vontade de fazer história. Já dentro do estádio, o speaker repetia as mesmas indicações de dez em dez minutos: havia bandeiras para agitar, um minuto de silêncio para recordar as vítimas de um acidente em Badajoz e o hino para cantar, mais uma vez, mas sem a habitual música a sair dos altifalantes. E acabava com um confiante “Vamos fazer desta tarde uma tarde memorável!”

 

“Juega cada partido como si fuera el último”, lia-se nas bandeiras brancas e vermelhas que, quando agitadas pelas quatro bancadas do Vicente Calderón, transmitiam uma sensação de não haver uma única alma por ali que não tivesse o mesmo objetivo. Ali, naquele momento, o futebol era a duas cores: vermelho e branco. Na fila da frente, um casal de brasileiros, mais interessados em sentir os lábios um do outro do que em ver o jogo, não eram exceção, mesmo que as camisolas tivessem sido acabadas de comprar numa banca de produtos não oficiais e o patrocínio “Azerbaijan Land of Fire” se tivesse transformado em “Azerbayan Land Off Fire”.

Bancadas vestidas de vermelho e branco

Parecíamos estar numa página de um livro de “Onde está o Wally?”. Sim, toda a gente estava de vermelho e branco, vestida da mesma forma, mas quem é que era preciso encontrar? Quem era o Wally? Quem era o herói da vitória e do título? David Villa não foi. Mas poderia ter sido. Deu início a um festival de oportunidades falhadas – acertou na trave; mais tarde foi Willy Caballero, guarda-redes do Málaga, a negar o golo com grandes defesas para canto. Por todo o estádio havia profetas, não da desgraça, mas da euforia.

 

Eram os que tinham os ouvidos tapados por auscultadores que traziam as últimas novidades do Celta-Real Madrid e Elche-Barcelona. “1-0, golo do Celta”, ouviu-se, dando origem a alguns festejos contidos. Dois minutos depois, o estádio entra em erupção pela primeira vez. Num efeito visual a fazer lembrar a “hola mexicana” festeja-se como se o Elche tivesse acabado de marcar. Afinal, aquele momento provocado pela claque não era mais do que uma reação com atraso ao golo de Vigo.

 

O intervalo chegou com tudo a zeros: em Madrid, com domínio e melhores oportunidades, e no jogo do Barça. “Estão a dominar. O Elche está encostado lá atrás. Acho que não vão aguentar”, diz um homem idoso capaz de pensar que aquela poderia ser a última oportunidade para ver o Atlético campeão. O problema é que mesmo que o Elche aguente, é preciso marcar ali. Não está a ser fácil.

 

A segunda parte é imprópria para cardíacos. A expressão é muitas vezes usada com exagero mas naquele momento é isso mesmo. Os nervos aumentam – dentro e fora de campo – e as oportunidades falhadas levam ao desespero. O Elche até faz a parte dele mas quando o Málaga marca num contra-ataque o estádio cai num abismo. Por alguns segundos, não se ouve um sussurro (tirando um desabafo asneirento bem português que deixa dezenas de espanhóis a olhar para mim) até que, tímida e espontaneamente, voltam os gritos pela equipa.

 

O golo do empate chega apenas oito minutos depois e deixa o Vicente Calderón em estado de empolgamento máximo. Pelo meio, recordam o passado de glória e gritam por Luis Aragonés (três vezes campeão como jogador e uma como treinador), que morreu três meses antes. Logo a seguir, há novo “golo” do Elche festejado.

 

Por muito que se queira festejar, é impossível não procurar os tais profetas para confirmar. «Foi golo do Elche? Foi golo do Elche? Não? Não? Não!» Ainda assim, nada está perdido: “Vamos Atlético. Dez minutos e um golo para sermos campeões!” ouve-se mesmo atrás de nós.

 

Quando o Elche-Barcelona termina, faltam ainda dois minutos dos cinco de descontos em Madrid e está por acontecer o momento que por muito tempo continuará marcado na memória dos adeptos – Adrián recebe na esquerda, flete para o meio, procura o ângulo e... Caballero voa para mais uma defesa fantástica.

 

O fim do jogo é um balde de água fria depressivo. As bancadas despem-se e o Paseo de los Melancólicos enche-se de adeptos. Mas não há festa, não há troca de ideias, não há nada. Quando atravessamos a ponte, um casal mais velho assiste com pena à romaria depressiva. «É incrível. Não se ouve uma palavra. Tanta tristeza», desabafa a mulher. É o silêncio ensurdecedor de uma desilusão.

Paseo de los Melancólicos

Fim da história? Antes fosse. A caminho do carro, parámos num multibanco para levantar dinheiro e… a máquina engoliu o cartão. Perdemos mais de meia hora a contactar o banco – sem grande sucesso – e o regresso a Lisboa foi sendo cada vez mais adiado. Depois, já no meio do trânsito, completamente parado, um homem num carro em sentido contrário dirige-se a nós num tom aparentemente gozão.

 

“Isto não fica por aqui”, diz-me, uma semana antes do tal Barcelona-Atlético e a duas semanas da final da Liga dos Campeões em Lisboa com o Real. “Não fica não, que hoje só páro em Lisboa”, digo-lhe, perspetivando os mais de 600 quilómetros de viagem com o maior melão que o desporto já me proporcionou.

 

Foi a pior viagem, disso não há dúvida. A única atenuante foi mesmo o Atlético ter conseguido conquistar o título em Barcelona. Ainda assim, nunca me vou esquecer daquela madrugada de introspeção.

José Mourinho. O Toque de Midas invertido

José Mourinho e o seu estilo inconfundível

É difícil explicar a alguém sem memória do início do século XXI o que aconteceu com José Mourinho quando o técnico português deu os primeiros passos numa carreira a solo, depois de finalmente se libertar dos papéis de braço-direito de Robson e Van Gaal.

 

A atitude, método e garra foram apresentados no Benfica mas não houve tempo para aparecerem resultados concretos. Em Leiria, provou que tinha a lição bem estudada e, quando chegou ao FC Porto, deixou de haver dúvidas de que o treinador de Setúbal era, de facto, especial.

 

É aceitável dizer que a personalidade de Mourinho não mudou um centímetro desde aquele período. É legítimo dizer que o passar dos anos e os cabelos brancos tornaram-no mais amargo, mas a propensão para intervenções icónicas sempre esteve lá. A conferência de imprensa a arrasar Sabry, a promessa do título em condições normais – e anormais -, e a ameaça de que a eliminatória não estava fechada após a derrota nas Antas com o Panathinaikos compõem apenas o topo de uma pirâmide com vários andares.

