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É Desporto

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O sucesso da regeneração do futebol inglês

Liverpool na final da Taça dos Campeões Europeus em 1984

Venceram o título em seis edições consecutivas da Taça dos Campeões Europeus e conquistaram 14 de 48 troféus europeus possíveis em década e meia. Num período em que o futebol inglês passeava na Europa, a tragédia de Heysel e a crise interna potenciaram o hooliganismo, a perda de qualidade e o desinteresse dos espetadores. O caminho de volta ao topo foi tortuoso mas o regresso triunfal às competições europeias, culminado com o título do Manchester United na Taça das Taças, e as negociações para a criação da Premier League estabeleceram as raízes do caso de regeneração de maior sucesso na história do desporto europeu.

 

A hegemonia do futebol inglês na Europa

 

Nunca um país teve um período tão brilhante no futebol europeu como a Inglaterra entre 1975 e 1985. Neste período de onze temporadas, as equipas inglesas só não estiveram na final da Taça dos Campeões Europeus em duas edições: 1976 e 1983.

 

A Europa ainda não tinha visto nada assim, nem voltaria a ver. Sim, a prova começou com o domínio espanhol, com seis títulos do Real Madrid e nove finais espanholas em onze edições, mas oito delas foram com os merengues. Foi o sucesso de um clube, ajudado pelo Barcelona em 1961, e não do país em si.

 

O mesmo se passou com o virar para a década de 1970. Depois dos quatro títulos holandeses, iniciados pelo Feyenoord mas catapultados pela hegemonia do Ajax de Cruiijff (1971-1973), chegou a era de Beckenbauer, com o tricampeonato do Bayern Munique (1974-1976). Foi precisamente nesta altura que os clubes ingleses apareceram, sem dar hipótese à concorrência.

 

O ponto de partida foi dado pelo Leeds, com a final perdida em 1975, mas o pilar do sucesso foi o Liverpool, campeão em 1977, 1978, 1981 e 1984, e finalista vencido em 1985. Mas também o Nottingham Forest (1979 e 1980) e o Aston Villa (1982) contribuíram para esta fase hegemónica.

 

O futebol inglês ao nível de clubes vivia o seu melhor momento de sempre. Até à tal final do Leeds, o país só tinha uma final, com o Manchester United em 1968. Depois, de repente, tudo mudou. Inspirados nos modelos de treinadores como Bob Paisley e Brian Clough, os ingleses provaram de facto – possivelmente pela primeira vez – que estavam à frente do futebol mundial.

 

Nas competições de segunda linha europeia, o sucesso até tinha chegado logo no início da década. Manchester City (1970) e Chelsea (1971) haviam vencido a Taça das Taças, enquanto na Taça UEFA o domínio tinha sido plantado com os troféus de Tottenham (1972) e Liverpool (1973), sendo depois continuado pelo próprio Liverpool (1976), pelo Ipswich Town de Bobby Robson (1981) e pelo Tottenham (1984). Na elite do futebol, na Taça dos Campeões Europeus, os seis títulos consecutivos constituíram um novo recorde que ainda hoje não foi alcançado – poderá ser igualado em 2019 se um clube espanhol voltar a conquistar a Liga dos Campeões.

 

Os triunfos eram sobretudo coletivos. Um inglês – Kevin Keegan – até conseguiu fazer uma dobradinha de Bolas de Ouro (1978 e 1979) mas só aconteceu depois de ter abandonado o Liverpool rumo a Hamburgo. Nas provas por seleções, contudo, o sucesso inglês era uma miragem. A Inglaterra falhou as fases finais dos Mundiais de 1974 e 1978 e não conseguiu atingir as meias-finais em 1982. Nos Campeonatos da Europa, os fracassos também foram consecutivos: fora do Euro-1972, do Euro-1976 e do Euro-1984 e eliminada na fase de grupos do Euro-1980.

 

Entre 1970 e 1985, o futebol inglês conquistou 14 de 48 troféus possíveis. Não era apenas um acaso: o domínio era claro e havia pelo menos uma conquista a cada quatro finais disputadas. Parecia que só uma tragédia poderia desviar este comboio que seguia a todo o vapor.

 

A tragédia de Heysel e a travessia no deserto

Confrontos provocaram 39 mortos e 600 feridos

Os fins das hegemonias nem sempre são fáceis de definir. Por vezes, há pequenas réplicas que surgem pouco tempo depois que são de difícil enquadramento e não se consegue perceber se são de facto um novo ponto ou apenas o último sinal do anterior. No caso do poder do futebol inglês na UEFA, não há sequer dúvida: a hegemonia morreu na Bélgica, no Heysel Stadium, a 29 de maio de 1985. E, com ela, morreram também 39 pessoas.

 

O Liverpool estava na sua quinta final em nove temporadas e defrontava a Juventus de Michel Platini. Os reds, orientados por Joe Fagan, tinham deixado Lech Poznan, Benfica, Austria Viena e Panathinaikos pelo caminho e eram os campeões em título. Era o Liverpool de Ian Rush e Kenny Dalglish. Do outro lado, estava uma equipa que já os tinha derrotado na final da Supertaça Europeia quatro meses antes (2-0) e que contava ainda com Boniek e Rossi.

 

A Vecchia Signora voltou a levar a melhor, com um golo de penálti convertido por Platini, mas o desfecho do jogo pouco importou. Ainda antes do pontapé de saída, um grupo de adeptos do Liverpool desencadeou uma cena de pancadaria ao invadir uma zona exclusiva de adeptos da Juventus, provocando o pânico e o colapso de um muro do estádio de Bruxelas. A confusão provocou a morte de 39 pessoas e ferimentos a outras 600. A tragédia não impediu, porém, que o jogo se desenrolasse: apenas o atrasou por uma hora.

 

A derrota do Liverpool pode não ter sido mais do que karma instantâneo mas a mão pesada da UEFA ia ser o grande destaque daquela final. Ninguém perdoou aos adeptos do Liverpool o que tinha acontecido e o organismo tomou medidas, já depois de a própria Margaret Thatcher, primeira-ministra à altura, ter pressionado a federação inglesa a retirar os clubes das competições internacionais. A UEFA não precisou de idêntica recomendação para, dois dias depois, banir as equipas inglesas por um «período indeterminado de tempo». A exclusão acabou por ser de cinco temporadas – entre 1985/1986 e 1989/1990 – com o Liverpool a sofrer uma época extra de «brinde».

 

Não se pode analisar o que se passava nesta altura no futebol britânico sem perceber o contexto político e social deste período. A Inglaterra vivia um período de forte recessão e, para tentar superar a crise, Thatcher aumentou os impostos e cortou na despesa pública. O descontentamento social aumentou, as greves dos mineiros foram um dos momentos mais quentes da década, e o número de desempregados chegou a ultrapassar os três milhões de pessoas.

 

O futebol era o local onde os ingleses descarregavam as frustrações. A violência e o hooliganismo aumentou e o adeus às provas da UEFA só ajudou a aumentar o desinteresse pelas equipas. Não era apenas o país que estava em crise: era também a sua modalidade mais sagrada. Os clubes não tinham dinheiro para investir, os adeptos não tinham dinheiro para comprar bilhetes e os bons jogadores preferiam ir para o estrangeiro. A espiral de decadência do futebol inglês surgia em contraciclo com a recuperação de campeonatos como o espanhol e, sobretudo, o italiano.

 

Era obrigatório encontrar uma solução antes que fosse demasiado tarde.

 

O regresso triunfal dos ingleses à UEFA

Manchester United venceu a Taça das Taças em 1991

A temporada de 1990/91 marcou o regresso dos clubes ingleses às competições europeias. Numa altura em que as sementes para o brilhante futuro do campeonato inglês já estavam a ser lançadas, o Manchester United liderou o regresso da armada britânica na UEFA.

 

O Liverpool deveria ter sido o representante inglês na Taça dos Campeões Europeus, fruto do título (o último até hoje) no campeonato em 1990, mas como a exclusão se manteve para os reds por mais um ano, não houve qualquer equipa inglesa na competição mais importante.

 

O mesmo não se pode dizer da Taça UEFA (Aston Villa) e da Taça das Taças (Manchester United). O regresso à ribalta fez-se sem grande estrondo: a Inglaterra tinha perdido o seu estatuto e só tinha direito a apurar uma equipa para a Taça UEFA, distante das quatro da RFA, da Itália e da Espanha, e das três da Bélgica, Holanda, Portugal, Roménia e União Soviética.

 

O Aston Villa, campeão europeu há menos de dez anos, ultrapassou o Banik Ostrava da Checoslováquia sem problema na primeira ronda mas embateu no futuro campeão Inter à segunda ronda. Os golos de Kent Nielson e David Platt até deram vantagem na primeira mão (2-0), mas tudo foi diferente em Itália, com Klinsmann, Berti e Bianchi a marcarem no Giuseppe Meazza (3-0).

 

Por esta altura, no início de novembro de 1990, o Manchester United seguia de vento em popa na Taça das Taças. Os húngaros do Pecsi Mecsek tinham ficado pelo caminho (2-0 e 1-0), tal como os galeses do Wrexham (3-0 e 2-0).

 

Estes eram os red devils de Alex Ferguson e tinham um plantel com nomes experientes como Steve Bruce, Gary Pallister, Bryan Robson, Denis Irwin, Mark Hughes e Brian McClair. Da brilhante fornada que marcaria a década, apenas Ryan Giggs fazia parte do plantel, embora não tenha disputado qualquer minuto na UEFA.

 

O ano mudou de 1990 para 1991 e, em março, o Manchester United estava nos quartos de final, juntamente com Juventus, Barcelona, Dínamo Kiev, Sampdoria, Montpellier, Legia Varsóvia e Liège. Os franceses assustaram ao empatar em Old Trafford, mas o jogo da segunda mão foi resolvido facilmente com golos de Clayton Blackmore e Steve Bruce.

