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É Desporto

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Uma ode a Ronaldo, o Fenómeno

Ronaldo festeja golo ao Compostela (com Guardiola ao fundo)

Uma imagem vale mais do que mil… emoções. Hoje, ao acordar, uma das primeiras coisas que vi na timeline do twitter foi imagens do golo de Ronaldo ao Compostela em 1996/97, marcado há exatamente 22 anos. O aspeto e a expressão de Ronaldo, o equipamento e o associar imediato daquele jogo ao momento da minha vida – e de muitos dos meus amigos – provocaram imediatamente um carrossel de emoções que está longe de ser inédito.

 

Ronaldo é um jogador de várias gerações mas terá marcado cada uma de forma diferente. Ronaldo era um jogador completo, Ronaldo foi mais do que um jogador. Quando o fenómeno brasileiro assinou pelo Barcelona, eu tinha onze anos. Eu, os meus amigos da escola e os meus colegas do futebol, olhavam para ele com espanto, boquiabertos, incrédulos com a forma como um jogador conseguia subjugar com tamanha facilidade, e velocidade, uma defesa inteira.

 

O Barcelona de 1996/1997 não foi campeão espanhol. Às vezes, é difícil olhar para trás e pensar nisso. Aquela equipa de Robson foi, à sua maneira, o que foi a Holanda de Cruijff. É certo que só durou um ano mas marcou o panorama do futebol mundial de forma esmagadora. 

 

Semana após semana, numa era em que a maioria da população em Portugal só tinha quatro canais, os jogos do Barcelona eram um evento próprio. Havia jogos em direto na TVI mas a memória que tenho é que o mais comum até era os jogos serem em diferido: o 8-0 ao Logroñés, por exemplo, foi de certeza e até me lembro do sítio onde estava quando o vi.

 

Ser em diferido não era um problema. E até já sabia o resultado. Os jogos do Barcelona eram como uma série de sucesso ou uma banda desenhada de culto. Sentávamo-nos em frente à televisão ansiosos para descobrir as aventuras que Ronaldo, sobretudo, e companhia nos tinham reservado para aquela tarde. Durante a semana, falávamos nele, recriávamos golos preferidos (o meu continua a ser o marcado ao Valencia no Camp Nou), e exultávamos sempre que o cromo saía durante a coleção da Liga Espanhola.

 

Ronaldo foi um jogador fantástico, não me canso de dizer, e di-lo-ei enquanto tiver memória, enquanto fotografias daquela época surgirem na timeline ou em qualquer outro lugar. Mas Ronaldo foi ainda mais do que um jogador fantástico: foi dois jogadores fantásticos. Depois de ter dominado o mundo naquela era franzina, regressou, após lesões, com uma forma completamente diferente mas igualmente letal, conquistando o título mais importante da sua carreira: o Mundial pelo Brasil em 2002.

 

Ronaldo foi especial. E poderia ter sido ainda mais.

Nova Orleães. Acordar cedo para ir ver um jogo dos Saints

Mercedes-Benz Superdome

O despertador toca de manhã. É hora de ir para o jogo, profissional, de futebol americano. As duas frases juntas fazem confusão. O desporto profissional em Portugal, com natural destaque para o futebol, é cada vez mais uma modalidade virada para a noite. Mas ali, em Nova Orleães, a mais de sete mil quilómetros de distância de Lisboa, ainda não tínhamos tomado o pequeno-almoço e já pensávamos que não nos podíamos atrasar para o jogo que tinha início marcado para o meio-dia.

 

(Publicado originalmente no atlas de bolso)

 

Atrasar nunca seria um problema. Por norma, gostamos de chegar bastante tempo antes e neste caso a vontade era ainda maior depois de todo o stress de quando fomos ver os New England Patriots. As portas da arena, historicamente importante por ter albergado milhares de pessoas durante vários dias durante o Katrina, abriam duas horas antes e nós estávamos preparados para isso.

A peregrinação até ao jogo

O transporte era praticamente direto desde casa. Havia um elétrico que parava a um quarteirão da arena e é impossível perdermo-nos quando há camisolas e adereços dos New Orleans Saints a cada metro. Vista de fora, a Mercedes-Benz Superdome parece uma obra de arquitetura futurista.

