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É Desporto

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River vs. Boca. Um superclássico para a história

Pontapé de saída

Não é por acaso que lhe chamam superclássico. River Plate e Boca Juniors formam uma das rivalidades mais intensas do futebol mundial e qualquer jogo entre as duas equipas, seja em Buenos Aires, em Madrid ou em Doha, tem uma importância especial que não conseguimos ignorar.

 

Quando a Conmebol tomou a singular decisão de trazer o jogo da segunda mão da final da Libertadores para Madrid, não foi preciso hesitar muito antes de sentir que nunca mais voltaria a haver uma oportunidade tão forte para ver um jogo destes. Recapitulemos: era uma final da Libertadores, a primeira mão tinha ficado empatada e por isso ninguém partia em vantagem, e jogava-se em Madrid… às portas de Lisboa (tendo em conta o contexto mundial). Era impossível não ir à procura do bilhete dourado que nos faria sentir no meio de uma fábrica de chocolate.

 

A capital espanhola estava a abarrotar. Logo na madrugada da véspera, ainda em Lisboa, o aeroporto tinha pelo menos duas dezenas de adeptos vestidos a rigor – mais do Boca do que do River – que seguiriam no mesmo voo. Ao chegar a Espanha, tornou-se ainda mais difícil ignorar que algo especial estava para acontecer.

 

Sim, era um dos últimos fins-de-semana antes do Natal, as maiores praças têm mercados específicos e há sempre muita gente na rua, mas era impossível olhar num raio de dez metros e não ver pelo menos uma pessoa de branco e vermelho e outra de azul e amarelo. Já de noite, ainda no sábado, no meio de ruas pedonais pejadas de gente, deixámo-nos levar pelos cânticos ao longe e fomos desaguar à Puerta del Sol.

Uma árvore do River

Era o epicentro da festa do River Plate. Tornou-se impossível andar um metro sem pisar ou ser pisado por alguém e uma das árvores de Natal iluminadas tinha cada vez mais tarjas de apoio ao clube. Depois, no meio, algumas dezenas de adeptos com guardas-chuva brancos e vermelhos abertos erguidos no ar iam fazendo a festa com cânticos à medida da ocasião.

 

A calma antes da tempestade

 

O dia do jogo transpareceu uma estranha calma. Sentia-se o pulsar calmo de uma cidade que se tinha engalanado – com muito receio à mistura – para receber, discutivelmente, o jogo com o ambiente mais louco da sua história.

 

A quatro horas do início do jogo, fomos finalmente para a zona do estádio. A sul, havia a fan zone do Boca Juniors, a norte era a do River. As infografias que foram sendo publicadas durante a semana, destacando o dispositivo de segurança, foram ligeiramente enganadoras. Não restem dúvidas: havia uma enorme presença policial, carros blindados, polícias a cavalo e muitos mais apetrechos, mas o suposto controlo de três passos antes de sequer nos aproximarmos do estádio nunca existiu.

 

O ambiente era, ainda assim, calmo. Muita gente na rua (fechada ao trânsito) e, no meio, até havia corajosos com as cores do Boca Juniors não muito longe da fan zone do River Plate. Verdade seja dita, o mundo caiu na tentação de colocar os adeptos argentinos todos no mesmo saco, quando a verdade está longe de ser essa.

 

Sim, são apaixonados. Sim, conseguem catalogar no rival todos os males no mundo, mas conseguem separar as águas de forma civilizada. Além do mais, e como já nos tínhamos apercebido ao vivo durante o Mundial de Basquetebol em Espanha, não há público para fazer a festa como o argentino.

 

As portas do estádio iam abrir três horas antes do apito inicial e os últimos preparativos dos mais apressados eram feitos no meio da estrada. Havia uma estação improvisada para as pinturas faciais (basicamente, uma almofada no chão onde os interessados se punham de joelhos para facilitar a coisa) e adeptos que iam exibindo tarjas de apelo à paz, realçando que independentemente do vencedor, era o desporto que interessava.

Estação de pinturas faciais

O lado da fan zone do Boca Juniors estava mais agitado. Quando um grupo de adeptos decidiu acender uma tocha, a polícia a cavalo interveio e preferiu prevenir antes que fosse obrigada a remediar. Naturalmente, os cânticos dos adeptos viraram antipoliciais durante alguns momentos, até que a situação acalmou novamente.