 

Depois, nas meias-finais, o Legia Varsóvia não chegou sequer a importunar. No ano de regresso dos clubes ingleses às competições europeias, o Manchester United ia estar na final… contra as primeiras raízes da Dream Team de Johann Cruijff no Barcelona.

 

Em Roterdão, a 15 de maio de 1991, o Manchester United fechou com a chave de ouro o princípio deste novo capítulo. Mark Hughes bisou (67’ e 74’), tornando irrelevante o golo de Ronald Koeman aos 79 minutos. Seis anos depois de Heysel, os ingleses tinham finalmente um motivo para festejar. O futuro era promissor mas ainda era preciso arrumar a casa na ilha.

 

As sementes da Premier League ganham vida

Eric Cantona marcou o primeiro hat-trick da Premier League

O regresso das equipas inglesas às competições europeias coincidiu com o trabalho de reorganização do futebol nacional. O país estava a soltar-se das amarras da recessão, os episódios de violência diminuíam, a segurança nos estádios aumentava e a presença na meia-final do Mundial em 1990 servia de importante tónico para avançar com a reestruturação.

 

Havia um produto de sucesso, como o passado já o tinha tão bem demonstrado, mas era preciso adaptá-lo a uma nova realidade, potenciando-o e, com isso, garantindo o futuro do projeto. Basicamente, seria algo em que todos sairiam a vencer e ninguém poderia perder.

 

Tudo girou à volta de dinheiro, claro está. Mas com o dinheiro aumentava a projeção, aumentava a segurança, aumentava a qualidade dos jogadores recrutados e, como consequência natural, do produto apresentado. Foi este o momento em que se percebeu a relevância dos direitos televisivos. Se o produto ia ser de topo, não havia razão para privar milhões de pessoas – em Inglaterra e no estrangeiro – de o ver. O futebol continuaria a ser um desporto para estádios cheios, vibrantes e dinâmicos, mas o passo fulcral viria acompanhado da caixinha mágica.

 

Arsenal, Everton, Liverpool, Manchester United e Tottenham foram os representantes naturais das reuniões. Eram as equipas mais atrativas de Inglaterra, tinham um total de 45 títulos conquistados e moviam o maior número de adeptos.

 

A estratégia televisiva do produto era clara: melhores equipas com mais adeptos geram mais interesse do que as outras. Este foi o ponto de partida fundamental para a criação da Premier League. Os big five eram o conteúdo premium, faltava agora definir o que acontecia com o resto.

 

A relação distante entre a Federação Inglesa de Futebol e a Liga Inglesa foi o trunfo utilizado pelos promotores da Premier League. Com o apoio da primeira, a segunda não teria capacidade para resistir. A criação de uma nova competição, moldada pelos interesses televisivos e por milhões de libras a alimentar as ambições dos clubes, seria uma realidade.

 

Por isso, em maio de 1992, o projeto saiu finalmente do papel e deu origem à criação formal da Premier League. A partir da temporada seguinte, o campeonato ia ser mais profissional, arrancando com um total de 24 equipas. O Manchester United somou o primeiro título da história da competição, dando também o mote para aquilo que seria o (des)equilíbrio de forças para as décadas seguintes.

 

De violento e perigoso, o futebol inglês passou a ser vibrante e atrativo. Os talentos nacionais deixaram de pensar em emigrar e os melhores jogadores estrangeiros começaram a olhar para a Premier League com outros olhos.

 

A violência desaparecera. Os estádios nunca mais voltaram a estar vazios. O fluxo de chegada de treinadores e estrangeiros moldou o futebol inglês para o tornar no campeonato mais interessante do mundo. A hegemonia europeia nunca mais foi recuperada – em 26 anos, as equipas inglesas só foram campeãs europeias quatro vezes (Manchester United em 1999 e 2008, Liverpool em 2005 e Chelsea em 2012) - mas o produto interno tem tanta qualidade que esse chega quase a ser visto como um assunto periférico.

 

As equipas têm rendimentos de centenas de milhões de euros – mesmo as que lutam pela permanência – e não ficam em nada atrás dos antigos rivais espanhóis e italianos. E se a Juventus teve um papel fulcral no fim da hegemonia inglesa na década de 80, também é indesmentível que nenhum outro campeonato decresceu tanto na qualidade nos últimos vinte anos como o italiano.

 

Com violência, casos de racismo e uma hegemonia interna pouco saudável, é em Itália que se está à procura de uma salvação agora. O modelo inglês teve sucesso mas dificilmente será aplicado da mesma forma por ares transalpinos. Os tempos são outros e é preciso fazer alguma coisa… se é que há realmente alguma coisa a fazer.

Shota Arveladze. O goleador que pôs a Geórgia no mapa

Shota Arveladze

Para verdadeiramente compreender o impacto que Shota Arveladze teve no futebol georgiano e europeu é preciso contextualizar o tempo em que viveu. Nascido em 1973, entrou na idade adulta praticamente em cima do desmembramento da União Soviética e num período em que o futebol ainda era fechado a futebolistas estrangeiros.

 

Só os melhores singravam. A procura era grande mas só os privilegiados conseguiam ter um lugar nas grandes equipas europeias. Não é por acaso que ainda hoje há eras que ainda são recordadas como “os holandeses do Milan”, por causa de Gullit, Rijkaard e Van Basten, ou “os alemães do Inter, por causa de Matthäus, Brehme e Klinsmann.

 

A Geórgia era um país muito fechado ao mundo mas começou a dar talentos ao futebol europeu que, à conta de nomes esquisitos e facilmente memoráveis, foram ficando no imaginário de milhões de adeptos. Houve Temur Ketsbaia (nascido em 1968), houve Giorgi Kinkladze (1973) e, mais tarde, Giorgi Demetradze (1976). Mas talvez nenhum tenha deixado uma imagem tão marca durante a década de 90 do que Shota Arveladze.

 

Dínamo Tbilisi como embrião comum

 

A Geórgia nunca foi a república soviética socialista com mais sucesso no futebol mas desde cedo que o Dínamo da capital se impôs no panorama do futebol nacional e europeu. Com dois campeonatos soviéticos (1964 e 1978) e duas taças (1976 e 1979), o Dínamo também deu cartas na Europa ao vencer a Taça das Taças e 1981 (2-1 vs. Carl Zeiss Jena na final).

 

Quando a Geórgia passou a ter um campeonato próprio, não houve dúvida de que a equipa iria desfilar a sua qualidade. O palmarés é esmagador: o Dínamo começou por ser campeão em 1990, ainda sem Shota Arveladze, e somou títulos consecutivos até 1999. Em 2000, a hegemonia foi furada pelo Torpedo Kutaisi.

 

Shota Arveladze foi um produto da formação da equipa e estreou-se pelo plantel principal e 1991, com três golos em sete jogos. Daí evoluiu para 22 em 30 em 1992 e nunca mais perdeu a veia goleadora. Em 1993/94, no primeiro jogo de uma equipa a representar a federação georgiana de futebol, Arveladze entrou na história ao marcar o primeiro golo, na Irlanda da Norte, frente ao Linfield. Foi insuficiente para seguir em frente mas a história estava feita.

 

A veia concretizadora começou a chamar a atenção dos clubes estrangeiros e o Trabzonspor ganhou a corrida. Só era preciso atravessar uma fronteira e a viagem de carro não chegava aos 600 quilómetros, mas foi o primeiro grande passo rumo a uma dimensão europeia de um jogador com golos no sangue.

 

Um estrangeiro à conquista da Turquia

Os gémeos Arveladze

«Tinha o sonho de jogar num grande campeonato. Era uma aposta muito grande e não podia errar. O campeonato turco tinha muito dinheiro, com treinadores como Carlos Alberto Parreira, Leo Beenhaker e Graeme Souness. Era por isso que a Turquia era um bom país para servir de trampolim», escreveu Arveladze na sua autobiografia «Yesterday», sobre a mudança para o campeonato turco em 1994/1995, já depois de ter dividido a época anteriores entre Tbilisi e Trebizonda, por empréstimo.

 

E, claro, havia um fator extra: o irmão gémeo Archil tinha trocado o Dínamo pelo Trabzonspor um ano antes e era mais um fator a correr a favor da mudança de ares.

 

Os 19 golos em 22 jogos ao serviço do Trabzonspor fizeram os dirigentes turcos avançar para a contratação em definitivo. «Estava adaptado e a Turquia esperava por mim. Foi muito bom mas ainda havia assuntos a tratar. Era preciso que aceitassem pagar o que o Dínamo estava a pedir», disse.

 

O resto da época correu na perfeição. Arveladze era um herói entre os adeptos, marcou 18 golos em 23 jogos e ajudou a equipa a vencer a Taça da Turquia com dois golos ao Galatasaray na final a duas mãos. «A cidade esperava por este triunfo há muito e ninguém dormiu à noite. Este sucesso fez-me sentir ainda mais confiante nas minhas capacidades.»

 

O talento para o golo construiu uma narrativa paralela à sede pelo título: os adeptos queriam que Shota Arveladze fosse o melhor marcador do campeonato. E o avançado fez questão de abraçar esse repto com uma adenda: nenhum golo seria de penálti.

 

Com Arveladze, o Trabzonspor era uma equipa especial, diferente, com futebol espetacular e golos. Os 25 no campeonato garantiram a promessa mas não foram suficientes para evitar a perda do título para o Fenerbahçe, com mais dois pontos. Memoráveis foram os 112 golos da equipa em toda a temporada e a série inédita de 14 triunfos consecutivos.

 

O Deportivo entrou em cena no final da temporada. A oferta para jogar ao lado de Bebeto era tentadora mas a família falou mais alto. Archil tinha uma lesão grave estava sem jogar há meses. Shota podia seguir para um campeonato muito competitivo mas não teve dúvidas.

