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É Desporto

Vonetta Flowers. A velocista que fez história no bobsleigh

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Nasceu no Alabama em 1973 e deu nas vistas no atletismo, competindo em provas de velocidade e no salto em comprimento. Mas o sucesso olímpico só aconteceu quando mudou a agulha para o bobsleigh e se tornou, em 2002, a primeira afro-americana a vencer uma medalha de ouro nos Jogos de Inverno. 

 

Pernas, para que vos quero?

 

O bobsleigh é uma das modalidades mais emblemáticas dos Jogos Olímpicos de Inverno, muito por culpa da história que levou uma equipa jamaicana a competir em 1988. Este ano, em PyeongChang, curiosamente, o bobsleigh feminino vai voltar a estar no centro das atenções: além da Jamaica, que regressa à procura de algo mais, também a Nigéria vai competir, tornando-se a primeira seleção africana a participar na prova.

 

O desporto é bom de se ver. Começa com uma série de atletas a correr de forma desalmada enquanto empurram aquilo que parece um carrinho de brincar por uma pista estreita de gelo. Depois, à vez, enfiam-se lá para dentro e seguem, sempre muito coordenados, até ao cruzar da meta, atingindo velocidades estonteantes e com curvas diabólicas capazes de proporcionar despistes feios.

 

Mas, lá está, é espetacular. Os méritos de um atleta no bobsleigh são vários, mas a velocidade e a força são capazes de ser os dois primeiros a entrar em ação na prova. Talvez por isso Sam McGuffie, um antigo running back de futebol americano, que era estrela no ensino secundário e esteve em três equipas na NFL, se tenha rendido ao desporto e garantido uma vaga na equipa olímpica dos Estados Unidos em 2018.

 

O exemplo de Vonetta Flowers

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Recuemos no tempo, até ao Alabama, em 1973. Vonetta Flowers nasceu em Helena, uma pequena cidade nos arredores de Birmingham, sem grandes perspetivas de oportunidades. Um pouco como o estereótipo de uma família afro-americana a crescer num mundo sulista em que os sintomas da segregação racial continuam muito fortes.

 

O desporto era, e continua a ser, a forma encontrada para garantir uma vida diferente. Aí, Vonetta descobriu o atletismo. O sonho era chegar aos Jogos Olímpicos e, para isso, como muitas outras grandes figuras da modalidade, deu nas vistas nas provas de velocidade e no salto em comprimento.

 

Mas os fracassos sucediam-se. A determinação não foi suficiente para alcançar o sucesso e o tartã passou a ser uma longa miragem. Foi nesta altura que Vonetta fez uma pausa para repensar o futuro. Foi como se tivesse feito uma lista de prós e contras, de qualidades e defeitos, de objetivos e sonhos para descobrir que caminho devia seguir.

 

Vonetta Flowers tinha um grande talento: a velocidade. Podia não ser suficiente para estar entre a elite norte-americana nos Jogos Olímpicos de verão, mas talvez pudesse ser aplicado com sucesso noutro meio, num onde pudesse ser melhor e alcançar outro tipo de sonhos.

 

Foi assim que se mudou para o bobsleigh. O processo de aprendizagem foi natural mas Vonetta conseguiu explorar da melhor forma as suas qualidades. Não era habitual haver atletas afro-americanos na modalidade mas, lá está, Vonetta vinha de um meio em que os afro-americanos eram obrigados a quebrar barreiras para alcançar todos os sonhos. Inclusive um aparentemente tão simples como votar.

 

Salt Lake City-2002

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Vonetta tem uma vida de barreiras superadas. Foi, por exemplo, a primeira da família a ir para a faculdade. Foi também uma das primeiras a convencer-se pelo novo programa de recrutamento que tentava atrair atletas da velocidade para o bobsleigh.

 

Tudo começou em 2000, já depois dos apuramentos falhados para os Jogos Olímpicos de Atlanta-1996 e Sydney-2000. Vonetta fez dupla de principiante com Bonny Warner e desde logo deu nas vistas. Os Jogos Olímpicos de inverno de Salt Lake City, a menos de dois anos de distância, passaram a ser um objetivo muito presente.

 

A história de Vonetta é descrita pela própria no seu site: «Em menos de um minuto e 48 segundos, lágrimas de alegria começaram a jorrar dos olhos das pessoas do Alabama por causa de uma jovem mulher de Birmingham que se tinha atrevido a tentar um desporto invulgar e deixado uma marca inesquecível ao tornar-se a primeira atleta de origem africana a vencer uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Inverno».

 

O sucesso, alcançado na prova em que fez dupla com Jill Bakken, e terminou com a subida ao lugar mais alto do pódio, foi o culminar de uma evolução estratosférica polvilhada com inúmeras dificuldades, naturais para quem tinha entrado na modalidade apenas 18 meses antes.

 

Tudo a correr, como Vonetta sabia fazer melhor do que ninguém.

RPS