Um momento mais tenso

A hora chegou… mais ou menos

 

Faltavam trinta minutos para as 17h30 – a hora de abertura das portas – quando decidi mostrar o bilhete e passar o primeiro real posto de controlo. Num espaço de cinco metros, havia oportunidade para provar que estávamos de facto na posse de uma entrada válida e para sermos sujeitos a uma primeira revista.

 

Depois, já com o exterior do Santiago Bernabéu à vista, surgiram as primeiras verdadeiras filas. Porta a porta, havia pelo menos umas vinte pessoas que queriam ser as primeiras a entrar. Para a torre D, no entanto, a que dava acesso ao último anel, a fila tinha já centenas de pessoas que aguardavam pela hora certa para seguir em frente. Aí, o controlo era mais rígido. Havia muito mais polícia, acompanhada de cães prontos a intervir em caso de necessidade.

 

A abertura das portas metálicas provocou um exercício reflexo na mente de muitos adeptos. Houve aplausos e cânticos imediatos. Foi como se aquela campainha de Pavlov significasse que a verdadeira ementa do dia estava mesmo ali. A ficção tinha-se transformado em realidade e não haveria forma de escapar. A enorme euforia de entrar deu lugar… à espera.

 

Nunca é demais reforçar: faltavam mais de duas horas e meia para o jogo começar e as bancadas já estavam mais vestidas do que muitos jogos do campeonato português. Os primeiros despiques entre adeptos surgiram e, no meio de nós, cinco a dez adeptos do River Plate iam distribuindo balões brancos e vermelhos. «Tu, já tens um? Toma! Tira um! Distribui aí por essa zona. Há mais ali ao fundo! Já lá vou dar!»

Os balões cumpriram a sua missão

Não foram horas de espera, foram horas de trabalho. Nos ecrãs em cada topo, iam-se repetindo vídeos sobre a grandeza sul-americana. Em destaque, estava a ideia de que tinha sido a América do Sul a apresentar o “10” ao mundo. Entre os vários clips, havia um famoso túnel de Riquelme num jogo contra o River Plate. Não houve uma única vez em que o vídeo passasse que do outro lado, dos adeptos do Boca Juniors, não se tivesse ouvido um olé ruidoso.

 

Flash forward para o apito inicial

 

Não há muitas palavras que descrevam o que se sente quando as duas equipas entram em campo. É um momento ansiado desde que se compra o bilhete, que nos rouba minutos de sono a cada noite que passa, mas nada que possamos pensar nos prepara para aquele segundo em que, pela primeira vez, se vê as cores de River Plate e Boca Juniors no relvado.

 

É estranho. É a aceitação de que não estávamos preparados para aquilo, que era uma imagem que só conhecíamos pela televisão e que até há duas semanas nunca tínhamos pensado seriamente que um dia poderíamos estar num superclássico.

 

As camisolas teriam jogado sozinhas. O jogo poderia ter sido o pior possível (não foi, apesar de ter parecido em alguns momentos) mas não deixaria de ser “o” River-Boca. Na final da Libertadores. Em Madrid. É um jogo que estará sempre associado a vários asteriscos na história e nós, com muita sorte à mistura, estivemos lá.

 

O jogo, atrás da baliza, viu-se de pé. Não havia outra forma. Aliás, uma hora antes do apito inicial já era impossível estar sentado. Havia cada vez mais gente, cada vez mais momentos de cânticos, balões a voar pelo ar e troca de galhardetes com os adeptos do Boca Juniors. Mesmo atrás, seis filas acima mas já noutro setor, estava o tambor e os metais que traziam a componente auditiva a esta assombrosa experiência.

 

O cérebro fez tilt. Estamos habituados a ouvir aquele tipo de sons e ritmos, mas pela televisão… de madrugada, cheios de sono. Agora, ao final da tarde, com a frescura e a adrenalina no máximo, estavam ali, em cima de nós, a marcar o ritmo para todo e qualquer cântico da bancada.

O coração da claque

O jogo começou “coxo”. Havia muito nervosismo e faltava inspiração. Os criativos demoraram a impor-se e os momentos de tensão vinham da garra que impunham em campo. Os corações batiam a mil, as vozes enrouqueciam a cada minuto mas, a meio da primeira parte, tudo ficou em suspenso. Foi percetível que ali, naquele momento, num livre frontal para o Boca Juniors, milhares de corações saltaram um batimento até perceberem que a bola não tinha beijado a rede.

