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É Desporto

Wassberg vs. Mieto. A mais pequena vitória acabou em mito urbano

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Sueco venceu prova de 15 quilómetros de cross country em 1980 por um centésimo de segundo e sugeriu que as medalhas de ouro e prata deviam ser partilhadas com o finlandês. O derrotado recusou e o Comité Olímpico Internacional também não achou piada mas há quem ainda ache que a ideia foi para a frente.  

 

Duas vidas separadas… pelo tempo

 

Esta é a história de dois atletas de países vizinhos e de como uma prova nos Jogos Olímpicos de Lake Placid, em 1980, se assumiu como o símbolo perfeito da forma como os dois viveram a sua vida no cross country ao mais alto nível.

 

De um lado, Thomas Wassberg, mais jovem, com mais sorte e com um desportivismo digno de destaque. Do outro, Juha Mieto, mais experiente, habituado à força a derrotas dramáticas e com um caráter digno de elogio.

 

Os dois viviam momentos diferentes da carreira nos Jogos Olímpicos em 1980. Wassberg estava pela primeira vez a competir com um propósito claro, depois de se ter estreado com 19 anos em Innsbrück-1976, enquanto Mieto ia para a terceira campanha já com um título olímpico (na estafeta) no bolso.

 

Os 15 quilómetros de cross country a 17 de fevereiro de 1980 uniram-nos para sempre de uma forma tão dramática que as regras tiveram de ser alteradas. Mas já lá vamos. Na prova propriamente dita, Wassberg foi o último a sair para a pista e foi beneficiando do conhecimento dos tempos dos principais rivais.

 

O forte arranque deixava-o otimista para a primeira medalha olímpica da carreira. No primeiro ponto intermédio, tinha quase três segundos de vantagem sobre Mieto (2,92) e no segundo ponto intermédio a vantagem já tinha aumentado para mais de quatro segundos (4,83).

 

A conquista de uma medalha parecia garantida mas Wassberg tinha o ouro em mente. A acusar o desgaste, e fruto de Mieto, mais experiente, ter feito uma reta final mais forte, o sueco foi informado de que tinha apenas um segundo de vantagem a 500 metros do fim. Nessa altura, não pensou em mais nada, alargou o passo da melhor forma possível e deu o que tinha e o que não tinha até cruzar a meta.

 

Resultado? Medalha de ouro para Wassberg com um tempo… um centésimo de segundo mais rápido do que o de Mieto. Os dois tinham estado mais de 40 minutos a esquiar e no final foram separados pela menor diferença da história numa prova de cross country.

 

Uma proposta recusada por todos

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Thomas Wassberg festejou, Juha Mieto chorou, desiludido por, uma vez mais, ter sido derrotado nos pormenores. Afinal, na edição da sua estreia, em Sapporo-1972, o finlandês tinha perdido um lugar no pódio na mesma prova por apenas seis centésimos de segundo. Oito anos depois, a diferença era ainda mais dramática e logo com o ouro em disputa.

 

O sueco deu o primeiro sinal claro durante a sua carreira de que há coisas mais importantes do que uma definição estanque de primeiro, segundo ou terceiro. Por isso, por achar que um centésimo de segunda numa corrida de 15 quilómetros é insignificante, sugeriu a Juha Mieto e ao Comité Olímpico Internacional que as medalhas de ouro e de prata pudessem ser partidas ao meio e novamente fundidas para que os dois atletas pudessem ter ambas.

 

Mieto recusou e o comité também não achou muita piada, mas o episódio serviu para uma alteração nas regras. Todos perceberam que uma diferença de um centésimo era ridícula para decidir uma prova deste género e, daí em diante, os tempos dos atletas começaram a ser arredondados à décima. O romantismo e o fair-play associados à ideia, porém, fizeram com que o mito urbano fosse crescendo de dimensão e ainda hoje há quem acredite que as medalhas foram mesmo divididas.

 

O feito e o desportivismo de Wassberg mereceram elogios e foi sem grande surpresa que acabou por ser distinguido com uma medalha sueca atribuída a todos os anos ao atleta que garantiu o feito desportivo mais significativo do ano.

 

Wassberg recusou. Achou que não fazia sentido. Se o seu colega Sven Ake Lundback não tinha sido premiado com a mesma distinção em 1978, quando conquistou dois títulos no Mundial, ele também não o deveria ser.

 

Dois anos antes, Lundback tinha sido ultrapassado por Bjorn Borg e Ingemar Stenmark. O tenista tinha conseguido juntar os títulos em Roland Garros e Wimbledon pela primeira vez na carreira, enquanto o esquiador, que ainda hoje detém o recorde de triunfos em provas de esqui alpino, tinha sido campeão do mundo nos eventos de slalom e slalom gigante.

 

A teimosia de Wassberg falou mais forte e recusou-se sempre a receber a medalha até 2013, já com 57 anos.

RPS