 

«O Archil ir comigo não era uma opção para o Deportivo, uma vez que ia estar mais quatro ou cinco meses sem jogar. Tentei explicar-lhes que aquilo era importante para mim. As negociações duraram dez horas e decidi recusar. Sabia que se me fosse embora, o Trabzonspor deixaria de pagar ao meu irmão e ele teria de continuar a recuperação em Tbilisi, o que seria mau para a carreira dele. Acredito que ele teria feito o mesmo por mim: nunca poria a minha carreira à frente do meu irmão», escreveu.

 

O fim na Turquia e um sonho chamado Ajax

Shota Arveladze

O cenário de rosas na Turquia não demorou muito a mudar de figurino. O Trabzonspor mergulhou numa crise financeira, a qualidade da equipa diminuiu e o futuro de Shota Arveladze tornou-se uma incógnita gigantesca que o atirou para uma crise de confiança.

 

Marcou apenas nove golos no campeonato em 27 jogos (16/37 em todas as competições) e todos os dias se perguntava onde continuaria a jogar. Quando saíra da Geórgia, sabia que não tinha margem para errar e que tinha de fazer as escolhas certas. Agora, menos de um ano de ter dito que não ao Deportivo, sentia-se num limbo sem opção, sem salários e com uma mulher grávida.

 

E, depois, surgiu o Ajax. «Algo que seria impensável tornou-se realidade para mim. Ia fazer parte do topo do futebol europeu e mundial», disse. Antes de seguir viagem para Amesterdão, aconselhou-se com o presidente da federação georgiana de futebol: «Não te limites a ir para a equipa, não ajas como um convidado, faz de conta que já lá jogas há muito tempo».

 

Era o verão de 1997 e o Ajax ainda vivia na ressaca do título europeu de 1995 e da final de 1996, perdida para a Juventus. Aquela equipa era uma parada de estrelas: tinha Van der Sar, os irmãos De Boer, Danny Blind, o português Dani, Michael Laudrup, Sunday Oliseh, Richard Witschge, Jari Litmanen e, a partir daquele momento, Shota Arveladze.

 

O cenário encontrado foi radicalmente diferente. «Sempre fui um apaixonado pelo treino. Ali, os exercícios eram como jogos, a tensão e a concentração eram exatamente iguais». Para Shota, a adaptação não foi simples e queria poder jogar todos os jogos.

 

As primeiras semanas podem ter sido difíceis mas o balanço da primeira época ajudou a cristalizar o legado de Arveladze no futebol europeu. «Marquei 37 golos em 44 jogos e desempenhei um papel crucial no sucesso da equipa», lembrou, referindo-se à dobradinha na Holanda.

 

«Milhares de adeptos cantaram o meu nome quando voltámos a Amesterdão depois do 5-0 ao PSV na final da Taça. É uma sensação fantástica, senti-me como um dos heróis com tantos gritos aplausos e celebração. Foi um sonho concretizado», disse.

 

No ano seguinte, Arveladze jogou ao lado daquele que diz ser o melhor jogador georgiano da história: Giorgi Kinkladze. «Se dez anos antes alguém dissesse que íamos jogar juntos no Ajax, provavelmente seriam vistos como malucos», brincou.

 

Os dois foram vistos como heróis. Eram dois georgianos a jogar no Ajax, campeão nacional, e na Liga dos Campeões. Eram ícones, modelos a seguir. «Gostei de fazer com que os europeus pudessem ver que os georgianos podiam fazer milagres num campo de futebol», escreveu na autobiografia.

 

Os anos seguintes não conseguiram confirmar o momento glorioso da época de estreia. Morten Olsen foi demitido do cargo de treinador depois da derrota nas Antas com o FC Porto e até 2001, Arveladze só venceu mais um título: a Taça em 1999. Pior do que isso, só por uma vez voltou a marcar mais de dez golos.

 

Rangers e o regresso à Holanda

Shota Arveladze

O balão de oxigénio foi ficando cada vez mais curto e a solução foi procurar um novo desafio. O Rangers, onde estava o grande amigo Ronald de Boer – talvez fosse uma relação especial entre gémeos – surgiu como opção e, mais uma vez, Shota fez o que melhor sabia fazer: marcar golos.

 

Em quatro temporadas, até 2004/05, somou 57 golos em 132 encontros e conquistou cinco títulos (dois campeonatos escoceses). Por esta altura, o seu nome já era um dos mais marcantes do futebol europeu.

 

O futebol georgiano estava mais famoso, graças a Kaladze, mas Arveladze continuava a ser a fiel referência de uma era em que as seleções mais desconhecidas eram famosas por um, dois jogadores no máximo. Arveladze era o caso mais claro disso.

 

Golos, golos e mais golos foram o seu cartão de visita por onde quer que tenha passado e os dois últimos anos de alto nível, já depois de ter regressado à Holanda para representar o AZ Alkmaar, foram a prova disso, com 48 golos em 89 jogos.

 

O fim da carreira marcou um objetivo antigo: o futebol espanhol. Mais de dez anos depois de ter dito não ao Deportivo, Shota Arveladze aceitou uma proposta do Levante e representou a equipa em 2007/08 em apenas quatro jogos… sem marcar. Foi um final triste que não mancha em nada a dimensão gigantesca de um nome como o de Shota Arveladze.

 

Até porque os recordes continuam por bater. Com 26 golos (61 jogos), Shota continua a ser o maior goleador na história do país.

Ron Atkinson. O último treinador em Old Trafford sem a sombra de Ferguson

Ron Atkinson

Alex Ferguson fez um total de 1500 jogos pelo Manchester United. O clube de Old Trafford não começou – nem acabou – com o treinador escocês mas, na era do futebol moderno, os dois nomes confundem-se devido ao legado que deixou durante os praticamente 27 anos em que esteve à frente do clube.

 

Desde que decidiu pôr um ponto final na careira, os red devils têm somado apostas furadas. Entre David Moyes, Louis Van Gaal, José Mourinho e um interino Ryan Giggs, já houve 302 jogos. O clube conquistou cinco títulos – a Liga Europa em destaque – mas não voltou a ser campeão. A sombra de Ferguson não dá sinais de desaparecer perante um futuro com uma incógnita tão grande.

 

É uma boa altura para recuar até junho de 1981, mês em que foi anunciado o último treinador na história do Manchester United que não teve de lidar, por motivos óbvios, com a sombra de Alex Ferguson a pairar sob Old Trafford. Chamava-se Ron Atkinson, vinha de um excelente trabalho no West Bromwich Albion e chegava a um clube que tinha conquistado apenas três títulos desde o período áureo de Matt Busby, doze anos antes.

 

Matt Busby foi o Alex Ferguson da sua era. Também era escocês e esteve praticamente 24 anos ininterruptos ao serviço do clube, entre outubro de 1945 e junho de 1969, período no qual orientou o clube em 1120 jogos, formou os famosos «Busby Babes» e arrecadou 13 títulos, com a Taça dos Campeões Europeus conquistada contra o Benfica em maior destaque.

 

A sua saída gerou um efeito semelhante ao provocado por Ferguson. Entre 1969 e 1981, o Manchester United teve seis treinadores diferentes (um deles foi o próprio Busby, que voltou para fazer a segunda metade da época em 1970/1971) e não conseguiu reencontrar-se com a glória.

 

O objetivo com a contratação de Ron Atkinson foi claro: capitalizar os bons resultados que o inglês tinha conseguido ao serviço do WBA e concretizar a estratégia de aproximação ao topo que o Manchester United vinha a ameaçar nos anos mais recentes.

 

Depois de uma época no inferno do segundo escalão, o United tinha regressado em 1975 e em 1980 tinha terminado a temporada no segundo lugar, a apenas dois pontos do campeão Liverpool. Depois do oitavo lugar na temporada seguinte, Dave Sexton foi-se embora e deu lugar a Ron Atkinson.

 

A experiência do sucessor falava por si. Tinha 42 anos e três anos de experiência no primeiro escalão com resultados significativos. Na estreia, fora terceiro e chegara aos quartos de final da Taça UEFA. Na despedida, terminou no quarto lugar, garantindo nova presença europeia.

 

Um homem do banco

Ron Atkinson no seu escritório

Ron Atkinson tinha crescido em Liverpool e nunca fora um jogador fora-de-série. Depois de ter feito os escalões de formação no Wolverhampton, teve uma passagem sem glória pelo Aston Villa antes de fazer toda a carreira efetiva ao serviço do Oxford United, longe dos grandes palcos.

 

Antes de chegar ao West Bromwich Albion, levava sete anos de experiência como técnico: três pelo Kettering Town e quatro pelo Cambridge United. O salto do WBA para o Manchester United foi o maior da carreira, mesmo que na altura a ambição em Old Trafford fosse muito maior do que a realidade conseguia oferecer.

 

O Manchester United não era o que é hoje. Tinha tido uma era gloriosa com Matt Busby mas não passava disso: uma era que tinha chegado e passado sem que houvesse grande sustentação. Em 1981, tinha sete títulos de campeão, tantos como o Aston Villa e o Everton, menos um do que o Arsenal e menos cinco do que o Liverpool, o verdadeiro “grande” inglês daquela época.

 

A pressão, por assim dizer, era diferente. «As pessoas diziam-me que eu devia estar muito nervoso. Mas não. Se não quisesse o trabalho, não o teria aceitado. É algo para onde vamos e aproveitamos. Nunca achei que fosse um crime desfrutar do que estava a fazer e acho que isso também se refletiu nos jogadores. Gostava de ir trabalhar todos os dias», disse.

