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É Desporto

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Wu Lei. O fiel tesouro de Vítor Pereira

Wu Lei

Avançado chinês marcou 27 golos rumo ao título inédito do Shanghai SIPG no campeonato chinês e foi eleito o melhor jogador da temporada. Carreira de Wu Lei esteve sempre ligada à equipa de Xangai, ajudou o clube a subir duas vezes de divisão e já recusou propostas vantajosas para jogar no estrangeiro.

 

Wu Lei nasceu em novembro de 1991 e é um fruto da ideia de Xu Genbao. Em 2000, na viragem do século, o metódico treinador decidiu criar uma academia para formar jogadores nascidos entre 1988 e 1991. A ideia nunca seria ter uma equipa para competir profissionalmente, mas o fundador não conseguiu escapar ao desejo de garantir aos jogadores que formava um cenário onde pudessem ganhar experiência entre a elite.

 

Foi assim que nasceu o Shanghai Dongya, a 25 de dezembro de 2005, abrindo caminho para que Wu Lei se tornasse uma figura indissociável do clube. Menos de um ano depois, Wu Lei fez história ao tornar-se o jogador profissional mais novo na história da China (14 anos e 287 dias).

 

A evolução de Wu Lei confunde-se com a do agora conhecido por Shanghai SIPG. No terceiro escalão, o avançado tornou-se o mais jovem de sempre a jogar. No segundo escalão, já em 2008, Lei marcou pela primeira vez e assumiu-se como o… segundo mais jovem de sempre a festejar um golo. Tinha 16 anos e 284 dias e era apenas 47 dias mais velho do Cao Yunding, seu colega de equipa, quando este marcou em 2006.

Xu Genbao é visto como o padrinho do futebol de Xangai

A ideia de Xu Genbao ganhou pernas e deixou de ser apenas um viveiro de jovens talentos. A equipa profissionalizou-se cada vez mais, alguns dos jovens saíram, outros mantiveram-se e assumiram-se como pilares em Xangai. Com a subida à primeira divisão, em 2012, já não havia margem para travar este sucesso.

 

Com ou sem estrangeiros, Wu Lei foi sempre uma figura de proa e as suas estatísticas estão aí para comprová-lo: é preciso recuar até 2009 para encontrar a última época em que o avançado marcou menos de dez golos.

 

Os números são esmagadores: tem 169 golos em 344 jogos pelo Shanghai SIPG, é o melhor marcador chinês do campeonato há seis anos consecutivos e foi, em 2018, pela primeira vez, o melhor marcador da liga (27 golos). Além disso, foi eleito para a equipa do ano pelo quinto ano seguido.

 

A influência de Wu Lei na equipa de Vítor Pereira é incontornável. Com Eriksson e André Villas-Boas, os dois treinadores anteriores, já se notava o impacto, mas não tanto como este ano, ao juntar oito assistências aos 27 golos. Wu Lei foi o único chinês a marcar pelo menos 15 golos e terminou a edição da liga com seis golos de vantagem sobre o segundo melhor marcador: o nigeriano Odion Ighalo. A lista de hat-tricks também é dominada por Wu Lei: tem seis na carreira contra os cinco do brasileiro Elkeson.

Wu Lei

Internacional pela China desde os sub-17, com 12 golos em 57 jogos pela seleção principal, Wu Lei despertou a atenção de clubes europeus mas sair ainda não foi sequer considerado. Em 2017, depois de várias abordagens, Wu Lei explicou que ainda não era o momento: «Recebo ofertas de clubes europeus a toda à hora mas o timing não tem sido o certo. O meu objetivo agora é ajudar o meu clube a vencer títulos na China e na Ásia. Talvez depois disso comece a pensar em jogar na Europa».

 

Wu Lei ainda não tinha recuperado da desilusão. Na altura, o Shanghai SIPG tinha sido segundo no campeonato e perdera na final da Taça da China e nas meias-finais da Liga dos Campeões Asiáticos.

 

Agora, um ano depois, o timing pode mesmo ter chegado. Wu Lei foi eleito o melhor jogador do campeonato depois de o Shanghai SIPG ter sido campeão pela primeira vez na história. No Verão já foi associado a Jorge Mendes e ao Wolverhampton, e desta vez tudo poderá ser diferente.

 

Independentemente disso, Wu Lei é um filho da casa. É o expoente máximo do sonho de Xu Genbao e acompanhou a equipa desde a sua génese até ao título inédito, numa liga profissional cada vez mais competitiva. O seu legado estará sempre intacto.

Ray Caldwell. O pitcher que foi atingido por um raio e ainda terminou o jogo

Ray Caldwell ao serviço dos Yankees

Foi há praticamente cem anos. A 24 de agosto de 1919, Ray Caldwell, lançador dos Cleveland Indians, foi atingido por um raio quando a equipa vencia por 2-1 já no nono inning. O jogador ficou inconsciente, mas recuperou os sentidos e ainda foi a tempo de eliminar o adversário que faltava para garantir o triunfo.

 

Há histórias que são tão insólitas que pensamos que só podem ser mentira. Depois há esta de Ray Caldwell, há quase um século, que nos obriga a fazer uma viagem a um passado onde o profissionalismo era uma miragem distante, a preocupação com a condição física dos jogadores era uma piada e ser eletrocutado, depois de atingido por um raio, não era mais do que uma excelente nota de rodapé de um jogo propício para os trocadilhos.

 

«Lançador elétrico» e «exibição eletrizante» são apenas duas das expressões que já se escreveram sobre a carreira de Ray Caldwell, um jogador que tinha sido dispensado dos Boston Red Sox umas semanas antes e fazia a estreia pelos Cleveland Indians.

 

Com a época a entrar na reta final, a equipa do Ohio disputava o título da Liga Americana com os Chicago White Sox. Quem vencesse, seguiria para a World Series. Naquela tarde, num dia quente, Ray Caldwell entrou para o League Park em Cleveland para tentar derrotar os Philadelphia Athletics.

 

Estava tudo a correr bem. A equipa vencia por 2-1 e já só faltava eliminar um adversário. Joe Dugan foi chamado a bater e, com ele, chegou também uma tempestade que aterrorizou os espetadores. «O flash dos relâmpagos aqui e ali causaram muita excitação», escreveu Harry P. Edwards no The Sporting News sobre o momento em que os consecutivos estrondos provocaram o êxodo em massa dos adeptos em busca de proteção.

 

Para os jogadores, não havia margem. «Houve um flash enorme capaz de cegar e Caldwell ficou caído no chão. Os colegas de equipa temeram que tivesse morrido», escreveu também. O impacto foi tão forte que o chapéu e a máscara do catcher Steve O’Neill voaram. Até o árbitro Billy Evans se queixou do momento: «Todos conseguimos sentir a dormência do choque elétrico a percorrer-nos o corpo, sobretudo nas nossas pernas».

 

Ray Chapman, jogador dos Indians que viria a morrer no ano seguinte atingido por uma bola, foi um dos que mais ficou afetado. Mas Caldwell, também Ray, não se queixou. Nem podia. Estava no chão, inconsciente, e assim ficou, de acordo com testemunhas, durante cinco minutos.

 

Quando recuperou os sentidos, tentou perceber se estava tudo bem, certificou-se que não tinha nenhuma mazela incapacitante e percebeu que tinha apenas umas ligeiras queimaduras no peito. «Foi como se alguém se tivesse aproximado de mim com uma prancha e me tivesse atingido na cabeça para me derrubar», contou depois.