 

Pode também parecer difícil compreender que José Mourinho chegou ao FC Porto no período mais difícil da presidência de Pinto da Costa. O clube preparava-se para perder o terceiro título consecutivo, uma figura como Jorge Costa tinha sido excluída por Octávio Machado e os resultados em campo não ajudavam.

 

O FC Porto de José Mourinho, futuro campeão sem discussão na mente do próprio, não era mais do que alguém a correr por fora e longe da pujança do final da década de 90. O primeiro verão trouxe novidades: Jorge Costa regressou do empréstimo ao Charlton, Maniche veio da equipa B do Benfica, Paulo Ferreira de Setúbal, Pedro Emanuel do Bessa e, mais importante, Nuno Valente e Derlei de Leiria.

 

Não foram as únicas contratações mas foram as mais importantes. Com um recrutamento exclusivamente nacional (fora o empréstimo) e com uma margem de erro elevada – jogar no FC Porto traz sempre uma exigência maior -, ninguém sabia exatamente o que esperar desta equipa.

 

Ninguém excepto Mourinho. Paulo Ferreira e Nuno Valente tornaram-se laterais de eleição (e seleção), Jorge Costa recuperou o estatuto ao lado de um Ricardo Carvalho em crescimento, e Maniche e Derlei foram pedras essenciais do meio-campo para a frente, tanto a atacar como a defender.

 

Foi aqui que nasceu o Toque de Midas. De terceiro classificado em 2002, garantindo a presença na UEFA apenas na última jornada, o FC Porto tornou-se a equipa mais forte de Portugal, sem discussão, e num grande candidato à conquista da Taça UEFA.

 

Fê-lo com base num grande investimento? Não. Fê-lo porque Mourinho pegou num punhado de jogadores de 8 ou 80 e pô-los a dar 100%, de potencial pleno, do início ao fim. Foi bicampeão, venceu a Taça UEFA, a Liga dos Campeões, uma Taça de Portugal, uma Supertaça e seguiu para Londres com o estatuto de grande sensação europeia.

 

Padrão de sucesso manteve-se até Milão

Mourinho foi dominador em Stamford Bridge

A realidade do Chelsea era diferente da do Porto mas a ideia subjacente era a mesma: os blues queriam muito um campeonato que fugia desde a década de 50. A jogar por fora, e agora já com um investimento contundente, Mourinho foi fiel ao seu padrão de sucesso.

 

Com ele ao comando, os jogadores pareciam dar sempre mais do que valiam no mercado. Eram especiais, reagiam positivamente aos estímulos e davam à vida por ele se preciso. A ligação entre grupo e treinador era importante e nada parecia pôr isso em risco.

 

Mourinho apostava forte, não recuava e parecia ganhar sempre. A cada afirmação arrogante, o resultado seguinte confirmava que afinal podia ser apenas realista. A postura provocadora ganhou inimigos em Inglaterra mas o bicampeonato pelo Chelsea, apesar de falhar na Europa, serviu para aumentar a sua aura.

 

O início do fim no Chelsea deu-se com as contratações de Ballack e Shevchenko em 2006. Foram recebidas com estranheza. Não pelos montantes de investimento, mas porque não encaixavam na lógica de jogadores que precisavam de ser potenciados porque não estavam a ser devidamente aproveitados. O alemão e o ucraniano tinham uma carreira sonante, de resultados feitos, e não se deram bem com Mourinho.

 

Este foi o primeiro grande sinal: Mourinho tem um problema com jogadores conceituados. A forma como lida com eles é diferente da forma como lida com alguém que tem algo a perder. E a resposta que dão em campo também é radicalmente diferente, até porque estes não estão dispostos a ouvir da mesma forma.

 

No desafio seguinte, em Itália, voltou a assumir o comando de uma equipa que tinha um desafio claro de outsider: não a nível doméstico, onde os títulos pareciam ser uma condição normal, mas sim na Europa, onde a obsessão passava por recuperar a dimensão da década de 60, voltando a ganhar um título europeu.

 

Explorando jogadores como Milito, Eto’o, Zanetti e Sneijder, o Inter cumpriu a profecia na segunda temporada, abrindo caminho para José Mourinho largar Itália e rumar a Espanha para liderar o Real Madrid. Aqui, como em Milão, o objetivo era a glória europeia. Aqui, ao contrário de San Siro, não tinha um grupo de jogadores desejosos de encontrar um líder autoritário. E havia um super Barcelona.

 

Algo aconteceu pelo caminho

Mourinho com Casillas em Madrid

Não é fácil indicar exatamente onde é que o Toque de Midas de Mourinho ficou. Algures pelo caminho, o treinador português deixou de ser alguém capaz de potenciar jogadores e passou a ser alguém com dificuldade para tirar o máximo de cada um que tinha à disposição.

 

A passagem pelo Real Madrid pode ser vista como um fracasso. Sim, a equipa avançou até às meias-finais da Liga dos Campeões, algo que não acontecia há quase uma década, mas o objetivo não era ver a glória, mas sim alcançá-la. E a nível interno o título de 2012, por muito fantástico que tenha sido, não foi suficiente para inverter a tendência de subjugação ao Barcelona e aos ideais de Guardiola.

 

Os desafios seguintes no Chelsea e no Manchester United acentuaram esta tendência, apesar da Premier League e da Liga Europa no currículo. Em 2004, ao sair do FC Porto, ninguém acreditaria que Mourinho fosse capaz de, um dia, desperdiçar os talentos de De Bruyne e Salah, por exemplo. Ou ser incapaz de garantir um relacionamento saudável com Pogba para que o rendimento em campo fosse incomparavelmente maior.

 

Mourinho perdeu-se no meio dos seus demónios. Perdeu critério, ficou sem capacidade de entender um plantel e saber que um jogador com 20, 21, 22 anos em 2018 já não é igual ao que era em 2002. Hoje, Mourinho é uma sombra do que foi e o futuro é visto como uma grande incógnita, tanto para os que gostam dele como para os que nunca se renderam.