Ron Atkinson com Alex Ferguson num jogo de homenagem

Atkinson acabou por fazer 292 jogos à frente da equipa, até abrir caminho para Alex Ferguson em novembro de 1986. Durante aquele período, venceu duas Taças de Inglaterra, uma Supertaça inglesa e chegou longe na Europa em anos consecutivos: em 1984 caiu nas meias-finais da Taça das Taças frente à Juventus de Platini e em 1985 chegou aos quartos de final da Taça UEFA, perdendo contra os futuros finalistas do Videoton no desempate por penáltis.

 

Foi insuficiente para cumprir a ambição da direção mas não deixou de lançar algumas sementes para a reaproximação do clube ao estrelato que desejava. Trouxe Bryan Robson com ele do WBA, um jogador que viria a ser fundamental no início da era de Ferguson, e ameaçou o título várias vezes, apesar de nunca ter feito melhor do que o terceiro lugar.

 

Nas seis temporadas completas que cumpriu, nunca ficou abaixo do quarto lugar, algo que só tinha acontecido uma vez na história do clube… com Matt Busby. A falta do título, aliada à incapacidade de manter a consistência durante a temporada, vacilando perante a pressão imposta pelas recuperações do Liverpool, foi o ingrediente fatal na sua ligação ao Manchester United.

 

Ron Atkinson não deixou de ser especial. Foi o último treinador na história do clube a não ter de lidar com a sombra de Alex Ferguson a pairar sobre tudo o que fazia. A de Matt Busby já tinha desvanecido e a fasquia estava mais baixa. Com Moyes, Van Gaal e Mourinho, a comparação era inalcançável e o clube ameaça uma travessia semelhante à do período pós-Busby.

Uma ode a Bobby Robson

Bobby Robson

Como é que se explica Bobby Robson a alguém que não conhece uma dimensão de futebol diferente da atual? A alguém que acha que o futebol é um mundo de trincheiras, em que o elogio alheio é um primeiro passo para um crime de lesa pátria e que o cavalheirismo e fair-play não só levam a um ambiente mais saudável como não prejudicam em nada os objetivos do próprio clube ou os limites da rivalidade?

 

Bobby Robson era, até literalmente, um Sir. Era um cavalheiro, um homem que chegou a Portugal com 59 anos e mesmo assim conseguiu ser uma lufada de ar fresco. Bobby Robson é um sinónimo do futebol genuíno, sobretudo para mim, que tinha apenas sete anos quando o britânico que fugia ao estereótipo chegou a Alvalade.

 

É difícil para mim pensar numa era de futebol português mais antiga do que com Bobby Robson no Sporting, Carlos Alberto Silva no FC Porto e Toni no Benfica. Tenho memórias mais antigas de futebol mas essas são as primeiras consolidadas. E, como todos sabemos, as primeiras são sempre mais marcantes.

 

Lembro-me de ouvir falar, mal, de Bobby Robson. Nas festas familiares, havia sempre um primo, mais velho, que vivia em Alcântara e que me falava que o inglês passava as noites durante a semana nos bares lisboetas a pedir whiskey atrás de whiskey. Gozava com esta alegada faceta alcoólica e com o português arranhado de um treinador que parece ter dado sempre muito mais ao futebol do que o futebol lhe deu a ele.

 

Bobby Robson foi atraiçoado vezes e vezes sem conta na carreira. Foram poucos os sítios onde conseguiu ser plena e verdadeiramente feliz. Foi o selecionador inglês pós-1966 com mais sucesso mas foi vítima da intervenção “divina” de Maradona e de uma imprensa britânica sedenta de sangue. Foi o treinador de um Sporting que ameaçava o título mas foi peão da precipitação de Sousa Cintra, que sonhava com Carlos Queiroz com o mesmo entusiasmos que, anos mais tarde, Josep Lluís Núñez o viria a fazer com Luis Van Gaal.

 

O treinador parecia dar tudo o que tinha e em troca recebia sempre um pouco abaixo do mínimo. O drama e a tragédia acompanharam Robson por todo o lado, mas nenhuma paragem terá demonstrado uma força tão negra como a portuguesa. Em Alvalade, o seu jantar de despedida levou ao trágico acidente de Cherbakov, interrompendo prematuramente uma carreira que se adivinhava brilhante. Nas Antas, na primeira época completa, a primeira do penta, teve de lidar com a morte de Rui Filipe, vítima de um acidente de viação. Foi também no Porto que começou a perceber que a saúde não perdia uma oportunidade para o apunhalar.

 

Um treinador que gostava de falar sobre futebol

Bobby Robson e a equipa técnica no FC Porto

Bobby Robson podia ter uma relação atribulada com a imprensa mas era um treinador que falava do jogo. Que gostava de falar sobre as decisões, sobre o que tinha acontecido. A forma como abordou o Benfica-FC Porto de 1994 (2-0), célebre jogo em que Fernando Couto foi expulso depois de ter dado uma cotovelada a Mozer, tornou-se parte do meu imaginário… e do de muitos que presenciaram aquele momento e puderam revivê-lo repetidamente com a cassete do final de época.

 

Com um João Pinto visivelmente aborrecido ao lado, Robson arranhou o português para explicar a decisão de não ter reequilibrado o setor defensivo da equipa, já depois de Toni ter elogiado, em pleno relvado, a forma brilhante com que os dragões tinham lutado pelo jogo.

 

«Eu penso que onze jogadores contra dez jogadores muito difícil no Benfica. Primeira parte… dois equipas igual. Talvez igual. Pouco diferentes. Diferença foi Fernando Couto. Resultado: Mozer dois, Fernando Couto zero. A disciplina de Fernando Couto é muito importante. Com dez jogadores sempre, sempre difícil. Segunda parte, grande jogo, dois equipas, ataque, defesa, ataque, defesa. No diferença, dez jogadores, onze jogadores. Segunda parte, seis, seis oportunidades. Intervalo: eu decisão. Mais defesa? Jorge Costa? Ou igual? Minha decisão: três contra três: João Pinto, Aloísio, Rui Jorge contra três – João Pinto, Ailton, Yuran. Muita coragem, muita coragem, equipa muita coragem. Falei equipa ao intervalo, muita coragem. Um-zero, ok. Ataque. Um golo, um-um. No Jorge Costa, Jorge Costa banco».

 

O português foi macarrónico mas perfeitamente percetível, apesar de polvilhado com pequenas palavras em inglês. Aqui, Robson decidiu largar o português e soltar a ideia final em inglês, como se o coração palpitasse com a emoção do que tinha para dizer e do que tinha acabado de ver: «Por isso tentámos retirar algo do jogo, percebe? Mas com o segundo golo… kaput!».

 

Robson era isto mesmo. Dedicado à causa, às componentes do jogo, às decisões, ao relacionamento com os jogadores. Naturalmente, nem tudo foi um mar de rosas. Vujacic, por exemplo, terá sido uma das maiores vozes críticas ao trabalho do inglês mas a esmagadora maioria das opiniões foram sempre a de um treinador com uma faceta humana acima da média.

 

Um nome estranhamente consensual

Bobby Robson com Guardiola

Como é que se explica Bobby Robson a alguém que não conhece uma dimensão de futebol diferente da atual? Dizendo que dificilmente terá havido um treinador tão acarinhado em Portugal – durante e depois da sua passagem – por todos os adeptos como Robson. Dizendo que o seu despedimento sempre foi visto como o maior erro da presidência de Sousa Cintra, dizendo que os sportinguistas ainda hoje falam dele com carinho, dizendo que os portistas nunca o esquecerão e que os benfiquistas, que chegaram a tê-lo como promessa eleitoral (Abílio Rodrigues em 1997 na campanha contra João Vale e Azevedo e Luís Tadeu), reconhecem que foi um dos grandes nomes que passou por Portugal.

 

Bobby Robson não foi apenas um dos bons. Foi um dos melhores. Não só em Portugal como pelo mundo inteiro. Era genuíno, preocupado, sorridente, cativante, genial e sentia-se verdadeiramente afetado com as faltas de respeito de que foi sendo alvo, tanto das estruturas diretivas como das imprensas mais sanguinárias. Mas nunca deixou de gostar daquilo que fazia. Nunca deixou de ser a criança que fazia dezenas de quilómetros todos os domingos com o pai para ir ver os jogos do Newcastle. Continuou a deixar-se surpreender com o génio dos seus jogadores - como a deliciosa reação ao golo de Ronaldo em Compostela - ou a mostrar-se verdadeiramente desiludido com a forma com que os seus antigos jogadores do Sporting perderam a cabeça nas Antas num jogo em que os leões acabaram com oito. 

 

Era um apaixonado pelo jogo, um segundo pai para muitos jogadores e não os esquecia mesmo quando estes saíam da sua asa. Robson nunca deixou de se preocupar, nunca deixou de ser igual a si mesmo. Especial. Sabia que as paixões mais marcantes podem ser aquelas que não são correspondidas, mas nunca tirou o pé do acelerador. Seguiu sempre em velocidade máxima atrás da ilusão de viver feliz até ao último suspiro, entre relva, bolas, e barulho de chuteiras a pisar o tijolo no túnel dos balneários enquanto já se ouve o burburinho de milhares de adeptos nas bancadas.

 

Bobby Robson dizia que os treinadores eram como os artistas. Só eram verdadeiramente reconhecidos depois de mortos. José Mourinho comentou que uma pessoa só morre quando morre também a última pessoa que o amou. Estão os dois errados. Robson conseguiu a proeza de ser verdadeiramente admirado muito antes de morrer e de ter atingido um estatuto indiferente à passagem de gerações.

 

Por tudo isto, porque Robson será sempre um homem especial, de sorriso fácil, generoso e sinónimo do lado bom de futebol, o documentário disponível no Netflix foi um murro no estômago. Voltar a ver a vulnerabilidade de um homem nos seus últimos dias de vida, com um aspeto fraco, abatido e, ainda assim, mantendo a preocupação com os “filhos” que acolheu no passado, foi um castigo. Perceber que aquele homem viu naquele jogo de homenagem o seu último suspiro antes de morrer, menos de uma semana depois, é um teste à nossa resistência.

