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É Desporto

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Ernie Davis. O Expresso de Elmira foi travado pela leucemia

Ernie Davis era imparável com a bola

No início da década de 1960, Martin Luther King Jr. já era um ativista político interventivo nos Estados Unidos, mas ainda não tinha revelado o mais famoso sonho mundial, guardado para agosto de 1963. No entanto, em Nova Iorque, Ernie Davis, um jogador de futebol americano da equipa da Universidade de Syracuse, já quebrava algumas das maiores barreiras raciais do país.

 

Num desporto praticamente fechado aos atletas afro-americanos, o Expresso de Elmira, como ficou conhecido, aproveitou a irreverência do treinador Ben Schwartzwalder, que desafiou a ordem que parecia imperar no futebol americano universitário. Ao todo, os Orangemen tinham três jogadores de origem africana, mas era Ernie Davis quem mais se destacava.

 

O running back chegou à universidade em 1959, com a responsabilidade de suceder a Jim Brown, ainda hoje considerado um dos melhores jogadores da NFL. Numa equipa sem títulos, Schwartzwalder percebeu o potencial de Davis e estruturou toda a estratégia da equipa em torno dele. Por todos os Estados Unidos, Ernie Davis começou a ser visto com outros olhos, assumindo também um papel de destaque na luta pela igualdade.

 

Os mais jovens viam-no como um herói e acreditavam que, mesmo sem nunca se ter manifestado publicamente, poderia ajudar a quebrar barreiras. Em campo, o ano de 1959 foi brilhante para a equipa de Syracuse. Depois de uma temporada regular sem derrotas, os Orangemen discutiram o título de campeão universitário, nos primeiros dias de 1960, frente aos Texas Longhorns, no Cotton Bowl.

 

Ernie Davis esteve igual a si mesmo e teve um papel fundamental no triunfo por 23-14. Nos anos seguintes, deixou de ser uma surpresa e já não havia preconceitos que o impedissem de ser considerado um dos melhores atletas do desporto universitário. Finalmente, em 1961, tornou-se o primeiro afro-americano a conquistar o Heisman Trophy, prémio para o melhor jogador da época.

 

A fama de Ernie Davis alastrou e em 1962 foi a primeira escolha do draft da NFL, abrindo-se a oportunidade de jogar ao lado de Jim Brown nos Cleveland Browns. Contudo, o pior estava para vir. Durante um treino em 1962, sentiu que estava a perder as forças e uns meses depois, no verão, foi-lhe diagnosticada uma leucemia.

 

Os sinais da doença não eram visíveis e uma carreira na NFL continuava em aberto. Já em 1963, Ernie Davis escrevia num artigo publicado no Saturday Evening Post: «Para mim, 1962 foi um ano longo e espero que não tenha de passar por outro assim novamente. Sinto que já consegui enfrentar os meus problemas e agora penso apenas no futuro, preparando-me para o que aí vem como se nada tivesse acontecido.» Morreu 49 dias depois.

Athletic. A birra que afastou os estrangeiros de Bilbau

Athletic disputou a final da Liga Europa

O Athletic Bilbao não é a equipa com mais títulos em Espanha. Não sequer é a mais temida. É raro encontrar uma criança que diga que quando for grande quer jogar no clube de San Mamés. Porque na maior parte dos casos não pode mesmo. O que distingue a equipa de Bilbau das outras é muito concreto. Pode falar-se em três pontos: é uma das equipas que nunca desceram de divisão (juntamente com o Barcelona e o Real Madrid), foram adeptos do Athletic que fundaram o Atlético Madrid e, talvez a mais famosa, não há estrangeiros no plantel.

 

Não se trata de xenofobia, racismo ou preconceito. E também não é a história de uma afirmação da personalidade basca face aos estrangeiros. Pelo menos não foi assim que começou. A história não está na ponta da língua, mas já houve estrangeiros. Aliás, já foram demasiados. Foi precisamente por isso que em 1911 o clube decidiu seguir por um caminho único: daí em diante não haveria mais estrangeiros a jogar no clube. Porquê? Se fosse uma luta de irmãos, poderia dizer-se que o Athletic fez uma birra depois de a Real Sociedad se queixar. 

 

A edição da Taça de Espanha em 1911 mudou tudo. A competição começou logo com polémica, quando o Deportivo da Corunha e o Academia de Ingenieros desistiram em protesto pelo excesso de estrangeiros na prova. Daí para a frente foi uma bola de neve. Um dos vilões era o Athletic. Diziam os rivais que os bascos jogavam com dois ingleses profissionais. Que não viviam em Espanha há tempo suficiente e ainda só falavam castelhano.

 

O jogo da primeira ronda fez entornar o caldo. O Athletic Bilbao derrotou o Fortuna de Vigo por 2-0 e tinha Sloop e Martin na equipa. Havia ainda um terceiro inglês (Weith), que, apesar de não ter jogado, era o único que cumpria as normas. A Real Sociedad impugnou o jogo mas o protesto foi recusado e abandonou a prova. A iniciativa teve seguidores: não haveria mais prova se o Athletic Bilbao continuasse a alinhar com os ingleses. A pressão teve sucesso mas a decisão teve um impacto muito maior que o esperado. O Athletic Bilbao venceu a edição da Taça do Rei (3-1 ao CD Español na final) e a partir daí nunca mais houve um estrangeiro a jogar pela equipa bilbaína. Aliás, nunca mais houve um jogador sem ligações bascas a jogar pelo Athletic.

 

A filosofia do Athletic não é fixa. Não está escrita como regra e está longe de ser obrigatória. Talvez por isso, ao longo dos anos tenham aparecido pequenas excepções. A grande maioria dos jogadores continua a ter nascido no País Basco espanhol, mas em 1956, por exemplo, Miguel Jones, nascido na Guiné Equatorial, alinhou num encontro particular. Jones chegou a Bilbau com cinco anos e os responsáveis acreditaram que era uma exceção aceitável.

Bixente Lizarazu representou o Athletic em 1996/97

Em 1996/97 aconteceu o caso mais famoso. Bixente Lizarazu não era sequer espanhol (foi campeão do mundo pela França, em 1998), mas era oriundo do País Basco francês (Iparralde). Por isso, meses depois de ter festejado o apuramento para a final da Taça UEFA com uma bandeira basca (a ikuriña), o Athletic decidiu contratá-lo.

 

Desde então as fronteiras alargaram-se ainda mais. Filhos de emigrantes, jogadores que tenham sido formados em clubes bascos ou que tenham vivido desde novos no País Basco passaram a ser recebidos de braços abertos no plantel. Mais recentemente, no final de 2011, Fernando Amorebieta fez história. O central era internacional pela Venezuela e a 17 de Dezembro tornou-se o primeiro estrangeiro (apesar da origem basca) a envergar a braçadeira de capitão.

 

Os princípios podem estar mais abertos e o sonho de jogar no Athletic pode ser mais fácil, mas ainda assim 2019 será o ano 108 de um clube fechado aos estrangeiros. Não é defeito, é feitio.

Naim Suleymanoglu. Um Hércules de Bolso imparável

Naim Suleymanoglu

Não há nome mais dominador no halterofilismo do que Naim Suleymanoglu. O Hércules de Bolso, como era conhecido, podia ter apenas 147 centímetros mas a sua grandeza no colchão, com halteres que chegavam a ter o triplo do seu peso, nunca foi mensurável.

 

Suleymanoglu fez o que podia fazer com a sua vida. Nascido na Bulgária, em 1967, de pais que também não ultrapassavam o metro e meio, cresceu de forma humilde e sempre com um alvo nas costas por parte do governo búlgaro por ser de uma família de origem turca.

 

Sem grandes perspetivas de futuro, encontrou no halterofilismo uma forma de ganhar dimensão e ficar famoso. Os primeiros sinais surgiram ainda em criança, quando se divertia a levantar grandes pedras e troncos de árvores enquanto acompanhava o pai, um mineiro, no trabalho.

 

Das pedras e troncos para os halteres foi um pulo. Naim Suleimanov, o nome que tinha quando nasceu, não demorou muito até mostrar que era um predestinado e bateu o primeiro recorde mundial aos 15 anos, em 1982, já depois de ter sido campeão mundial sub-19 com apenas 14 anos. Em 1984 estava preparado para conquistar a primeira medalha de ouro olímpica na carreira, mas o boicote de leste a Los Angeles-1984 impediu-o de brilhar no palco mais importante.

 

A perseguição às minorias turcas na Bulgária atingiu um novo ponto alto em 1985, quando o governo decidiu retirar o passaporte a todas as famílias e mudar o nome aos turco-descendentes para que pudessem ter uma identidade mais… nacional. Naim Suleimanov tornou-se Naum Shalamalov, mas não por muito tempo.

 

No ano seguinte, durante uma prova da Taça do Mundo em Melbourne, o então bicampeão mundial decidiu que estava na altura de tomar uma decisão: fugiu após a prova e só apareceu quatro dias depois, a pedir asilo na embaixada turca.

 

A pérola do milhão de dólares

Naim com as cores da Turquia

Chegar à Turquia, com escala em Londres, não foi difícil. Mas continuar a competir, agora com outras cores, foi mais problemático. A Bulgária reteve a licença do atleta, agora finalmente conhecido como Naim Suleymanoglu, e obrigou a Turquia a elevar a fasquia durante as negociações. O acordo fechou-se com o pagamento de um milhão de dólares mas o halterofilista já não foi a tempo de conquistar nenhuma prova em 1987.

 

Os Jogos Olímpicos de Seul estavam no horizonte e Suleymanoglu tinha uma sede de vencer incomparável. Seria finalmente a sua estreia olímpica, aos 21 anos, e a oportunidade para mostrar ao mundo, no palco mais importante, que era um predestinado.

 

O título foi arrebatador. Competia na categoria dos 60 quilos e acabou com um total acumulado de 342,5 quilos (152,5 no arranque e 190 no arremesso). Basta fazer as contas: Suleymanoglu não deu hipóteses e no arremesso, gesto de levantamento a dois tempos, conseguiu elevar acima da cabeça mais do que o triplo do seu peso.

 

O domínio foi tão absurdo que o segundo classificado, o búlgaro Stefan Topurov, ficou a trinta quilos. E o terceiro classificado levantou menos 55 quilos no total. Mais, os 342,5 quilos seriam suficientes para ser campeão na categoria acima (67,5), uma vez que o campeão olímpico, Joachim Kunz, não levantou mais do que 340 quilos acumulados.

 

«Fiz o melhor que um homem consegue fazer num desporto mas a minha mente não quer saber da medalha de ouro nem dos recordes mundiais. Estou preocupado com a minha família. Espero que se possa juntar a mim na Turquia», desabafou, antes de embarcar em Seul, com destino a Ankara, no avião fretado propositadamente para o efeito pelo primeiro-ministro turco, Turgut Ozal.

 

A Bulgária acedeu e, um mês depois, os pais e os dois irmãos juntaram-se a Naim na Turquia.

 

Hegemonia arrebatadora

Naim Suleymanoglu

Tornou-se impossível não reconhecer Suleymanoglu nos anos seguintes. Durante a carreira conseguiu um total de 46 recordes mundiais e esteve oito anos e meio sem perder qualquer prova. A série chegou ao fim nos Europeus de 1992, por culpa de um… búlgaro (Nikolay Peshalov).

 

Não foi mais do que um acidente de percurso. No mesmo ano, nos Jogos Olímpicos de Barcelona, Suleymanoglu elevou a fasquia ao revalidar o título, ao mesmo tempo que continuava a acumular campeonatos do mundo (1985, 1986, 1989, 1991, 1993, 1994 e 1995).

 

Em Atlanta, em 1996, Suleymanoglu envolveu-se numa batalha memorável com o grego Valerios Leonidis. Levantamento após levantamento, os dois mostraram ser ossos duro de roer mas, no fim, foi o turco que levou o ouro para casa e garantiu um feito inédito: o primeiro halterofilista a conquistar o ouro olímpico em três edições consecutivas. «Vou até ao meu limite, mas ele consegue sempre ter um limite maior», desabafou Leonidis.

 

Foi o último grande palco de Suleymanoglu. Em 2000, ainda tentou chegar ao quarto ouro consecutivo mas teve mais olhos do que barriga e foi adiando a primeira tentativa até esta ser demasiado pesada. Falhou as três tentativas e regressou a casa pela porta pequena.

 

Tinha 33 anos e a saúde começava a dar de si. Fumava 55 cigarros por dia e dava mostras dos primeiros problemas de fígado, a principal razão da sua morte em 2017. O Hércules de Bolso acabou vergado mas a glória foi imortalizada. Será eternamente lembrado como o pequeno turco que se tornou um dos melhores atletas de sempre. O nome pode ter mudado, mas a alma de vencedor foi sempre a mesma.

Louletano-Olhanense. Um dérbi no Algarve

Louletano-Olhanense

Não é o dérbi mais famoso do Algarve mas não deixa de ser um jogo com uma história e uma tradição muito fortes. O Olhanense pode ter andado por voos mais altos no início da década, mas se recuarmos até à década de 90, quando eu próprio começava a dar os primeiros «toques na bola», as duas equipas eram presença assídua na Zona Sul da II Divisão B. Havia o Portimonense, também, e havia o Atlético, a equipa que me fazia estar com uma atenção redobrada aos resultados, mas Louletano e Olhanense sempre foram as duas equipas algarvias que mais chamaram a atenção.

 

Loulé e Olhão estão separadas por cerca de 20 quilómetros. O fulgor da rivalidade não é o mesmo de outros tempos, com jogos disputados verdadeiramente em casa e com o público a marcar presença em peso. Ontem, sinal dos tempos, o dérbi jogou-se no Estádio Algarve, uma construção que nos transporta para 2004 e para a memória, sem batota, dos três jogos recebidos durante o Europeu: Espanha-Rússia, Rússia-Grécia e Suécia-Holanda.

 

Quem nunca foi ao Estádio Algarve tem dificuldade em perceber por onde deve entrar. O sítio parece abandonado, com parques de estacionamento de perder de vista mas sem um carro no horizonte. Enganamo-nos, pois claro, e vamos dar a volta ao bilhar grande, numa manobra que tem pelo menos o condão de nos fazer contemplar o estádio de outra perspetiva.

 

Quando finalmente encontramos o caminho certo – não nos demorou assim tanto tempo – deparamo-nos com mais movimento, carros estacionados e pessoas a pé. Noutros tempos, talvez fosse difícil arranjar um lugar tão próximo, que nos desse o conforto necessário para regressar caso voltassem a embirrar com a máquina fotográfica, como fizeram em Vila Nova de Famalicão, mas no Campeonato de Portugal, num Louletano-Olhanense, não há problema.

Estádio Algarve

A entrada custa seis euros e a bilheteira fica praticamente em cima do bar que vai servir os adeptos durante o jogo. No metro seguinte, um responsável do Louletano rasga-nos os bilhetes para validar a entrada e avisa-nos que os adeptos do Olhanense são para a esquerda.

 

O corredor é o mesmo mas, ao fundo, já depois de um polícia, há folhas de papel com as instruções impressas que reforçam a ideia: adeptos do Olhanense para a esquerda, adeptos do L. D. C. (Louletano Desportos Clube) para a direita). Neste momento, achamos curiosa a instrução recebida. Especulamos a razão: como nunca nos tinha visto em cima, partiu do pressuposto (válido) que só podíamos ser adeptos do Olhanense.

 

É uma consequência natural deste futebol de proximidade, em que as personagens são as mesmas domingo após domingo e a capacidade de regeneração é, infelizmente, muito reduzida. Há espaço para dirigentes, os adeptos do costume, familiares dos jogadores e pouco mais. Toda aquela realidade, com instruções e papéis impressos, parece dizer-nos que o futebol português nos escalões secundários já nem sequer põe a hipótese de gerar um terceiro lote de interessados.

 

É como se não fosse sequer concebível que alguém pudesse querer ir ver um Louletano-Olhanense sem ser adepto de uma das duas equipas. E muito menos (acrescentamos nós) poderia haver alguém que saísse de Lisboa por volta das onze da manhã para chegar a horas de ver o jogo, regressando logo depois para ainda poder jantar em casa.

 

Foi um Louletano-Olhanense mas podia ter sido um outro jogo qualquer. O português perdeu o hábito de se interessar por futebol e está cada vez mais concentrado apenas no seu clube e no resto dos seus interesses.

 

Uma bancada cheia de “famosos”… e lugares vazios

Só a bancada poente abriu

Decidimos ir para o lado do Louletano. Não por termos qualquer preferência no jogo mas porque sentimos sempre a tendência de estar entre os adeptos da casa, compreendendo as tendências e, já agora, ficar num espaço da bancada mais central.

 

Num outro campo qualquer, mais adaptado ao Campeonato de Portugal, a lotação deste jogo seria interessante. Ali, tudo parece insignificante. Podiam estar dez mil pessoas naquela bancada que, por termos vista privilegiada apenas para as outras três, continuaria a parecer que estava às moscas.