 

O futebol andou a uma velocidade muito mais alta do que Mourinho foi capaz de evoluir. A personalidade cativante do passado, onde cada declaração mais audaz era correspondida por um resultado do mesmo nível, foi substituída por um perfil amargurado com afirmações despropositadas, e tristes por já nunca definirem a realidade.

 

O próximo passo de Mourinho será difícil. O seu perfil de treinador está a perder adeptos um pouco por toda a Europa ao ponto de se pensar que mesmo para o Benfica não seria uma boa opção. Hoje, Mourinho é sinónimo de um treinador que exige milhões em reforços mas que depois é incapaz de os aproveitar.

 

Haverá quem continue a querer arriscar? Talvez, afinal a marca Mourinho ainda é sonante e capaz de convencer milionários que não esquecem o que o português já foi. Mas não haja dúvidas: Mourinho não é mais do que uma sombra triste do que foi no passado. E isso deixa-nos a todos nós, adeptos do futebol e da transformação que operou no início do século XXI, desiludidos.

Futebol dos 90. O Farense de 1997/98

Farense 1997/98

Falar do Farense na década de 90 é falar de Paco Fortes. O pequeno treinador espanhol, que tinha chegado a Portugal ainda como jogador, para representar a equipa algarvia em 1984, era um espetáculo dentro do próprio espetáculo. O seu carisma e garra, apesar da baixa estatura (1,68 metros), tornaram-se uma ideia indissociável dos jogos do Farense no São Luís.

 

Não havia transmissão televisiva, relato na rádio ou resumo em que não fosse referida a forma como Paco Fortes incentivava os seus jogadores, quase sempre com um bigode farto e esbracejando vivamente com um casaco feito à medida para quem sempre sonhou ser jogador de basquetebol mas demorou muito tempo até poder entrar em montanhas-russas.

 

Paco Fortes era a alma farense. Foi ele que levou a equipa à final da Taça de Portugal e que subiu a equipa ao primeiro escalão em 1990, que garantiu um apuramento europeu e que bateu o recorde de seis presenças consecutivas no primeiro escalão. Em 1997, o espanhol estava preparado para atacar a Liga Portuguesa pela oitava edição seguida.

 

O Verão garantiu o melhor reforço que os adeptos podiam desejar. Depois de duas temporadas na Luz, Hassan, o goleador marroquino que tantas saudades tinha deixado com um rasto de golos e destruição das defesas adversárias, voltava para reassumir o trono do reino dos Algarves.

 

As notícias não foram exclusivamente boas. Peter Rufai, o príncipe nigeriano, tinha dado o salto a meio da época anterior para o futebol espanhol (Hércules) e, pela primeira vez desde 1994, a época ia começar com outro guarda-redes titular. Numa lógica de rei morto, rei posto, a posição foi ganha por um imperador. Marco Aurélio, contratado ao Rio Ave, mostrou ser uma alternativa digna e lançou raízes sólidas de uma carreira que só iria acabar no Restelo em 2006/07, com Jorge Jesus.

 

As saídas significativas não se ficaram por aí: Raul Barbosa saiu para Felgueiras, Paiva para Guimarães, Tozé para Barcelos e o mítico Helcinho, um jogador que parecia combinar as características físicas de Rui Barros com as de Domínguez, foi para Espanha.

 

O reforço do plantel, sobretudo no meio-campo, foi uma prioridade e chegaram jogadores com experiência: Mauro Soares, ex-Belenenses e Sporting, foi recrutado no Brasil e Besirovic chegou de Espinho.

 

Início auspicioso não foi continuado

Hassan é sinónimo de Farense

O sorteio das primeiras jornadas não foi fácil para a equipa algarvia. Receber o Sporting a abrir, algo que já tinha acontecido em 1994, seria sempre uma tarefa difícil mas o Farense de Paco Fortes impôs-se e sacou um nulo. Para a história, ficou o primeiro onze daquela temporada: Marco Aurélio, Carlos Costa, Camilo, Paulo Sérgio, Pedro Miguel, Paixão, Mauro Soares, Besirovic, Hajry, Djukic e Hassan.

 

A expulsão do avançado marroquino, por duplo amarelo, foi a pior notícia possível mas nem assim os algarvios perderam o sentido da baliza na viagem até Braga para a segunda jornada. Paco Fortes repetiu as opções que podia e a alternativa a Hassan, o irreverente Bráulio, bisou com dois golos em cinco minutos no empate (2-2).

 

Quando a equipa de Paco Fortes somou dois triunfos nos dois jogos seguintes (3-0 no Restelo e 1-0 ao Desp. Chaves), a época estava a assumir contornos otimistas. À partida para a quinta jornada, o Farense era quarto classificado com oito pontos, a quatro do líder FC Porto e à frente de Sporting (7) e Benfica (4). Mas o êxito foi sol de pouca dura, mesmo no Algarve. Até à passagem de ano, os algarvios só voltaram a vencer um jogo (1-0 ao Varzim no São Luís com um golo de Hassan), num total de oito pontos. Pelo meio, o sorteio da Taça também não foi amigável e acabaram eliminados pelo Benfica na Luz (4-2).

Farense foi eliminado na Luz

A série negativa não foi suficiente para empurrar a equipa para os últimos lugares. Na primeira jornada de 1998, o Farense era 12.º com 16 pontos, enquanto os lugares de descida eram ocupados pelo Boavista (13), Belenenses (9) e Desp. Chaves (8).

 

O novo ano trouxe uma nova vida ao Farense. A derrota pesada em Setúbal a abrir (4-1) foi um percalço sem repetição numa série positiva que durou até ao início de março. Durante esse período, em nove jogos, os algarvios só voltaram a perder um jogo (em Alvalade com o Sporting, com Paulo Alves a fazer o decisivo 3-2 a três minutos do fim), somaram um total de 14 pontos e foram notícia ao travar o Benfica em casa: 1-1 num jogo “decidido” aos oito minutos depois de golos de Tahar (4’) e Marco Nuno (8’).

 

Sofrer para garantir a permanência

 

Faltavam dez jornadas para o final do campeonato e o futuro permanecia uma incógnita. Os algarvios tinham conseguido uma boa série de jogos sem derrotas mas o excesso de empates (12 em 24 jogos eram o máximo registado naquela época) não tinha ajudado a cavar um fosso suficiente para o último lugar de descida, ocupado então pela Académica, com 24 pontos. O Farense tinha 30.