 

Felizmente, o próprio documentário poupou-nos à maldade de terminar com aquele triste fim, fazendo-nos recuar novamente para a memória que sempre teremos dele. A de um homem bom, cavalheiro, que gostava demasiado de futebol para fazer algo que o pudesse prejudicar. Um Sir. Não de Inglaterra mas de todo o universo futebolístico.

Tony Adams. Um antigo central de grandes ações

Tony Adams numa das suas últimas épocas

Famoso pelo que fez nos relvados ao serviço do Arsenal e da seleção inglesa, chega em 2019 ao cargo de presidente da Rugby Football League. É o culminar do trabalho meritório da Sporting Chance Clinic, uma fundação de caridade criada pelo jogador em 2000 com o objetivo de auxiliar jogadores com problemas com álcool, droga e apostas. Desde 2011, mais de 400 jogadores da Rugby Football League beneficiaram deste trabalho.

 

Chegou ao Arsenal para o futebol de formação em 1980 e só se despediu da equipa em 2002. Durante 22 anos, conseguiu alcançar praticamente tudo o que havia para alcançar: venceu quatro vezes o campeonato inglês (duas já como Premier League), três vezes a Taça de Inglaterra e uma vez a Taça das Taças.

Um jovem Tony Adams

Numa era em que Arsène Wenger ainda não era muito mais do que um novato na equipa de Highbury, o central inglês era o símbolo máximo do Arsenal. Estreou-se em novembro de 1983 com 17 anos, passou a ser capitão logo em janeiro de 1988 e até ao jogo de despedida fez um impressionante total de 674 jogos pela equipa.

 

Tony Adams foi o pilar de muitas equipas do Arsenal. Hoje, dependendo da geração, se perguntarmos quem jogava com o eterno capitão, as respostas poderão ir desde o tradicional David Seaman, Lee Dixon, Nigel Winterburn, Steve Bould, Ray Parlour e Ian Wright aos mais modernos Patrick Vieira, Dennis Bergkamp e Marc Overmars. Há até quem diga que sem a perfeição da perna arqueada de Tony Adams, Portugal nunca teria dado a volta no jogo de estreia do Euro-2000.

Figo dá início à reviravolta

Com uma posição estável no clube de Londres, a vida de Tony Adams nunca foi simples. Durante anos, sobretudo até à chegada de Arsène Wenger, viveu sob a sombra da dependência do álcool, muitas vezes associada a episódios de violência em saídas noturnas. Uma vez, foi apanhado a conduzir sob o efeito do álcool e acabou condenado a quatro meses de prisão efetiva – cumpriu metade.

 

A influência de Wenger no seu comportamento foi também uma jornada de compreensão do mal que estaria a fazer à sua vida. Por isso, no último semestre de 2000, decidiu dar um passo em frente e criar uma fundação que servisse como clínica de reabilitação, aconselhamento e apoio para desportistas com problemas com álcool, droga e apostas.

 

«Vi muitos jogadores chegarem ao final das suas carreiras antes que fizessem alguma coisa em relação aos seus problemas. Quem me dera ter tido uma solução destas há dez anos», afirmou em 2000, ainda antes da inauguração da Sporting Chance Clinic.

 

«Muitos jogadores não querem dar a cara por causa do estigma associado ao vício e porque pensam que pode prejudicar as suas carreiras. Talvez os treinadores se sintam mais à vontade em ver os seus jogadores a recuperarem num centro como este.»

Tony Adams destaca-se pelo seu trabalho de beneficiência

Hoje, 18 anos depois, o trabalho da fundação é nacionalmente reconhecido e abriu a porta para que Tony Adams fosse nomeado o 29.º presidente da Rugby Football League (diferente da mais famosa Rugby Union). O antigo internacional inglês (66 jogos) vai suceder a Andy Burnham no verão de 2019 e o trabalho feito pela Sporting Chance foi fundamental neste desfecho.

 

«[Tony Adams] É um nome conhecido e respeitado no desporto e mais além, não apenas pela sua carreira brilhante com o Arsenal mas também pelo seu trabalho pioneiro com a Sporting Chance», justificou Brian Barwick, diretor-geral da Rugby Football League.

 

Barwick recordou que a Sporting Chance já ajudou mais de 400 jogadores desde que estabeleceu um protocolo com a Rugby Football League em 2011 e realçou que «o jogo reconheceu a importância da saúde mental, dos jogadores e de todos os outros envolvidos».

 

«A eleição do Tony é um passo importante neste trajeto», acrescentou.

River vs. Boca. Um superclássico para a história

Pontapé de saída

Não é por acaso que lhe chamam superclássico. River Plate e Boca Juniors formam uma das rivalidades mais intensas do futebol mundial e qualquer jogo entre as duas equipas, seja em Buenos Aires, em Madrid ou em Doha, tem uma importância especial que não conseguimos ignorar.

 

Quando a Conmebol tomou a singular decisão de trazer o jogo da segunda mão da final da Libertadores para Madrid, não foi preciso hesitar muito antes de sentir que nunca mais voltaria a haver uma oportunidade tão forte para ver um jogo destes. Recapitulemos: era uma final da Libertadores, a primeira mão tinha ficado empatada e por isso ninguém partia em vantagem, e jogava-se em Madrid… às portas de Lisboa (tendo em conta o contexto mundial). Era impossível não ir à procura do bilhete dourado que nos faria sentir no meio de uma fábrica de chocolate.

 

A capital espanhola estava a abarrotar. Logo na madrugada da véspera, ainda em Lisboa, o aeroporto tinha pelo menos duas dezenas de adeptos vestidos a rigor – mais do Boca do que do River – que seguiriam no mesmo voo. Ao chegar a Espanha, tornou-se ainda mais difícil ignorar que algo especial estava para acontecer.

 

Sim, era um dos últimos fins-de-semana antes do Natal, as maiores praças têm mercados específicos e há sempre muita gente na rua, mas era impossível olhar num raio de dez metros e não ver pelo menos uma pessoa de branco e vermelho e outra de azul e amarelo. Já de noite, ainda no sábado, no meio de ruas pedonais pejadas de gente, deixámo-nos levar pelos cânticos ao longe e fomos desaguar à Puerta del Sol.

Uma árvore do River

Era o epicentro da festa do River Plate. Tornou-se impossível andar um metro sem pisar ou ser pisado por alguém e uma das árvores de Natal iluminadas tinha cada vez mais tarjas de apoio ao clube. Depois, no meio, algumas dezenas de adeptos com guardas-chuva brancos e vermelhos abertos erguidos no ar iam fazendo a festa com cânticos à medida da ocasião.

 

A calma antes da tempestade

 

O dia do jogo transpareceu uma estranha calma. Sentia-se o pulsar calmo de uma cidade que se tinha engalanado – com muito receio à mistura – para receber, discutivelmente, o jogo com o ambiente mais louco da sua história.

 

A quatro horas do início do jogo, fomos finalmente para a zona do estádio. A sul, havia a fan zone do Boca Juniors, a norte era a do River. As infografias que foram sendo publicadas durante a semana, destacando o dispositivo de segurança, foram ligeiramente enganadoras. Não restem dúvidas: havia uma enorme presença policial, carros blindados, polícias a cavalo e muitos mais apetrechos, mas o suposto controlo de três passos antes de sequer nos aproximarmos do estádio nunca existiu.

 

O ambiente era, ainda assim, calmo. Muita gente na rua (fechada ao trânsito) e, no meio, até havia corajosos com as cores do Boca Juniors não muito longe da fan zone do River Plate. Verdade seja dita, o mundo caiu na tentação de colocar os adeptos argentinos todos no mesmo saco, quando a verdade está longe de ser essa.

 

Sim, são apaixonados. Sim, conseguem catalogar no rival todos os males no mundo, mas conseguem separar as águas de forma civilizada. Além do mais, e como já nos tínhamos apercebido ao vivo durante o Mundial de Basquetebol em Espanha, não há público para fazer a festa como o argentino.

 

As portas do estádio iam abrir três horas antes do apito inicial e os últimos preparativos dos mais apressados eram feitos no meio da estrada. Havia uma estação improvisada para as pinturas faciais (basicamente, uma almofada no chão onde os interessados se punham de joelhos para facilitar a coisa) e adeptos que iam exibindo tarjas de apelo à paz, realçando que independentemente do vencedor, era o desporto que interessava.

Estação de pinturas faciais

O lado da fan zone do Boca Juniors estava mais agitado. Quando um grupo de adeptos decidiu acender uma tocha, a polícia a cavalo interveio e preferiu prevenir antes que fosse obrigada a remediar. Naturalmente, os cânticos dos adeptos viraram antipoliciais durante alguns momentos, até que a situação acalmou novamente.

Um momento mais tenso

A hora chegou… mais ou menos

 

Faltavam trinta minutos para as 17h30 – a hora de abertura das portas – quando decidi mostrar o bilhete e passar o primeiro real posto de controlo. Num espaço de cinco metros, havia oportunidade para provar que estávamos de facto na posse de uma entrada válida e para sermos sujeitos a uma primeira revista.

 

Depois, já com o exterior do Santiago Bernabéu à vista, surgiram as primeiras verdadeiras filas. Porta a porta, havia pelo menos umas vinte pessoas que queriam ser as primeiras a entrar. Para a torre D, no entanto, a que dava acesso ao último anel, a fila tinha já centenas de pessoas que aguardavam pela hora certa para seguir em frente. Aí, o controlo era mais rígido. Havia muito mais polícia, acompanhada de cães prontos a intervir em caso de necessidade.