 

Perde-se ambiente, perde-se emoção e perde-se envolvência. Os sons ecoam por entre as cadeiras vazias de tal forma que os batuques da claque do Olhanense parecem vir de cima de nós, quando na verdade estão ao fundo à esquerda. As conversas e gritos entre jogadores e treinadores são audíveis.

 

Percebemos quase tudo, exceto o nome daquele ex-jogador que está uns lugares à nossa direita. Reparamos nele ainda antes do jogo começar e perdemos anos de vida durante a primeira parte a tentar lembrar-nos do seu nome. Aquela cara é inconfundível (e não, não era Veloso nem Paneira), o cabelo está praticamente igual. Aquela pessoa jogou no Farense quando começámos a ver futebol mas o nome insiste em não nos sair de debaixo da língua. Pesquisamos em sites com os plantéis, aproveitando os tempos mortos do jogo, até o nome nos vir à cabeça espontaneamente: é Hugo quem está ali, o médio que fez carreira pelo Algarve, sobretudo no Farense, por Leiria e por Aveiro (Beira-Mar).

 

O dérbi trouxe muitos. Ao lado dele há mais “famosos” que desistimos de tentar identificar. Se com Hugo já foi complicado, não teríamos nada a ganhar em manter aquele suplício. Também há outras lendas na bancada, como Djalmir, mítico avançado, já quarentão, que, na verdade, só vemos pela primeira vez no final do jogo.

 

Olhos no relvado e um brinde ao Louletano

Louletano marcou o 1-0 de penálti

«O Olhanense é melhor mas o Louletano bateu-se bem» é a descrição perfeita, que foi ouvida mais do que uma vez, deste dérbi que terminou empatado a dois. Percebeu-se que a equipa de Olhão tinha mais equipa, mas a de Loulé soube aproveitar os seus momentos para criar perigo e chegar aos golos.

 

A primeira parte teve apenas um, de penálti, que não pareceu deixar dúvidas. Convertido sem dificuldade, foi mais do que suficiente para o Louletano chegar ao intervalo em vantagem. Ao apito do árbitro, os corpos pareciam sincronizados: os dos jogadores foram para os balneários, os dos adeptos foram em direção ao bar.

 

A ausência de café desiludiu alguns, outros queriam ir apenas para um espaço onde o sol ainda batia e ajudava a camuflar o frio daquela bancada. E havia ainda aqueles que não desperdiçavam a cerveja enquanto faziam a análise parcial do encontro. «O Olhanense está a jogar bem», dizia um adepto da equipa da casa num grupo de seis, todos eles de cerveja na mão, momentos antes de fazerem um brinde «ao Louletano».

 

Se nas bancadas os adeptos estavam separados, aquele intervalo era um motivo de tréguas. Afinal, quem é que quer arranjar confusão quando o único objetivo é ir partilhar uma cerveja ou uns amendoins com os amigos? Havia dez minutos para confraternizar, depois era tempo de nova batalha.

 

Cambalhota no resultado e profecia cumprida

Fábio, o profeta

O Olhanense entrou na segunda parte convencido de que ia conseguir provar a sua superioridade mas a letargia não ajudou a criar oportunidades. Das bancadas, os estímulos continuavam. Do lado de Olhão, a claque com cheiro a primeira – e cânticos reciclados dos que se costumam ouvir nos principais jogos – não se calou durante um minuto. Do outro, só mesmo um homem que, de tempos a tempos, soltava um «Louletano» em plenos pulmões, sendo seguido depois por meia dúzia de mulheres ou crianças.

 

Mas havia mais gritos. O «Ivo», por exemplo, precisava de acordar, enquanto o «Zé» nunca passava a bola quando devia, provocando a frustração e a impaciência de quem seguia cada incidência no campo. Outros, possivelmente familiares de um jogador que entraram com convite, mantinham-se a jogar em todos os tabuleiros, agarrados aos telemóveis a mostrar fotografias de Instagram uns aos outros. Se é o que acontece no Staples Center, coração desportivo de Los Angeles, por que não poderá acontecer também em pleno Algarve?

 

Os golos só surgiram com a dança das substituições. Hassan, filho do eterno Nader, fez o primeiro e Fábio saiu do banco para marcar o segundo. «Eu falei, pô! Falei ou não falei? Não falei que ia entrar e marcar?», foi gritando, enquanto se aproximava do banco de suplentes da equipa, recolhendo os louros de uma profecia muitas vezes feita no futebol e nem sempre cumprida.

 

Parecendo melhor em campo e estando em vantagem, o jogo parecia definido. Mas, lá está, «o Louletano bateu-se bem» e dérbi é dérbi. Podia não estar a jogar na sua verdadeira casa, apesar de a maioria dos jogos ser feita ali, mas não ia querer desperdiçar a oportunidade de mostrar à claque do Olhanense que o cântico «O orgulho do Algarve somos nós» tem muito que se lhe diga. Afinal, na semana antes tínhamos ouvido exatamente o mesmo com os adeptos do Farense em Vila Nova de Famalicão.

 

Já perto do final do jogo o Louletano chegou ao empate e lançou um desentendimento na bancada, depois de Hayner – um dos melhores jogadores durante todo o encontro – ter rematado cruzado para o 2-2 final. Os festejos foram na direção da claque do Olhanense, que não gostou e retribuiu com «mimos». Foi um instante apenas. A polícia interveio, acalmou os ânimos e não houve nada para controlar assim que o jogo terminou.

 

Ao sair, na direção do bar, os comentários iam todos na mesma direção. «Vá, volta lá para a serra» foi a única provocação que ouvimos, mas não passou de um recado entre amigos, recebido com fair-play e um sorriso. Afinal, dérbi e dérbi, seja onde for.

O dia em que Fehér morreu e as pessoas se lembraram de mim

Homenagem do Benfica a Féher

Lembro-me daquele 25 de janeiro de 2004 como se fosse hoje. Acho que toda a gente se lembra. Não é todos os dias que se vê alguém morrer na televisão, um jogador de futebol ainda por cima. Estava na sala, de olhos postos na televisão, quando Fehér se dobrou e caiu desamparado para trás. A minha reação foi imediata. «Pai, queres ver que este morreu em campo?», disse-lhe, da sala para a cozinha, sem qualquer tipo de tom depreciativo ao utilizar o pronome demonstrativo.

 

Tinha 19 anos e há muito que conhecia a história de Pavão, o jogador do FC Porto que caíra ao 13.º minuto da 13.ª jornada em dezembro de 1973. Também era impossível ignorar a morte de Marc-Vivien Foé, camaronês que sucumbira da mesma forma em junho de 2003. Mas nesse Camarões-Colômbia, ao contrário do Vitória-Benfica, não estava com os olhos postos na televisão. Estava a estudar para os exames nacionais. Aliás, não será surpresa nenhuma perceber que as audiências do jogo do campeonato português naquele domingo à noite eram muito mais elevadas do que a partida da Taça das Confederações.

 

As horas que se seguiram foram dramáticas. Não quero imaginar o que seria o fluxo de informação não confirmada se já existissem redes sociais, se acontecesse hoje. Já na altura, lembro-me de os vários canais terem feito daquela situação uma prioridade noticiosa. E nem todos acertaram. Imagens de Camacho e Tiago, sobretudo estes dois, tornaram-se icónicas do momento mais triste que pode acontecer num jogo de futebol. Bem como aquela fração de segundo em que o bombeiro (terá sido um bombeiro?), esboçou uma reação de felicidade como se Fehér tivesse expressado algum tipo de resposta, arrastando consigo todo um estádio que há muito tinha esquecido a rivalidade e compreendia a seriedade daquele momento.

 

Sei que Fehér ainda não tinha sido dado oficialmente como morto quando recebi a primeira mensagem. «Foi isto que te aconteceu?», dizia. Outros vieram dizer-me que se tinham lembrado de mim. A verdade é que até eu próprio me lembrei de mim uma fração de segundo antes de comentar com o meu pai da sala para a cozinha.

Miklos Fehér

Estava tudo muito fresco ainda. Tinha sido operado a 22 de setembro, pondo fim a mais de um ano de episódicos ataques que começaram por ser ignorados. A primeira vez na praia, em Sagres, durante uma sessão de penáltis com um amigo e um primo, com os meus pais nas toalhas ao lado. Senti que algo não batia certo: sem motivo aparente, o coração tinha disparado para cima das 205 pulsações por minuto. Sentia um tambor dentro do peito, como se um pneu tivesse rebentado a alta velocidade e a borracha estivesse a bater com estrondo no resto do carro, provocando uma reverberação intensa.

 

«Senta-te aí que isso já passa», foi o que me disseram, apesar da minha insistência. Ninguém se preocupou. E, de facto, passou. E consegui esquecê-lo até abril do ano seguinte (2003), quando aconteceu exatamente o mesmo enquanto almoçava no bar da escola secundária. Reconheci a sensação, não disse a ninguém, e esperei que o resultado pudesse ser o mesmo: passar durante alguns minutos. Tentei encontrar uma explicação para o que se tinha passado. Ali, naquele momento, estava apenas sentado a comer, mas há menos de uma hora tinha feito o primeiro jogo do campeonato escolar. Talvez aquela fosse uma consequência de quem começou a comer demasiado cedo. Não sabia, nem fazia sentido. Apenas procurei algo que justificasse aquele momento.

 

Quando o terceiro ataque chegou, não havia mais como esconder ou ignorar. Aposto que se lembram desse dia: foi um sábado, 3 de maio de 2003. À noite, o Benfica recebeu o Sporting no Jamor naquele jogo que ficou famoso pelo sprint de Zahovic já depois de ser expulso. À tarde, em Sintra, eu fazia o último jogo do campeonato antes da final da distrital de juniores contra o Alverca.

 

Fui titular mas não joguei mais do que vinte minutos. Voltou a acontecer o mesmo. Perto do banco, expliquei ao treinador que não me estava a sentir bem. Ele pediu-me para aguentar mais um pouco enquanto preparava a substituição. Não foi o pior ataque que tive mas foi o que surgiu no momento mais preocupante: estava, de facto, a fazer exercício. Instantes depois, a bola vem na minha direção e corto a jogada de ataque. Puxo-o para a linha e bato na frente, mesmo junto ao meu banco de suplentes, esgotando qualquer réstia de força que ainda me sobrava.

 

E deito-me ali, já fora das quatro linhas, perante o olhar de pânico de colegas, treinador e massagista. Este último põe-me a mão no peito e fica branco de terror. Diz-me que também eu estou branco. Não me lembro de estar preocupado. Era a terceira vez que acontecia e pelo menos ali, naquele momento, já não estava a correr. Ia acabar por passar, como sempre, esperava eu.

 

E passou. Mas desta vez, ao contrário de tantas outras, ninguém esqueceu. O treinador fez pressão para que fizesse testes e a minha mãe entendeu que aquilo não era uma brincadeira. «Percebi que era grave porque se foi o suficiente para ele ter pedido para sair, era porque era alguma coisa séria», costuma contar.

 

Nos dois meses que se seguiram, fiz todos os exames cardiológicos que conhecia e outros que nunca tinha ouvido falar. Não acusaram nada. Quando contei o que se passava, o primeiro cardiologista escreveu uma carta para apresentar numa consulta em Santa Cruz, falando desde logo numa operação. Quis-se uma segunda opinião. «Não considero o Rui uma pessoa doente, mas não garanto que se continuar a jogar não pode cair para o lado e morrer daqui a dez anos», disse o segundo cardiologista.

 

As palavras não foram propriamente reconfortantes, mas serviram de aval para esquecer o que se tinha passado. O problema é que… o meu problema não queria ser esquecido. Em julho, um mês depois da morte de Foé, fui jogar ténis com uns amigos, entrei num court, atirei uma bola ao ar, bati-a sem grande força com a raquete e voltou tudo ao mesmo. Não dava mesmo mais para fugir: ia para Santa Cruz a pensar que a operação ia acabar por chegar.

 

Aí, nem precisei de falar. O médico leu a carta e interrogou-me durante minutos sem parar. A cada pergunta que ele fazia, eu só dizia que sim. É como se soubesse tudo o que se passava, como acontecia e como acabava. Ao último sim, esqueceu as perguntas. «Ok, vamos marcar uma operação. Pode ser 22 de setembro? Marco-o logo para a primeira da manhã».

 

A operação foi simples, na altura. Não foi preciso abrir o peito, apenas fazer entrar um cateter pela virilha, chegar ao coração e provocar vários ataques até perceber exatamente onde estava o problema. À quinta ou sexta vez, depois de vários falsos alarmes e de litros de suor derramados, confirmo. «Sim, é isto que costumo ter!», disse, já depois de desistir de olhar para os monitores gigantes que mostram o avanço dos fios em direção ao meu coração. É nessa altura que fazem entrar um outro fio (peço desde já desculpa pela linguagem médica pouco correta) para queimar o problema.

 

Se tudo corresse bem, daí a duas semanas estava de volta aos treinos. Assim, simples, como se fosse algo banal. Hoje, olho para este problema como algo banal. Sim, tinha 18 anos apenas, mas há quem o faça mais novo. E apesar de a descrição do síndrome dizer que «pode levar à morte súbita em alguns casos vinculados ao excesso de exercícios e desporto, se não for devidamente tratada e acompanhada», nunca senti que o meu fim estivesse próximo.

Bruno Baião morreu poucos meses depois de Fehér

Fehér não teve essa sorte. Não, o problema não foi o mesmo, foi muito mais grave. Mas ele, tal como eu, não sabia. Ninguém sabia. E, ao mesmo tempo, ninguém quis acreditar que não fosse possível saber. Naquela segunda-feira, já depois de ter sido operado e no dia seguinte à morte de Fehér, ninguém falou no balneário. Era o silêncio ensurdecedor de quem não parava de pensar que a fragilidade da vida humana não vê distinção entre profissionais e uma equipa de sub-19 de Lisboa.

 

Quando começámos a correr à volta do campo, surgiram as primeiras perguntas. Ninguém sabia bem o que se tinha passado, mas havia quem se questionasse se me podia ter acontecido aquilo. E recordou-se o que cada um tinha sentido ao ver-me caído em frente ao banco de suplentes. Mesmo fora do futebol, quem sabia o que se tinha passado fazia perguntas semelhantes. No fundo, não estávamos habituados a fragilidades daquelas, a momentos dramáticos, a ver alguém morrer na televisão.

 

Desde então, não tenho perdido uma oportunidade para saber mais sobre o tema. Durante a faculdade, fiz um trabalho exatamente sobre isso, chamado “De tanto bater o meu coração parou”, como o filme, e que passava pelas histórias de Pavão, Foé, Fehér, Bruno Baião e Hugo Cunha. Como eram os exames médicos, o que se estava a fazer mal, e o que se podia fazer melhor. Já como jornalista continuei atento e estive numa conferência sobre o tema, no Hospital da Luz, com vários especialistas.

 

Fehér morreu mas acordou o país para esta problemática. O problema congénito do húngaro seria impossível de detetar se não se fosse à procura especificamente de uma malformação no ápice do coração. Mas ficámos mais alerta para a problemática de garantir que nos é possível excluir tanto quanto possível antes de arriscar a vida de alguém.

 

Não foi por este avanço que Fehér sorriu. Mas podia ter sido.

Não façam do golo um acessório do futebol

Eder marcou o golo mais importante na história de Portugal

Poucos segundos depois do golo de Coates em Braga, o narrador do jogo da Antena 1 disse uma frase que serviu de rastilho para o que penso sobre futebol: «Está tudo como no início, mas agora com golos, que é o melhor do futebol».

 

A transcrição pode não ser 100% rigorosa mas a ideia era esta e é perfeita. Vivemos numa altura em que o futebol começa a ser pensado de muitas – e valiosas – maneiras, mas há quem comece a ceder à tentação de olhar para o golo com uma redução de importância pouco saudável. Há não muito tempo, Luís Freitas Lobo escreveu um artigo de opinião em que afirmava que marcar golos era tão importante como não sofrer.

 

Ali, naquelas linhas (pelo menos no excerto que me foi apresentado), o conceituado comentador, nem sempre consensual, atribuía uma importância perfeitamente idêntica aos dois atos, confirmando a obsessão que tem marcado a evolução do futebol ao longo das últimas décadas em que não sofrer se tornou prioridade.

 

A lógica desmente desde o início esta ideia. Se as duas forças tiverem igualmente impacto e se anularem, um jogo termina sem golos, com um empate e um ponto para cada equipa. A posição académica sobre este tema falha na primeira premissa. Pode ser um pormenor, pode não ter sido essa a ideia – ou o argumento – que o comentador queria passar mas a lógica do futebol começou por ser esta e será sempre a mesma: o mais importante num jogo de futebol é acabar o tempo com mais golos marcados do que sofridos.

 

É isto que dá a vitória, que garante um objetivo: o número de golos marcados tem de ser superior ao número de golos sofridos. Compreendem? Há uma hierarquia clara entre as duas variáveis. E mesmo alternando a visão, dizendo que o número de golos sofridos tem de ser inferior ao número de golos marcados, continua a haver uma dicotomia clara superior/inferior a fazer essa diferença.