 

O pior período do Farense vinha a caminho e na pior altura possível, uma vez que Hassan já estava lesionado desde a jornada 19 e só voltaria a jogar no penúltimo encontro. Nos sete jogos seguintes, registaram uma série de cinco derrotas consecutivas, num total de seis. Pelo meio, pontuaram apenas uma vez, na receção ao Leça (1-1).

 

Durante este período, Paco Fortes foi apostando num ataque mais móvel, alternando combinações que incluíam Ramos, Marco Nuno, Bráulio, Zezinho, Pintassilgo, Youssef e Djukic.

 

O calendário entrou em Maio, faltavam apenas três jogos, os dois primeiros lugares já tinham sido assegurados por FC Porto e Benfica e os lugares de descida estavam ao rubro. O Belenenses já tinha sido despromovido, mas Desp. Chaves (28), Varzim (29), Farense (31) e Académica (32) tinham uma margem reduzida para garantir a permanência.

 

Paco Fortes juntou esforços e, na antepenúltima jornada, guiou a equipa ao triunfo no São Luís sobre o V. Setúbal (2-0 com golos de Ramos e Mauro Soares). Os três pontos foram valiosos, sobretudo porque Varzim e Académica perderam. Com seis pontos em disputa, os algarvios pareciam ter mais margem para respirar.

 

As aparências iludiram. Na penúltima jornada, os algarvios podiam ter fechado as contas no jogo em Coimbra mas perderam com a Académica (1-0, João Tomás). O Varzim imitou o resultado e ficou automaticamente despromovido mas o Desp. Chaves surpreendeu e foi vencer a Setúbal por 2-1, graças a um bis de Míner. Conclusão: faltava descer uma equipa e havia cinco equipas separadas por três pontos – V. Setúbal e Campomaiorense (37), Académica (35), Farense e Desp. Chaves (34). Por agora, a vantagem no confronto direto sobre os flavienses fazia a diferença.

 

A última jornada foi vivida ao limite. Se o Farense ia receber um Rio Ave cómodo no meio da tabela e sem nada pelo que lutar, os outros dois maiores aflitos iam jogar entre si: Desp. Chaves-Académica em Trás-os-Montes.

 

Até ao apito final, tudo podia acontecer. Djukic marcou para o Farense antes do intervalo e o duelo do norte continuava sem golos. Mas, a qualquer momento, um golo do Rio Ave aliado a um do Desp. Chaves podia empurrar o Farense para a segunda divisão.

 

Não aconteceu. Os resultados não sofreram alterações, o Farense respirou de alívio e terminou no 14.º lugar com 37 pontos, à frente da Académica com 36 e do despromovido Desp. Chaves com 35.

 

Relatório e contas da temporada

Paco Fortes no seu estilo inconfundível

O balanço final acabou por ser positivo. Marco Aurélio foi o único totalista do plantel e o reforço Besirovic foi o jogador de campo mais utilizado por Paco Fortes. Contratado para fazer golos, Hassan não desiludiu e assumiu-se como o melhor marcador da equipa com nove.

 

A temporada de regresso de Hassan trouxe dois dados muito curiosos: marcou no terreno dos quatro campeões nacionais à altura (um no Restelo, um na Luz, dois nas Antas e um em Alvalade), e foi expulso no primeiro e último jogo que fez na temporada: no São Luís com o Sporting por acumulação de amarelos e em Coimbra com vermelho direto depois de entrar aos 74 minutos.

 

Ramos e Bráulio, cada um com sete golos, também foram decisivos. Velozes, os dois jogadores ajudaram a desequilibrar muito pelos flancos e assumiram-se como peças essenciais da estratégia de Paco Fortes.

 

Dois últimos destaques para Hajry e Djukic. O outro marroquino do plantel, que é um verdadeiro sinónimo do Farense na década de 90, foi uma peça nuclear da equipa, desequilibrando pela experiência e com três golos que garantiram três pontos. O sérvio, herói da última jornada, em época de despedida, fez apenas dois golos.

Ryoyu Kobayashi. Largar o Porsche para fazer história

Ryoyu Kobayashi

Tem 22 anos e não lhe falta nada. Num país como o Japão, que acarinha os seus melhores talentos e lhes dá todas as condições para fazer história, dinheiro é algo comum na vida de Ryoyu Kobayashi há muito tempo.

 

Aos 22 anos, a neve já faz parte desde os cinco, altura em que começou a esquiar. Pouco depois, muito influenciado pelo irmão mais velho, Junshiro, deu o salto… para os saltos de trampolim. O talento é inegável e o aparecimento dos patrocínios, bem como dos prémios por participações, fazem dele um atleta com recursos.

 

Esta foi a principal dificuldade do seu novo treinador, o finlandês Janne Vaatainen, com quem começou a trabalhar antes do início desta temporada. «Quando começou a perceber que tinha de fazer mais do que limitar-se a conduzir o seu Porsche, tornou-se bom. Tenho estado a pressioná-lo para treinar mais, mas até agora não gostou. Está a aproveitar a vida e, faça o que fizer, continua com aquele sorriso maroto na cara», disse.

 

Kobayashi é, por estes dias, um nome incontornável nos desportos de inverno. A dupla faz parte da comitiva japonesa, tal como o experiente Noriaki Kasai, que ano após ano tenta fazer frente à hegemonia europeia. Não é novidade para ninguém: a especialidade é exigente, não tem grande tradição e é dominada quase exclusivamente por atletas do Velho Continente.

 

O histórico do Torneio dos Quatro Trampolins é esclarecedor. Existe desde 1953, com quatro etapas por ano, e só em 15 provas não foi ganha por um europeu. Mas, mais importante do que isso, em todas essas 15 ocasiões o vencedor foi… japonês.

 

E no início havia Yukio Kasaya

Yukio Kasaya

Foi preciso esperar até 1971/72 para ver a primeira vitória de um japonês numa etapa do torneio. Yukio Kasaya não fez a coisa por menos e venceu as primeiras três da temporada. Com o título à mão de semear e a possibilidade de se tornar o primeiro atleta da história a fazer o grand slam… Kasaya voltou para o Japão e falhou a quarta ronda.

 

«Pode parecer rude dizer isto hoje, mas tinha mesmo de fazer parte dos eventos de qualificação no Japão para os Jogos Olímpicos», recordou esta semana. E percebe-se: Sapporo ia organizar a edição e a expectativa nipónica era enorme. Ser galardoado em casa era a maior honra possível e vencer o torneio tornou-se secundário.

