Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

É Desporto

É Desporto

Atlanta Braves. Um estádio que valeu pelo... pôr do sol

A nossa viagem a Atlanta não estaria completa sem um bocadinho de desporto. Por isso mesmo, no último dia, incluímos uma tarde no SunTrust Park, o estádio dos Atlanta Braves, para um joguinho contra os Phillies de Filadélfia.

 

(Publicado originalmente em atlas de bolso)

Atlanta Braves

A aventura começou ainda em Lisboa, quando percebemos que o SunTrust Park, o mais recente estádio da Liga, fica muito fora do centro da cidade. Na verdade, fica mesmo fora da cidade, em Cumberland, e chegar lá de transportes (somos quase fundamentalistas dos transportes públicos quando estamos de férias, mas isso é tema para outro dia) não era linear.

 

Acabámos por decidir partir de Midtown, depois de termos passeado pela zona e pelo Piedmont Park, num autocarro que nos levaria até um centro comercial a 20 minutos do estádio. Uma hora de viagem pelo meio dos subúrbios até podermos matar a gula numa Cheesecake Factory e seguirmos caminho.

 

Como fazemos sempre, fomos cedo. Aproveitámos o ar condicionado do centro comercial para recarregarmos baterias, depois de um dia cansativo (e quente). Duas horas antes do início do jogo, quando as portas se abriram, pusemo-nos a caminho - aí percebemos que a zona que envolve o estádio teria sido igualmente uma boa escolha para aguardar: as lojas, os restaurantes e os espaços verdes são novos, arranjados e convidativos. 

SunTrust Park

Depois das fotos da praxe, passámos a segurança e ocupámos o nosso lugar. Também como é habitual, sabíamos que os nossos lugares seriam dos mais altos do estádio - os mais baratos. O que não sabíamos é que o nosso tempo de espera até ao início do jogo ia ser abrilhantado com um pôr do sol magnífico.

 

Não é preciso haver uma razão especial para gostar de um pôr do sol mas ali foi também uma questão de conforto. Quando chegámos, o sol ainda nos batia de frente e era impossível estarmos sentados nos nossos lugares. Nem o protetor disponível em vários pontos do estádio (tipo desinfetante) nos safou e decidimos regressar ao corredor comum, onde encontrámos uma daquelas mesas de piqueniques à sombra, junto a uma das rampas de acesso à bancada. Só depois, quando o sol estava mais baixo, é que voltámos e ficámos maravilhados com aquela imagem.

Pôr do Sol no SunTrust Park

Confesso que tive de ir confirmar o resultado final do jogo - sabia que a vitória tinha sido da equipa da casa, mas não por quanto: aquilo que retive da minha primeira experiência no SunTrust Park foram os cânticos e celebrações dos adeptos, um estádio lindo e um jogo aborrecido e lento como já não se usa na MLB. Já agora, ficou 8-3.

 

O basebol é um desporto de tradições e até espetadores menos frequentes como nós se apercebem disso. No sétimo inning ouve-se sempre o «Take me out to the ball game», independentemente da equipa, e depois cada uma tem os seus próprios hábitos. Em Boston, por exemplo, os Red Sox aproveitam um intervalo para ter milhares de pessoas a cantar o Sweet Caroline do Neil Diamond. Outra coisa que acontece é a tendência para cada equipa ter a sua música eleita para lançar nos altifalantes sempre que um jogo termina com uma vitória. Falando apenas das equipas que estão na final este ano, os Red Sox têm a Dirty Water dos The Standells e os Dodgers a I Love LA de Randy Newman.

 

Os Braves surpreenderam-nos com uma espécie de cântico para chamar a sorte. Com milhares de luzes dos telemóveis ligados e um cântico com tons indígenas, repetem um gesto de martelo conhecido por "tomahawk chop". Como o estádio é moderno, dá para controlar as luzes e a intensidade é reduzida para tornar tudo mais... intenso.  