 

O carrossel de emoções não era adequado para crianças… nem para idosos. Nem para doentes cardíacos. E, ainda assim, ninguém faltou. Quando o River partia para contra-ataque com superioridade numérica, os corpos baixavam-se e alimentavam uma onda espontânea à espera de um golo que provocasse uma erupção de festejo. Nunca chegou. Pelo contrário, exatamente na resposta imediata a um desses lances, o desacerto defensivo do River abriu caminho para um contra-ataque mortífero que acabou com o golo de Benedetto.

 

Uma cambalhota de euforia

 

O golo foi o momento mais frio numa noite de Madrid que prometia ser gelada. Se o fundo sul estava mais quente do que nunca, o norte tinha sentido a brisa gelada de quem via a glória escapar por entre os dedos.

 

A segunda parte, porém, teve uma história radicalmente diferente. O River Plate foi mais determinado, fez acreditar os adeptos, e aproveitou a postura mais pragmática do Boca Juniors. A entrada de Quintero veio trazer mais criatividade e desequilíbrios e quando Pratto marcou, a bancada veio abaixo… quase literalmente.

 

Foi uma onda com duas rebentações. Primeiro, os gritos e saltos com o golo. Depois, quando parecia que o pior já tinha passado e que nos tínhamos equilibrado sem cair, há uma segunda zona de impacto e é herói aquele que se consegue manter em pé. Somos agarrados e agarramos, somos empurrados e empurramos, somos puxados e puxamos, no meio de uma euforia digna de quem sente que voltou a agarrar a vida. E está novamente a acreditar.

 

Já ninguém se sentava há muito – talvez apenas por uns minutos no intervalo – e agora era mesmo impossível. As cadeiras estavam encharcadas com refrigerantes e cervejas que tinham voado durante os festejos.

Os espetaculares aquecedores

O jogo estava cada vez mais com a marca do River mas o Boca resistiu e forçou o prolongamento, trazendo um novo ingrediente especial a um jogo já por tudo histórico. Reduzido a dez logo no arranque, o Boca pareceu alimentar a estratégia de forçar os penáltis mas o River teve outra ideia. Nos primeiros 15 minutos, já com os aquecedores na cobertura do estádio ligados (a melhor invenção que já vimos num estádio de futebol), não fez a diferença, mas a segunda tinha novas explosões de euforia guardadas.

 

Ao minuto Eder, Quintero ganhou espaço à entrada da área e fuzilou Andrada, dando o mote para os minutos mais sul-americanos a que alguma vez pudemos assistir. De dez, o Boca passou a jogar com nove, perante a lesão de Gago. A seis minutos dos 120 (!), o guarda-redes Andrada começou a sair nos lances de bola parada e a tentar fazer a diferença.

 

Não havia critério, havia amor. Não havia cérebro, havia garra. Era a montra sul-americana no seu esplendor, o estereótipo a apresentar-se em Madrid, seduzindo milhares. Era uma tarefa ingrata, mas o Boca não virou a cara à luta. E, já em cima dos 120 minutos, quase gelou a bancada do River quando fez a bola beijar o poste. Foi o segundo batimento cardíaco que milhares de adeptos nunca mais vão recuperar.

 

Depois, no último suspiro do Boca Juniors, veio o selo final. Sem ninguém na baliza, Quintero lançou Pity Martínez que correu mais de metade do campo até chegar à bola e garantir o 3-1. Na bancada, já ninguém duvidava que ia ser golo. No relvado, jogadores do River começaram a ir festejar com o banco mesmo antes de a bola entrar na grande área.

 

 

Foi a cereja no topo do bolo. A final estava feita. A festa era diferente da do golo. Era uma festa de missão cumprida. Era uma festa de lágrimas nos olhos, de partilha de alegria com os familiares através de videochamada para a Argentina. Era uma festa única. Era uma festa de “valeu a pena”.

 

Tudo o que se seguiu não passou de uma experiência de recuperação de forças e descarga de adrenalina. A entrega dos prémios, os assobios aos jogadores do Boca que abandonaram o relvado antes de o troféu ser entregue, as vénias aos jogadores que se aproximaram daquele topo.

Festa no final do jogo

Fora do estádio, tudo estava calmo ainda. Havia gente a caminho do metro, mas o epicentro das celebrações ainda estava no Bernabéu. Nas carruagens, eram os adeptos do Boca Juniors que dominavam. Tinham expressões carregadíssimas. Havia lágrimas no canto do olho mas contrastavam radicalmente com as que tínhamos acabado de ver apenas uns minutos antes.