 

O Japão só voltou a aparecer no mapa da década de 90, com um triunfo de Noriaki Kasai em 1992/93, mas o ponto alto chegou na temporada 1997/98, com Kazuyoshi Funaki. Já com dois triunfos em edições anteriores, ambas em Innsbrück, o nipónico entrou fulgurante na competição e imitou Kasaya, com triunfos nas três primeiras provas.

 

Tal como em 1972, havia uma edição dos Jogos Olímpicos de Inverno à espera no Japão (Nagano) mas desta vez Funaki teve a oportunidade de lutar pelo grand slam e conquistar o título. Falhou a primeira, assegurou a segunda, tornando-se o primeiro japonês na história a destronar a hegemonia europeia. Mais tarde, tal como Kasaya, garantiu o ouro olímpico.

 

A evolução de Ryoyu Kobayashi

Ryoyu Kobayashi

Janne Vaatainen pode não gostar da forma como Ryoyu Kobayashi olha para a vida atualmente mas é indesmentível que o trabalho que tem vindo a desenvolver já se nota em competição. O jovem de 22 anos começou a competir no circuito em 2015/16 mas até esta época não tinha ido além de um sexto lugar. Agora, em onze etapas, já venceu oito.

 

Mais importante do que isso, quatro foram no Torneio dos Quatro Trampolins. Isso mesmo: Ryoyu começou por imitar os feitos de Kasaya e Funaki mas foi mais além e completou o grand slam com o triunfo em Bischofshofen no domingo, tornando-se o terceiro atleta a consegui-lo, sucedendo a Kamil Stoch (2018) e Sven Hannawald (2002).

 

«Isto é ainda mais fantástico», expressou o compatriota Noriaki Kasai depois de efetivado o grand slam. «É um feito impressionante que um saltador japonês nunca tinha alcançado. É verdadeiramente fantástico.»

 

A concorrência admitiu que, perante o talento do japonês, seria apenas uma questão de tempo. «Sabíamos que mais tarde ou mais cedo ele ia concretizar todo o seu potencial», confessou o treinador alemão Werner Schuster. O segundo classificado do torneio, Markus Eisenbichler, conformou-se perante a sua impotência: «Ele é verdadeiramente bom, temos de admitir sem qualquer tipo de inveja».

 

A admiração é contagiante e estende-se aos japoneses que abriram a caixa de Pandora no século XX. «É como um segundo Funaki», contou Kasaya. «Acho que ele é mais forte mentalmente do que era. Não é sorte», acrescentou Funaki.

 

Agora, ao contrário dos antecessores, não há uma edição dos Jogos Olímpicos de inverno para vencer. Mas o caminho para continuar a fazer história está ao seu alcance. Com ou sem sorriso maroto, acelerando mais ou menos no seu Porsche, Kobayashi está a um triunfo de igualar Funaki como recordista de triunfos no Torneio dos Quatro Trampolins.

 

Talento tem, e a dedicação está a aumentar. É uma questão de tempo.

O contributo multidimensional de Pepe no FC Porto

Pepe voltou ao FC Porto

O mercado de janeiro acabou de reabrir mas dificilmente haverá uma transferência de inverno com maior impacto do que o regresso de Pepe ao FC Porto. O internacional português pode ter 35 anos – fará 36 no próximo mês – mas continua a mostrar que consegue competir ao mais alto nível e será um recurso muito valioso para Sérgio Conceição durante a segunda metade da temporada.

 

A oportunidade de reaver o central, onze anos e meio depois de ter saído com grande lucro para o Real Madrid, pode não ter parecido uma prioridade mas o contributo de Pepe será multidimensional e dificilmente haverá um «contra» na análise a esta contratação.

 

Hoje, Pepe está mais maduro, mais inteligente e muito mais experiente do que quando saiu. Está também mais calmo. Foi-se assumindo como uma pedra basilar da seleção portuguesa e regressa ao Dragão inconformado mas com o sentimento de dever cumprido.

 

Não há outra forma de ver as coisas: se Pepe decidisse acabar a carreira ao rescindir com o Besiktas, o balanço já teria sido fantástico. Euro-2016 com Portugal, dois campeonatos com o FC Porto, três com o Real Madrid e três Ligas dos Campeões são apenas os pontos mais brilhantes de uma carreira que tem mais títulos domésticos, europeus e mundiais para acrescentar.

 

Mas Pepe sente-se em condições e decidiu continuar a jogar. E escolheu o FC Porto. No Dragão, será uma opção de luxo para Sérgio Conceição. Caso esteja interessado, o técnico pode blindar a baliza de Casillas com um quarteto defensivo de luxo composto por Éder Militão, Pepe, Felipe e Alex Telles.

 

Este quarteto defensivo nascido no Brasil (algo que num grande só tinha acontecido no Benfica de Ronald Koeman com Alcides, Anderson, Luisão e Léo) ajuda a suprir as dificuldades que a equipa tem sentido no lado direito da defesa e aumenta a qualidade de um setor que arrancou a época com o jovem Diogo Leite a «desenrascar».

 

Muito mais do que uma opção em campo

Vítor Baía era a maior referência do plantel quando Pepe chegou

O contributo de Pepe está longe de se esgotar em campo. A sua entrada para o plantel é também um sinal de que a crise de identidade e de mística que o FC Porto sofreu, sobretudo durante o tetracampeonato conquistado pelo Benfica, está ultrapassada.

 

Neste momento, Herrera é o jogador com mais épocas consecutivas no plantel (desde 2013) e até ao ano passado não tinha conquistado um único título. Esta falta de liderança clara tinha-se acentuado com a saída de Helton em 2017 e só a contratação de Sérgio Conceição para o cargo de treinador ajudou a reequilibrar o panorama.

 

Os dados não deixam dúvidas. Helton era o jogador há mais tempo no plantel quando deu lugar a Herrera, e recebeu esse testemunho de Vìtor Baía, que por sua vez o tinha recebido de Aloísio, que o tinha recebido de João Pinto. Entre estes jogadores, a mística foi sendo sempre assegurada e transposta de geração em geração como forma de garantir que o «ser Porto» era uma realidade e não apenas um lugar-comum debitado por Nuno Espírito Santo em conferências de imprensa.