 

O golo é o ópio do povo

Tardelli protagonizou um festejo icónico em 1982

Agora que já estabelecemos que a filosofia prevalecente deve ser aquela que descreve o triunfo e não o empate, talvez seja boa ideia partir para outras filosofias que ganham cada vez mais força: o número de golos e a beleza de um zero-zero.

 

Já toda a gente ouviu dizer, pelo menos uma vez, que um zero-zero pode ser um jogo mais espetacular do que um 3-3. Que compreender as vicissitudes de um jogo, a forma como duas equipas se encaixam, procurando gradualmente uma forma de encontrar as fraquezas do adversário para encontrar o melhor caminho, ao mesmo tempo que procuram os ajustes necessários para anular os pontos fortes do adversário, pode ser tão belo como um jogo cheio de golos.

 

Vamos por partes: sim, não tenho dúvida de que um 0-0 num superclássico no Camp Nou será infinitamente melhor do que um 7-5 num jogo entre amigos à segunda-feira à noite. O golo, por si só, não torna necessariamente um jogo melhor. Mas não haja dúvidas de que um bom jogo com golos será sempre melhor do que um bom jogo sem golos.

 

Porquê? Porque o futebol é um desporto de massas. O futebol não chegou onde está hoje porque um grupo de cientistas se sentou a uma mesa para analisar ao microscópio as ações que decorreram durante os 90 minutos para tentar descobrir a fórmula perfeita para chegar à vitória.

 

Sim, o estudo do futebol foi fundamental para o seu desenvolvimento e não faltam exemplos de equipas e treinadores que beneficiaram do seu avanço geracional no momento de construir hegemonias memoráveis. Houve sempre um pioneiro que fez o mundo avançar, fosse através de novos sistemas táticos, melhores métodos de trabalho ou uma atenção redobrada ao jogador enquanto ser humano.

 

Em qualquer um dos casos, estes avanços contribuíram apenas para uma coisa: agradar o espetador. Se o futebol fosse cinema, seria um blockbuster, não seria uma obra-de-arte genial premiada num festival alternativo.

 

O futebol nunca precisou de um público culto para vingar. Só precisou de ser o escape e tornar-se uma rotina imperdível na cabeça do adepto. Dos mais velhos aos mais novos, ir ver um jogo sempre foi uma ação que derivava do sonho de ver a sua equipa ganhar, marcar golos, ver a sua maior vedeta abrilhantar aquela tarde com gestos técnicos de encantar.

 

Um espetáculo para todas as idades

Festejos nas bancadas têm sempre outra cor

Uma criança, quando começa a dar os primeiros toques, não quer saber de sistemas táticos, de dados de rendimento ou de bloqueios de forças. Quando vai a um estádio, uma criança só se deixa encantar pelo mais puro de um jogo: o golo, a finta e, como dizia Cruijff, pelo som fantástico de uma bola a bater no poste.

 

Quando volta a casa, quando está a adormecer e a sonhar com o futuro, a criança não perde a respiração perante a forma brilhante como o treinador utilizou uma saída a três para povoar o meio-campo e desequilibrar através do jogo interior. Tem tempo para chegar a esse ponto, se quiser. Uma criança pensa no golo, no remate ao ângulo, na emoção que foi ouvir um estádio repleto de espetadores a festejar a bola a entrar na baliza.

 

A criança, o adolescente, o adulto e o idoso têm tudo isto em comum. O golo é o pináculo num jogo de futebol, é o melhor momento, o mais memorável. Um jogo com golos, com reviravoltas, com espetáculo, bate o futebol de estudo.

 

Porque nem toda a gente tem de se preocupar com isso. O futebol foi, é e será sempre do povo. Dos apaixonados, muitas vezes irracionais, que se despem de preconceitos e vivem na bancada como um adolescente vive numa pista de dança depois de um par de copos. Ali, o mundo é deles. É um mundo imaginário, de batalha, em conquista da glória.

 

E chegar ao fim com mais golos marcados do que golos sofridos é o fim da guerra… com um sorriso. Porque é o golo, a finta e a jogada perfeita que fazem o futebol andar para a frente e que conquista adeptos por todo o mundo. E mesmo as espetaculares defesas ou os cortes no último segundo, com todo o mérito que têm, só assumem essa importância porque fazem o estádio respirar de alívio, acreditando que o perigo passou.

 

Não façam do golo um acessório do futebol. O golo é o bater do coração, é um orgasmo. Será tanto melhor quanto forem a sedução e os preliminares, mas o mais importante é o conjunto. Ter o bom jogo sem um golo será sempre um espetáculo incompleto.

Mariano Rivera. Da pesca da sardinha à unanimidade no basebol

Mariano Rivera

Babe Ruth, Willie Mays, Mickey Mantle, Lou Gehrig, Joe DiMaggio, Cy Young, Ted Williams, Jackie Robinson e tantos outros têm uma coisa em comum: são vistos como os melhores de sempre do basebol mas nenhum deles conseguiu ser eleito para o Hall of Fame por unanimidade.

 

O eterno reconhecimento chegou para todos eles mas conquistar o voto de todos os jornalistas reconhecidos pela associação foi sempre um objetivo utópico. Em 2016, Ken Griffey Jr. esteve muito perto de fazer história mas conseguiu «apenas» 99,32% dos votos. Por outras palavras, três dos 440 jornalistas que votaram não fizeram a cruzinha necessária no nome daquele que foi a primeira escolha do draft em 1987.

 

Esta semana, porém, tudo mudou. O feito que muitos achavam que nunca aconteceria – afinal, se Babe Ruth não foi unânime, ninguém deverá ser -, aconteceu. Mariano Rivera, o panamiano que foi vedeta dos New York Yankees no final do século XX e até 2013, era a figura de proa no lote de candidatos ao Hall of Fame e mereceu a confiança, à primeira oportunidade, de todos os 425 jornalistas que exerceram o seu direito de voto.

 

«Eu já me tinha dado por contente só por ter chegado à Major League Baseball e por ter jogado pelos New York Yankees, e vencer o máximo de campeonatos possíveis. Quando terminei a carreira, pensei se teria uma boa oportunidade de ser um hall of famer, mas isto ultrapassa a minha imaginação. Isto é o pináculo de qualquer jogador de basebol. Chegar lá já é uma honra, mas ser unânime é inacreditável», reagiu Rivera, poucos minutos depois de os resultados serem conhecidos.

 

Os números de Mariano Rivera não deram margem para dúvida: entre 1995 e 2013, foi cinco vezes campeão, venceu o título de MVP da final uma vez e disputou o jogo das estrelas em 13 ocasiões. Quando disse adeus, em 2013, saiu como recordista de saves (652), fazendo dele o melhor closer – e mais famoso – na história do basebol.

 

O medo cénico do senhor Sandman

Uma entrada em campo que afetava adversários

Jorge Valdano timbrou a expressão “medo cénico” durante a década de 80 para se referir ao medo irracional que os adversários tinham quando se deslocavam ao Santiago Bernabéu para defrontar o Real Madrid. Na década seguinte, em Nova Iorque, começou a existir o mesmo com Mariano Rivera.

 

«É o único no basebol que consegue mudar um jogo sentado no banco. Começa a afetar as equipas adversárias logo no quinto inning porque elas começam a pensar que ele está ali, que está quase a entrar. Nunca vi alguém afetar tanto um jogo desta forma como ele», comentou uma vez Alex Rodríguez, companheiro de Mariano Rivera nos Yankees entre 2004 e 2013.

 

Mariano Rivera era assim mesmo. Quando chegou à equipa principal dos Yankees em 1995, assumiu-se como lançador inicial, mas em 1997 já tinha feito a transição completa para closer – aquele que normalmente é escolhido para eliminar os três últimos adversários e garantir o triunfo. E, aí, mostrou ser melhor do que alguém alguma vez tinha sido.

 

Tudo à volta de Rivera era mítico e em 1999 ganhou um novo patamar, quando os responsáveis dos Yankees começaram a tocar «Enter Sandman» dos Metallica sempre que o jogador era chamado ao jogo. Sabem como Red Auerbach sacava do seu charuto assim que entendia que o jogo estava ganho para os Celtics? Emocionalmente, ouvir aquela música tinha o mesmo efeito. A entrada de Rivera era sinónimo de triunfo garantido.

 

Das origens humildes do Panamá à sorte no recrutamento

Família de Rivera esteve sempre ligada à pesca

A vida de Mariano Rivera demorou até ter o selo do basebol na carreira. De uma família muito humilde, a paixão pelo desporto era dividida entre duas modalidades: o basebol e o futebol. Mas não passava disso, uma paixão. Mariano tinha de ajudar a família e assim que teve tamanho suficiente começou a ajudar o pai na pesca da sardinha.

 

Um dia, o barco naufragou e, já depois de o seu tio ter morrido num acidente semelhante, Rivera decidiu que aquela vida não era para ele. Afinal, sempre desejara ser mecânico. Nas horas livres continuava a jogar futebol mas as sucessivas lesões nos tornozelos e joelhos forçaram-no a decidir-se pela outra paixão.

 

Mariano Rivera jogava como shortstop e entrou no universo de observações de um olheiro dos Yankees. Reprovou: dificilmente teria qualidade para chegar à elite. Mas, de repente, perante a lesão de um lançador, tudo mudou. O treinador pediu a Rivera para ocupar a posição vaga e o sucesso foi imediato. A notícia correu mundo e chegou à atenção dos Yankees, que voltaram a observar o jogador e chegaram a acordo para um contrato amador em 1990, com um prémio de assinatura de 2500 dólares.

 

A adaptação aos Estados Unidos foi difícil. Rivera não sabia falar inglês e nenhum dos seus colegas na equipa-satélite dos Yankees falava castelhano. A única solução para comunicar com alguém era falar com a família, mas esta era tão pobre que não tinha telefone, o que obrigava o jogador a enviar uma carta, sendo forçado a esperar vários dias até ter uma resposta.

 

O caminho até à equipa principal dos Yankees foi tortuoso. Na altura, era um lançador inicial com uma margem de evolução promissora mas com um rendimento sofrível. Quando sofreu uma lesão grave num ligamento, a equipa chegou a perder a esperança nele e deixou-o vulnerável a ser recrutado por outras equipas durante a expansão de 1992, que abriu caminho para a entrada dos Colorado Rockies e dos Florida Marlins. Ninguém apostou em Rivera.

 

Momentos maus tão famosos como os bons

Red Sox aproveitaram falha de Rivera

A aura de infalível de Mariano Rivera contribuiu para que os momentos maus se tornassem ainda mais mediáticos. Eram tão poucos que hoje ainda será possível contar apenas pelos dedos de uma mão aqueles que verdadeiramente importaram.

 

Estamos a falar de um jogador com uma estatística impensável: «Na história da humanidade, houve mais homens a andar na lua (12) do que a marcar um ponto a Mariano Rivera nos playoffs (11)», leu-se esta madrugada nas redes sociais um pouco por todo o lado.

 

O primeiro episódio relevante surgiu em 2001. No jogo sete da World Series, contra os Arizona Diamondbacks, Rivera entrou no nono inning com a equipa a ganhar e um erro num lançamento abriu caminho para a derrota. Poderia ser um momento definidor, mas o jogador sempre soube dar a volta para conseguir uma nova interpretação.

 

«Estou contente por termos perdido a World Series porque isso significa que ainda tenho um amigo.» A frase pode parecer estranha mas diz respeito à forma como afetou os planos de Enrique Wilson. Tivessem os Yankees vencido o troféu, o colega dominicano teria ficado mais uns dias em Nova Iorque para a celebração e só teria embarcado de volta para o seu país num voo da American Airlines que caiu e matou todas as 260 pessoas a bordo.

 

Mais tarde, em 2004, chegou a série mais famosa da história. Os Yankees estavam perto de «varrer» os Red Sox na final da Liga Americana, mas Mariano Rivera não conseguiu manter a vantagem e abriu caminho para a primeira reviravolta de 0-3 para 4-3 em jogos. Com uma série para esquecer, Rivera tornou-se uma figura estranhamente acarinhada pelos adeptos de Boston e no ano seguinte chegou a ser aplaudido de pé no Fenway Park. Afinal, as suas exibições, na maior parte das vezes infalíveis, tinham permitido à equipa dar um passo decisivo para quebrar um jejum de 86 anos sem campeonatos. Rivera entrou no jogo e agradeceu, sempre com bom humor.

 

Os erros, poucos, nunca conseguiram afetar a mente de Rivera. O jogador sabia que seria sempre mais importante começar a pensar no amanhã do que continuar preocupado com o ontem. Esta capacidade de regeneração fez com que fosse capaz de reagir aos momentos maus, fossem lesões ou jogos menos conseguidos, e construir um legado inatacável ao terminar a carreira.

 

Agora, seis anos depois e na primeira vez que surgiu como candidato ao Hall of Fame, os jornalistas confirmaram a ideia: Mariano Rivera é especial. Pode não vir a ser lembrado no mesmo lote que Babe Ruth, Willie Mays e outras estrelas imortais do basebol, mas será sempre o primeiro jogador a ser votado por unanimidade.

Stanley Ketchel. O irónico fim do Assassino do Michigan

Stanley Ketchel inconsciente no combate com Jack Johnson

Sugar Ray Robinson, Muhammad Ali, Mike Tyson e Evander Holyfield são nomes que nos habituámos a ler e reconhecer como grandes figuras do boxe. E um norte-americano de origem polaca chamado Stanley Ketchel? É natural que o nome diga pouco. Afinal de contas, morreu em 1910 e o melhor que conseguiu foi um título de pesos-médios num total de 64 combates e 51 vitórias (48 por KO).

 

O palmarés pode não ser o mais impressionante, mas é preciso ter em conta que o fez até aos 24 anos, altura em que foi assassinado. Mas já lá vamos, esta história é a de um assassino, o do Michigan, e não tanto a de um assassinato.

 

Nascido em 1886, em Grand Rapids, no Michigan, Ketchel começou a combater pouco depois dos 15 anos, quando saiu de casa. Apesar de considerado um “menino da mamã”, Stanley partiu à aventura até ao Montana. O dono do bar onde trabalhava organizava combates e, ao aperceber-se da paixão de Ketchel, incluiu-o no programa. Foi assim que em 1903 Stanley teve uma entrada triunfante nesse mundo. O adversário era Kid Tracy, mas não teve tempo para o conhecer. Ketchel entrou no ringue, deitou-o abaixo no primeiro round e alcançou a primeira de muitas vitórias.

 

O seu estilo era mesmo assim: repentino, agressivo e demolidor. Bert Randolph Sugar, historiador de boxe, define-o como «um animal no ringue». «Com os dentes cerrados e olhos raivosos, parte para o adversário e não descansa enquanto não dá cabo dele. É um daqueles lutadores do tempo dos Neandertais, que dão um golpe no adversário no ringue e já estão de volta ao balneário antes que ele caia. Tinha confiança na sua força», acrescenta.

 

Há ainda quem diga que Ketchel tinha um método muito peculiar: imaginava que a mãe tinha sido insultada pelo adversário. A mãe foi sempre uma das grandes paixões da sua vida e a razão das últimas palavras antes de morrer: «Sinto-me cansado. Levem-me para perto da minha mãe».

 

Ketchel só morreu em 1910, mas foi um ano antes que a vida começou a mudar, num combate contra o campeão de pesos-pesados Jack Johnson, o mesmo que levou John McCain a pedir a Barack Obama que lhe fosse perdoado um crime postumamente. O combate de exibição estava combinado e o objetivo era durar até ao fim, para criar mais lucro. Mas Ketchel fartou-se e deitou Johnson ao chão com um golpe inesperado. O adversário levantou-se e respondeu na mesma moeda: deixou Ketchel inconsciente e sem um dente.

 

Ketchel esteve vários meses sem combater e em setembro de 1910 aceitou o desafio do amigo Rollin Dickerson para trabalhar no seu rancho. Foi lá que conheceu Goldie Smith e Walter Smith, responsáveis pela sua morte. A primeira serviu-lhe o pequeno-almoço numa cadeira diferente da habitual para estar de costas para a porta onde o segundo entraria para o matar com um tiro de pistola que lhe perfurou um pulmão.

 

Porquê? Não gostou de ser repreendido por ter tratado mal um cavalo. Em tribunal, no entanto, Goldie Smith acusou Ketchel de a ter tentado violar, mas não evitou a condenação de ambos. Dickerson fez tudo para salvar a vida do amigo e fretou um comboio para o levar ao hospital de Springfield, mas não conseguiu evitar a sua morte durante o caminho.

O alvo nas costas de Marcelo Bielsa

Marcelo Bielsa

A legião de fãs de Marcelo Bielsa e da sua filosofia fazem dele um sucesso instantâneo por onde quer que passe. Até pode não apresentar resultados e sair poucos dias depois, mas o impacto que provoca a simples notícia de que está em negociações com um clube não deixa ninguém indiferente.

 

Quando no início do verão chegou a acordo com o Leeds United com o objetivo de devolver o clube à Premier League, as primeiras dúvidas não demoraram a aparecer. Será que seria capaz de impor o seu estilo num campeonato como o Championship? Será que os jogadores iam encaixar no seu estilo obsessivo? Como é que os adversários iriam reagir? E os adeptos?