O cântico resultou... mas demorou a ter efeitos práticos. Noutras alturas, e desde que o frio não apertasse (ali, isso nem era uma questão), a lentidão do jogo e o empate mantido até ao sétimo inning não seriam problemáticos. Naquele dia, no entanto, sabíamos que o último autocarro (a 15 minutos a pé de onde estávamos) partia às 23h20... e não havia forma de o jogo acabar. Os quatro pontos que chegaram no oitavo inning foram mesmo o que precisávamos para decidir sair antes do final sem sentir que podíamos perder uma reviravolta histórica: os Phillies não pareciam capazes de dar a volta ao resultado.

 

Estávamos já fora do estádio quando ouvimos as celebrações do final do jogo, com direito a fogo de artifício. Chegámos a tempo ao autocarro (que até se atrasou um bocadinho) e tivemos quase uma hora e meia de caminho até casa para pensar se a experiência tinha valido a pena. Da minha parte, sim, apesar do anticlímax que foi encerrar a viagem a uma cidade cheia de emoções fortes com um jogo tão chatinho.

Uma madrugada dramática a ver basebol

Festa final dos Dodgers

Os jogos de basebol têm má fama. São longos, é fácil perder a atenção e são poucos os momentos que verdadeiramente definem o resultado final. O estereótipo existe, e muitas vezes tem razão de ser, mas esse não foi o caso durante as sete horas e vinte minutos que durou o jogo três da World Series entre os Boston Red Sox e os LA Dodgers.

 

Foi um recorde. Nunca um jogo da final tinha sido tão longo, tanto em número de innings (18) como em volume de horas. O tempo deixou de ser uma variável dependente do fuso horário. O jogo acabou muito tarde, independentemente do ângulo que se quiser ver: em Portugal começou à 1h10 e terminou às 08h30 (oito e meia da manhã!). Em Boston, eram já 3h30. E na Califórnia, os mais de 40 mil espetadores que fizeram questão de marcar presença num jogo que tinha início previsto para pouco depois das cinco da tarde, só ficaram livres… depois da meia-noite!

 

Qualquer encontro da World Series é importante e vivido de forma tensa, mas o jogo 3 de 2018 ganhou um estatuto transcendental que dificilmente conseguirá ser repetido tão cedo. Mais do que o teste que foi aos jogadores e equipa técnica, foi também uma experiência dura para os adeptos. Eu, fã dos Red Sox, me confesso.

 

A tensão num jogo destes deixa-nos o coração em farrapos. Desde logo, estamos em estado de alerta total e com o batimento acelerado num momento do dia em que o corpo está habituado a descansar. Estão a ver o que sentem quando o vosso Benfica, FC Porto ou Sporting está 90 minutos em stress? Agora acrescentem-lhe seis horas em cima.

 

Não há forma fácil de ver um jogo de basebol quando há tanto em jogo. Num encontro como o desta madrugada, a frustração e a esperança substituem-se instantaneamente uma à outra. Somos forçados a encontrar talismãs, a mudar de posição, a agarrar numa bola que temos da equipa para aliviar o stress, a destaparmo-nos para arrefecer o corpo por estarmos a suar durante os innings mais tensos.

 

E os minutos vão passando. Já vamos com mais de três horas em cima e os Red Sox estão a perder, no oitavo inning. Estou acompanhado mas dorme-se ao meu lado. No jogo 2, o resultado virou durante um período em que estávamos ambos acordados. «Se for preciso, acorda-me quando for para dar sorte!», diz-me, acreditando ser um verdadeiro talismã.

 

As superstições e amuletos no desporto servem para trazer esperança e não devemos brincar com elas. Acordo-a nessa altura: «Se é para dar sorte, chegou o momento», digo-lhe. Acede e… os Red Sox empatam com um home run de Jackie Bradley Jr. minutos depois. Está 1-1. Os lances sucedem-se mas as equipas parecem estar presas uma à outra. Passa das quatro da manhã e ela não se aguenta mais: «Acho que não vou conseguir ver mais, vou voltar a dormir.» Respondo-lhe, na brincadeira, ignorando o que me esperava, que se o jogo durar até às nove da manhã, acordo-a às oito e meia. 