 

Não havia palavras. Havia olhos perdidos no horizonte, cérebros que repassavam o filme do jogo, o momento de glória, a oportunidade perdida. A tragédia de perder a final mais histórica da Libertadores. Aquela bancada que foi sendo insultada durante mais de três horas, era, afinal de contas, uma bancada de gente. De pessoas reais. Que queriam o mesmo mas que não o tiveram.

 

Era a terceira lei de Newton aplicada ao futebol. «A toda a ação corresponde uma reação de igual intensidade, mas que atua no sentido oposto». Desta vez a força do River Plate foi mais forte.

Uma experiência de sons e violência patrocinada pelos Bruins

TD Garden na sua versão de hóquei no gelo

Por esta altura já se devem ter apercebido que consumimos – em grande escala – tudo o que é desporto norte-americano. Mesmo em casa, nas madrugadas e aos fins-de-semana, gastamos horas a ver jogos da NBA (bom, aqui mais eu do que a Sarah), de basebol e de futebol americano. Em tempos, mesmo antes de nos conhecermos, cheguei mesmo a ver um jogo de lacrosse indoor quando fui a Boston pela primeira vez.

 

(publicado originalmente no atlas de bolso)

 

Provavelmente já terão pensado que falta aqui uma modalidade dos big-four: o hóquei no gelo. Para nós, é o patinho-feio. Em Portugal nunca vemos e quando vamos aos Estados Unidos raramente está na nossa lista de prioridades. Afinal, o dinheiro não estica e por muito que queiramos a experiência completa, é sempre preciso fazer opções.

 

Por outro lado, também somos incapazes de dizer que não a um desafio. Em abril de 2017, na primeira vez em que fomos a Boston juntos, havia um jogo dos Bruins logo na primeira noite. A experiência foi muito semelhante ao que aconteceu agora em novembro: fazer o voo, chegar, instalar e sair pouco tempo depois a caminho do TD Garden.

 

O que se espera quando se vai ver um jogo de hóquei no gelo? «Porrada!», talvez fosse a primeira resposta da Sarah. Mais do que a violência das placagens associada a cada jogada, há sempre uma abertura para os jogadores perderem a paciência e sentirem que está na altura de tirar as luvas e partir para a troca de mimos, perante o olhar atento dos adversários e da equipa de arbitragem, que espera um momento seguro para intervir e aplicar a sanção habitual.

Cadeiras amarelas e pretas dominam o TD Garden

Mas um jogo de hóquei no gelo é mais do que isso. A tradição em Boston é grande – os Bruins são uma das seis equipas que estiveram na génese da NHL – e até as cadeiras do pavilhão o comprovam. Sim, se alguma vez se perguntaram por que razão o pavilhão onde jogam os Celtics está cheio de cadeiras amarelas e pretas, é porque o primeiro inquilino do contrato com os proprietários é a equipa de hóquei no gelo.

 

O frio que emana do rinque

 

Os preparativos para um jogo de hóquei não são muito diferentes dos outros. A romaria até à estação de comboio onde está o pavilhão começa horas antes e é impossível não percebermos que há jogo, à conta das centenas de camisolas larguíssimas – especialmente por serem usadas sem as proteções que os jogadores têm – que circulam pelos arredores.

O urso que nos recebe à entrada

Quando subimos as escadas rolantes para a entrada oficial no pavilhão, deparamo-nos com um enorme urso, uma oferta de outras núpcias que deixou o dono sem saber o que fazer e acabou por figurar no anel exterior da bancada. Depois, assim que se passa pelas portas de acesso às cadeiras, há uma corrente de ar frio que nos recorda perfeitamente o que estamos ali a fazer.

 

O público-alvo também é diferente. Aliás, o mais curioso (sobretudo se os jogos forem vistos de “seguida”) é perceber como os espetadores são tão diferentes de modalidade para modalidade. A multiculturalidade do basquetebol distancia-se dos desportos de nichos como o basebol – mais virado para as comunidades latinas – ou o hóquei no gelo. Quando estivemos em Atlanta, por exemplo, vimos mais brancos e latinos no jogo dos Braves do que nos três dias inteiros que passeámos pela cidade.