 

O impacto não o afastou do jogo. Faltava apenas eliminar um adversário, Joe Dugan, e Caldwell quis garantir que fazia o encontro completo na sua estreia. Resultado? Precisou de apenas mais um lançamento para começar a escrever a sua história em Cleveland com um triunfo.

 

Apesar dos esforços de Caldwell, os Indians não conseguiram levar a melhor sobre os White Sox no acesso à World Series. Curiosamente, este foi o ano que ficou manchado pelo escândalo de jogos combinados, mais conhecido por «Black Sox».

Polónia. O ano em que ser terceiro deu direito ao título

Legia perdeu o título na secretaria

O campeonato polaco em 1992/1993 foi decidido por golos e a última jornada foi rica em eventos estranhos. A Federação Polaca de Futebol não gostou da suspeição existente e, já depois de ter decidido multar as quatro equipas envolvidas, decidiu anular as vitórias do Legia Varsóvia (6-0) e do LKS Lodz (7-1), empurrando o título para o Lech Poznan.

 

Esta é uma história com base na suspeição e no instinto. É uma história sobre o não se bem muito bem como nem porquê, sobre o se parece é porque provavelmente é, e sobre a influência da federação no desfecho do campeonato polaco de 1992/1993.

 

Se perguntarem a uma pessoa polaca, o mais provável é ouvirem uma resposta apaixonada, cheia de detalhes técnicos, e repleta de acusações de corrupção, amiguismos, rivalidades e antagonismos. Esta é uma história de como o Lech Poznan terminou o campeonato no terceiro lugar a 20 de junho de 1993 e celebrou o bicampeonato a 10 de julho.

 

Ponto de situação: à entrada para a última jornada, havia três equipas a lutar pelo título. O Legia Varsóvia estava no primeiro lugar com 47 pontos e procurava conquistar o primeiro título desde 1970. A trajetória da equipa andava a ser muito irregular e nas temporadas anteriores ficou marcada pela luta pela permanência. Mas, de repente, um patrocinador decidiu começar a investir para a época 1992/1993 e o crescimento do orçamento fez a diferença dentro de campo.

 

No segundo lugar, também com 47 pontos mas com uma desvantagem de três golos no desempate, estava o LKS Lodz. Finalmente, o Lech Poznan, campeão em título, seguia com 46 pontos e só um aparentemente milagre poderia garantir-lhe o primeiro lugar.

 

Legia Varsóvia e LKS Lodz não vacilaram. Em Cracóvia, frente ao Wisla, os líderes do campeonato golearam por 6-0, num jogo em que Kowalczyk bisou em 24 minutos e em que Sliwowski fez um hat-trick entre os 63 e os 69 minutos. Em Lodz, o Olimpia foi goleado por 7-1. Fora desta luta, aparentemente, o Lech empatou a três golos com o Widzew, também de Lodz.

 

Na capital, festejou-se como nunca se havia festejado um campeonato de futebol. Os adeptos do Legia não eram campeões desde 1970 e o primeiro título em 23 anos era também um sinal de novo ciclo, esquecendo o sofrimento das batalhas pela permanência.

 

A Federação Polaca de Futebol achou os gordos resultados da última jornada estranhos e, logo no dia seguinte, multou as quatro equipas. Mais tarde, a 10 de julho, o organismo voltou a reunir-se e, com uma votação de 5-4, pronunciou-se a favor da anulação dos jogos de Legia e LKS Lodz com base em suspeitas de suborno.

 

Resultado? Legia Varsóvia, LKS Lodz e Lech Poznan terminaram todos com 47 pontos mas a diferença de golos era favorável aos últimos. Assim, com uma decisão burocrática, o Lech Poznan saltou do terceiro para o primeiro lugar e festejou – na secretaria – o bicampeonato.

Wojciech Kowalczyk marcou dois dos seis golos do Legia

As alegações nunca foram provadas. Os membros da federação pareceram ter agido por instinto e nunca demonstraram total confiança no que tinham decidido. Em livro, um dos marcadores dos golos do Legia, Wojciech Kowalczyk, ridicularizou a tese de resultado combinado: «Para mim, foi um jogo normal. Não falei com ninguém, fiz o que pude e marquei golos. E lembrem-se de uma coisa: o LKS é que tinha três golos de atraso, nós estávamos em vantagem».

 

«Nós estávamos a lutar pela glória de uma vida. Demos tudo para marcar o maior número de golos possível. O 2-0 não era suficiente por isso continuámos a rematar e a tentar marcar cada vez mais», continuou.

 

Apesar da luta judicial, a decisão não mais voltou a ser alterada e oficialmente o título continua a ser do Lech Poznan. O Legia teve de esperar mais uma época para quebrar o jejum e conseguiu vingar-se, somando logo um bicampeonato.

 

Hoje, 25 anos depois, o Lech só festejou por mais duas vezes (2010 e 2015), enquanto o Legia, já depois do bicampeonato, venceu o campeonato em 2002, 2006, 2013, 2014, 2016, 2017 e 2018). Com 13 títulos no total, já só é superado (por agora) pelo Ruch Chorzow e pelo Gornik Zabrze – ambos com 14.

 

Se aquele título não lhe tivesse sido retirado em 1993…

Geoffrey Boycott. O «herói» de Theresa May

Geoffrey Boycott a fazer o que sabia melhor

«Posso dizer-vos apenas que se devem lembrar algo de intervenções minhas anteriores sobre críquete, quando disse que um dos meus heróis sempre foi o Geoffrey Boycott? E o que é que vocês sabem sobre ele? Que fazia o que era necessário e conseguia os pontos necessários no final.»

 

Foi desta forma que Theresa May, primeira-ministra britânica, respondeu a uma pergunta sobre quantos membros do seu governo teriam de sair antes de se sentir forçada a abandonar o cargo. Houve, no entanto, um pormenor que não se pode ignorar: tanto a pergunta como a resposta obedeceram a uma metáfora de críquete.

 

Em vez de membros do gabinete, o jornalista utilizou wickets, termo que se usa para o conjunto de três “paus” e que é colocado junto ao batedor, que é eliminado sempre que permite que os wickets sejam derrubado pela bola.

 

Theresa May foi fiel à metáfora e recorreu a uma das figuras mais famosas do críquete britânico. Mas quem é ele afinal?

 

Geoffrey Boycott tem 78 anos (16 anos mais velho do que Theresa May) e jogou ao mais alto nível entre 1962 e 1986. Feitas as contas, começou a ser um destaque no Reino Unido quando May tinha apenas seis anos e fez carreira durante toda a adolescência da política, uma conhecida fã da modalidade.

 

O apelido de Geoffrey era quase uma premonição. O batedor do Yorkshire servia de autêntico boicote aos objetivos dos adversários, e defendia o wicket como ninguém, ao mesmo tempo que ia somando pontos: ao bater na bola e somando corridas entre as duas bases, enquanto os adversários não conseguiam derrubar o wicket, fosse no lançamento ou durante as corridas de Boycott.

 

A sua capacidade inata fez dele uma opção natural para ser sempre o primeiro batedor de cada equipa e os pontos foram-se acumulando naturalmente. Foi o primeiro inglês a ter uma média de 100 pontos por jogo durante uma temporada – e fê-lo duas vezes (1971 e 1979).