Vou fazer o resto do caminho sozinho. Reforço o contexto: estamos a meio da madrugada, toda a gente dorme no prédio e recalco toda a tensão silenciosamente. Não há manifestações ruidosas, gritos de golo, asneiras, desabafos em voz alta como é tão habitual acontecer no futebol. Ali pareço praticamente o guarda-redes no momento do penálti, solitário, a sofrer silenciosamente.

 

Quando o jogo vai para innings extra, a tensão sobe de tom. Como os Red Sox jogam fora de casa, os Dodgers são os segundos a atacar e qualquer lançamento pode ditar o final do jogo. Cada um é um exercício agressivo para o coração, a qualquer momento a esperança pode desabar em frustração. Não é uma experiência amigável e o jogo teve não um, nem dois, nem três, nem quatro (…), mas nove innings extra. Foi um jogo extra inteiro com o coração nas mãos enquanto o mundo dormia à nossa volta.

 

Os Red Sox ameaçam. Estiveram muito perto de marcar logo no início do prolongamento mas a corrida de Ian Kinsler é travada de forma brilhante por um arremesso do outro mundo de Cody Bellinger. Desespero. Como foi possível desperdiçar uma oportunidade tão boa?! O passo seguinte é sempre o mesmo: normalizar o que aconteceu. Perceber que foi, efetivamente, uma jogada espetacular dos Dodgers, focarmo-nos na beleza do momento em si e não na dor que nos provocou. 

As unhas vão desaparecendo e as idas à casa de banho repetem-se. Ora agarramos a bola, ora não queremos nada com ela. Tiramos o som à televisão para reduzir os estímulos nervosos, especialmente sendo o jogo no estádio dos Dodgers. E, depois, chega o 13.º inning. Os Red Sox marcam finalmente, com muita sorte à mistura, e tudo parece encaminhar-se. Podiam ter sido mais mas a vantagem é de apenas um ponto.

 

A equipa está nas últimas. O lançador que estava previsto começar o jogo 4 já foi obrigado a entrar em campo (numa altura em que todos os suplentes de campo já foram utilizados e não há mais margem para alterações). Entre os maiores contribuidores ofensivos, apenas Mookie Betts continua em campo, por isso conseguir marcar parece constituir uma oportunidade perfeita para fazer o 3-0 na série.

 

Falta eliminar três jogadores. Elimina-se o primeiro, elimina-se o segundo. Só falta um. Já há um jogador na segunda base mas aparentemente está tudo controlado. Eovaldi, o lançador em campo, tem dado mais do que provas desde que chegou em julho que é fiável. De repente, o mundo desaba-nos em cima. Yasiel Puig põe a bola em jogo e Ian Kinsler, numa jogada difícil mas exequível, falha completamente o lançamento para a primeira base, não consegue garantir a eliminação e… abre caminho para o empate.

 

O momento de frustração é o maior que alguma vez senti em onze anos de adepto dos Boston Red Sox. Ver um triunfo fugir assim na World Series é o último nível de dor que se pode sentir num jogo de basebol – ou em qualquer outro desporto. Levanto-me, vou-me embora. Preciso de recuperar, dar um descanso ao coração, e faço um chá, ignorando o que está ainda para acontecer naquele inning. Preciso de acalmar e repor as coisas em perspetiva. Afinal, por muito que sofra, é apenas um jogo. Convenço-me disso mesmo, como tenho aprendido a fazer desde há muito em várias modalidades. Imagino a dor que os adeptos terão sentido na final de 1986 com o erro de Bill Buckner, que impediu o primeiro título desde 1918. 