 

No hóquei no gelo reina o instinto, o grotesco, o animal. No rinque e na bancada. Os festejos por cada placagem mais violenta transportam-nos (como se fosse possível) para o Coliseu de Roma. O público quer golos e vitórias mas está sedento de violência, das jogadas mais agressivas, das pancadas no disco que ecoam pelo pavilhão e que atingem o auge quando entram em rota de colisão com um dos ferros da baliza.

 

O hóquei no gelo é também um desporto de sons. Talvez mais do que qualquer outro. Mesmo sentados na última fila do pavilhão, como caçadores que observam a presa (os Bruins) de longe, não conseguimos escapar a esta sensação. Os patins a cravar no gelo, o impacto das proteções de cada jogador numa jogada junto à parede do campo, os festejos nas bancadas… o disco a embater no poste. E, no auge, a sirene que toca assim que há um golo.

 

É o descarregar de toda a adrenalina. Não é uma emergência – embora o som seja igual à buzina de um grande navio – mas sim o toque de saída para a celebração. Cada equipa tem uma música que passa logo a seguir à sirene, que fica associada diretamente aos golos, e no caso dos Bruins é a Kernkraft 400 dos alemães Zombie Nation. É uma música eletrónica, pouco criativa, mas que se associa na perfeição a todo aquele ambiente. E que fica no ouvido.

 

Passada a euforia, já depois dos festejos e do recomeço do jogo, o comentador do pavilhão faz o anúncio oficial do golo, com o marcador e os autores da assistência. A terminar, religiosamente, solta uma espécie de uivo que é replicado por milhares de pessoas.

Bruins venceram 4-0

Sabem o que dizem do futebol em Portugal como sítio perfeito para descarregar as emoções do quotidiano? Bem, ver um jogo de hóquei no gelo consegue ser ainda mais adequado para libertar stress… nos momentos adequados.

 

A cada intervalo – um jogo tem três partes de vinte minutos – entram os famosos zambonis (uma espécie de trator que garante o estado perfeito do piso), muitas vezes com crianças no lugar do pendura. Assim, num abrir e piscar de olhos, a arena de gladiadores sobre o gelo torna-se num lugar para crianças inocentes cumprirem um sonho enquanto acenam para bancadas que reentraram numa fase de tranquilidade.

 

Resumindo, ver um jogo de hóquei no gelo nos EUA é uma experiência única. Tem momentos violentos mas não deixará de ser uma opção muito interessante, mais não seja para quem tenha algum interesse sociológico.

Ver um jogo dos Celtics com direito a um brinde especial

Celtics bateram o recorde de triplos contra os Bucks

Comprámos os voos para a última viagem que fizemos a Boston na noite de 28 de agosto depois de menos de dez minutos de debate. A partir do momento em que vimos os preços dos bilhetes para o fim-de-semana alargado de 1 a 4 de novembro, não hesitámos e seguimos em frente.

 

(publicado originalmente no atlas de bolso)

 

Não houve hesitações. Sabíamos ao que íamos e não tínhamos dúvidas mas houve um impulso que nos fez ter ainda mais a certeza que queríamos mesmo ir naquelas datas: logo no dia 1, poucas horas depois de chegarmos, havia um jogo entre os Celtics e os Milwaukee Bucks, do fenómeno Giannis Antetokounmpo. Não precisávamos de desculpa mas ter um cartaz destes à nossa espera só nos fez avançar com mais confiança – mesmo que a Sarah continue a não achar grande piada ao basquetebol.

 

O jogo estava marcado para as oito da noite e o nosso voo, salvo grande atraso, aterrava no Logan entre as duas e as três. Numa outra cidade, a proximidade das horas poderia vir a ser um problema, mas Boston é mais amigável neste aspeto. Sim, demoramos sempre algum tempo a passar no controlo, mas chegar a casa demorou apenas alguns minutos.

 

Olhámos para o relógio, fizemos contas ao tempo que precisávamos e iniciámos a nossa romaria na direção do TD Garden. Parafraseando Rui Veloso, tínhamos praticamente todo o tempo do mundo. Ao sair de casa, em vez de apanharmos diretamente o metro, preferimos ir a um parque junto à baía para ver Boston de uma perspetiva que ainda não conhecíamos, e só depois fomos em direção ao pavilhão.