Geoffrey Boycott

Boycott não era, contudo, uma figura consensual, à imagem da sua fã Theresa. O ambiente com os colegas de equipa era conflituoso e a sua personalidade individualista vinha sempre à tona.

 

Esta propensão apareceu logo na adolescência, quando decidiu sair da escola aos 17 anos porque não queria estar dependente financeiramente – ou ser um fardo – dos pais. Além do mais, tinha um sonho que não queria deixar para trás: ser jogador profissional de críquete.

 

A qualidade fez a diferença desde cedo e começou a ser visto como um líder. Não pelo que inspirava nos outros mas sim pelo exemplo que dava enquanto jogador. A chegada a capitão (uma espécie de treinador-jogador no críquete) da equipa de Yorkshire County foi uma inevitabilidade, tal como a sua despromoção a simples jogador, anos mais tarde.

 

Boycott não era flor que se cheirasse e a decisão, em 1978, foi tratada com paninhos-quentes, apesar de ter calhado em cima da morte da mãe de Geoffrey. O timing, no entanto, não poderia ter sido pior. «São pessoas muito mesquinhas, gente que acha que está sempre certa. Isto estava tudo combinado. Sabiam o que iam fazer mas ao menos podiam ter adiado uns dias. Podiam ter permitido que pudesse enterrar a minha mãe em paz, mas tinham muita urgência», queixou-se.

 

Toda a carreira de Boycott seguiu esta tendência. Figura proeminente enquanto era absolutamente decisivo em campo, mas problemática, propensa a discussão e polémica quando os responsáveis entenderam que tinha chegado a um ponto sem retorno.

Geoffrey Boycott

Os números, contudo, entram para a história. Com uma série de recordes, Boycott será para sempre recordado como um dos melhores jogadores de Inglaterra. A personalidade? Essa foi sempre um problema mas nunca mudou, nem mesmo quando deu o salto para a televisão e começou a comentar jogos.

 

Mantendo a sua posição individualista – ignorando quaisquer etiquetas de convívio – sempre se apresentou com a formalidade necessária e com uma tendência memorável para frases que entraram no dicionário do desporto. Fora do críquete, a sua vida está marcada por dois grandes momentos: o cancro na garganta, que provocou uma paragem na carreira como comentador, e a acusação de agressão a uma antiga namorada.

 

Theresa May sempre gostou dele. Talvez por não ser uma figura unânime, com muitos defeitos, mas que conseguia render dentro de campo. A política quer emanar esta descrição e fazer o mesmo noutro campo. Aí será outra história.

O «palhaço» que levou a Polónia ao Mundial-1974

Jan Tomaszweski a brilhar em Londres

A equipa que chegou ao terceiro lugar da fase final na Alemanha será sempre lembrada por causa dos sete golos de Grzegorz Lato. Mas antes da glória, quando ainda não havia grande esperança, houve um homem, apelidado de palhaço por Brian Clough, que fez a diferença. Era guarda-redes, chamava-se Jan Tomaszewski e brilhou em Wembley.

 

O cenário não era favorável para a Polónia. A seleção de Kazimierz Gorski foi para o último jogo do grupo de qualificação para o Mundial-1974 no primeiro lugar, com um ponto de vantagem sobre a Inglaterra, mas estava obrigada a pontuar para garantir uma vaga na fase final.

 

Em Chorzow, na Polónia, uma exibição mais agressiva tinha valido um triunfo por 2-0 mas em Wembley o favoritismo dos ingleses era esmagador. Mais do que vencer, havia a dúvida sobre a diferença de golos, tal era a teórica superioridade de uma seleção que um mês antes havia goleado a Áustria (7-0) num particular.

 

«Quando estávamos a ouvir os hinos, em frente à bancada real, só pensava que não queria ser a próxima Áustria», recordou Jan Tomaszewski em declarações ao Guardian. «Medo? Eu não tinha medo, estava petrificado», continuou.

 

O ambiente era brutal – os ingleses ainda não tinham esquecido a agressividade do jogo da Polónia e brindaram os polacos com cânticos de «animais! animais!» assim que estes apareceram no relvado. Aquele 17 de outubro de 1973 tinha tudo para ser apenas mais um dia de superioridade inglesa, mas as palavras de Kazimierz Gorski ajudaram a marcar o tom.

 

«Podem jogar futebol durante vinte anos e fazer 1000 jogos pela seleção que ninguém se vai lembrar de vocês. Mas esta noite, neste jogo, têm uma oportunidade de escrever os vossos nomes nos livros de história», disse.

 

A motivação serviu de alguma coisa. Mesmo assim, logo no início do jogo, Tomaszewski cometeu um erro que poderia ter sido fundamental no resultado. Depois de segurar uma bola, não se apercebeu da proximidade de um avançado e largou-a no relvado para iniciar a jogada. Ao ver Clarke a correr para a bola, disputou o lance e acabou por partir um dedo.

 

«Ainda bem que levaste um pontapé, porque assim acordaste», disse-lhe um colega de equipa depois.

 

De palhaço do circo a marioneta

O lance em que parte o dedo

Jan Tomaszewski não tinha o mesmo estatuto de Lato mas tornou-se um dos jogadores mais famosos da Polónia ainda antes daquele jogo. Momentos antes do apito inicial, na transmissão televisiva, o castiço Brian Clough tinha apelidado o guarda-redes polaco de «palhaço do circo com luvas».

 

A vingança surgiu em campo. Apesar do erro inicial, o polaco partiu para uma exibição do outro mundo (vídeo do YouTube) que levou um jornalista do Guardian a escrever, logo na altura, que Tomaszewski parecia uma marioneta dentro da área com braços e joelhos a saírem por todos os lados.

 

«Toda a gente tinha medo daquele jogo. Mas é como quando temos um incêndio em casa e vamos encontrar forças onde não sabíamos que existiam. Foi o aconteceu ali, foi isso que nos deu força», explicou o guarda-redes ao Telegraph, quarenta anos depois.

 

A Polónia aumentou o choque dos 90587 espetadores quando se adiantou no marcador aos 57 minutos por Domarski e a Inglaterra só conseguiu mesmo bater Tomaszewski de penálti, seis minutos depois. O que se seguiu até ao apito final, naquela meia hora, foi uma exibição memorável.

 

«Às vezes, sinto que ainda consigo acordar a meio da noite e lembrar-me de cada minuto daquele jogo», disse o polaco. «Mostrámos que tudo é possível no futebol. Fomos para Wembley como patinhos-feios e regressámos como cisnes lindos.»

 

«No futebol há milagres e aquilo que se passou em Wembley foi incrível», disse, analisando um jogo em que a Inglaterra teve 36 remates (contra dois da Polónia), 26 cantos, duas bolas nos ferros e quatro bolas cortadas em cima da linha.

 

O empate garantiu a presença no Mundial e a motivação prolongou-se para a fase final, com os polacos, alicerçados nos sete golos de Lato, a atingirem o terceiro lugar. Tomaszwewski tinha 26 anos, foi considerado o melhor guarda-redes da prova e tornou-se o primeiro de sempre a defender dois penáltis na mesma edição (vs. Staffan Tapper da Suécia e Uli Hoeness da RFA).

 

O palhaço foi o último a rir.