 

Hoje, seis meses depois, o Leeds United lidera a tabela classificativa e é, sem grande surpresa, o maior favorito à subida de divisão. Mas a polémica que nasceu com a confissão de que o argentino tinha alguém a observar os treinos dos adversários – depois de um triunfo frente ao Derby County de Frank Lampard – pode ter tornado ainda mais difícil o objetivo.

 

Se o segredo é a alma do negócio, Bielsa decidiu varejar a colmeia sem medo das consequências. O pânico instalou-se, chegando mesmo a ser pensado que ia apresentar a demissão depois de ter marcado uma conferência de imprensa extraordinária, mas o que se seguiu foi a forma que Bielsa arranjou de ridicularizar os críticos e os adversários.

 

Ao dizer que pode não saber falar inglês mas consegue falar sobre as 23 equipas adversárias no Championship, o argentino está, também, a rejeitar um processo de aculturação que os britânicos gostam de sentir que existe ao receber estrangeiros.

 

Há muito que a xenofobia britânica no futebol teve de ser superada, sobretudo na Premier League, à conta de estrelas dentro das quatro linhas e líderes que fazem a diferença fora delas, como Guardiola, Mourinho, Wenger, Pochettino, Sarri e muitos outros ao longo dos anos.

 

Mas a resistência continua a existir. E é muito maior no Championship, onde o futebol ainda é maioritariamente britânico, do que na Premier League. Ao mostrar a sua faceta sabichona no Championship, Bielsa mandou um recado bastante claro à concorrência: a de que sabe tudo o que precisa, de que não há segredos que possam ser mantidos com ele no campeonato.

 

Este desafio ao estatuto dos ingleses pode trazer consequências devastadoras. Esta heresia, com contornos de desrespeito pelos colegas de trabalho, é apenas um traço da personalidade de Bielsa mas poderá tornar o alvo nas costas do argentino ainda maior.

 

Se há coisas que os britânicos sempre foram pródigos a fazer – seja no futebol, no desporto em geral ou na história da nação – foi a capacidade de se unirem contra ameaças exteriores.

 

Hoje, mais do que nunca, Bielsa tornou-se uma ameaça para os britânicos. Cada semana de sucesso do argentino será vista como um acentuar da incompetência de todos os outros. A forma como um homem chegou a Inglaterra, ignorou a língua, dominou um campeonato visto como difícil e partiu sem dificuldades.

 

Depois dos títulos de um espanhol no Newcastle (Rafa Benítez-2017) e de um português no Wolverhampton (Nuno Espírito Santo-2018), um eventual sucesso estrondoso de Bielsa poderá fazer recuar ainda mais as linhas da resistência local. Mas, ao contrário do argentino, os dois ibéricos nunca instigaram os ânimos. Bielsa fê-lo e sem pudor. Até maio valerá tudo.

Tirsense. São os adeptos que fazem um clube grande

Tirsense-Lousada levou milhares ao estádio

«Mas você vem de onde?», perguntou-me sem contemplações assim que ouviu o meu sotaque lisboeta a perguntar se havia algum bilhete disponível. Ainda não era meio-dia em Santo Tirso e já tínhamos chegado ao Estádio Abel Alves de Figueiredo. A porta do estádio estava aberta, decidimos arriscar e fomos direito ao lado de dentro da bilheteira, onde estavam dois homens e uma mulher.

 

Pensei que era a oportunidade perfeita e tentei a minha sorte. A pergunta provocou um festival de recordações no meu cérebro. Apeteceu-me responder que vinha do passado. De uma era em que o Tirsense se notabilizou por duplas, seja pelos futuros jogadores do Benfica (Paredão e Marcelo) ou pelas contratações mundialistas Daoudi (Marrocos) e Siasia (Nigéria). De uma era em que o Tirsense foi o adversário de um Robson em estreia pelo Sporting (0-0 sem fazer uma única substituição) ou em que derrotava o FC Porto com contundência (3-1). E em que Caetano era rei. Não disse, optei pela verdade. «Vim de Lisboa. Vim de propósito para o jogo», expliquei.

 

O Tirsense-Lousada pode ter sido um jogo da distrital do Porto mas começou a merecer atenção nacional no início da semana. A iniciativa era clara: trazer uma tarde de futebol à antiga ao Abel Alves de Figueiredo. Quiçá inspirados pelo exemplo do Estrela-Belenenses do início de janeiro, responsáveis do clube e o patrocinador Bazar Desportivo apostaram na emissão de cinco mil bilhetes duplos para distribuir gratuitamente entre os interessados.

 

O Lousada era o adversário perfeito. Era o rival direto na luta pelo segundo lugar e prometia trazer 500 adeptos para a festa. Sim, podia ser um jogo do campeonato distrital mas a pressão era de primeira liga. E, uma vez mais, demonstrou-se que um clube não se descreve pela divisão em que está mas sim pela dimensão que os adeptos lhe dão. De nada vale estar entre a elite se não se consegue gerar um burburinho destes quando é preciso um impulso extra. Longe da era dourada, o Tirsense fez a chamada e as pessoas apareceram, demonstrando que o futebol está vivo e recomenda-se em Santo Tirso.

 

Fila para entrar e uma torneira que nunca fechou

Abel Alves de Figueiredo fez lembrar outros tempos

A informação oficial dizia que as portas abriam uma hora antes. O pequeno atraso permitiu perceber que a tarde ia ser um sucesso. Um amontoado de pessoas começou a juntar-se e, assim que o portão de ferro abriu, não demorou muito até haver uma fila. Faltavam cerca de 45 minutos para o apito inicial e a fila não desapareceu.

 

Na entrada preferencial para a bancada principal, o fluxo de pessoas a entrar parecia o de uma torneira que não fechava. Vinham umas atrás das outras e, minuto após minuto, a bancada parecia cada vez mais cheia. Havia homens, mulheres, crianças e até carrinhos de bebés. As pessoas conheciam-se e cumprimentavam-se, recorrendo ao velho lugar-comum do tempo para dois dedos de conversa. «Está frio, não está?», perguntava um. «Não! Está um calor soviético», respondia outro.

 

O branco da bancada foi substituído pelo preto das roupas. «Há jogos da primeira liga que não metem tanta gente», observava um adepto enquanto admirava a tal torneira sem arranjo. Enquanto no relvado, a mascote – o Tirso – e as equipas cumpriam as suas tarefas pré-jogo, na bancada do lado dos balneários, a claque do Tirsense – Juve Negra – afinava cânticos e mostrava o lema: «Que a nossa paixão seja a vossa inspiração».

 

Num setor da bancada do peão, começaram a aparecer os primeiros adeptos do Lousada. Os dirigentes tinham avisado que a equipa não ia estar desapoiada e a promessa foi cumprida. «Somos Lousada», lia-se numa tarja afixada à frente das vozes mais pujantes e que tentavam, da melhor maneira possível, abafar a clara inferioridade numérica no Abel Alves de Figueiredo.

 

Rrrrrrrrrrrrrola a bola e a pureza do futebol

Tirsense-Lousada

O pontapé de saída matou qualquer tipo de nervosismo que pudesse existir. Quando duas forças se contrariam num relvado, não importa se os clubes se chamam FC Porto, Tirsense, Boavista ou Lousada. Há uma bola, onze jogadores de cada lado e milhares de adeptos à procura do golo que os faça explodir de alegria.

 

Há quem se concentre nos resultados dos jogos que vai ouvindo através do rádio e quem discuta apaixonadamente em que divisão está o Trofense. Dentro de campo, o sinal mais é do Tirsense mas as oportunidades desperdiçadas contribuem mais para unhas roídas, cigarros fumados e pontapés em degraus do que para gritos assoberbados e abraços entre amigos.

 

A exibição do árbitro também é criticada. Afinal, qual é o adepto que não acha que o homem do apito assinala sempre tudo para o mesmo lado que, por acaso, é sempre o outro? «Sabes qual é o problema? É o complexo-Lousada [contextualização dada por um leitor na caixa de comentários]», queixa-se um, depois de mais um lance em que o amarelo não sai do bolso do árbitro.

 

O Lousada também não está lá para o frete. Quer manter o segundo lugar e ameaça tanto quanto possível a baliza do Tirsense. O ruído das bancadas não o parece afetar mas as boas ocasiões escasseiam.

 

O intervalo surge como a oportunidade perfeita para apresentar os jogadores dos escalões de formação e também os do futsal. Uma a uma, as equipas são apresentadas, começando pelos petizes, e recebem os aplausos de uma bancada completamente cheia. Para aquelas crianças, estes 15 minutos têm tudo para ser o expoente de uma vida curta. Sim, há um escalão anunciado com a proeza de ter vencido todos os jogos, mas pisar o relvado dos seniores e ser aplaudido por tanta gente é o mais próximo que têm de ser como as estrelas que veem na televisão.

Crianças desfilaram para a bancada

São estes os momentos que apaixonam os mais novos, que os fazem sonhar, que os fazem imaginar que um dia poderão ser como os seus heróis e marcar golos que façam explodir um estádio cheio. Hoje ainda não foi o dia, mas as sementes do sonho estão lá.

 

O penálti que lançou o caos no Abel Alves de Figueiredo

O penálti do Tirsense

A toada na segunda parte não teve grande mudança. Percebia-se que os jogadores do Tirsense queriam capitalizar o momento conseguido com um estádio a lembrar os velhos tempos e foram empurrando o Lousada para a sua baliza.

 

Havia cantos, livres, remates e boas ocasiões. Só não havia golos. Depois, já na reta final do encontro, há um penálti marcado a favor do Tirsense. A decisão gera a indignação entre os jogadores do Lousada e os adeptos não se deixam ficar. Visam o árbitro, primeiro, e o marcador do penálti, depois. Bobô, avançado brasileiro que atuou no Boavista, não cedeu à pressão, fez o golo que lançou a explosão de alegria na central e os desacatos no peão.

Não percebemos exatamente como e por que é que aconteceu. Ou melhor, é certo que houve o penálti e o golo – e provocações à mistura – mas num abrir e fechar de olhos o Tirsense-Lousada era também um jogo de Liga Portuguesa na confusão. Na bancada oposta, adeptos do Juve Negra começaram a correr para o setor dos adeptos do Lousada. Aqui, também alguns corriam na direção da grade que garantia a separação com os elementos da claque. A polícia demorou a chegar e, quando o fez, já a grade era pontapeada por uns e por outros, ao ritmo de insultos nada amigáveis… nem originais.

 

Do nosso lado, junto da outra grade que separava adeptos dos dois clubes, houve um outro foco de instabilidade. Mais calmo, é certo, mas que obrigou à intervenção de dois dirigentes, que apelaram à calma, e de um polícia, claramente sem paciência para ter de estar a aturar problemas destes. «Mas vocês vieram ver a bola ou mandar bocas uns aos outros?», gritou, enquanto forçava, sem grande sucesso, dois ou três adeptos do Tirsense a afastarem-se da grade. A insistência chegou com um ponto de exclamação: «Parece que estou a falar com crianças! Aqui só há homens, não há crianças!».

 

O pior tinha passado. A adrenalina tinha sido descarregada, a polícia tinha conseguido impor a ordem e, entretanto, o jogo recomeçara. A situação estava tão controlada que, uns minutos depois, o próprio polícia abriu o portão junto da grade para que um adepto do Tirsense pudesse ir à casa-de-banho no setor do Lousada. Afinal, tinha sido apenas uma má fase e toda a gente percebia que aquele não era o momento – nem o local – para arranjar confusão.

 

Perto do fim, a polícia quis garantir que mantinha tudo de acordo com o desejado – planeou o que cada elemento iria fazer assim que o árbitro acabasse com o jogo, com três agentes a garantir uma margem de segurança em relação à grade para permitir que os adeptos do Lousada saíssem com segurança -, mas não houve recaída.

 

O Tirsense venceu e os conflitos foram relegados para segundo plano. A festa estava feita e o domingo acabava de forma perfeita: um triunfo e um estádio a fazer lembrar os velhos tempos. Os números oficiais garantem que estiveram mais de 7300 pessoas mas a contabilidade – com bilhetes duplos sem controlo à entrada e com muita gente a entrar sozinha – seria sempre complicada.

 

Tenham sido 7300 ou não é indiferente. Estava muita gente e o Tirsense demonstrou que um clube grande só precisa de uma coisa: ter adeptos que o vejam como tal. Recordando o que Mourinho disse sobre Robson, uma pessoa só morre quando morre a última pessoa que o amou. Com tanta gente, o Tirsense prova que está vivo – e bem vivo – e que continuará assim por muito tempo, enquanto a paixão continuar a passar de geração em geração.

Famalicão-Farense. Um sábado de futebol de inverno

Famalicão e Farense não saíram do 0-0

Dizem que o futebol é um desporto de inverno. Uma modalidade em que a chuva é bem-vinda e os relvados lamacentos fazem parte do imaginário de qualquer adepto. De norte a sul do país, não há quem não tenha pelo menos uma memória de um jogo em que a chuva não deu tréguas, a relva não resistiu e os 22 jogadores em campo não foram mais do que heróis a lutar contra todas as adversidades possíveis.

 

Nos anos 90 era comum ver-se bancadas descobertas preenchidas por chapéus-de-chuva. Fazia parte. As famílias iam à bola mas tinham uma proteção. Também era comum ver-se o Famalicão na Liga Portuguesa, depois de a equipa ter subido em 1990 e se ter mantido até 1994, descendo com o Estoril e o Paços de Ferreira.

 

Agora, 25 anos depois, está a lutar pelo regresso com… o Estoril e o Paços de Ferreira. Onde antes havia estrangeiros míticos como Dane, Barnjak e Mihtarsky, Lula ou Tanta, agora há heróis do golo como Fabrício e Walterson e guarda-redes como Defendi. Onde antes havia espaços para chapéus-de-chuva, agora há «sacos de plástico humanos» à venda por cinco euros entre a bilheteira e a entrada no estádio.

 

Um Famalicão-Farense às onze da manhã de um sábado pode ser apetecível – afinal, levou-nos a fazer a viagem desde Lisboa na noite anterior – mas a chuva torrencial, incansável, é suficiente para afastar os mais fiéis. Nas redes sociais, de manhã bem cedo, o Famalicão incentivou os adeptos a irem ver o encontro mas as respostas não foram propriamente afirmativas.

 

«Vais ficar em casa?», perguntava a página oficial. «Se calhar vou ficar em casa, ‘tá chovendo», respondia um. Nós não respondemos mas não virámos a cara à luta. Depois de uma semana a recuperar de uma gripe – que na verdade ainda não está recuperada – já tínhamos feito a viagem até Vila Nova de Famalicão. Desistir agora não estava nos planos.

 

Depois das pizzas e dos pães com chouriço, chegaram as bebidas

 

As iniciativas do Famalicão nas últimas semanas foram virais. Primeiro a entrega de caixas de pizza no intervalo da deslocação a Coimbra, depois os pães com chouriço para os adeptos do Estoril. Desta vez, estávamos curiosos para saber se haveria surpresa, mas a única coisa que apanhámos foi a bebida. Água natural… servida durante todo o encontro.

Adeptos do Farense em Famalicão

A bancada Porminho, descoberta, aguentou os mais corajosos. Numa ponta, estavam os cerca de 20 adeptos do Farense que fizeram o caminho desde o sul para apoiar a equipa. «Somos nós, somos nós, o orgulho do Algarve somos nós!», gritavam, imparáveis, ignorando o facto de terem quase mais água na roupa do que nas suas famosas praias. Na outra ponta, os do Famalicão seguiam a mesma onda, quase literal.

Claque do Famalicão

Não havia estratégia infalível para nos protegermos da chuva. Houve quem tenha preferido ir para o topo da bancada, aproveitando a proteção dos cartazes publicitários, e quem tenha aceitado pagar os cinco euros dos tais «sacos de plástico humanos», impermeáveis que cobrem quase a totalidade do corpo. E ainda quem tenha ignorado o tempo, concentrando-se no jogo e adiando a preocupação da chuva para o final do encontro.

 

A chuva pode ser desagradável, pode afastar adeptos, tornar a experiência negativa e afetar o futebol das duas equipas, mas também traz algo de mágico a um jogo. Por um lado, parece transportar-nos até à nossa infância, onde brincar, correr e jogar futebol à chuva era a paixão proibida e constantemente reprimida pela família e educadores de infância. Por outro, é capaz de tornar o jogo mais puro. Quem está ali, está por gosto, por paixão. Ninguém vai ver um jogo destes por estar na moda ou simplesmente por não ter mais nada para fazer. Fá-lo por gostar de futebol, por gostar do seu clube. E não falta quem viva apaixonado pela sua equipa em Famalicão.

 

No meio do barulho da chuva, até a acústica do estádio parece melhor. Ouvem-se as pingas a cair nas bancadas ainda repletas dos papéis que ficaram do Famalicão-Estoril – com quase cinco mil pessoas – mas também as constantes indicações, gritos e exasperos de quem está em campo. Cada pancada na bola é um solo de orquestra com 22 intérpretes que representam forças contrárias.