Uma vista exterior do TD Garden

O TD Garden é um dos pavilhões da NBA que abre as portas mais em cima da hora do jogo: apenas 60 minutos antes. Deu tempo para tirar algumas fotos no exterior e ir para a estação de comboios – que fica no andar de baixo do pavilhão – comer alguma coisa enquanto víamos o tempo a passar. Pelo meio, aproveitámos também para ir à loja da equipa, onde estava Jackie MacMullan. Para quem não sabe, é uma jornalista muito conceituada que trabalha no meio há décadas e já recebeu uma distinção da Hall of Fame do basquetebol. Estava lá a autografar o seu último livro, que eu até tinha comprado… em Miami, umas semanas antes, e deixado em Portugal. Má sorte.

 

Experiência especial… de todas as vezes

Chegar primeiro não deu direito a brinde...

Fomos dos primeiros a entrar no pavilhão. Havia apenas algumas dezenas de pessoas e, em vez de irmos logo para os nossos lugares (praticamente no topo, como sempre, porque são os mais baratos e porque não faz assim taaaaanta diferença no momento de ver o jogo), decidimos optar pela «estratégia-Saints». Em Nova Orleães, antes do jogo da NFL, ainda não tínhamos comido naquele dia e decidimos ver todas as ofertas disponíveis.

 

Foi o que fizemos no TD Garden. Não necessariamente para comer, mas para saber que hipóteses teríamos quando o apetite chegasse. A oferta não foge muito ao habitual num evento desportivo nos Estados Unidos: há cachorros, hambúrgueres, cerveja, muitas bebidas com gás, pipocas. Além disso, há sempre espaço para as pequenas salas com artigos desportivos da equipa.

 

Quando entrámos no nosso setor, ficámos uma vez mais boquiabertos com a história que aquele pavilhão representa. Inaugurado na década de 90, só viu ainda um título dos Celtics (2008) e um dos Bruins (2011) mas o teto transporta-nos para uma história ainda maior. É lá que estão os cartazes comemorativos de cada um dos 17 títulos da equipa de basquetebol, dos seis da equipa de hóquei no gelo, e dos inúmeros números que cada equipa já retirou em homenagem aos seus melhores jogadores. Olhando para ali, fica difícil achar que ainda há espaço para o próximo.

Banners dos títulos dos Celtics ocupam muito espaço

Os minutos que se antecedem à bola ao ar são sempre interessantes. As bancadas começam a encher-se de gente: familiares, amigos ou praticamente desconhecidos que têm nos Celtics um denominador comum. Foi o que aconteceu na fila imediatamente à frente da nossa com um grupo de sete ou oito homens com aspeto universitário. Da conversa inicial de ocasião, passaram a falar como se fossem amigos de longa data e, curiosamente, havia dois que condiziam com camisolas de Larry Bird, o histórico jogador de basquetebol. Havia uma diferença: um tinha-a com as cores dos Celtics, o outro tinha trazido a camisola dos tempos da universidade (Indiana State).

 

O espanto com um fenómeno grego

 

Boston é uma cidade com uma grande comunidade grega mas, ao contrário do esperado, nem se viram muitos a acompanhar a exibição de Giannis Antetokounmpo, o grego de origem nigeriana dos Bucks que está a tomar a NBA de assalto.

 

Por outro lado, não é preciso ser grego para admirar o que consegue fazer em campo e como parece diminuir qualquer rival que lhe faça frente. Ver Giannis jogar ao vivo consegue ser uma experiência tão sublime como apreciar Kobe Bryant, Tom Brady ou LeBron James. A sensação de sabermos que estamos a ver alguma coisa especial é única e fazemos o possível para guardar aquele momento… mesmo que estejamos claramente a torcer pelos Celtics.

 

O jogo foi histórico. Os Celtics venceram – apesar da reação de Milwaukee na parte final, depois de terem entrado para o último período a vencer por 15 – e fixaram um novo recorde de equipa: 24 triplos conseguidos. Do lado dos Bucks, Giannis Antetokoumpo, que até era para não jogar depois de ter sofrido uma pancada na cabeça no início da semana, marcou 33 pontos e mostrou tudo o que é capaz de fazer.

 

O entretenimento fora do jogo

Red Sox foram convidados especiais

Uma partida pode ter descontos de tempo e intervalos mas o espetáculo não. Não há liga no mundo tão profissionalizada na altura de ocupar os tempos mortos e os Celtics são fiéis a um conjunto de ações que repetem religiosamente. É claro que há os mais óbvios, como as danças das cheerleaders e os afundanços de um grupo que envolve a mascote da equipa (Lucky), mas depois, a cada jogo, é também homenageado um “herói” entre a população.