 

A abertura das portas metálicas provocou um exercício reflexo na mente de muitos adeptos. Houve aplausos e cânticos imediatos. Foi como se aquela campainha de Pavlov significasse que a verdadeira ementa do dia estava mesmo ali. A ficção tinha-se transformado em realidade e não haveria forma de escapar. A enorme euforia de entrar deu lugar… à espera.

 

Nunca é demais reforçar: faltavam mais de duas horas e meia para o jogo começar e as bancadas já estavam mais vestidas do que muitos jogos do campeonato português. Os primeiros despiques entre adeptos surgiram e, no meio de nós, cinco a dez adeptos do River Plate iam distribuindo balões brancos e vermelhos. «Tu, já tens um? Toma! Tira um! Distribui aí por essa zona. Há mais ali ao fundo! Já lá vou dar!»

Os balões cumpriram a sua missão

Não foram horas de espera, foram horas de trabalho. Nos ecrãs em cada topo, iam-se repetindo vídeos sobre a grandeza sul-americana. Em destaque, estava a ideia de que tinha sido a América do Sul a apresentar o “10” ao mundo. Entre os vários clips, havia um famoso túnel de Riquelme num jogo contra o River Plate. Não houve uma única vez em que o vídeo passasse que do outro lado, dos adeptos do Boca Juniors, não se tivesse ouvido um olé ruidoso.

 

Flash forward para o apito inicial

 

Não há muitas palavras que descrevam o que se sente quando as duas equipas entram em campo. É um momento ansiado desde que se compra o bilhete, que nos rouba minutos de sono a cada noite que passa, mas nada que possamos pensar nos prepara para aquele segundo em que, pela primeira vez, se vê as cores de River Plate e Boca Juniors no relvado.

 

É estranho. É a aceitação de que não estávamos preparados para aquilo, que era uma imagem que só conhecíamos pela televisão e que até há duas semanas nunca tínhamos pensado seriamente que um dia poderíamos estar num superclássico.

 

As camisolas teriam jogado sozinhas. O jogo poderia ter sido o pior possível (não foi, apesar de ter parecido em alguns momentos) mas não deixaria de ser “o” River-Boca. Na final da Libertadores. Em Madrid. É um jogo que estará sempre associado a vários asteriscos na história e nós, com muita sorte à mistura, estivemos lá.

 

O jogo, atrás da baliza, viu-se de pé. Não havia outra forma. Aliás, uma hora antes do apito inicial já era impossível estar sentado. Havia cada vez mais gente, cada vez mais momentos de cânticos, balões a voar pelo ar e troca de galhardetes com os adeptos do Boca Juniors. Mesmo atrás, seis filas acima mas já noutro setor, estava o tambor e os metais que traziam a componente auditiva a esta assombrosa experiência.

 

O cérebro fez tilt. Estamos habituados a ouvir aquele tipo de sons e ritmos, mas pela televisão… de madrugada, cheios de sono. Agora, ao final da tarde, com a frescura e a adrenalina no máximo, estavam ali, em cima de nós, a marcar o ritmo para todo e qualquer cântico da bancada.

O coração da claque

O jogo começou “coxo”. Havia muito nervosismo e faltava inspiração. Os criativos demoraram a impor-se e os momentos de tensão vinham da garra que impunham em campo. Os corações batiam a mil, as vozes enrouqueciam a cada minuto mas, a meio da primeira parte, tudo ficou em suspenso. Foi percetível que ali, naquele momento, num livre frontal para o Boca Juniors, milhares de corações saltaram um batimento até perceberem que a bola não tinha beijado a rede.

 

O carrossel de emoções não era adequado para crianças… nem para idosos. Nem para doentes cardíacos. E, ainda assim, ninguém faltou. Quando o River partia para contra-ataque com superioridade numérica, os corpos baixavam-se e alimentavam uma onda espontânea à espera de um golo que provocasse uma erupção de festejo. Nunca chegou. Pelo contrário, exatamente na resposta imediata a um desses lances, o desacerto defensivo do River abriu caminho para um contra-ataque mortífero que acabou com o golo de Benedetto.

 

Uma cambalhota de euforia

 

O golo foi o momento mais frio numa noite de Madrid que prometia ser gelada. Se o fundo sul estava mais quente do que nunca, o norte tinha sentido a brisa gelada de quem via a glória escapar por entre os dedos.

 

A segunda parte, porém, teve uma história radicalmente diferente. O River Plate foi mais determinado, fez acreditar os adeptos, e aproveitou a postura mais pragmática do Boca Juniors. A entrada de Quintero veio trazer mais criatividade e desequilíbrios e quando Pratto marcou, a bancada veio abaixo… quase literalmente.

 

Foi uma onda com duas rebentações. Primeiro, os gritos e saltos com o golo. Depois, quando parecia que o pior já tinha passado e que nos tínhamos equilibrado sem cair, há uma segunda zona de impacto e é herói aquele que se consegue manter em pé. Somos agarrados e agarramos, somos empurrados e empurramos, somos puxados e puxamos, no meio de uma euforia digna de quem sente que voltou a agarrar a vida. E está novamente a acreditar.

 

Já ninguém se sentava há muito – talvez apenas por uns minutos no intervalo – e agora era mesmo impossível. As cadeiras estavam encharcadas com refrigerantes e cervejas que tinham voado durante os festejos.

Os espetaculares aquecedores

O jogo estava cada vez mais com a marca do River mas o Boca resistiu e forçou o prolongamento, trazendo um novo ingrediente especial a um jogo já por tudo histórico. Reduzido a dez logo no arranque, o Boca pareceu alimentar a estratégia de forçar os penáltis mas o River teve outra ideia. Nos primeiros 15 minutos, já com os aquecedores na cobertura do estádio ligados (a melhor invenção que já vimos num estádio de futebol), não fez a diferença, mas a segunda tinha novas explosões de euforia guardadas.

 

Ao minuto Eder, Quintero ganhou espaço à entrada da área e fuzilou Andrada, dando o mote para os minutos mais sul-americanos a que alguma vez pudemos assistir. De dez, o Boca passou a jogar com nove, perante a lesão de Gago. A seis minutos dos 120 (!), o guarda-redes Andrada começou a sair nos lances de bola parada e a tentar fazer a diferença.

 

Não havia critério, havia amor. Não havia cérebro, havia garra. Era a montra sul-americana no seu esplendor, o estereótipo a apresentar-se em Madrid, seduzindo milhares. Era uma tarefa ingrata, mas o Boca não virou a cara à luta. E, já em cima dos 120 minutos, quase gelou a bancada do River quando fez a bola beijar o poste. Foi o segundo batimento cardíaco que milhares de adeptos nunca mais vão recuperar.

 

Depois, no último suspiro do Boca Juniors, veio o selo final. Sem ninguém na baliza, Quintero lançou Pity Martínez que correu mais de metade do campo até chegar à bola e garantir o 3-1. Na bancada, já ninguém duvidava que ia ser golo. No relvado, jogadores do River começaram a ir festejar com o banco mesmo antes de a bola entrar na grande área.

 

 

Foi a cereja no topo do bolo. A final estava feita. A festa era diferente da do golo. Era uma festa de missão cumprida. Era uma festa de lágrimas nos olhos, de partilha de alegria com os familiares através de videochamada para a Argentina. Era uma festa única. Era uma festa de “valeu a pena”.

 

Tudo o que se seguiu não passou de uma experiência de recuperação de forças e descarga de adrenalina. A entrega dos prémios, os assobios aos jogadores do Boca que abandonaram o relvado antes de o troféu ser entregue, as vénias aos jogadores que se aproximaram daquele topo.

Festa no final do jogo

Fora do estádio, tudo estava calmo ainda. Havia gente a caminho do metro, mas o epicentro das celebrações ainda estava no Bernabéu. Nas carruagens, eram os adeptos do Boca Juniors que dominavam. Tinham expressões carregadíssimas. Havia lágrimas no canto do olho mas contrastavam radicalmente com as que tínhamos acabado de ver apenas uns minutos antes.

 

Não havia palavras. Havia olhos perdidos no horizonte, cérebros que repassavam o filme do jogo, o momento de glória, a oportunidade perdida. A tragédia de perder a final mais histórica da Libertadores. Aquela bancada que foi sendo insultada durante mais de três horas, era, afinal de contas, uma bancada de gente. De pessoas reais. Que queriam o mesmo mas que não o tiveram.

 

Era a terceira lei de Newton aplicada ao futebol. «A toda a ação corresponde uma reação de igual intensidade, mas que atua no sentido oposto». Desta vez a força do River Plate foi mais forte.

Uma experiência de sons e violência patrocinada pelos Bruins

TD Garden na sua versão de hóquei no gelo

Por esta altura já se devem ter apercebido que consumimos – em grande escala – tudo o que é desporto norte-americano. Mesmo em casa, nas madrugadas e aos fins-de-semana, gastamos horas a ver jogos da NBA (bom, aqui mais eu do que a Sarah), de basebol e de futebol americano. Em tempos, mesmo antes de nos conhecermos, cheguei mesmo a ver um jogo de lacrosse indoor quando fui a Boston pela primeira vez.

 

(publicado originalmente no atlas de bolso)

 

Provavelmente já terão pensado que falta aqui uma modalidade dos big-four: o hóquei no gelo. Para nós, é o patinho-feio. Em Portugal nunca vemos e quando vamos aos Estados Unidos raramente está na nossa lista de prioridades. Afinal, o dinheiro não estica e por muito que queiramos a experiência completa, é sempre preciso fazer opções.

 

Por outro lado, também somos incapazes de dizer que não a um desafio. Em abril de 2017, na primeira vez em que fomos a Boston juntos, havia um jogo dos Bruins logo na primeira noite. A experiência foi muito semelhante ao que aconteceu agora em novembro: fazer o voo, chegar, instalar e sair pouco tempo depois a caminho do TD Garden.