Arena vista de fora

O ambiente é de festa. Há bandas a tocar, mas o famoso tailgating deixa muito a desejar quando comparado com o Gillette Stadium. Afinal de contas, as pessoas tendem a ir de transportes para o jogo e os parques de estacionamento não são mais do que um pequeno espaço reservado a quem tem bastantes dólares para dispensar a troco de ficar a 30 metros da porta de entrada.

 

Fomos dos primeiros a mostrar bilhete. Foi simples: a lição estava aprendida e não houve surpresas desagradáveis como o famoso e desesperante episódio da mala de Foxborough. Há dezenas de elementos do staff espalhados pela arena que mostram toda a disponibilidade do mundo para tornar a nossa experiência ainda mais agradável.

 

Vamos diretos às cadeiras. Como procuramos sempre os bilhetes mais baratos, já sabemos que estamos num topo, perto das últimas filas. Quando lá chegamos, há pequenas toalhas – uma oferta muito usual no desporto americano – de incentivo à equipa. Olhamos em volta, absorvemos o espaço, tiramos algumas fotografias e… percebemos que talvez tenhamos chegado demasiado cedo.

 

Está na altura de ir conhecer o que a arena tem para nos oferecer, até porque ainda não comemos e queremos aproveitar a ausência de filas – por agora – para não ter de esperar muito. A oferta é variada e damos mais de uma volta à arena enquanto reunimos referências: há os habituais nachos e cachorros-quentes, mas também os batidos do Smoothie King (altamente recomendáveis) e sanduiches com salsichas de… crocodilo. Sim, às dez e meia da manhã.

 

Por esta altura, o burburinho é cada vez maior. As bancadas vão-se enchendo e vários jogadores vão aquecendo no relvado, ainda sem grande aprumo. Num dos ecrãs eletrónicos vamos assistindo à contagem decrescente até ao pontapé de saída, enquanto evoluímos de um “bolas, o que vamos fazer com tanto tempo?” para um “boa, já está quase!”.

 

O jogo, entre New Orleans Saints e Cleveland Browns, promete. Os Saints têm um tridente ofensivo de meter respeito, com Drew Brees, Alvin Kamara e Michael Thomas, enquanto os Cleveland Browns meteram fim a uma série de 17 derrotas consecutivas (mais de uma temporada na NFL) no fim-de-semana anterior. A equipa é jovem, tem muita gente com potencial mas insiste em vacilar nos momentos decisivos.

Drew Brees a preparar o ataque

A primeira parte foi uma desilusão. Houve poucos pontos, falta de inspiração e ataques descoordenados. O ambiente só ficava claramente escaldante quando os Saints conseguiam avançar dez jardas, soltando “Move dem chains!”como frase de guerra indicativa de nova fase de ataque ou quando se partia para o tradicional cântico associado aos Saints: “Who dat!”. A primeira experiência, logo no início do jogo, é esmagadora. A acústica é boa – não foi por acaso que Beyoncé deu lá um concerto na véspera da nossa chegada – e as vozes ecoavam naquela arena coberta.

 

Os Browns ameaçaram uma surpresa – Tyrod Taylor fez um passe para touchdown praticamente do meio-campo já nos instantes finais - mas os Saints fizeram um último drive decisivo que garantiu o triunfo graças a um field goal. Para a história, fica o desacerto do kicker dos Browns, que falhou quatro pontapés (dois após touchdowns e dois field goals) e impediu o triunfo da equipa de Cleveland. Resultado? Foi dispensado no dia seguinte.

Zane González teve um início de tarde para esquecer

Para nós, o que contou foi a experiência, mas houve quem tenha achado que estávamos pelo… inimigo. Por acaso, a Sarah estava com uns calções de tom alaranjado (eram vermelhos mas… muitas lavagens depois não há milagres) que se podiam confundir com as cores dos Browns. Na casa-de-banho, já depois do final, uma mulher abordou-a exatamente por isso: “Que cor é essa dos calções? Aqui nós somos pretos e dourados!”.

 

Tudo com fair-play, claro está. A vitória estava garantida e a pontinha de maldade que queria fazer mostrar não era mais do que uma brincadeira. A parte estranha? Quando saímos, ainda tínhamos metade do dia para aproveitar. Americanices...