 

A iniciativa chama-se “Heroes among us” e pretende distinguir ações de pessoas desconhecidas que tenham feito a diferença na comunidade. Naquela noite, destacou-se uma criança que tinha estado internada na ala oncológica de um hospital pediátrico e que se tinha apercebido da falta de brinquedos. Depois de ter alta, decidiu doar uma boa parte dos seus para que as outras crianças tivessem com que brincar.

 

O ponto forte daquele dia foi, ainda assim, quando o treinador e alguns jogadores dos Boston Red Sox apareceram surpreendentemente para mostrar o título de campeões de basebol que tinham conquistado quatro noites antes. Para nós, não podia ter sido melhor. Depois de termos comprado a viagem, começámos a fazer contas à possibilidade de a festa de um eventual título poder ser celebrado connosco na cidade, mas os Red Sox trocaram-nos as contas e conquistaram a World Series cedo demais.

 

A verdadeira festa, com milhares de pessoas nas ruas, foi na terça-feira e nós só chegámos na quinta. Mas vê-los ali, juntamente com mais 20 mil pessoas nas bancadas, a festejar cada momento em que um jogador diferente erguia o troféu foi uma excelente consolação, sobretudo quando ainda não tínhamos recuperado a 100% do drama que tinha sido passar uma madrugada inteira a ver um jogo que demorou sete horas e vinte minutos e só acabou às oito e vinte da manhã… com uma derrota!

 

No final, tudo correu de forma perfeita. Os Red Sox foram campeões, foram ao pavilhão mostrar o troféu connosco lá dentro e os Celtics ganharam. Não havia melhor maneira de começar esta viagem a Boston.

Fenway Park é uma experiência para qualquer altura do ano

 

Não há absolutamente razão nenhuma para ir a Boston e não visitar o Fenway Park. Se gostarem de basebol, nem preciso de vos dizer nada. Se gostarem de desporto mas não de basebol, reconhecem a importância de estar numa das mecas de uma modalidade, seja ela qual for. Se gostam de conhecer por dentro as cidades que visitam, percebem que o Fenway Park é um símbolo de Boston. Se só viajam para fazer compras… há uma loja maior do que alguns hipermercados com todo o tipo de adereços dos Red Sox.

 

(publicado originalmente no atlas de bolso)

 

É incontornável. Não vos vou dizer que a história de Boston e dos Red Sox se confunde – isso seria uma enorme hipérbole – mas não há dúvida que a história da equipa de basebol nos últimos 100 anos é também – e muito – uma parte da história de Boston.

Fenway Park

O estádio foi inaugurado em 1912 e é o mais antigo da Major League Baseball. Ao contrário das construções mais recentes, mais preocupadas com o conforto e com grande lotação, o Fenway Park é famoso pelas suas peculiaridades. Boston sabe-o bem e é por isso que há sempre uma boa desculpa para estar lá dentro e conhecê-lo o melhor possível.

 

Há três opções: fazer o tour, como nós fizemos em abril de 2017 depois de termos percebido que o nosso jogo tinha sido adiado por causa da chuva e não teríamos uma segunda oportunidade, ver um jogo (fase regular vai do final de março ao final de setembro) ou… fazer as duas coisas.

 

É mais caro, claro, mas acho que compensa. No tour, visitamos zonas que seriam impossíveis de outra forma e aprendemos muito sobre o passado; no jogo, absorvemos o ambiente de um estádio praticamente sempre cheio – por ser dos mais antigos é também dos que tem menor lotação.

 

As peculiaridades do estádio

 

A visita começa na enorme loja do outro lado da Yawkey Way. Depois de uma breve apresentação – dizer que somos de Portugal, onde quer que seja, gera sempre um grande entusiasmo e curiosidade – entramos no estádio e vamos direitos ao balneário da equipa visitante.

 

É uma volta rápida e, subitamente, começamos a mergulhar na história dos Red Sox, muito baseada no sofrimento sentido durante o jejum de 86 anos sem títulos (entre 1918 e 2004). Cada paragem nas instalações é um motivo para falar de um tema diferente.