 

Pepe sabe o que é «ser Porto» e tem a experiência necessária para servir de elemento-chave no plantel. É um nome sonante como Iker Casillas com o bónus de já ter passado pelo clube, de ter conquistado seis títulos em três anos e de se ter estreado numa Supertaça Europeia.

 

Quando Pepe era um novato, em 2004/05, a época pode não ter sido favorável mas tinha referências claras no plantel: Vítor Baía, Jorge Costa e, se quisermos alargar um pouco mais o espectro, Costinha.

 

A liderança nunca esteve em causa. Agora também não está mas há novamente um nome capaz de lançar as sementes na nova fornada de jogadores que estão a evoluir no Dragão e que poderão assumir-se como referências no futuro.

 

Pepe pode ser uma opção de luxo para Sérgio Conceição mas não era um reforço indispensável. Pode ser um nome sonante para aumentar o prestígio e a projeção internacional do clube mas para isso também há Casillas. O certo é que ninguém como ele poderá vestir tão bem o papel de referência e transportador da mística do que é «ser Porto». Só isso já valerá o investimento.

Lobanovskyi. O mentor do futebol total soviético

Valeriy Lobanovskyi

«Quando se fala da evolução tática no futebol, a primeira coisa a ter em mente é a procura constante de novos rumos de ação que não permitam ao adversário adaptar-se ao nosso estilo de jogo. Se o adversário se ajustar e encontrar uma forma de contrariar, temos de encontrar uma nova estratégia.»

 

Valeriy Lobanovskyi foi muito mais do que um treinador de futebol. Foi um visionário, um estratega, um idealista que olhava para dentro de campo com uma noção de sintonia e com um claro entendimento de que a dinâmica coletiva seria suficiente para superar qualquer obstáculo individual.

 

O soviético, nascido na Ucrânia a 6 de janeiro de 1939, teve uma carreira modesta, mas positiva, enquanto jogador. No seu melhor período, ao serviço do Dínamo Kiev entre 1959 e 1964, conquistou um campeonato e uma Taça, e marcou um total de 42 golos em 147 encontros.

 

Mas foi quando passou para o lado de fora das quatro linhas, já depois de representar duas outras equipas ucranianas – Chornomorets de Odessa e Shakhtar de Donetsk – que começou a notabilizar-se verdadeiramente.

 

No primeiro desafio, ao leme do Dnipro Dnipropetrovsk, foi campeão do segundo escalão soviético. Depois, em 1973, chegou o convite do Dínamo e nada mais voltou a ser o que era.

 

Dínamo Kiev foi o laboratório perfeito

O revolucionário Dínamo Kiev de 1975

Lobanovskyi não precisou de fazer crescer o Dínamo. O clube de Kiev era uma das maiores potências soviéticas e antes da chegada do novo treinador já tinha conquistado cinco campeonatos (1961, 1966, 1967, 1968 e 1971).

 

O que o técnico fez foi ainda mais importante. Foi pegar numa equipa forte e torná-la demolidora. Foi pegar nos bons jogadores e fazer deles ainda melhores. Por muito boa que a ideia de jogo seja, de nada valerá se não houver quem a saiba interpretar em campo. Agora, homem, filosofia e plantel estavam numa sintonia total rumo à revolução do futebol.

 

O modernismo de Lobanovskyi impressionava. O treinador adaptou as necessidades do futebol de então às ideias que tinha e o resultado foi concludente. A imprevisibilidade aliada à diversidade de opções fizeram do Dínamo uma equipa sem antídoto.

 

«É preciso forçar o oponente a assumir a condição que lhe desejamos. Uma das coisas mais importantes é variar o tamanho da zona de jogo», dizia, realçando a importância de forçar o adversário a cometer um erro.

 

«Para atacar, é necessário retirar a bola ao adversário. Quando é que é mais fácil fazer isso: com cinco jogadores ou com toda a equipa? O mais importante no futebol é aquilo que um jogador está a fazer no campo quando não tem a bola», afirmou uma vez.

 

Obsessão pelo controlo

Valeriy Lobanovskyi

Valeriy Lobanovskyi era um nobre ditador. Sabia o quê, quando e onde pedir algo a um jogador. Sabia o que este lhe podia oferecer e não deixava de lhe exigir tal façanha enquanto este não correspondesse.

 

O plantel podia não ser vasto mas cada jogador estava obrigado a ter a capacidade de desempenhar mais do que uma função, não apenas entre encontros mas durante os jogos em si. Quando os jogadores correspondiam, a confiança era construída e criava-se uma relação de respeito.

 

Um bom exemplo disso foi quando Lobanovskyi, numa das vezes em que acumulou os cargos de treinador do Dínamo e de selecionador da União Soviética, decidiu escolher apenas jogadores do clube para o onze da seleção. A partida foi ganha mas a façanha não foi bem vista: o risco de correr mal e ser visto como uma provação ao comité central era demasiado grande e Lobanovskyi podia ser muita coisa, mas parvo não era uma delas.

 

A conquista de uma dimensão europeia foi o passo natural para um Dínamo que acumulou os campeonatos soviéticos de 1974, 1975, 1977, 1980 e 1981. Num espaço de onze anos, a equipa da Ucrânia conquistou duas Taças das Taças, subjugando facilmente as réplicas de Ferencvaros (3-0 em 1975) e Atlético Madrid (3-0 em 1986).

 

A União Soviética podia estar a caminhar para o seu fim mas as capacidades de recrutamento do Dínamo Kiev garantiam a Lobanovskyi uma capacidade de reciclagem e renovação de fundamentos que garantiam o perpetuar da hegemonia.

 

«Quando se fala da evolução tática no futebol, a primeira coisa a ter em mente é a procura constante de novos rumos de ação que não permitam ao adversário adaptar-se ao nosso estilo de jogo. Se o adversário se ajustar e encontrar uma forma de contrariar, temos de encontrar uma nova estratégia.» O lema era tão simples e estará sempre atualizado, independentemente da época.

 

Transposição de sucesso para a seleção

União Soviética de 1988

Ser dominador a nível interno não era suficiente para o treinador. A União Soviética vivia uma eterna guerra propagandística e a afirmação através do desporto sempre foi vista como uma arma fundamental. Nos Jogos Olímpicos, o sucesso tinha núcleos indesmentíveis mas no futebol as dificuldades eram maiores.