 

A magia do futebol numérico

Foi impossível fugir à chuva

A massificação do futebol contribuiu para a extinção de um dos fenómenos mais brilhantes de viver durante um jogo. Chamemos-lhe «futebol numérico». É algo que ainda se vive constantemente nos escalões de formação e divisões secundárias mas que tende a desaparecer à medida que as equipas são mais famosas e os seus jogadores mais conhecidos.

 

Dito de forma mais simples de perceber, é a forma como os adeptos contrários tendem a dirigir-se aos jogadores apenas e só pelo número que têm na camisola. Ali, na bancada do peão, Jorge Ribeiro, Irobiso e Fabrício Isidoro não são mais do que o 16, o 9 e o 14.

 

Num espaço de cinco minutos, somos expostos ao futebol numérico em toda a sua magnitude. «Ó 14, vai para o ginásio! Olha-me para essas perninhas de alicate. Levanta-te, pá!», começam por gritar depois de uma falta. Pouco tempo depois, os alvos mudam. «Ó 16, meteste a bola no 9 mas ele é burro!», sugere outro, sem boas intenções.

 

Jorge Ribeiro, o jogador mais famoso do Farense, ficou com o brinde durante toda a segunda parte. Afinal, cada reposição lateral ou jogada mais perto da linha foi uma forma de aproximação aos adeptos. «O 16 parece uma velha de 60 anos a pegar na bola!», grita novamente o mesmo adepto, enquanto mais tarde, um outro lança uma sugestão de futuro: «Vai para a reforma, pá!».

 

Os insultos são outro fator integrante. Fazem parte. Não têm maldade, saem da boca como quem respira e por vezes até ganham pontos pela originalidade. Sim, há sempre espaço para os mais banais, em que as mães dos jogadores são visadas, mas num caso específico esse mesmo insulto é exponencial. Um dos jogadores não é filho de apenas uma, é filho de 30. Por outro lado, há quem prefira manter o tom cordial e se dirija ao árbitro com um respeito reverencial: «Senhor árbitro, como é?».

 

Tensão sobe de tom numa manhã sem tréguas

 

Famalicão e Farense não conseguiram sair do nulo. Em boa posição para subir, os famalicenses assumiram as despesas do jogo mas caíram na teia dos algarvios… ou escorregaram nas poças que o tempo lhes tinha reservado.

 

A relva tornou-se cada vez mais um adversário com o passar do tempo, a bola foi ficando cada vez mais pesada e os nervos à flor da pele fizeram o resto. Num lance, Jorge Ribeiro e Capela acabam expulsos com vermelho direto depois de o Famalicão não ter devolvido uma bola. A traição surpreendeu os algarvios e, muito a jeito para uma manhã como esta, o caldo ficou entornado.

 

O nervosismo alastrou-se às bancadas mas continuou a haver espaço para o humor. Num dos momentos em que a chuva torrencial mudou de intensidade, apenas para mostrar que tinha ainda mais para dar, ouviu-se um desabafo que soltou as gargalhadas dos restantes. «Epá, o tempo está a mudar. Está a ficar sol! Já sinto o calor e tudo…», diz um, provocando um suplício de outro: «Então, São Pedro?!».

 

O desabafo era legítimo. Já não era suficiente estar há 80 minutos debaixo de chuva constante, ainda era preciso aumentar a intensidade da coisa só para provar quem manda? Só nos restava adaptar. Afinal, éramos os mesmos que, ao intervalo, tínhamos provocado um êxodo em massa ao recolher para o túnel da bancada, onde um espaço inferior a 50 metros quadrados foi obrigado a ter capacidade para albergar a cerca de centena de gatos pingados que não viraram a cara à luta.

Bancada ofereceu proteção durante o jogo

A expressão no rosto de um segurança durante o jogo disse tudo. De costas para o jogo, encharcado até à alma, com os braços protegidos por baixo de uma espécie de bolsa à barriga, tinha um olhar completamente perdido no betão de um dos degraus da bancada. Absorto nos seus pensamentos, rendido à ingratidão de acordar cedo a um sábado para estar duas horas debaixo de chuva num jogo que não provocou problemas de maior.

 

Podia ser pior, podia ter ido à praça comprar peixe. Mas não: estava apenas num jogo, num sábado de futebol de inverno. Um daquelas à antiga. Só foi pena não haver golos.

Kisenosato Yutaka. Desistir para não passar mais vergonhas

O momento da despedida

Saber quando parar é uma das características mais elogiadas aos melhores praticantes de uma modalidade, seja ela qual for. O tema é motivo de debate contínuo e não faltam exemplos no desporto mundial. Há sempre alguém que continua mais tempo do que devia, acabando por sair pela porta pequena, transmitindo uma última imagem vulnerável, incapaz de estar ao nível do que foi em tempos.

 

Este é o maior medo de quem pratica um desporto de alta competição. «Mais vale sair um ano mais cedo do que um ano demasiado tarde», dizem, sabendo os efeitos que uma época a arrastarem-se terão na visão do seu legado. Por outro lado, é difícil combater a tentação de continuar aquilo que sempre fizeram, aquilo que os tornou grandes, aquilo que lhes deu relevância.

 

Para Kisenosato Yutaka, um lutador de sumo japonês que chegou a atingir o topo da carreira, esse momento chegou tarde. Aos 32 anos, depois de uma série de oito derrotas consecutivas e de três desaires seguidos num torneio de Tóquio (Ryogoku Kokugikan), Kisenosato percebeu a mensagem e decidiu agir.

 

«Vou retirar-me e começar a treinar jovens lutadores. Obrigado pelo apoio de todos enquanto estive no ativo. Embora seja lamentável que não tenha conseguido estar ao nível das expectativas de todos enquanto yokozuna, não me arrependo de um único momento da minha carreira», explicou.

 

As lesões não ajudaram Kisenosato. O objetivo sempre foi conseguir uma saída de cena limpa mas a vontade de retribuir o apoio dos fãs fez com que continuasse a competir sem possibilidades de sucesso: «Lamento muito que tenha sido desta forma».

 

Promoção destinada ao fracasso

Kisenosato Yutaka

O seu mentor, Tagonoura, ficou feliz pela promoção de Kisenosato a yokozuna (o título dado aos lutadores que atingem o grau mais elevado na modalidade) mas sempre soube que era algo destinado ao fracasso. «Conseguia perceber que estava em sofrimento», disse. Os números não mentem: a série de oito derrotas consecutivas, já sem contabilizar uma desistência em novembro, é o pior registo de um yokozuna desde 1949.

 

Em março de 2017, Kisenosato era um homem feliz. Tinha sido promovido a yokozuna: era a primeira promoção do género de um lutador nascido no Japão em 19 anos. O início até foi positivo, com a conquista do torneio seguinte, mas as lesões apareceram e não lhe voltaram a dar descanso.

 

Primeiro no joelho. Depois no tornozelo. Mas também no peito e no braço. Por muito que quisesse, não conseguia corresponder às suas próprias aspirações e aos desejos dos adeptos que o queriam ver ao mais alto nível.

 

Os maus resultados levaram a uma onda de desagrado pela própria federação – perder quatro combates consecutivos num mesmo torneio em novembro foi a gota de água -, que aumentou a pressão e colocou a hipótese de um fim de carreira forçado caso não melhorasse o seu desempenho no torneio de Tóquio.

 

A vergonha de continuar a perder, sem hipótese de recuperar, aliada à pressão da federação falou mais alto e o anúncio foi mesmo feito. Na despedida, os adeptos viram um lutar fragilizado mas capaz de lutar por uma vitória. «Foi impressionante a forma como se dedicou para ganhar uma última vez», disse Nishiiwa, um antigo lutador.

 

O adeus de Kisenosato faz com que o Japão volte a estar sem um yokozuna. Em lágrimas na conferência de imprensa, o atleta explicou que tinha encarado este torneio como um tudo-ou-nada. «Treinei para estar na melhor forma possível. Sabia que ia ser decisivo. Desde a lesão, senti confiança que estava a fazer o melhor que conseguia. Lutei com todas as minhas forças mas, pela primeira vez, senti que não conseguia continuar.»

 

O topo da hierarquia do sumo, com a categoria yokozuna, está agora limitada a dois lutadores, ambos da Mongólia: Kakuryu Rikisaburo, promovido em 2014, e Hakuho Sho, promovido em 2007. «É uma posição solitária», explicou Hakuho depois do anúncio de Kisenosato. «Fiquei sem palavras para expressar a minha apreciação pelo seu esforço.»

Martin O’Neill. O homem que desafiava Brian Clough

Martin O'Neill enquanto jogador

O novo treinador do Nottingham Forest conhece os cantos à casa. Enquanto jogador, fez parte da mítica equipa de Brian Clough que subiu de divisão em 1977, foi campeã inglesa em 1978 e garantiu o bicampeonato europeu em 1979 e 1980. Figura ímpar do clube, manteve sempre uma relação única com o emblemático treinador. «Desconfio sempre de pessoas que são mais inteligentes do que eu», dizia Clough.

 

De 1971 a 2019 passaram 48 anos. Há um mundo de diferença mas as duas datas têm algo em comum: marcam a entrada de Martin O’Neill no Nottingham Forest. Hoje, o irlandês não é mais um jovem de 19 anos com um horizonte de sonhos por alcançar e um cartão-de-visita que incluía um golo marcado ao Barcelona, pelos irlandeses do Distillery, na Taça das Taças. Hoje, O’Neill é um técnico conceituado, sobretudo por culpa dos anos que passou à frente do Celtic (2000-2005) que incluíram a presença numa final da Taça UEFA, perdida para o FC Porto em 2003.

 

O cenário no City Ground é muito diferente daquele que encontrou em 1971. Na altura, o clube estava no primeiro escalão e não conseguiu evitar a descida no final da temporada. Hoje, a equipa já está no segundo escalão e continua a perseguir o objetivo de voltar à elite do futebol inglês. O espanhol Aitor Karanka deixou a equipa no nono posto, com 39 pontos em 27 jogos, e a quatro pontos dos lugares do play-off.

 

A forma como o clube anunciou o novo treinador não deixa margem para dúvida: é um bom filho que está de regresso a casa: «Um dos originais e mais amados Miracle Men, Martin está finalmente a concretizar um sonho de vida ao treinar o seu querido Nottingham Forest. Com o seu compromisso ao clube, conhecimento do jogo e paixão para ter sucesso, O’Neill vai ter o objetivo de levar a equipa de regresso à elite e fazer com que o milagre aconteça novamente».

 

O Milagre com Clough

Brian Clough

Martin O’Neill esteve dez temporadas consecutivas no Nottingham Forest mas a primeira metade esteve longe de ser um milagre. Depois da despromoção na época de estreia, o clube não conseguiu reerguer-se imediatamente e teve campanhas vulgares no segundo escalão.

 

Depois, com a chegada de Brian Clough, em 1975, tudo mudou. O’Neill já era uma das figuras do plantel e o sucesso dentro de campo foi notícia um pouco por toda a Europa. Afinal, aquele progresso do Forest foi notável: subir de divisão em 1977, ser campeão inglês em 1978, vencer a Taça dos Campeões em 1979 e repetir a façanha em 1980. Ainda hoje, o feito é motivo de pergunta de trivial: qual é a única equipa que tem mais títulos de campeão europeu do que de campeão nacional? Isso mesmo, a resposta é Nottingham Forest.

 

O feito continua a ser especial na atualidade mas talvez não se consiga perceber a importância desta reconquista atualmente. Hoje, uma equipa consegue participar consecutivamente na Liga dos Campeões sem vencer o seu campeonato – veja-se o exemplo do Liverpool – mas na altura a única forma de garantir o visto no passaporte era vencendo a liga doméstica ou se entrasse na prova como campeão em título. Foi isso que o Nottingham Forest conseguiu, com distinção, e continua a ostentá-lo no seu currículo.

 

Brian Clough era um espetáculo à parte mas Martin O’Neill nunca se limitou a ser uma ovelha no rebanho. O médio norte-irlandês desafiava-o, exigia que desse o melhor de si e não se deixava intimidar pela hierarquia. Certo dia, num programa que contou com a presença dos dois, Clough confessou: «Desconfio sempre de pessoas que são mais inteligentes do que eu. Mas em breve vou puxar-te para o meu nível».

 

O passado de O’Neill ajudava a perceber que não era um jogador como os outros, ou pelo menos como a ideia que temos dos jogadores durante a década de 70. Quando saiu para Inglaterra, O’Neill não se limitou a deixar o Distillery, interrompeu também o curso de Direito. A paixão pelos estudos seguiu-o por onde andou e fez sempre questão de se manter a par com o mundo e com as novas tendências, dentro e fora do futebol.

 

O’Neill tornou-se um alvo fácil de Clough

Martin O'Neill

Brian Clough sabia o que tinha em mãos e não perdia uma oportunidade para relembrar O’Neill que numa equipa de futebol era ele quem mandava. O jornalista Daniel Taylor, autor de um livro sobre aquela era, recorda uma história de uma goleada ao Ipswich e garante que O’Neill nem sempre terá gostado da sua experiência no Nottingham Forest.

 

«Houve um episódio na Supertaça Inglesa em 1978, quando o Nottingham Forest estava a jogar com o Ipswich, num jogo que ganhou 5-0. O O’Neill marcou dois e estava desesperado por conseguir o hat-trick mas, assim que pôde, o Clough substituiu-o e pôs um central a jogar no seu lugar. Foi praticamente por desprezo apenas, porque eles não se davam nada bem», escreveu.

 

Se O’Neill se achava mais que os outros, Clough exigia ainda mais dele. Não lhe dava margem. Não estava para ver a sua autoridade desafiada e tinha a faca e o queijo na mão. Era ele quem tomava as decisões e garantia que os seus jogadores nunca se esquecessem dessa hierarquia. «O Martin tinha uma personalidade muito vincada e expressava a sua opinião, o Clough não gostava», contou Taylor.

 

Brian Clough martelou a personalidade de O’Neill até o tornar um reflexo do que era. Raramente tinha uma posição definida em campo e nada do que fizesse era encarado como bom o suficiente. O treinador tinha cumprido a sua promessa e a inteligência de O’Neill tinha deixado de importar: pela frente agora já só havia um jogador psicologicamente afetado pelos jogos mentais de que era constantemente alvo.

 

Nunca foi uma questão pessoal. Se O’Neill se sentia apto para desafiar o treinador, Clough tinha a obrigação de demonstrar, sobretudo perante o resto do plantel, que só podia haver uma voz dominante, que não autorizaria qualquer tipo de confronto à ideia instalada.

 

Hoje, tantos anos depois, O’Neill evoluiu para um treinador com vários toques de semelhança com Clough. Menos autoritário, talvez, mas com a mesma escola de espremer a capacidade de um jogador até à última gota pelo bem coletivo.

 

É isso que se espera dele no Nottingham Forest. É com isso que Tobias Figueiredo, Diogo Gonçalves, João Carvalho e Gil Dias podem contar. Repetir o milagre pode ser inalcançável, por muito que clube e adeptos o desejem, mas trazer um pedaço da glória da era de Clough já será um triunfo. Isso e garantir o regresso à Premier League, pela primeira vez desde 1998/99.

Adam Vinatieri. Falhar onde se tornou lenda

Adam Vinatieri fez história em 2002

Tem 46 anos e está na NFL desde 1996. É o kicker mais famosos na história da modalidade e tem um lugar reservado no Hall of Fame. O fim da carreira continua a ser uma incógnita mas no último fim-de-semana, na eliminação dos Indianapolis Colts contra os Kansas City Chiefs, Vinatieri foi uma sombra de si mesmo.

 

Não era um pontapé decisivo. O jogo estava prestes a ir para o intervalo e os Chiefs já venciam 24-7, naquela que acabaria por ser uma vitória por 31-13. Ainda assim, era um field goal fácil, a apenas 23 jardas dos postes. Sim, as condições meteorológicas não estavam fáceis – tinha nevado bastante durante o dia -, mas esse nunca foi um problema para o kicker. No momento-chave, partiu para a bola e… acertou em cheio no poste esquerdo, praticamente na zona onde havia uma placa de gelo, que se soltou com o impacto.

 

Foi estranho. Não parecia dele. Pela primeira vez em 22 tentativas, Vinatieri falhou um pontapé daquela distância (ou menor) nos playoffs. Se acrescentarmos os jogos da fase regular, tinha um registo imaculado em 97 oportunidades. Mais tarde, para piorar, também falhou o ponto extra depois de um touchdown de TY Hilton.

 

«Não consegui fazer a colocação perfeita do pé», comentou no final. «Num jogo destes, precisamos de todos os pontos possíveis e não há dúvida de que precisávamos daqueles. Não consegui corresponder ao que esperavam de mim», continuou.

 

Adam Vinatieri está há 23 temporadas na NFL, depois de ter jogado durante uns meses em Amesterdão, à procura de uma oportunidade na elite, e não sabe o que vai ser do futuro, especialmente agora que sente que desiludiu num momento importante. «Para ser honesto, ainda não tomei uma decisão. Se quiserem negociar comigo, vou querer ouvir, isso é certo», afirmou.