Um jogo de râguebi do Top-14 em França

Formação ordenada durante o jogo

Publicado originalmente no atlas de bolso

Já vos contámos como acabámos por arranjar uma viagem para Toulouse. Claro que, pouco depois, a dúvida era o que podíamos encaixar: sendo o Stade Toulousain uma das maiores potências históricas do râguebi francês, era uma escolha natural.

 

As datas para o Top-14, o campeonato francês, só foram divulgadas mais tarde, por isso o plano inicial não contemplou a ida ao estádio. Quando finalmente soubemos que o dia 6 teria um Stade-Agen, a ideia começou a impregnar-se na nossa mente, mas ainda sem certezas. Afinal, já seria outubro, o jogo era quase às nove da noite (e o estádio um bocado fora de mão) e ainda tínhamos a incógnita do preço dos bilhetes.

 

Só uma semana antes da partida é que decidimos avançar – para variar, comprámos bilhete para os lugares mais baratos do estádio (15 euros cada um). O plano para sábado à noite estava traçado.

Estádio estava bem composto

Nesta coisa dos jogos ao ar livre, uma coisa que tem muita influência na experiência é o tempo. O tempo que demora, claro, mas sobretudo o tempo que está. E a previsão para Toulouse era de sol radioso e calor para sexta-feira e sábado… até à hora do jogo. Tendo já tido uma experiência desagradável com esses dias em que a temperatura desce a pique (que ninguém saiba que saímos de um jogo dos Cubs antes do final por causa do frio!), decidimos precaver-nos.

 

Depois de uma tarde passada de t-shirt, passámos pelo hotel para nos apetrechar com pulloveres, cachecóis e gorros. A temperatura descia e as nuvens estavam carregadas. Chegámos ao estádio e, como já esperávamos, parecíamos aliens no meio de uma multidão de calções e camisolas finas. Como habitual, demos o nosso passeio pelas imediações do estádio, e demos com um pormenor curioso: um monumento de homenagem aos jogadores do clube que morreram a combater por França.

Monumento de homenagem

Ainda não chovia, mas não esperámos mais do que 20 minutos: o que começou com uma chuva fraquinha não demorou a transformar-se numa chuvada de bátegas grossas, que obrigou todos os que, como nós, estavam nos lugares dos pouco ricos (fora do alcance da cobertura) a fugir para se abrigar.

 

O Rui, porque sabe destas coisas, teve logo a genial ideia de ver que lugares ainda estavam à venda por debaixo da cobertura, nos lugares acima de nós: a hora inicial do jogo aproximava-se e era pouco provável que fossem ocupados. Não foi o único: ao nosso lado, outro casal fazia exatamente o mesmo. Assim que vimos uma fila de lugares supostamente vazia num dos topos do estádio, soubemos o nosso destino.

 

Abrigados da chuva, não morremos de frio. E ainda bem, porque o jogo não seria capaz de aquecer ninguém. Como ouvimos no final “este foi daqueles jogos com resultado à antiga”: 10-0 para o Stade Toulousain. Mais do que o resultado, foi uma exibição que pecou pela falta de entusiasmo – nem o ensaio de Sebastien Bezy conseguiu trazer grande ânimo às bancadas, que recorriam à cerveja, vendida a jarro, para animar. As tentativas (dezenas?) de fazer a hola mexicana não pareciam pegar nem por nada, e um dos maiores divertimentos daquela hora e meia de jogo foi vaiar os setores do estádio onde a onda acabava. Quando finalmente a primeira deu a volta ao estádio, a multidão irrompeu em palmas - se fosse jogador, ter-me-ia perguntado que raio de passava ali, já que em campo não havia nada a acontecer.

Alinhamento durante o jogo

Sem pontos na segunda parte, o jogo ficou cada vez mais luta na lama e menos râguebi. O Stade teve uma última boa oportunidade aos 72 minutos, mas a bola parecia não colar nas mãos de ninguém. Fim do jogo, é partir para a próxima. Pelo menos já podemos dizer que vimos um jogo do Top-14.

 

(Mal sabíamos nós que podíamos ter feito jornada dupla: o Castres recebeu o Stade Français no domingo, a hora e meia de Toulouse. Tivemos a consolação de ver os gigantes a passar por nós no aeroporto, quando esperávamos o nosso voo.)

Shohei Ohtani. Um Babe Ruth dos tempos modernos

Shohei Ohtani

Era uma sensação no seu país e entrou na MLB sob o olhar atento de todos. A capacidade para jogar simultaneamente como lançador e batedor serviu de semente para as comparações com Babe Ruth e, apesar de uma época marcada por lesões, chega ao final da temporada com o prémio de rookie do ano da Liga Americana.

 

Houve 30 pessoas a votar e 25 não tiveram dúvidas no momento de escolher o japonês de 24 anos como melhor rookie. A estatística não mente mas pode ser enganadora: Shohei Ohtani terminou a época com uma média batedora de .285, com 93 hits e 22 home runs. Atrás dele, Miguel Andújar registou uma média de .297 com 170 hits e 27 home runs e Gleyber Torres acabou com uma média de .271 com 117 hits e 24 home runs.

 

A diferença é que Ohtani contribuiu de outra forma. Além de ser um batedor temível, fez também a diferença como lançador. Em dez jogos em que surgiu como o pitcher titular dos LA Angels, Ohtani venceu quatro jogos (perdeu dois e em dois não houve decisão enquanto esteve em campo), permitindo um ERA (pontos ao adversário por nove innings lançados) de 3,31, num total de 51,2 innings lançados e 63 adversários eliminados por strikes.

 


Confuso? Talvez haja uma estatística esmagadora que ajude a perceber a dimensão da temporada de Shohei Ohtani. O japonês tornou-se apenas o segundo jogador da história a conseguir um mínimo de 15 home runs e a lançar pelo menos 50 innings. Qual foi o primeiro? Um tal de George Hermann Ruth, mundialmente conhecido por… Babe Ruth.

 

A distinção não apaga a parte negativa da temporada. Ohtani foi sofrendo com problemas no cotovelo e foi operado no início do defeso. Este tipo de operações, conhecidas por Tommy John, têm um processo de recuperação demorado e, mesmo que volte a bater pelos Angels na próxima época, Ohtani só deverá voltar a iniciar um jogo como lançador em 2020.

 

A decisão como reality show

Shohei OhtaniShohei Ohtani era um fenómeno no basebol japonês e a possibilidade de poder jogar nos Estados Unidos abriu caminho para uma onda imparável de especulação. Poderia ser como Babe Ruth? Conseguiria um jogador ser igualmente decisivo a lançar e a bater? Como seria gerido um jogador com estas características? Que equipas teriam capacidade para atrair um jogador com este talento?

 

Não houve na MLB quem não tentasse recrutar os serviços de Ohtani depois de a MLB e a liga japonesa terem chegado a acordo para a ida do jogador para os Estados Unidos. Como era menor de 25 anos, teria de assinar um contrato de rookie e, como tal, submeter-se ao processo de recrutamento dos rookies. Ou seja, qualquer equipa poderia ter hipótese. Financeiramente, entenda-se, porque desportivamente Ohtani tinha uma ideia fixa.