Quando volto, mais calmo, o inning acabou e o corpo parece ter entrado num estado de dormência. Convenço-me que a equipa vai perder, preparo-me desde logo para esse desfecho. São seis e meia da manhã e o chá ajuda. O jogo… nem por isso. Entre os inúmeros planos de adeptos dos Dodgers a sofrer, sou invadido por uma sensação de empatia. Estão ali, ao vivo, a sofrer e não veem a sua equipa ser campeã desde 1988. Eu, novato nestas andanças, já festejei os títulos de 2007 e 2013 (no de 2004, o mais importante, ainda não acompanhava).

 

O ataque dos Red Sox está em farrapos e não consegue aproveitar as poucas oportunidades que tem para voltar a marcar. Do outro lado, os Dodgers têm mais opções para lançadores – caso seja preciso continuar a mudar -, mantêm viável a opção para o jogo 4, e o alinhamento do ataque continua a ser temível. Não há folgas. 

O momento esperado mas nada ansiado acontece no 18.º inning. Muncy faz um home run e o jogo acaba logo ali, não há espaço para tentar recuperar. Olho para o relógio e são 8h30. A conversa de horas antes parece ter sido premonitória e acordo-a. «Ganharam?! A sério? E são oito e meia? Estás a gozar? Estiveste a noite inteira a ver o jogo?», pergunta-me. Sim, claro que estive. Ninguém vai dormir com um jogo assim. Escrevo o tweet no É Desporto, que já estava nos rascunhos, e preparo-me para dormir (sem saber se vou conseguir).

 

O meu corpo passou por uma experiência de tensão máxima de sete horas e vinte minutos e não vai ser fácil. Mas preciso de descansar. Esta noite há jogo outra vez, à mesma hora, e nem sequer sei se vai haver uma escolha fiável para lançador inicial. Mas é só um jogo, convençamo-nos todos disso.

Deshaun Watson. A insólita aventura do quarterback dos Texans

Deshaun Watson

Lesão no peito impedia-o de viajar de avião, por isso equipa reservou um autocarro de luxo para que o jogador pudesse fazer a viagem entre Houston e Jacksonville, num total superior a 1400 quilómetros. Texans ganharam, Watson fez um passe para touchdown e já está de volta ao Texas… um dia depois.

 

A culpa é dos… Texans. A linha ofensiva da equipa de Houston tem apresentado muitas vulnerabilidades e Watson aparenta ser uma presa fácil para os ataques dos defesas contrários. Sack após sack, a integridade física do quarterback é posta em risco. Nas primeiras seis jornadas, Watson foi atingido 70 vezes num total de 25 sacks.

 

Os números apontam para um recorde no final da temporada… se Watson conseguir continuar a jogar. Contra os Bills a lesão chegou mesmo. De acordo com os relatórios, rachou uma costela e sofreu um colapso parcial do pulmão.

 

A lesão pode ser séria e impede quem a tem de viajar de avião, devido às mudanças de pressão. Mas nem assim Watson ficou de fora do jogo seguinte, na Florida, com os Jacksonville Jaguars. Sim, a viagem de avião estava fora de hipótese mas a equipa reservou um autocarro de luxo para um percurso de 12 horas e cerca de 1400 quilómetros… só de ida.

 

Foi uma questão de precaução. A equipa não queria arriscar a viagem de avião por isso encontrou uma alternativa, um pouco a fazer lembrar a forma como Dennis Bergkamp fazia nos jogos das competições europeias para fugir ao pânico dos voos.

 

«Se não pode voar, a primeira coisa a fazer é falar com o Deshaun Watson e ver o que pretende fazer. O avião está fora de hipótese mas há outros modos de transporte: comboio, autocarros para digressões, cavalos, buggy…», começou por dizer o treinador Bill O’Brien.

Opção recaiu num autocarro

A escolha recaiu num autocarro de luxo, com cama, televisão, jogos de consola e comida suficiente para que nada faltasse ao quarterback. Além disso, viajou acompanhado por um treinador adjunto, um preparador físico e um segurança. O certo é que o jogo correu bem. Os Texans venceram 20-7 e Watson só foi atingido sete vezes, sofrendo apenas um sack.