Cadeiras originais do estádio

Sentamo-nos num dos setores da bancada para recordar quão velho o estádio é, com aquelas cadeiras de madeiras originais, tão pouco confortáveis, mas que merecem destaque por estarem ali, sem serem substituídas, há mais de 100 anos. Visitamos a zona de imprensa para perceber melhor a dinâmica com os jornalistas e o apertado código de vestuário, passamos pelo Green Monster (a enorme muralha do lado esquerdo do campo que é possivelmente a parte de um estádio mais famosa de todo o basebol nos EUA), falamos sobre a isolada cadeira vermelha que representa o home run mais longo alguma vez batido naquele estádio e ficamos a saber que há uma horta biológica e painéis solares num pequeno terraço do estádio.

 

Aquela hora e meia é um conjunto de lição histórica com lição desportiva, associando sempre os grandes momentos dos Red Sox aos problemas de gestão do clube e a forma como foi evoluindo até se tornar um exemplo de sucesso. Os bilhetes para a visita custam vinte dólares.

Quando chove não há jogos, mas há tours

 

Ver um jogo dos Red Sox ao vivo

 

A zona do Fenway Park em dias de jogo ganha uma vida radicalmente diferente. Os bares nas imediações começam a encher muitas horas antes, a loja tem mais movimento e o aparato policial assinala que aquele não é um dia qualquer. Cá fora, há vendedores ambulantes de todo o tipo, barraquinhas com mais opções e homens que nos abordam na rua a perguntar se queremos comprar ou vender bilhetes para o jogo.

As ruas em redor do Fenway Park enchem-se nos dias de jogo

Há não muito tempo, os jogos no Fenway Park estavam sempre esgotados e comprar bilhete era uma missão mais complicada – embora nunca impossível. Sites como o StubHub ou o SeatGeek ajudam a garantir a presença na bancada meses antes de fazermos a viagem, tornando tudo mais tranquilo.

 

Quando entramos no estádio em modo de jogo, é impossível não reparar nas diferenças em relação à visita. Há mais vida, mais calor, mais ruído. A azáfama é enorme e ninguém pára. Há filas para passar o bilhete, para a casa-de-banho, para a loja e para comer. Só não há filas para sentar porque não calha… e porque nós vamos sempre com as galinhas.

 

Há bilhetes a preços simpáticos, perto dos vinte dólares, mas é possível gastar muito mais se quisermos ser importantes e ir para perto da ação. O mais complicado é mesmo garantir lugares no Green Monster. Podem não ser tão caros como os que estão junto dos bancos, mas a procura é muito maior do que a oferta e a antecipação é peça-chave para a compra.

O Green Monster de Fenway Park

No nosso caso, quando fomos em setembro ver o jogo com os Blue Jays de Toronto, quisemos ficar num sítio com boa visibilidade para a ação e não muito longe do Green Monster. Calhou-nos uma bancada familiar, chamada assim por ser proibido o consumo de álcool – peculiaridade que muitos ignoram, passando depois pela vergonha de serem repreendidos por elementos da segurança.

 

Ter um bom lugar no Fenway Park é uma ciência complicada. Os pilares que obstroem a visão multiplicam-se e há mesmos lugares que estão a poucos centímetros de um pilar. Nunca nos aconteceu, mas é possível comprar um bilhete para estar a olhar para um pilar durante três horas. Apesar de tudo, nos sites de compra de bilhetes, costuma surgir um aviso sobre se os lugares tem a vista total ou parcialmente obstruída. Dito de outra forma, desconfiem sempre se acharem um preço muito mais barato do que os outros.

 

A experiência do jogo em si não foi, na sua maior parte, muito diferente da de outros jogos a que já tínhamos ido. Ficámos atrás de uma família adepta dos Blue Jays, embora passassem mais tempo com os olhos no telemóvel do que no jogo, e… vimo-los festejar enquanto os Red Sox perdiam.

O ambiente de apoio aos Red Sox é inigualável

O momento mais diferente – que já sabíamos e esperávamos – foi quando a instalação sonora passou, como manda a tradição, o Sweet Caroline do Neil Diamond. O hábito tem mais de dez anos mas, depois de uma fase em que era muito bem visto pelos adeptos, tem-se tornado cada vez mais um motivo de debate: está ou não na altura de acabar com a música? Seja qual for a opinião popular, o certo é que milhares de pessoas se levantaram, puxaram dos telemóveis e gravaram o momento enquanto cantavam em plenos pulmões. Nós não fugimos à regra, claro está.

 

Se temos de ser romanos em Roma, por que não haveríamos de ser bostonianos em Boston? Vá, só não bebemos álcool, mas de resto houve espaço para os amendoins, os hambúergueres e as bebidas de litro com refill gratuito. É a experiência que faz a diferença.