 

Equipas históricas como Red Sox e Yankees foram excluídas rapidamente. Eram da costa Este e Ohtani queria preservar o seu legado, garantindo que a diferença horária dos seus jogos para o Japão não fosse muito grande. Perante tanto interesse, Ohtani reduziu a lista de hipóteses a sete equipas: cinco ficavam junto ao Pacífico (LA Angels, LA Dodgers, San Francisco Giants, San Diego Padres e Seattle Mariners) e duas já implicavam uma aventura (Texas Rangers e Chicago Cubs).

 

Ohtani também queria garantias. Queria poder jogar como batedor e como lançador. Queria uma solução de compromisso que lhe permitisse manter e prolongar o seu legado como jogador único para os moldes modernos. Os Angels ganharam a corrida e tornaram-se rapidamente uma equipa a não perder. Mike Trout, discutivelmente o melhor jogador da década na MLB, tornou-se uma atração secundária: não havia quem não quisesse saber mais sobre Ohtani durante a pré-época.

 

O arranque foi promissor. Fez um hit na primeira vez que foi bater e, dias depois, ganhou na estreia como lançador. Os home runs apareceram nos jogos seguintes e as comparações com Babe Ruth começaram a ter uma base de sustentação aceitável.

 

Quando tudo parecia correr de forma perfeita, as lesões reapareceram e afetaram uma época que tinha tudo para ser memorável. Agora, o prémio de rookie do ano é uma fraca consolação mas que confirma o seu estatuto de fenómeno raro.

A história sueca de sucesso do filho de refugiados

Henek Goitom

«Ajudada pelos seus aliados soviéticos e cubanos, a Etiópia inverteu a maré na Eritreia, recuperando controlo efetivo sobre os rebeldes e sobre a província estratégica a norte. Na semana passada, 100 mil eritreus terão fugido para as montanhas depois de as forças etíopes terem recapturado Karen», escreveu o New York Times na sua edição de 17 de dezembro de 1978.

 

A década de 70 marcou um dos maiores fluxos migratórios de refugiados da Eritreia na sequência da guerra que lhes foi imposta pelo imperador da Etiópia, Haile Selassie, no início dos anos 60. Entre os refugiados estavam Goitom Habtemariam e Zaid Awalom. Depois de terem atravessado o deserto, conseguiram encontrar uma rota para a Europa e foram parar à Suécia, onde reconstruíram as suas vidas.

 

Seis anos depois, a 22 de setembro de 1984, em Solna, nos arredores de Estocolmo, nasceu Henok Goitom. Agora, em 2018, Henok foi o homem que ergueu o troféu do primeiro título de campeão do AIK Estocolmo desde 2009. Além de ser filho de refugiados, tornou-se também o primeiro atleta de origem africana a capitanear uma equipa campeã na Suécia.

 

Uma forma multidisciplinar de ver o desporto

 

O futebol entrou na vida de Henok Goitom quando este tinha apenas cinco anos. A viver num subúrbio a noroeste de Estocolmo chamado Tensta, marcado pela forte presença de habitação social, criou um grupo de amigos e jogava na rua. Não interessava se chovia, se havia campo, se eram apenas três. Desde cedo, para problemas, foi instruído a encontrar soluções e a descobrir uma forma de contornar obstáculos.

 

O pai, antigo internacional de basquetebol pela Eritreia, foi uma forte influência. Era ele o treinador da primeira equipa de futebol verdadeiramente organizada onde jogou, a partir dos nove anos. Quando mudou de casa, pouco depois de fazer dez anos, e foi viver para uma zona de um estrato social mais elevado e com mais alternativas, Henok começou a experimentar outras modalidades.

 

Todas as semanas fazia um desporto diferente na escola e aprendeu a retirar o melhor de cada um: «O basquetebol ajudou-me a ficar mais confiante com a posse de bola. Tive de começar a ser mais rápido a analisar a jogada. Se pestanejasse, ficava sem bola e o adversário marcava. O andebol ajudou-me a defender, e no hóquei tive de aprender a mudar de direção com movimentos explosivos. Mais uma vez, se não estivesse atento ao que me rodeava, perdia por completo o controlo da jogada».

 

Durante uma época, a equipa de futebol treinada pelo pai decidiu começar a participar em torneios de basquetebol. Goitom Habtemariam apregoava a necessidade de serem atletas completos e, no fundo, o mais importante era que se divertissem a jogar. O problema chegou num torneio quando a equipa chegou à final e teria de defrontar a equipa de basquetebol onde o próprio Henok também jogava.

 

«Estávamos apenas a divertirmo-nos. Ninguém pensou que íamos fazer batota até nos defrontarmos na final», confessou. A organização não gostou e decidiu cancelar o jogo. Para a equipa, foi indiferente: «Só lá estávamos para nos divertirmos. Era sempre a nossa maior prioridade».

 

Herança familiar na mentalidade desportiva

Goitom foi internacional pela Suécia nos escalões jovens

O desporto era um escape de diversão mas a vida da família não era um mar de rosas. Os sacrifícios eram uma constante e a força mental uma obrigação para fazer frente às dificuldades do quotidiano. «Do sítio de onde vinha, era preciso desenvolver força mental. Ninguém, tirando os meus amigos próximos e família, acreditava em mim. Por isso tinhas de ser tu a acreditar. Tínhamos regras simples. Ensinaram-me a ser humilde e a dar sempre algo de volta.»

 

Em casa, a família comia sempre reunida, «ninguém se atrevia a ver televisão». E se a conta do telefone chegasse com um valor mais alto do que o esperado, havia uma reunião. «Falávamos todos e decidíamos como poderíamos ajudar, fosse financeiramente ou simplesmente a passar a ser mais económico no uso do aparelho», contou.

 

A relação com o pai foi o pilar principal na sua evolução enquanto jogador. «Assegurou-se de que não precisaria de ir para os melhores clubes de Estocolmo para melhorar. O mais importante era jogar e desenvolver a minha qualidade. Não me preocupava em ganhar, apenas em jogar bom futebol», disse, acrescentando que a cultura familiar, com os princípios eritreus, era mais honesta na altura de criticar. «Na Suécia há muito a filosofia de relevar a importância da participação.»

 

A dedicação ao desporto era máxima. Nunca chegava atrasado, fosse a um treino ou a um jogo. O objetivo era divertir-se, mas fazia-o com disciplina… e prazer. «Na altura não tínhamos computadores nem telemóveis. Íamos para o rinque mais próximo e esperávamos que lá estivesse alguém pronto para jogar. Se estivesse ocupado, arranjávamos uma alternativa. Jogávamos em qualquer superfície, fosse alcatrão ou areia. O mais importante era jogar.»

 

Dar nas vistas e transformar-se na pérola da Udinese

Marcou ao Inter pela Udinese em sete minutos

A era de aliar vários desportos foi ultrapassada. Com 16 anos centrou-se exclusivamente no futebol e estreou-se no escalão sénior. Teve dificuldades mas não virou a cara à luta e começou a dar nas vistas.

 

O caminho de progressão foi sustentado e chegou às seleções jovens da Suécia. Um dia, em Portugal, durante um jogo de qualificação para o Europeu sub-19, deu nas vistas e foi recrutado para a Udinese de Spalletti, Di Natale e Iaquinta. Era um jovem, teve poucas oportunidades e a experiência foi dizimada por uma lesão mas, no único jogo que fez em duas temporadas, entrou aos 83 minutos para marcar o golo do empate contra o Inter.