 

A viagem de volta implicou mais 12 horas na estrada, agora já com a sensação de dever cumprido. «Foi uma viagem suave. Divertimo-nos, conversámos muito, vimos pedaços de jogos, vimos televisão, dormimos. Não me importei com isso. Faço tudo o que me permita estar com os meus colegas e ajudar a equipa a ganhar», contou.

 

A melhor parte é que o próximo jogo, já na quinta-feira, é em casa. Uma aventura é boa, mais do que isso pode cansar.

Justin Tucker. Não há bem que sempre dure

Justin Tucker

Tem 28 anos, está na sétima temporada de NFL e é visto como o kicker mais fiável do futebol americano. Agora, pela primeira vez na carreira, falhou um pontapé para ponto extra após touchdown que daria o empate aos Ravens a 24 segundos do final do jogo.

 

Domingo, 22 de janeiro de 2012. Os Baltimore Ravens disputam no terreno dos New England Patriots a presença na Super Bowl. O jogo é equilibrado desde o início, sem espaço para grandes diferenças, e a equipa de Tom Brady e companhia chega ao último minuto em vantagem (23-20). Mas os Ravens têm um último ataque e têm um field goal para forçar o prolongamento a 15 segundos do fim. Billy Cundiff falhou.

 

A desilusão afetou jogadores, equipa e adeptos. O kicker pediu desculpa e prometeu que o erro não se voltaria a repetir mas a NFL tem um histórico de não dar segundas oportunidades a quem comete erros fatais como este. Resultado: foi dispensado antes do início da época seguinte, abrindo espaço para um rookie chamado Justin Tucker, que nem sequer tinha sido selecionado durante o draft.

 

Justin Tucker tornou-se rapidamente um dos kickers mais fiáveis na NFL. Até este domingo era mesmo um jogador que nunca tinha falhado o pontapé de ponto extra após touchdown. Nem na NFL nem no futebol universitário, num total de 316 ocasiões.

 

Quando a NFL decidiu aumentar a distância para os postes nestes pontapés, em 2015, o número de pontapés falhados aumentou mas Tucker manteve-se perfeito. Era mesmo o único sem qualquer falha: 112 em 112 tentativas. Agora, no jogo com os New Orleans Saints, quando a equipa mais precisava dele, vacilou.

 

Os Saints venciam por sete mas o touchdown de John Brown abriu espaço para que Tucker fizesse o que sabe fazer melhor e forçar o prolongamento, num pontapé a 24 segundos do fim. Não conseguiu. «Sinto que nos fiz perder o jogo. Cada um dos meus colegas de equipa disse-me o contrário, que nenhuma jogada é capaz de ganhar ou perder um encontro. Mas é difícil aceitar isso quando se é o jogador nesta situação mesmo no final do jogo», explicou Tucker no final.

 

«Quando se joga durante tanto tempo, mais tarde ou mais cedo acontecer vamos passar por um pontapé que daríamos tudo para ter uma segunda oportunidade. Foi o que me aconteceu esta noite», acrescentou, não fazendo referência clara ao forte vento que se fez sentir durante toda a partida.

 

Justin Tucker sentiu o erro e pediu para ir à conferência de imprensa falar sobre o assunto. Joe Flacco, o quarterback, não acredita que este momento deixe marcas: «É o melhor do mundo no que faz e a pessoa mais confiante que conheço. Não vai ser um problema».

Uma ode a Ronaldo, o Fenómeno

Ronaldo festeja golo ao Compostela (com Guardiola ao fundo)

Uma imagem vale mais do que mil… emoções. Hoje, ao acordar, uma das primeiras coisas que vi na timeline do twitter foi imagens do golo de Ronaldo ao Compostela em 1996/97, marcado há exatamente 22 anos. O aspeto e a expressão de Ronaldo, o equipamento e o associar imediato daquele jogo ao momento da minha vida – e de muitos dos meus amigos – provocaram imediatamente um carrossel de emoções que está longe de ser inédito.