 

Presente relembrou o passado

Vinatieri foi infeliz contra os Chiefs

Nenhum kicker está imune a falhar field goals importantes mas nenhum outro tem uma carreira tão marcante em jogos decisivos como Vinatieri. O jogador de origem italiana está diretamente ligado ao início da hegemonia dos New England Patriots e ocupa um lugar tão especial na memória dos adeptos como Tom Brady ou Bill Belichick.

 

Adam Vinatieri pode ter jogado uma Super Bowl logo em 1996 com os Patriots, mas foi a 19 de janeiro de 2002 que subiu ao monte dos deuses na equipa. Em Nova Inglaterra, a equipa estava a perder 10-13 contra os Oakland Raiders num jogo marcado por um intenso nevão. Comparado com aquele sábado de 2002, o tempo do jogo Chiefs-Colts esta semana estava bom para ir para a praia. A visibilidade era escassa, a neve não dava descanso e o sonho de regressar a uma Super Bowl fugia por entre os olhos dos Patriots. Depois, a 27 segundos do fim, surgiu uma oportunidade de tentar um field goal, a 45 jardas, para forçar o prolongamento.

 

Sim, um field goal de 45 jardas não é necessariamente difícil. Em condições normais. Mas aquela noite era tudo menos normal. A neve era tanta que os jogadores precisaram de afastar largos centímetros de neve acumulada para arranjar um espaço para colocar a bola que iria ser pontapeada por Vinatieri. E depois havia o vento. E a pressão em cima dos ombros. Nada disso importou: o pontapé não passou a trave por muito mas foi válido e forçou o prolongamento. Não satisfeito, Vinatieri voltou a ser importante, decidindo o jogo com um field goal de… 23 jardas, exatamente a distância da qual falhou agora contra os Chiefs.

 

O estatuto de recurso infalível ou, pelo menos, decisivo continuou consigo nos tempos seguintes. Duas semanas depois, na última jogada do encontro, foi Vinatieri quem executou com êxito um field goal de 48 jardas na primeira Super Bowl ganha na história da equipa (20-17 vs. Rams).

 

Dois anos depois, a história repetiu-se. Apesar de ter tido um jogo menos feliz, Vinatieri redimiu-se no momento decisivo. A quatro segundos do fim do jogo, e com um empate a 29, o kicker voltou a mostrar-se fundamental e cumpriu com êxito o pontapé de 41 jardas. Pela primeira vez na história, um jogador tinha sido o autor da jogada decisiva em mais do que uma Super Bowl.

 

Hoje, Vinatieri falhou exatamente nas condições que o tinham catapultado para a glória. Pode ter sido um prenúncio. Um sinal de que está na hora, de que as 23 épocas ao mais alto nível, com quatro títulos na Super Bowl, fazem parte do passado e que os 46 anos já pesam.

 

Um sinal de que é humano. Todos são, mais tarde ou mais cedo.

Solskjaer. Um homem talhado para ser substituto

Ole Gunnar Solskjaer na sua nova pele

O cenário foi tão comum na história do clube que nem chegou a causar estranheza. A 19 de dezembro de 2018, poucos dias depois de o Manchester United ter sofrido a segunda derrota consecutiva numa série de cinco jogos com apenas um triunfo, os red devils anunciaram que Ole Gunnar Solskjaer ia ser o substituto de José Mourinho.

 

Menos de um mês depois, a equipa está de cara lavada, os jogadores parecem outros e os resultados acompanham: cinco triunfos consecutivos – a melhor série da época era de apenas três – e uma valiosa vitória no terreno do Tottenham (1-0) a relançar as hipóteses na disputa de um lugar na Liga dos Campeões.

 

O treinador norueguês está a limitar-se a fazer aquilo que mostrou saber fazer melhor enquanto jogador do clube, entre 1996 e 2007: ser um substituto de luxo. Sim, a forma como saiu do banco para resolver a final da Liga dos Campeões em Barcelona, nos descontos (2-1 vs. Manchester United em 1999) será sempre o pináculo de uma carreira com um denominador comum: sair do banco para fazer a diferença.

 

Os números não mentem. Ole Gunnar Solskjaer era um goleador nato, jogasse a partir do banco ou desde o início do jogo. Foi assim nos escalões de formação do Clausenhagen e, mais tarde, na temporada em que ajudou a equipa ser campeã do terceiro escalão, num total de 115 golos em 109 jogos; e foi assim no Molde, onde marcou 41 golos em 54 jogos e garantiu o visto de entrada na Premier League para representar o gigante Manchester United.

 

Em Old Trafford, com Alex Ferguson, não houve diferença e os 18 golos no campeonato na época de estreia provaram que a contratação tinha sido acertada. Até 2007, vários avançados foram saindo e chegando e o norueguês com cara de bebé manteve-se igual a si próprio: jogasse quanto tempo jogasse, a probabilidade de marcar um golo era elevada.

 

O balanço final é esclarecedor: Solskjaer despediu-se do Manchester United com 126 golos marcados: 29 deles foram como suplente. Feitas as contas, são 23% dos golos marcados ao serviço dos red devils.

 

Futebol foi uma paixão que não largou

Ole Gunnar Solskjaer

O fim da carreira enquanto futebolista, precipitado por lesões recorrentes, não impediu Solskjaer de continuar ligado à modalidade. Já tinha provado que não gostava de andar a ser projetado de um lado para o outro. Afinal, foi por essa mesma razão que, enquanto criança, decidiu desistir da luta greco-romana, a modalidade que o pai praticava.

 

Continuar no futebol – e no Manchester United – era algo que tinha em mente mesmo antes de terminar a carreira. Por isso, no último contrato assinado, em 2006, garantiu que haveria uma porta de entrada aberta para a possibilidade de ser treinador.

 

Se por um lado estava obrigado a certificar-se enquanto técnico, por outro tinha o diploma mais do que válido para assumir o cargo de treinador dos avançados do Manchester United na primeira temporada após pendurar as chuteiras. Daí para a equipa de reservas na época seguinte foi um pequeno passo. A carreira de treinador estava a ser consolidada, capítulo após capítulo, e Solskjaer sentia-se preparado para um desafio mais sério.

 

O Molde foi um regresso às origens cheio de sucesso. Depois de o alemão Uwe Rösler ter salvado a equipa de descer de divisão no final de 2010, Ole Gunnar Solskjaer pegou de estaca e garantiu o primeiro título nacional da história da equipa, logo no primeiro ano. Não satisfeito, repetiu a façanha em 2012 e tornou-se, ainda mais, uma figura emblemática do clube.

 

O técnico conquistou ainda uma Taça da Noruega (2013) e manteve-se no Molde até ao início de 2014, altura em que aceitou um novo desafio e assumiu o comando do Cardiff City. Mais uma vez, ia ser o substituto de alguém: Malky Mackay. O norueguês pode ter entrado com o pé direito, a ganhar ao Newcastle na Taça de Inglaterra, mas o balanço em Gales foi negativo: a equipa não evitou a descida de divisão e o arranque no Championship foi mau o suficiente para o técnico abandonar o clube.

 

O antigo clube norueguês voltou a entrar na moldura em outubro de 2015 e foi lá que o Manchester United o foi buscar agora, três anos depois, para ocupar o posto de treinador interino. Um substituto destinado a ser substituído.

 

O contrato com o Molde continua válido – o regresso está previsto para maio de 2019 – mas o sucesso como substituto em Old Trafford pode provocar uma mudança de planos, mesmo que Solskjaer não esteja destinado a continuar no Manchester United.

 

Para já, a história está feita. Pode ser apenas um treinador interino, pode estar a prazo, pode ser um substituto que, faça o que fizer, já sabe que não será titular no próximo desafio, mas foi o primeiro da história do Manchester United a vencer os seus primeiros seis jogos ao comando da equipa.

O fenómeno Fábio Cardoso merece reflexão

Fábio Cardoso

Alvalade, 3 de janeiro de 1999. Beto tem uma noite para esquecer e está diretamente ligado aos dois golos do Benfica. A doutrina diverge: há quem diga que foram dois autogolos, há quem diga que foi só um, e Cadete exige que um golo lhe seja creditado. Mas para a história será sempre recordado como o jogo dos dois autogolos.

 

Alvalade, 18 de março de 2000. O Sporting está obrigado a vencer o FC Porto para subir à liderança do campeonato, numa fase em que o fim do jejum nunca pareceu tão próximo. Já depois de André Cruz ter adiantado os leões, Secretário faz uma asneira de todo o tamanho e oferece a Acosta a oportunidade de fazer o 2-0. O argentino não desperdiça e os leões partem para o tão ansiado título.

 

Portimão, 2 de janeiro de 2019. Já depois de Ruben Dias ter feito o autogolo que deu a vantagem do Portimonense frente ao Benfica, Jardel tem a oportunidade de evitar o 2-0 com uma bola perdida junto à linha de golo. O brasileiro calcula mal o tempo de salto, executa ainda pior com a cabeça, e direciona a bola no sentido da baliza. As águias não conseguem reagir, perdem o segundo lugar e Rui Vitória sai do comando técnico no seguimento da derrota.

 

São três exemplos mas podiam ser mais. E envolvem um jogador do Sporting, um do FC Porto e um do Benfica. Foram os primeiros que me vieram à cabeça. Em todos eles, o profissionalismo não foi posto em causa. Beto continua a ser visto como um exemplo do Sporting, Secretário é uma figura do FC Porto – muito subvalorizada pela opinião geral devido à passagem pelo Real Madrid –, e Jardel é neste momento o jogador com mais anos consecutivos na equipa principal do Benfica.

 

Os três tiveram uma má noite. Afinal, ninguém está imune a isso e os erros acontecem. Há diferenças para o que aconteceu com Fábio Cardoso, confesso benfiquista e da formação do clube da Luz, no Santa Clara-Benfica? Sim, e a principal é muito simples, e pode até ser comparada com a ideia que temos dos tribunais. Se um pobre comete um crime, vai para a prisão. Se o crime é cometido por um rico, vai para casa com pena suspensa.

 

O erro de um jogador de um clube pequeno tem vindo a ganhar um peso incomportável nos últimos anos. A suspeição sobe de tom a cada jornada e tudo o que acontece só pode ser justificado por alguma premeditação, esquecendo até que, de acordo com a lógica, o jogador de um clube pequeno tende a ser pior do que um de um clube grande.

 

Ou o jogador está condicionado, ou há dinheiro por trás, ou há um apito ou um polvo a dominar o futebol. É importante destacar esta ideia: não, o futebol não é uma planície verdejante. Estamos fartos de saber, diretamente ou por vias avessas, que há, citando Queiroz, muita porcaria para limpar, mas isso não significa que o simples erro tenha deixado de acontecer.

 

Fábio Cardoso está longe de ser inocente

Santa Clara-Benfica

O central do Santa Clara não chegou ao intervalo. Escorregou no lance do primeiro golo e foi expulso por uma falta que não foi penálti por pouco. Em segundos, a opinião pública acusou e sentenciou o jogador: tinha feito tudo o que estava ao seu alcance para ajudar o Benfica.

 

Fábio Cardoso é vítima do contexto mas também é culpado pelas ações. Um profissional, como qualquer outra pessoa, tem todo o direito a ser apaixonado por um clube, a defendê-lo em privado e a não esquecer os anos que por lá passou. Mas ao admitir, como fez no passado, que estava aliviado por não defrontar o Benfica, porque seria o jogo mais difícil da sua vida, abriu uma caixa de Pandora impossível de fechar.

 

O central confessou que um jogo contra o Benfica o deixaria condicionado numa altura em que estava cedido e, como tal, a regra não permitia que fosse utilizado. O jogador utilizou essa oportunidade para reiterar a paixão pelo clube. O coração falou mais alto e aproveitou a ocasião para angariar algum mediatismo entre os adeptos.

 

Profissionalmente, cometeu um erro. Desconhecendo o futuro, abriu uma perigosa porta para qualquer situação no futuro em que voltasse a defrontar o Benfica. É natural que jogadores se sintam condicionados, de uma forma ou de outra, quando defrontam os seus clubes de infância/adolescência, tenham ou não lá jogado. Para uns, é uma motivação extra; para outros, é difícil, como o próprio Fábio Cardoso admitiu.

 

O problema, para ele, é que essa dificuldade confessa foi utilizada contra ele no momento dos erros. Ao admitir aquilo no passado, Fábio Cardoso estava a garantir que não poderia ter um jogo infeliz contra o Benfica no seu futuro sem escapar à suspeição de quem pouco faz para promover o nosso futebol. Se um erro de um jogador de uma equipa pequena já é exponenciado sem haver este contexto, neste caso tudo fica mais complicado.

 

Um erro que deve servir de exemplo

Fábio Cardoso

Fábio Cardoso cometeu um erro que deve ser apontado como exemplo daqui para a frente. Todos perceberam que o central não podia falhar porque seria sempre analisado com base no que tinha escrito no passado. O jogador precipitou-se, não se soube proteger devidamente e foi atacado.

 

O fenómeno deve ser analisado com cuidado e não se estende apenas a quem está dentro de campo a jogar. As afirmações públicas, numa era em que nada se perde na internet, são catalogadas e ajudam a rotular quem as afirma. Por muito que não influencie em nada, serão sempre vistas, a partir daí, como um handicap para tudo o que a pessoa faça ou diga.

 

E aqui entra a outra dimensão: a dos jornalistas. Sim, os jornalistas têm clubes. Sim, a maior parte deles são do Benfica, do Sporting e do FC Porto. Mas também os há – e conheço-os – do Belenenses, do Estoril e de várias outras equipas. E são-no verdadeiramente, não apenas para escapar por entre os intervalos da chuva.

 

Há uma escola que defende que os jornalistas deviam afirmar o seu clube sem problema. Que isso até seria uma vantagem. Que se são profissionais, não haveria problema, e que até ajudaria o leitor a compreender o contexto.

 

A doutrina diverge mas casos como o de Fábio Cardoso ajudam a perceber por que é tão importante este anonimato. Porque ninguém quer ter uma luz colorida a apontar para os seus textos. Porque ao longo de uma carreira há oportunidades para escrever textos mais agradáveis, e outros desagradáveis. Porque ninguém podia esperar que um portista escrevesse um texto meritório quando o clube estava na sua maior crise dos últimos anos. E o mesmo se aplica a Benfica e Sporting.

 

Quando comecei a trabalhar numa redação nacional, o Benfica estava numa fase negativa. Os blogues estavam na sua fase de grande crescimento e a ideia geral era comum entre os adeptos benfiquistas: todos os jornalistas eram do Sporting e do FC Porto. Ou, pelo menos, contra o Benfica. Juravam a pés juntos que a comunicação social em Portugal era uma conspiração de quem tinha encontrado uma forma de se vingar do clube com mais títulos em Portugal. Hoje, o cenário mudou, e o Benfica venceu mais títulos nos últimos anos, mas a ideia-base mantém-se a mesma: os jornalistas são todos do Benfica e ajudam a promover o nacional-benfiquismo contra os dois maiores rivais.

 

Se há jornalistas maus? Que não respeitam a classe e que ajudam a piorar o ambiente? Claro que sim. Mas isso não é razão para que todos comecem a ser vistos à luz de um clube, apenas porque quem lê não partilha da mesma visão.

 

Um jornalista, um político ou qualquer outro profissional que possa vir a ter uma posição que seja incompatível com este clubismo, deve ser capaz de se proteger de um fenómeno como o de Fábio Cardoso. Deve compreender como uma frase mal dita, ou simplesmente mal interpretada, pode dar azo a uma crise comunicacional.

 

Fábio Cardoso não é totalmente inocente deste fenómeno mas também não será claramente culpado como fazem parecer. Alguns jornalistas também não o são.

Lusitano vs. Juventude. Um dérbi a fazer lembrar… Belgrado

Lusitano vs. Juventude é um dérbi à antiga

O dérbi de Évora é muito mais do que um simples jogo. É habitual dizer este tipo de coisas sempre que há um dérbi ao barulho mas, neste caso, é impossível esquecer a história e a tradição das duas equipas. Não é apenas uma questão de estarmos a falar de duas equipas centenárias (quantos dérbis assim existem em Portugal?), uma delas com várias participações na primeira divisão, e que dividem uma capital de distrito.

 

O Lusitano-Juventude faz lembrar Belgrado. Não pela violência, e pelos perigos que podemos correr ao ir ver um jogo, mas pela proximidade dos dois estádios que chegam a gerar confusão entre os curiosos sem experiência. Quando estacionamos o carro, alguém solta um: «Mas esperam, aquele é o estádio do jogo?». Não, não é. Por mais curioso que seja, o parque de estacionamento tem vista privilegiada para o estádio do Juventude mas este jogo é em casa do Lusitano, que tem o estádio por trás dos prédios que estão à nossa frente.

 

A romaria para a bilheteira é uma experiência de conhecidos. Gente que se fala, que se conhece há dezenas de anos mas que neste momento está dividida por amores. De um lado, o azul do Juventude, do outro o verde do Lusitano. É nesta altura que percebemos que devíamos ter feito o trabalho de casa e compreendido melhor a identidade de cada um. Por mero acaso, saímos de casa com uma camisola verde berrante – à irlandesa e não à Lusitano – e somos chamados à responsabilidade assim que entramos em casa dos nossos anfitriões. «Não tinhas nada melhor para vestir hoje do que essa camisola?», perguntam-me, desconfiados.