 

Depois da Itália, a Espanha. Emprestado pela equipa italiana, mostrou os seus dotes goleadores no Ciudad Murcia e assinou em definitivo pelo Murcia em 2007. Mais uma vez, voltou a ter dificuldades para se impor. A cedência ao Valladolid foi benéfica, marcando dez golos em 29 jogos, e permitiu o salto para o Almería.

 

Por esta altura, e depois de gorado o sonho de chegar ao Mundial com a Suécia, começou a pensar em representar a seleção da Eritreia, em novembro de 2010. «O meu pai tem estado em contacto com o presidente. Já lá estive duas vezes e sei que o futebol não é a prioridade, porque as pessoas têm de trabalhar arduamente para terem um telhado e para poderem comer, coisas que vemos como garantidas na Europa.»

 

Regressar ao campeonato sueco para ser feliz

Fez história pelo AIK Estocolmo

A carreira de Goitom estagnou em Espanha mas a primeira experiência no AIK Estocolmo, entre 2009 e 2012, fixou as raízes daquilo que é hoje. Deu nas vistas, tornou-se uma figura do campeonato e nem a saída à procura de melhores contratos – Getafe e San Jose Earthquakes – impediu que fosse visto como um líder.

 

Em 2015, a estreia pela Eritreia chegou mesmo («os meus pais fizeram os possíveis para me ensinar a língua e quase tudo sobre a Eritreia e a sua cultura. Entendo muito bem quando falam comigo mas é mais difícil falar»), marcando um golo em dois jogos, mas o momento mais marcante só chegou agora, em 2018.

 

O AIK conquistou o primeiro título desde 2009 e o capitão da equipa é… Henok Goitom. Os tempos do futebol de pé descalço e obsessão pela diversão fazem parte do passado mas foi este “menino da terra”, nascido muito perto do estádio, que marcou o fim do jejum. O filho de refugiados eritreus entra para a história como o primeiro capitão de origem africana a erguer o troféu do campeonato sueco, culminando de forma perfeita uma história bonita de perseverança e dedicação.

Dérbi de Sheffield. O Massacre do Boxing Day de 1979

Os festejos do Sheffield Wednesday

Não foi um jogo qualquer. Wednesday e United não se defrontavam desde 1971 e a expectativa para o 100.º dérbi entre as duas equipas era tão grande que havia 500 polícias destacados para manter a ordem. O jogo podia ser da terceira divisão mas estiveram quase 50 mil espetadores na bancada de Hillsborough a assistir à goleada do Wednesday (4-0), a maior de sempre a seu favor na história do Steel City Derby.

 

Sheffield estava a viver os últimos dias da década de 70 e a população da área urbana continuava a decrescer, dos 657 mil habitantes de 1970 para os 643 mil de 1980. Mas o ambiente para o dérbi de Sheffield não deixava margem para dúvidas: a cidade ia parar para acompanhar o primeiro jogo entre as duas equipas desde 1971.

 

Não era mesmo um jogo qualquer. Além de não se defrontarem há mais de oito anos, a perspetiva de ser o centésimo encontro entre os dois clubes tornava tudo ainda mais importante e valioso. O jogo até foi marcado para o final da manhã para evitar que grande parte dos adeptos chegasse ao pontapé de saída com os níveis de álcool no sangue acima do desejado.

 

Havia uma ideia peregrina de tentar mostrar aos adeptos que a relação entre os dois clubes era saudável e organizou-se tudo para que as duas equipas entrassem em campo lado a lado, mesmo que, conta Terry Curran (uma das figuras do Sheffield Wednesday), as conversas durante a semana apontassem no sentido contrário.

 

«Não podíamos perder aquele jogo. Nem por sombras. Havia muitos adeptos do Wednesday na equipa, eu incluído, e esse foi o tema durante a semana. Depois de treinar, costumávamos ir para um café perto do estádio para falar sobre o que íamos fazer a cada jogador do United», explicou recentemente numa entrevista.

 

Hillsborough encheu para o jogo

O treinador do Sheffield Wednesday, Jack Charlton, também não dava abébias, garantiu Curran. «Foi mais do mesmo. Olhou para mim e disse-me que, na primeira vez que pudesse, devia provocar o rapaz que jogava na frente, o Mick Pickering. Depois virou-se para o Mark Smith e disse que a seguir devia ser ele a fazer o mesmo.»

 

«Era assim que funcionava. Preparávamo-nos para antagonizar os adversários para que eles reagissem e fossem expulsos. O Jack não tinha rodeios com isso. Dizia-nos para fazermos algo a um jogador e depois garantia que não tínhamos de nos preocupar em sermos expulsos. Dizia-nos que estava obrigado a dizer à imprensa que íamos ser multados, mas que depois não aconteceria nada disso», continuou.

 

A predisposição no balneário do Sheffield United era exatamente igual por isso houve faísca assim que os jogadores das duas equipas se viram no túnel de acesso ao relvado. «O McPhail olhou para mim e disse-me que me ia partir a perna logo no primeiro minuto», lembrou Curran. «O John Lowey ouviu aquilo e quase começou uma cena da pancadaria, dizendo-lhe que primeiro teria de passar por cima dele.»

 

Favoritismo não interessou para nada

 

O United ocupava a primeira posição do campeonato e era favorito ao triunfo no dérbi. O Wednesday estava no quarto lugar, a seis pontos do rival, e com apenas dois triunfos em sete jornadas. Mas dentro de campo, o futebol foi outro. Num jogo decidido pela capacidade de aproveitar as oportunidades, Terry Curran brilhou com um golo, uma assistência e uma grande penalidade sofrida que viria a dar o 4-0.

 

«Quando marquei, estava junto da bancada dos adeptos do United e não resisti a festejar a escorregar de joelhos para a frente deles. Fui brindado com moedas. Centenas delas. Recebia 300 libras por semana e juro que teria ganhado mais se as tivesse apanhado uma a uma», brincou. Depois, quando o jogo terminou, não resistiu a provocar McPhail. «Pensei que me ias partir a perna, afinal nem sequer te aproximaste de mim», disse-lhe.

O golo de Curran

O resultado foi a maior goleada na história dos dérbis para o Sheffield Wednesday, que vingou o 3-7 sofrido a 8 de setembro de 1951. Terry Curran, promovido a vilão do United, era um homem realizado: «É um espetáculo ganhar 4-0 perante quase 50 mil espetadores. Foi um bom jogo e um grande dia para a cidade. Só me sinto um pouco desiludido pelo United», disse logo na altura.

 

Os treinadores foram mais modestos na avaliação. Jack Charlton admitiu que o Wednesday tinha tido alguma sorte na finalização: «O resultado é simpático para nós mas fizemos o nosso trabalho e soubemos aproveitar as nossas oportunidades». Do outro lado, Harry Haslam lamentou que Mick Speight tivesse saído lesionado aos 54 minutos. «Prejudicou-nos, mas a verdadeira razão para a nossa derrota foi a desorganização defensiva.»

 

O resultado marcou a toada para o futuro. O Wednesday subiu de divisão nesse ano, enquanto o United ficou perdido no meio da tabela, antevendo a inédita despromoção ao quarto escalão no final da temporada seguinte.

 

Hoje, as equipas vão defrontar-se pela 130.ª vez. O Sheffield United tem vantagem nos dérbis (46 triunfos contra os 42 do Wednesday) e até está em posição de acesso ao play-off de promoção para a Premier League: terceiro posto com 29 pontos. O Wednesday está perdido no 17.º lugar com 19 pontos. Será que importa para alguma coisa?