 

O que se espera quando se vai ver um jogo de hóquei no gelo? «Porrada!», talvez fosse a primeira resposta da Sarah. Mais do que a violência das placagens associada a cada jogada, há sempre uma abertura para os jogadores perderem a paciência e sentirem que está na altura de tirar as luvas e partir para a troca de mimos, perante o olhar atento dos adversários e da equipa de arbitragem, que espera um momento seguro para intervir e aplicar a sanção habitual.

Cadeiras amarelas e pretas dominam o TD Garden

Mas um jogo de hóquei no gelo é mais do que isso. A tradição em Boston é grande – os Bruins são uma das seis equipas que estiveram na génese da NHL – e até as cadeiras do pavilhão o comprovam. Sim, se alguma vez se perguntaram por que razão o pavilhão onde jogam os Celtics está cheio de cadeiras amarelas e pretas, é porque o primeiro inquilino do contrato com os proprietários é a equipa de hóquei no gelo.

 

O frio que emana do rinque

 

Os preparativos para um jogo de hóquei não são muito diferentes dos outros. A romaria até à estação de comboio onde está o pavilhão começa horas antes e é impossível não percebermos que há jogo, à conta das centenas de camisolas larguíssimas – especialmente por serem usadas sem as proteções que os jogadores têm – que circulam pelos arredores.

O urso que nos recebe à entrada

Quando subimos as escadas rolantes para a entrada oficial no pavilhão, deparamo-nos com um enorme urso, uma oferta de outras núpcias que deixou o dono sem saber o que fazer e acabou por figurar no anel exterior da bancada. Depois, assim que se passa pelas portas de acesso às cadeiras, há uma corrente de ar frio que nos recorda perfeitamente o que estamos ali a fazer.

 

O público-alvo também é diferente. Aliás, o mais curioso (sobretudo se os jogos forem vistos de “seguida”) é perceber como os espetadores são tão diferentes de modalidade para modalidade. A multiculturalidade do basquetebol distancia-se dos desportos de nichos como o basebol – mais virado para as comunidades latinas – ou o hóquei no gelo. Quando estivemos em Atlanta, por exemplo, vimos mais brancos e latinos no jogo dos Braves do que nos três dias inteiros que passeámos pela cidade.

 

No hóquei no gelo reina o instinto, o grotesco, o animal. No rinque e na bancada. Os festejos por cada placagem mais violenta transportam-nos (como se fosse possível) para o Coliseu de Roma. O público quer golos e vitórias mas está sedento de violência, das jogadas mais agressivas, das pancadas no disco que ecoam pelo pavilhão e que atingem o auge quando entram em rota de colisão com um dos ferros da baliza.

 

O hóquei no gelo é também um desporto de sons. Talvez mais do que qualquer outro. Mesmo sentados na última fila do pavilhão, como caçadores que observam a presa (os Bruins) de longe, não conseguimos escapar a esta sensação. Os patins a cravar no gelo, o impacto das proteções de cada jogador numa jogada junto à parede do campo, os festejos nas bancadas… o disco a embater no poste. E, no auge, a sirene que toca assim que há um golo.

 

É o descarregar de toda a adrenalina. Não é uma emergência – embora o som seja igual à buzina de um grande navio – mas sim o toque de saída para a celebração. Cada equipa tem uma música que passa logo a seguir à sirene, que fica associada diretamente aos golos, e no caso dos Bruins é a Kernkraft 400 dos alemães Zombie Nation. É uma música eletrónica, pouco criativa, mas que se associa na perfeição a todo aquele ambiente. E que fica no ouvido.

 

Passada a euforia, já depois dos festejos e do recomeço do jogo, o comentador do pavilhão faz o anúncio oficial do golo, com o marcador e os autores da assistência. A terminar, religiosamente, solta uma espécie de uivo que é replicado por milhares de pessoas.

Bruins venceram 4-0

Sabem o que dizem do futebol em Portugal como sítio perfeito para descarregar as emoções do quotidiano? Bem, ver um jogo de hóquei no gelo consegue ser ainda mais adequado para libertar stress… nos momentos adequados.

 

A cada intervalo – um jogo tem três partes de vinte minutos – entram os famosos zambonis (uma espécie de trator que garante o estado perfeito do piso), muitas vezes com crianças no lugar do pendura. Assim, num abrir e piscar de olhos, a arena de gladiadores sobre o gelo torna-se num lugar para crianças inocentes cumprirem um sonho enquanto acenam para bancadas que reentraram numa fase de tranquilidade.

 

Resumindo, ver um jogo de hóquei no gelo nos EUA é uma experiência única. Tem momentos violentos mas não deixará de ser uma opção muito interessante, mais não seja para quem tenha algum interesse sociológico.

Ver um jogo dos Celtics com direito a um brinde especial

Celtics bateram o recorde de triplos contra os Bucks

Comprámos os voos para a última viagem que fizemos a Boston na noite de 28 de agosto depois de menos de dez minutos de debate. A partir do momento em que vimos os preços dos bilhetes para o fim-de-semana alargado de 1 a 4 de novembro, não hesitámos e seguimos em frente.

 

(publicado originalmente no atlas de bolso)

 

Não houve hesitações. Sabíamos ao que íamos e não tínhamos dúvidas mas houve um impulso que nos fez ter ainda mais a certeza que queríamos mesmo ir naquelas datas: logo no dia 1, poucas horas depois de chegarmos, havia um jogo entre os Celtics e os Milwaukee Bucks, do fenómeno Giannis Antetokounmpo. Não precisávamos de desculpa mas ter um cartaz destes à nossa espera só nos fez avançar com mais confiança – mesmo que a Sarah continue a não achar grande piada ao basquetebol.

 

O jogo estava marcado para as oito da noite e o nosso voo, salvo grande atraso, aterrava no Logan entre as duas e as três. Numa outra cidade, a proximidade das horas poderia vir a ser um problema, mas Boston é mais amigável neste aspeto. Sim, demoramos sempre algum tempo a passar no controlo, mas chegar a casa demorou apenas alguns minutos.

 

Olhámos para o relógio, fizemos contas ao tempo que precisávamos e iniciámos a nossa romaria na direção do TD Garden. Parafraseando Rui Veloso, tínhamos praticamente todo o tempo do mundo. Ao sair de casa, em vez de apanharmos diretamente o metro, preferimos ir a um parque junto à baía para ver Boston de uma perspetiva que ainda não conhecíamos, e só depois fomos em direção ao pavilhão.

Uma vista exterior do TD Garden

O TD Garden é um dos pavilhões da NBA que abre as portas mais em cima da hora do jogo: apenas 60 minutos antes. Deu tempo para tirar algumas fotos no exterior e ir para a estação de comboios – que fica no andar de baixo do pavilhão – comer alguma coisa enquanto víamos o tempo a passar. Pelo meio, aproveitámos também para ir à loja da equipa, onde estava Jackie MacMullan. Para quem não sabe, é uma jornalista muito conceituada que trabalha no meio há décadas e já recebeu uma distinção da Hall of Fame do basquetebol. Estava lá a autografar o seu último livro, que eu até tinha comprado… em Miami, umas semanas antes, e deixado em Portugal. Má sorte.

 

Experiência especial… de todas as vezes

Chegar primeiro não deu direito a brinde...

Fomos dos primeiros a entrar no pavilhão. Havia apenas algumas dezenas de pessoas e, em vez de irmos logo para os nossos lugares (praticamente no topo, como sempre, porque são os mais baratos e porque não faz assim taaaaanta diferença no momento de ver o jogo), decidimos optar pela «estratégia-Saints». Em Nova Orleães, antes do jogo da NFL, ainda não tínhamos comido naquele dia e decidimos ver todas as ofertas disponíveis.

 

Foi o que fizemos no TD Garden. Não necessariamente para comer, mas para saber que hipóteses teríamos quando o apetite chegasse. A oferta não foge muito ao habitual num evento desportivo nos Estados Unidos: há cachorros, hambúrgueres, cerveja, muitas bebidas com gás, pipocas. Além disso, há sempre espaço para as pequenas salas com artigos desportivos da equipa.

 

Quando entrámos no nosso setor, ficámos uma vez mais boquiabertos com a história que aquele pavilhão representa. Inaugurado na década de 90, só viu ainda um título dos Celtics (2008) e um dos Bruins (2011) mas o teto transporta-nos para uma história ainda maior. É lá que estão os cartazes comemorativos de cada um dos 17 títulos da equipa de basquetebol, dos seis da equipa de hóquei no gelo, e dos inúmeros números que cada equipa já retirou em homenagem aos seus melhores jogadores. Olhando para ali, fica difícil achar que ainda há espaço para o próximo.

Banners dos títulos dos Celtics ocupam muito espaço

Os minutos que se antecedem à bola ao ar são sempre interessantes. As bancadas começam a encher-se de gente: familiares, amigos ou praticamente desconhecidos que têm nos Celtics um denominador comum. Foi o que aconteceu na fila imediatamente à frente da nossa com um grupo de sete ou oito homens com aspeto universitário. Da conversa inicial de ocasião, passaram a falar como se fossem amigos de longa data e, curiosamente, havia dois que condiziam com camisolas de Larry Bird, o histórico jogador de basquetebol. Havia uma diferença: um tinha-a com as cores dos Celtics, o outro tinha trazido a camisola dos tempos da universidade (Indiana State).

 

O espanto com um fenómeno grego

 

Boston é uma cidade com uma grande comunidade grega mas, ao contrário do esperado, nem se viram muitos a acompanhar a exibição de Giannis Antetokounmpo, o grego de origem nigeriana dos Bucks que está a tomar a NBA de assalto.

 

Por outro lado, não é preciso ser grego para admirar o que consegue fazer em campo e como parece diminuir qualquer rival que lhe faça frente. Ver Giannis jogar ao vivo consegue ser uma experiência tão sublime como apreciar Kobe Bryant, Tom Brady ou LeBron James. A sensação de sabermos que estamos a ver alguma coisa especial é única e fazemos o possível para guardar aquele momento… mesmo que estejamos claramente a torcer pelos Celtics.