 

O caso não é para menos. A nossa companhia do jogo faz parte da história do Juventude, que festejou o centenário em 2018. Uma hora antes do jogo, somos mergulhados na história do recrutamento de Mike Plowden para a equipa de basquetebol do clube. Ouvimos maravilhas da sua maneira de ser, como foi a negociação e como teve um impacto marcante na modalidade em toda a região. Mais tarde, a história é ainda maior, quando recebemos a companhia de um octogenário que jogou futebol no clube nas camadas jovens (década de 50) e nos seniores.

 

É com eles que seguimos até às bilheteiras e vamos ouvindo a troca de galhardetes. Por duas horas, as amizades vão ser relegadas para segundo plano. Não há nada a esconder: sabe-se perfeitamente quem é verde e quem é azul, do Juventude. Comprados os bilhetes, a cinco euros cada, e com o pontapé de saída a menos de dez minutos de distância, somos surpreendidos pelo aviso que se ouve pelo sistema de som. Não há árbitros, por isso apelou-se aos interessados em fazer parte da equipa de arbitragem para aparecerem junto aos balneários. Por momentos, passou-nos pela cabeça ter um motivo de reportagem ainda melhor (O dia em que arbitrámos um dérbi de Évora), mas preferimos jogar pelo seguro e manter as amizades.

Bilhetes custaram cinco euros

A regra não é inflexível mas percebemos que a maior parte dos adeptos do Lusitano estão na bancada poente e os do Juventude estão do nosso lado, no peão. Mesmo junto ao meio-campo, estão os Águias Azuis, a claque do Juventude que vem com um tambor, tochas e uma enorme bandeira. Não cantam muito, nem sequer utilizam o tambor para marcar o ritmo do jogo, mas seguem o jogo apaixonadamente. 

 

Um trio de arbitragem perdido

 

Ser árbitro não é fácil, pensem o que quiserem pensar. Os primeiros minutos do jogo demonstram que os três elementos estão perdido em campo, cada um à sua maneira. Não é uma crítica, é uma constatação que nos faz viajar no tempo até 1997, ano em que fizemos parte de uma equipa de arbitragem pela primeira vez. A situação não foi muito diferente: havia apenas um árbitro e eram precisos dois fiscais-de-linha. A opção recaiu, como recaía quase sempre nestes jogos dos escalões de formação, em jogadores suplentes.

 

Era um Tires-Belenenses e, durante os dois primeiros minutos de jogo, tive o olhar mais compenetrado que me era permitido no penúltimo defesa do meu lado. Se ele avançava, eu avançava. Se ele recuava, eu recuava. Podia estar a trinta metros, mas era a sua sombra perfeita. E assim continuei até perceber pelo canto do olho que a bola tinha saído pela linha lateral e eu não fazia ideia de quem tinha sido o último a tocar. Estava tão absorto na ideia do fora-de-jogo que me tinha esquecido completamente que o papel de um fiscal-de-linha (na altura ainda era o termo utilizado) não se limita a isso.

 

Vinte e dois anos depois, aquela equipa de arbitragem era muito mais velha do que um rapaz de 12 anos mas também passou pela sua quota de dificuldades. Na bancada, não havia grande margem de manobra. «Vai ser uma barraca, a arbitragem», vaticinava um adepto. Minutos depois, o primeiro momento de razão. O árbitro assistente improvisado do lado do peão assinala fora-de-jogo mas o árbitro nem sequer percebe que há uma bandeirola no ar e continua com o jogo. Impotente, o assistente desiste, dando azo às críticas dos adeptos visitantes. «Não baixes essa merda, pá!», disse um primeiro. Uns segundos depois, já a meio de outra jogada, era feita uma recomendação: «Tens de arranjar um telefone para falar com o árbitro!».

Árbitro assistente teve um domingo inesperado

O penálti que toda a gente viu mas ninguém marcou

 

As piores previsões sobre o que seria o jogo com uma equipa de arbitragem improvisada – por culpa de falta de pagamento, disseram nas bancadas – não se confirmaram. Os jogadores aceitaram o repto e não houve momentos mais tensos. Mesmo da bancada, pareceu haver a compreensão necessária.

 

Mas, a meio da primeira parte, veio o lance que toda a gente viu mas que não entrou na história do jogo. Um avançado do Lusitano foi carregado em falta dentro da área e ninguém – nem o árbitro nem o assistente – assinalou. Ali, onde estávamos, o lance não deixou dúvida. Entre adeptos do Juventude, houve um momento de silêncio. Um «será que isto não vai ser marcado?», seguido de um respirar de alívio. Curiosamente, os protestos não foram fortes.

 

O jogo prosseguiu e o Juventude chegou ao golo num lance de bola parada. Naquele livre direto, ainda longe, descaído para o lado esquerdo, parecemos estar a meio da repetição da câmara privilegiada. O enquadramento foi perfeito para ver o remate e perceber que a bola se encaminhava para o ângulo, indefensável, ainda antes de o guarda-redes decidir o que fazer. O golo espetacular provocou festejos intensos com a maioria da equipa a celebrar com os seus adeptos, já no meio-campo defensivo.

Jogadores do Lusitano repuseram a bola durante os festejos

Malandros, os jogadores do Lusitano repuseram a bola rapidamente, aproveitaram a passividade de um árbitro que não percebia bem o que estava a acontecer, e remataram para o fundo da baliza deserta. Seria esta a barraca de arbitragem que se previa no início? Não. Foi nesta altura que árbitro, jogadores e adeptos perceberam que havia um jogador do Juventude que se tinha mantido no meio-campo ofensivo, evitando qualquer tipo de surpresa.

 

O Juventude salvou-se e chegou ao intervalo a ganhar. «Não te esqueças que estamos a ser ajudados», dizia um idoso para um adepto dos seus 40 anos na bancada do peão. «Sim, mas independentemente disso, o Juventude está a jogar melhor», replicava o outro. E estava. O Lusitano podia ser o líder mas o sinal mais daquela primeira parte estava do lado do Juventude.

 

Mais do que um jogo, um evento social

Natureza cresce no meio das bancadas

O dérbi de Évora é mais do que um jogo. É uma oportunidade para famílias inteiras saírem de casa e encontrarem-se numa bancada, mesmo sem cadeiras, de futebol. Ou, por vezes, nem é preciso chegar à bancada. Num bloco de prédios paralelo ao campo, são muitas as varandas do último andar com adeptos, alguns com cachecóis apropriados, a verem o jogo. Dentro do recinto, são várias as crianças que, apesar de olharem para o jogo, se sentem mais seduzidas pelo intervalo, momento em que podem entrar lá para dentro e fazerem, elas próprias, o jogo das suas vidas.

 

Uma delas comete o erro de ter uma camisola... verde. Amigo de um dos pais, um homem aproxima-se da criança e começa a fingir que lhe está a tirar a peça de roupa. Que aquilo não é coisa que se apresente naquele lado da bancada. Atrás de nós, uma voz irrompe imediatamente num tom brincalhão. «Não há problema, é para poder sujar à vontade!», diz.

 

As conversas prolongam-se no tempo, sobretudo durante o intervalo. Não são apenas sobre o dérbi, são sobre tudo. São conversas de final de semana, são hábitos de domingo à tarde, de gente que vai ver a bola mas não resiste ao convívio, à alegria de partilhar com os outros o que lhes vai pela cabeça.

 

Depois, com o reentrar das equipas, volta o olhar compenetrado e o objetivo de garantir os três pontos. O Lusitano precisa do golo para não perder a liderança mas é o Juventude que está mais próximo, mais do que uma vez, de festejar.

 

Por esta altura, o ambiente sonoro do jogo também está diferente. Atrás da baliza do Juventude, estão agora várias crianças do Lusitano. Vestidas a rigor, com fatos-de-treino do clube, dão asas ao que vão vendo e ouvindo nos estádios para replicar cânticos de apoio. «Nós acreditamos em vocês», gritam, repetidamente, tentando guiar o Lusitano até ao golo do empate.

Um lugar privilegiado

São cada vez mais e era tanta a confiança que o golo apareceu mesmo, ainda a tempo de proporcionar uns últimos minutos de grande intensidade e incerteza do resultado. Na outra baliza, um homem faz «marcação em cima» à baliza, repetindo insultos de destino incerto. Muito possivelmente, alguém que se limita a descarregar a adrenalina acumulada durante a semana. Mais ao lado, junto à bandeirola de canto, uma outra criança desabafa com o avô, ao analisar o desempenho do guarda-redes do Lusitano. «Ó pá, ele está sempre a gritar!»

 

Um jogo é assim mesmo. Dependendo dos olhos, da idade, das cores que defendem e do sítio de onde estão a ver o futebol, as experiências são diferentes. Por vezes, a maior influência chega mesmo a ser a do estômago. «Está na hooooooooooooooora!», grita um adepto do Juventude, perante os risos e comentários de quem o rodeia. Divertido, olha em volta e fita quem o desafia: «O que foi? Tenho de ir lanchar!», continua, desarmando quem mantinha o ar sério.

 

O fim da romaria com as análises habituais

Sol foi um obstáculo durante 90 minutos

O apito final chegou mesmo. O Juventude não conseguiu vencer o rival fora de casa e o Lusitano foi alcançado na liderança por outras três equipas: Atlético Reguengos, Redondense e Monte Trigo. Os três árbitros improvisados respiraram de alívio – afinal de contas, podia ter sido muito pior – e os adeptos seguiram de volta a casa com os comentários comuns.

 

Ter visto a vitória fugir por entre os dedos foi motivo suficiente para haver críticas ao treinador. «Isto é uma vergonha! Os jogadores é que mandam no balneário. É o Nhuka e mais dois ou três. Jogos grandes não ganham nenhum!», queixa-se um, enquanto outro se mostra feliz por a equipa se ter deixado empatar, confessando que até estava a torcer por isso. Afinal, adeptos com motivações dúbias que se deixam levar por outros interesses existem em qualquer lado, seja entre a elite ou na distrital de Évora.

 

Nem todos são assim. O desperdício de oportunidades deixa a maior parte desiludida por ter havido uma oportunidade tão boa para garantir os três pontos e ficar mais perto dos primeiros. Mas, do lado do rival, há quem não deixe passar a situação em claro, perante os amigos de outras cores. «Então? Não me digas que achavas que vinhas ganhar aqui ao Lusitano?», brinca um.

 

Achava que ia ganhar, sim. Porque isso também faz parte de ser adepto. E no final da época, na última jornada, o tabuleiro vai inverter-se. O parque de estacionamento até poderá ser o mesmo, mas o jogo será no Juventude. É uma pena não poder ser já para a semana.

Andy Murray. O estatuto de lenda ninguém lhe tira

Andy Murray em lágrimas durante a conferência

Era para ser uma conferência de imprensa igual a tantas outras. Mas não foi preciso esperar muito até se perceber que algo não estava bem. Andy Murray, de voz embargada, confessou que as dores levaram a melhor e que a reabilitação após uma operação à anca não correu como se esperava. Incapaz de ver um futuro positivo, o britânico admitiu, entre lágrimas e longas pausas para se recompor, que o Open da Austrália pode ser o seu último torneio. 

 

Profissional desde 2005, Andy Murray conhece os cantos à casa e há muito que se habituou ao ritual de entrar na sala, sentar-se na mesa com o microfone, encarar os jornalistas de frente e responder a perguntas que, muitas vezes, são tão pouco originais que só é preciso recorrer a meia dúzia de frases batidas.

 

O que os jornalistas não sabiam era que esta conferência ia ser muito diferente de todas as outras. Com uma simples pergunta de «como é que se sente?», tão habitual para abrir o diálogo com alguém que tem um histórico recente de problemas físicos, o castelo de cartas desmoronou-se.

 

Andy Murray abriu a alma e só o tom de voz seria suficiente para perceber um ser humano de rastos perante a impotência de voltar a ser o que era: «Não me estou a sentir bem, obviamente. Tenho estado com problemas há muito tempo, com muitas dores… há provavelmente vinte meses já. Fiz tudo o que podia para me sentir melhor mas não tem ajudado muito. Estou melhor do que estava há seis meses mas ainda sinto muitas dores. Tem sido duro».

 

Era um homem de rosto abatido, voz trémula e nariz fungoso, retendo as lágrimas nos olhos pelo maior tempo possível. «Ainda consigo jogar mas não ao nível que me deixaria feliz. Não é apenas isso. A dor é… demasiado grande. Não é algo que queira continuar, não quero continuar a jogar assim. Acho que tentei tudo o que podia para ultrapassar isto, mas não resultou».

 

Por esta altura, numa sala com um silêncio ensurdecedor, excluindo a frágil voz de Murray, o discurso foi exatamente para onde se começava a antever. «Falei com a minha equipa e disse-lhes que não conseguia continuar assim. Precisávamos de definir um fim, porque estar a jogar sem ideias de quando é que a dor ia parar… [pausa] disse-lhes que talvez aguentasse até Wimbledon. Era onde… era onde gostava de parar de jogar. Mas não estou certo que o conseguirei fazer».

 

As notícias não eram novidade para Andy Murray. A decisão estava tomada e tinha tido tempo para dormir sobre o assunto. Mas estar ali, enquanto tenista, a dar uma conferência de imprensa e a verbalizar o que lhe ia na mente e o que ia ser o futuro para o mundo, deixou-o incapaz. Baixou a cabeça, com o chapéu a tapar-lhe a cara e cedeu finalmente às lágrimas. Ouvir da própria voz que provavelmente não teria uma última oportunidade em Wimbledon, a prova-rainha para um britânico, o torneio que lhe garantiu o estatuto de lenda (não apenas por lá ter sido campeão olímpico em 2012 e, no ano seguinte, ter recuperado finalmente o grand slam para um tenista da casa) foi uma tarefa insuportável.

Andy Murray

Foi um teste que não podia ultrapassar sem chorar. Num mundo em que tenistas como Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic tendem a transparecer a ideia de que estamos perante super-heróis inquebráveis, Murray apareceu a mostrar que ninguém está imune. E, mais do que isso, que têm sentimentos. Abandonar a maior paixão da vida, aquela que lhe deu tantas alegrias e que o tornou o que é hoje, obrigado pelas dores é uma crueldade para a qual não estava verdadeiramente preparado. Porque nunca ninguém pode estar.

 

A conferência de imprensa continuou. Murray manteve a cabeça baixa, limpou as lágrimas dos olhos com a mão direita e, mesmo sem ter dado sinal de que estava preparado, um jornalista quebrou o silêncio com a pergunta necessária mas improferível: «Isso quer dizer que este pode ser o seu último torneio?».

 

Fez-se novamente um silêncio sepulcral. Murray não respondeu logo, nem conseguia se quisesse. Ouvir aquela pergunta arrastou-o novamente para o fundo do poço. Respirou fundo e chorou novamente. Já não eram apenas lágrimas, era um todo corporal, trémulo, incapaz de manter a respiração tranquila.

 

Percebia-se que o cérebro de Murray estava a mil. Dezenas de combinações de palavras passavam-lhe pela mente naquele momento. Estava à procura da frase certa, sempre com a cabeça baixa. Percebeu-se que tinha aberto a boca para iniciar uma frase mas arrependeu-se. Perdeu coragem. E novamente o mesmo processo. Ganhou calma, recompôs-se, levantou a cabeça e, enquanto limpava novamente as lágrimas dos olhos, respondeu: «Sim, acho que essa é uma hipótese».

 

Não havia mais nada que pudesse fazer. Tudo o que tinha para dizer estava dito. As dores são insuportáveis e não sabe se conseguirá aguentar a jogar por mais quatro ou cinco meses. Mas não são apenas mais quatro ou cinco meses. São esses em cima de todos aqueles que já aguentou, sacrificando-se, com uma esperança, agora morta, de que havia um futuro diferente a aguardar.

 

Em janeiro do ano passado, o escocês foi submetido a uma cirurgia à anca que o afastou até junho. Foi uma época ainda mais curta do que o esperado porque fez apenas 14 jogos, provocando nova interrupção em setembro. O objetivo seria conseguir a melhor reabilitação possível com um especialista, mas não houve antídoto para as dores. Não havia nenhuma varinha mágica que o pudesse transformar novamente no homem que tem dois títulos olímpicos, três grand slams (dois deles em Wimbledon) e que foi número um mundial numa era particularmente difícil.

 

O corpo de Murray poderá nunca mais recuperar deste problema – uma segunda operação é uma hipótese mas as hipóteses de reabilitação total são escassas – e a mente do tenista terá uma grande ferida que só o tempo será capaz de sarar. Mas Andy Murray, enquanto figura ímpar do ténis, nunca será esquecido. Os problemas físicos podem ter-lhe tirado a carreira e a alegria nos courts mas o estatuto de lenda será sempre intocável.

A pior viagem da minha vida

Atlético Madrid-Málaga

Vou confessar-vos uma coisa. Sei que os azares existem mas ainda não houve uma viagem que tenha feito que me faça sentir que não voltasse a fazer. Nunca tive voos perdidos, nunca tive acidentes, nunca foi roubado e, apesar de já ter sido obrigado a ficar de fora de um voo de regresso, a compensação financeira… fez jus ao nome e ajudou a abrir espaço para outras viagens.