Divac e Petrovic. Uma amizade destruída por uma bandeira

Vlade Divac e Drazen Petrovic

Os movimentos independentistas ganhavam cada vez mais força na Jugoslávia e meses antes do Mundial de Basquetebol na Argentina, em 1990, já os croatas tinham votado em peso a favor da separação. Os primeiros sinais de guerra apareceram logo em maio, com os conflitos num Dínamo Zagreb-Estrela Vermelha, mas a seleção de basquetebol conseguiu chegar a agosto com o espírito de grupo intacto.

 

O título – o terceiro da história e o primeiro em doze anos – foi alcançado mas o que seria um motivo de orgulho acabou por marcar o fim irremediável da relação entre melhores amigos: o sérvio Vlade Divac e o croata Drazen Petrovic.

 

Tudo começou com uma idolatria quando Vlade Divac era adolescente. «Ele [Petrovic] era o meu ídolo. Eu tinha 13 anos e ele já tinha 17. Já se falava de alguém que ia ser o melhor jogador da Europa. E todos os miúdos, não apenas eu, começaram a seguir a sua carreira.» E havia razão para isso. O «Mozart do basquetebol» era um exemplo. A mãe revelou num documentário da ESPN, «Once Brothers», que Drazen «ia para o ginásio sozinho às seis da manhã quando andava na escola». «Era assim que gostava de treinar. Nunca se deixava impressionar pelo sucesso, acreditava sempre que podia fazer mais.»

 

Em 1988, o caminho de Divac e Petrovic juntou-se finalmente na seleção jugoslava que preparava a participação nos Jogos Olímpicos de Seul. O estágio de três meses foi feito nas montanhas em Rogla, na atual Eslovénia. Os responsáveis decidiram os pares dos quartos com base nas diferentes personalidades e Divac e Petrovic ficaram juntos. Se um era o exemplo perfeito do trabalho árduo e do acordar cedo, o outro era, contam os colegas, alguém que dava tudo por mais uns minutos na cama.

 

Os anos que se seguiram fortaleceram os laços entre as duas principais figuras de uma seleção que também contava com Toni Kukoc e Dino Rada. Em Seul, foram vice-campeões olímpicos e no ano seguinte, em Zagreb, conquistaram o Europeu. Nessa altura, os dois abriram as portas da NBA para os europeus. Vlade Divac foi escolhido pelos LA Lakers, enquanto os Portland Trail Blazers fizeram finalmente uso à escolha no draft de 1986. Um ia jogar com Magic Johnson, o outro com Clyde Drexler.

Divac foi para os Lakers, Petrovic para os Blazers

As dificuldades na língua e na adaptação fizeram como que Divac e Petrovic começassem a falar todos os dias. O primeiro era utilizado e somava sucessos, o segundo sofria para ter minutos em campo. «Sentia-me mal quando alguém que marcava 40, 50, 60 pontos na Europa me ligava satisfeito a dizer que tinha feito dois pontos», desabafou Vlade Divac no mesmo documentário.

 

A primeira época na NBA pode ter sido frustrante para Drazen Petrovic, apesar da presença na final, mas o Mundial da Argentina estava a caminho. A tensão na Jugoslávia aumentava mas Divac garante que os jogadores não se deixaram afetar: «Jogávamos basquetebol, não fazíamos política». Durante a competição, os movimentos nacionalistas ganharam ainda mais força e os elementos da equipa foram avisados para ignorar possíveis episódios.

 

Era 19 de agosto e a Jugoslávia acabara de derrotar a União Soviética por 92-75 para se sagrar campeã. Durante os festejos, um adepto consegue entrar em campo com uma bandeira croata. Vlade Divac conta o seu testemunho: «Aconteceu uma coisa que me ia assombrar para sempre. Disse-lhe que aquela bandeira não pertencia ali e ele respondeu-me a dizer que a bandeira da Jugoslávia era uma valente merda. Eu fiquei tão chateado que agarrei nela e atirei-a fora».

 

Fim de conversa? Nem por isso. Num primeiro momento, a situação parece ter passado em claro mas o regresso à Jugoslávia foi difícil. A imprensa da Croácia tinha empolado a situação. «Tudo tinha ficado fora de proporção. E o Divac estava com muito má publicidade porque as pessoas usaram a história para inventar coisas», explicou Dino Rada, um croata da seleção. «Houve histórias de que ele tinha cuspido na bandeira, que a tinha pisado», acrescentou Toni Kukoc em declarações à ESPN.

 

Drazen Petrovic era um croata orgulhoso e sempre interpretou a ação de Vlade Divac como um ato político. A partir daí, a relação entre os dois esfriou, apesar das tentativas de apaziguamento. «Ele dizia-me que a situação na Jugoslávia estava má e que era melhor esperarmos para ver no que ia dar», conta o sérvio. Entretanto, a guerra atingia novos limites e milhares de pessoas morriam diariamente. A atitude de Divac tinha feito dele um herói na Sérvia mas um vilão na Croácia. Por isso mesmo, outros croatas como Toni Kukoc e Dino Rada eram incentivados a cortar relações. «Voltei a casa e os meus amigos, que lutavam na primeira linha, diziam-me para não falar com ele, porque poderia ter um problema», recordou Toni Kukoc.

 

Vlade Divac defendeu-se sempre garantindo que estava a manter a Jugoslávia como um todo e não a atacar a Croácia mas as suas ações nunca foram entendidas. Petrovic não o desculpou e a relação acabou de forma abrupta, até porque em 1993 o croata morreu num acidente de viação na Alemanha.

 

«Sempre pensei que um dia poder-me-ia sentar à frente de Petrovic para conversarmos. Mas esse dia nunca chegou. Construir uma relação demora anos. Para a destruir, basta um segundo. Foi exatamente o que nos aconteceu.»

O dia em que Boban pontapeou um polícia

O famoso pontapé de Boban

Dizem que começou uma guerra. Naquele final de tarde de 13 de maio de 1990, o clássico entre o Dínamo Zagreb e o Estrela Vermelha ficou marcado pela violência num jogo que não chegou sequer a aquecer mas provocou a detenção de mais de 100 pessoas e com a contabilidade oficial de feridos a fixar-se nos 117 polícias, 39 adeptos da equipa de Belgrado e 37 da equipa de Zagreb. No meio, o então jovem Zvonimir Boban envolveu-se diretamente e pontapeou um polícia que estava a atacar um adepto croata.

 

A guerra só começou a 31 de março de 1991 mas não é preciso fazer um esforço muito grande para recuar até maio do ano anterior e encontrar dois sinais claros do que estava para acontecer. Primeiro, a 6 de maio, os croatas não deixaram dúvidas nas primeiras eleições com mais do que um partido e manifestaram uma tendência esmagadora pró-independentista. Depois, claro, o jogo.

 

Era a penúltima jornada do campeonato e, sem surpresa, os dois clubes estavam no topo da classificação. Do lado do Dínamo havia Zvonimir Boban e Davor Suker, do lado do Estrela Vermelha, a um ano do inédito título europeu, jogavam Robert Prosinecki, Dragan Stojkovic, Dejan Savicevic e Darko Pancev.