 

O ponto alto chegou em 1988, na final do Europeu que impôs um duelo de ideologias de futebol total contra a Holanda de Rinus Michels. O desmembramento estava ao virar da esquina e foi a derradeira oportunidade para o técnico conseguir fazer a diferença num grande campeonato. Perdeu 0-2 num jogo imortalizado pelo golo de Van Basten.

 

Dois anos antes, em 1986, o Mundial do México também começou de forma favorável mas a saída foi prematura, depois da memorável partida com a Bélgica nos oitavos-de-final (3-4 após prolongamento).

 

Em 1990, o Mundial foi uma desilusão e uma premonição do que estava para acontecer. Os jogadores não eram os mesmos, a capacidade para os controlar desaparecera e a abertura de novos mercados tinha deixado tudo mais complicado.

 

O regresso do rei

A última grande equipa de Lobanovskyi

Entre o Mundial-1990 e 1997, quando voltou a assumir o comando do Dínamo Kiev, Lobanovskyi fez carreira de forma discreta a receber milhões árabes, primeiro nos Emirados Árabes Unidos (1990-1993), depois no Kuwait (1994-1996).

 

O regresso a casa foi triunfal. Já sem União Soviética, o Dínamo Kiev assumia-se naturalmente como a maior força ucraniana mas, com Shevchenko, Rebrov e companhia, o objetivo passava cada vez mais por fazer a diferença na Europa.

 

Entre 1997 e 2002, o clube foi campeão nacional cinco vezes e o ponto alto chegou em 1998/99, quando o Dínamo atingiu as meias-finais da Liga dos Campeões, um ano depois da memorável goleada no Camp Nou ao Barcelona (4-0).

 

Foi o adeus perfeito a uma carreira – e a uma vida – memorável. Em maio de 2002, após um jogo, Lobanovskyi morreu depois de ter sofrido um enfarte. Para trás, ficou um legado impressionante que influenciou dezenas de jogadores e garantiu oito campeonatos soviéticos, cinco ucranianos, dois títulos europeus e uma final de um Europeu com a União Soviética, além de uma medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de 1976.

 

Era especial.

Nick Saban. O peso pesado voltou a ir ao tapete

Nick Saban perdeu segunda final em três anos

O desporto universitário nos Estados Unidos é tão efémero que os treinadores chegam a ser mais importantes do que os jogadores e as próprias equipas. Seja no basquetebol ou no futebol americano, há nomes que surgem como autênticas instituições e imediatamente associados a uma aura de respeito e sucesso.

 

Nick Saban é o peso pesado do futebol americano. Desde que assumiu o comando dos Alabama Crimson Tide, em 2007, a equipa montou uma estrutura capaz e tem escrito episódio de sucesso atrás de episódio de sucesso num livro cheio de história.

 

Em pouco mais de uma década, Alabama chegou a sete finais. Nos últimos anos, o poderio tem sido indiscutível e a presença no jogo decisivo é quase um facto garantido. O problema é que, ao contrário do que aconteceu nas primeiras quatro presenças (2010, 2012, 2013 e 2016), os triunfos não são automáticos.

 

Em 2017, os Clemson Tigers vestiram a pele de carrasco e ganharam 35-31. Esta madrugada, a mesma equipa voltou a assumir-se como o grande rival de Alabama e somou mais um triunfo, desta feita por 44-16.

 

O resultado é histórico: é a pior derrota na era de Nick Saban como treinador em Alabama. A equipa só por uma vez esteve em vantagem no marcador (16-14 durante o segundo período), foi para o intervalo a perder (16-31) e não conseguiu somar qualquer ponto durante toda a segunda parte.

 

À felicidade de Clemson, Alabama respondeu com a desinspiração. No início do terceiro período, por exemplo, os Crimson Tide tentaram simular um field goal mas não surpreenderam o adversário. «Pensávamos que tínhamos a jogada muito bem ensaiada mas alguém não bloqueou um adversário, por isso não conseguimos. Foi uma má decisão, é sempre assim», lamentou Saban na conferência de imprensa após o final do encontro.

 

A derrota não afeta o legado de Nick Saban mas faz lembrar as derrotas dos Patriots contra os Giants na Super Bowl (2008 e 2012). Há uma diferença clara entre alguém que vence todas as finais em que participa e alguém que se limita a vencer apenas uma larga maioria. Para Saban e Alabama, a aura de hegemonia de rolo compressor parece perdida. E onde os Patriots descobriram os Giants e o treinador Tom Coughlin, Alabama está obrigada a cruzar-se com Clemson e o treinador Dabo Swinney.

 

A construção de um monstro competitivo

Nick Saban enquanto jogador

Os números de Nick Saban são impressionantes. O outrora elemento da linha defensiva de Kent State (1970 a 1972) tem um registo de 141 vitórias e apenas 21 derrotas em Alabama e antes de chegar à equipa já tinha conquistado um título com LSU, a equipa mais famosa do estado do Louisiana, que joga em Baton Rouge.

 

O facto inédito – é o único a ser treinador campeão por duas equipas diferentes – ajuda a perceber quão especial é. Mas o início foi mais um acaso do que qualquer outra coisa. Depois de tirar o mestrado em Administração Desportiva em Kent State, acabou por ser convidado pelo seu treinador para continuar como assistente.

 

Oportunidade atrás de oportunidade, Saban foi aproveitando e começando a construir currículo. Sempre como assistente, andou por Syracuse, West Virginia, Ohio State, Navy, Michigan State e Houston Oilers (NFL).

 

Foi nesta altura que deu pela primeira vez o salto para treinador principal, agarrando a oportunidade dada pela Universidade de Toledo, no Ohio. O regresso à NFL, para coordenador defensivo dos Cleveland Browns de uma equipa orientada por… Bill Belichick (atual treinador dos New England Patriots), durou de 1991 a 1994 e depois deste período, muito mau na opinião do próprio, andou por Michigan State, LSU e Miami Dolphins. A experiência como treinador na NFL foi medíocre, com 15 vitórias e 17 derrotas em duas temporadas e decidiu focar-se exclusivamente no futebol americano universitário quando chegou ao Alabama.

 

Hoje, 46 anos depois de ter aceitado o convite de Kent State, Nick Saban é um dinossauro que impõe respeito. Tem 232 vitórias, 63 derrotas e um empate enquanto treinador na NCAA e além dos seis títulos nacionais já conquistou oito vezes a divisão SEC, uma das mais importantes do futebol americano.