(Publicado originalmente em atlas de bolso)

 

Por tudo isto, não tenho sequer dúvida no momento de assinalar qual foi a pior viagem da minha vida. Foi em maio de 2014, em Madrid, para ir ver um jogo de futebol: o Atlético Madrid-Málaga. A equipa estava à beira de ser campeã e, como bom sócio (na altura ainda o era), decidi comprar dois bilhetes assim que venceram em Valência, duas semanas antes.

 

Se o Atlético cumprisse a sua parte, vencendo os próximos dois jogos – em Getafe e em casa com o Málaga -, seria campeão. Por isso, aquele jogo de 12 de maio era uma oportunidade única. Até porque qualquer outro desfecho atrasaria a decisão para a última jornada… no Camp Nou contra o Barcelona. Era pegar ou largar, parecia.

Vestidos a rigor

A estratégia estava delineada. Íamos de carro no sábado à hora de almoço, passávamos a noite num hotel – no dia em que a célebre Conchita Wurst venceu o Festival da Canção -, víamos o jogo e voltávamos à noite, pela madrugada dentro.

 

A viagem começou a correr mal antes mesmo de nos fazermos à estrada. O Atlético perdeu em Getafe e o plano tornou-se muito menos infalível. Real Madrid e Barcelona teriam uma palavra a dizer e as contas estavam muito mais complicadas. Ainda assim, naquele dia, tudo podia acontecer: “bastava” que o Atlético vencesse o Málaga e o Barcelona não ganhasse. Ou, num cenário ainda mais surreal, que o Atlético empatasse desde que Barcelona e Real Madrid perdessem.

 

A história parecia jogar contra o Atlético. Não era uma questão de karma, muito menos uma tendência para tudo correr mal quando parece estar ao alcance de um pequeno esforço. É acima de tudo uma grande ironia perceber onde está construído o Vicente Calderón.

 

A nascente, o Paseo de los Melancólicos, paredes-meias com as portas do estádio, batizado pelos moradores por ser um local triste e desolador, capaz de incitar à depressão – isto ainda antes de haver futebol. A poente, o cemitério de San Isidro, que apesar de estar do outro lado do rio é facilmente identificável das bancadas do estádio do Atlético Madrid.

 

O contexto aponta para tristeza e mortes, mas domingo era um dia que se queria de festejos. O Atlético estava a um pequeno passo de um título nacional que escapava desde 1996. O apito inicial estava marcado para as sete da tarde, mas às duas já ninguém conseguia escapar ao ambiente do jogo. O trânsito adensava-se e os lugares de estacionamento eram um bem precioso, o que nos obrigava a procurar a outra margem do rio. Não havia euforia. Não parecia um jogo do título. O estádio ia estar cheio e via-se muita gente com as camisolas do clube – muitas de Simeone e da época em que conquistaram o último título – mas não havia festejos.

Banda que animou as imediações do estádio

Afinal de contas estávamos na tal estrada da melancolia, sentados na sombra da bancada. A contagem decrescente era teimosa, mas uma banda improvisada ajudou a passar o tempo. Os acordes remetiam para alguns dos cânticos mais entoados pelos adeptos e estes respondiam à altura. Quando surgiu o hino, mesmo que com umas notas ao lado, não houve quem ficasse calado. O ritmo puxa por todos e a preparação para o refrão, em crescendo e a puxar por tons heróicos, é a apresentação perfeita para se soltar um “Atleti! Atleti! Atlético de Madrid” mesmo ali a poucos metros de nós e com um eco que aumentava a cada nova voz que se juntava.

 

Parecia capaz de acordar mortos e satisfazer melancólicos. Não havia euforia. Mas havia confiança, havia vontade de fazer história. Já dentro do estádio, o speaker repetia as mesmas indicações de dez em dez minutos: havia bandeiras para agitar, um minuto de silêncio para recordar as vítimas de um acidente em Badajoz e o hino para cantar, mais uma vez, mas sem a habitual música a sair dos altifalantes. E acabava com um confiante “Vamos fazer desta tarde uma tarde memorável!”

 

“Juega cada partido como si fuera el último”, lia-se nas bandeiras brancas e vermelhas que, quando agitadas pelas quatro bancadas do Vicente Calderón, transmitiam uma sensação de não haver uma única alma por ali que não tivesse o mesmo objetivo. Ali, naquele momento, o futebol era a duas cores: vermelho e branco. Na fila da frente, um casal de brasileiros, mais interessados em sentir os lábios um do outro do que em ver o jogo, não eram exceção, mesmo que as camisolas tivessem sido acabadas de comprar numa banca de produtos não oficiais e o patrocínio “Azerbaijan Land of Fire” se tivesse transformado em “Azerbayan Land Off Fire”.

Bancadas vestidas de vermelho e branco

Parecíamos estar numa página de um livro de “Onde está o Wally?”. Sim, toda a gente estava de vermelho e branco, vestida da mesma forma, mas quem é que era preciso encontrar? Quem era o Wally? Quem era o herói da vitória e do título? David Villa não foi. Mas poderia ter sido. Deu início a um festival de oportunidades falhadas – acertou na trave; mais tarde foi Willy Caballero, guarda-redes do Málaga, a negar o golo com grandes defesas para canto. Por todo o estádio havia profetas, não da desgraça, mas da euforia.

 

Eram os que tinham os ouvidos tapados por auscultadores que traziam as últimas novidades do Celta-Real Madrid e Elche-Barcelona. “1-0, golo do Celta”, ouviu-se, dando origem a alguns festejos contidos. Dois minutos depois, o estádio entra em erupção pela primeira vez. Num efeito visual a fazer lembrar a “hola mexicana” festeja-se como se o Elche tivesse acabado de marcar. Afinal, aquele momento provocado pela claque não era mais do que uma reação com atraso ao golo de Vigo.

 

O intervalo chegou com tudo a zeros: em Madrid, com domínio e melhores oportunidades, e no jogo do Barça. “Estão a dominar. O Elche está encostado lá atrás. Acho que não vão aguentar”, diz um homem idoso capaz de pensar que aquela poderia ser a última oportunidade para ver o Atlético campeão. O problema é que mesmo que o Elche aguente, é preciso marcar ali. Não está a ser fácil.

 

A segunda parte é imprópria para cardíacos. A expressão é muitas vezes usada com exagero mas naquele momento é isso mesmo. Os nervos aumentam – dentro e fora de campo – e as oportunidades falhadas levam ao desespero. O Elche até faz a parte dele mas quando o Málaga marca num contra-ataque o estádio cai num abismo. Por alguns segundos, não se ouve um sussurro (tirando um desabafo asneirento bem português que deixa dezenas de espanhóis a olhar para mim) até que, tímida e espontaneamente, voltam os gritos pela equipa.

 

O golo do empate chega apenas oito minutos depois e deixa o Vicente Calderón em estado de empolgamento máximo. Pelo meio, recordam o passado de glória e gritam por Luis Aragonés (três vezes campeão como jogador e uma como treinador), que morreu três meses antes. Logo a seguir, há novo “golo” do Elche festejado.

 

Por muito que se queira festejar, é impossível não procurar os tais profetas para confirmar. «Foi golo do Elche? Foi golo do Elche? Não? Não? Não!» Ainda assim, nada está perdido: “Vamos Atlético. Dez minutos e um golo para sermos campeões!” ouve-se mesmo atrás de nós.

 

Quando o Elche-Barcelona termina, faltam ainda dois minutos dos cinco de descontos em Madrid e está por acontecer o momento que por muito tempo continuará marcado na memória dos adeptos – Adrián recebe na esquerda, flete para o meio, procura o ângulo e... Caballero voa para mais uma defesa fantástica.

 

O fim do jogo é um balde de água fria depressivo. As bancadas despem-se e o Paseo de los Melancólicos enche-se de adeptos. Mas não há festa, não há troca de ideias, não há nada. Quando atravessamos a ponte, um casal mais velho assiste com pena à romaria depressiva. «É incrível. Não se ouve uma palavra. Tanta tristeza», desabafa a mulher. É o silêncio ensurdecedor de uma desilusão.

Paseo de los Melancólicos

Fim da história? Antes fosse. A caminho do carro, parámos num multibanco para levantar dinheiro e… a máquina engoliu o cartão. Perdemos mais de meia hora a contactar o banco – sem grande sucesso – e o regresso a Lisboa foi sendo cada vez mais adiado. Depois, já no meio do trânsito, completamente parado, um homem num carro em sentido contrário dirige-se a nós num tom aparentemente gozão.

 

“Isto não fica por aqui”, diz-me, uma semana antes do tal Barcelona-Atlético e a duas semanas da final da Liga dos Campeões em Lisboa com o Real. “Não fica não, que hoje só páro em Lisboa”, digo-lhe, perspetivando os mais de 600 quilómetros de viagem com o maior melão que o desporto já me proporcionou.

 

Foi a pior viagem, disso não há dúvida. A única atenuante foi mesmo o Atlético ter conseguido conquistar o título em Barcelona. Ainda assim, nunca me vou esquecer daquela madrugada de introspeção.

José Mourinho. O Toque de Midas invertido

José Mourinho e o seu estilo inconfundível

É difícil explicar a alguém sem memória do início do século XXI o que aconteceu com José Mourinho quando o técnico português deu os primeiros passos numa carreira a solo, depois de finalmente se libertar dos papéis de braço-direito de Robson e Van Gaal.

 

A atitude, método e garra foram apresentados no Benfica mas não houve tempo para aparecerem resultados concretos. Em Leiria, provou que tinha a lição bem estudada e, quando chegou ao FC Porto, deixou de haver dúvidas de que o treinador de Setúbal era, de facto, especial.

 

É aceitável dizer que a personalidade de Mourinho não mudou um centímetro desde aquele período. É legítimo dizer que o passar dos anos e os cabelos brancos tornaram-no mais amargo, mas a propensão para intervenções icónicas sempre esteve lá. A conferência de imprensa a arrasar Sabry, a promessa do título em condições normais – e anormais -, e a ameaça de que a eliminatória não estava fechada após a derrota nas Antas com o Panathinaikos compõem apenas o topo de uma pirâmide com vários andares.

 

Pode também parecer difícil compreender que José Mourinho chegou ao FC Porto no período mais difícil da presidência de Pinto da Costa. O clube preparava-se para perder o terceiro título consecutivo, uma figura como Jorge Costa tinha sido excluída por Octávio Machado e os resultados em campo não ajudavam.

 

O FC Porto de José Mourinho, futuro campeão sem discussão na mente do próprio, não era mais do que alguém a correr por fora e longe da pujança do final da década de 90. O primeiro verão trouxe novidades: Jorge Costa regressou do empréstimo ao Charlton, Maniche veio da equipa B do Benfica, Paulo Ferreira de Setúbal, Pedro Emanuel do Bessa e, mais importante, Nuno Valente e Derlei de Leiria.

 

Não foram as únicas contratações mas foram as mais importantes. Com um recrutamento exclusivamente nacional (fora o empréstimo) e com uma margem de erro elevada – jogar no FC Porto traz sempre uma exigência maior -, ninguém sabia exatamente o que esperar desta equipa.

 

Ninguém excepto Mourinho. Paulo Ferreira e Nuno Valente tornaram-se laterais de eleição (e seleção), Jorge Costa recuperou o estatuto ao lado de um Ricardo Carvalho em crescimento, e Maniche e Derlei foram pedras essenciais do meio-campo para a frente, tanto a atacar como a defender.

 

Foi aqui que nasceu o Toque de Midas. De terceiro classificado em 2002, garantindo a presença na UEFA apenas na última jornada, o FC Porto tornou-se a equipa mais forte de Portugal, sem discussão, e num grande candidato à conquista da Taça UEFA.

 

Fê-lo com base num grande investimento? Não. Fê-lo porque Mourinho pegou num punhado de jogadores de 8 ou 80 e pô-los a dar 100%, de potencial pleno, do início ao fim. Foi bicampeão, venceu a Taça UEFA, a Liga dos Campeões, uma Taça de Portugal, uma Supertaça e seguiu para Londres com o estatuto de grande sensação europeia.

 

Padrão de sucesso manteve-se até Milão

Mourinho foi dominador em Stamford Bridge

A realidade do Chelsea era diferente da do Porto mas a ideia subjacente era a mesma: os blues queriam muito um campeonato que fugia desde a década de 50. A jogar por fora, e agora já com um investimento contundente, Mourinho foi fiel ao seu padrão de sucesso.

 

Com ele ao comando, os jogadores pareciam dar sempre mais do que valiam no mercado. Eram especiais, reagiam positivamente aos estímulos e davam à vida por ele se preciso. A ligação entre grupo e treinador era importante e nada parecia pôr isso em risco.

 

Mourinho apostava forte, não recuava e parecia ganhar sempre. A cada afirmação arrogante, o resultado seguinte confirmava que afinal podia ser apenas realista. A postura provocadora ganhou inimigos em Inglaterra mas o bicampeonato pelo Chelsea, apesar de falhar na Europa, serviu para aumentar a sua aura.

 

O início do fim no Chelsea deu-se com as contratações de Ballack e Shevchenko em 2006. Foram recebidas com estranheza. Não pelos montantes de investimento, mas porque não encaixavam na lógica de jogadores que precisavam de ser potenciados porque não estavam a ser devidamente aproveitados. O alemão e o ucraniano tinham uma carreira sonante, de resultados feitos, e não se deram bem com Mourinho.

 

Este foi o primeiro grande sinal: Mourinho tem um problema com jogadores conceituados. A forma como lida com eles é diferente da forma como lida com alguém que tem algo a perder. E a resposta que dão em campo também é radicalmente diferente, até porque estes não estão dispostos a ouvir da mesma forma.

 

No desafio seguinte, em Itália, voltou a assumir o comando de uma equipa que tinha um desafio claro de outsider: não a nível doméstico, onde os títulos pareciam ser uma condição normal, mas sim na Europa, onde a obsessão passava por recuperar a dimensão da década de 60, voltando a ganhar um título europeu.

 

Explorando jogadores como Milito, Eto’o, Zanetti e Sneijder, o Inter cumpriu a profecia na segunda temporada, abrindo caminho para José Mourinho largar Itália e rumar a Espanha para liderar o Real Madrid. Aqui, como em Milão, o objetivo era a glória europeia. Aqui, ao contrário de San Siro, não tinha um grupo de jogadores desejosos de encontrar um líder autoritário. E havia um super Barcelona.

 

Algo aconteceu pelo caminho

Mourinho com Casillas em Madrid

Não é fácil indicar exatamente onde é que o Toque de Midas de Mourinho ficou. Algures pelo caminho, o treinador português deixou de ser alguém capaz de potenciar jogadores e passou a ser alguém com dificuldade para tirar o máximo de cada um que tinha à disposição.

 

A passagem pelo Real Madrid pode ser vista como um fracasso. Sim, a equipa avançou até às meias-finais da Liga dos Campeões, algo que não acontecia há quase uma década, mas o objetivo não era ver a glória, mas sim alcançá-la. E a nível interno o título de 2012, por muito fantástico que tenha sido, não foi suficiente para inverter a tendência de subjugação ao Barcelona e aos ideais de Guardiola.

 

Os desafios seguintes no Chelsea e no Manchester United acentuaram esta tendência, apesar da Premier League e da Liga Europa no currículo. Em 2004, ao sair do FC Porto, ninguém acreditaria que Mourinho fosse capaz de, um dia, desperdiçar os talentos de De Bruyne e Salah, por exemplo. Ou ser incapaz de garantir um relacionamento saudável com Pogba para que o rendimento em campo fosse incomparavelmente maior.

 

Mourinho perdeu-se no meio dos seus demónios. Perdeu critério, ficou sem capacidade de entender um plantel e saber que um jogador com 20, 21, 22 anos em 2018 já não é igual ao que era em 2002. Hoje, Mourinho é uma sombra do que foi e o futuro é visto como uma grande incógnita, tanto para os que gostam dele como para os que nunca se renderam.

 

O futebol andou a uma velocidade muito mais alta do que Mourinho foi capaz de evoluir. A personalidade cativante do passado, onde cada declaração mais audaz era correspondida por um resultado do mesmo nível, foi substituída por um perfil amargurado com afirmações despropositadas, e tristes por já nunca definirem a realidade.

 

O próximo passo de Mourinho será difícil. O seu perfil de treinador está a perder adeptos um pouco por toda a Europa ao ponto de se pensar que mesmo para o Benfica não seria uma boa opção. Hoje, Mourinho é sinónimo de um treinador que exige milhões em reforços mas que depois é incapaz de os aproveitar.

 

Haverá quem continue a querer arriscar? Talvez, afinal a marca Mourinho ainda é sonante e capaz de convencer milionários que não esquecem o que o português já foi. Mas não haja dúvidas: Mourinho não é mais do que uma sombra triste do que foi no passado. E isso deixa-nos a todos nós, adeptos do futebol e da transformação que operou no início do século XXI, desiludidos.

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