 

Mas ali, naquele dia, as atenções centraram-se sobre outros protagonistas. Os confrontos começaram um pouco por toda a cidade, com cerca de 3000 adeptos do Estrela Vermelha a fazer a viagem até à hoje capital da Croácia, mas só no estádio Maksimir é que escalou até um ponto sem retorno.

 

As versões são contraditórias. As provocações foram várias e, dependendo de quem se ouve, aprende-se que os apedrejamentos e agressões tiveram início do “outro lado”. O certo é que não demorou muito até os ultras do Estrela Vermelha (Delije) começarem a incendiar cartazes publicitários e a agredir adeptos croatas ou até os ultras do Dínamo Zagreb (Bad Blue Boys) romperem a vedação para se juntarem aos confrontos.

Confrontos nas bancadas

Quando isso aconteceu, a polícia interveio e atacou os adeptos croatas. Bruno Sirok era quem estava no relvado a ser agredido quando Boban aplicou o pontapé mais famoso da sua carreira. E nem precisou de ser numa bola.

 

«Enquanto aquecíamos os adeptos começaram a destruir o estádio e a polícia não fez nada. Por isso, os nossos adeptos decidiram romper a vedação para tentar parar a violência», explicou Boban num documentário. «A polícia virou-se contra os nossos adeptos. Perguntei-lhes, gritando, porque estavam a agir assim apenas com os nossos e não com os do Estrela Vermelha. Atacaram-me duas vezes com o bastão e reagi na mesma moeda», continuou.

 

Bruno Sirok ajudou a perceber por que é que Boban virou herói e símbolo do nacionalismo croata: «Os adeptos e os jogadores tinham uma ligação muito forte, por isso quando fomos apanhados pela polícia, ele viu e tentou ajudar. A polícia atacou-o também e Boban reagiu de uma maneira com a qual nos identificámos».

 

Boban recusa ter tido qualquer papel especial neste dia. «Não fui eu sozinho. Há muita gente que associa este momento histórico da Croácia comigo mas isso não é correto. Eu fui um de três mil, cinco mil jovens que fizeram o mesmo. Mas eu era o número 10, a estrela, o capitão do Dínamo Zagreb. Eu não fiz nada mais do que os outros. Foi uma revolta popular depois de termos vivido num regime muito pesado, um inferno. Isto sim. Era uma vontade de liberdade», contou em entrevista ao GloboEsporte.

 

O croata assumiu-se como uma figura pública para arriscar a vida e a carreira em favor da causa croata. Como resultado, a federação jugoslava de futebol suspendeu-o por seis meses e fez com que falhasse a oportunidade de jogar o Mundial-1990.

 

O historiador Neven Andjelic considera que este encontro foi o mais importante na história da Jugoslávia. «Teve implicações políticas e foi um sinal claro da violência e da guerra que estava para vir e da guerra. Foi o que este jogo mostrou à população».

 

Hoje, mais de 28 anos depois, resiste um monumento em homenagem aos soldados que combaterem na guerra. «Para os fãs do clube que começaram uma guerra com a Sérvia neste sítio a 13 de maio de 1990», pode ler-se.

Ir ver um jogo de basebol em Miami... porque sim

O regresso a Miami, para o último fim-de-semana antes de voltar a casa, estava marcado para as quatro da tarde, mas o voo sofreu um ligeiro atraso. Depois disso, ainda aproveitámos a passagem pelo aeroporto para procurar um óculos escuros perdidos (ou roubados) mais de uma semana antes.

 

Resultado? Só já perto das seis da tarde nos instalámos no nosso hotel, na zona de Miami Beach. Por que é que isso é relevante? O jogo dos Marlins começava às sete e dez, e o estádio era do outro lado da cidade, a 15 quilómetros de onde estávamos.

 

Desde a manhã que ouvia o Rui a dizer "podíamos ir ver os Marlins... juntávamos mais um jogo à viagem..." mas não estava convencida. Ver que a ida até lá demorava uma hora de autocarro deixava-me ainda mais de pé atrás. Mas a verdade é que o sol começava a pôr-se, era sexta-feira à noite e não tínhamos planos. Acedi.

Marlins Park

Foi de Lyft que fizemos a viagem até ao Marlins Park. Falámos de futebol americano (apesar de parecermos mais conhecedores da coisa que o nosso interlocutor), de estádios desportivos, de Trump, de Cuba e de basebol (afinal, umas semanas antes o condutor tinha levado um jogador dos Marlins ao estádio sem se aperceber) durante a viagem e, em menos de nada, estávamos à porta.

 

Pela primeira vez, passei pela experiência de chegar a um jogo para o qual não tinha bilhetes. Ir até uma bilheteira nos Estados Unidos, onde é que já se viu?! E escolher os lugares ali com um mapa de papel, em vez de ver no ecrã do computador, ou do telemóvel, onde é que nos queríamos sentar.

 

O jogo era contra os Cincinnati Reds, uma equipa que também não estava - à semelhança dos Marlins - com um registo genial. Por isso o estádio estava pouco composto, os bilhetes eram baratos e os lugares a que tivemos direito bastante bons. Entrámos, direitos à banca que vendia hambúrgueres e cachorros e ainda estávamos em pé a servir-nos quando se ouviu o hino americano. Para nós, pessoas de chegar ao estádio quando as portas abrem, foi preciso poder de encaixe para sobreviver.

 

Comparado com o jogo a que tínhamos assistido no dia anterior, em Atlanta, pareceu que estávamos a ver tudo em câmara rápida. Strike atrás de strike, eliminação seguida de eliminação, tudo parecia avançar a um passo muito mais rápido do que é habitual no basebol. Os pontos, esses, é que nem vê-los. Aliás, tenho para mim que este jogo só não bateu um recorde de velocidade porque o nulo se manteve até ao nono inning, e foi preciso ir a prolongamento.

 

Foi no 10.º inning que os Marlins decidiram fazer o gosto aos espectadores e, apesar de não conseguirem o home run, fizeram o run que permitiu encerrar a partida logo ali. Nessa altura, até nos esquecemos do rapaz que passou o jogo inteiro a pontapear-nos as costas e gritar-nos ao ouvido, numa mistura de inglês e espanhol.

Vitória da equipa da casa

O regresso, de Uber partilhado, trouxe a maior surpresa da noite. Tivemos de esperar um pouco pelo nosso companheiro de viagem e, quando a conversa começou, seguiu os mesmos caminhos da viagem de ida. Explicámos a dimensão do nosso fanatismo por desporto, falámos da ida ao jogo de despedida de Kobe Bryant e, de repente, um desafio: «Bom, se foram ver esse jogo de despedida, também têm de vir ver o do Dwyane Wade». Rimo-nos, ainda antes de nos apercebermos o que vinha aí. «Tomem o meu cartão, trabalho para os Miami Heat e sou responsável pelos bilhetes de época. Se vieram, trato muito bem de vocês.» 

 

O dia seguinte foi de descanso, e passado na praia - apesar de esperarmos um mar azul turquesa e límpido (se calhar andámos a ver fotos das Bahamas, enganados), demos com um mar que parecia o da Costa da Caparica, mas a 29ºC. Não me estou a queixar. Acho que todas as férias deviam acabar assim: a ver peixes-espada em miniatura a passar ao pé das nossas pernas depois de vermos um jogo com peixes-espada de peluche pendurados em cada esquina.