 

O jogo foi histórico. Os Celtics venceram – apesar da reação de Milwaukee na parte final, depois de terem entrado para o último período a vencer por 15 – e fixaram um novo recorde de equipa: 24 triplos conseguidos. Do lado dos Bucks, Giannis Antetokoumpo, que até era para não jogar depois de ter sofrido uma pancada na cabeça no início da semana, marcou 33 pontos e mostrou tudo o que é capaz de fazer.

 

O entretenimento fora do jogo

Red Sox foram convidados especiais

Uma partida pode ter descontos de tempo e intervalos mas o espetáculo não. Não há liga no mundo tão profissionalizada na altura de ocupar os tempos mortos e os Celtics são fiéis a um conjunto de ações que repetem religiosamente. É claro que há os mais óbvios, como as danças das cheerleaders e os afundanços de um grupo que envolve a mascote da equipa (Lucky), mas depois, a cada jogo, é também homenageado um “herói” entre a população.

 

A iniciativa chama-se “Heroes among us” e pretende distinguir ações de pessoas desconhecidas que tenham feito a diferença na comunidade. Naquela noite, destacou-se uma criança que tinha estado internada na ala oncológica de um hospital pediátrico e que se tinha apercebido da falta de brinquedos. Depois de ter alta, decidiu doar uma boa parte dos seus para que as outras crianças tivessem com que brincar.

 

O ponto forte daquele dia foi, ainda assim, quando o treinador e alguns jogadores dos Boston Red Sox apareceram surpreendentemente para mostrar o título de campeões de basebol que tinham conquistado quatro noites antes. Para nós, não podia ter sido melhor. Depois de termos comprado a viagem, começámos a fazer contas à possibilidade de a festa de um eventual título poder ser celebrado connosco na cidade, mas os Red Sox trocaram-nos as contas e conquistaram a World Series cedo demais.

 

A verdadeira festa, com milhares de pessoas nas ruas, foi na terça-feira e nós só chegámos na quinta. Mas vê-los ali, juntamente com mais 20 mil pessoas nas bancadas, a festejar cada momento em que um jogador diferente erguia o troféu foi uma excelente consolação, sobretudo quando ainda não tínhamos recuperado a 100% do drama que tinha sido passar uma madrugada inteira a ver um jogo que demorou sete horas e vinte minutos e só acabou às oito e vinte da manhã… com uma derrota!

 

No final, tudo correu de forma perfeita. Os Red Sox foram campeões, foram ao pavilhão mostrar o troféu connosco lá dentro e os Celtics ganharam. Não havia melhor maneira de começar esta viagem a Boston.

Fenway Park é uma experiência para qualquer altura do ano

 

Não há absolutamente razão nenhuma para ir a Boston e não visitar o Fenway Park. Se gostarem de basebol, nem preciso de vos dizer nada. Se gostarem de desporto mas não de basebol, reconhecem a importância de estar numa das mecas de uma modalidade, seja ela qual for. Se gostam de conhecer por dentro as cidades que visitam, percebem que o Fenway Park é um símbolo de Boston. Se só viajam para fazer compras… há uma loja maior do que alguns hipermercados com todo o tipo de adereços dos Red Sox.

 

(publicado originalmente no atlas de bolso)

 

É incontornável. Não vos vou dizer que a história de Boston e dos Red Sox se confunde – isso seria uma enorme hipérbole – mas não há dúvida que a história da equipa de basebol nos últimos 100 anos é também – e muito – uma parte da história de Boston.

Fenway Park

O estádio foi inaugurado em 1912 e é o mais antigo da Major League Baseball. Ao contrário das construções mais recentes, mais preocupadas com o conforto e com grande lotação, o Fenway Park é famoso pelas suas peculiaridades. Boston sabe-o bem e é por isso que há sempre uma boa desculpa para estar lá dentro e conhecê-lo o melhor possível.

 

Há três opções: fazer o tour, como nós fizemos em abril de 2017 depois de termos percebido que o nosso jogo tinha sido adiado por causa da chuva e não teríamos uma segunda oportunidade, ver um jogo (fase regular vai do final de março ao final de setembro) ou… fazer as duas coisas.

 

É mais caro, claro, mas acho que compensa. No tour, visitamos zonas que seriam impossíveis de outra forma e aprendemos muito sobre o passado; no jogo, absorvemos o ambiente de um estádio praticamente sempre cheio – por ser dos mais antigos é também dos que tem menor lotação.

 

As peculiaridades do estádio

 

A visita começa na enorme loja do outro lado da Yawkey Way. Depois de uma breve apresentação – dizer que somos de Portugal, onde quer que seja, gera sempre um grande entusiasmo e curiosidade – entramos no estádio e vamos direitos ao balneário da equipa visitante.

 

É uma volta rápida e, subitamente, começamos a mergulhar na história dos Red Sox, muito baseada no sofrimento sentido durante o jejum de 86 anos sem títulos (entre 1918 e 2004). Cada paragem nas instalações é um motivo para falar de um tema diferente.

Cadeiras originais do estádio

Sentamo-nos num dos setores da bancada para recordar quão velho o estádio é, com aquelas cadeiras de madeiras originais, tão pouco confortáveis, mas que merecem destaque por estarem ali, sem serem substituídas, há mais de 100 anos. Visitamos a zona de imprensa para perceber melhor a dinâmica com os jornalistas e o apertado código de vestuário, passamos pelo Green Monster (a enorme muralha do lado esquerdo do campo que é possivelmente a parte de um estádio mais famosa de todo o basebol nos EUA), falamos sobre a isolada cadeira vermelha que representa o home run mais longo alguma vez batido naquele estádio e ficamos a saber que há uma horta biológica e painéis solares num pequeno terraço do estádio.

 

Aquela hora e meia é um conjunto de lição histórica com lição desportiva, associando sempre os grandes momentos dos Red Sox aos problemas de gestão do clube e a forma como foi evoluindo até se tornar um exemplo de sucesso. Os bilhetes para a visita custam vinte dólares.

Quando chove não há jogos, mas há tours

 

Ver um jogo dos Red Sox ao vivo

 

A zona do Fenway Park em dias de jogo ganha uma vida radicalmente diferente. Os bares nas imediações começam a encher muitas horas antes, a loja tem mais movimento e o aparato policial assinala que aquele não é um dia qualquer. Cá fora, há vendedores ambulantes de todo o tipo, barraquinhas com mais opções e homens que nos abordam na rua a perguntar se queremos comprar ou vender bilhetes para o jogo.

As ruas em redor do Fenway Park enchem-se nos dias de jogo

Há não muito tempo, os jogos no Fenway Park estavam sempre esgotados e comprar bilhete era uma missão mais complicada – embora nunca impossível. Sites como o StubHub ou o SeatGeek ajudam a garantir a presença na bancada meses antes de fazermos a viagem, tornando tudo mais tranquilo.

 

Quando entramos no estádio em modo de jogo, é impossível não reparar nas diferenças em relação à visita. Há mais vida, mais calor, mais ruído. A azáfama é enorme e ninguém pára. Há filas para passar o bilhete, para a casa-de-banho, para a loja e para comer. Só não há filas para sentar porque não calha… e porque nós vamos sempre com as galinhas.

 

Há bilhetes a preços simpáticos, perto dos vinte dólares, mas é possível gastar muito mais se quisermos ser importantes e ir para perto da ação. O mais complicado é mesmo garantir lugares no Green Monster. Podem não ser tão caros como os que estão junto dos bancos, mas a procura é muito maior do que a oferta e a antecipação é peça-chave para a compra.

O Green Monster de Fenway Park

No nosso caso, quando fomos em setembro ver o jogo com os Blue Jays de Toronto, quisemos ficar num sítio com boa visibilidade para a ação e não muito longe do Green Monster. Calhou-nos uma bancada familiar, chamada assim por ser proibido o consumo de álcool – peculiaridade que muitos ignoram, passando depois pela vergonha de serem repreendidos por elementos da segurança.

 

Ter um bom lugar no Fenway Park é uma ciência complicada. Os pilares que obstroem a visão multiplicam-se e há mesmos lugares que estão a poucos centímetros de um pilar. Nunca nos aconteceu, mas é possível comprar um bilhete para estar a olhar para um pilar durante três horas. Apesar de tudo, nos sites de compra de bilhetes, costuma surgir um aviso sobre se os lugares tem a vista total ou parcialmente obstruída. Dito de outra forma, desconfiem sempre se acharem um preço muito mais barato do que os outros.

 

A experiência do jogo em si não foi, na sua maior parte, muito diferente da de outros jogos a que já tínhamos ido. Ficámos atrás de uma família adepta dos Blue Jays, embora passassem mais tempo com os olhos no telemóvel do que no jogo, e… vimo-los festejar enquanto os Red Sox perdiam.

O ambiente de apoio aos Red Sox é inigualável

O momento mais diferente – que já sabíamos e esperávamos – foi quando a instalação sonora passou, como manda a tradição, o Sweet Caroline do Neil Diamond. O hábito tem mais de dez anos mas, depois de uma fase em que era muito bem visto pelos adeptos, tem-se tornado cada vez mais um motivo de debate: está ou não na altura de acabar com a música? Seja qual for a opinião popular, o certo é que milhares de pessoas se levantaram, puxaram dos telemóveis e gravaram o momento enquanto cantavam em plenos pulmões. Nós não fugimos à regra, claro está.

 

Se temos de ser romanos em Roma, por que não haveríamos de ser bostonianos em Boston? Vá, só não bebemos álcool, mas de resto houve espaço para os amendoins, os hambúergueres e as bebidas de litro com refill gratuito. É a experiência que faz a diferença.