 

Os prémios individuais também se amontam ano após ano. Já foi duas vezes o treinador da temporada a nível nacional e quatro vezes da divisão SEC. Aos 67 anos, Saban não mostra sinais de abrandar e, mesmo que quisesse, a estrutura que ajudou a montar é uma locomotiva que não travará tão cedo.

 

Nick Saban está a meio de um contrato de oito anos com Alabama, válido até 31 de janeiro de 2025, que inclui um pagamento total de 65 milhões de dólares, além de um bónus de assinatura de quatro milhões e a possibilidade de ganhar até mais 700 mil dólares por ano de acordo com os resultados alcançados. Ou seja, Saban até pode ir ao tapete mas tão cedo não vai deixar de se levantar.

Keizerball. A desconfiança é inimiga da estratégia

Marcel Keizer

Escreveu o Luís Cristóvão no Twitter, pouco depois de o Sporting perder no terreno do Tondela: «Lá longe, no país dos resultadistas, ouve-se o indisfarçável som do afiar de facas. Enquanto isso, no país da posse, choram-se rios de lágrimas por uns últimos minutos de procura de solução pelo ar. Nem mais, voltamos a viver uma noite de corações partidos».

 

O comentário é pertinente e reflete na perfeição as duas ideias-chave que saíram de Tondela na noite de segunda-feira. Por um lado, os que têm feito a cama ao futebol atrativo de Keizer, clamando por dificuldades e incapacidade de ler o futebol português, ganharam espaço para exaltar que sempre tiveram razão e que um estrangeiro não pode chegar cá e limitar-se simplesmente a impor um estilo positivo, com uma ideia baseada na posse, dinâmica e procura constante pelo golo. Por outro, quem o tem defendido destes ataques não pode ter deixado de sentir alguma desilusão ao ver que equipa e treinador fugiram à identidade que têm tentado construir quando André Pinto entrou para o lugar de Nani e os leões começaram a bombear bolas para a área.

 

O que fazemos dentro de campo depende muito da nossa confiança. Não é surpresa para ninguém que as ações de alguém confiante têm uma percentagem de sucesso muito maior. Seja na receção, no passe, no remate ou mesmo na dinâmica coletiva e na tomada de decisão, é muito mais confortável arriscar quando a confiança é máxima.

 

Há três momentos-chave capazes de colocar a confiança em risco: uma série de maus resultados, a reação a um golo sofrido e uma posição de desvantagem com o jogo a aproximar-se do fim. Na era Keizer em Alvalade, a primeira não chegou a ser problema. Tiago Fernandes tinha feito um trabalho satisfatório e o calendário permitiu ao holandês entrar com facilidade, somando goleadas na Taça e na UEFA. A reação a golos sofridos também não foi um problema. Nos primeiros três jogos, o Sporting sofreu o empate após entrar em vantagem e em todos estes jogos acabou por garantir triunfos confortáveis.

 

Depois, mais tarde, com Aves (0-1) e Nacional (0-2) em Alvalade, a equipa conseguiu dar a volta a situações de desvantagem. Porquê? Porque já havia uma identidade de confiança na capacidade de marcar. O próprio treinador tinha vindo a referir que preferia ganhar 4-3 do que 1-0. Se o adversário marca um, nós marcamos dois. Se marca dois, nós marcamos três. É esta a filosofia que retira peso ao golo sofrido, em contrabalanço com o modelo resultadista da vitória por margem mínima sem sofrer golos, onde uma ligeira alteração ao plano torna tudo mais complicado.

Sporting perdeu pela segunda vez em três jornadas

Em Tondela, como já tinha acontecido em Guimarães, o Sporting passou pelo terceiro momento-chave: entrar nos últimos minutos a perder. Mas, ao contrário do que aconteceu no Minho, surgiu numa posição mais delicada. Primeiro, porque a desvantagem avolumou-se na reta final da partida; depois, porque o leque de opções nunca foi tão curto. Com Bas Dost e Jovane de fora, os leões jogaram com um ataque com Diaby, Nani e Raphinha e um banco de suplentes que tinha apenas uma opção que  podia permitir revolucionar o ataque: Montero.

 

A estratégia de Keizer - e a forma de encarar o jogo - não mudou mas, perante a adversidade, a confiança desapareceu. A equipa deixou de acreditar que seria capaz de chegar ao golo confortavelmente, como tem acontecido em jogos anteriores, deixou de ter alternativas credíveis para tentar abanar o Tondela e perdeu a capacidade de chegar ao desequilíbrio através da filosofia que o holandês tem tentado impor.

 

E cedeu. Cederam os jogadores e cedeu o treinador, ao recuperar um truque que outro treinador vindo da Holanda para Portugal - Bobby Robson - tentou na década de 90: fazer entrar um central para a frente de ataque. Só mudou o Pinto: de João Manuel para André. 

 

A desconfiança foi inimiga da estratégia. Ao deixar de acreditar que seria possível alcançar o objetivo sendo fiel aos princípios, a equipa cedeu à ideia irracional de que a melhor forma de marcar é levar a bola para a área da forma mais rápida possível. Fosse com André Pinto, ou mais tarde com Coates e Mathieu, o Sporting usou e abusou do jogo direto para a área, perdendo a capacidade de raciocínio e promoção do desequilíbrio, sobretudo numa fase que jogava em superioridade numérica.

 

O percalço tem consequências diretas no futuro da equipa. Ficar a oito pontos do FC Porto, uma semana antes de receber os dragões, deixa a equipa num fosso que poderá ser inultrapassável. Além disso, a desconfiança exibida, independentemente de haver atenuantes como a falta de opções (o que deve ser visto também como um alerta para a direção e para o ataque ao mercado de janeiro), abalou a identidade que vinha a ser construída.

 

Essa é mesmo a maior conclusão a tirar do jogo do Tondela. O mês e meio de Keizer ao leme do Sporting não foi suficiente para impor a identidade e o modelo de jogo que preconiza. Ou, também é uma hipótese, não deixa de ser igual a outros que, quando o obstáculo aparece, cede ao facilitismo e está disposto a trair a sua ideia.

 

Na próxima semana, com o FC Porto, estas ideias voltarão a estar em xeque. O que fará Keizer? Uma certeza é indesmentível: o legado do holandês só será verdadeiramente admirável quando, irracionalmente, os jogadores já procurem obedecer às ideias-chave do modelo de Keizer quando o cenário for desfavorável.

 

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