 

Ronaldo é um jogador de várias gerações mas terá marcado cada uma de forma diferente. Ronaldo era um jogador completo, Ronaldo foi mais do que um jogador. Quando o fenómeno brasileiro assinou pelo Barcelona, eu tinha onze anos. Eu, os meus amigos da escola e os meus colegas do futebol, olhavam para ele com espanto, boquiabertos, incrédulos com a forma como um jogador conseguia subjugar com tamanha facilidade, e velocidade, uma defesa inteira.

 

O Barcelona de 1996/1997 não foi campeão espanhol. Às vezes, é difícil olhar para trás e pensar nisso. Aquela equipa de Robson foi, à sua maneira, o que foi a Holanda de Cruijff. É certo que só durou um ano mas marcou o panorama do futebol mundial de forma esmagadora. 

 

Semana após semana, numa era em que a maioria da população em Portugal só tinha quatro canais, os jogos do Barcelona eram um evento próprio. Havia jogos em direto na TVI mas a memória que tenho é que o mais comum até era os jogos serem em diferido: o 8-0 ao Logroñés, por exemplo, foi de certeza e até me lembro do sítio onde estava quando o vi.

 

Ser em diferido não era um problema. E até já sabia o resultado. Os jogos do Barcelona eram como uma série de sucesso ou uma banda desenhada de culto. Sentávamo-nos em frente à televisão ansiosos para descobrir as aventuras que Ronaldo, sobretudo, e companhia nos tinham reservado para aquela tarde. Durante a semana, falávamos nele, recriávamos golos preferidos (o meu continua a ser o marcado ao Valencia no Camp Nou), e exultávamos sempre que o cromo saía durante a coleção da Liga Espanhola.

 

Ronaldo foi um jogador fantástico, não me canso de dizer, e di-lo-ei enquanto tiver memória, enquanto fotografias daquela época surgirem na timeline ou em qualquer outro lugar. Mas Ronaldo foi ainda mais do que um jogador fantástico: foi dois jogadores fantásticos. Depois de ter dominado o mundo naquela era franzina, regressou, após lesões, com uma forma completamente diferente mas igualmente letal, conquistando o título mais importante da sua carreira: o Mundial pelo Brasil em 2002.

 

Ronaldo foi especial. E poderia ter sido ainda mais.

Nova Orleães. Acordar cedo para ir ver um jogo dos Saints

Mercedes-Benz Superdome

O despertador toca de manhã. É hora de ir para o jogo, profissional, de futebol americano. As duas frases juntas fazem confusão. O desporto profissional em Portugal, com natural destaque para o futebol, é cada vez mais uma modalidade virada para a noite. Mas ali, em Nova Orleães, a mais de sete mil quilómetros de distância de Lisboa, ainda não tínhamos tomado o pequeno-almoço e já pensávamos que não nos podíamos atrasar para o jogo que tinha início marcado para o meio-dia.

 

(Publicado originalmente no atlas de bolso)

 

Atrasar nunca seria um problema. Por norma, gostamos de chegar bastante tempo antes e neste caso a vontade era ainda maior depois de todo o stress de quando fomos ver os New England Patriots. As portas da arena, historicamente importante por ter albergado milhares de pessoas durante vários dias durante o Katrina, abriam duas horas antes e nós estávamos preparados para isso.

A peregrinação até ao jogo

O transporte era praticamente direto desde casa. Havia um elétrico que parava a um quarteirão da arena e é impossível perdermo-nos quando há camisolas e adereços dos New Orleans Saints a cada metro. Vista de fora, a Mercedes-Benz Superdome parece uma obra de arquitetura futurista.

Arena vista de fora

O ambiente é de festa. Há bandas a tocar, mas o famoso tailgating deixa muito a desejar quando comparado com o Gillette Stadium. Afinal de contas, as pessoas tendem a ir de transportes para o jogo e os parques de estacionamento não são mais do que um pequeno espaço reservado a quem tem bastantes dólares para dispensar a troco de ficar a 30 metros da porta de entrada.

 

Fomos dos primeiros a mostrar bilhete. Foi simples: a lição estava aprendida e não houve surpresas desagradáveis como o famoso e desesperante episódio da mala de Foxborough. Há dezenas de elementos do staff espalhados pela arena que mostram toda a disponibilidade do mundo para tornar a nossa experiência ainda mais agradável.

 

Vamos diretos às cadeiras. Como procuramos sempre os bilhetes mais baratos, já sabemos que estamos num topo, perto das últimas filas. Quando lá chegamos, há pequenas toalhas – uma oferta muito usual no desporto americano – de incentivo à equipa. Olhamos em volta, absorvemos o espaço, tiramos algumas fotografias e… percebemos que talvez tenhamos chegado demasiado cedo.

 

Está na altura de ir conhecer o que a arena tem para nos oferecer, até porque ainda não comemos e queremos aproveitar a ausência de filas – por agora – para não ter de esperar muito. A oferta é variada e damos mais de uma volta à arena enquanto reunimos referências: há os habituais nachos e cachorros-quentes, mas também os batidos do Smoothie King (altamente recomendáveis) e sanduiches com salsichas de… crocodilo. Sim, às dez e meia da manhã.

 

Por esta altura, o burburinho é cada vez maior. As bancadas vão-se enchendo e vários jogadores vão aquecendo no relvado, ainda sem grande aprumo. Num dos ecrãs eletrónicos vamos assistindo à contagem decrescente até ao pontapé de saída, enquanto evoluímos de um “bolas, o que vamos fazer com tanto tempo?” para um “boa, já está quase!”.

 

O jogo, entre New Orleans Saints e Cleveland Browns, promete. Os Saints têm um tridente ofensivo de meter respeito, com Drew Brees, Alvin Kamara e Michael Thomas, enquanto os Cleveland Browns meteram fim a uma série de 17 derrotas consecutivas (mais de uma temporada na NFL) no fim-de-semana anterior. A equipa é jovem, tem muita gente com potencial mas insiste em vacilar nos momentos decisivos.

Drew Brees a preparar o ataque

A primeira parte foi uma desilusão. Houve poucos pontos, falta de inspiração e ataques descoordenados. O ambiente só ficava claramente escaldante quando os Saints conseguiam avançar dez jardas, soltando “Move dem chains!”como frase de guerra indicativa de nova fase de ataque ou quando se partia para o tradicional cântico associado aos Saints: “Who dat!”. A primeira experiência, logo no início do jogo, é esmagadora. A acústica é boa – não foi por acaso que Beyoncé deu lá um concerto na véspera da nossa chegada – e as vozes ecoavam naquela arena coberta.

 

Os Browns ameaçaram uma surpresa – Tyrod Taylor fez um passe para touchdown praticamente do meio-campo já nos instantes finais - mas os Saints fizeram um último drive decisivo que garantiu o triunfo graças a um field goal. Para a história, fica o desacerto do kicker dos Browns, que falhou quatro pontapés (dois após touchdowns e dois field goals) e impediu o triunfo da equipa de Cleveland. Resultado? Foi dispensado no dia seguinte.

Zane González teve um início de tarde para esquecer

Para nós, o que contou foi a experiência, mas houve quem tenha achado que estávamos pelo… inimigo. Por acaso, a Sarah estava com uns calções de tom alaranjado (eram vermelhos mas… muitas lavagens depois não há milagres) que se podiam confundir com as cores dos Browns. Na casa-de-banho, já depois do final, uma mulher abordou-a exatamente por isso: “Que cor é essa dos calções? Aqui nós somos pretos e dourados!”.

 

Tudo com fair-play, claro está. A vitória estava garantida e a pontinha de maldade que queria fazer mostrar não era mais do que uma brincadeira. A parte estranha? Quando saímos, ainda tínhamos metade do dia para aproveitar. Americanices...